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Linguística

textual

Sequências
textuais
Linguística textual
Sequências textuais

Sequências textuais:

são unidades textuais com uma estrutura interna específica,


superiores ao enunciado e inferiores ao texto; são dotadas de
alguma autonomia, mas relacionam-se entre si para formar um
todo coeso e coerente.

Apesar de poderem ser interrompidas por outras sequências (ou


mesmo não estarem completas), é possível identificá-las pelas suas
propriedades específicas.

Um texto é incluído num determinado género em função do


tipo de sequência textual predominante – narrativa,
descritiva, dialogal, explicativa ou argumentativa. Ocorrem
em textos literários e não literários.
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Sequências textuais

Estrutura Marcas linguísticas

Narrativa:
sequência estruturada no • situação inicial – localização no • predomínio de tempos do
eixo do tempo, numa tempo e no espaço e introdução Passado
progressão causal; de personagens
na literatura, corresponde à • expressões de localização
estrutura de construção da • sucessão causal de eventos no temporal e espacial
intriga (início, nó, desenlace); tempo − evento desencadeante-
também presente em textos reação-resolução • estruturas de introdução e
não literários (textos retoma dos referentes
expositivos em que a • situação final – estado do (associados às diversas
informação é apresentada mundo após os eventos narrados personagens)
cronologicamente, como uma (resolução final da intriga),
biografia, uma notícia, uma ausente nas narrativas abertas • articuladores discursivos de
reportagem, etc.) conexão temporal e causal
• Avaliação / moral (opcional)
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Exemplo

Dobrada à moda do Porto, Álvaro de Campos:


«Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Situação inicial

Serviram-me o amor como dobrada fria.


Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente, Sucessão causal de
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. eventos − as relações
causais e temporais são
Impacientaram-se comigo. dadas de forma
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. implícita; os eventos
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, são apresentados na
E vim passear para toda a rua. ordem cronológica
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Exemplo

Quem sabe o que isto quer dizer?


Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,


Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Avaliação em forma
Sei isso muitas vezes, de interrogação
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.»
Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa, Ática, 1944
(imp. 1993) (disponível em http://arquivopessoa.net/textos/2201).
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Estrutura Marcas linguísticas

Descritiva: • caracterização de um • verbos copulativos e estativos,


sequência estruturada no referente por enumeração das em formas verbais do presente ou
eixo do espaço suas propriedades físicas ou do imperfeito
psicológicas, relacionando-o, • estruturas de modificação
eventualmente, com outros nominal (adjetivos, orações
referentes (metáfora e relativas)
metonímia); caracterização de • advérbios de grau e de modo
partes desse referente • relações meronímicas (parte-
todo)
• vocabulário expressivo (e apelo
aos sentidos)
• articuladores discursivos aditivos
e enumerativos
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Exemplo

Dá a surpresa de ser

«Dá a surpresa de ser. Introdução vaga do referente:


É alta, de um louro escuro. um ser − uma mulher, como se
Faz bem só pensar em ver percebe pela descrição
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem


(Se ela estivesse deitada) Relação com outros
Dois montinhos que amanhecem referentes − comparação
Sem ter que haver madrugada. metafórica
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Exemplo

E a mão do seu braço branco


Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
Apetece como um barco. Relação com outros
Tem qualquer coisa de gomo. referentes − comparação
Meu Deus, quando é que eu embarco? metafórica
Ó fome, quando é que eu como?»

Fernando Pessoa, Poesias (nota explicativa de João Gaspar Simões e


Luiz de Montalvor), Lisboa, Ática, 1942 (15ª ed. 1995)
(disponível em http://arquivopessoa.net/textos/130).
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Estrutura Marcas linguísticas

Dialogal: • abertura • formas de tratamento


dois ou mais interlocutores
interagem, trocando ideias, • enunciados alternados entre os • saudações e despedidas
sentimentos; falantes numa estrutura
é a sequência usada no pergunta/pedido-resposta- • elementos deíticos
discurso direto e no avaliação
discurso indireto livre; os • elementos típicos da oralidade
enunciados em si podem • fecho
ter estrutura descritiva, • expressões de cedência e retoma
narrativa, explicativa ou da palavra
argumentativa
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Exemplo

«O viajante trepou os intérminos degraus, parecia incrível ter de


subir tanto para alcançar um primeiro andar, é a ascensão do
Everest, proeza ainda sonho e utopia de montanheiros, o que lhe
valeu foi ter aparecido no alto um homem de bigodes com uma
palavra animadora, upa, não a diz, mas assim pode ser traduzido
o seu modo de olhar e debruçar-se do alcandorado patamar, a
indagar que bons ventos e maus tempos trouxeram este
hóspede, [A Boas tardes, senhor,] [B Boas tardes], não chega o Abertura
fôlego para mais, o homem de bigodes sorri
compreensivamente, [B Um quarto], e o sorriso agora é de quem
pede desculpa, [A não há quartos neste andar, aqui é a
recepção, a sala de jantar, a sala de estar, lá para dentro
cozinha e copa, os quartos ficam em cima, por isso vamos ter Enunciados alternados
de subir ao segundo andar, este aqui não serve porque é entre A e B
pequeno e sombrio, este também não porque a janela dá para
as traseiras, estes estão ocupados], [B Gostava era de um Pedidos/perguntas
quarto de onde pudesse ver o rio], [A Ah, muito bem, então vai
gostar do duzentos e um, ficou livre esta manhã, mostro-lho Respostas
já].
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Exemplo

[…] Então pareceu-lhe que passara muito tempo desde que


deixara o táxi, se ainda lá estaria, e interiormente sorriu do seu
medo de ser roubado, [A Gosta do quarto], perguntou o gerente, Enunciados alternados
com voz e autoridade de quem o é, mas blandicioso como entre A e B
compete ao negócio de alugador, [B Gosto, fico com ele], [A E vai
ser por quantos dias], [B Ainda não sei, depende de alguns
assuntos que tenho de resolver, do tempo que demorem].
É o diálogo corrente, conversa sempre igual em casos assim, mas Pedidos/perguntas
neste de agora há um elemento de falsidade, porquanto o
viajante não tem assuntos a tratar em Lisboa, nenhum assunto Respostas
que tal nome mereça, disse uma mentira, ele que um dia
afirmou detestar a inexatidão.»

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 21ª ed.,


Alfragide, Editorial Caminho, 2013, pp. 20-22.
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Estrutura Marcas linguísticas

Explicativa: • linguagem objetiva e assertiva

um locutor especialista • constatação inicial – apresentação • vocabulário técnico e científico


num assunto explica um do fenómeno incontestável
determinado fenómeno • predomínio de verbos no presente com
valor genérico
ou situação; o tema não • problematização/questionamento
é alvo de polémica; tem, – (Como? Porquê?)
• ausência de expressões avaliativas e de
sobretudo, função marcas de subjetividade (inexistência de
informativa ou didática • resolução/resposta – razões que expressões de modalidade apreciativa)
(típicas de textos explicam o fenómeno, em relações
técnico-científicos, de causa/efeito • verbos na 3ª pessoa e construções
didáticos, ou mesmo impessoais
publicitários), mas • conclusão/avaliação: reformulação
ocorre também em da constatação inicial, clarificando o • encadeamento lógico reforçado por
textos literários fenómeno problematizado articuladores discursivos diversos
(sequência, causa, consequência,
explicitação, confirmação, conclusão, etc.)
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Exemplo

«Tenho uma cadela fox, não pura, que já teve duas criações, e em Constatação inicial –
qualquer delas foi sempre apanhada a comer os filhos, não escapou apresentação do fenómeno
nenhum, inquestionável

diga-me senhor redator o que devo fazer, Problematização – A que se


deve (implícita)? Como evitar?
O canibalismo das cadelas, prezado leitor e consulente, é no geral
devido ao mau arraçoamento durante a gestação, com insuficiência de Resposta – causa
carne,

deve-se-lhe dar comida em abundância, em que a carne entre como


base, mas a que não faltem o leite, o pão e os legumes, enfim, uma Resposta – como evitar
alimentação completa,

se mesmo assim não lhe passar a balda, não tem cura, mate-a ou não a
Conclusão / Avaliação
deixe cobrir, que se avenha com o cio, ou mande capá-la.»

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 21ª ed., Alfragide, Editorial Caminho, 2013, p. 36.
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Marcas linguísticas (da sequência argumentativa e


Estrutura do texto em que esta sequência é a dominante)
• verbos que transmitem relações de causa-efeito
Argumentativa: os enunciados são (causar, provocar, motivar, originar, levar a, etc.)
organizados sob a forma
o locutor parte de um de um argumento, • verbos que exprimem opinião e crença (considerar,
fenómeno polémico e podendo partir dos alegar, afirmar, etc.)
apresenta o seu dados para a conclusão
ponto de vista, ou da conclusão para os • expressões de modalidade deôntica e epistémica
organizando de dados que a (incluindo modos verbais)
forma lógica o seu fundamentam (muitas
raciocínio; tem como vezes, algumas • presente e futuro do indicativo, com valor intemporal e
objetivo persuadir o premissas ou a hipotético, respetivamente
interlocutor conclusão podem estar
(presente sobretudo implícitas): • expressões que envolvem os interlocutores no
em textos de opinião, raciocínio – uso de pronomes e vocativos, perguntas
apreciações críticas, tese anterior (opcional) retóricas
trabalhos
académicos, premissas (dados) • forte presença de articuladores discursivos
discursos e debates diversificados, que organizam as premissas e explicitam a
políticos e textos inferências relação lógica de inferência (por dedução ou abdução)
publicitários, mas entre as premissas e a conclusão (enumeração,
também em textos sequência, consequência, causa, concessão, explicitação,
literários) conclusão confirmação, condição, conclusão, etc.)
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Exemplo

«Pois eu faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão que ardeu,
depois construí outro que subiu até ao teto duma sala do paço, enfim
outro que saiu por uma janela da Casa da Índia e ninguém tornou a ver
[…]

Padre Bartolomeu Lourenço, eu destas coisas não entendo, fui homem


do campo, soldado deixei de ser,

e não creio que alguém possa voar Conclusão

sem lhe terem nascido asas,


Premissa
quem o contrário disser, entende tanto disso como de lagares de azeite,
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Exemplo

Esse gancho que tens no braço não o inventaste tu, foi preciso
Premissa
que alguém tivesse a necessidade e a ideia, que sem aquela
esta não ocorre, juntasse o couro e o ferro,

e também estes navios que vês no rio, houve um tempo em Premissa


que não tiveram velas, e outro tempo foi o da invenção dos
remos, outro o do leme,

e, assim como o homem, bicho da terra, se faz marinheiro por Conclusão


necessidade, por necessidade se fará voador, […]»
NOTA: por se tratar de um diálogo em que
um dos intervenientes é uma pessoa
José Saramago, Memorial do Convento, 2ª ed., Alfragide, simples (como o próprio assume), não há
Editorial Caminho, 2013, pp. 81-83. uma forte presença de expressões modais
nem de articuladores discursivos, sendo as
relações condicionais e causais dadas de
forma implícita e a modalidade é expressa
apenas através dos modos verbais.