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CARTAS À GUINÉ-BISSAU

Coleção O MUNDO, HOJE


Vol. 22
Ficha catalográfica
(Preparado pelo Centro de catalogação-na-fonte do
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ)

Freire, Paulo
F934c Cartas à guiné-Bissau: registros de uma experiência em
Processo. 2ª ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
173p. ilust. (O Mundo, hoje, v. 22)

1.Alfabetização 2.Alfabetização – Guiné-Bissau


3.educação de Adultos 4.Educação de adultos –
teoria, métodos, etc. I.título II.Série

CDD – 374-02
379.24096657
CDU – 371.3:374.7+376.76(665.7)
77-0349

EDITORA PAZ E TERRA


Conselho editorial
Antonio Candido
Celso Furtado
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso

PAULO FREIRE
CARTAS À GUINÉ-BISSAU
REGISTROS DE UMA
EXPERIÊNCIA EM PROCESSO

2.ª Edição

Paz e Terra

© World Council of Churches, 1977


Capa: Jayme Leão
Diagramação: Mario Roberto da Silva
Foto da Capa: R.Ribeiro

Direitos desta edição reservados à


EDITORA PAZ E TERRA S.A.
Rua André Cavalcanti, 86
Fátima, Rio de Janeiro

1978
_____________
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
A Amílcar Cabral, educador-educando de seu povo

“ Posso ter minha opinião sobre muitos temas, sobre a maneira


de organizar a luta; de organizar um partido; uma opinião que se
formou em mim, por exemplo, na Europa, na Ásia, ou ainda em
outros países da África, a partir de livros, de documentos, de
encontros que me influenciaram. Não posso porém pretender
organizar um partido, organizar a luta, a partir de minhas idéias.
Devo fazê-lo a partir da realidade concreta do país.”

Amílcar Cabral
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 9
Primeira parte............................................................................................................ 9
PRIMEIRO MOMENTO.......................................................................................... 15
SEGUNDO MOMENTO.......................................................................................... 30
TERCEIRO MOMENTO ......................................................................................... 34
Segunda Parte ......................................................................................................... 37
Post scriptum ........................................................................................................... 63
CARTAS À GUINE-BISSAU ................................................................................. 82
Carta a Mário Cabral (26.1.1975) ................................................................... 84
Carta a Mário Cabral (abril, 1975) .................................................................. 86
Carta a Mário Cabral (28.7.1975) ................................................................... 87
Carta a Mário Cabral (agosto, 1975).............................................................. 95
Carta a Mário Cabral (outubro, 1975) ........................................................... 96
Carta a Mário Cabral (26.11.1975)................................................................. 97
Carta n°1 a equipe (26.11.1975) .................................................................... 99
Carta a Mário Cabral (6.12.1975) ................................................................. 107
Carta n°2 a equipe (6.12.1975)..................................................................... 108
Carta a Mário Cabral (5.1.1976) .................................................................... 110
Carta n°3 a equipe (5.1.1976) ....................................................................... 111
Carta a Mário Cabral (3.2.1976) .................................................................... 131
Carta n°4 a equipe (3.2.1976) ....................................................................... 132
Carta a Mário Cabral (abril, 1976) ................................................................ 137
Carta n°5 a equipe (abril, 1976).................................................................... 138
Carta a Mário Cabral (7.5.1976) .................................................................... 152
Carta n°6 a equipe (primavera, 1976)........................................................ 154
Última página......................................................................................................... 161
A. Escola em uma zona libertada. Período da luta de libertação.
(Publicação autorizada pelo Comissariado de Informação e
Turismo da República da Guine-Bissau)
INTRODUÇÃO

Primeira parte

(A) Esta introdução pretende ser, sobretudo, uma carta-relatório


que faço aos prováveis leitoras e leitores deste livro, tão informal
quanto as que o compõem. Nela, como se estivesse conversando,
tentarei, tanto quanto possível, ir fixando este ou aquele aspecto
que me tem marcado em minhas visitas de trabalho à Guiné-Bissau,
até bem pouco aviltantemente chamada pelos colonialistas
portugueses de “província de ultramar”. Nome pomposo com que
procuravam mascarar sua presença invasora naquelas terras e a
exploração desenfreada de seu povo.
Meu primeiro encontro com a África não se deu, porém, com a
Guiné-Bissau, mas com a Tanzânia, com a qual me sinto, por vários
motivos, estreitamente ligado.
Faço esta referência para sublinhar quão importante foi, para mim,
pisar pela primeira vez o chão africano e sentir-me nele como quem
voltava e não como quem chegava. Na verdade, na medida em que,
deixando o aeroporto de Dar es Salaam, há cinco anos passados,
em direção ao “campus” da universidade, atravessava a cidade, ela
ia se desdobrando ante mim como algo que eu revia e em que me
reencontrava. Daquele momento em diante, as mais mínimas coisas
– velhas conhecidas – começaram a falar a mim, de mim. A cor do
céu, o verde-azul do mar, os coqueiros, as mangueiras, os
cajueiros, o perfume de suas flores, o cheiro da terra; as bananas,
entre elas a minha bem amada banana-maçã; o peixe ao leite de
coco; os gafanhotos pulando na grama rasteira; o gingar do corpo
das gentes andando nas ruas, seu sorriso disponível à vida; os
tambores soando no fundo das noites; os corpos bailando e, ao
fazê-la, “desenhando o mundo”, a presença, entre as massas
populares, da expressão de sua cultura que os colonizadores não
conseguiram matar, por mais que se esforçassem para fazê-lo, tudo
isso me tomou todo e me fez perceber que eu era mais africano do
que pensava.
Naturalmente, não foram apenas estes aspectos, para alguns
puramente sentimentalistas, na verdade, contudo, muito mais do
que isto, que me afetaram naquele encontro que era um reencontro
comigo mesmo.
Teria muito o que dizer das impressões que venho tendo e do
aprendizado que venho fazendo nas sucessivas visitas que tenho
feito à Tanzânia. Não é este, contudo, o meu objetivo, ao referir-me
agora a este pais a que me sinto tão ligado. Falei da Tanzânia para
salientar, como disse antes, o quanto me foi importante pisar o
chão africano e sentir-me nele como quem voltava e não como
quem chegava.
Este sentir-me em casa, no chão africano, se repetiu, em
certos aspectos, de maneira ainda mais acentuada, quando, em
setembro do ano passado, visitei, com a equipe do Instituto de Ação
Cultural – IDAC – pela primeira vez, a Guiné-Bissau. Poderia dizer:
quando “voltei” à Guiné-Bissau.
Nesta introdução, falarei do que vem representando, não só
para mim, mas para os que, em equipe, participamos da rica e
desafiante experiência em que, no campo da educação em geral e,
particularmente, no da educação de adultos, trabalhamos com
educadores e educandos guineenses e não sobre ou simplesmente
para eles.
Creio, porém, que antes de fazê-lo devo dizer duas palavras,
tentando explicar a razão que me leva a publicar agora, e não mais
tarde, as poucas cartas que até este momento escrevi ao
Comissário de Educação e à Comissão Coordenadora dos trabalhos
de alfabetização em Bissau. A intenção fundamental é a de oferecer
aos leitores e às leitoras, através delas, precedidas desta
introdução, uma visão mais ou menos dinâmica das atividades que
se estão desenvolvendo naquele país e alguns dos problemas
teóricos que elas suscitam. Daí o título do livro: Cartas à Guiné-
Bissau – registros de uma experiência em processo.
Entre publicar um livro, em dois ou três anos mais, uma
espécie de relatório final dos trabalhos hoje em curso, e revelar a
experiência em pleno andamento, preferi a segunda hipótese.
Gostaria de afirmar, porém, que se outra publicação vier a fazer,
como espero, sobre a mesma experiência, já não será constituída
pelas cartas que continuarei a escrever. E que prefiro sentir-me, ao
redigir as futuras cartas, tão espontâneas – e não neutro – quanto
me senti ao redatar as que ora publico. E esta espontaneidade – e
não neutralidade – poderia ser prejudicada se, ao escrever as
futuras cartas, eu me soubesse trabalhando num segundo volume
de cartas à Guiné-Bissau.
Dada esta explicação, comecemos a falar, sem muita
preocupação didática, em torno das atividades na Guiné. Ao fazê-lo,
gostaria de sublinhar a satisfação com que recebemos, os que
fazemos o Departamento de Educação do Conselho Mundial de
Igrejas e a equipe do IDAC, na primavera do ano passado, o convite
oficial do governo daquele país através do Comissariado de
Educação para, em uma primeira visita, discutir as bases de nossa
colaboração, no campo da alfabetização de adultos.
Não nos era estranha, de modo algum, a luta em que o povo
da Guiné-bissau e Cabo Verde, sob a liderança extraordinária de
Amílcar Cabral e de seus camaradas do PAIGC*, se tinha
empenhado para a expulsão do colonizador português.
Sabíamos o que havia significado essa luta, enquanto forjadora da
consciência política de grande parte do povo, bem como da de sua
liderança, e enquanto também um dos fundamentais fatores que
explicam o 25 de Abril em Portugal.
Sabíamos que iríamos trabalhar não com intelectuais “frios” e
“objetivos” ou com especialistas “neutros”, mas com militantes
engajados no esforço sério de reconstrução. de seu país. De
reconstrução, digo bem, porque a Guiné-Bissau não parte de zero,
mas de suas fontes culturais e históricas, de algo de bem seu, da
alma mesma de seu povo, que a violência colonialista não pôde
matar. De zero ela parte, com relação às condições materiais em
que a deixaram os invasores quando, já derrotados política e
*
Partido Africano para a independência aa Guiné e Cabo Verde
militarmente, numa guerra impossível, tiveram de abandoná-la
definitivamente após o 25 de Abril, com um legado de problemas e
de descaso que diz bem do “esforço civilizatório” do colonialismo.
Dai a satisfação com que recebemos o convite: o de poder
participar, mesmo com um mínimo, da resposta ao desafio que tal
reconstrução coloca.
Sabíamos que tínhamos algo com que contribuir para a
resposta àquele desafio. Se não o tivéssemos, não se explicaria a
aceitação do convite. Mas, fundamentalmente, sabíamos que a
ajuda que nos pediam só seria verdadeira na medida em que, em
seu processo, jamais pretendêssemos ser os exclusivos sujeitos
dela, reduzindo, assim, os nacionais que a solicitavam, a puros
objetos da mesma. A ajuda autêntica, não é demais insistir, é
aquela em cuja prática os que nela se envolvem se ajudam
mutuamente, crescendo juntos no esforço comum de conhecer a
realidade que buscam transformar. Somente numa tal prática, em
que os que ajudam e os que são ajudados se ajudam
simultaneamente, é que o ato de ajudar não se distorce em
dominação do que ajuda sobre quem é ajudado. Por isso é que não
há real ajuda entre classes dominantes e classes dominadas nem
entre as “sociedades imperiais” e as chamadas sociedades
dependentes, de fato, dominadas, na compreensão de cujas
relações não se pode prescindir da análise de classe.
Por isso é que, só enquanto militantes, jamais como
especialistas “neutros”, membros de uma missão estrangeira de
assistência técnica, poderíamos, na verdade, prestar nossa
colaboração, por mínima que fosse. A nossa opção política e a nossa
prática em coerência com ela nos proibiam de pensar, sequer, que
poderíamos elaborar, em Genebra, um projeto de alfabetização de
adultos, elegantemente redigido, com seus 1¹,1²,2¹,2² a ser levado
por nós à Guiné-Bissau, como uma dádiva generosa. Este projeto,
pelo contrário – como as próprias bases de nossa colaboração –,
teria de nascer lá, pensado pelos educadores nacionais em função
da prática social que se dá no país. Nossa colaboração ao desenho
do projeto e à posta em prática do mesmo dependeria de nossa
capacidade de conhecer melhor a realidade nacional, aprofundando
o que já sabíamos em torno da luta pela libertação, das
experiências realizadas pelo PAIGC nas antigas zonas libertadas,
através da leitura de todo o material que pudéssemos recolher,
privilegiando a obra de Amílcar Cabral. Estudos que, realizados em
Genebra, seriam completados no terreno, quando de nossa primeira
visita ao país, e continuados nas subseqüentes visitas, no caso em
que se definisse a nossa colaboração em termos mais ou menos
prolongados. subseqüentes visitas em que, sobretudo, pensaríamos,
com os educadores nacionais, a sua própria prática, em seminários
de verdadeira avaliação. Partíamos, pois, de uma posição radical: a
da recusa a qualquer tipo de solução "empacotada” ou pré-
fabricada; a qualquer tipo de invasão cultural, clara ou
manhosamente escondida.
A nossa opção política e a nossa prática em coerência com ela
nos proibiam, também, de pensar sequer que nos seria possível
ensinar aos educadores e aos educandos da Guiné-Bissau sem com
eles aprender. Se toda dicotomia entre ensinar e aprender, de que
resulta que quem ensina se recusa a aprender com aquele ou
aquela a quem ensina, envolve uma ideologia dominadora, em
certos casos, quem é chamado a ensinar algo deve a render
primeiro ara, em seguida, começando a ensinar, continuar a
aprender.
Uma experiência como esta – a de aprender primeiro para,
ensinando depois, continuar a aprender – tínhamos tido,
particularmente Elza e eu, no Chile, quando e onde, ao travar os
primeiros encontros com educadores chilenos, escutávamos mais do
que falávamos e, quando falávamos, era para descrever a prática
que tivéramos no Brasil, com suas negatividades e suas
positividades e não para prescrevê-la aos educadores chilenos. Foi
aprendendo com eles, com os trabalhadores dos campos e das
fábricas, que nos foi possível ensinar também. Se algo que
fizéramos no Brasil repetimos tal qual no Chile, foi exatamente não
separar, de um lado, o ato de ensinar do de aprender; de outro,
não tentar superpor ao contexto chileno o que havíamos feito de
maneira distinta nos diferentes contextos brasileiros. Na verdade,
as experiências não se transplantam, se reinventam. Porque, disto
convencidos, uma de nossas preocupações básicas, permanentes,
durante todo o tempo em que nos preparávamos, em equipe, para
a primeira visita à Guiné-Bissau, foi a de nos vigiar quanto à
tentação de superestimando este ou aquele aspecto desta ou
daquela experiência de que antes participáramos, pretender
emprestar-lhes validade universal. Daí que a análise, de resto
indispensável, das experiências anteriores, como a de experiências
realizadas por outros em contextos distintos, fosse feita com vistas
a uma compreensão cada vez mais critica do caráter político e
ideológico da alfabetização de adultos, em particular, da educação
em geral; das relações entre a alfabetização e a pós-alfabetização
de adultos (da educação em geral) com a produção, com os
objetivos contidos no projeto global da sociedade; das relações
entre a alfabetização e o sistema de educação do país.
Compreensão crítica do papel que poderia ter a alfabetização de
adultos numa sociedade como a guineense, cujo povo direta e
indiretamente tinha sido tocado pela guerra de libertação, "um fato
cultural e um fator de cultura”, na expressão de Amílcar Cabral, e
cuja consciência política tinha sido partejada pela luta mesma. Um
povo que, apresentando um alto índice de analfabetismo, 90%, do
ponto de vista lingüístico, é altamente “letrado” do ponto de vista
político, ao contrário de certas “comunidades” sofisticadamente
letradas, mas grosseiramente “analfabetas” do ponto de vista
político.
Esta sim, durante todo o tempo em que nos preparamos para a
primeira visita ao país, foi uma temática sempre presente em
nossos seminários, em que jamais tivemos um coordenador oficial.
Temática igualmente presente nas preocupações de cada um de
nós, individualmente, nas horas dedicadas à reflexão em torno de
nossa contribuição à Guiné-Bissau. Dai que jamais nos tenhamos
detido no estudo de métodos e de técnicas de alfabetização de
adultos em si mesmos, mas no estudo deles e delas enquanto a
serviço de e em coerência com uma certa teoria do conhecimento
posta em prática, a qual, por sua vez, deve ser fiel a uma certa
opção política. Neste sentido, se a opção do educador é
revolucionária e se sua prática é coerente com sua opção, à
alfabetização de adultos, como ato de conhecimento, tem, no
alfabetizando, um dos sujeitos deste ato. Desta forma, o que se
coloca a tal educador é a procura dos melhores caminhos, das
melhores ajudas que possibilitem ao alfabetizando exercer o papel
de sujeito de conhecimento no processo de sua alfabetização. O
educador deve ser um inventor e um reinventor constante desses
meios e desses caminhos com os quais facilite mais e mais a
problematização do objeto a ser desvelado e finalmente apreendido
pelos educandos. Sua tarefa não é a de servir-se desses meios e
desses caminhos para desnudar, ele mesmo, o objeto e depois
entregá-lo, paternalisticamente, aos educandos, a quem negasse o
esforço da busca, indispensável ao ato de conhecer. Na verdade,
nas relações entre o educador e os educandos, mediatizados pelo
objeto a ser desvelado, o importante é o exercício da atitude crítica
em face do objeto e não o discurso do educador em torno do
objeto. E mesmo quando, nestas relações, em que educador e
educandos, curiosos, se acercam ao objeto de sua análise, os
segundos necessitam de alguma informação, indispensável ao
prosseguimento da análise, pois que conhecer não é adivinhar, a
informação deve ser precedida de certa problematização. Sem
esta, a informação deixa de ser um momento fundamental do ato
de conhecimento para ser a transferência que dele faz o educador
aos educandos.
Esta é uma das razões por que, desde os começos de minha
busca, no campo da alfabetização de adultos, procurei superar as
cartilhas*. As cartilhas enfatizem-se, e não outros materiais que
pudessem ajudar os alfabetizandos no exercício de fixação e de
aprofundamento de seus achados. Achados que fossem fazendo no
domínio da língua, quando, a serem postas as palavras geradoras,
começassem a criar outras tantas, através das combinações
silábicas. Em defesa desses materiais, sim, sempre estive.
Materiais que reforçassem seu aprendizado, enquanto ato criador.
Isto não é, infelizmente, o que ocorre com as cartilhas, mesmo
com aquelas cujos autores, esforçando-se ao máximo em ir mais
além do caráter doador que têm as mesmas, oferecem aos
alfabetizandos algumas oportunidades para que eles também criem
palavras e pequenos textos.
Na verdade, grande parte do esforço a ser realizado pelos
alfabetizandos, sobretudo no momento de criação de suas palavras,
se encontra feito, nas cartilhas, pelo seu autor ou por sua autora.
Neste sentido, em lugar de estimular, nos alfabetizandos, a
curiosidade, as cartilhas reforçam neles a atitude passiva, receptiva,
o que contradiz o caráter criador do ato de conhecer.
Parece-me que este é um dos problemas que uma sociedade
revolucionária deve se pôr no campo da educação enquanto ato de

*
A este propósito, ver Paulo Freire – Educação como Prática da Liberdade e
Ação
Cultural para a Liberdade e outros escritos, Paz e Terra, Rio.
conhecimento. O do papel criador e recriador, o da re-invenção que
o ato de conhecer demanda de seus sujeitos O da curiosidade
diante do objeto, qualquer que seja o momento do ciclo
gnosiológico em que estejam, o em que se busca conhecer o
conhecimento existente ou o em que se procura criar o novo
conhecimento. Momentos, de resto, indicotomizáveis. A separação
entre esses momentos reduz, de modo geral, o ato de conhecer o
conhecimento existente à sua pura transferência “burocrática”. A
escola, não importa o seu nível, se transforma em "mercado de
saber”; o professor, num especialista sofisticado, que vende e
distribui um "conhecimento empacotado”; o aluno, no cliente que
compra e "come” este conhecimento.
Se o educador, pelo contrário, não é levado a "burocratizar-se”
neste processo, mas a manter viva a sua curiosidade, re-desvela o
objeto no desvelamento que dele vão fazendo os educandos e,
assim, não raro, percebe nele dimensões até então despercebidas.
É de fato indispensável que educadores-educandos e
educandos-educadores se exercitem constantemente na recusa à
“burocratização” que, aniquilando a criatividade, os transforma em
repetidores de clichês. Quanto mais “burocratizados” tanto mais
tendem a ficar alienadamente "aderidos” à quotidianeidade, de que
já não “tomam distancia” para compreender a sua razão de ser.
A coerência entre a opção político-revolucionária do educador e
sua prática lhe é indispensável para que evite sua “burocratização”.
Quanto mais vigilante na sua vivência desta coerência tanto mais
autenticamente militante se faz, recusando assim, também, o papel
técnico ou de especialista neutro, neste ou naquele campo.
Como militantes e não como especialistas neutros ou técnicos
frios é que aceitamos, como disse antes, o convite do governo da
Guiné-Bissau e nesta condição é que, em setembro do ano passado,
fizemos a nossa primeira visita ao país. Dai que tenhamos deixado
Genebra dispostos a ver e a ouvir; a indagar e a discutir e não
carregando conosco, em nossas valises de mão, planos salvadores
ou relatórios semi-elaborais.
Em equipe, debatêramos, em Genebra, a melhor maneira de, na
Guiné-Bissau, ver e ouvir, indagar e discutir, de que resultaria o
programa de nossa contribuição. Programa, portanto, a nascer lá,
em diálogo com os nacionais, em torno de sua realidade, de suas
necessidades e de nossas possibilidades e não em Genebra, feito
por nós para eles.
Na medida em que jamais tomamos a alfabetização de adultos
em si mesma, reduzindo-a a um puro aprendizado mecânico da
leitura e da escrita, mas como um ato político, diretamente
associado à produção, à saúde, ao sistema regular de ensino, ao
projeto global de sociedade a ser concretizado, ver e ouvir, indagar
e discutir, partindo embora do Comissariado de Educação, teriam de
prolongar-se a outros comissariados, ao Partido, incluindo as suas
organizações de massas. Daí que o nosso plano de trabalho para a
primeira visita, em Genebra simplesmente esboçado em suas linhas
gerais e, na verdade, elaborado com os nacionais em Bissau, tenha
dividido o nosso tempo no país em três momentos básicos, jamais
rigidamente separados entre si.
PRIMEIRO MOMENTO

(B) No primeiro momento, em que buscávamos ver e ouvir, indagar


e discutir entramos em contacto, em Bissau, inicialmente, com as
diferentes equipes do Comissariado de Educação e não apenas com
o recém-criado Departamento de Educação de Adultos.
Precisávamos conhecer os problemas centrais e a maneira como
vinham sendo confrontados, no campo do ensino primário e no do
secundário. Que modificações já haviam sido introduzidas no
sistema geral de ensino, herdado do colonizador, e que fossem
capazes de estimular, a pouco e pouco, a sua radical
transformação, com a criação de uma nova prática educativa, que
expressasse uma outra concepção da educação, em consonância
com o projeto da nova sociedade que o Partido e o Governo se
propõem criar com o povo.
Na verdade, a educação colonial herdada, de que um dos
principais objetivos era a “desafricanização” dos nacionais,
discriminadora, mediocremente verbalista, em nada poderia
concorrer no sentido da reconstrução nacional, pois para isto não
fora constituída. A escola colonial, a primária, a liceal, a técnica,
esta separada da anterior, antidemocrática nos seus objetivos, no
seu conteúdo, nos seus métodos, divorciada da realidade do país,
era, por isso mesmo, uma escola de poucos, para poucos e contra
as grandes maiorias. Selecionava até mesmo a pequena minoria
dos que a ela tinham acesso, expulsando grande parte deles após
os primeiros encontros com ela e, continuando a sua filtragem
seletiva, ia aumentando o número dos renegados. Renegados em
quem enfatizava o sentimento de inferioridade, de incapacidade, em
face de seu "fracasso”*.
Reproduzindo, como não podia deixar de ser, a ideologia
colonialista, procurava incutir nas crianças e nos jovens o perfil que
deles fazia aquela ideologias**. O de seres inferiores, incapazes,
cuja única salvação estaria em tornar-se "brancos” ou “pretos de
alma branca”. Daí o descaso que essa escola necessariamente teria
de ter por tudo o que dissesse de perto aos nacionais, chamados de
“nativos". Mais do que descaso, a negação de tudo o que fosse
representação mais autêntica da forma de ser dos nacionais: sua
história, sua cultura, sua língua. A história dos colonizados
"começava” com a chegada dos colonizadores, com sua presença
"civilizatoria”; a cultura dos colonizados, expressão de sua forma
bárbara de compreender o mundo. Cultura, só a dos colonizadores.
A música dos colonizados, seu ritmo, sua dança, seus bailes, a
ligeireza de movimentos de seu corpo, sua criatividade em geral,
nada disto tinha valor. Tudo isto, quase sempre, tinha de ser

*
A esse propósito, ver a crítica de Julius Nyerere à educação colonial na
Tanzânia,
em seu excelente Education for Self-reliance.
**
Ver Franz Fanon – Os Condenados da Terra; e Albert Memmi – Retrato do
Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador, Editora Paz e Terra, Rio, 1977.
2' edição.
reprimido e, em seu lugar, imposto o gosto da Metrópole, no fundo,
o gosto das classes dominantes metropolitanas.
Por tudo isto é que, para os colonizados que passaram pela
alienante experiência da educação colonial, a "positividade” desta
educação ou de alguns de seus aspectos só existe quando,
independentizando-se, a rejeitam e a superam. Quando, assumindo
com seu povo, a sua história, se inserem no processo de
“descolonização das mentes”, a que faz referência Aristides Pereira;
processo que se alonga no que Amílcar Cabral chamava de
“reafricanização das mentalidades”. E isto implica na transformação
radical do sistema educacional herdado do colonizador, o que não
pode ser feito, porém, de maneira mecânica. Envolvendo
fundamentalmente uma decisão política, em coerência com o
projeto de sociedade que se procura criar, esta transformação
radical requer certas condições materiais em que se funde, ao
mesmo tempo em que as incentive. Requer não apenas o aumento
indispensável da produção mas a sua reorientação, ao lado de uma
diferente concepção da distribuição. A clareza política na
determinação do que produzir, do como, do para que, do para quem
produzir. Transformação radical que, ao ser iniciada, mesmo
timidamente, e em função das novas condições materiais, em um
de seus principais aspectos, o da superação, por exemplo, da
dicotomia trabalho manual-trabalho intelectual, provoca,
necessariamente, resistências da velha ideologia que sobrevive,
como um dado concreto, aos esforços de criação da nova sociedade.
Aqui, obviamente, as resistências ideológicas são as mesmas
que se opõem à sobrepassagem do modo incorreto de conceber o
conhecimento como algo concluído, terminado, a que corresponde
o papel do educador, enquanto “possuidor” de tal “conhecimento
acabado”, de transferi-lo ao educando que dele carece.
Resistências, às vezes, o que é pior, não propriamente a uma
compreensão, a nível intelectual, correta, ao conhecimento, mas a
uma prática em coerência com essa compreensão. Dai que a
transformação radical do sistema educacional herdado do
colonizador exija um esforço interestrutural, quer dizer, um
trabalho de transformação ao nível da infraestrutura e uma ação
simultânea ao nível da ideologia. A reorganização do modo de
produção e o envolvimento crítico dos trabalhadores numa forma
distinta de educação, em que mais que "adestrados” para produzir,
sejam chamados a entender o próprio processo de trabalho.
Neste campo ainda, o da transformação do sistema educacional
herdado do colonizador, uma das tarefas a ser levada a cabo será a
da capacitação dos novos quadros do ensino e a da re-capacitação
dos velhos. Entre eles, sobretudo entre os segundos, haverá
aqueles e aquelas que, percebendo-se “possuídos” pela velha
ideologia, a assumem conscientemente, passando a solapar,
manhosa ou ostensivamente, a nova prática a esses e dessas nada
se pode esperar de positivo para o esforço de reconstrução
nacional. Mas haverá também aqueles e aquelas que, percebendo-
se “assumidos” pela velha ideologia, vão dela desfazendo-se na
nova prática à qual aderem. Com esses se pode trabalhar. Os
segundos são os que aceitam e cometem o “suicídio de classe”; os
primeiros, os que o recusam.
Referindo-se ao papel da pequena burguesia no quadro geral da
luta de libertação nacional, afirmou Amílcar Cabral: “Para não trair
estes objetivos (os da libertação nacional) a pequena burguesia
não tem mais que um caminho: reforçar sua consciência
revolucionária, repudiar as tentativas de aburguesamento e as
solicitações naturais de sua mentalidade de classe, identificar-se
com as classes trabalhadoras, não se opor ao desenvolvimento
normal do processo da revolução.
Isto significa que, para cumprir perfeitamente o papel que lhe
cabe na luta de libertação nacional, a pequena burguesia
revolucionária deve ser capaz de se suicidar como classe para
ressuscitar como trabalhadora revolucionária, inteiramente
identificada com as aspirações mais profundas do povo a que
pertence.
Esta alternativa, prossegue Cabral, – trair a Revolução ou se
suicidar como classe – constitui a opção da pequena burguesia no
quadre geral da luta de libertação nacional"*.
Esta alternativa continua de pé, em todos os campos de
atividade, hoje, na luta pela reconstrução nacional, que é o
prolongamento daquela.
As discussões em torno da alfabetização de adultos não
poderiam prescindir de outras tantas a propósito destes problemas,
aqui, apenas, sumariamente referidos. Isto não significa,
obviamente, que as atividades no setor da alfabetização de adultos
s6 devessem começar após a transformação radical do sistema
educacional herdado do coloniza-dor. Significa, porém, que a
transformação radical de tal sistema – e não sua pura reforma –
deve ser um objetivo que se persiga de maneira cada vez mais
clara e mais rápidas.
O debate em torno deste problema fundamental – o do sistema
educacional enquanto herança colonial – nos teria necessariamente
de levar, em nossa conversa com as equipes do Comissariado de
Educação, à análise de uma outra herança – a da guerra de
libertação. Herança representada no acervo de excelentes
experiências lideradas pelo PAIGC nas então chamadas zonas
libertadas do pais, no setor da produção, da distribuição, com os
"armazéns do povo”, no da justiça, no da saúde, no da educação.
Era preciso saber, sobretudo, como as equipes nacionais, ao
preocupar-se com a transformação do sistema herdado do
colonizador, viam a herança da guerra. É que, na verdade, o novo
sistema a surgir não poderá ser uma síntese feliz das duas
heranças, mas o aprofunda-mento em todos os aspectos melhorado
do que se fez nas zonas libertadas, em que uma educação
eminentemente popular e não elitista se desenvolveu. ** Em que,

*
Amílcar Cabral – Unité et Lutte I, L'arme de la théorie, Cahiers Libres –
Maspéro – Paris. 1975, págs. 302-303.
**
“Este trabalho educativo no interior do país obteve resultados importantes,
escolarizando grande número de crianças a partir dos 10 anos. (Dadas as
condições de guerra era esta a idade mínima para a admissão na instrução
tomada nas mãos da população, tanto quanto esta se deu às tarefas
de apoio aos guerrilheiros, uma escola de trabalho, ligada à
produção e preocupada com a formação política dos educandos,
nasceu cm resposta às exigências mesmas da luta de libertação e
em que as crianças tinham de aprender, inclusive, como sobreviver
aos ataques devastadores dos aviões inimigos.
Uma educação que, expressando, de um lado, o clima de
solidariedade que a luta provocava, de outro, o estimulava e que,
encarnando o presente dramático da guerra, buscava o reencontro
com o autêntico passado do povo e se dava a seu futuro.
Aqui, como em todas as dimensões do processo de libertação,
na Guiné-Bissau, se percebe a visão profética de Amílcar Cabral, a
sua capacidade de analisar a realidade do país, de jamais negá-la,
de partir sempre dela como estava sendo e não como ele gostaria
que ela
fosse, de denunciar, de anunciar.Denúncia e anúncio, porém,
jamais estiveram, em Amílcar Cabral, dissociados, como também
jamais fora da práxis revolucionária. A denúncia da realidade
opressora, da espoliação, da farsa colonialista, que procurava
mascarar aquela a espoliação, bem como o anuncio a nova
sociedade, constituindo-se no seio mesma da velha, através da
transformação revolucionária, ele sempre fez,com seus camaradas,
na prática da luta. Enquanto um homem que viveu plenamente a
coerência entre sua opção política e sua prática, a palavra, em
Cabral, era sempre a unidade dialética entre ação e reflexão,
prática e teoria. Daí que nunca se tenha deixado tentar, de um
lado, pelo blábláblá; de outro, pelo ativismo.
A sua clareza política, a coerência entre sua opção e sua prática,
estão na raiz tanto de sua recusa ao espontaneismo como de sua
rejeição à manipulação. Nem as massas populares, atomizadas,
entregues a si mesmas, marchando ao gosto dos acontecimentos,
sem um partido revolucionário e uma vanguarda que esclareçam,
que mobilizem, que organizem, que orientem, nem tampouco uma
vanguarda “proprietária” das massas populares. Nem licenciosidade
nem autoritarismo burocrático. Nem a vanguarda atrás das massas
populares, perdendo-se na “poeira” que estas fazem; nem

primária. No ano letivo de 1971 - 1972 o PA IGC tinha nas zonas libertadas um
total de 164 escolas, onde 258 professores ensinavam a 14.531 alunos).
Posteriormente, os melhores alunos eram selecionados para freqüentarem os
internatos do Partido, instalados nos países limítrofes, no âmbito do Instituto da
Amizade. Além disso, o PAIGC, tendo em conta as exigências da reconstrução
nacional e não obstante as condições da luta armada que obrigava a dedicar
muitos jovens à preparação militar, cuidou, particularmente, da formação de
quadros a nível médio e superior Para isso, contou com apoio de países amigos,
de tal maneira que durante os anos de luta um número muito maior de
guineenses atingiu os cursos superiores em comparação com o período de
ocupação portuguesa. Em 10 anos o PAIGC formou muito mais quadros que o
colonialismo em 5 séculos”. ("Em 10 anos, de 1963 a 1973, foram formados os
seguintes quadros do PAIGC: 36 com o curso superior, 46 com o curso técnico
médio, 241 com cursos profissionais e de especialização e 174 quadros políticos e
sindicais. Em contrapartida, desde 1471 até 1961, apenas se formaram 14
guineenses com curso superior e 11 ao nível do ensino técnico”). Luiza Teotônio
Pereira e Luís Motta – Guiné Bissau – 3 anos de Independência, Edição CIDAC-C,
Coleção África em Luta, Lisboa, 1976, págs. 106-107.
demasiado à frente, fazendo-as perder-se na "poeira” da
vanguarda, mas esta com aquelas, ensinando e aprendendo
mutuamente, na luta de libertação. Tal qual Guevara, tal qual Fidel,
Amílcar esteve constantemente em comunhão com seu povo, cujo
passado conhecia tão bem e em cujo presente se encontrava tão
radicalmente inserido – o presente da luta a que se deu sem
restrições. Cabral podia, assim, prever e antever. Por isso é que,
em todo hoje que ele intensamente vivia, havia sempre um sonho
possível, um viável histórico, a começar a ser forjado no hoje
mesmo.
"Nós não morremos, disse ele certa vez a militantes com quem
discutia sobre a força mágica dos amuletos, se não fazemos a
guerra ou se não atacamos o inimigo em posição de fraqueza. Se
cometemos erros, se nos encontramos em posição débil, morremos,
não há outra saída. Vocês me dirão: "Cabral não o sabe, mas temos
visto vários casos em que o amuleto é que salvou os camaradas da
morte; as balas vinham e ricocheteavam.” Vocês poderão dizê-lo;
espero, porém, que os filhos de nossos filhos, ao ouvirem tais
histórias e ao ficarem contentes por saber que o PAIGC foi capaz de
dirigir a luta de acordo com a realidade de seu país, digam
também: "nossos pais lutaram bastante, mas acreditavam em
coisas estranhas”. O que lhes digo talvez não tenha sentido agora;
falo para o amanhã...”*
Amílcar Cabral sabia que os canhões sozinhos não faziam a
guerra e que esta se resolve quando, em seu processo, a debilidade
dos oprimidos se faz força, capaz de transformar a força dos
opressores em fraqueza. Dai a preocupação constante, a paciente
impaciência com que invariavelmente se deu à formação política e
ideológica dos militantes, qualquer que fosse o nível e o setor de
sua ação. Dai a atenção especial que dedicou aos trabalhos de
educação nas zonas libertadas e também o carinho com que, antes
de ir à frente de combate, visitava as crianças das escolinhas e
compartia com elas de seus jogos e de seus brinquedos e a quem
tinha sempre uma palavra correta a dizer. Crianças a quem
costumava chamar de “flores de nossa revolução”.
Não nos surpreendeu a maneira clara como, de modo geral,
todos esses pontos foram analisados pelas equipes nacionais, com a
presença do Comissário de Educação que se sente a elas
incorporado, conscientes todos do que significa o empenho de
recriar uma sociedade. Dos obstáculos diários a enfrentar, desde a
falta dos mais mínimos materiais – uma simples máquina de
escrever – à necessidade imperiosa de formação de quadros nos
mais diferentes campos, para a posta em prática de seus projetos.
Percebemos a lúcida compreensão que o Comissário Mário
Cabral tinha da rica experiência educativa desenvolvida durante a
guerra, bem como a maneira carreta como encarava a
transformação radical do sistema educativo herdado do colonizador
que ele, contudo, sabia não poder ser superado magicamente.
Cabral sabia e o sabe cada vez melhor, em função de sua prática

*Amílcar Cabral – Obra citada, págs. 200-201.


militante à frente do Comissariado de Educação, que as relações
entre o sistema educacional e a sociedade global são dialéticas e
não mecânicas. Reconhecendo os limites da educação formal,
enquanto subsistema de um sistema maior, reconhecia também o
seu papel fundamental na formação de uma nova mentalidade em
coerência com os objetivos da nova sociedade a ser criada. Papel
fundamental, contudo, que não poderia ser cumprido se, em vez de
se tomar a prática social vigente no país, se tentasse uma educação
que correspondesse à futura sociedade, em processo de gestação.
Uma tal tentativa, rigorosamente idealista, não poderia, por isso
mesmo, ser concretizada. Daí que, por exemplo, entre fechar
bruscamente as escolas herdadas do colonizador, ao nível primário
e liceal, enquanto se reorientava o sistema educacional, ou anunciar
medidas impossíveis e introduzir, no velho sistema, reformas
fundamentais, capazes de acelerar a sua futura transformação
radical, em função das modificações que se fossem operando nas
bases materiais da sociedade, preferiu a segunda hipótese.
Neste sentido, a reformulação dos programas de Geografia, de
História e de língua portuguesa, ao lado da substituição dos textos
de leitura, carregados de ideologia colonialista, era um imperativo.
Fazia-se necessário que os estudantes guineenses estudassem,
prioritariamente, sua geografia e não a de Portugal, que
estudassem seus braços de mar, seu clima e não o Rio Tejo. Era
preciso que os estudantes guineenses estudassem,
prioritariamente, sua história, a história da resistência de seu povo
ao invasor, a da luta por sua libertação que lhe devolveu o direito
de fazer sua história, e não a história dos reis de Portugal e das
intrigas da Corte. Era preciso que os estudantes guineenses fossem
chamados não a “exercícios de moldagem em barro, do poeta cego
de um olho e coroado de louros”*, mas a participar do esforço de
reconstrução nacional. Era preciso, por isso mesmo, começar a
pensar em caminhos através dos quais fosse possível provocar,
mesmo timidamente, no início, as primeiras intimidades entre os
estudantes liceanos de Bissau e a atividade produtiva.
A "Escola ao campo”, projeto que consistia em deslocar,
temporariamente, as escolas urbanas, com seus professores e seus
estudantes, a áreas rurais, em que, vivendo em acampamentos,
participariam da atividade produtiva, aprendendo com os
camponeses e a eles algo ensinando, sem que se suprimissem as
demais atividades escolares, era um desses caminhos de que nos
Talava o Comissário Mário Cabral.
Assim é que, já no ano letivo de 1975 tinham sido iniciadas
experiências a prolongar-se, como de fato se deu, no de 1976, de
integração do trabalho produtivo às atividades escolares normais,
no intuito de combinar trabalho e estudo, de tal maneira que aquele
fosse, tanto quanto possível, constituindo-se como fonte do último,
em unidade com ele. Na medida em que essas experiências se

*
I V Centenário da Publicação d’Os Lusíadas – Comissão das Comemorações
na
Guiné. Os Lusíadas e a Guiné, Bissau, 1972.
forem sistematizando e aprofundando é possível fazer derivar da
atividade produtiva, cada vez mais, os conteúdos programáticos de
"n” disciplinas que, no sistema tradicional, são "transferidos”,
quando são, verbalistamente.
Em certo momento já não se estuda para trabalhar nem se
trabalha para estudar; estuda-se ao trabalhar. Instala-se ai,
verdadeiramente, a unidade entre a prática e teoria. Mas, insista-
se, o que a unidade entre prática e teoria elimina não é o estudo
enquanto reflexão critica (teórica) sobre a prática realizada ou
realizando-se, mas a separação entre ambas. A unidade entre a
prática e a teoria coloca, assim, a unidade entre a escola, qualquer
que seja o seu nível, enquanto contexto teórico, e a atividade
produtiva, enquanto dimensão do contexto concreto.
Entre as experiências, já àquela época bastante positivas,
apesar das dificuldades com que se defrontava o Comissariado de
Educação para implementá-las mas de ordem ideológica –
resistências de estudantes que não aceitavam a idéia de usar suas
mãos; outras, de caráter material – falta de transporte, por
exemplo – podiam destacar-se as seguintes:
Trabalho aos domingos, pela manhã, com 120 alunos
concluintes do liceu de Bissau, nas granjas do Estado. Participação
de alunos do 2° e 3° anos do liceu de Bissau em atividades
produtivas, em hortas do Instituto da Amizade.
Dois meses de trabalho no setor da pecuária pelos alunos do 2°
ano da Escola Salvador Allende. Jardins feitos pelos alunos de um
grande número de escolas primárias da capital.
É interessante salientar que, antes e depois das idas ao campo
para a participação na atividade produtiva, os alunos do liceu
discutiam com os técnicos agrícolas, que os acompanham sempre
nas visitas, uma série de aspectos ligados àquela prática.
Os seminários de avaliação, realizados na volta de cada ida ao
campo, confirmam, aprofundam ou corrigem a visão de alguns dos
pontos discutidos na reunião preparatória.
É interessante, também, salientar a maneira aberta com que os
camponeses recebiam a visita de estudantes urbanos, dispondo-se
a com eles algo aprender e a eles algo ensinar. No fundo, porém,
deve-riam ser os estudantes os que mais aprendiam, ao fazer a sua
intimidade, pela primeira, vez, com o trabalho duro de lavrar a
terra, de colher, de produzir.
Estas experiências eram feitas, não só em Bissau, onde as
dificuldades são maiores, mas noutras áreas do país, em que as
condições são mais favoráveis. No momento, elas se estendem à
quase totalidade das escolas, havendo algumas, como o liceu de
Bafatá, que têm dois campos agrícolas, sem falar-se das escolas
das antigas zonas libertadas, que continuam a ser auto-suficientes,
através da atividade produtora de seus alunos e de seus
professores. Na região de Bafatá, acrescente-se, em 106 escolas,
96 têm campo agrícola.
Medidas como estas, a que se juntavam a organização do
Comissariado de Educação, evitando-se, porém, a sua rígida
centralização, e para o que se contava, na época de nossa visita,
com a colaboração militante de dois educadores cubanos e o esforço
já iniciado no sentido da capacitação e recapacitação dos
professores, anunciavam transformações mais profundas que viriam
a seu tempo. Transformações já agora em curso e de que falarei
mais adiante.

(C) Quanto à alfabetização de adultos, duas iniciativas básicas


haviam sido começadas – uma, ligada às Forças Armadas do
Povo,FARP, e a outra ao Comissariado de Educação que já criara o
seu Departamento de Educação de Adultos.
A tendência, porém, respeitadas embora certas especificidades
de cada uma dessas iniciativas, era para a unificação dos esforços,
indispensável à eficiência do Programa Nacional.
É interessante salientar que, quer do ponto de vista das FARP,
quer do Comissariado de Educação, a alfabetização era tomada
como um ato político, em cujo processo os alfabetizandos se
engajam com a ajuda dos animadores – alfabetizadores – enquanto
militantes uns e outros, no aprendizado crítico da leitura e da
escrita e não na memorização mecânica e alienante de sílabas,
palavras e frases que lhes fossem doadas. Posição, de resto, em
total coincidência com a nossa. Os seus problemas, pois, não se
punham ao nível da visão correta do processo, mas ao nível de sua
concretização.
O importante, de fato, na alfabetização de adultos não é o
aprendizado da leitura e da escrita de que resulte a leitura de textos
sem a compreensão critica do contexto social a que os textos se
referem Esta e a alfabetização que interessa às classes dominantes
quando por diferentes razões, necessitam estimular, entre as
classes dominadas, a sua "introdução ao mundo das letras”. E
quanto mais “neutras” fizera estas classes sua “entrada” neste
mundo, melhor para aquelas.
Numa perspectiva revolucionária, pelo contrário, impõe-se que
os alfabetizandos percebam ou aprofundem a percepção de que o
fundamental mesmo é fazer história e por ela serem feitos e
refeitos e não ler estórias alienantes. Correndo o risco de parecer
esquematicamente simétrico, diria que, no primeiro caso, os
educandos jamais são chamados a pensar, criticamente, os
condicionamentos de seu próprio pensamento; a refletir sobre a
razão de ser de sua própria situação, a fazer uma nova “leitura” da
realidade que lhes é apresentada como algo que é e a que devem
simplesmente melhor adaptar-se pensamento-linguagem,
absurdamente desligado da objetividade os mecanismos de
introjeção da ideologia dominante, jamais discutidos. O
conhecimento é algo que deve ser “comido” e não feito e re-feito. O
analfabetismo é visto ora como uma erva daninha, ora como uma
enfermidade, dai que se fale tanto de sua "erradicação” ou dele
como uma "chaga”.
Objetos no contexto geral da sociedade de classes, enquanto
oprimidos e proibidos de ser, os analfabetos continuam objetos no
processo da aprendizagem da leitura e da escrita. É que
comparecem a este processo não como quem é convidado a
conhecer o conhecimento anterior que sua prática lhes deu para,
reconhecendo as limitações deste conhecimento, conhecer mais.
Pelo contrário, o que a eles se lhes propõe é a recepção passiva de
um “conhecimento empacotado”.
No segundo caso, na perspectiva revolucionária, os educandos
são convidados a pensar. Ser consciente não é, nesta hipótese, uma
simples fórmula ou um mero “slogan”. É a forma radical de ser dos
seres humanos, enquanto seres que não apenas conhecem, mas
sabem que conhecem. O aprendizado da escrita e da leitura, como
um ato criador, envolve, aqui, necessariamente, a compreensão
critica da realidade. O conhecimento do conhecimento anterior, a
que os alfabetizandos chegam ao analisar a sua prática no contexto
social, lhes abre a possibilidade a um novo conhecimento:
conhecimento novo, que indo mais além dos limites do anterior,
desvela a razão de ser dos fatos, desmistificando assim, as falsas
interpretações dos mesmos. Agora, nenhuma separação entre
pensamento-linguagem e realidade objetiva, daí que a leitura de um
texto demande a "leitura” do contexto social a que se refere. Neste
sentido, a alfabetização de adultos se inscreve como uma
introdução ao esforço de sistematização do conhecimento que
trabalhadores rurais e urbanos alcançam em decorrência de sua
atividade prática, que jamais se explica por si mesma, mas pelas
finalidades que a motivam. Sistematização que se vai aprofundando
nas etapas que se seguem à alfabetização. Ao lado da
reorganização do modo de produção, este é, enfatize-se, um dos
aspectos centrais a ser criticamente compreendido e trabalhado por
uma sociedade revolucionária: o da valoração, e não idealização, da
sabedoria popular que envolve a atividade criadora do povo e revela
os níveis de seu conhecimento em torno da realidade. O que se
impõe, de
B. Escola numa zona libertada. Período da luta de libertação.
(Publicação autorizada pelo Comissariado de Informação e
Turismo da República da Guiné-Bissau)
fato, não é a transmissão ao povo de um conhecimento
previamente elaborado, cujo processo implicasse no
desconhecimento do que o povo já sabe e, sobretudo, de que o
povo sabe, mas a ele devolver, em forma organizada, o que ele nos
oferece em forma desorganizada*. O que vale dizer, conhecer com o
povo a maneira como o povo conhece e os níveis de seu
conhecimento. Isto significa desafiá-lo, através da reflexão critica
sobre sua própria atividade prática, portanto sobre as finalidades
que a motivam, a organizar os seus achados, superando, assim, a
mera opinião sobre os fatos por uma cada vez mais rigorosa
apreensão e explicação dos mesmos. Desafio a que Amílcar Cabral
dava séria atenção quando, analisando a luta de libertação como
"um fato cultural e um fator de cultura” sublinhava a necessidade
de que essa cultura se fosse tornando cada vez mais cientifica e não
cientificista – sobrepassando, então, o que ele costumava chamar
de "fraquezas da cultura”.
Um trabalho como este, fundado sempre na prática de pensar a
prática, com que a prática se aperfeiçoa, proporcionaria o
surgimento de verdadeiros centros de estudos que, girando embora
em torno de um tema central – agricultura, saúde, por exemplo –
desenvolveriam análises globais dos mesmos. Centros que se iriam
convertendo a pouco e pouco, em função mesma de trabalho
sistematizador do conhecimento, em permanente processo de
aprofundamento, em futuras unidades universitárias mas de uma
universidade que nasceria das classes trabalhadoras e com elas não
sobre elas, o que significaria contra elas.
O importante, na verdade, num tal trabalho com o povo, é o
exercício daquela postura crítica diante da realidade, em que esta
começa a ser tomada, cada vez mais rigorosamente, como objeto
de conhecimento, na análise da própria ação transformadora sobre
ela. É ter na atividade prática um objeto permanente de estudo de
que resulte uma compreensão da mesma que ultrapasse o seu
caráter imediatamente utilitário. É ter nela não apenas a fonte do
conhecimento de si mesma, da sua razão de ser, mas de outros
conhecimentos a ela referidos.
A questão que se coloca, pois, a uma sociedade revolucionária,
não é a de apenas “treinar” a classe trabalhadora no uso de
destrezas consideradas como necessárias ao aumento da produção,
destrezas que, na sociedade capitalista, são cada vez mais
limitadas, mas aprofundar e ampliar o horizonte da compreensão
dos trabalhadores (trabalhadoras) com relação ao processo
produtivo.
Mas digamos algo de que se fazia, no momento de nossa visita,
no setor da alfabetização de adultos.
Como era de se esperar, os trabalhos nos seios das FARP, pelo
alto índice de clareza política de seus militantes, em decorrência da
luta de libertação, já apresentavam resultados verdadeiramente
positivos, apesar das inúmeras dificuldades a serem transpostas e
de que se achavam conscientes os responsáveis. Dificuldades ora
*
"Nós devemos ensinar às massas com precisão o que delas recebemos
confusamente", disse Mao em entrevista a Malraux. André Malraux – Antimémoires,
Gallimard, Paris, 1967, pág. 531.
quanto à falta de material, ora no que respeita à pouca eficiência de
certos animadores (alfabetizados), a demandar um permanente
aperfeiçoamento.
Em junho de 1975, dois meses antes de nossa primeira visita e
após um curso de capacitação inicialmente sob a responsabilidade
de uma única militante*, 82 animadores e 7 coordenadores
(supervisores) pertencentes às FARP se encontravam em atividade,
em quartéis de Bissau, enquanto 150 outros militantes terminavam
sua formação.
O projeto das FARP, pensando pelo Comissário político das
mesmas, Júlio de Carvalho, e seus assessores, previa três
momentos ligados entre si. O primeiro, o de um intenso esforço de
alfabetização através do qual, tão rapidamente quanto possível, se
buscaria superar o problema do analfabetismo entre seus
militantes, na zona de Bissau. No segundo, no mesmo tempo em
que, em Bissau, se começasse a pós-alfabetização, aprofundamento
diversificado do que se faria no primeiro, se estenderia a
alfabetização às unidades militares por todo o país. No terceiro,
finalmente, “as FARP, transbordando-se a si mesmas, para repetir
as palavras de Julio de Carvalho, alcançariam a população civil”.
Este “transbordamento” se daria ora através de militares da FARP
que, embora desmobilizados e incorporados à atividade produtiva,
continuariam a elas ligados, ora por meio daqueles que, na ativa,
dariam sua contribuição às tarefas de mobilização e de
alfabetização de adultos e civis.
Ao escrever esta introdução, posso afirmar que os dois
primeiros momentos se acham em pleno desenvolvimento. A pós-
alfabetização se inicia nos quartéis de Bissau, onde já não há,
praticamente, analfabetos, enquanto a alfabetização atinge a 80%
dos militantes das Forças Armadas Revolucionárias do Povo nas
demais zonas do país. O terceiro momento está em seus começos.
Cinge-se, até agora, à colaboração que representantes da Equipe
Central das FARP vêm dando à Comissão Coordenadora de
Alfabetização, enquanto membros da mesma. Comissão que,
acrescente-se, de acordo com as linhas gerais da política do Partido
e do Governo, planeja e supervisiona os trabalhos de alfabetização
de adultos nas áreas civis.
Obviamente, era necessário que os cinco componentes da
equipe* nos dividíssemos e, assim, visitássemos alguns, pelo
menos, dos Círculos de Cultura em funcionamento. Era
indispensável, no instante em que nos achávamos, o de ver e ouvir,
indagar e discutir, que observássemos como se "moviam”, nos
Círculos, os seus participantes, de um lado, os alfabetizandos, de
outro, os animadores. Até que ponto sua prática estaria sendo
preponderantemente criadora ou, pelo contrário, enfadonhamente
*
Esta militante participara, em Lisboa, de um seminário de formação, coordenado
pelo professor Cintra, em que s e analisariam os aspectos fundamentais da
experiência do autor, sobretudo no Brasil.
*
No momento da visita, compunham a equipe Miguel D’Arcy de Oliveira, Claudius
Ceccon, Marcos Arruda, Elza Freire e Paulo Freire. Posteriormente, se
incorporaram, vivendo em Guiné-Bissau, José Barbosa e Gisèle Ouvray e, ao nível
de Genebra, Rosisca D’Arcy de Oliveira.
repetidora e alienadamente memorizadora. Até que ponto estariam
os alfabetizandos apropriando-se de sua palavra, exercitando a sua
expressividade, conscientemente envolvidos num ato político ou se,
pelo contrário, estariam simplesmente “aprendendo a ler e a
escrever”.
É interessante sublinhar que a nossa atitude, ao visitar os
Círculos de Cultura, não era, de um lado, a de quem se inclinasse a
superestimação do que fosse observado nem, de outro, a de quem,
fixado em modelos ideais, não fosse capaz de perceber a distância
entre eles e a realidade concreta. Nem euforias incontidas diante
dos acertos, nem negativismos em face dos equívocos que
fiássemos encontrar. O importante era ver o que se fazia, nas
condições materiais limitadas que sabíamos existir, para, em
seguida, ver o que se poderia fazer de melhor, nas mesmas
condições, caso não fosse possível, de imediato, torná-las mais
favoráveis.
O que a observação da prática nos Círculos de Cultura revelou é
que, apesar dos desacertos, os seus participantes, alfabetizandos e
animadores, se achavam engajados num trabalho
preponderantemente criador. Em algo mais que simplesmente
aprender e ensinar a ler e a escrever. E isto é que era fundamental.
Entre os desacertos mais flagrantes poderia citar, por exemplo,
a impaciência ou a pressa com que certos animadores, às vezes,
criavam, eles mesmos, as palavras em lugar de desafiarem os
alfabetizandos a fazê-lo, ou a ênfase que davam à repetição em
coro, demasiado demorada, de um conjunto silábico, certamente
convencidos de que tal repetição cadenciada seria o melhor meio
pelo qual os alfabetizandos conheceriam as sílabas, ou ainda a falta
de vivacidade com que alguns animadores participavam dos
debates em torno da temática referida à palavra geradora.
Tais desacertos, cuja inexistência, esta sim, nos teria
surpreendido, considerando-se, sobretudo, o pouco tempo de
prática e de formação teórica dos animadores, deveriam ir sendo
superados através de seminários de avaliação permanente,
coordenados pelos supervisores. Seminários em que estes,
fundados na observação constante da prática dos animadores,
fariam a avaliação, com eles, dessa prática, reforçando os acertos e
procurando sobrepassar os erros.
E interessante salientar, também, a imaginação criadora que
nos foi possível observar entre alguns animadores. Um deles, por
exemplo, chega ao local do Circulo de Cultura, cumprimenta os
camaradas alfabetizandos e começa, em seguida, a varrer, com
uma vassoura rústica, a sala toda. Pacientemente, fazia que sua
vassoura passeasse de um canto a outro. Às vezes, detinha-se,
curvava-se para olhar sob os bancos em que, sentados, os
alfabetizandos começavam já a revelar sinais de inquietação. Não
podiam compreender a razão de ser do comportamento do
animador, a insistência com que ia e vinha com sua vassoura,
limpando o que lhes parecia já limpo. Em certo momento, um deles,
expressando o estado de espírito dos demais, disse: "Camarada,
quando começamos a nossa ‘aula’?”
“A ‘aula’ começou desde que cheguei”, respondeu o animador,
perguntando em seguida: "que fiz eu até agora?”
"A limpeza da sala”, disseram.
Dirigindo-se, então, ao quadro negro improvisado, escreveu,
lentamente, o animador, a palavra Limpeza e disse: “exatamente,
limpeza é a palavra geradora que estudaremos hoje”.
Na verdade, o educador é um político e um artista, que se serve
da ciência e das técnicas, jamais um técnico friamente neutro.
Se a nossa atitude, ao visitar os Círculos de Cultura, tivesse
sido uma das duas anteriormente referidas – a das euforias fáceis
diante dos acertos ou a dos negativismos em face dos erros e dos
equívocos, teríamos, na primeira hipótese, idealizado o que vimos,
na segunda, decretado a invalidade da experiência. Em ambas,
seríamos nós os redondamente em erro.
No que diz respeito às poucas experiências na área civil, isto é,
nos bairros populares de Bissau, a situação era completamente
diferente, mas, ao mesmo tempo, compreensível. Uma coisa é
trabalhar no seio das FARP, com militantes forjados na luta de
libertação, claros com relação ao que significa o empenho de
reconstrução nacional, como continuação daquela luta, e outra é
trabalhar em bairros populares de Bissau, intocados, de maneira
direta, pela guerra, e fortemente marcados pela ideologia
colonialista, como tentei esclarecer em uma das cartas que
compõem este livro.
Assim, enquanto que, no momento da primeira visita, havia 82
Círculos de Cultura funcionando nos quartéis de Bissau, nos bairros
populares da cidade tudo estava por fazer ou refazer.
O que ambas as experiências – a que se dava no seio das FARP
e a que se buscava desenvolver nos bairros populares –
sublinhavam era a necessidade do estabelecimento de uma política
de prioridades para o Programa de alfabetização de adultos.
Programa que, embora nacional em seus objetivos, partisse de
certas áreas e setores determinados, cujos critérios de escolha
deveriam ser bem definidos. Para que a alfabetização pudesse
cumprir o seu principal objetivo – o de inserida no esforço de
reconstrução nacional, contribuir, efetivamente, para este esforço –
era necessário que se encontrasse em dinâmica relação com outras
formas básicas de intervenção social, capazes de inscrevê-la como
uma necessidade. A alfabetização de adultos, como a educação em
geral, não pode superpor-se à prática social que se dá numa certa
sociedade, mas, ao contrário, deve emergir desta prática, enquanto
uma de suas dimensões.
Não teria sentido – e disto estava bastante consciente o
Comissário de Educação, Mário Cabral – transformar-se o nascente
Programa Nacional de Alfabetização de Adultos, na Guiné-Bissau,
em mais uma campanha, nos moldes tradicionais que todos
conhecemos, em que, à alfabetização, idealizada, por ingenuidade
ou astúcia, se empresta uma força que ela não tem. A questão
fundamental que se colocava, pois, não era a de se fazer a
alfabetização de adultos por ela mesma ou a de fazê-la como se
fosse ela, em si, um instrumento de transformação da realidade,
mas a de pô-la a serviço, reinsista-se, da reconstrução nacional.
Desta forma, os projetos de alfabetização de adultos, no campo
civil, deveriam concretizar-se, de um lado, naquelas áreas em que,
de acordo com a política do Partido, realizada pelo Governo, certas
alterações nas relações sociais de produção estivessem verificando-
se ou por verificar-se, a curto prazo; de outro, no interior de órgãos
da administração do Estado – hospitais, correios e telégrafos,
oficinas de obras públicas etc. – cujos servidores tivessem, na
alfabetização, a introdução a outros conhecimentos, necessários ao
cumprimento das novas tarefas impostas pela reconstrução
nacional*. Daí a necessidade, sublinhada pelo Comissário Mário
Cabral, de uma estreita relação entre seu comissariado e o de
Planejamento, o de Agricultura, o de Saúde. Necessidade de
estreita relação, igualmente, entre o Comissariado de Educação e as
organizações de massa do Partido, como a Juventude Africana
Amílcar Cabral – JAAC – cujos militantes poderiam dar, como o
fazem agora, uma importante contribuição aos projetos de
alfabetização.

(D) Ainda no primeiro momento de nossa visita entramos em


contacto, em Bissau, com o Comissariado Político das FARP, a que
já fiz referência, com o Comissariado de Informação, com o de
Agricultura, com o de Saúde, com a JAAC, àquela época em fase de
reestruturação, e fomos recebidos, em visita mais de trabalho do
que protocolar, pelo Camarada Francisco Mendes, Comissário
Principal, e pelo Presidente do Conselho de Estado, Camarada Luiz
Cabral.
Quanto ao Comissariado de Informação, cujo papel no processo
de reconstrução nacional é indiscutível, sobretudo na medida em
que a informação, não se reduzindo a uma pura transmissão ou
transferência de mensagens se vá tornando, como é o caso da
Guiné-Bissau, formação e comunicação, interessava-nos ver só
tipos de ajuda que poderia oferecer ao futuro programa de
alfabetização. Programa cuja eficiência demandaria,
constantemente, esforços de mobilização e de participação popular
que poderiam ter, na rádio e no jornal, eficientes meios de ajuda.
Das conversações mantidas, por outro lado, com os
responsáveis pela Saúde e pela Agricultura, menos prolongadas,
como era natural, do que as que tivemos com as equipes do
Comissariado de Educação, dois aspectos fundamentais se
ressaltaram, em vista das relações necessárias entre alfabetização,
produção e saúde. De um lado, a política de saúde, privilegiando a
medicina preventiva, em cuja prática a educação sanitária ocupa
papel destacado; de outro, a preocupação do Comissariado de
Agricultura com o estimulo à formação de cooperativas e de
fazendas do Estado, em que o trabalho baseado na ajuda mútua
seria importante e com a diversificação da cultura. Medidas, em
última análise, indispensáveis ao desenvolvimento do país.

*
Se este problema começou a ser discutido na etapa a que me refiro, a de
nossa primeira estada na Guiné-Bissau, foi, porém, na segunda visita, em
fevereiro deste ano, que veio a definir-se claramente.
A questão, portanto, que se colocava ao Comissariado de
Educação, como lucidamente anotava Mário Cabral, seria a de estar
presente, através de projetos de alfabetização de adultos, a toda
iniciativa do Comissariado de Agricultura, no domínio das
cooperativas de produção e no das fazendas do Estado e a de
incluir, nos programas de alfabetização, aspectos ligados à medicina
preventiva, de acordo com o Comissariado de Saúde.
Servindo-se desta ou daquela experiência no campo de uma
cooperativa de produção, os militantes, envolvidos nos projetos de
alfabetização, como animadores, deveriam estar atentos a como
relacionar tais experiências com a alfabetização. Simultaneamente
com o aprendizado da escrita e da leitura, os alfabetizandos
deveriam ser convidados a pensar sua prática e as finalidades que a
motivam no combate, por exemplo, aos mosquitos, na luta contra a
malária, ou chamados ao debate em torno das vantagens do
trabalho baseado na ajuda mutua sobre o trabalho de caráter
individualista, na criação da cooperativa.
Seria do mais alto proveito, por outro lado, se pudesse preparar
material visual, inicialmente sobre experiências realizadas em
outros países da África, com a análise das quais se sobrepassariam
os limites geográficos da área e do próprio país e se iria ganhando
uma visão mais ampla da realidade.
Debater a prática do combate ao mosquito numa área rural da
Guiné-Bissau e depois discutir a mesma prática numa comunidade
camponesa de Moçambique, da Tanzânia ou de São Tomé e Príncipe
significa possibilitar a análise de um sem-número de problemas
ligados a esses países.

SEGUNDO MOMENTO

(E) O segundo momento de nossa primeira estada na Guiné-Bissau


foi dedicado a rápidas visitas a algumas das antigas zonas
libertadas. Zonas em que o PAIGC realizara, como salientei
anteriormente, experiências de alta importância, no domínio da
educação, da saúde, da justiça, da produção, da distribuição, com
os “armazéns do povo” que, depois da independência total do pais,
"no espaço de um ano chegaram a controlar todo o seu comércio”*.
Embora, em parte, sacrificadas pelo mau tempo, as visitas nos
facilitaram importantes contactos com comissários políticos locais,
que nos falavam de sua militância junto ao povo e com ele; alguns,
de suas experiências durante a luta, do aprendizado em que ela
implica, não apenas para sobreviver durante ela e vencer o inimigo,
mas também para a outra luta, a da reconstrução nacional.
Contactos com técnicos nacionais e estrangeiros, com professores
primários que participavam, num dos centros em que estivemos, do
primeiro seminário de formação em torno da Pedagogia de Freinet.
Só, porém, a partir da segunda visita ao país, em fevereiro
deste ano, é que nos seria possível começar a ir aprofundando a
visão das zonas interioranas, não apenas percorrendo áreas

*
Discurso pronunciado pelo Presidente do Conselho de Estado, Luiz Cabral, na
abertura da segunda sessão da primeira legislatura da Assembléia Nacional
Popular, em 22 ce abril de 1976 – Bissau.
cultivadas, mas também conversando com alunos e populações
camponesas.
De qualquer modo, contudo, gostaria de fixar, aqui, pelo menos
um aspecto que a mim me tocou naquelas visitas: a conversa que
tivemos Elza e eu com um jovem diretor de um Internato. Falava
manso, calmo, objetivamente. Contava pedaços da história de que
participara como fazedor e revelava como vinha igualmente por ela
sendo feito. Sem retórica, sem adjetivos veementes, mas sem
frieza e profundamente humano, ia nos dizendo do trabalho
educativo do Internato, na zona libertada. Ia nos falando de como a
escola e a comunidade se integravam no esforço comum de
sustentar a luta e, sentindo-se e sabendo-se igualmente pela luta
sustentadas, se davam à tarefa apontada pelo PAIGC, a de vencer,
a de expulsar o invasor, a de libertar o país. Referia-se a Amílcar
Cabral não com uma saudade sentimental, nem, por outro lado,
também, como se ele fosse um mito a ser cultuado, mas como um
símbolo, uma "presença” marcante na história de seu povo.
Não foi preciso que nos falasse de símbolo ou de presença
marcante para que eu soubesse que era assim que ele entendia
Cabral. E esta compreensão, que é geral na Guiné-Bissau e Cabo
Verde, é o resultado da autenticidade do testemunho do grande
líder, da maneira como intensamente se experimentou na
comunhão com seu povo, sem a qual não poderia ter feito o que fez
nem ter sido o que foi e continua a estar sendo. Ninguém é ou
continua a estar sendo sozinho. Muito antes de ter sido considerado
como "Pai da Nacionalidade”, Cabral se fez “Filho do Povo”, com ele
aprendendo e a ele ensinando, na prática revolucionária*.
Enquanto o jovem militante nos ia falando, a Elza e a mim, da
experiência do Internato, dos alunos e professores trabalhando
juntos, aprendendo juntos, inclusive a como defender-se dos
bombardeios cruéis dos inimigos, ia ficando cada vez mais claro o
papel que aquela experiência toda teria a jogar, como de fato está
jogando, hoje, na luta pela reconstrução nacional. O seu papel na
superação do sistema educacional herdado dos colonizadores.
Durante todo o tempo em que estivemos juntos, amparados
contra a chuva forte que caía, no terraço estreito de uma pequena
casa, ouvíamos mais do que falávamos. De vez em quando, uma
pergunta, apenas, com que possibilitávamos o jovem educador a
esclarecer melhor um ponto, a recordar um outro.
"Tínhamos sempre, disse ele, em dado momento, não muito
longe do local dos Internatos, sítios seguros, dentro do mato, onde,
no caso de bombardeios, pudéssemos abrigar as crianças e os
adultos que viviam em torno. Ainda bem não se começava a
perceber o barulho dos aviões, já todos, rapidamente, quase
instintivamente, se organizavam para abandonar a área. Cada um

*
É significativo, a esse respeito, o que disse outro militante, num momento
dramático, o do assassinato de Amílcar Cabral pelos colonialistas, e que nos foi
referido pelo Presidente Luiz Cabral: "Eu não choro o camarada Cabral”, disse o
militante diante de seu corpo tombado. "O camarada Cabral não morreu. Quem
fala agora não sou eu, mas ele, através de mim. O camarada Cabral vai continuar
a falar através do povo, chamando-nos para a luta, para a vitória contra o
opressor."
sabia o que devia fazer e fazia, naquelas ocasiões. Certa vez,
continuou, ao regressarmos do esconderijo, após um bombardeio,
encontramos, no pátio do Internato, três camaradas nossas, duas já
mortas, a terceira morrendo, as barrigas abertas. Junto a elas, três
fetos varados por baioneta.”
Não lhe perguntei como tinham chegado à zona libertada os
autores daquele crime. Não quis saber se haviam vindo no avião,
que depois do bombardeio tivesse descido em um campo qualquer
ou se teriam sido soldados de uma patrulha avançada do exército
colonialista. Nada disto me interessou naquele instante. Perguntei
apenas, mãos crispadas, o que faziam quando conseguiam
aprisionar assassinos tão perversos.
Tenho a impressão de que o jovem militante percebeu, na
tonalidade de minha voz, nas minhas mãos crispadas, na minha
face, em mim todo; no olhar de Elza, no seu silêncio que gritava, a
revolta imensa que nos assaltava.
Com voz sempre mansa e calma, sua resposta foi um
ensinamento. "Gente ruim como essa, disse ele, quando pegada,
era punida, de acordo com o tribunal popular. A revolução pune
mas não tortura. O camarada Cabral falava sempre do respeito
que se devia ter ao inimigo. Era uma palavra de ordem do nosso
Partido, do PAIGC.”
Ai está uma diferença radical entre a violência dos opressores
e a violência dos oprimidos. A daqueles é exercida para preservar
a violência, implícita na exploração, na dominação. A dos últimos,
para suprimir a violência, através da transformação revolucionária
da realidade que a possibilita.
A maturidade política revelada por aquele militante e que a
luta pela libertação, como "fato cultural e fator de cultura”
provoca, é uma constante na Guiné-Bissau, com exceção de
alguns setores da população de certas áreas menos tocadas pela
luta mesma. Na Guiné-Bissau se fala da luta sem tiradas oratórias,
sem exuberâncias. Fala-se do que ela ensinou, do que ela exigiu;
do que continua a ensinar, a exigir, enquanto processo
permanente. Do engajamento em que ela implica; da vigilância
que ela demanda.
Na verdade, essa simplicidade e essa ausência de triunfalismo
revelam, de um lado, um bem enraizado sentimento de segurança;
de outro, uma verdadeira humildade que, por isso mesmo, jamais
se alonga em falsa modéstia. Segurança e humildade que foram
aprendidas na luta difícil, na superação dos obstáculos, na vitória
sobre o inimigo. Por isso é que, envolta nelas, o que se percebe é
a firme decisão do povo e de sua vanguarda, o PAIGC, no sentido
de concretizarem o sonho possível que perseguem desde o começo
da luta – o de re-inventarem saia sociedade, banindo a exploração
de uns por outros e superando as injustiças.
Discretamente, com pudor revolucionário e, em coerência com
este pudor, absolutamente consciente do papel histórico de seu
povo, é que aquele jovem militante falou a Elza e a mim da prática
em que se re-fez e da em que continuava a re-fazer-se, junto com
seus camaradas; da alegria de haver participado da dureza da
luta, da alegria de estar participando da reconstrução de seu país.
Na volta a Bissau, olhando pela janela do helicóptero dirigido
por pilotos soviéticos, junto aos quais dois jovens nacionais
continuavam sua aprendizagem, via, lá embaixo, as frondes das
árvores queimadas de napalm.
Olhava atentamente, curiosamente. Nenhum animal. Uma ou
outra ave maior voava calmamente. Lembrava-me do que nos
dissera o Presidente Luiz Cabral, em nosso primeiro encontro,
quando nos falava de diferentes instantes e aspectos da luta, com a
mesma sobriedade com que o jovem diretor do Internato
conversava com Elza e comigo. “Houve um momento, disse o
Presidente, em que os animais da Guiné “pediram asilo” aos países
vizinhos. Somente os sagüis permaneceram, refugiando-se nas
zonas libertadas. Tinham horror aos "tugas”. Depois, coitados,
passaram a temer-nos. E que nos vimos forçados a começar a
comê-los. Espero que, em breve, os nossos animais retornem –
concluiu o Presidente – convencidos de que já não há guerra”.
Da janela do helicóptero olhava atentamente, curiosamente.
Não havia ainda, pelo menos naquelas bandas do país, indícios
daquele retorno...

(F) Já em Bissau, enquanto nos preparávamos, em equipe, para a


última fase de nossa visita, houve um fato que nos marcou
profundamente e que tem que ver com muitas das considerações
feitas nesta introdução. Sobre ele, desde então, tenho falado
sempre em seminários e não gostaria, agora, de silenciá-lo.
Manhã quente de setembro. Asfixiante, quase. Comemorava-se
a independência do país.
Uma grande praça. No fundo, o palanque em que se achavam
as autoridades nacionais, o corpo diplomático, convidados e
delegações de países amigos.
Grupos variados desfilam. Representam organizações populares
de Tabancas e bairros de Bissau. Crianças, jovens, mulheres,
homens coloridamente vestidos. Cantam e bailam. Movem-se. Vão
e vêm, curvando-se e recurvando-se, numa riqueza extraordinária
de ritmos. A multidão toda, ao longo da avenida que desembocava
na praça, participava, ativamente, do desfile. Não estava ali apenas
para olhar e escutar, mas para expressar, conscientemente, a
alegria de poder estar ali, como um povo que conquistara o direito
de ser.
A multidão cantava também, movia-se também. Não se tratava
de um "espetáculo folclórico” a que uns poucos, à distância,
assistissem. Era uma festa do povo, que vivia o seu dia maior.
Após o desfile, encerrado com a apresentação de unidades das
FARP, o Presidente Luiz Cabral começou então o seu discurso.
Exatamente em frente ao local do palanque em que se achava o
Presidente, um grupo da banda militar, perfilado. Em certo
momento, um dos soldados da banda, como se estivesse caindo
sobre si mesmo, desfalece. O Presidente pára o seu discurso. Olha
fixo o militante que está sendo amparado por seus camaradas. A
multidão percebe. Abre caminho a um carro que se aproxima e em
que o soldado é conduzido ao hospital. O Presidente acompanha
com o olhar o carro que parte e logo desaparece. Só então volta a
falar.
A meu lado, em voa baixa, disse Elza: “Este foi o momento
mais bonito de nossa visita a este país. Temos realmente muito que
aprender de um povo que vive tão intensamente a unidade entre a
palavra e o gesto. O indivíduo aqui vale enquanto gente. A pessoa
humana é algo concreto e não uma abstração.”
O Presidente prosseguia no seu discurso. Tudo nele era
autêntico. Sua palavra ao povo, como seu gesto coerente com sua
palavra, diante do fato que ocorrera. Alguns segundos, apenas,
envolveram aquele fato. Muitos anos de luta o explicam. Não era
aquela por certo, a primeira vez em que o militante Luiz Cabral
expressava, não importa de que forma, a sua solidariedade a um
companheiro em dificuldade. Muito antes que o Presidente Luiz
Cabral parasse o seu discurso e, preocupadamente, acompanhasse
com os olhos o camarada desfalecido naquela manhã quente de
setembro, o militante Luiz Cabral se teria detido, vezes inúmeras,
para atender a um companheiro tombado na luta comum de
libertação de seu povo.
Fatos como este cuja significação mais profunda é indiscutível,
não são, na Guiné-Bissau, acontecimentos isolados ou
extraordinários. Constituem a maneira de estar sendo de seu povo.
De estranhar seria que o Presidente, "distante e frio”, tivesse
continuado o seu discurso enquanto seu camarada das FARP se
sentia mal.
O que me parece fundamental – e sem pretender idealizar a
revolução guineense, pois que ela vem sendo feita por homens e
mulheres e não por anjos – é que valores que se vieram
encarnando na dureza da luta, em que o PAIGC se forjou como
vanguarda revolucionária do povo, continuam de pé. E quanto mais
consciente esteja esta vanguarda em torno da necessidade de
preservar sua comunhão com o povo, em cujo seio selou a sua
própria condição de vanguarda, tanto mais a revolução será
defendida das ameaças de distorção. Assim, um dos grandes
desafios que esta vanguarda vem se fazendo a si mesma, em
coerência com o pensamento de Amílcar Cabral* na medida era que
mais e mais busca preservar e desenrolar aquela comunhão com as
classes trabalhadoras, é o de aprofundar o "suicídio de classe”,
iniciado há muito, na luta de libertação. É, que, se este “suicídio” se
"perde”, assiste-se ao surgimento de uma “burguesia burocrática”
no poder, distanciada das classes trabalhadoras mesmo que até em
seu nome falando.

TERCEIRO MOMENTO

(G) Afirmei, no começo desta introdução, que o nosso plano de


trabalho para a primeira visita à Guiné-Bissau, em Genebra
simplesmente esboçado em suas linhas gerais, na verdade
elaborado em Bissau com os nacionais, tinha dividido o nosso

*
Amílcar Cabral – "Sur la Petite Bourgeoisie” em L'arme de la théorie,
François Maspéro, Paris, 1975, págs. 301-3.
tempo no país em três momentos básicos, jamais separados entre
si. Os dois primeiros, que procurei caracterizar como sendo os em
que buscávamos ver e ouvir, indagar e discutir, foram momentos de
análise, em que, necessariamente, o último se gerava – o da
síntese. Na verdade, esta vinha se fazendo a cada passo, no
momento mesmo da análise, de que não pode dicotomizar-se. É por
esta razão que muito do terceiro momento de nossa visita já foi dito
na descrição, de resto precária, que tentei das etapas anteriores, as
de análise. Durante estas, tomando tanto quanto possível, a
realidade do país, enquanto totalidade, como objeto de nossa
curiosidade, procuramos cindi-la em suas partes para melhor
conhecê-la.
No momento da síntese, gerando-se, como disse antes, na
própria análise, o esforço seria o da retotalização da totalidade
cindida. No fundo, os dois momentos se integram num dinâmico
movimento que vai da cisão do objeto à suas retotalização.
Em última instância, nos dois primeiros momentos, tornávamos
a realidade como uma "codificação” que procurávamos descodificar,
ora com os diferentes grupos nacionais, ora entre nós, enquanto
equipe visitante, em nossas reuniões de avaliação do trabalho em
andamento. Nesta última hipótese, realizávamos, às vezes, uma
dupla tarefa. Em certas ocasiões, tornávamos a realidade mesma
como objeto de nossa análise tentando "lê-la” criticamente; em
outras, era o próprio esforço anterior de análise da realidade feito
com as equipes nacionais o que nos propúnhamos como objeto de
nossa reflexão. Desta forma, analisávamos a análise anterior,
reconhecendo, assim, em termos críticos, a maneira como
havíamos percebido a mesma realidade, objeto de nossa
curiosidade.
Naturalmente, enquanto participantes do mesmo processo de
descodificação da realidade, em diálogo com as equipes nacionais,
não poderíamos, de um lado, ser meros espectadores silenciosos;
de outro, ser sujeitos exclusivos do ato de descodificar. Teria sido
tão contraditório com os princípios que motivaram a nossa ida à
Guiné-Bissau pretendermos ser os exclusivos sujeitos da
descodificação da realidade quanto encarnar o papel de recipientes
da descodificação, feita, no caso, pelas equipes nacionais, para, no
último momento, o da síntese, quase misteriosamente, fazer o
nosso discurso. Uma espécie de discurso zelosamente guardado. De
discurso surpresa.
Na verdade, nos achávamos envolvidos, com as equipes
nacionais, num ato de conhecimento, no qual, tanto quanto elas,
devíamos assumir o papel de sujeitos cognoscentes. O diálogo entre
nós e as equipes nacionais, mediados pela realidade que
buscávamos conhecer, era o selo daquele ato de conhecimento.
Seria conhecendo e reconhecendo juntos que poderíamos começar
a aprender e a ensinar juntos também.
Sublinho este ponto, não apenas como algo que deveria ser
referido na seqüência desta introdução, mas também para, uma vez
mais, aclarar a minha posição, nem sempre bem compreendida, em
face dele, isto é, do diálogo como selo do ato de conhecimento,
bem como do papel dos sujeitos cognoscentes neste ato.
Foi, porém, no primeiro momento de nossa visita,
principalmente nos encontros de estudo com Mário Cabral e suas
equipes do Comissariado de Educação, que fomos debatendo e
aprofundando uma rica temática a que sempre temos voltado em
nossas sucessivas idas ao país. Temática referida, às vezes, de
maneira mais ou menos ampla na primeira parte deste trabalho e
que, por isso mesmo, prescinde de ser agora mencionada.
Dividindo o terceiro momento de nossa presença na Guiné-
Bissau em duas partes, reservamos a primeira para, com Mário
Cabral e seus auxiliares, realizarmos a recapitulação do esforço
anterior, feito em comum, de análise da realidade – o da
descodificação que dela fizéramos.
A recapitulação que nos coube a nós iniciar implicava em que
tornássemos clara a "leitura” que fazíamos da realidade nacional.
Nossa "leitura”, por sua vez, se punha às equipes do Comissariado
de Educação como um novo desafio a que deveriam responder,
aceitando-a ou recusando-a, totalmente ou em parte; melhorando-
a, aprofundando-a. Na síntese se voltava, assim, à análise, para
alcançar uma nova síntese.
Finalmente, na segunda parte do último momento de nossa
estada na Guiné-Bissau, baseados no que viramos e no que
ouvíramos; nas respostas ao que indagáramos e nos achados feitos
em torno do que discutíramos; no aprendizado direto que fizéramos
do país, na compreensão comum sobre o papel da educação em
geral e da alfabetização em particular no empenho de reconstrução
nacional, nos dedicamos, mais uma vez em diálogo com os
nacionais, a estabelecer os princípios de nossa contribuição, cuja
continuidade nos foi solicitada pelo Comissário Mário Cabral, em
nome do governo e com a concordância do Partido.
Em síntese, o projeto elaborado em comum previa, como era
natural, atividades a serem realizadas por nós em Genebra e outras
na Guiné-Bissau.
Assim, três visitas foram acertadas para o ano em curso –
todas cumpridas – e aceita igualmente a proposta para a fixação em
Bissau, sem ônus para o Governo, de um membro da equipe do
IDAC, que trabalharia, como de fato o vem fazendo desde fevereiro
deste ano, a tempo integral, junto à Comissão Coordenadora dos
Trabalhos de Alfabetização de Adultos. Comissão criada, na mesma
reunião de síntese, pelo Comissário Cabral.
Em nossas futuras visitas, deveríamos, fundamentalmente, em
diálogo com a Comissão Coordenadora e servindo-nos dos relatórios
a serem recebidos nos intervalos das idas ao país, fazer a avaliação
da prática realizando-se no campo da alfabetização de adultos, em
cujo processo continuaríamos aprofundando alguns dos aspectos
centrais que haviam sido discutidos na primeira visita.
O método de trabalho para as subseqüentes idas ao país
deveria ser substancialmente o mesmo adotado na primeira. Um
momento de análise, no sentido dinâmico a que antes me referi, e
um momento de síntese, de que resultaria a necessidade de nova
análise.
Em Genebra, continuaríamos, em equipe, aprofundando a
compreensão da problemática educativa do pais, particularmente no
campo da alfabetização de adultos, na perspectiva global sobre que
venho insistindo neste texto. Por outro lado, ainda em Genebra, ora
elaboraríamos materiais didáticos que nos fossem solicitados e que,
remetidos a Bissau, seriam provados pela Comissão Coordenadora,
antes de generalizado seu uso, ora daríamos a nossa opinião em
torno de outros materiais que, realizados em Bissau, fossem
submetidos à nossa apreciação.
Desta forma, nasceu o projeto que põe juntos, hoje, de um
lado, o Comissariado de Educação da Guiné-Bissau, de outro, a
Commission on Churches’ Participation in Development, que o
financia, o Instituto de Ação Cultural e o Departamento de Educação
do Conselho Mundial de Igrejas.
Há um ano que, sempre em diálogo com os nacionais,
prestamos a mínima contribuição que podemos, e de que vem
resultando um aprendizado comum que nos enriquece a todos.

Segunda Parte

(A) Esta introdução ficaria demasiado incompleta, mais do que vem


sendo, se, agora, não me alongasse um pouco mais em
comentários em torno, pelo menos, de algumas das principais
atividades que se desenvolveram de setembro do ano passado para
cá.
O primeiro destes comentários incide sobre as modificações
que o e que serão introduzidas no sistema educacional do país,
modificações que se acrescentam às que fiz referencia na primeira
parte desta introdução e com as quais o Comissário de Educação,
fiel aos objetivos do Partido e à orientação do Governo, prepara a
radical transformação do sistema herdado dos colonizadores.
Começo por comentar estas modificações pela repercussão que
necessariamente têm sobre os trabalhos de educação de adultos
que não podem, como sublinhei no início deste texto, estar sequer
indiferentes à proposta educativa, contida no sistema regular de
ensino do País.
A oposição entre um esforço no setor da educação informal de
adultos e o sistema educacional de uma dada sociedade se dá
quando aquele esforço, em antagonismo com o sistema global da
sociedade, é um instrumento de que um movimento ou um partido
revolucionário se serve para, taticamente, organizar as classes
dominadas no sentido da chegada ao poder. No caso da Guiné-
Bissau, que não é este, o importante é a harmonia entre o que se
pretende com a educação de adultos e o que se busca realizar com
o sistema regular de ensino do país.
Ao tocar neste ponto, isto é, nas modificações que estão sendo
e que serão introduzidas no sistema de educação da Guiné-Bissau,
estarei baseando-me não apenas no que tenho ouvido diretamente
do Comissário Mário Cabral, em nossas reuniões de trabalho em
Bissau, quando nos tem falado, cada vez mais lucidamente, de
como vem, com seus auxiliares, enfrentando a transformação da
educação no país, mas também em recente entrevista que deu ao
Nô Pintcha, jornal de Bissau. Entrevista de que citarei um ou outro
trecho.
Tomando a educação não como algo em si, mas como
expressão supra-estrutural, em suas relações dialéticas e não
mecânicas com a infra-estrutura da sociedade, é que o
Comissariado de Educação vem introduzindo tais modificações no
sistema educacional herdado e de que vai resultando a constituição
do novo.
Por outro lado e coerentemente com esta visão, percebe-se a
preocupação com superar a concepção e a prática da educação
segundo as quais cada “província” do sistema educacional,
descurando a real formação dos educandos, nela experimentando-
se, se faz um simples momento, alienado e alienante, de preparado
para o seguinte.
O projeto em que o Comissário de Educação da Guiné-Bissau se
engaja, projeto realista, em consonância com a realidade do país,
re-conhecendo embora as relações entre seus diferentes níveis,
prevê, pelo contrário, que, em cada um, a tarefa formadora se
realiza ao máximo. Assim, as relações que possam existir entre o
Ensino Básico e o Ensino Geral Polivalente ou o Médio Politécnico
não são relações que reduzam o primeiro a um "corredor” por onde
uns poucos passem com o objetivo, apenas, de alcançar os
seguintes que, por sua vez, os conduzissem à “paisagem” seleta da
universidade.
“O nosso ensino, diz Mário Cabral, será dividido em três níveis.
Ensino Básico, de seis anos, com dois ciclos: um de quatro, o outro
de dois anos. Ensino Polivalente, de três anos. Ensino Médio
Politécnico, que, variando de acordo com as próprias exigências da
formação média, terá uma duração nunca inferior a dois ou três
anos”.
O Ensino Básico, de seis anos, com dois ciclos, e que se
pretende universalizar em função das possibilidades do Partido e do
Estado, se propõe uma formação fundamental, indispensável à
participação consciente de qualquer cidadão ou cidadã na criação e
no desenvolvimento da nova sociedade.
Não se trata, pois, de um ensino que se dá numa escola que
simplesmente prepara os educandos para outra escola, mas de uma
educação real, cujo conteúdo se acha em dialética relação com as
C. Escola numa zona libertada. Período de luta de Libertação.
(Publicação autorizada pelo Comissariado de Informação e
Turismo da República da Guiné-Bissau)
necessidades do país. O ato de conhecimento posto em prática por
uma tal educação se dá na unidade da prática e da teoria, por isso
mesmo não pode prescindir, cada vez mais, de ter no trabalho dos
educandos e dos educadores sua fonte.
Os valores que esta educação persegue se esvaziam se não se
encarnam e só se encarnam se são postos em prática. Dai que,
desde o primeiro ciclo deste nível de ensino, o de quatro anos,
participando de experiências em comum, em que se estimula a
solidariedade social e não o individualismo, o trabalho baseado na
ajuda mútua, a criatividade, a unidade entre o trabalho manual e o
trabalho intelectual, a expressividade, os educandos irão criando
novas formas de comporta mento de acordo com a responsabilidade
que devem ter diante da comunidade.
No segundo ciclo do Ensino Básico, o de dois anos, envolvidos
no mesmo ato de conhecimento em que se experimentaram no
primeiro, trabalhando sempre em comum e em comum buscando,
os educandos não apenas alargam as áreas de seus conhecimentos
mas aprofundam aqueles em cujo processo, tanto quanto os
educadores, assumem o papel dos sujeitos.
Na verdade, não seria realizável uma educação voltada para a
concretização de valores como a solidariedade, a responsabilidade
social, a criatividade, a disciplina a serviço do interesse comum, a
vigilância, o espírito crítico, valores em que forjou o PAIGC, em todo
o processo da luta de libertação, se nesta educação os educandos
continuassem a ser, como na educação colonial, meros recipientes
de “conhecimentos empacotados”, a eles transferidos pelos
educadores. Puros objetos, incidências da ação “educativa” dos
educadores.
Identificada, reinsista-se, com a realidade do país, esta é, por
outro lado, uma educação que não poderia deixar de centrar-se no
rural.
“Sabemos, diz Mário Cabral, que 90% de nossa população, ou
um pouco mais, são camponeses. O ensino que vamos organizar vai
levar este fato em consideração e será, portanto, dirigido para o
campo. O aluno, através dele, deverá poder participar, como
sujeito, enfatiza Cabral, das transformações necessárias de sua
comunidade”.
Mais adiante, referindo-se, sem dúvida, à necessidade de
ampliação das áreas de conhecimento no segundo ciclo do Ensino
Básico, em relação ao primeiro, continua Mário Cabral: "Desde logo,
podemos dizer que vamos introduzir neste ciclo noções básicas de
Física e de Química para a compreensão dos processos da natureza
e a Biologia no lugar das chamadas ciências naturais”. Refere-se
ainda ao estudo da História, indispensável à formação militante e
que será “englobado no que chamamos de ciências sociais”, diz ele.
“Com as cadeiras que vamos introduzir neste nível, incluída a
Geografia – e com a orientação a ser dada no estudo das mesmas,
acrescentaria eu – qualquer aluno que saia do curso poderá ter os
conhecimentos que lhe servirão para ser um agricultor, um
mecânico ou um enfermeiro progressista”.
Com o segundo nível, o do Ensino Geral Polivalente, ao mesmo
tempo em que se busca responder, pela capacitação de quadros, a
diferentes necessidades do país, se oferece também aos jovens a
possibilidade de opções neste ou naquele setor. Sua formação
cientifica se intensifica, lado a lado com sua formação geral,
integral, de que o engajamento militante e a responsabilidade
social, vividos num quefazer permanentemente dando-se à reflexão
critica, são indispensáveis. “Mas, sobretudo, declara o Comissário,
serão desenvolvidas atividades práticas que variarão de acordo com
as características da região onde se situe a escola. Não poderemos
prescindir de noções de carpintaria, de eletricidade, de agricultura,
incorporadas pelos educandos através da prática”.
O projeto prevê, ainda, a criação de escolas profissionais, em
que a especialidade, porém, jamais se distorce em especialismo.
“Escolas de formação de professores para o primeiro ciclo do
Ensino Básico, de auxiliares de enfermagem, de práticos agrícolas,
de carpinteiros, de serralheiros, tudo de acordo com as
necessidades do país”. Escolas que deverão estar ligadas também
aos Comissariados diretamente interessados pela formação que
nelas se realizará e não apenas ao de Educação.
Com o Ensino Médio Politécnico, através de uma série de
Institutos, em consonância com as necessidades do momento, se
pretende continuar, aprofundar e diversificar, mais ainda, a
formação realizada nos anteriores.
O objetivo principal é o da formação de técnicos médios, em
diferentes campos, indispensáveis à transformação do país.
Técnicos em cuja formação, porém, se evite sua desfiguração em
tecnicista, perdidamente alienados numa visão estreita e focalista
de sua especialidade.
Entre os Institutos previstos neste nível, se encontram o
Instituto Técnico de Formação profissional, o de Pedagogia, que
será a escola de formação de professores primários e secundários,
o de Enfermagem e o de Ciências Sociais.
Pensa-se, igualmente, na criação de um Instituto de
Administração e Secretariado, bem como num outro de Ciências
Agrárias, para a capacitação, este último, de técnicos a nível de
regente agrícola.
Em todos esses Institutos se irão formando jovens técnicos
que, de acordo com as necessidades reais do país, poderão seguir
cursos universitários no exterior. Muitos, porém, terão de continuar
engajados diretamente no esforço de reconstrução nacional.

De qualquer maneira, a passagem de um desses Institutos


para uma universidade estrangeira demanda o cumprimento de
certas exigências. “Apenas os que se revelarem mais competentes
no trabalho, os mais comprometidos, os mais capazes, os mais
devotados serão os indicados para tais cursos no exterior”, afirma
o Comissário Mário Cabral.
Por outro lado, há critérios também, como não poderia deixar
de haver, que regulam a passagem de um nível de ensino a outro.
Do Ensino Básico ao Geral Polivalente, como deste ao Médio
Politécnico. Os candidatos passarão de um a outro, “de acordo com
as qualidades re-veladas no nível anterior”. Impõe-se a
comprovação de sua seriedade nos estudos, a sua qualificação
cientifica e técnica, em função do nível de onde vêm, bem como a
comprovação de "suas qualidades morais e de militantes”.
Um dos aspectos importantes deste projeto, a que já fiz
referência, é o fato de que as relações entre os diferentes níveis de
ensino não reduzem o sistema de educação que os contém a um
“funil”. Não são relações em que um nível “forma” ou prepara para
o outro. Assim, o estudante que não ultrapasse o nível do Ensino
Básico, mesmo que não tenha a oportunidade de ampliar seus
conhecimentos de forma sistematizada, nem por isso terá deixado
de tomar parte de uma experiência formadora fundamental, que lhe
possibilita participar da reconstrução de seu país como um militante
consciente.
A posta em prática de um tal projeto, que já começou em
alguns de seus aspectos, exige um esforço indiscutível na formação
de professores, capazes de multiplicar-se pela capacitação de
outros. Eis o que diz Mário Cabral a esse respeito: “A formação de
professores é uma das tarefas principais do Comissariado de
Educação. Não faremos nada na formação de quadros para os
diversos setores da reconstrução nacional, se não tivermos
professores suficientes, do ponto de vista da quantidade e da
qualidade. Já conseguimos fundos para a criação de um Instituto
com este objetivo. Pensamos em situá-lo no centro do país, talvez
em Mansabá”.
A intenção do Comissariado é formar inicialmente 250
monitores que, após um ano de experiência no campo,
participariam de seminários de reciclagem, fundados na avaliação
de sua própria prática.
O Instituto se preocupará com a formação de professores para
os diferentes níveis de Ensino, para a admissão de cujos candidatos
há exigências diferentes em função do nível para o qual serão
capacitados.
Assim, àqueles e àquelas que se formarão para o primeiro ciclo
do Básico se exige a sexta classe, como condição de ingresso. O
tempo de duração de seu curso será de três anos. Aos que atuarão
no segundo ciclo do Básico se exigirá a nona classe e seu curso,
como o anterior, será igualmente de três anos.
Para o Geral Polivalente será requerida aos candidatos, como
condição de ingresso, a décima primeira classe e seu curso será
também de três anos.
“Podemos dizer, afirma Cabral, que este Instituto será um dos
embriões da primeira universidade do país. Vamos ter ainda
professores para a escola de formação de professores. Estes terão
onze anos de escolaridade a que se juntarão mais quatro de
formação num Instituto de Pedagogia.”
Creio, direi agora num quase parêntese, que não trairei o
espírito do Comissariado de Educação da Guiné-Bissau, afirmando
que a importância, várias vezes ressaltada nestas páginas, que ele
vem dando e pretende dar à gradual formação científica dos
educandos, de que resulte cada vez mais uma compreensão critica
de sua realidade, ao atuar sobre ela, não tem nada que ver com
uma posição cientificista. Posição que implicaria na mitificação da
ciência e na distorção da razão. Da mesma forma, o seu
reconhecimento das relações necessárias entre educação e
produção, em que fundamenta aquela, não o faz resvalar para a
mitificação da produção e, com a desta, a do consumo.
Tanto quanto venho aprendendo da experiência guineense, me
parece que um dos aspectos básicos do sistema de educação
constituindo-se é o chamamento que vem fazendo aos educandos
para, ao lado de sua indispensável formação cientifica e
concomitantemente com ela, numa prática adequada,
desenvolverem a solidariedade, a responsabilidade social, o gosto
do trabalho livre, como fonte de conhecimento, na produção do
socialmente necessário, a camaradagem autêntica e não a
competição que o individualismo gera. E é entregando-se a esta
tarefa que o Comissariado de Educação vem contribuindo para a
formação do homem novo e da mulher nova.
"O objetivo real do novo sistema, afirma enfaticamente Mário
Cabral, é eliminar o que resta do sistema colonial para que
possamos realizar os objetivos traçados pelo PAIGC: criar um
homem novo, um trabalhador consciente de suas responsabilidades
históricas e da sua participação efetiva e criadora nas
transformações sociais. Esperamos concretizar este desejo através
do conhecimento cada vez mais real das necessidades concretas do
país, da definição de nosso projeto de desenvolvimento e do próprio
trabalho realizado a nível das instituições escolares, através de
discussões nos órgãos coletivos. Discussões não só quanto a
aspectos técnicos, mas também no que se refere às próprias
necessidades da vida.”
Mais adiante, porém, adverte, “todo o projeto de transformação
do sistema nacional de Ensino não nos conduzirá a nada, se
realmente não houver transformações também nos outros setores
de atividade”.
"É possível, disse Mário Cabral na ultima reunião que tivemos
em Bissau, em setembro deste ano, que, em certos casos, a
educação lance o desafio. E preciso, porém, que as transformações
estruturais se façam, dando suporte ao desafio, para que a prática
nele anunciada se concretize.”

(B) Seguindo a prática normal na Guiné-Bissau – a das discussões


abertas, estimuladas sempre pelo PAIGC e pelo Governo – o
Comissário Mário Cabral, num grande comício recentemente
realizado em Bissau e que reuniu estudantes e suas famílias,
professores, funcionários da Educação e interessados em geral, fez
o balanço das atividades do ano letivo que findou. Balanço no qual
falou das tarefas principais do Comissariado para o próximo ano
letivo, considerado o “Ano II de Organização”.*
Toda a primeira parte de seu discurso, claro e direto, se centra
na análise das dificuldades e problemas que tiveram de enfrentar, a
partir de outubro de 1974, quando o PAIGC, entrando em Bissau,
assume o governo de todo o país. A retirada, em massa, dos
professores secundários, cuja maioria era composta de "militares
que estavam aqui para oprimir o nosso povo, para obstaculizar o
nosso avanço no sentido do progresso”. A falta de experiência no
*
Nô Pintcha, novembro, 1976.
comando de um Comissariado de Educação, na sua organização;
nas tarefas de planejamento, de organização e reorganização
curricular. O que fazer diante da herança do ensino colonial, que
sabiam porém não poder transformar da noite para o dia. Dai a
recusa, sublinha o Comissário, à idéia de alguns de fechar,
sistematicamente, todas as escolas. “Queriam que fechássemos as
nossas escolas para reorganizar o Comissariado. Para podermos de
fato fazer um ensino como deve ser, com qualidade e meios
necessários. Isso era um sonho. Ainda hoje não estaríamos em
condições de começar as nossas aulas porque não conseguimos ter,
até agora, os meios de que um tal ensino precisa”.
Refere-se aos acertos e aos erros cometidos, à dedicação de
muitos, às falhas de alguns. Salientando o que representou o
período de outubro de 1974 a setembro de 1975, como aprendizado
para todos os que se deram às tarefas da educação, chama esse
período de “Ano de Experiência” em que se constatou a necessidade
de o que a este se seguiu ter sido o "Ano I de Organização”.
Ao analisar as realizações do ano que findava, o "I de
Organização”, criticando, mais uma vez, falhas que mereciam ser
criticadas e não escondidas, mas ressaltando também os acertos e
o espírito de militância da maioria de seus camaradas da Educação,
disse não apenas das dificuldades, mas do esforço desenvolvido na
estruturação do Comissariado. Dos resultados obtidos através dessa
estruturação, com a criação, por exemplo, “de órgãos coletivos,
como o Conselho Diretivo, o Conselho Técnico Docente e o Conselho
Administrativo”. Órgãos que funcionaram dinamicamente e que
possibilitaram discussões constantes em torno da realidade
educativa do país.
O importante desses Conselhos não está, obviamente, na sua
existência em si mesma, na estrutura do Comissariado, pois que
também existem em outros Ministérios de Educação. O importante
é a prática neles desenvolvida, em coerência com os objetivos a que
servem; o clima de busca, de diálogo, que os caracteriza.
A sua atividade “vem permitindo, de fato, diz Cabral, avançar
com o nosso trabalho”.
Páginas atrás, falando do sistema educacional que se vem
constituindo na Guiné-Bissau, a partir da prática sobre a qual se
vem constantemente pensando, inclusive nos Conselhos acima
referidos, dizia, mais ou menos, que uma de suas preocupações
centrais era a das relações entre a escola, qualquer que fosse o seu
nível, e a realidade local, regional e nacional.
Creio que será interessante, mais uma vez, voltar a Mário
Cabral, no seu discurso-relatório, que vem sendo citado e
comentado nestas páginas. “Um dos objetivos principais da
transformação de nosso ensino, diz ele, é fazer a ligação da escola à
vida – ligá-la à comunidade onde se encontra, à tabanca, ao bairro.
Ligar a escola ao trabalho produtivo, em especial ao trabalho
agrícola; aproximá-la das organizações de massas – JAAC,
Pioneiros, Sindicatos, Organização Feminina. Podemos dizer que
esse trabalho foi realizado e, em várias regiões, de maneira
bastante eficiente. Na região de Bafatá, por exemplo, em 106
escolas, 96 produziram nos seus campos agrícolas. Em Bissau,
mesmo que não tenhamos conseguido os mesmos resultados, muito
se fez, também.”
"Foi, porém, continua Mário Cabral, na escola de Có, onde se
alcançou o máximo de ligação entre escola e trabalho produtivo,
entre escola e população local, com a integração desta a atividades
culturais promovidas por aquela. Podemos considerar a escola de
Có, realmente, como a primeira escola do pais, durante este ano
que termina”.
Dedicarei, mais adiante, algumas páginas a esta escola ou,
mais precisamente, ao Centro de Formação de Professores Máximo
Gorki, pela importância que vem tendo, estou certo, na educação
do pais a que se junta, de modo especial, o suporte que vem dando
ao esforço de alfabetização de adultos.
Sentimo-nos, particularmente Elza e eu, fortemente presos a
este Centro, o qual jamais deixamos de visitar em nossas idas à
Guiné-Bissau. Visitas em que sempre nos impressionam a dedicação
de seus professores e o otimismo critico de que se acham
infundidos no desempenho de suas tarefas.
Continuando a análise do depoimento do Comissário com
relação ainda às realizações no ano letivo 75-76, gostaria de fixar
os seguintes pontos por ele referidos: participação dos estudantes
liceais de Bissau nas atividades produtivas; criação, na área do
ensino primário, de um comitê do Partido, ao qual se vêm
associando os professores, conseguindo realizar um interessante
trabalho cultural, ao lado do desenvolvimento de uma necessária e
correta militância, contribuição excepcional das crianças das
escolas, ajudadas por seus professores, às comemorações do XX
aniversário do PAIGC, através de números de "ginástica massiva”.
Seminários em que os responsáveis das várias regiões educacionais
do país, de um lado, debateram, em conjunto, suas dificuldades,
trocando experiências em torno de como vêm procurando superá-
las; de outro, aprofundaram sua capacitação, para, assim, capacitar
e recapacitar seus camaradas. "Devemos dizer, afirma Cabral, que
foi ainda neste ano que conseguimos terminar a formação de 30
professores primários, que constituem maior número de quadros do
que os colonialistas portugueses capacitaram em todos os 500 anos
de dominação”.
Este último dado fala, por si, das excelências do colonialismo...
A parte final de seu balanço Mário Cabral dedica às tarefas
principais do Comissariado de Educação para o ano letivo 76-77,
que considera o Ano II de Organização. Três são estas tarefas. A
primeira delas, a participação de todas as escolas no Terceiro
Congresso do Partido. "Mas, camaradas, como vamos dar a nossa
contribuição a este Congresso?”, pergunta ele.
É interessante meditar sobre a resposta que o Comissário dá à
pergunta que faz. Não sugere nem muito menos determina, por
exemplo, que se submetam os educandos do país a um exercício
mecânico de memorização de alguns dos princípios que norteiam o
PAIGC, de que resultassem "composições” mais ou menos
padronizadas, em torno do Partido e de seu Congresso. Com um
bom militante do Partido, que conhece os seus princípios porque na
prática dos mesmos se vem formando de há muito, o Comissário
sabe muito bem que não seria este o caminho através do qual
poderia o Comissariado de Educação motivar educandos e
educadores a que dessem uma real contribuição ao Congresso do
PAIGC. Não faz sugestões manhosas no sentido de uma filiação em
massa ao Partido porque sabe, igualmente, que o PAIGC precisa de
militantes conscientes e dedicados à causa do povo trabalhador e
não de “sócios” que a ele cheguem oportunistamente.
Faz um apelo, ao contrário, a educadores e educandos para
que, juntos, trabalhem, tanto quanto possam, no sentido de que se
obtenham resultados ainda mais positivos do que os conseguidos no
ano que terminava. A participação consciente em tal esforço seria
uma das formas possíveis de, marcando o ano do Terceiro
Congresso, contribuir para ele.
"A segunda tarefa a que nos daremos é a de organizar a
campanha nacional de alfabetização”, diz o Comissário, comentando
o que já fora feito e que precisava de ser estendido e aprofundado
no próximo ano letivo. Neste sentido, refere-se aos trabalhos
realizados em várias regiões do país através das "Brigadas”
capacitadas e supervisionadas pela Comissão Coordenadora de
Alfabetização.
"Fomos este ano às regiões. No próximo, necessitamos de uma
participação ainda maior dos nossos estudantes, não só de Bissau,
mas de outras áreas do País.”
Na esfera da segunda tarefa apontada se encontra um projeto
do Governo através do Comissariado de Educação para o próximo
ano – o de um primeiro seminário a ser realizado em Bissau, de que
participariam delegações coordenadas pelos Ministros de Educação
de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.
Seminário em que se avaliaria a prática realizando-se em todos
esses paises, incluindo, obviamente, a Guiné-Bissau, no campo da
educação em geral e no da alfabetização de adultos, em particular.
De uma tal reunião poderia resultar não apenas um rico
aprendizado de todos nela envolvidos mas também a intensificação
da colaboração entre esses paises que, não obstante as
peculiaridades que têm, se encontram engajados numa mesma luta
– a da reconstrução nacional.
A terceira tarefa diz respeito à ênfase a ser dada nas relações
entre escola e trabalho produtivo, procurando-se, de um lado,
melhorar essas relações, de outro, estendê-las ao máximo ao nível
do país.
“O camarada Amílcar Cabral costumava dizer: “sou um simples
africano que quis pagar a sua dívida para com seu povo e viver sua
época”. Que paguemos todas as nossas dividas e vivamos a nossa
época.
Época de libertação total, de independência; que requer o
nosso engajamento, também total, na superação do analfabetismo,
no combate ao subdesenvolvimento – na reconstrução nacional”,
conclui o Comissário.
Não sei se estarei sendo capaz, na redação desta introdução,
com a qual espero não estar molestando demasiado os leitores e
leitoras, realizar o que me propuz com ela, desde o seu inicio –
oferecer-lhe um quadro, que sempre soube jamais seria completo,
do que vem se fazendo na Guiné-Bissau. Realizações, em sua
totalidade, que nos interessam de perto, e de que muitos temos
aprendido, e para o desenvolvimento de algumas das quais temos
dado um mínimo de nossa contribuição de maneira militante e não
estritamente profissional.
A riqueza da experiência guineense, em seu conjunto, é tal
que, falar dela, numas poucas palavras, é tarefa quase inviável. Daí
que me venha prolongando, apesar das omissões que me tenho
imposto a certos aspectos ou pormenores que sei, porém,
importantes.

(C) É tentando continuar a cumprir aquele objetivo que me


dedicarei, agora, a comentar o Centro de Capacitação Máximo
Gorki.
Visitamo-la, Elza e eu, juntamente com a equipe do IDAC, em
fevereiro deste ano, pela primeira vez.
Enquanto nos dirigíamos, manhã cedo, para Có, a pequena
aldeia rural; na zona de Cacheu, a 50 quilômetros ao norte de
Bissau, onde fica o Centro, Mário Cabral dele nos falava,
entusiasmado, e nos contava sua história recente.
Em novembro do ano passado, um grupo de educadores o
havia procurado para expor, sem rodeios, o seu projeto. Criar um
Centro de Capacitação e superação de professores num velho
quartel do exército colonial, que se esvaziara depois da
independência do pais. Um desses muitos quartéis que os
colonialistas portugueses foram pródigos em espalhar pelo pais,
geralmente cercados de arame farpado, com minas em torno, e
dentro dos quais se foram tornando, cada vez mais, prisioneiros de
si mesmos.
Havia muito o que fazer para higienizar e melhorar, em todos
os sentidos, as instalações do que antes tinham sido um ponto
fortificado do invasor e um centro também, mas em que os
colonialistas torturavam, até a morte, os nacionais, diante de cuja
determinação terminavam, não raro, por se assustar.
Neste sentido, em certa medida, o quartel gerava, sem o
querer, o futuro Centro de Formação político-pedagógica, de que os
primeiros educadores, através de seu exemplo, foram os heróis do
povo, nele torturados e mortos, pela violência colonialista. De um
deles, visitei a sepultura, em setembro deste ano, identificada,
recentemente, por pessoas da população local, que sabiam o preço
que muitos dos seus tiveram de pagar pela rebeldia e pela coragem
de querer ser, com seu povo.
No momento de nossa visita, havia, então, quatro meses,
desde quando aquele grupo de educadores, todos eles da fase da
luta, experimentados no que significara a educação nas zonas
libertadas, começara a dar-se, totalmente, aos primeiros trabalhos
para a instalação do Centro.
Refletindo as experiências vividas por aqueles educadores nas
zonas libertadas, o Centro nascia na unidade entre o trabalho
manual e o trabalho intelectual. Entregavam-se tanto às tarefas de
limpeza do imundo quartel, de caiação de suas dependências, de
melhoria de suas condições sanitárias, de capinagem do campo em
volta, de plantio de árvores, de higienização do poço que fornece
excelente água, quanto, em certas horas do dia, pensavam na
organização administrativa do Centro, nos meios de eficientemente
integrá-lo à vida da comunidade e nas suas atividades político-
pedagógicas, preparando-se, assim, para receber o primeiro grupo
de estagiários.
A impressão que este Centro me vem dando, através da prática
nele realizando-se, que implica não numa capacitação e
recapacitação de professores em termos verbalistas, na intimidade
de suas salas, mas, pelo contrário, na unidade da prática e da teoria
e na comunhão sempre maior com a população em torno, é a de
que se vem constituindo, cada dia que passa, num centro
universitário do povo. Daquele tipo de universidade a que me
referia num certo momento da primeira parte desta introdução – a
que nasce no seio do povo trabalhador e que, fundando-se no
trabalho produtivo, se dá ao esforço sistematizador do
conhecimento que resulta da própria prática. Dai que o Centro de
Có, fiel ao espírito que marcou a educação nas zonas libertadas,
venha procurando superar certas dicotomias, sem o que não lhe
seria possível marchar naquela direção. A dicotomia já anotada
entre trabalho manual e trabalho intelectual e a dicotomia entre
ensinar e aprender.
A superação da primeira dicotomia, ligada necessariamente à
superação também da separação entre prática e teoria, vem sendo
intensamente vivida. Não será demasiado repetir que o Centro
nasceu no exercício desta superação. Por outro lado, toda a sua
atividade formadora, desde quando recebeu a primeira turma de
estagiários, vem fazendo-se de acordo com este princípio. Todos os
que nele participam se dão ao trabalho produtivo, associado ao
intelectual.
Em setembro passado, vi suas áreas cultivadas. Milho,
mandioca, batata, frutas, hortaliças, a que se junta hoje, com a
colaboração do Comissariado de Agricultura, a criação de galinhas,
patos, porcos e carneiros, com que o Centro vai se tornando auto-
suficiente.
Mesmo que já fosse em si altamente positiva a participação de
todos no trabalho produtivo, seria de lamentar, porém, que, de um
lado, não se tivesse no próprio trabalho produtivo uma fonte de
conhecimento diversificado e não apenas agrícola, que ele propicia;
de outro, que a capacitação e a recapacitação dos professores
estagiários, no campo, por exemplo, do ensino básico, não se
encontrasse fundada na prática deste. Em outras palavras, se os
estagiários, após o tempo dedicado ao cultivo e à colheita, às
atividades de limpeza das dependências do Centro, fossem para
suas salas envolver-se num que fazer tradicional, ouvindo discursos
sobre como ensinar. Dai que, enquanto não tenha sua escola
primária experimental, quando aumentará indiscutivelmente a
rentabilidade de sua tarefa formadora, o Centro venha, para tal, se
servindo da colaboração de uma escola primária da mesma
comunidade, não muito longe dele, para a observação dos
estagiários.
Tendo embora de confrontar ainda enormes obstáculos
materiais,
que não precisam sequer ser enumerados, a formação que vem
tentando fazer se baseia na análise da prática. Por outro lado, na
prática de se analisar a prática, se vem experimentando, também, a
unidade entre o ato de ensinar e o ato de aprender. Unidade que se
vem vivendo não só nas atividades docentes do Centro, entre sua
equipe de professores e os estagiários, mas entre aquela e estes,
como uma equipe maior, em suas relações crescentes com as
populações das tabancas em torno do Centro.
Na verdade, só na unidade dialética entre ensinar e aprender é
que a afirmação "quem sabe ensina a quem não sabe” ganha
sentido revolucionário. Quer dizer, quando quem sabe, sabe,
primeiro, que o processo em que algo aprendeu é social; segundo,
quando sabe que, ao ensinar o que sabe a quem não sabe, sabe
também que dele ou dela pode aprender algo que não sabia. Este é
o espírito que se percebe em Có. Espírito que move o PAIGC e que
caracterizou sua atividade politico-pedagógica desde os começos de
sua constituição em Bissau e o acompanhou no Instituto de
formação de quadros em Conakry, através, sobretudo, do exemplo
vivo de Amílcar Cabral. Espírito que prossegue na luta e que anima
a educação nas zonas libertadas de que a Escola de Có é uma
continuidade.
No momento, com o apoio do Comissário Mário Cabral, os
professores efetivos do Centro pensam na realização de alguns
seminários em que se aprofundem diferentes aspectos no campo
geral da educação e das ciências sociais, de que resulte o aumento
de sua eficiência no desenvolvimento de sua tarefa formadora.
Apesar de se poder facilmente depreender das considerações
até
agora feitas em torno da Escola de Có a ênfase no político, sempre
presente em todas as atividades, creio interessante salientar este
aspecto. O nascimento do Centro, por isso mesmo, não resultou
apenas do sonho possível daquela equipe e do apoio do
Comissariado de Educação. No sonho da equipe estava a convicção
de que o Centro não poderia aparecer, da noite para o dia, como
um presente que se fazia à comunidade. Desta forma, o sonho da
equipe devia ser assumido também pela comunidade como algo
seu, sem o que não teria sentido, da mesma forma como o sonho
de libertação daqueles e daquelas que, ao lado de Amílcar Cabral,
criaram o PAIGC, precisou de ser encarnado pelo povo da Guiné e
Cabo Verde e fazer-se, assim, uma realidade. Dai o trabalho político
inicial da equipe, a nível de
D. Período de luta de libertação. Defesa contra os ataques
aéreos. (Publicação autorizada pelo Comissariado de Informação e
Turismo da Guiné-Bissau)
comitês de tabancas, através do qual, ao interpretar-se o projeto
para a concretização do Centro, já se mobilizava a população para
ativamente participar do esforço primeiro de sua criação. Assim,
com o empenho comum da população e da equipe é que se fez a
limpeza do velho quartel, a capinagem do terreno, para o que a
população entrou também com seus instrumentos de trabalho.
Selou-se, deste modo, na atividade baseada na ajuda mutua, o
diálogo em constante crescimento entre o Centro e as populações
das tabancas.
Foi esta comunhão sólida entre as populações e o Centro, que
elas sabem seu, que possibilitou, a partir de junho deste ano, uma
das melhores experiências, no campo da alfabetização de adultos,
hoje, na Guiné-Bissau e que tivemos a oportunidade de observar
em setembro
último.
Foi nesta experiência, levada a efeito por professores
estagiários, formados por membros da Comissão Coordenadora dos
Trabalhos de Alfabetização de Adultos, que se fez o melhor
levantamento sócio-econômico e cultural de uma área, na Guiné-
Bissau, e de que resultou a escolha de adequadas palavras
geradoras com que se iniciou o esforço de alfabetização no sentido
dinâmico tantas vezes referido neste texto.
A pouco e pouco, sempre em comunhão com as populações das
tabancas, o Centro estende e intensifica sua ação. “Temos feito o
possível, diz seu Diretor, Jorge Ampa, para de fato cumprir o
objetivo de nossa Escola, que é ligá-la à vida da população. Temos
um posto sanitário, com uma equipe de três estagiários, com
preparação de socorristas. As consultas são diárias, somando, às
vezes, mais de cem por mês. No período de abril a julho, continua
Ampa, foram assistidos 294 doentes”.
De acordo com a política do Comissariado de Saúde, que
privilegia a medicina preventiva, o Centro se preocupa ao máximo
com a educação sanitária, das populações, realizando, sempre em
colaboração com os comitês de tabancas, reuniões de estudo em
que se discutem certos aspectos “mágicos” ligados à saúde. As
“debilidades da cultura” a que Amílcar Cabral se referia.
Estas reuniões, poderia dizer, estes seminários em que se
discutem problemas sanitários com o povo, às vezes no terreiro
limpo, uma espécie de pequena praça no centro de uma tabanca,
ou à sombra de uma árvore ou ainda em "palotas”, palhoças,
construídas pela população, como as em que vi funcionando os
Círculos de Cultura, se centram constantemente na análise da
prática social da comunidade. É com respeito à compreensão do
mundo que se vem desenvolvendo nesta prática – o que sempre
caracterizou o comportamento do PAIGC – que o Centro trabalha
com as populações. Em última análise, a superação das "debilidades
da cultura”, que se constituem na prática social, requer a
transformação desta, através das alterações que se vão dando nas
relações sociais de produção. Mas, como esta superação não é
mecânica e sim dialética, a ação político-pedagógica a ela
endereçada e importante e mesmo fundamental. Por outro lado e
por isso mesmo os seminários em torno da educação sanitária
vinculam, usualmente, à análise da saúde, a compreensão critica do
esforço de reconstrução nacional, o que significa também discutir a
saúde em suas relações com a produção, sobretudo com o modo
como se dá a produção e as relações sociais que neste ou naquele
modo de produção se processam. Discussões que necessariamente
se prolongam em debates de ordem política.
Este esforço sério de politização, girando em torno não importa
de que atividades, se das que se prendem à educação sanitária, se
daquelas ligadas à produção ou às de alfabetização de adultos, no
fundo sempre unidas, vem alcançando também professores
primários de escolinhas localizadas na área maior em que se situa o
Centro. Em todas estas ações, porém, jamais prescinde, como
venho insistindo, da estreita intimidade com o comitê político das
tabancas.
"Colaboramos sempre com o comitê de tabanca, diz Ampa, e
participamos de suas reuniões com a população. Reuniões
presididas pelo comitê”.
Creio, porém, que problemas como o das relações entre saúde,
educação e o “modo de produção que representa em cada fase da
história o resultado da busca incessante de um equilíbrio dinâmico
entre o nível das forças produtivas e o regime de utilização social
destas forças”*, ao lado da formação em torno de conhecimentos
específicos nos campos da saúde, da agricultura, deveriam
constituir objetos de seminários a serem realizados com a equipe de
professores efetivos do Centro, com vistas a seu trabalho formador
junto aos professores estagiários. Seminários também sobre a
questão da alienação cultural, por exemplo, provocada
necessariamente, sobretudo em certas faixas da população, pela
presença colonialista, e que Amílcar Cabral, como sempre, discutiu
de maneira tão lúcida.
Na verdade, na medida em que a Escola de Có amplia suas
atividades como Centro de capacitação de professores (a primeira
turma de estagiários foi de 30; a segunda, de 60; no ano letivo de
77-78 poderá receber 100) e suas equipes intensificam sua ação
político-pedagógica junto às populações das tabancas, vai-se
impondo a elas um maior rigor no conhecimento da realidade sobre
que atuam.
Envolvidas mais e mais neste mútuo processo de
aprendizagem, se encontram, pois, inseridas num ato de
conhecimento de que os sujeitos são, de um lado, elas; de outro, os
grupos populares com os quais entram em diálogo. Aprendendo,
indiscutivelmente, destes e com estes grupos, as equipes do Centro
têm, porém, uma tarefa a que não podem escapar e para a qual
precisam de se preparar: a de ajudar, no sentido autêntico desta
palavra, aqueles grupos, através da análise de sua prática, a ir
sistematizando o conhecimento que dela deriva, ultrapassando,
assim, a mera opinião sobre os fatos por uma critica compreensão
dos mesmos.
Uma tal tarefa, com o desenvolvimento aprofundado da qual o
Centro se vai tornando aquela unidade universitária do povo, antes
mencionada, implica em que as equipes e os grupos populares
*
Amílcar Cabral – Obra citada, pág. 320.
tomem a quotidianeidade como objeto de sua reflexão. “Tomar
distância” da quotidianeidade em que geralmente se acham
“imersos”, atribuindo, não raro, aos fatos que nela se dão uma
“legalidade” intocável, é um passo indispensável para a “emersão”
dela e seu desvelamento.
A condição necessária, porém, para este passo, repita-se, é que
a “tomada de distância” da quotidianeidade se dê na análise da
prática realizada ou realizando-se e se alongue na prática
subseqüente, qualquer que seja ela, sempre social.
A análise critica por parte dos grupos populares de sua forma
de estar sendo no mundo da quotidianeidade mais imediata, a de
sua tabanca, e a percepção da razão de ser dos fatos que se dão
nela os levam a sobrepassar os horizontes estreitos da tabanca, ou
mesmo da zona, para ganhar a visão global da realidade,
indispensável à compreensão da própria tarefa de reconstrução
nacional.
Neste sentido é que uma atividade político-pedagógica como
esta e que põe em prática uma teoria do conhecimento dialética é,
em si, uma dimensão fundamental do esforço de reconstrução
nacional. Re-construção nacional que se alonga, obviamente, na
criação de uma nova sociedade, sociedade de trabalhadores, em
que um novo tipo de intelectual deve emergir – o que se forja na
unidade entre o trabalho manual e o trabalho intelectual; entre
prática e teoria.
A Escola de Có vem sendo e pode vir a ser, cada vez melhor,
um Centro que contribui para a formação deste novo intelectual.
Estou convencido de que, em alguns anos mais, na
continuidade de um exercício em que não há lugar para uma
concepção estática nem elitista do conhecimento, a Escola de Có,
sem jamais despreocupar-se do trabalho sistematizador do
conhecimento do povo, a ser feito com ele, conhecimento que vem
derivando de sua própria prática, se irá convertendo naquele centro
universitário de que falei.
Não há por que não prever, no decorrer de sua ação e de
acordo com o crescente nível de curiosidade dos grupos populares
com os quais começou a trabalhar, bem como em função das
necessidades locais, regionais e nacionais, percebidas e assumidas
pela população, que, em certo momento, não seja possível a esta
Escola formar, entre os membros da comunidade, enfermeiros,
técnicos agrícolas, avicultores, mecânicos, eletricistas. Diferentes
especialistas cujo processo de formação não terminaria ai, mas
prosseguiria e se aprofundaria na avaliação constante de sua
prática.
O importante é que a formação desses futuros especialistas,
vindos de uma escola ampla que é a vida mesma, se faça na
compreensão critica e não estreita ou ingênua de cada prática
específica, no quadro geral da prática social de que participam. E a
compreensão critica, seja da prática especifica, seja da prática
social, demanda a formação política concomitante com a técnico-
profissional.
Em face de tudo o que se vem fazendo nesta Escola e a partir
dela, assim como de tudo o que virá a ser feito à raiz do que já se
faz, seria uma contradição se sua administração se achasse
enfeixada nas mãos apenas de seu diretor. Pelo contrário, o
governo da escola se faz através do diretor, de professores efetivos
e de professores estagiários, com igual participação.
Semanalmente, se reúne o órgão dirigente, fazendo sempre o
balanço ou a avaliação do que ocorreu na semana que passou. Sem
limite de tempo, se discutem idéias e problemas, pois se evita,
tanto quanto possível, a necessidade de decisão por voto. "Quando
votamos, diz Jorge Ampa, é porque há desacordo”.
Nestas reuniões de direção são esboçadas linhas gerais, mas
detidamente estudadas, com relação à vida do Centro, incluindo
seus projetos de ação na comunidade, linhas que são propostas ao
debate da assembléia-geral, de que participam todos os estagiários.
Nas reuniões de assembléia, não raro, novas propostas surgem,
com as quais se enriquecem os planos do Comitê Diretivo, em
beneficio do interesse comum.
Contraditório seria, por outro lado, se esta Escola, que está
ligada ao Comissariado de Educação, mas a 50 quilômetros dele e
com precárias condições de comunicação, estivesse na dependência
do Órgão Central para a solução de seus problemas imediatos e
para a organização de seus planos de trabalho. O essencial é a
harmonia entre estes planos e os objetivos da educação nacional,
que cabe ao Comissariado de Educação traçar, em coerência com a
política do PAIGC, realizada pelo Governo. Em última análise, o
Comissariado de Educação opera, a nível nacional – como a Escola
de Có, a seu nível – aberta e democraticamente. Em lugar de
asfixiar iniciativas, com um sem-número de exigências
burocratizantes, o Comissariado estimula e até exige a iniciativa, a
criatividade, sem permitir que sua ação se perca nesse mundo de
papéis que vão e que vêm e cuja função principal parece ser a de
que um “tome conta” do outro, enchendo o vazio da inoperância
“burocratista”.
Não há vazios inoperantes, “cheios” de gente, nem no
Comissariado de Educação nem na Escola de Có. Esta, marcada
pela excelente experiência levada a efeito nas zonas libertadas pelo
PAIGC e de que é, como disse antes, indiscutivelmente, um
prolongamento, vem sendo um exemplo de criatividade e de
militância.
“Dentro do Ano II de Organização, afirma seu diretor, vamos
trabalhar mais e melhor, concentrando nossa ação no Terceiro
Congresso do Partido, que em breve se realizará.” Procurando
intensificar as atividades prático-teóricas no Centro, “se pretende
saudar o acontecimento”. Neste sentido, “se obtivemos uma
aprovação de 100 por cento no ano que terminou, vamos tudo fazer
para conseguir o mesmo resultado no ano que vem”.
Não foi gratuitamente que o Centro de Formação de Professores
Máximo Gorki, da vila de Có, foi considerado, no ano letivo que
findou, como a Escola-Modelo do país.

(D) Prosseguindo nesta conversa, talvez um tanto prolongada, mas


necessária, pois que, sem ela, as cartas que se seguem perderiam,
creio, muito de sua significação, gostaria de fazer alguns
comentários, que não serão os últimos, em torno de uma reunião a
que assistimos em fevereiro deste ano. Reunião a alguns
quilômetros mais ao norte da Escola de Có, entre um grupo
significativo de uma comunidade camponesa e o Comissário de
Educação, com a presença também do responsável político da zona.
Era a primeira vez que, no processo de nossa aprendizagem da
realidade da Guiné-Bissau, entrávamos em contato com um grupo
de camponeses. Interessava-nos, obviamente, captar, tanto quanto
possível, sobretudo, como se viam a si mesmos em suas relações
com o Partido e com o Governo, no quadro geral da luta pela
reconstrução nacional. O que significava para eles esta luta,
enquanto continuidade da outra, a de libertação nacional, à qual
haviam dado seu apoio, na medida do possível, em face da
repressão colonialista a que se achavam submetidos.
A reunião se realizou, não numa sala arrumada e para ela
preparada, mas à sombra de uma enorme árvore centenária. A
melhor maneira que tinha a população de demonstrar sua
hospitalidade, era a de receber a delegação naquela sombra
acolhedora e, em intima relação com seu mundo natural, conversar
sobre os seus problemas.
A impressão que tive é a de que a área sombreada daquela
árvore é uma espécie de centro politico-cultural da população. Um
lugar de encontro, em que se conversa informalmente, mas
também em que se discutem os planos de trabalho comum. Pensei,
então, como se poderia aproveitar aquela sombra em programas de
educação informal.
Quando me dirigia à árvore, olhando sua fronde, me lembrava
de que, à sombra também de árvores como aquela, na mata,
Amílcar Cabral costumava realizar, durante a luta, muitos dos
seminários em que avaliava, com os “militantes armados”, sua ação
contra o exército colonialista. Seminários nos quais a análise de
caráter tático-militar jamais deixou de ser acrescida de discussões
de ordem política, de debates sobre a cultura com que a formação
permanente dos quadros ia se fazendo.
Lembrava-me também do que me dissera um militante, não
propriamente a propósito daqueles seminários, mas sobre um dos
muitos encontros que Amílcar Cabral tivera com camponeses
quando, dirigindo uma pesquisa em torno da realidade agrária da
Guiné, percorreu todo o país.
Cabral aproveitava a oportunidade que a pesquisa 1he
oferecia para, falando discretamente da realidade opressiva em que
se achava o povo, ir detectando futuros quadros para o PAIGC, que,
três anos depois de iniciado o recenseamento*, a 19 de setembro de
1956, era fundado.

*
Este recenseamento foi determinado pelo então Ministério de Ultramar
português, em 1953, em decorrência de um compromisso assumido por uma
delegação portuguesa que participara de uma Conferência promovida pela FAO
– Organização para a Alimentação e a Agricultura – em Londres, no ano de
1947, segundo o qual Portugal faria um recenseamento agrícola nas suas
possessões ultramarinas.
Em certo momento de sua conversa com os camponeses, no
encontro a que se referia o militante, à sombra também de uma
árvore, Cabral se levanta, com uma semente de dendê na mão e,
escolhendo um sitio adequado, cava o chão e a planta. Depois,
olhando os camponeses em volta, lhes diz: “Muita coisa vai
acontecer em nosso pais, feita por nós, pelo povo da Guiné, antes
que a palmeira que nascerá desta semente dê os primeiros frutos”.
"Anos depois, disse-me o militante, se fez uma reunião do
comitê do PAIGC daquela região, ao lado da palmeira que dava o
seu primeiro cacho.”
Ao fazer aquele discurso, que não se reduziu apenas à sua
dimensão oral, quando disse que muita coisa ocorreria no pais, feita
pelo povo, antes que a palmeira frutificasse pela primeira vez, mas
também incluiu o ato de plantar a palmeira, Cabral falou uma
linguagem de esperança. Não de uma falsa esperança, que é a de
quem espera na pura espera, por isso que vive um tempo de espera
vã. A espera só é esperançosa quando se dá na unidade entre a
ação transformadora do mundo e a reflexão crítica sobre ela
exercida.
Ao falar aquela linguagem, em uma relação horizontal com os
camponeses, Cabral começava o enraizamento, no meio do povo,
do PAIGC em formação, ao mesmo tempo em que se intensificava o
aprendizado de sua "re-africanização”, associada ao “suicídio de
classe” que se impunha aos intelectuais revolucionários africanos
para “não trair os ideais da revolução” e sobre que falou tão
claramente em seus textos.
Aberta a reunião, aquela que assistíamos, o Comissário Mário
Cabral, em poucas palavras, disse de nossa presença na Guiné-
Bissau,
do trabalho que fazíamos juntos com os nacionais no campo da
educação, terminando por afirmar que estava ali como responsável
pela educação do país, para ouvi-los e debater com eles,
livremente, as suas necessidades mais prementes.
Imediatamente, então, os cinco mais velhos do grupo se
reuniram, num circulo dentro do circulo maior, discutindo entre si,
em voz baixa, enquanto os demais permaneciam silenciosos.
Um jovem a meu lado me disse: “Conversam entre eles para
estabelecer a ordem em que devem falar bem como para definir
alguns dos pontos sobre que falarão. Fazem sempre assim”,
concluiu.
Um educador do lado de cá do mundo, insensível à
compreensão de outras culturas, sobretudo convencido de que a
única válida é a sua, já começaria a descobrir sinais de ineficiências,
pois que não se haviam "preparado seriamente para a reunião”,
diria ele.
Em dado instante, um a um, começaram os cinco a falar. De
modo geral, ricos no uso de metáforas, de gestos, com os quais
sublinhavam suas afirmações.
Referindo-se às violências dos colonialistas, um deles curvava-se e
recurvava-se para encarnar a palavra com que descrevia os maus
tratos recebidos. Andava de um canto a outro, dentro do círculo de
sombra em que estávamos, com diferentes movimentos corporais,
para expressar melhor um ou outro aspecto da história que
contava. Nenhum falou estatisticamente, dissociando a palavra de
seu corpo. Nenhum disse sua palavra para que fosse apenas
escutada.Na África a palavra é também para ser "vista", envolvida
no gesto necessário. Nenhum, como de modo geral ocorre na
África, com exceção dos intelectuais que, "desafricanizados”, negam
suas raízes, revelou medo ou vergonha de usar seu corpo, no
processo de sua expressividade.
E enquanto os via e os ouvia falando com a força de suas
metáforas e a ligeireza de movimentos de seus corpos, pensava nas
possibilidades inúmeras que se abrem, com essas fontes culturais
africanas, a uma educação libertadora.
Falaram também do momento atual, de seu ânimo de participar
do esforço de reconstrução nacional, apontando, ao mesmo tempo,
as dificuldades com que se defrontavam.
O mais velho entre os "homens grandes”, o que falou por
último, à sombra acolhedora da enorme árvore, falou a todos nós
numa linguagem igualmente de esperança.
“O PAIGC, disse ele mais ou menos, nos seus vinte anos, é
ainda uma criança. Vinte anos são muita coisa na vida de uma
pessoa, mas não na vida de um povo e de seu partido. O bom do
PAIGC é que aprendeu a andar com o povo. Eu não verei as coisas
grandes que o povo da Guiné-Bissau, o PAIGC e o Governo vão
fazer. Mas os filhos de nossos filhos verão. Eles viverão um tempo
diferente. Mas, para isso, é preciso que eu, que não vou ver esse
tempo, e todos nós façamos agora o que agora precisa de ser feito.”
Era fevereiro deste ano e recém visitáramos a Escola de Có, em
seus começos. Na volta a Bissau, impregnado do que presenciara,
previa o que viria a ser aquela Escola na medida em que se fosse
"molhando" da realidade em torno e estreitando sua comunhão com
camponeses como aqueles, cujas palavras acabara de "ver” e de
ouvir.
Sempre que vamos à Guiné-Bissau, há um tempo reservado
para novos encontros ou novas visitas (ao lado dos re-encontros e
das re-visitas) com os quais vamos mais e mais nos tornando
“íntimos” da realidade. Não vou falar aqui de todos esses encontros,
de todas essas visitas, por mais que em cada um deles ou em cada
uma delas tenhamos sempre algo de interessante a registrar. Me
parece importante, contudo, dizer que os novos encontros como as
novas visitas são fundamentais à nossa prática com as equipes
nacionais. Fazem parte do método de trabalho que adotamos em
que constantemente tratamos de ver, ouvir e indagar, submetendo
aos nacionais os resultados de nossa curiosidade.
Estamos sempre atentos ao mais simples pormenor que nos
chame a atenção numa dessas visitas ou num desses encontros e
que nos desafie a uma reflexão com os nacionais.
Seria, em verdade, impossível que, em nossas idas ao país,
participássemos de maneira eficiente dos seminários de avaliação
com a Comissão Coordenadora de Alfabetização se, I)
permanecendo somente em Bissau, não observássemos a prática
realizando-se noutras áreas do país e II) não procurássemos
conhecer, de perto, o que se vem fazendo noutros setores de
atividades que não as da alfabetização de adultos.

(E) Nas considerações que se seguem e com as quais encerrarei


esta introdução que, em muitos aspectos, se prolonga nas cartas,
tentarei uma síntese das atividades desenvolvidas, no campo da
alfabetização de adultos, na Guiné-Bissau, durante este ano.
Há um ponto que me parece necessário sublinhar, antes de
mais nada. E o que diz respeito à “linha de massas” que caracteriza
a prática e a visão da alfabetização no pais. Com isto o que se
pretende, fundamentalmente, é que a alfabetização de adultos,
como ato político, em coerência com os princípios do PAIGC, que
informam a ação do Governo, se faça com um real envolvimento do
povo. Em outras palavras, que os programas de alfabetização de
adultos, onde quer que sejam iniciados, de acordo com as
prioridades estabelecidas pelo Partido e pelo Governo, sejam
assumidos, tanto quanto possível, pelas populações locais. Dai, a
relação indispensável entre os programas de alfabetização de
adultos e os comitês políticos de tabancas e de bairros, de tal
maneira que seja, através destes comitês, que os educadores ou
animadores, enquanto militantes também, se aproximem das
populações. Na verdade, o que marca a "linha de massas”, o que a
define como tal, e o seu antielitismo revolucionário, o seu
antipaternalismo, é o papel de sujeitos que devem as massas
populares nela assumir, através de sua ingerência na própria
programação da campanha. E o dinamismo dialético entre tática e
estratégia em que ela sempre se encontra. Estrategicamente,
constantemente voltada para a generalização à globalidade da
sociedade em que se processa; taticamente, porém, podendo partir,
não da totalidade, se as condições objetivas e subjetivas não o
permitem, mas daquelas áreas em que estas condições já se estão
dando ou se acham prestes a dar-se. Se as condições já estão
dadas ou em parte dadas, o esforço de alfabetização corre
rapidamente; se as condições estão prestes a dar-se, aquele
esforço ajuda a sua concretização. Se as condições não existem e
estão muito longe de existir, a alfabetização carece de sentido. Por
isso é que não há como confundir a “linha de massas” com a
generalização voluntarista da alfabetização.
Se toda campanha de alfabetização, numa “linha de massas”,
implica, cedo ou tarde, na sua generalização à globalidade da
sociedade em que se dá, nem toda generalização de uma campanha
significa sua inserção numa “linha de massas”.
O estabelecimento de zonas e de setores prioritários, na Guiné-
Bissau, para o lançamento da campanha nacional de alfabetização,
de acordo com a realidade do país, coincide com a "linha de
massas”, em lugar de negá-la.
Em oposição ainda com a generalização voluntarista da
alfabetização, a "linha de massas”. demanda daquelas e daqueles
nela envolvidos que se experimentem, permanentemente, na
tensão entre a impaciência e a paciência. A generalização
voluntarista, pelo contrário, revela naqueles e naquelas que a ela se
dão a negação da tensão de que resulta a sua entrega à pura
impaciência. Sua tendência, ao romper a tensão necessária, é
inclinar-se a acelerar o progresso independentemente de se há ou
não condições para tal, é ensinar sem aprender, é transferir o
conhecimento pois que "não há tempo a perder”.
A ruptura da tensão, em tais circunstâncias, entre a impaciência
e a paciência, os remete aos esquemas de uma pedagogia
antidialógica em cuja prática, não importam suas intenções, o
conhecimento aparece como algo terminado, concluído. E não se
percebe a contradição entre a prática na qual o conhecimento é
transferido como um "pacote” e o discurso em que dele se fala em
termos dinâmicos.
O contrário, por outro lado, seria a ruptura de que resultasse o
quase desaparecimento da impaciência que, em tensão com a
paciência, move e empurra. Neste caso, facilmente se resvala para
a passividade que, "deixando as coisas como estão para ver como
ficam”, não tem nada com o sentido militantemente revolucionário
da “linha de massas”. Nesta, a paciência, pois, não é conformismo.
Significa apenas que a melhor maneira de fazer amanhã o
impossível de hoje é realizar hoje o possível de hoje.
Em Amílcar Cabral, essa tensão jamais se rompe. Em sua
prática revolucionária e em suas reflexões sobre ela, que deixou em
seus textos, a tensão está sempre presente. “Devemos andar
depressa, diz ele, mas não correr; sem oportunismos, sem
entusiasmos que nos façam perder de vista a realidade concreta.
Mais vale começar a luta armada com um atraso aparente, mas
com garantias de continuidade, do que começá-la cedo ou em
qualquer momento, sem ter realizadas todas as condições que
garantam a sua continuidade e a vitória para o nosso povo”. E mais
adiante: “Conhecer bem as nossas forças, ter em cada momento
uma consciência perfeita das coisas que podemos fazer. Avaliar
bem as nossas possibilidades em cada área, em cada unidade das
forças armadas, agir sempre de acordo com essas possibilidades e
fazer tudo para melhorar as nossas forças e a nossa capacidade,
tanto no plano dos homens como no material. Nunca fazer menos
do que podemos e devemos fazer, mas não pretender, em nenhum
caso, fazer coisas que realmente não estamos ainda em condições
de fazer”.*
É seguindo esses princípios, válidos não só para a luta de
libertação, ontem, mas para a da reconstrução nacional, hoje, que o
Governo da Guiné-Bissau, através do seu Comissariado de
Educação, vem trabalhando no campo da alfabetização de adultos.
Por isso é que, sendo nacional a sua campanha, parte, como antes
salientei, daquelas zonas e daqueles setores que, propiciando uma
prática válida, oferecem aos quadros que dela participam um rico e
indispensável aprendizado com que se preparam para estender e
aprofundar a ação.
Este aspecto da capacitação de quadros para a posta em prática
de uma pedagogia como a de que falei tão insistentemente neste
texto e tenho falado em trabalhos anteriores, pedagogia que

*
Amílcar Cabral – PAIGC – Unidade e Luta, Publicações Nova Aurora,
Lisboa,1974, págs. 12-31.
coincide com os princípios básicos do PAIGC, não pode deixar de ser
um dado fundamental no quadro geral de uma campanha de
alfabetização como a em que se engaja o Governo da Guiné-Bissau.
Capacitação a ser sempre feita na unidade da prática e da teoria e
que não se pode reduzir ao “treinamento” dos militantes num certo
número de destrezas técnicas, como cada vez mais em menos
tempo se vem fazendo com a classe trabalhadora nas sociedades
capitalistas avançadas.**
Para a realização deste programa, a cargo diretamente da
Comissão Coordenadora de Alfabetização de Adultos,*** que
trabalha em estreita relação com o Comissário Mário Cabral, esta
Comissão vem realizando uma série de atividades centradas nas
zonas e setores prioritários. Atividades nem sempre fáceis de serem
levadas a efeito e cujos resultados, também, nem sempre
correspondem ao que delas se esperava. De qualquer maneira,
porém, as falhas cometidas, num ou noutro momento de uma ação
não muito bem programada e que não se fundou num
conhecimento mais detido da realidade, são analisadas, nem
sempre também sem dificuldades – é preciso não idealizar – no seio
da própria Comissão cujos membros, no exercício difícil de uma
correta autocrítica, vão aprendendo como superá-las. O importante
é estarmos convencidos, mais uma vez com Amílcar Cabral, de que
os “erros que cometemos não devem desanimar-nos assim como as
vitórias que alcançarmos não devem fazer-nos esquecer os erros”.*
A tarefa principal desta Comissão, no ano que finda, em
diálogo que procurou estreitar mais e mais com Comissariados
como o da Saúde, o de Agricultura, o de Serviços Internos, o de
Informação; com os Comitês políticos do Partido nas zonas onde
atuou; com as organizações de massas – a JAAC, a União Nacional
de Trabalhadores – com Centros de Formação como o de Có, foi a
capacitação de quadros, com a criação de Círculos de Cultura
experimentais cuja continuidade fosse possível prever. Com esta
atividade, realizada não apenas em Bissau, mas em diferentes
áreas do país, através de "Brigadas”, a Comissão, de um lado, fez
um amplo trabalho de interpretação do papel da alfabetização que
ela costuma chamar de "integral” no processo de reconstrução

**
Ver, a este propósito, Harry Braverman – Labor and Monopoly Capital – The
degradation of work in the twentieth century, Monthly Review Press, Nova York e
Londres,1974.
***
Esta Comissão, cada vez mais tornando-se intercomissarial, apresenta seus
relatórios, que são objeto de larga discussão, através do Comissário da Educação,
a uma outra, criada em fevereiro deste ano – a Comissão Nacional de
Alfabetização de que participam os Comissariados mais diretamente envolvidos
no programa de alfabetização e que tem como Presidente o próprio Presidente do
Conselho de Estado, o camarada Luiz Cabral. Cabe à Comissão Nacional,
sobretudo, traçar as linhas gerais de ação a ser exercida pela Comissão
Coordenadora, em acordo com a política do Partido. Em nossas visitas de
trabalho ao país, tivemos oportunidade de participar de duas reuniões desta
Comissão que nos deixaram uma forte impressão pelo nível das discussões e
seriedade com que se tratam os problemas.

*
Obra citada, pág. 14
nacional, mobilizando a opinião pública para a percepção crítica do
problema. Do outro, implantou núcleos do programa em quase
todas as áreas consideradas prioritárias e, sobretudo,
reconhecendo as falhas cometidas, se preparou para, no próximo
ano, o Ano II de Organização, atender bem a uma das três
principais tarefas a este ano reservadas pelo Governo, através do
Comissariado de Educação – a que diz respeito à campanha
nacional de alfabetização.
Em um relatório do mês de maio, dizia a Comissão: “Temos a
referir também e especialmente o apoio recebido por parte dos
dirigentes do Partido e do Estado, o que atesta a importância que
vem sendo dada à alfabetização”. Apoio comprovado, mais uma
vez, aos contactos que precederam a ida de uma dessas Brigadas a
uma das regiões do país. “Contactos, diz o relatório, com o
Camarada Presidente Luiz Cabral, com os diversos Comissariados
que compõem a Comissão Nacional de Alfabetização, com outros
Comissariados, com organizações de massa, com organismos
estatais”.
Em setembro passado, quando de nossa mais recente estada
no país, após a visita que fizemos à Escola de Có, a qual se
alongou, como não podia deixar de ser, a quatro tabancas em volta
do Centro, para ver e sentir o extraordinário trabalho de
alfabetização de adultos nelas realizando-se, dedicamos oito de
nossos dias na Guiné a um seminário de avaliação das atividades
levadas a cabo pela Comissão.
E interessante reafirmar, pois que disse algo sobre isto antes,
que a avaliação que realizamos não é um processo em que
tomamos a equipe coordenadora e sua ação como objetos de nossa
análise sobre que falássemos, depois, com ares doutorais. Pelo
contrário, nós e a Comissão, dialogicamente, tomamos a prática
realizando-se como objeto da avaliação e procuramos entender as
causas das falhas e estudar as diferentes maneiras de superá-las.
Não foi por pura coincidência que os esforços mais positivos, na
área civil – uma vez que os desenvolvidos no seio das FARP
revelavam, mais e mais, por todas as razões já anotadas neste
texto, um alto índice de eficiência – eram os que se vinham fazendo
nas tabancas em torno da Escola de Có. Sentia-se nos Círculos de
Cultura que vimos em funcionamento, dentro de "palotas”
construídas pela própria população, a presença político-pedagógica
da Escola de Có, em sua íntima relação com o Comitê do Partido.
Uma das conclusões, por exemplo, a que chegamos todos no
seminário da avaliação e à luz da análise do papel que vem tendo
aquela Escola foi a de a Comissão, tanto quanto possível, nas áreas
em que comece a trabalhar, procurar associar-se (além de sua
ligação normal com o Comitê local do Partido) seja com um posto
de saúde, com um Internato ou com uma cooperativa de produção
que, em real comunicação com a população local, se constituam em
pontos de apoio aos programas de alfabetização de adultos.
De uma coisa estamos certos: marchando na paciente
impaciência, por isso com segurança, os trabalhos de alfabetização
de adultos, na Guiné-Bissau, mais do que uma promessa são uma
realidade.
Ao concluir esta introdução, que sei demasiado incompleta, não
gostaria que ela pecasse por duas omissões. A primeira, a de não
registrar aqui, não apenas em meu nome pessoal, mas no da
equipe do I DAC e no do Departamento de Educação do Conselho
Mundial de Igrejas, o nosso agradecimento ao povo, ao PAIGC e ao
Governo da Guiné-Bissau pela oportunidade que nos vêm dando de,
aprendendo tanto, ensinar também e, assim, participar, como
podemos, do esforço de reconstrução do pais.
A segunda, a de não dizer, particularmente no de Elza e no meu
nome, o quanto o nosso envolvimento na Guiné-Bissau tem
provocado em nós, não uma nostalgia do Brasil, mas uma saudade
mansa, bem comportada, dos já distantes anos em que, em
Círculos de Cultura tão vivos quanto os de Có e os das FARP, tanto
aprendemos com o nosso povo.

Paulo Freire
Genebra
Inverno 1976
Post scriptum

Viagens de trabalho a São Tomé e Príncipe e Angola, em


dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, fizeram coincidir o
término da revisão tanto da Introdução quanto das cartas que
compõem este livro com a primeira visita deste ano à Guiné-Bissau,
em março passado. As observações que fiz, participando de
seminários de avaliação com a Comissão Coordenadora dos
Trabalhos de Alfabetização de Adultos, bem como em encontros
com os professores estagiários e a equipe Diretora da Escola de Có
e com responsáveis de outros setores de atividades do
Comissariado de Educação, me convenceram da necessidade deste
P. S. Ao redigi-lo, evitarei, porém, convertê-lo num relutório
minucioso de tudo o que se discutiu em torno da alfabetização de
adultos, quer nas áreas civis, quer no seio das FARP, bem como de
tudo o que pude ver e sentir nos dias em que, com Elza e Julio de
Santa Ana, da Comission on the Churches' Participation in
Development, convivi com as equipes de professores efetivos e
estagiários do Centro de Capacitação e Recuperação de Professores
Máximo Gorki, em Có. Em última instância, o que pretendo com
este P. S. é atualizar considerações, análises e informações contidas
na Introdução. Tentarei, assim, cingi-lo aos pontos que me parecem
mais importantes, entre os muitos que me impressionaram na
última visita.
O primeiro destes pontos que gostaria de considerar, ao
oferecer novos dados em torno dele, diz respeito às relações entre
educação e produção. Aspecto a que fiz referência, insistentemente,
na Introdução deste livro, salientando que o aprimoramento e a
intensificação destas relações constituem uma preocupação do
PAIGC a que o Governo, através sobretudo do Comissariado de
Educação, vem dando o melhor de seu empenho. "De todos os
nossos esforços no Comissariado, de todo o nosso trabalho, diz
Mario Cabral em recente entrevista ao Diário de Lisboa**, falando
destas relações, é este o que mais me sensibiliza e de que mais
gosto de falar.”
Esta preocupação – a de jamais dicotomizar educação de
produção – que sempre caracterizou o PAIGC, marcando
decisivamente toda a experiência educativa que se desenvolveu nas
chamadas zonas libertadas, durante a luta, não poderia deixar de
constituir-se num dado central, numa espécie de "tema gerador”
sobre que se fundaria o novo sistema educacional do país. Assim é
que, já nos começos do ano letivo de 1975, poucos meses depois da
entrada do PAIGC em Bissau, o Comissariado de Educação, ao
mesmo tempo em que mantinha e estimulava a unidade entre
educação e produção nas antigas zonas libertadas, ensaiava os
primeiros passos no sentido desta unidade nas escolas de Bissau.

*
Diário de Lisboa, abril 1977.
E. Vista parcial do Centro de Formação e Recuperação de
Professores Máximo Gorki. Escola de Có, 1997. Recreio. (Foto do
Centro Áudio-Visual, Guiné-Bissau)
Em certo momento da Introdução me refiro às tentativas realizadas
nesta direção bem como às resistências de estudantes a elas.
Resistências de estudantes que não se podiam conceber usando
suas mãos em trabalhos considerados como subalternos.
Tanto Mario Cabral quanto seus auxiliares imediatos, entre eles,
sobretudo, Carlos Dias, responsável pelo Departamento
encarregado de promover as relações entre trabalho e estudo,
sabiam que, de um lado, seria impossível superar o sistema
educacional herdado dos colonizadores, mantendo-se um liceu
verbalista, blablablante, com estudantes deformando-se,
distanciados do ato produtivo. De outro, compreendiam as razões
ideológicas que explicavam aquela resistência por parte de um bom
número de estudantes. Uma vez mais se percebe, no trato de um
problema tão fundamental, para o futuro do país, quão delicado, a
sabedoria que o PAIGC veio acumulando nos anos de luta. Uma vez
mais a solução procurada se achava no equilíbrio entre a
impaciência e a paciência ou em formas de ação impacientemente
pacientes. Não se tratava, na verdade, naquela época, de impor a
todos os estudantes do Liceu de Bissau sua participação no trabalho
produtivo, mas de convencê-los do valor formador do trabalho. O
que se impunha no momento era a busca da adesão da juventude
ao esforço de reinvenção de sua sociedade para o que a unidade
entre trabalho e estudo se fazia indispensável.
Este foi, de fato, o principal objetivo do Comissariado de
Educação, ao propor aos estudantes de Bissau, nos começos do ano
letivo de 75, os primeiros projetos visando à unidade entre a
atividade escolar e a produtiva. Havia, por parte do Comissariado
de Educação, ao iniciar o diálogo com a juventude liceal sobre a
necessidade de unir o estudo ao trabalho, uma convicção bem
firme. Convicção de que, sem tal unidade, a aprofundar-se na
medida mesma em que uma nova prática social se fosse
constituindo, não seria possível contribuir para a criação de uma
nova sociedade em que se superassem as diferenças entre o
trabalhador manual e o chamado intelectual. Uma sociedade que
sonha com ir se tornando, no desenvolvimento de seu processo,
uma sociedade de trabalhadores, não pode deixar de ter, no
trabalho livre, na produção do socialmente útil, uma fonte
fundamental de formação do homem novo e da mulher nova,
coincidentes com tal sociedade.
Conversando comigo, em março passado, sobre este problema,
dizia Carlos Dias que “seria impossível conceber o trabalho fora da
educação como se fosse algo a que aspirássemos e para o que nos
preparássemos em lugar de tomá-lo como o centro mesmo da
formação. Dai que trabalhar estudando e estudar trabalhando seja o
nosso lema.” Isto não tem nada que ver, porém, diga-se de
passagem, com a "unidade” entre trabalho e estudo que se realiza
nas sociedades capitalistas, nos chamados "centros de
aprendizagem industrial”, “viveiros” em que se "cultivam” os futuros
operários para vender sua força de trabalho à classe empresarial.
“A ligação do trabalho ao estudo, do trabalho socialmente útil,
fecundo e criador, enfatiza Carlos Dias, na transição que vivemos
para uma sociedade sem exploradores nem explorados, persegue
dois objetivos. De um lado, iluminar a contradição entre trabalho
manual e trabalho intelectual, de cuja superação total estamos
ainda longe; de outro, possibilitar o autofinanciamento gradativo da
educação, sem o que não poderia ser, em nossas condições,
democratizada.”
Mas se esta era uma convicção bem firme, como sublinhei
acima, do Comissariado de Educação, ao estabelecer, nos começos
de 75, seus primeiros diálogos com a juventude liceal de Bissau,
convidando-a a participar do trabalho produtivo, a esta convicção se
juntava uma confiança não menos firme do Comissariado na
juventude. Na juventude que deveria ser desafiada (e não
ameaçada) a assumir o seu papel no esforço da reconstrução
nacional. Não uma confiança gratuita, vaga, difusa, de que
resultasse uma posição espontaneista do Comissariado e que
repousasse na certeza ingênua de que a juventude do liceu,
entregue a si mesma, seria capaz de encontrar, com clareza, o seu
papel naquele esforço. Pelo contrário, uma confiança crítica – a
mesma que jamais deixou de estar presente na prática de
pedagogos políticos como Amílcar Cabral, Samora Machel, Fidel,
Raúl Ferrer, Makaren-ko, Freinet, Nyerere para citar apenas estes,
entre tantos outros.
Ao dialogar com os jovens do liceu, o Comissariado sabia que
uma pequena parte, por mínima que fosse, aceitaria o convite e se
entregaria às primeiras experiências de trabalho produtivo. A partir
daí, seria o testemunho dessa minoria, ao lado do permanente
trabalho político, jamais descurado, que iria comunicando-se aos
demais.
Desta maneira, as iniciativas que, em pequena escala, se
lançam em 75 se alargam e aprofundam em 76 e alcançam em
março deste ano um nível surpreendente. A pequena minoria que,
atendendo ao convite do Comissariado de Educação, em começos
de 75, se deu ao esforço produtivo, se transformou, em dois anos,
na unanimidade dos alunos do Liceu de Bissau. Hoje, 800 jovens
deste liceu, organizados em comitês de que o responsável ou a
responsável se elege entre eles, se acham engajados numa ou
noutra forma de trabalho produtivo. Diariamente, manhã cedo,
durante o tempo de minha última visita ao pais, via-os em grupos,
disciplinados e felizes, cortando as ruas de sua cidade, em direção,
ora ao campo do Hospital Simão Mendes, a 25 minutos a pé, do
liceu, ora a um outro campo agrícola, numa área urbana de Bissau,
bastante mais longe que a do hospital. A própria presença desses
jovens, quase como se estivessem desfilando pelas ruas da cidade,
com seus instrumentos de trabalho ao ombro, é uma "linguagem”
diferente, com que anunciam a construção de uma nova sociedade.
É um testemunho novo que não pode passar despercebido à cidade,
testemunho que a desafia e que a faz pensar que algo diferente
está ocorrendo. Sua juventude, a pouco e pouco, vai deixando de
“consumir” letras, de memorizar a geografia e a história da
metrópole para ir tendo, no trabalho, a fonte de seu estudo.
Num mês de atividades, no Hospital Simão Mendes,
trabalharam 1.377 horas; num campo agrícola, em Antuta, a
poucos quilômetros de Bissau, 2.187 horas; no Comissariado de
Comércio e Artesanato, 1.908 horas.
Há algo que me parece importante salientar. A margem de
liberdade que têm os estudantes na sua participação no trabalho.
Um grupo, por exemplo, que se dedica seriamente ao cultivo das
flores no Hospital Simão Mendes, pensa na mensagem de vida que
uma rosa possa trazer diariamente aos enfermos. Amam as rosas
que plantam tanto quanto a terra que preparam para a semeadura
de árvores frutíferas. O seu amor à vida tem que ver com o esforço
de reconstrução revolucionária de sua sociedade.
No interior do país, pela própria experiência da luta, os dados
são ainda mais eloqüentes. Em Tombali, por exemplo, adolescentes
dos últimos anos de escolas de ensino básico plantaram 917
bananeiras; colheram 1.020 quilos de arroz e prepararam para o
cultivo 837 metros quadrados de terreno. No setor de Bedanda, na
mesma região, não puderam sequer medir a extensão da área
preparada para o cultivo, que ultrapassou em muito os 837 metros
quadrados acima referidos.
Bafatá continua sendo, porém, a região modelo, a melhor
organizada. Se no ano passado, conforme declarei na Introdução,
das 106 escolas da zona, 96 produziam, hoje não há uma sequer
que não tenha o seu campo agrícola. Seus alunos, com a
participação de seus professores, plantaram e colheram 24.516
quilos de batata; 4.823 quilos de arroz; 11.177 quilos de milho; 800
quilos de amendoim e 250 de feijão.
O trabalho produtivo, de caráter coletivo, vem dando a
educandos e a educadores uma visão distinta de sua formação em
comum; vem inserindo a escola nas comunidades, como algo que
delas emerge, que está com elas e não "fora” ou "acima” delas,
como algo a serviço da comunidade nacional. "No momento, diz
Carlos Dias, uma de nossas preocupações é a de conseguir que o
campo das escolas e o das famílias dos alunos se unam num só
campo produtivo. Em Bula, região do Cacheu, estamos por começar
experiências em que trabalhadores camponeses, jovens estudantes
e militantes das FARP se darão ao trabalho produtivo, de caráter
coletivo.”
É importante sublinhar, porém, que tudo isto é ainda, e não
poderia deixar de ser, um puro começo. Mesmo que não escondam
sua satisfação com os resultados que se vêm obtendo nesta
dimensão fundamental da radical transformação do sistema
educacional herdado do colonizador, o Comissário Mario Cabral e
seus auxiliares imediatos estão bem conscientes do muito que têm
ainda por fazer neste como em outros domínios da educação
nacional. Por isso mesmo, ao falarmos do que se vem fazendo no
país, ao acompanhar-nos às áreas para que vejamos, no concreto,
o de que falam, não se permitem cair num ufanismo ingênuo nem
jamais perdem o sentido da humildade. O pudor revolucionário com
que se referem à luta pela libertação nacional está presente nas
análises que fazem da luta pela reconstrução nacional, continuação
daquela.
Dentro, ainda, deste tema, o das relações entre educação e
produção, mas agora na área da alfabetização de adultos, há uma
experiência que, tudo indica, poderá vir a tornar-se exemplar para
outras regiões do país, não porque deva ser literalmente
transplantada, mas enquanto se possa converter numa fonte de
aprendizado. De aprendizado não apenas para os componentes da
Comissão Coordenadora dos Trabalhos de Alfabetização de Adultos,
mas também para nós.
É uma experiência de indiscutível riqueza pela variedade de
aspectos que nela sc entrecruzam, a ser pensados, analisados e
acompanhados em seus mais mínimos pormenores. Um deles, por
exemplo, a que fiz referência numa das cartas, citando a
experiência de Tachai, é o dinamismo que se estabelece entre a
educação e as transformações que se vão operando no contexto
sócio-econômico, de tal modo que estas, precedendo àquela ou por
ela motivadas, a estimulam e a reorientam.
Um outro, é o da necessidade, em função mesma deste
dinamismo, em certas situações, de a alfabetização ser precedida,
em aparente contradição, pela pós-alfabetização*. Dai, por isso
mesmo, que sempre tenha tomado a alfabetização de adultos como
ação cultural** o que significa, nesta visão ampla de sua
compreensão, que ela deve ser, sobretudo, um esforço de "leitura”
e de "re-leitura” da realidade, no processo de sua transformação.
Na verdade, o domínio sobre os signos lingüísticos escritos, mesmo
pela criança que se alfabetiza, pressupõe uma experiência social
que o precede – a da "leitura” do mundo.
Nem sempre, porém, é necessária a coincidência entre o
aprofundamento critico da “leitura” da realidade com o aprendizado
da leitura e da escrita dos signos linguísticos, isto é, com a
alfabetização no sentido em que é geralmente entendida. Em certas
circunstâncias, é possível que uma comunidade se engaje durante
algum tempo, numa séria prática reflexiva sobre sua realidade,
discutindo uma temática geradora significativa, ligada a seus
interesses concretos, indagando-se em torno, por exemplo, de sua
experiência produtiva, de caráter coletivo; de como produzir
melhor, perguntando-se sobre seu papel no esforço de reconstrução
nacional, envolta, enfim, num programa que poderíamos chamar de
“pós-alfabetização”, sem que, porém, se tivesse iniciado no
aprendizado da leitura e da escrita dos signos linguísticos. Seria, no
caso, a prática da “re-leitura” critica de sua realidade, associada a
uma forma de ação sobre ela, a que poderia despertar a
comunidade para o aprendizado da leitura e da escrita dos signos
linguísticos. O oposto, numa perspectiva revolucionária, é que seria
inviável, isto é, o aprendizado da língua sem o aprofundamento da
"leitura” e da "re-leitura” da realidade.
Em outras oportunidades, o aprendizado da leitura e da escrita,
corretamente associado à "leitura” critica da realidade, torna
possível aos educandos mobilizar-se e organizar-se para um tipo de
ação no momento em que uma necessidade até então

*
Em algumas das cartas que compõem este livro esta possibilidade é mencionada
**
A própria designação de Círculo de Cultura e não Escola Noturna para Adultos
ou Centro de Alfabetização, que preferi desde os começos da experiência
brasileira, tem que ver com esta visão ampla de tal processo
simplesmente sentida e às vezes nem sequer sentida se constitui
como um "destacado percebido em si”.
A mobilização e a organização para a ação se fazem a resposta
que se dá ao que antes era, como disse acima, uma necessidade
simplesmente sentida e que agora se torna um desafio, um
“destacado em si”. É como se se fizesse uma descoberta.
Dai em diante, em tal caso, o projeto, que é posto em prática e
que “nasceu” na experiência da alfabetização como ação cultural,
passa a fecundar a prática educativa que 1he deu origem.
É tudo isto o que vem caracterizando a experiência que, a partir
de fins de outubro do ano passado, se vem desenvolvendo no setor
de Sedengal, zona de Cacheu, no extremo norte do pais.
A sua história bastante recente começa quando, nos meados do
ano passado, a Comissão Coordenadora dos Trabalhos de
Alfabetização, aproveitando, de um lado, o interesse de um largo
grupo de estudantes do Liceu de Bissau, de origem interiorana, em
participar dos programas de alfabetização, e, de outro, o período
das férias maiores, capacitou 200 desses jovens, organizando, com
eles, o que chamou de Brigadas.
Ao regressar, de férias, a suas regiões de origem, jamais
trabalhando individualmente, mas sempre em equipes, coordenadas
por um deles, os estudantes se dariam à posta em prática dos
objetivos centrais das Brigadas.
Caberia a estas, atuando em áreas consideradas prioritárias,
em estreita relação com os Comitês locais do Partido, iniciar um
esforço de mobilização das comunidades, interpretando-lhes a
correta concepção da alfabetização, e motivar, através deste
esforço, alguns jovens que, capacitados pelas Brigadas, poderiam
começar os trabalhos, deixando, assim, em diferentes setores de
tais zonas, Círculos de Cultura em funcionamento, cuja continuidade
estaria assegurada por serem seus animadores jovens locais.
Saliente-se, porém, que nem todas essas Brigadas
conseguiram, por diferentes razões, alcançar tais objetivos. Sua
própria capacitação, em Bissau, se ressentiu de um maior
envolvimento de seus participantes na prática, cuja quase total
ausência esvaziou, em grande parte, o sentido da teoria de que se
1hes falou. Por outro lado, nem sempre foram bem planejados e
executados os trabalhos de mobilização das populações nem
tampouco, em outros casos, tomadas medidas necessárias para
manter viva a mobilização feita. De qualquer modo, contudo, o
projeto foi válido, não apenas por ter proporcionado o surgimento
de experiências altamente interessantes como a de Sedengal, mas
também pelo aprendizado que ofereceu à Comissão Coordenadora
ao analisar seus aspectos positivos e negativos. Mais ainda, pelo
aprendizado que os participantes das Brigadas fizeram e que está
sendo fundamental, no momento, a muitos deles, para a
continuidade de sua contribuição ao Programa de Alfabetização, ao
nível de Bissau, no período de estudos; do interior, na época de
suas férias escolares.
A mobilização, antes mencionada, das populações, com que se
buscava a organização de programas de alfabetização, no sentido
amplo a que sempre me refiro, envolvia a preocupação com um
levantamento, mesmo não muito rigoroso, das suas necessidades
básicas. Levantamento de que as populações participassem, como
sujeito, e não de que fossem simples objetos.
Na análise das atividades de todas as Brigadas fica bastante
clara a importância do papel dos Comitês do Partido, o que não
significa, porém, que a sua presença, em si mesma, pudesse
assegurar, sempre, o êxito daquelas atividades. No caso de
Sedengal, que nos interessa no momento, a mobilização da
população e o levantamento de suas necessidades básicas
contaram, desde o começo, com a participação eficiente do Comitê
local do PAIGC.
Na verdade, porém, a população de Sedengal não foi mobilizada
pela Brigada e pelo Comitê do Partido, mas com eles se mobilizou.
Daí que a organização dos Círculos de Cultura, em que seus
participantes começaram o aprendizado da leitura e da escrita,
associado à "leitura” e à "re-leitura” de sua realidade, tenha sido
assumida não só pelos alfabetizandos mas pela comunidade
mesma. É esta assunção do projeto pela comunidade a sua nota
mais forte, a que melhor explica o seu êxito. Uma das expressões
desta assunção do projeto pela comunidade esta na adesão de um
grupo de jovens que, capacitados pela Brigada, se tornaram
animadores dos vários Círculos de Cultura. Jovens camponeses,
com terceira e quarta classes primárias, nascidos e crescidos no
"mundo” de Sedengal e envolvidos, agora, com seus camaradas
mais velhos, na "re-leitura” e na "re-escritura” de seu mundo e não
apenas na leitura e na escrita de palavras. Jovens que têm andado
de sua comunidade a uma outra, a dez quilômetros de distância,
para vender cestos e esteiras, por eles mesmos produzidos, e com o
resultado de cuja venda compram o querosene com que asseguram
o funcionamento das sessões noturnas dos Círculos de Cultura. E
esta assunção do projeto pela comunidade a que explica, ainda, a
presença desta, através sempre da maioria de seus habitantes, às
reuniões periódicas que membros da Comissão Coordenadora
realizam em Sedengal com os animadores dos Círculos de Cultura.
Reuniões de avaliação de que aparentemente deviam participar
apenas os animadores, mas às quais a comunidade. com o maior
dos interesses, se incorpora.
Desta maneira, os Círculos de Cultura cada vez mais se
estendem à comunidade toda, que, tudo indica, virá a transformar-
se, toda ela, num Circulo também. Esta hipótese se vem fazendo
possível na medida em que, a partir da prática, nos Círculos de
Cultura, da “leitura” da realidade e do aprendizado, mesmo
precário, da leitura e da escrita dos signos linguísticos, em dado
momento, os alfabetizados "descobriram” a necessidade de
entregar-se a um projeto maior – o de cultivar uma enorme área de
terreno do Estado, a quatro ou cinco quilômetros de sua tabanca,
em forma de trabalho coletivo*. O momento da descoberta foi
exatamente aquele em que uma necessidade, até.então

*
O Comissariado de Agricultura, na medida do possível, vem prestando
assistência técnica a este projeto.
possivelmente apenas sentida, se constituiu num "destacado
percebido em si”.
Daí em diante, organizaram-se para a nova prática, dividindo-
se em equipes responsáveis por esta ou aquela tarefa.
Interpretaram seu projeto à comunidade que a ele aderiu
imediatamente. Juntaram esforços para a obtenção de instrumentos
de trabalho; discutiram sobre o que produzir e iniciaram o
tratamento da terra para a semeadura. Começaram assim a "re-
escrever” sua realidade. Passaram do trabalho individual ao
trabalho coletivo. “Quem não descobriu o valor do coletivo
dificilmente encontra sentido para ficar em Sedengal”, disse um
deles numa reunião da população com membros da Comissão
Coordenadora.
Uma representante desta Comissão me dizia em março que "o
entusiasmo é a nota característica da população de Sedengal. O
entusiasmo – uma certa alegria de viver –, continuava ela, que se
apodera de nós quando descobrimos uma coisa nova, maravilhosa,
diante da qual nos perguntamos como tinha sido possível viver
tanto tempo sem ela. No momento em que a descobrimos e nos
damos a ela percebemos que, por muito tempo, talvez, ela esteve
latente em nós, esperando o momento de sair. A descoberta é este
momento que chega. É assim que vejo Sedengal, o entusiasmo de
sua população, a sua alegria incontida diante de e por causa de
"sua” coisa nova – o trabalho coletivo. A descoberta do coletivo,
porém, não significou a negação do individual, mas o seu
enriquecimento. Por outro lado, continuou ela, o trabalho coletivo
vem elevando visivelmente o nível político da população. Em
recente reunião em Sedengal, em que falávamos do Terceiro
Congresso do Partido e de como Sedengal poderia contribuir para o
mesmo, a tese geral era a de que a melhor maneira de saudarem o
Congresso seria a de estenderem e aperfeiçoarem o trabalho
coletivo.”
"Sedengal, disse-me ainda a mesma camarada, semi-sorrindo,
é o lugar das surpresas. É impossível lá ir sem se ser desafiado por
algo novo. Corremos para cá e para lá, aprendendo com eles,
porque, no fundo, são eles que estão a inventar. Não é por acaso
que um deles afirmou, recentemente: Nós não sabíamos que
sabíamos. Agora, não só sabemos que sabíamos, mas sabemos que
podemos saber mais.”
É evidente, na experiência de Sedengal, que a alfabetização de
adultos, enquanto ação cultural, possibilitando a descoberta do
coletivo, terminou por engajar a população na prática do trabalho
em comum: É evidente, também, que se vem estabelecendo aquele
movimento dinâmico, a que me referi no início, entre as atividades
nos Círculos de Cultura e a ação produtiva desenvolvida na "horta”
coletiva. O que não se pode esperar, porém, no caso de Sedengal, é
que o movimento dinâmico entre os Círculos de Cultura e a prática
produtivo-coletiva seja capaz, em si, de sobrepassar um problema
fundamental, de caráter lingüístico, que tem a população. E que,
entendendo o creoulo, um pouco, fala mesmo é sua língua, sem ter
nenhuma experiência do português. Este é, na verdade, um real
problema, que se põe, não apenas' com relação a Sedengal, mas a
outras áreas do país. Problema que foi colocado na última reunião
da Comissão Nacional de Alfabetização, em março; pelo Comissário
Mario Cabral.
Uma compreensão correta das dificuldades que tem o
Comissariado de Educação da Guiné-Bissau, ao confrontar o
problema da alfabetização de adultos, não pode deixar de levar em
consideração este dado, a que se junta um outro, sobre que nem
sempre se pensa – o da diferença demasiado grande entre o
número dos que não lêem nem escrevem e o daqueles que o fazem.
Um dos legados do colonialismo, depois de cinco séculos de
“trabalhos profícuos” na Guiné, foi deixar 90 a 95% de sua
população iletrada.
De qualquer maneira, porém, nas zonas onde o bilingüismo e
mesmo o trilinguismo tem, no creoulo, uma das línguas, o
aprendizado do português, ainda que não isento de dificuldades, se
dá sem obstáculos mais sérios. O caso das FARP, em cujo seio já
não há hoje, praticamente, analfabetismo, é significativo.
A impressão que me fica, sem nenhum dogmatismo, refletindo
sobre a experiência de Sedengal, é que o dinamismo entre os
Círculos de Cultura e a atividade produtìvo-coletíva continuará,
mas, em certo momento, em face mesmo das dificuldades
encontradas, o interesse pelo aprendizado do português diminuirá,
mais e mais. Se isto ocorrer, o que não significará nenhum
desastre, não há por que a Comissão Coordenadora diga um "até
logo” triste, de quem se sentisse frustrado, a Sedengal. A sua tarefa
de Ação Cultural continuará. O domínio da linguagem, enquanto
"linguagem total”, da expressividade, permanecerá. A experiência
de Sedengal simplesmente se afirmará noutro sentido, já evidente
hoje: no da "leitura” e no da "re-escritura” da realidade, sem o
aprendizado da escrita e da leitura dos signos linguísticos.
Quanto às atividades nas FARP, me parece interessante fazer
também referências que atualizem o que sobre elas foi dito na
Introdução. Considerações fundadas sobretudo na análise que
destas atividades nos fez o seu Comissário Político, Júlio de
Carvalho, em uma reunião que tivemos com ele e seus auxiliares
imediatos. Em alguns pontos bem precisos se centram as
preocupações hoje dos responsáveis pelos trabalhos educativos no
seio das FARP. O prosseguimento de sua experiência de pós-
alfabetização, cujo processo deve ir sendo avaliado
constantemente, é um destes pontos.
Só recentemente, porém, é que foi possível intensificar,
sobretudo na zona de Bissau, o programa da pós-alfabetização ao
se poder contar com o indispensável material de suporte que
assegurará a sua extensão a outras zonas do país. Refiro-me aos
cadernos básicos, ou manuais – um, com orientações, informações
e sugestões dirigidas aos animadores; o outro, com textos cuja
temática, ao ser analisada e discutida, possibilita o aprofundamento
da “leitura” critica da realidade nacional, iniciada na fase de
alfabetização e se alonga na compreensão da realidade africana.
Esforço a que se junta, como não poderia deixar de ser, o estudo
desenvolvido do cálculo.
É importante sublinhar a participação que tiveram os
alfabetizandos na organização deste manual. A grande maioria dos
textos resultou de gravações dos debates realizados nos Círculos de
Cultura, durante a descodificação de situações a que se referiam as
palavras geradoras. O trabalho da equipe responsável foi o de
editar, o de organizar, o de sistematizar, numa linguagem que não
se distanciasse demasiado da dos alfabetizandos, o material
recolhido. Desta maneira, se tentava, com o manual, devolver aos
educandos, de forma organizada, as suas análises anteriores, em
forma de textos, verdadeiras codificações; acrescidas de novos
elementos. Ao serem "convidados”, na pós-alfabetização, à análise
critica desses textos, estariam, em última instância, analisando a
síntese de suas análises passadas.
Por outro lado, não se prescindiu, também, da contribuição de
todos os alfabetizadores (animadores) da zona de Bissau, com
quem, em grupos, a equipe responsável discutiu texto por texto.
Deste modo, na própria etapa de organização do chamado manual,
os animadores, ao discutir os textos, não só do ponto de vista da
forma, mas também de seu conteúdo, já estavam envolvendo-se
num processo de capacitação para a próxima etapa de sua tarefa.
Tarefa em que o animador terá, preponderantemente, o texto de
leitura entre ele e os educandos, como um desafio à análise de
todos. E um dos riscos será o de, na leitura do texto, não se
conseguir ultrapassar a “estrutura de superfície” do mesmo,
transformando-se, assim, o que deveria ser o esforço de penetração
na "estrutura profunda” do texto, em uma simples “lição de leitura”,
nos moldes tradicionais. Daí que se imponha uma capacitação
bastante cuidadosa do animador, capacitação a ser reforçada
constantemente em seminários de avaliação de sua própria prática.
No domínio ainda da pós-alfabetização, no seio das FARP, há
uma experiência em curso, com conotação distinta, e em estreita
colaboração com o Comissariado de Educação. Trata-se de um
projeto especial, que envolve 200 militantes das FARP, cujos
primeiros ensaios da leitura e da escrita se deram durante a luta de
libertação, no interior das matas. Participando, desde os começos,
do programa de alfabetização dos Forças Armadas, iniciado após a
independência total do país, estes 200 militantes reavivaram o seu
aprendizado feito durante a luta, passando em seguida ao que, nas
FARP, se costuma chamar de “transição à pós-alfabetização”.
“O projeto, diz Júlio de Carvalho, em colaboração com o
Comissariado de Educação, tinha, como ponto de partida, uma
avaliação, de modo nenhum de estilo tradicional, que nos
possibilitasse aferir o universo de conhecimentos daqueles
camaradas, a sua compreensão de nossa realidade e da realidade
africana em geral, os níveis de sua consciência política e a maneira
como entendiam a sua responsabilidade no esforço de reconstrução
nacional. Após a avaliação, cujos resultados foram satisfatórios, os
200 camaradas começaram a participar de um curso intensivo, com
a equivalência do ciclo preparatório, cujo programa, porém,
ultrapassa, em certos aspectos, os conteúdos que se desenvolvem
neste ciclo.
Com este projeto se chega ao segundo ponto em que as
preocupações das FARP se centram, coincidentemente, com as do
Comissariado de Educação. O de encontrar, no campo da educação
de adultos, caminhos válidos, portanto adequados à realidade do
país, que assegurem aos militantes das FARP a continuidade do ato
de conhecimento que iniciaram na etapa da alfabetização. Caminhos
que assegurem esta continuidade quer àqueles que continuem na
ativa, quer àqueles que, desmobilizados, se incorporem à atividade
produtiva, ora no setor agrícola, ora no industrial. E este, o da
reorientação das atividades dos militantes a serem desmobilizados,
é o terceiro ponto em que se fixam as preocupações das FARP, ou,
mais precisamente, do Partido e do Governo.
"O grosso dos que vão ser desmobilizados agora, diz ainda Júlio
de Carvalho, será encaminhado à atividade produtiva no campo. Em
função de nossa realidade, a agricultura se constitui no domínio
principal, mas há também pequenas e médias unidades industriais,
como, por exemplo, o plano do açúcar, para o qual está previsto o
enquadramento de um determinado número de camaradas que
serão desmobilizados. Neste mês ainda (março) iniciaremos, com
um primeiro grupo, uma cooperativa de produção, como uma
experiência piloto. Tudo está mais ou menos previsto para, tanto
quanto possível, realizarmos a unidade entre produção e educação,
trabalho e estudo. Neste sentido, preocupa-nos, intensamente, a
capacitação dos quadros para o trata-mento da terra, para os
trabalhos de agricultura – plantação da cana, de árvores frutíferas,
do arroz. Assim, trabalharemos, ao nível desta cooperativa de
produção, em estreita colaboração com o Comissariado de
Agricultura, com o de Saúde, com o de Educação. Com este,
pretendemos criar escolas na área da cooperativa para crianças e
jovens, escolas ligadas também à produção, de acordo com o
espírito do PAIGC e que o Comissariado de Educação vem
executando ao nível do país.”
“Esta será, conclui Júlio de Carvalho, uma experiência que até o
fim do ano, espero, nos poderá oferecer um modelo a ser
aproveitado em outras áreas do país, com as devidas adequações
que cada caso exija.”
Voltando à alfabetização de adultos, enquanto ação cultural,
mas nas áreas civis, entre tudo sobre o que discutimos com a
Comissão Coordenadora em nossa última visita, deixando de lado
referências a outras experiências, à necessidade que todos sentimos
de apressar certas iniciativas, me fixarei num ponto a mais, além
das análises feitas sobre Sedengal. O da preparação, não
propriamente de uma cartilha, que sempre recusei e a que dediquei,
na Introdução mesma deste livro, umas páginas criticas, mas de um
caderno do alfabetizando, que, por sugestão do Comissário Mario
Cabral, se chama Nô Pintcha – Primeiro Caderno de Educação
Popular. Um caderno que, idêntico, em espírito, ao que sugerimos
também Elza e eu à Comissão Coordenadora dos Círculos de Cultura
Popular de São Tomé e Príncipe, tem, contudo, aspectos próprios,
em função da realidade guineense.
Com duas partes ou dois momentos dinamicamente
relacionados entre si, na composição de seu todo, o Primeiro
Caderno de Educação Popular tem três objetivos principais,
igualmente entrelaçados. Oferecer aos alfabetizandos uma ajuda,
um suporte que lhes dê maior segurança no processo de sua
aprendizagem, estimulando-lhes, ao mesmo tempo, a criatividade.
Possibilitar-lhes uma transição mais fácil e mais rápida à pós-
alfabetização, e ajudar os animadores na sua tarefa político-
pedagógica.
Analisemos, um a um, os dois momentos do Caderno. O
primeiro deles é o em que os alfabetizandos começam as suas
primeiras experiências na aprendizagem da leitura e da escrita dos
signos linguísticos, associada à "leitura” e à "re-leitura” de aspectos
da realidade, representados nas codificações. 6 um momento em
que se deve dar a maior ênfase possível, na descodificação da
codificação, a que se refere a palavra geradora, à expressão oral
dos alfabetizandos, ao lado da análise critica da situação codificada.
Esta primeira parte do Caderno contém, pois, todas as palavras
geradoras, no caso da Guiné-Bissau, 20, associadas às codificações
correspondentes. Da primeira até a nona palavra náo há, porém,
nada mais que a codificação, a palavra geradora a ela referida e,
em seguida, a palavra decomposta em suas sílabas, após o que,
invariavelmente, há duas folhas pautadas em branco. Estas folhas
são um convite à criatividade dos alfabetizandos, que nelas irão
escrevendo, a principio, as palavras que eles mesmos vão criando,
através das combinações silábicas; depois, a pouco e pouco, frases
e sentenças. Seus pequenos textos.
Assim, há um tempo necessário à experiência criadora dos
alfabetizandos, engendrando-se na prática da "leitura” de aspectos
de sua realidade no ato da descodificação, bem como na prática da
análise da palavra geradora – sua decomposição em silabas – e no
momento da síntese em que, pela combinação silábica, retotalizam
a palavra geradora antes decomposta e descobrem suas palavras. &
neste sentido que a alfabetização, como ação cultural numa
perspectiva revolucionária, é um ato de conhecimento, de que os
alfabetizandos são também sujeitos.
Desta forma, somente entre a nona e décima palavra geradora é
que aparece o que chamo de "primeiro livro” do alfabetizando,
mesmo que esta expressão não venha escrita no Caderno. É um
pequeno texto, simples e direto, composto de palavras entre as
quais nenhuma é estranha às possibilidades de combinações que as
nove palavras geradoras oferecem. Em última instância, este texto
simples, escrito em linguagem accessível, é também uma
codificação. E como tal é que deve ser tratado. Não está posto no
caderno para um puro exercício de leitura, à maneira das
tradicionais “lições de leitura”. Um texto para ser memorizado, com
a repetição monótona de cada palavra. Pelo contrário, o que se
pretende com ele é o exercício, no caso, o primeiro que os
alfabetizandos estarão fazendo, de uma leitura critica e
compreensiva, que ultrapassando a sua "estrutura superficial”
alcance, a pouco e pouco, sua "estrutura profunda”, com a qual se
estabelece a relação entre o texto e o contexto social.
Até então, terão feito os alfabetizandos, preponderantemente, a
"leitura” da realidade através da descodificação de fotos e
desenhos. Agora, serão chamados a fazer a “leitura” da realidade
através da leitura de um texto. Daí a necessidade de uma séria
atenção a ser dada à interpretação do mesmo, que deve ser "re-
escrito”, oralmente, pelos alfabetizandos.
Da décima à décima quarta palavra geradora, o mesmo
procedimento anterior. Codificação, palavra geradora a ela referida;
palavra geradora decomposta e as duas folhas pautadas em branco.
Apoiados na experiência criadora que vêm tendo, desde o inicio
das atividades do Circulo, a de criar suas palavras, e estimulados
pela leitura do primeiro texto, será possível, a esta altura, que
alguns alfabetizandos, pelo menos, comecem a escrever, nestas
folhas em branco, não mais apenas palavras, mas pequenos textos
também. E devem ser motivados a fazê-lo.
Entre a décima quarta e a décima quinta palavra geradora, o
segundo texto, um pouco maior e menos simples que o primeiro, a
merecer a mesma leitura crítica, a ser objeto igualmente de
interpretação e a ser, tanto quanto o primeiro, "re-escrito”,
oralmente, pelos alfabetizandos.
Com o domínio, agora, de 14 palavras e a experiência, mesmo
ainda em seus começos, da leitura feita dos dois textos, uma série
de exercícios criadores, a serem inventados e re-inventados,
constantemente, e em função da realidade em que se ache o
Círculo, podem ser introduzidos. Um deles, por exemplo, a que
alfabetizandos de Bissau ou de outro centro urbano poderiam
dedicar-se, seria o de transcrever, em seu Caderno, as palavras de
ordem do Partido, registradas em cartazes ou simplesmente escritas
nos muros da cidade, a que se juntaria, também, a transcrição de
trechos do jornal No Pintcha. Este material, recolhido pelos
alfabetizandos e pelo animador, após lido, seria objeto, na reunião
do Círculo, da análise de todos.
Desta maneira, cada vez mais se irá integrando a "leitura” da
realidade, na descodificação das codificações representadas em
fotografias ou desenhos, com a leitura de textos em sua relação
com o contexto e ambas estas leituras com a prática da escrita.
Seria da mais alta importância, por outro lado, a partir da
motivação que o Caderno tem condições de criar, que se estudasse
a possibilidade de uma colaboração estreita entre a Comissão
Coordenadora, o jornal Nô Pintcha e a Rádio Nacional. Um tipo de
colaboração como a que se vem estudando, no momento, em São
Tomé e Príncipe.
A existência, no jornal, de uma página, a serviço dos Círculos de
Cultura, à disposição de seus participantes, alfabetizandos e
animadores ou animadoras, teria um enorme papel a jogar. Página
em que se noticiasse o que vem ocorrendo nos Círculos, os
avanços, as dificuldades dos alfabetizandos, as soluções
encontradas para algumas delas; em que se publicassem pequenos
textos escritos pelos alfabetizandos bem como sínteses das
discussões em torno de certos temas de interes-se nacional. Uma
tal página daria um duplo suporte aos alfabetizandos no exercício
de leitura que seu caderno lhes oferecia. De um lado, algo mais
para ler; de outro, algo que não apenas falaria deles, mas através
de que eles falariam.
Quanto à Rádio, há um mundo de possibilidades a serem
exploradas. Desde programas que levassem ao ar trechos de
debates realizados nos Círculos, à maneira de como foi feito, em
caráter experimental, em dezembro passado, -em São Tomé, e
sobre cujo conteúdo membros da Comissão Coordenadora poderiam
debruçar-se, analisando-o, até a criação de um programa.vivo e
dinâmico, através do qual se tentasse motivar os ouvintes a
Organizar, em suas casas, em suas ruas, em seu bairro, Círculos de
Cultura.
“Um Círculo de Cultura em sua casa”, programa inicialmente
transmitido da Rádio mesma, poderia, em função da motivação dos
ouvintes, deixando a Rádio e deslocando-se aos diferentes bairros
da cidade (no caso de Bissau), ser transmitido, ora da sede de um
Círculo, ora da sede do Comitê do Partido. Um tal programa poderia
vir a ter um indiscutível papel na formação política da população.
Dois textos aparecem ainda na primeira parte do Caderno. Dois
textos de Amílcar Cabral. O primeiro, entre a décima oitava e a
décima nona palavra geradora; o segundo, sobre a unidade da
Guiné e Cabo Verde, após a vigésima e última palavra, encerrando,
assim, a primeira parte do Caderno *.
O segundo momento deste, em dinâmica relação com o primeiro
(aprofundando a experiência que nele tiveram os alfabetizandos da
as-sociação entre a “leitura” critica da realidade e a leitura de
textos em sua relação com o contexto, a que juntaram a da
escrita), os situa, cla-ramente, na transição à pós-alfabetização.
Deixarei de falar aqui nos aspectos mais metodológicos que
tudo. isto implica. Nos exercicios de fixação, de reconhecimento, de
supera-ção de algumas dificuldades encontradas durante o ato de
conheci-mento iniciado pelos alfabetizandos desde o seu encontro
com a pri-meira palavra geradora. Exercícios que devem ir sendo
realizados na

*
É importante salientar também a existência, por sugestão de Miguel Darcy
de Oliveira, da equipe do IDAC, na primeira parte do Caderno, de quatro páginas
entre as em que se acham as palavras geradoras, tendo apenas os lugares
indicados para a codificação e as famílias silábicas da possível palavra geradora
que venha a ser necessária, em função da realidade onde esteja localizado um ou
outro Circulo de Cultura. Caberá, toda vez que uma tal situação ocorra, ao
animador ou animadora e aos alfabetizandos e alfabetizandas preencher os
quadrados em branco com a codificação e as palavras geradoras mais adequadas.
F. Professores estagiários da Escola de Có. Campo de
Produção. (Fotos do Cento de Áudio-Visual, Guiné-Bissau)
medida em que os educandos, já agora lendo e escrevendo,
começam a nova etapa de sua busca.
Em síntese, a segunda parte do Primeiro Caderno de Educação
Popular, que é introduzida por um texto curto, dois ou três
períodos, objetivo e motivador, consta de oito codificações, sem,
obviamente, nenhuma palavra geradora, pois que já não é o caso,
às quais se seguem páginas pautadas em branco e quatro textos de
Amílcar Cabral, extraídos de seu trabalho sobre formas de
resistência – a econômica, a política, a armada e a cultural.
As oito codificações, fotografias, algumas das quais de real
beleza, giram em torno de oito "temas geradores” nacionais – o da
produção, o da defesa, o da educação, sistemática e assistemática,
o da saúde, o da cultura, no sentido mais amplo da palavra, o do
papel dos trabalhadores, camponeses e urbanos, das mulheres e da
juventude no esforço da reconstrução nacional.
Os textos de Amílcar Cabral, sobre cuja importância não é
necessário insistir, se acham intercalados às codificações, sem
aparecer, porém, como se fossem suas descodificações. Estas serão
feitas pelos alfabetizandos com a participação do animador ou
animadora. Primeiro, oralmente; depois, por escrito, para o que
aproveitarão as páginas em branco que se seguem às codificações.
Pretende-se, com esta prática, na transição à pós-alfabetização,
continuar a aprofundar e diversificar, mais e mais, como antes
sublinhei, o ato de conhecimento iniciado na alfabetização e,
simultaneamente, intensificar o estímulo à expressividade oral e
escrita dos educandos.
Ao mesmo tempo, porém, pode-se imaginar a riqueza do
material que se recolherá durante esta fase. Material que revelará
não apenas o nível da capacidade dos educandos de expressar-se
graficamente, mas também o de sua compreensão da realidade
nacional.
Alguns desses trabalhos, que nascerão nos Círculos de Cultura,
escritos no Primeiro Caderno de Educação Popular, poderão vir a
constituir o primeiro volume de uma coleção de textos do Povo, à
maneira de como, quase assim, há anos passados, nasceu também
do Povo, em Montevidéu, Se Vive Como Se Puede, um livro bonito e
forte. Possivelmente hoje, em Montevidéu, um livro proibido...
É importante sublinhar, ainda, que a montagem deste Caderno
(de cujos retoques finais quanto à paginação, à organização gráfica,
à melhor posição das fotografias, ao tipo de letra a ser usada,
Claudius Ceccon, da equipe do IDAC, se encarregou) foi toda ela
realizada em Bissau, com a Comissão Coordenadora, que redigiu os
dois primeiros textos da primeira parte, o que introduz a segunda e
selecionou os de Amílcar Cabral. Terminada a montagem, o projeto
do Caderno foi submetido ao Comissário Mario Cabral e ao
Camarada José Araújo, Secretário para a Organização do Partido, a
quem caberia a decisão final para a sua impressão.
A este Primeiro Caderno de Educação Popular, tudo indica,
outros se seguirão, na medida em que os trabalhos avancem e a
pós-alfabetização comece a exigi-los.
O aprendizado que as equipes nacionais vão fazer com a posta
em prática do Primeiro Caderno lhes abrirá os caminhos para os que
virão.
Não poderia deixar, neste P.S., de dedicar, pelo menos duas
páginas, à nossa passagem por Có, onde, durante quase três dias,
Elza, Júlio de Santa Ana, Régula, uma jornalista Suíça, e eu
convivemos, fraternalmente, com os 60 professores estagiários e a
equipe de professores efetivos do Centro Máximo Gorki.
Preocupava-me, naquele convívio, testar o que dissera sobre o
Centro, nas páginas que, na Introdução deste livro, escrevera,
meses antes, e que trazia comigo. Páginas que re-li,
cuidadosamente, durante o tempo do curto convívio.
Foi com satisfação que fui constatando que o fundamental do
que havia dito se ia reconfirmando nas entrevistas com a Direção,
nas visitas ao campo de trabalho agrícola, na algazarra alegre com
que, às seis de todas as manhãs, os via entregues à preparação
física. Nas idas às tabancas em torno do Centro, onde os Círculos de
Cultura continuam funcionando, apesar da existência de problemas
linguísticos, se bem que não tão agudos quanto os de Sedengal.
Nos seminários regulares, vivos e dinâmicos – e não aulas
tradicionais – a que assistimos e cujos debates nos impressionaram
fortemente. Ao escutar as informações sobre o projeto em que o
Centro se engajou, recentemente, com a colaboração de outra
Suíça, Régula também, e que se propõe a investigação de aspectos
culturais e históricos da zona, através, inicialmente, de entrevistas
com “homens grandes” locais que, ao gravar as recordações de que
são depositários, estão gravando a memória coletiva, a memória de
seu povo*. Ao participarmos de uma reunião plenária, o órgão
máximo do Centro, em que li algumas das páginas da Introdução –
as que falavam da experiência de Có – e após o que houve uma
conversa generalizada, cujo tema, a pouco e pouco, se foi fixando
na compreensão do Centro como uma continuidade da experiência
educativa que nasceu e se desenvolveu nas antigas zonas
libertadas, durante a luta. Daí, então, na conversa generalizada, o
retorno a Amílcar Cabral, de quem mais uma vez falavam, mas a
quem, mais uma vez, entendiam como uma Presença e não como
um mito. Falavam de sua visão extraordinária, de sua capacidade
de prever, de seus sonhos, de sua influência, mas recusavam, uma
vez mais, seguindo o próprio Amílcar, cultuar sua personalidade.
“Amílcar Cabral não morreu, continua em nós, disse um deles.
Aquilo de que falou está a nascer dia a dia através de nosso
trabalho. Muitos dos sonhos que sonhou, sonhos do Povo, sonhos
nossos, estão sendo realizados. O inimigo publicou no mundo a
morte de Cabral, pensando que assim matava o PAIGC. Mas o
PAIGC não morreu. Cabral não morreu. Nós somos todos Cabral.”

*
Pode-se imaginar a importância de um projeto como este, que enraíza cada vez
mais o Centro na área em que se acha. Mesmo que, no momento, por diferentes
razões, não possa ir mais além da recolha do material, através das entrevistas;
mesmo que, direi mais, falte um maior rigor ao próprio processamento das
entrevistas, a sua validade é indiscutível.
Reencontrei, em todos os momentos, o mesmo espírito de
militância, que está presente nas mais mínimas atividades, nas
menos como nas mais criadoras. Na limpeza do pátio do Centro,
como no cuidado, manhã cedo ou sol se pondo, do bananal viçoso e
cheio de vida. Na limpeza dos quartos, como no amassar o trigo
com que fazem o pão que todos comem. No lavar os pratos e as
panelas, como na participação entusiástica nos seminários. O
mesmo sentido de equipe, de unidade, em que não há lugar para
vedetismos nem privilégios de uns contra os direitos dos demais. A
mesma responsabilidade social e política de todos, com relação ao
Centro; do Centro, como um todo, com relação ao Povo, com
relação à luta de reconstrução nacional.
Não há melhor maneira de encerrar estas páginas sobre o re-
encontro recente com o Centro de Có e, com elas, este P.S. um
pouco alongado, mas, creio, necessário, do que citando o que de
um de seus professores ouvimos numa conversa em que, entre
afirmando e indagando, falávamos deste espírito de participação, de
disciplina criadora, de militância, que vem caracterizado o Centro.
“Todos somos responsáveis, no Centro e do Centro”, disse-nos ele,
sem mais comentários.

Paulo Freire
Genebra
Primavera, 1977.
CARTAS À GUINE-BISSAU
“A luta de libertação, que é a expressão mais complexa do vigor
cultural do povo, de sua identidade e de sua dignidade, enriquece a
cultura e lhe abre novas perspectivas de desenvolvimento. As
manifestações culturais adquirem um conteúdo novo e novas
formas de expressão. Tornam-se assim um instrumento poderoso
de informação e de formação política, não somente na luta pela
independência mas ainda na batalha maior pelo progresso.”

Amílcar Cabral

"...a dinâmica da luta exige a prática da democracia, da critica e da


autocrítica, a crescente participação das populações na gestão de
sua própria vida, a alfabetização, a criação de escolas e serviços
sanitários, a formação de 'quadros’ extraídos dos meios
camponeses e operários, e outras tantas realizações que implicam
em grande aceleração do processo cultural da sociedade. Tudo isso
torna claro que a luta pela libertação não é apenas um fato cultural
mas também um fator de cultura.”

Amílcar Cabral
Engenheiro Mário Cabral
Comissariado do Estado para Educação e Cultura
Bissau – Republica da Guiné-Bissau

Genebra, 26.1.1975

Prezado camarada.

Recebi, há poucos dias, uma carta de pessoa ligada à Guiné-


Bissau em que me dizia haver tido, recentemente, em Bissau, um
encontro com você e com o camarada Presidente do Conselho do
Estado, no qual se discutiu a possibilidade de uma contribuição a
ser dada por uma equipe, de que eu participasse, ao esforço do
Governo da Guiné-Bissau no setor da alfabetização de adultos.
Sugeria, em seguida, a pessoa referida, que eu lhe escrevesse,
iniciando assim uma conversação em torno de como concretizar-se
tal contribuição.
Como homem do Terceiro Mundo, como educador com este
mundo comprometido, outra não pode ser a minha posição, como a
dos companheiros com quem trabalho, senão a de oferecer a
contribuição mínima que possamos dar ao povo da Guiné-Bissau.
Considerando, porém, a impossibilidade de uma ida minha, no
momento, a Bissau, para discutir pessoalmente as bases de nossa
participação, consulto-o se lhe seria possível vir a Genebra por dois
ou três dias ou, pelo menos, se algum de seus auxiliares poderia
fazê-lo.
Nesse encontro, para o qual estaria livre a partir do dia 19 de
abril, discutiríamos não apenas os meios de como viabilizar a nossa
contribuição, mas também algumas linhas gerais para um trabalho
de alfabetização de adultos na Guiné-Bissau. Alfabetização de
adultos que, numa perspectiva libertadora, enquanto um ato
criador, jamais pode reduzir-se a um quefazer mecânico, no qual o
chamado alfabetizador vai depositando sua palavra nos
alfabetizandos, como se seu corpo consciente fosse um depósito
vazio a ser enchido por aquela palavra. Quefazer mecânico e
memorizador, no qual os alfabetizandos são levados a repetir, de
olhos fechados, vezes inúmeras, sincronizadamente: la, le, li, lo, lu;
ba, be, bi, bo, bu; ta, te, ti, to, tu, ladainha monótona que implica
sobretudo numa falsa concepção do ato de conhecer. “Repete,
repete, que tu aprendes” é um dos princípios desta falsa concepção
do ato de conhecer.
Na perspectiva libertadora, que é a da Guiné-Bissau, que é a
nossa, a alfabetização de adultos, pelo contrário, é a continuidade
do esforço formidável que seu povo começou a fazer, há muito,
irmanado com seus lideres, para a conquista de SUA PALAVRA. Daí
que, numa tal perspectiva, a alfabetização não possa escapar do
seio mesmo do povo, de sua atividade produtiva, de sua cultura,
para esclerosar-se na frieza sem alma de escolas burocratizadas,
em que cartilhas elaboradas por intelectuais distantes do povo – em
que pese às vezes sua boa intenção – enfatizam a memorização
mecânica a que antes me referi.
A alfabetização de adultos, como a entendemos, se faz uma
dimensão da ação cultural libertadora, não podendo ser, por isso
mesmo, sequer pensada isoladamente, mas sempre em relação
com outros aspectos da ação cultural, tomada em sua globalidade.
Discuti-la significa discutir também a política econômica, social e
cultural do País. Aliás, foi esta percepção da interrelação das
parcialidades, na constituição da totalidade, um dos pontos que
sempre me impressionaram em Amílcar Cabral, bem como sua
compreensão critica do papel da cultura na luta de libertação, que
sendo, como ele sublinhou, “um fato cultural, é também um fator
de cultura”.
Apesar de reconhecer quão difícil lhe deve ser ausentar-se do
país por dois ou três dias, tomo a liberdade de insistir em sua vinda
pelo que ela representa de fundamental para a concretização de
algo que nos apaixona e desafia.

Fraternalmente,
Paulo Freire.
Engenheiro Mário Cabral
Comissário de Educação e Cultura
Bissau
Genebra, abril, 1975
Prezado camarada Mário Cabral,

Acabo de receber sua carta em que confirma o interesse do


Governo por nossa colaboração.
Não creio necessário estender-me dizendo-lhe da satisfação com
que a equipe do Instituto de Ação Cultural, IDAC, de que participo,
bem como o Departamento de Educação Mundial das Igrejas, onde
trabalho receberam essa confirmação.
Na minha primeira carta já lhe havia expressado o desejo de
todos nós de trabalhar com vocês, de dar a nossa contribuição, por
mínima que seja, à busca em que necessariamente se encontram
de uma nova prática como de uma visão da educação, que
responda aos objetivos que a Guiné-Bissau, em processo de re-
criação, exige.
Ao retomarmos, agora, após a chegada de sua carta, em termos
mais sistemáticos, o trabalho em equipe, com vistas à colaboração
re-ferida, de uma coisa estamos convencidos, não apenas em
função de nossas experiências anteriores, mas sobretudo devido à
nossa opção política, à qual procuramos ser fiéis – a de que nada
teremos a ensinar ai se não formos capazes de aprender de e com
vocês. Por isso mesmo é que iremos à Guiné-Bissau como
camaradas, como militantes, curiosa e humildemente, e não como
uma missão de técnicos estrangeiros que se julgasse possuidora da
verdade e que levasse consigo um relatório de sua visita, quando
não escrito, já elaborado em suas linhas gerais, com receitas e
prescrições sobre o que fazer e como. Receitas e prescrições que
seriam, para tal missão, a expressão do conhecimento que seus
participantes teriam ganho de suas experiências passadas.
Em nosso caso, pelo contrário, o que as experiências de que
participamos ontem, como as em que nos achamos envolvidos hoje,
nos ensinam é que elas não podem ser simplesmente
transplantadas.
Podem e devem ser explanadas, discutidas, e criticamente
compreendidas por aqueles e aquelas que exercem sua prática em
outro contexto, no qual somente serão válidas na medida em que
forem reinventadas.
Desta forma, a prática realizada ou realizando-se no contexto A
só se torna exemplar ao contexto B se os que atuam neste a
recriam, recusando, assim, a tentação dos transplantes mecânicos e
alienantes. É tão errado o fechamento a experiências realizadas em
outros contextos quanto a abertura ingênua a elas, de que resulte a
sua importação pura e simples. Amílcar Cabral jamais negou a
importância das experiências positivas de outros contextos, mas
também jamais aceitou a sua imitação.
Deste modo, toda vez que, pessoalmente ai, ou por cartas,
façamos referências a aspectos desta ou daquela experiência de que
tenhamos diretamente participado ou de que tenhamos informações
precisas, a intenção será sempre a de problematizar, a de desafiar.
Porque atuamos e pensamos assim, nas reflexões que fazemos
aqui, em equipe, não há lugar sequer para um esboço de projeto no
campo de alfabetização de adultos para a Guiné-Bissau. Projeto que
deve ser elaborado ai, por vocês, e a cujo desenho e processo
poderemos dar nossa colaboração, na medida em que começarmos
a conhecer melhor a realidade do País.
Aqui, discutimos, sim, a complexidade da alfabetização de
adultos, a impossibilidade de tomá-la em si mesma como se fosse
viável realizá-la fora e acima da prática social que se dá na
sociedade; a necessidade, por isso mesmo, de associá-la ao projeto
global da sociedade que se pretende criar e de que a atividade
produtiva é uma dimensão fundamental.
Discutimos, sim, o caráter político da alfabetização, como de
toda educação, caráter que demanda dos educadores uma clareza
crescente com relação à sua opção política e uma coerência com
esta opção, em sua prática.
Pensamos sobre as experiências realizadas pelo povo nas
antigas áreas libertadas do Pais e sob a orientação do PAIGC, no
campo da educação, da produção, da distribuição, da saúde. E na
educação colonial herdada e que, em contradição total com os
objetivos da sociedade que se busca criar, deve ser radicalmente
transformada e não simplesmente reformada. Dai que o novo
sistema educacional a surgir não possa ser uma síntese feliz entre a
herança da guerra de libertação e o “legado” colonial, mas o
aprofundamento melhorado e enriquecido daquela. Vale dizer, algo
que resulte da transformação radical da educação colonial.
Pensamos também, por outro lado, nas dificuldades que uma tal
transformação radical coloca, na medida mesma em que não pode
ser fruto de um ato puramente mecânico.
Pensamos ainda no quão negativo seria para a Guiné-Bissau,
tendo em vista os objetivos políticos, sociais e culturais que sempre
orientaram a prática do PAIGC, a importação de um modelo de
escola, chamada superior, de caráter elitista, “formadora” de
intelectuais intelectualistas ou de técnicos tecnicistas.
É, pois, como camaradas, conversando sempre francamente
com camaradas, que nos dispomos, com humildade, a iniciar a
nossa colaboração ao Governo da Guiné-Bissau, através, sobretudo,
do Comissariado de Educação e Cultura.
As bases concretas desta colaboração serão discutidas ai,
quando de nossa primeira visita. Do diálogo entre vocês e nós, em
torno da realidade com a qual teremos tido o nosso primeiro
contacto direto, nascerá, então, o programa mínimo que efetivará a
nossa colaboração.
Antes, porém, de nossa primeira visita, é possível que ainda 1he
escreva, dando conta de nossas atividades em Genebra.

Fraternalmente,
Paulo Freire

Engenheiro Mário Cabral


Comissário do Estado para a Educação e Cultura Bissau
Genebra, 28-7-1975

Prezado camarada,

Desde fevereiro passado, quando lhe escrevi, pela primeira vez,


falando das possibilidades de uma contribuição do Instituto de Ação
Cultural, IDAC, no campo da alfabetização de adultos, a que se
junta a do Departamento de Educação do Conselho Mundial de
Igrejas, vimos dedicando algum tempo de nossa atividade a uma
reflexão em torno do problema.
Na medida em que nós, como sublinhei na carta passada, não
nos vemos como especialistas estrangeiros, mas, pelo contrário,
nos sentimos comprometidos com a causa da Guiné-Bissau, nos
pareceu não só interessante mas necessário pôr o Camarada a par,
pelo menos, de algumas de nossas reflexões. Daí, então, esta carta-
relatório que ora lhe faço e que, espero, nos ajudará a todos nas
conversas que aí teremos, no próximo mês de setembro.
Nos nossos encontros em Genebra, vimos fixando nossa
preocupação sobre três áreas de reflexão, ligadas entre si:
a) a de uma primeira aproximação à realidade da Guiné-Bissau
através do estudo de todos os materiais que obtemos, privilegiando
a obra excepcional de Amílcar Cabral;
b) a de uma tomada de distância critica das diferentes
experiências de alfabetização de adultos de que participamos, direta
ou indiretamente, no Brasil ou em outros países da América Latina,
no sentido de pensar e repensar as positividades e negatividades
das mesmas. Um tal exercício nos parece frutífero pelos
ensinamentos que podemos dele retirar, em face do trabalho a ser
realizado na Guiné-Bissau, advertidos, porém, como enfatizei na
carta anterior, de que as experiências não se transplantam, se
reinventam.
c) a do papel que deve jogar a alfabetização de adultos,
enquanto ação cultural, na construção da nova Guiné-Bissau.
Gostaria de insistir, mais uma vez, em que esta carta-relatório
não pretende tocar em todos os pontos sobre que temos pensado e
discutido nas três áreas acima anotadas. Ela é muito mais uma
conversa entre camaradas, dai também que não vá ser tão didática
ou sistemática quanto sugere a sua primeira página.
Gostaria ainda de salientar que o clima que caracteriza nossas
reuniões de estudo não poderia ser outro senão o da curiosidade
critica, o da busca. Nelas, nos desafiamos, ora ao ler um texto de
Amílcar Cabral, procurando decifrá-lo em suas implicações; ora ao
retomar diferentes momentos do processo de alfabetização de
adultos, em experiências anteriormente vividas.
Em última análise, tais reuniões aqui, tão longe daí, são uma
introdução ao nosso aprendizado da Guiné-Bissau, sem um mínimo
do
qual não será viável a nossa colaboração. Aprendizado que terá,
com
a nossa ida ai, sua continuidade em termos mais concretos.
Quanto mais re-estudamos a obra teórica de Amílcar Cabral,
expressão de sua prática na prática de seu povo, tanto mais nos
convencemos de que a ela teremos sempre de voltar. Suas análises
do papel da cultura na luta pela libertação não se reduzem ao
momento histórico da guerra. Na verdade, aquela luta que era, ao
mesmo tempo, como ele dizia "um fato cultural e um fator de
cultura”, continua agora, apenas em forma diferente. Ontem, a luta
pela libertação perseguia a vitória sobre o colonizador, através da
"libertação das forças produtivas” de que resultassem "novas
perspectivas ao processo cultural” do País. Hoje, a libertação como
processo permanente significa não apenas a consolidação da vitória
mas também a concretização de um modelo da sociedade, já em
certo sentido desenhado na etapa da luta.
Este modelo, que é eminentemente político, deve envolver,
necessariamente, um projeto cultural global em que a educação,
nela incluída a alfabetização de adultos, se insere. Projeto cultural
que, sendo fiel, de um lado, às matrizes populares, sem contudo
idealizá-las, seja fiel, de outro, ao esforço de produção do País.
Neste sentido, nos parece que uma ação cultural, desde o nível
mesmo da alfabetização de adultos, tem muito o que fazer. Referido
à
luta pela produção, comprometido com o aumento desta produção,
o trabalho da ação cultural deve ir mais além, de um lado, da
alfabetização meramente mecânica; de outro, da capacitação
puramente técnica dos camponeses e dos trabalhadores urbanos.
Deve ser uma contribuição fundamental ao aclaramento dos níveis
da consciência política do povo. Enquanto numa sociedade
capitalista o treinamento técnico da chamada mão-de-obra
qualificada implica necessariamente em abafar a consciência política
dos trabalhadores, na Guiné-Bissau a produtividade econômica
poderá ser tão maior quanto mais clara seja a consciência política
das massas populares.
É neste sentido que um Ministério de Educação, não importa em
que sociedade, é sempre um ministério eminentemente político.
Político, se serve aos interesses da classe dirigente, numa sociedade
de classes; político, se serve aos interesses do povo, numa
sociedade revolucionária.
Se percebemos a alfabetização numa tal perspectiva,
compreendemos como jamais pode ser ela sequer pensada
isoladamente ou reduzida a um conjunto de técnicas e de métodos.
Isto não significa que métodos e técnicas não sejam importantes.
Significa que aqueles e estas estão a serviço de objetivos contidos
no projeto cultural que, por sua vez, se encontra envolvido e
envolvendo os objetivos políticos e econômicos do modelo de
sociedade a ser concretizado. Dai a ênfase que sempre demos nos
seminários de capacitação, não aos métodos e às técnicas – mesmo
sem desprezá-los – mas à clareza política dos educadores. Ênfase
que se fará tão mais necessária quando se trate de capacitar jovens
pequeno-
G. Vista parcial de um Círculo de Cultura na zona de Có. (Foto do
Centro Áudio-Visual, Guiné-Bissau)
burgueses que não tenham feito ainda o “suicídio de classe” a que
Amílcar Cabral se refere e que ele fez de maneira exemplar.
Somente na medida em que os seminários de capacitação
promovam a unidade da prática e da teoria, dando ênfase à análise
do condicionamento ideológico de classe e à necessidade daquele
"suicídio”, é que se convertem em verdadeiros contextos de
capacitação. Proporcionando a unidade da prática e da teoria eles
preparam o “suicídio” que só se dá realmente na comunhão com as
classes oprimidas, na luta pela libertação. No caso da Guiné-Bissau,
hoje, na luta ainda, sem guerra, com o povo, pela criação da nova
sociedade.
Por isso é que, num seminário de capacitação de alfabetizadores
na Guiné-Bissau, se nos afigura fundamental discutir com os
participantes, antes de analisar dificuldades técnicas de qualquer
natureza, certas afirmações de Amílcar Cabral, como as que se
seguem:
"Outros oradores tiveram a oportunidade de fazer o perfil e o
elogio bem merecido do Dr. Eduardo Mondlane. Nós queremos
simplesmente reafirmar nossa admiração pela figura de Africano
patriota e de eminente homem de cultura que ele foi. Queremos
igualmente dizer que o grande mérito de Eduardo Mondlane não foi
o de sua decisão de lutar pela libertação de seu povo. Seu mérito
maior foi o de haver sabido se integrar à realidade de seu pais, o de
se identificar com seu povo e se aculturar através da luta que ele
dirigia com coragem, sabedoria e determinação”
Ou, em outro momento do mesmo texto, referindo-se, mais
uma vez, à necessidade de identificação dos intelectuais com as
massas populares:
“Uma reconversão dos espíritos – das mentalidades – se revela
indispensável à sua (dos intelectuais) verdadeira integração ao
movimento de libertação. Uma tal reconversão – reafricanização no
nosso caso – diz ele, pode se operar antes da luta, mas não se
completa a não ser no curso daquela, no contacto quotidiano com
as massas populares e na comunhão de sacrifícios que a luta
exige.”
Sem esta "reconversão”, sobre que Amílcar Cabral sempre
insistiu, não era possível ao intelectual pequeno-burguês, ontem,
encarnar a luta de libertação e nela "reencarnar-se”.
Sem esta "reconversão” não será possível, hoje, a jovens
urbanos, pequeno-burgueses, participar com os camponeses de um
autêntico esforço cultural de que a alfabetização de adultos pode
ser um ponto de partida.
Sem esta "reconversão” a tendência do alfabetizador é
alfabetizar os alfabetizandos, é transmitir-1hes “seus”
conhecimentos, sua visão urbanamente deformada. A alfabetização
deixa de ser um ato criador e se "burocratiza” na repetição
mecânica dos ba-be-bi-bo-bu. Na memorização de palavras, de
frases, que quase nunca têm nada que ver com a realidade dos
educandos.
"La, le, li, lo, lu; ba, be, bi, bo, bu; ta, te, ti, to, tu, diz o
educador da repetição, da memorização enfadonha. Todos comigo!
continua ele. Todos comigo! mais uma vez. Fechem os olhos! De
novo!"
Na sua posição de classe, ideologizado, o educador não percebe,
mesmo quando verbaliza uma opção revolucionária, que conhecer
não é comer conhecimento, que o ato de ensinar pressupõe o de
aprender e vice-versa. Desta forma, se arvora em educador do povo
sem aceitar ser educando do povo. À sua oralidade revolucionária
se contrapõe uma prática alienante, reacionária. A Amílcar Cabral
não passaria despercebido este aspecto. Dai que tenha dito que no
movimento de libertação “nem tudo o que reluz é necessariamente
ouro: dirigentes, políticos – mesmo os mais célebres – podem ser
alienados culturalmente”.
Em todas as experiências de que participamos, no Brasil e fora
dele, tivemos que confrontar este problema.
Observávamos, por exemplo, que a nível intelectual os
participantes do seminário de capacitação aceitavam totalmente
nossas análises em torno da alfabetização de adultos como um ato
criador, em que os alfabetizandos, por isso mesmo, deveriam
assumir o papel de sujeitos no processo de aprendizagem de sua
língua e de expressão de sua linguagem. Entendiam e aceitavam,
intelectualmente, que seu papel não poderia ser o de transferidores
de conhecimento, como se fosse eles os que soubessem tudo e os
alfabetizandos os que nada soubessem. Entendiam facilmente
certos procedimentos metodológicos coerentes com esses
princípios.
Na prática, porém, muitos deles, condicionados por sua posição
de classe, pelos mitos de sua "superioridade” em face dos
camponeses e dos operários urbanos, mitos assimilados em sua
educação, também de classe, reduziam os alfabetizandos a meros
depósitos de "seus” conhecimentos. Em lugar de desafiar os
camponeses a fazer a "leitura”
de sua realidade, faziam o seu discurso aos camponeses numa
linguagem que não era a destes.
Seus erros metodológicos tinham, pois, uma razão ideológica. A
correção dos mesmos exigia algo mais que uma insistência sobre
os métodos em si mesmos. Exigia a revisão permanente de seu
condicionamento ideológico de classe.
Dai a necessidade que tivemos, cada vez maior, de insistir nos
seminários de capacitação, na análise da realidade nacional, na
clareza política do educador, na compreensão dos
condicionamentos ideológicos, na percepção das diferenças
culturais, antes mesmo de discutir técnicas e métodos de
alfabetização. Daí a necessidade que sentimos, também, de, nos
seminários, unir a teoria da alfabetização à sua prática.
Outro problema com que nos defrontamos residia em como
conciliar esta necessidade com a exigência de capacitar
rapidamente um grande número de alfabetizadores. Terminamos
por nos convencer – mesmo que não tenhamos podido generalizar
– de que o ideal seria começar capacitando 15. Quando esses 15
estivessem no meio de sua capacitação, instalaríamos 15 “Círculos
de cultura” com 20 alfabetizandos em cada um. Por outro lado,
impunha-se um debate claro com os 300 alfabetizandos desses 15
círculos de cultura sobre a importância de sua contribuição. Eles
não viriam aos círculos de cultura para receber, passivamente, as
"letras”, como se fossem um presente que os alfabetizadores lhes
fariam. Viriam aos círculos para ajudar também aos alfabetizadores
a tornar-se alfabetizadores. Sem eles, este aprendizado não se
poderia dar. Desta forma, desde o começo, os alfabetizandos
seriam chamados a assumir o papel de sujeitos no processo de sua
aprendizagem em que eles, igualmente, ensinavam algo. Ao
mesmo tempo este contacto direto dos alfabetizadores com os
alfabetizandos no curso de sua capacitação constituía a matéria-
prima de uma reflexão critica sobre sua experiência imediata,
alcançando-se assim a unidade entre teoria e prática.
Quando os 15 estivessem chegando ao término – somente
aparente – de sua capacitação, começaríamos a de mais 15. Estes
tinham uma vantagem sobre os primeiros – já se iniciavam na
unidade da prática e da teoria. Desde o início de sua capacitação,
poderiam formar-se observando e refletindo sobre a prática do
primeiro grupo. Dias após, mais 15 círculos de cultura deveriam ser
abertos, com mais 300 alfabetizandos, com quem se faria a mesma
discussão antes referida.
Altamente importante seria a troca de experiência entre os
membros do primeiro grupo de alfabetizadores e os do segundo.
Entre eles, a equipe de capacitação iria selecionando quadros de
capacitadores com os quais se multiplicaria e intensificaria o
programa.
Já agora, com 30 envolvidos no trabalho de formação, que é
permanente, receberíamos mais 30, com quem se seguiria o
mesmo ritmo descrito. Depois, 60, depois 100, etc.
Ainda que não tenha sido generalizada esta prática, ela foi
positiva onde pudemos segui-la.
Um outro ponto sobre que nos temos detido também em nossa
reflexão em Genebra é o que se refere ao aproveitamento, tanto
quanto a realidade nos permita, de pessoal local para o trabalho de
educação popular. Algumas das melhores experiências de
alfabetização de adultos que vi no Chile e de que participei tinham
como educadores jovens camponeses que, devidamente
capacitados, revelavam uma indiscutível eficiência. Trabalhavam no
campo, participando do esforço da produção, que não era, para
eles, algo vago. Era um grupo de jovens que não sonhavam com
urbanizar-se. Seus sonhos se identificavam com os de sua
comunidade.
Apoiado nas experiências de que participei e na análise de
outras de que não participei – mesmo que reconheça que as
experiências não
se transplantam, se reinventam – não temo dizer que, na hipótese
de
não poder contar:
I – com camponeses que pudessem ser rapidamente
capacitados,
como no caso chileno, para o trabalho de alfabetização,
II – com jovens urbanos capazes de cometer o "suicídio de
classe”
e de "saber integrar-se a seu país e se identificar com seu
povo
preferia dedicar algum tempo à capacitação mais demorada de
camponeses para que se tornassem educadores autênticos de seus
camaradas.
Finalmente, entre outros tantos aspectos que vêm sendo
discutidos por nós e a que não fiz referência na carta de hoje, há
um outro que nos preocupa: o linguístico. Preferimos, contudo,
discuti-lo pessoalmente, tal a sua complexidade.
Aguardamos a vinda da camarada Edna Pereira a partir do dia
20 de agosto. Peço-lhe, por favor, confirmar o dia de sua chegada.

Com o abraço cordial de


Paulo Freire.
Engenheiro Mário Cabral
Comissariado do Estado para Educação e Cultura Bissau

Genebra, agosto, 1975


Camarada Mário Cabral,

Umas poucas palavras, apenas para dizer-lhe o quanto nos


pareceu fundamental o nosso encontro, aqui, com o camarada
Teobaldo, em substituição à camarada Edna que, por motivos
superiores, não pôde vir como era esperada.
Impressionou-nos a segurança com que respondia às nossas
indagações, não apenas em torno das atividades desenvolvidas no
setor da educação, da produção, da distribuição e da saúde, nas
antigas áreas libertadas da Guiné-Bissau, mas também sobre o que
se vem procurando fazer hoje na fase de reconstrução nacional.
Estamos certos de que as conversações que mantivemos com
ele,
durante quatro dias, nos ajudaram imenso em nossa preparação
para a visita que faremos ao Pais no próximo mês.
Estas conversações se converteram, em última análise, pela
riqueza de informações que delas retiramos, numa espécie de
coroamento aos estudos sistemáticos que vimos fazendo, desde
fevereiro passado, como introdução a nosso primeiro contacto
direto com a realidade da Guiné-Bissau.
Nestes dias, você estará recebendo uma carta do IDAC em que
fazemos algumas sugestões para a organização do nosso programa
de trabalho com vocês, ai, em setembro.

Fraternalmente,
Paulo Freire.
Engenheiro Mário Cabral
Comissariado do Estado para Educação e Cultura Bissau

Genebra, outubro, 1975

Camarada Mário Cabral,

Recém-chegados daí, escrevo-lhe não apenas para agradecer,


mais uma vez, a você e aos camaradas com quem trabalhamos
durante nossa visita, a maneira fraterna como nos acolheram, mas
também para re-afirmar a satisfação que tivemos de, em diálogo
com vocês, estabelecer as bases para a contribuição mínima que
daremos ao Comissariado de Educação da Guiné-Bissau. O nosso
convívio com vocês e o primeiro contacto direto com a realidade do
País solidificaram em nós o sentido de compromisso com que
viajamos para aí. É preciso dizer, porém, que, na verdade, somos
nós os que 1hes agradecemos pela possibilidade que nos dão de
trabalhar com vocês, como camaradas, participando do esforço de
re-criação da Guiné-Bissau.
Não seria demasiado dizer também o quanto nos emocionamos,
Elza e eu, ao assistirmos aos debates em um dos Círculos de
Cultura das FARP, em que os participantes, escrevendo no quadro
negro palavras e frases, discutiam, lucidamente, a temática a elas
referida.
Sabíamos que estávamos num Círculo de Cultura das FARP em
Bissau, mas, em certo sentido, era como se estivéssemos no Brasil
de anos passados, aprendendo de e com os alfabetizandos e não
apenas a eles ensinando.
Emocionava-nos o que escutávamos, o que víamos, mas não
nos surpreendia a clareza política revelada nos debates. A mesma
clareza com que as equipes do Comissariado de Educação
discutiram conosco a problemática geral da educação. Clareza que
tende a fazer-se maior na medida mesma em que essas equipes,
sem se perderem em “especialismos", se experimentem na
confrontação dos problemas a serem resolvidos.
Sabemos todos, vocês e nós, o muito que se tem por fazer, no
sentido de colocar a educação nacional ao serviço da nova
sociedade que se pretende criar. Sabemos todos, vocês e nós, que
tal empenho, que não resulta de um ato mecânico, implica na
radical transformação do sistema de educação colonial, sem o que
se frustrará o projeto da nova sociedade.
A toda esta temática fundamental, objeto de nossas discussões
aí, teremos sempre de voltar. É que, na verdade, como sublinhei na
primeira carta que lhe fiz, não podemos discutir a alfabetização de
adultos em si mesma.
De fato, pouco estaríamos fazendo se, realizando um trabalho
de alfabetização de adultos, em si correto, preservássemos, porém,
como você salientou na ultima reunião que tivemos ai, "um sistema
educacional de caráter elitista e verbalista”.
O muito que há por fazer é, porém, um desafio a cuja resposta,
com vocês, procuraremos nos dar de forma realmente engajada.
Em pouco tempo mais, espero, estaremos escrevendo-lhe para
comunicar-lhe, então, os resultados das conversações entre o IDAC
e a Commission on Churches’s Participation in Development que se
interessa em financiar o programa que elaboramos juntos em
Bissau.
Vai aqui o abraço amigo para todos vocês de

Paulo Freire

Genebra, 26.11.1975

Prezado camarada Mário,


Antes mesmo que nos chegue sua resposta à carta que lhe
fizemos, assinada por toda q equipe, e em que, ao comunicar-1he a
obtenção do financiamento que viabiliza o nosso trabalho comum na
Guiné-Bissau, lhe propúnhamos o próximo mês de fevereiro para a
nossa primeira visita no ano de 76, escrevo-lhe de novo. Agora,
para dar-lhe algumas notícias em torno do que estamos fazendo em
Genebra, tendo em vista o nosso trabalho comum na Guiné.
Continuamos os nossos estudos em equipe – duas reuniões
semanais, além do tempo que cada um toma sozinho –
aprofundando a compreensão da problemática guineense, ao
mesmo tempo em que pensamos na preparação de certo tipo de
material que lhes possa ser útil, material, porém, que deve ser
testado por vocês. Por outro lado, estamos colecionando
documentação sobre alfabetização de adultos que iremos
remetendo ao Comissariado.
Há um interesse crescente na Europa por tudo o que ocorre na
Guiné-Bissau e Cabo Verde. Em diferentes oportunidades, em Paris,
Estocolmo e Genebra, membros da equipe temos falado dos planos
de trabalho que aí se desenvolvem.
A carta, cuja cópia lhe envio, é uma das várias que estaremos
encaminhando à equipe de Bissau. Embora reconheça o trabalho
enorme de vocês, seria, contudo, formidável se a equipe pudesse
acelerar os estudos sobre o manual do animador e se dedicasse a
fundo à preparação do material, objeto da carta em anexo.
Não sei se seria muito pedir-lhe que encontrasse um tempinho
para debater com a equipe o conteúdo da carta, discutindo os meios
mais rápidos para a produção do material de que ela trata.
Um abração para você, para a Camarada Beatriz, para todos os
camaradas amigos, carinhos para Pansau lhes mandamos todos.

Paulo Freire
Genebra, 26 de novembro de 1975
(Carta nº 1 à equipe)

Camaradas Mônica, Edna e Paulo,

Em nossa carta anterior ao Camarada Mário Cabral, em que


dávamos noticias concretas em torno das gestões feitas aqui para a
continuidade do nosso trabalho comum, dizíamos que outras cartas
se sucederiam àquela a propósito de pontos específicos do
programa de ação, ora por um, ora por outro de nós.
A que ora lhes escrevo estará diretamente ligada ao material
necessário para o uso dos projetores que serão remetidos
diretamente a Bissau, juntamente com gravadores para o registro
dos debates nos Círculos de Cultura.
O material referido deve ser usado em “círculos de cultura” cuja
localização obviamente lhes cabe decidir, de acordo com o que a
realidade aí lhes indique.Cremos, contudo, que seria interessante
realizar a experiência não apenas no seio das FARP, mas também
numa área popular de Bissau, com alfabetizandos civis. Desta
forma, poderíamos comparar os resultados, não apenas do ponto de
vista da aprendizagem da leitura e da escrita – mais rápida, menos
rápida – mas também o conteúdo dos discursos de ambos esses
grupos – os níveis mais ou menos críticos de percepção da realidade
local e nacional, por exemplo.
A preparação do material para os projetores vai exigir-lhes algo
mais do que vocês já estão fazendo de maneira correta no campo
da organização do conteúdo programático para a alfabetização. É
que, até o momento, vocês fizeram a seleção das palavras
geradoras tendo em vista não só a riqueza sociológica e política das
mesmas, mas também a sua estrutura fonética. O uso dos
projetores vai requerer agora a preparação de codificações em que
serão inseridas as palavras geradoras.
Antes de prosseguir nesta carta, gostaria de sublinhar, num
parêntese, que as considerações teóricas que nela farei e que
resultam da reflexão crítica sobre a minha prática e a prática de
outros que tenho analisado ao longo destes anos não têm nenhum
carácter dogmático. Vocês não apenas podem mas devem recriar o
que tem sido feito no campo da alfabetização de adultos, onde há
um mundo de coisas a serem pensadas e repensadas.
Voltando ao problema da codificação, em que se inserem as
palavras geradoras, talvez fosse útil tomá-la, agora, como objeto de
uma análise critica, discutindo-se sobretudo o seu papel numa
prática educativo-libertadora. Quando digo numa prática educativo-
libertadora
estou ressaltando a impossibilidade de codificação neutra (como de
descodificação), o que vale dizer que uma prática educativo-
dominadora se serve igualmente de codificações cuja constituição e
objetos se distinguem dos daquela e diante dos quais os educandos
são chamados a assumir uma postura diferente.
Talvez seja interessante também, em lugar de partir de uma
definição – algo sempre difícil de ser feito – da codificação, tentar
sua compreensão através da reflexão que façamos em torno do
quefazer educativo em que nos engajamos, iluminados pela opção
política que temos, de natureza revolucionária.
Considerando que a educação, a ação cultural, a animação, não
importa o nome que se dê a este processo, implica sempre, ao nível
da alfabetização ou da pós-alfabetização, numa certa teoria do
conhecimento posta em prática, uma das primeiras questões que
nos temos decolocar diz respeito a essa teoria mesma, ao objeto a
ser conhecido (que constitui o conteúdo programático da educação,
na alfabetização ou na pós-alfabetização) e ao método de conhecer.
Em primeiro lugar, a teoria do conhecimento a serviço de um
objetivo revolucionário e posta em prática pela educação se
constitui na constatação de que o conhecimento, sempre processo,
resulta da prática consciente dos seres humanos sobre a realidade
objetiva que, por sua vez, os condiciona. Daí que entre aqueles e
esta se estabeleça uma unidade dinâmica e contraditória, como
dinâmica e contraditória é a realidade também.
Do ponto de vista de uma tal teoria – e da educação que a põe
em
prática – não é possível:
a) dicotomizar prática de teoria;
b) dicotomizar o ato de conhecer o conhecimento hoje existente
do ato de criar o novo conhecimento;
c) dicotomizar ensinar de aprender; educar de educar-se.
Por outro lado, o método coerente com esta teoria do
conhecimento, tal qual o objeto a ser conhecido – a realidade
objetiva – é dinâmico também.
Ao dar-se na prática social em que se acham dinamicamente
relacionados:
I) a luta pela produção,
II) os conflitos de classe,
III) a atividade criadora, a educação, numa tal perspectiva, é o
processo em que, tomando-se a prática social de que ela é uma
dimensão, como objeto de conhecimento, procura-se não apenas
conhecer a razão de ser daquela prática, mas ajudar, através
deste conhecimento que se irá aprofundando e diversificando, a
direção da nova prática, em função do projeto global da sociedade.
É no aprofundamento e na diversificação, jamais
"especialisticista”, focalista, deste conhecimento que se acha o
ponto de partida do equacionamento da pós-alfabetização. Esta não
é, por isso mesmo, um momento separado da alfabetização, mas a
sua continuidade enquanto ato de conhecimento também. Neste
sentido, a pós-alfabetização acha-se anunciada na alfabetização.
Nesta, o aprendizado da leitura e da escrita, associado ao
necessário desenvolvimento da expressividade, se faz com o
exercício de um método dinâmico, com o qual educandos e
educadores buscam compreender, em termos críticos, a prática
social. O aprendizado da leitura e da escrita envolve o aprendizado
da "leitura” da realidade através da análise correta da prática social.
Nesta fase, contudo, ao se discutirem aspectos daquela prática,
os da produção, por exemplo, já é possível tocar em pontos de
carácter técnico enquanto a seu como.
Na pós-alfabetização, a leitura da realidade social continua, de
forma aprofundada, já agora, porém, associada a um saber fazer
especializado, de natureza técnica, a que se junta um maior
domínio da linguagem, um conhecimento mais agudo da
organização econômica e social da história, da geografia, da
matemática, etc.etc.
Havíamos falado antes da impossibilidade de separar a prática
da teoria, o que leva a sociedade que busque viver a unidade
radical entre elas a superar a dicotomia entre trabalho manual e
trabalho intelectual, de que resulta um modelo de educação
totalmente diferente. Modelo em que a escola, qualquer que seja o
seu grau – primário, secundário ou universitário – não se distingue
essencialmente da fábrica ou da prática de um campo agrícola nem
a elas se justapõe. E mesmo quando a escola exista fora da fábrica
ou da atividade prática do campo agrícola, isto não significa,
primeiro, que ela seja uma instância superior a elas; segundo, que
a fábrica e a atividade prática do campo agrícola não sejam em si
escolas também. É que, numa visão dinâmica, a da unidade entre
prática e teoria, a escola, dentro ou fora da fábrica, não se define
como instituição burocraticamente responsável pela transferência
de um saber seleto, mas como um pólo ou um momento daquela
unidade. Assim, qualquer que seja o lugar em que, tomando
distância do contexto concreto, onde uma certa prática se realiza,
exercemos uma reflexão critica sobre a prática, temos nele um
contexto teórico, uma escola pois, no sentido radical que a palavra
deve ter.
Agora, podemos começar a falar das codificações de que
precisamos para o uso dos projetores e cuja preparação deve ser
feita ai por vocês. Elas são representações de aspectos da
realidade; expressam “momentos” do contexto concreto. Neste
sentido, de um lado, fazem a mediação entre esse contexto e o
contexto teórico, no nosso caso, o “circulo de cultura”. De outro,
fazem a mediação entre o educador e os educandos, como sujeitos
que buscam conhecer. Por isso é que a codificação, nesta visão
dinâmica, não é uma simples ajuda de que o educador se serve
para “dar” uma aula melhor, mas é, ao contrário, um objeto de
conhecimento que o desafia e os educandos.
De acordo com o canal de comunicação a ser usado, a
codificação
pode ser:
a) visual
b) auditiva
c) táctil
d) áudio-visual – uso simultâneo do canal visual e auditivo. A
visual por sua vez pode ser:
I) pictórica – pintura, desenho, fotográfia
II) gráfica – linguagem escrita
III) mímica* – expressão do pensamento por meio de gestos.

*
Numa simples nota ao pé da página gostaria de deixar aqui uma indagação que
me faço e que pode talvez no futuro abrir-nos certos filões de estudo. Refiro-me
ao possível potencial que a mímica, como expressão corporal, possa ter em
culturas em que o corpo não foi submetido a um intelectualismo racionalizante.
A codificação pode ser simples e complexa, conforme se use um
só canal ou mais de um simultaneamente. Enquanto linguagem, não
necessariamente escrita, toda codificação é sempre um discurso a
ser lido. Neste sentido, ela tem uma “estrutura de superfície” e uma
“estrutura profunda” em dinâmica relação uma com a outra. A
"estrutura de superfície” é o conjunto de elementos que, em
interação, a constitui. A “estrutura profunda” não está visível;
emerge na medida em que se verticaliza a leitura – a descodificação
– da codificação, ou, mais precisamente, da sua "estrutura de
superfície”. Ela tem que ver com a razão de ser dos fatos que se
acham meramente expostos, mas não desvelados, na “estrutura de
superfície”. Talvez possamos compreender melhor a "estrutura de
superfície” e a "estrutura profunda” de uma codificação se
entendemos a diferença entre a leitura gramatical de um texto e a
leitura sintática do mesmo. Tomemos, por exemplo, do ponto de
vista gramatical e sintático o seguinte texto: Desejo que vocês
façam um bom trabalho.
Na leitura puramente gramatical deste texto, minha preocupação
será a de tomar suas partes em si e classificá-las. Meu
comportamento
será taxionômico*. Assim diria:
Desejo – verbo desejar, regular, primeira pessoa do singular do
tempo presente do modo indicativo
que – conjunção integrante
vocês – forma pronominal – 3¿ pessoa do plural
façam – verbo fazer, irregular, terceira pessoa do plural do
tempo
presente do modo subjuntivo
etc. etc.
Do ponto de vista sintático, meu comportamento seria diferente.
Minha preocupação neste caso seria, de um lado, a de compreender
a
totalidade do texto, delimitando-o em suas partes que, em
interação, constituem a totalidade; de outro, perceber o papel que
os termos

Em que as grandes maiorias não se experimentaram ainda no maior rigor lógico


da linguagem escrita, de que decorre não raro a mitificação do poder dessa
linguagem, que, de resto, devemos evitar desde a etapa da alfabetização. Em
que o corpo consciente, encontrando-se em maior liberdade em suas relações
com a natureza, move-se facilmente de acordo com seus ritmos. Neste sentido
talvez fosse interessante pensar no emprego de jogos mímicos, como
codificações e, nas codificações pictóricas, dar ênfase ao movimento. Repito que
isto são puras indagações, são pistas apenas.
*
Taxionomia – parte da gramática que classifica as palavras em categorias.
Palavras variáveis; palavras invariáveis. Substantivo, adjetivo, pronome, verbo,
advérbio,
etc.
H. Estudantes do Liceu de Bissau a caminho do campo para
trabalho produtivo. (Foto do Centro Áudio Visual, Guiné-
Bissau)
assumem aa estrutura geral do texto. Desta forma, reconheço a
relação de complementaridade que há entre vocês façam um bom
trabalho e desejo. Neste sentido, vocês façam um bom trabalho é o
objeto, o complemento direto de desejo, que, enquanto expressão
de um certo estado que não se completa em si mesmo, é um verbo
transitivo. A sentença desejo tem como sujeito eu; a sentença
complementar tem como sujeito vocês, e assim por diante.
Na análise sintática, portanto, a classificação que se faz já não é
a das palavras em si mas a das funções que têm entre elas, na
estrutura
geral do contexto que expressa um pensamento estruturado.
Se tomamos uma codificação que representa homens e mulheres
trabalhando no campo, sua estrutura de superfície serão os
elementos
nela expostos; sua estrutura profunda vem à tona quando,
aprofundando-se a análise da estrutura de superfície, se discute a
razão de ser do fato codificado.
A primeira reação de quem se põe em face de uma codificação é
fazer a leitura de sua estrutura superficial. Leitura puramente
gramatical, taxionômica, poderia dizer, em que se descrevem os
elementos da codificação. É a partir desta leitura, contudo, que se
vai alcançando o nível profundo da codificação, em cujo processo o
educador nem deve exacerbar, de um lado, sua presença, a tal
ponto que a presença dos educandos seja um puro reflexo da sua,
nem, de outro, se deve negar, como se tivesse vergonha de ser
educador.
Fundados na compreensão crítica da estrutura superficial e da
estrutura profunda da codificação, podemos, no ato de codificar,
nos defender de dois riscos. O primeiro, o que reduz a codificação a
uma mensagem a ser transmitida quando ela é, na verdade, um
objeto de conhecimento, portanto um desafio, um problema a ser
desvelado. O segundo, o de transformar a codificação numa espécie
de "quebra-cabeça”.
No primeiro caso, identificando-se com a própria mensagem, o
código torna-se de tal maneira explicito que o esforço
descodificador se faz quase desnecessário. A codificação já está
praticamente descodificada nela mesma. A codificação
propagandística é exemplar para ilustrar o que acabo de dizer. Daí o
seu caráter domesticador.
No segundo caso, a estrutura de superfície da codificação
apresenta uma composição de tal forma enigmática, fechada, que
obstaculiza o trabalho descodificador.
Do ponto de vista do estilo, as codificações podem ser cômicas e
humorísticas. Se ambas provocam riso, desabafo, tendo ambas um
papel catártico, se distinguem, contudo, em que as primeiras
tendem a deixar o descodificador ao nível da estrutura de superfície
e as segundas facilitam o alcance da estrutura profunda da
codificação.*
As codificações e as palavras geradoras
*
O trabalho de Claudius Ceccon se situa exatamente no segundo caso.
Escolhidas as palavras geradoras segundo os critérios já
conhecidos de vocês, elaboram-se as codificações em que elas são
inseridas. Há uma relação necessária entre a palavra geradora e a
codificação. Às vezes, esta relação se faz entre a palavra e a
codificação em seu todo; às vezes, a palavra está referida a uma
certa dimensão da codificação.
Exemplo do primeiro caso:
Palavra geradora – TRABALHO

Codificação: Homens e mulheres trabalhando.


Exemplo do segundo caso:
Palavra geradora – TIJOLO
Codificação: Homens trabalhando numa construção, em que o
objeto tijolo aparece em plano privilegiado.
O trabalho de vocês, portanto, deve ser a preparação deste
material, quer dizer, das codificações correspondentes às 17
palavras geradoras que constituem o programa de alfabetização a
ser desenvolvido nos círculos experimentais.
Segue, como exemplo, uma série de slides usados no Brasil, com
a palavra geradora na codificação correspondente e os slides em
que a palavra aparece decomposta em silabas.
Segue igualmente uma outra série de slides que se acham
reproduzidos em Educação como prática da Liberdade e que, na
prática brasileira, proporcionavam a discussão em torno do conceito
de cultura. Tal discussão em última análise implica na apreensão
crítica das relações entre os seres humanos e o mundo natural, de
cuja transformação resulta o mundo especificamente humano – o
mundo da cultura e da história.
No Brasil esta discussão precedia a alfabetização e continuava
com ela. No Chile, sobretudo devido à reação dos alfabetizandos
que exigiam começar imediatamente a aprendizagem da escrita e
da leitura, este debate era feito durante a alfabetização. Importante
é que se faça esta análise.
Talvez fosse interessante testar algumas destas codificações
brasileiras – as que melhor se adaptem à realidade local – com
alguns grupos de alfabetizandos, e estudar sua reação.
No caso em que vocês façam tal experiência, será importante
gravar as discussões, a cuja análise crítica a equipe ai deve dedicar-
se. Quando de nossa próxima visita à Guiné-Bissau, uma de nossas
sessões de trabalho poderia ser centrada no estudo dessas
gravações bem como no múltiplo uso do discurso dos
alfabetizandos, de que algo já tratamos aí em setembro passado.
Um outro ponto sobre que poderemos também trabalhar juntos
em Bissau em fevereiro próximo, se o Camarada Mário Cabral
confirmar as datas propostas por nós, é o de como motivar os
alfabetizandos para que façam também codificações em equipe,
cabendo a cada equipe que tenha elaborado uma ou mais
codificações coordenar os debates em torno delas.
Assim que recebamos o material de vocês – as codificações e as
palavras geradoras decompostas – providenciaremos aqui a feitura
dos conjuntos de slides que comporão o programa para os círculos
de leitura.
Finalmente, vamos remeter-1hes nestes próximos dias
fotocópias dos textos que constituem um livro meu a ser publicado
no próximo ano e de que lhes falei aí. É possível que alguns deles
lhes interessem. Quanto ao problema da codificação, por exemplo,
vocês encontrarão algo num deles: “Ação Cultural para a
Libertação”* e na Pedagogia do Oprimido** também.Recebam um
abraço afetuoso de todos nós.

Paulo Freire

*
Publicado em Ação Cultural para a Liberdade e Outros Escritos, Paz e Terra, Rio,
l976. (N. do E.)
**
Paz e Terra, Rio, l977 (4ª ed.). (N. do E.)
Genebra, 6 de dezembro de 1975

Camarada Mário Cabral,

Recebi, há dias, sua carta, em que acusa a em que lhe


comunicávamos a obtenção do financiamento da C.C.P.D. para a
continuidade de nosso trabalho ai, bem como a contribuição que o
Departamento de Educação do W.C.C. dá a nosso projeto, pondo-
me à disposição do mesmo.
Espero que lhe tenha chegado a que lhe remeti no mês passado
e à qual juntava cópia da que fizera à Mônica, Edna e Paulo.
Hoje lhe envio a de outra que acabo de escrever-lhes. É que me
parece que você deve estar sempre a par da correspondência que
mantenhamos com a equipe em Bissau, acompanhando, assim, os
passos que estamos dando.
Será que já he foi possível, com o ritmo tão intenso de trabalho
que você tem, instaurar a Comissão Nacional que com você
discutirá a.política geral da campanha de alfabetização? Seria
excelente se, em nossa próxima visita, em fevereiro de 1976,
pudéssemos reunir-nos, pelo menos uma vez, com a Comissão.
Meu caro amigo perdoe-me por estas insistências. Elas são
feitas pelo desejo de servir.
Para você e todos os camaradas, o abraço ao amigo

Paulo Freire
Genebra, 6 de dezembro de 1975
(Carta n° 2)

Prezados camaradas e amigos Mônica, Edna e Paulo

Espero que tenham recebido a carta que lhes enviei através do


camarada Mário Cabral e em que lhes falava das codificações para a
experiência ai, com os projetores. Espero igualmente que o trabalho
de vocês em torno do manual do animador esteja adiantado e que,
em breve, o recebamos.
Seria, por outro lado, do mais alto interesse para nós, se vocês,
superando todas as dificuldades, que sei grandes, decorrentes do
mundo de coisas que têm a fazer, nos remetessem um relatório
pormenorizado de tudo o que foi feito depois de nossa estada em
Bissau. O prosseguimento das atividades nas FARP; se os novos
coordenadores, em processo de formação quando estávamos aí, já
se acham em ação e como anda o trabalho deles.
Se a memória não me falha, creio que Marcos Arruda, em sua
recente carta a Paulo, faz um pedido semelhante.
Não sei se vocês estarão tendo tempo de realizar, em forma
sistemática, seminários de avaliação com os animadores, em que
vocês e eles examinem a prática de todos – as dificuldades
encontradas e a maneira como tentam responder a elas. Há
dificuldades que se repetem, de modo geral, em todos os círculos e
é importante que os animadores se informem entre si de como cada
um as vem enfrentando. Desta maneira, há um aprendizado comum
que estimula intensamente a criatividade de todos.
Nestes seminários, por exemplo, podem ser analisados e
discutidos certos desvios autoritários de uns coordenadores, como
certos desvios espontaneistas de outros. Desvios que dificilmente
podem ser de todo evitados, a não ser quando trabalhamos com
dez ou quinze pessoas apenas, o que de resto não tem sentido.
Estes seminários de avaliação poderiam contar, também, com a
presença de grupos de alfabetizandos. Sua presença neles se
justifica por duas razões básicas. De um lado, porque, em tais
seminários, se discute uma prática em que eles se acham
envolvidos como sujeitos, tanto quanto os coordenadores; de outro,
porque através destas reuniões podem aprofundar sua formação.
Entre eles, vocês terão novos coordenadores para amanhã. O
próprio manual do animador, que vocês estão elaborando, deveria
passar pelo crivo de tais seminários.
Caso vocês não tenham ainda pensado neste tipo de atividade e
se concordam em realizá-la, a questão que se coloca é a de
encontrar a melhor maneira de operacioná-la, não esquecendo,
sugeriria, de gravar as discussões. É que a gravação das discussões
constitui, em si, um documentário importante, que permite estudar
o andamento do trabalho, podendo ser usada, também, em
seminários de avaliação entre diferentes grupos.
A tarefa avaliadora aqui referida é um esforço formador e, como
tal, indispensavelmente ligada à investigação de novas formas de
ação. Enquanto problematização da prática, esta forma de avaliação
é o seu momento crítico. Momento em que os sujeitos da prática se
voltam sobre ela para confirmá-la ou retificá-la, neste ou naquele
aspecto, enriquecendo a subsequente prática e nela enriquecendo-
se. Dai a necessidade que temos, quando participamos de uma
equipe central, de não apenas acompanhar, assiduamente, as
atividades dos Círculos de Cultura, mas também de coordenar, de
vez em quando, as discussões em alguns deles. Assim, a nossa
participação nos seminários de avaliação, em que a prática
realizando-se nos Círculos é o objeto da análise, não é a
participação de estrangeiros a essa prática nem a de “semi-
conviventes” com ela, isto é, a de quem simplesmente tivesse visto
como os outros trabalham.
É possível, porém, que vocês já estejam usando ou pensando
em usar um método diferente de avaliação, Não importa. O
indispensável é, primeiro, que se faça a avaliação permanente do
trabalho em realização. Segundo, que a avaliação jamais se
transforme em fiscalização.
Estou remetendo, por correio aéreo, os textos prometidos, cuja
leitura, estou certo, vocês farão tomando sempre, como referência,
a realidade guineense.
Aguardando noticias de vocês, vai aqui o abração de
Paulo Freire
Engenheiro Mário Cabral
Comissariado do Estado para Educação e Cultura
Bissau

Genebra, 5 de janeiro de 1976


Camarada Mário,

Mais uma vez, estou remetendo a você cópia de outra carta,


bastante longa desta vez, que fiz aos camaradas Mônica, Edna e
Paulo.
Creio que a temática tratada tem que ver com a realidade da
Guiné-Bissau, o que não significa, porém, que você e eles
concordem totalmente com o que digo.
Talvez fosse interessante discutir, em equipe, em fevereiro
próximo, os seus pontos principais.
Estou enviando junto à sua, uma outra cópia que lhe pediria
entregasse à camarada Dulce, do ensino médio. É possível que a
carta interesse a ela também.
Estamos ansiosos por chegar ai para revê-los e beber um
pouco dessa alegria de viver, coisa tão carente nestas bandas de
cá.
Um abração para todos.

Paulo Freire
Genebra, 5 de janeiro de 1976
(Carta n° 3)

Camaradas Mônica, Edna e Paulo,

Talvez não fosse necessário dizer, mas, em todo caso, será bom
enfatizar que, ao escrever mais ou menos assiduamente a vocês,
não pretendo, de um lado, burocratizar nossas relações; de outro,
emprestar às minhas cartas nenhuma significação prescritiva.
Escrevo sempre pela necessidade que tenho de conversar com
vocês sobre pontos que nos interessam, em vista do trabalho em
que nos achamos engajados.
Ao escrever-lhes, naturalmente, pretendo desafiá-los, mas, ao
fazê-lo, me desafio também. Não nos é possível desafiar a alguém,
em termos autênticos, se, ao mesmo tempo, não nos damos ao
desafio. Às vezes, me detenho diante de uma palavra, diante de
uma frase, perguntando-me se o que estou escrevendo expressa
mesmo o que gostaria de dizer e se, sobretudo, o que estou
dizendo tem que ver realmente com o concreto sobre que estou
pensando.
No caso de hoje, gostaria de tocar em alguns dos problemas
com que nos defrontamos quando, envolvidos na prática e na teoria
da alfabetização de adultos, nos indagamos sobre o que a ela se
segue.
Não pretendo uma análise pormenorizada da pós-alfabetização,
mas uma tomada de posição diante dela, que corresponde à visão
que tenho da alfabetização. Na verdade, as preocupações em torno
da pós-alfabetização estão intimamente ligadas à prática e à
concepção que se tenham da alfabetização.
Todas às vezes em que tenho discutido o problema da
alfabetização de adultos tenho sublinhado que, numa perspectiva
libertadora, ela há de ser sempre um ato criador, em que o
conhecimento livresco cede seu lugar a uma forma de conhecimento
que provém da reflexão critica sobre uma prática concreta de
trabalho. Dai a insistência, também, com que sempre falo da
relação dialética entre o contexto concreto em que tal prática se dá
e o contexto teórico, em que a reflexão critica sobre aquele se faz.
Numa tal visão prático-teórica da alfabetização jamais pode ser
ela entendida como o momento de um aprendizado formal da
escrita e da leitura, como uma instância primeira, justapostamente
ligada às seguintes. Ou, também, como uma espécie de
“tratamento” a ser aplicado aos que dele necessitem para que, em
seguida, recuperados de sua "enfermidade”, possam experimentar-
se numa “aventura superior”, de caráter igualmente livresco – a
pós-alfabetização.
Como a entendo, a alfabetização de adultos já contém, em si, a
pós-alfabetização. Esta continua, aprofunda e diversifica o ato de
conhecimento que se inicia naquela. Não são, pois, dois processos
separados – um antes, o outro depois – mas dois momentos de um
mesmo processo social de formação. E este, não importa o nome
que se lhe dê – educação, ação cultural, animação – implica
sempre, na alfabetização também como na pós-alfabetização, numa
certa teoria do conhecimento posta em prática.
Que conhecer, como conhecer, para que conhecer, em favor de
que e de quem conhecer, portanto, contra que e contra quem
conhecer são questões teórico-práticas e não intelectualistas, que a
educação como ato de conhecimento nos coloca. Questões
fundamentais, em dinâmico envolvimento com outras em torno do
ato mesmo de educar, de sua possibilidade, de sua legitimidade,
dos objetivos e finalidades desse ato, de seus agentes, de seus
métodos, de seu conteúdo.
Solidárias entre si, estas questões demandam respostas
igualmente entre si solidárias. Assim, ao preocupar-me com o que
conhecer, acho-me necessariamente envolvido com o para que,
com o como, com o em favor de que e de quem, com o contra que
e contra quem conhecer.
Gostaria de salientar não ser o objetivo desta carta tratar as
questões acima referidas sistemática e profundamente, como sua
simples enumeração poderia sugerir. Chamar a atenção para elas e
sobre elas algo dizer são o marco em que me situo nesta carta.
A resposta à pergunta em torno do que conhecer, tendo que ver
diretamente com a constituição do conteúdo programático da ação
educativa, envolve uma série de ângulos que não podem ser
descuidados. Ângulos em que o para que, intimamente ligado ao
como, ao em favor de que e de quem, ao contra que e contra quem
conhecer é o centro orientador mesmo da delimitação do que
conhecer.
Desta forma, a delimitação do que conhecer, sem a qual não é
possível a organização do conteúdo programático da ação
educativa, está estreitamente associada ao projeto global da
sociedade, às prioridades que esse projeto exige e às condições
concretas para a sua realização.
Ao falar de projeto global da sociedade não faço como se
estivesse tomando-o como uma idéia abstrata, um desenho
arbitrário, algo acabado na imaginação de uma liderança. Refiro-
me, sim, a um certo número de metas, solidárias entre elas e
coerentes com um certo objetivo no campo da organização
econômica e social; no da distribuição interna como no do comércio
externo; no das comunicações e transportes; no da cultura; no da
saúde; no da educação em geral, que a esse objetivo deve servir.
Metas realizáveis em etapas e que envolvem uma política de
planejamento global e políticas especificas para a sua realização.
A prática em busca da concretização das metas pode retificar,
neste ou naquele ponto, o desenho do projeto, 'mas não prescinde
dele, enquanto previsão. Dai que a delimitação do que conhecer
para a organização do conteúdo programático da ação educativa
demande de todos os que nela se envolvem, em qualquer de seus
planos, uma clareza política a qual, não sendo em si suficiente, é
absolutamente indispensável. Clareza política, acrescente-se, com
relação ao para que, ao como e ao em favor de quem se faz a
própria política. Uma coisa é a política feita, em todos os setores,
por uma rígida burocracia, em nome das massas populares, a quem
se transmitem palavras de ordem; outra coisa é a política feita com
elas, com a sua participação criticamente consciente na
reconstrução de sua sociedade, em que as palavras de ordem,
necessárias, jamais, porém, se transformam em puros “slogans”.
É ainda esta clareza política, em face da realidade e da própria
educação, clareza associada à permanente vigilância no sentido da
preservação da coerência entre nossa prática e o projeto da nova
sociedade, que nos faz evitar o risco de reduzir a organização
curricular a um conjunto de procedimentos técnicos de caráter
neutro. A organização do conteúdo programático da educação, seja
ela primária, secundária, universitária ou se dê ao nível de uma
campanha de alfabetização de adultos, é um ato eminentemente
político, como política é a atitude que assumimos na escolha das
próprias técnicas e dos métodos para concretizar aquela tarefa. O
caráter político de tal quefazer independe da consciência que
tenhamos dele ou não. O saber como delimitar o que conhecer não
pode estar separado do para que conhecer como das demais
implicações deste ato, a que já me referi. Não há, por isso mesmo,
especialistas neutros, "proprietários” de técnicas também neutras,
no campo da organização curricular ou noutro qualquer. Não há
metodologistas neutros para ensinar como ensinar neutramente
história ou geografia, língua nacional ou matemática.
Neste sentido, a delimitação do que conhecer para a organização
do conteúdo programático da educação, numa sociedade que,
recém saindo de sua dependência colonial, com tudo o que isto
significa, se acha revolucionariamente empenhada na luta por sua
reconstrução, é uma tarefa das mais importantes. Esta delimitação
do que conhecer não se esgota, porém, na substituição de certo
tipo de conteúdo programático por outro, que corresponda mais de
perto aos objetivos da sociedade em reconstrução. Mesmo que
reconheça que este esforço é, às vezes, durante certo tempo, o
único possível, é fundamental enfatizar que não basta mudar o
conteúdo programático, mantendo-se, contudo, a prática anterior,
renovada num ou noutro aspecto: o método de conhecer nela
experimentado e o sentido elitista que a informa.
A preservação do caráter elitista da educação, com tudo o que
ele implica, tem sentido para a sociedade que, saindo de sua
dependência colonial; se insere numa dependência neocolonial e é
“governada” por uma elite dominante nacional, atrelada aos
interesses imperialistas. Este não é, sem sombra de dúvida, o caso
da Guiné-Bissau.
A questão de fundo, pois, não está em apenas substituir um
velho programa adequado aos interesses do colonizador por um
novo, mas em estabelecer a coerência entre a sociedade
reconstruindo-se revolucionariamente e a educação como um todo
que a ela deve servir. E a teoria do conhecimento que esta deve pôr
em prática implica num método de conhecer antagônico ao da
educação colonial.
Um dos riscos que uma tal sociedade corre, ao procurar
responder ao desafio que a sua reconstrução lhe coloca, é o de
aceitar certos modelos modernizantes do ocidente. Entre eles,
naturalmente, o modelo educativo, de caráter classista, como se
fosse possível, através deste modelo, resolver o problema da
carência de quadros nacionais, de grau médio e universitário,
necessários ao esforço enorme e complexo da reconstrução de si
mesma.
Precisamente porque este é um risco, só o é para a sociedade
que procura refazer-se revolucionariamente. Assim, o que é risco
para esta é o caminho certo para a liderança antipopular da outra, a
que se entrega aos interesses imperialistas.
A carência referida é, porém, uma negatividade que tem sua
positividade. Admitindo-se que o colonizador tivesse desenvolvido
uma ação, mesmo pouco intensa, no setor da capacitação
universitária, esta ação só poderia ter sido efetivada em função de
seus interesses, por isso mesmo seletiva e colonialista, tal qual a
educação que se desenvolveu nos liceus das áreas urbanas do país,
na fase colonial.
Atingindo uma certa faixa populacional, tal capacitação reforçaria
a posição de classe dos graduados, que passariam a engrossar as
fileiras de uma intelectualidade urbana, a serviço do colonizador.
Analisando o papel de um pequeno grupo desses intelectuais na luta
pela libertação de paises, Amílcar Cabral se referia à necessidade
que eles tinham, para desempenhar tal papel, de “ser capazes de se
suicidar como classe para renascer como trabalhadores
revolucionários inteiramente identificados com as aspirações mais
profundas do povo ao qual pertencem”*, o que ele fez de maneira
exemplar. A “re-africanização” desses intelectuais, sobre que tanto
insistiu também Amílcar, estava implícita nesta “morte” e neste
“renascimento”.
Acontece, porém, que esta “morte” não é aceita facilmente – a
história nos ensina – mesmo por grande parte daqueles que
verbalizam uma opção revolucionária. A “formação” intelectual
pequeno-burguesa, que reforça a posição de classe dos indivíduos,
tende a levá-los à absolutização da validade de sua atividade,
considerada como superior à daqueles que não a têm.
Dai que, toda vez que uma liderança revolucionária, delimitando
o campo, por exemplo, da investigação científica, suprime qualquer
atividade cujos resultados imediatos não sejam capazes de
responder aos desafios mais prementes que os problemas das
grandes maiorias populares apresentam, esses intelectuais se
sintam discriminados e sem liberdade.
Neste sentido, há muita coisa a ser estudada, feita e refeita, na
Guiné-Bissau, antes que um investigador se dedique à análise
científica das razões por que esse simpático animal que temos no
Brasil e certamente na Guiné, chamado Preguiça, se move tão
lentamente. Há um esforço a ser feito na Guiné, no trabalho da
coleta de contos e estórias populares a serem usados como textos
de leitura para crianças e adultos, antes que um erudito professor
de literatura “dê” seminários sobre Mallarmé e o Simbolismo.

Em última análise, estou convencido de que é mais fácil criar um


novo tipo de intelectual – o que se forja na unidade da prática e da
teoria, do trabalho manual e do trabalho intelectual – do que re-

*
Amilcar Cabral – Unité et Lutte I, L'arme de la Théorie, Cahiers Libres, Maspero,
Paris, l975, pág. 303.
educar o intelectual elitista. Quando digo que é mais fácil, não
excluo a possibilidade de uma tal re-educação, quando for este o
caso.
O problema que se coloca, pois, a uma sociedade assim, não é o
de continuar formando intelectuais elitistas para que depois se
"suicidem”, mas o de não permitir que eles se constituam como
tais. O de como, portanto, tornar positiva a negatividade antes
mencionada. O de como formar seus quadros, não apenas fora do
país, mas dentro dele, numa perspectiva não elitista. O de como
delimitar o que conhecer em relação estreita com novos métodos
pedagógicos. Em última análise, o de como reorientar o seu sistema
educacional superando totalmente a herança colonial. Diferentes
objetivos, diferentes conteúdos, diferente prática, diferente
concepção da educação.
A delimitação do que conhecer, ao nível mesmo da alfabetização
de adultos, quer dizer, a constituição de seu conteúdo
programático, não pode ser pensada fora dos marcos da re-
orientação do sistema educacional global que, por sua vez, tem de
estar em correspondência com o projeto da nova sociedade. Se o
sistema educacional segue o modelo elitista, verbalista, autoritário,
que satisfazia os interesses dos colonizadores, embora reformado
neste ou naquele ponto, a alfabetização de adultos, não importa a
orientação que tenha, terminará por ser uma via de acesso para
alguns aos privilégios que o sistema defenderá.
Desta forma, discutir a alfabetização de adultos e a pós-
alfabetização implica em discutir a educação em sua globalidade. E
discutir esta, repita-se, significa pensar o projeto global da
sociedade.
Enquanto a educação colonial tinha como um de seus principais
objetivos, ao lado da “desafricanização” dos nacionais, a preparação
de quadros subalternos para a administração, agora o importante é
a formação do homem novo e da mulher nova, a que se associa a
criação daquele novo tipo de intelectual a que antes me referi. E
não é com o que a sociedade em reconstrução herdou do
colonizador que ela poderá cumprir esta fundamental tarefa.
A vigilância como atitude permanente numa sociedade que
assim busca refazer-se tem, neste domínio – o da cultura, o da
formação de seu povo – não importa o campo em que esta se dê,
uma dimensão chave. "No plano da cultura como no da política”,
disse Cabral, “a vigilância é indispensável”.* Por isso, qualquer
descuido nesta vigilância pode vir a ser fatal ao projeto da nova
sociedade. E se esta, ao refazer-se, caminha no sentido do
socialismo, necessita, de um lado, de ir organizando o modo de
produção com vistas a este objetivo; de outro, de ir estruturando
sua educação em estreita relação com a produção, quer do ponto
de vista da compreensão mesma do processo produtivo, quer do
ponto de vista da capacitação técnica dos educandos.
Neste sentido, o homem novo e a mulher nova a que esta
sociedade aspira não podem ser criados a não ser através do
trabalho produtivo para o bem-estar coletivo. Ele é a matriz do
*
Amílcar Cabral – Obra citada, pág. 324.
conhecimento em torno dele e do que dele desprendendo-se a ele
se refere. Isto significa, permitam-me repetir, que uma tal
educação não pode ter um caráter seletivo, o que a levaria, em
contradição com os objetivos socialistas, a fortalecer a dicotomia
entre trabalho manual e trabalho intelectual. Pelo contrário, impõe-
se a superação desta dicotomia para que, na nova educação, a
escola primária, secundária, universitária, não se distinga
essencialmente da fábrica ou da prática produtiva de um campo
agrícola, nem a elas se justaponha. E mesmo quando, enquanto
contexto teórico, se ache fora da fábrica ou do campo agrícola, isto
não signifique que ela seja considerada como uma instância
superior aqueles nem que aqueles não sejam em si escolas
também.
Numa visão dinâmica, a da unidade da prática e da teoria, a
escola jamais se define como uma instituição burocraticamente
responsável pela transferência de um saber seleto. Nem tampouco
se define como um "mercado” de conhecimento. E preciso, porém,
que a superação da dicotomia entre trabalho manual e trabalho
intelectual, entre prática e teoria, se prolongue na superação
igualmente da dicotomia entre ensinar e aprender e entre conhecer
o conhecimento hoje existente e criar o novo conhecimento. Com a
superação destas dicotomias, a escola como “mercado de
conhecimento” cede seu lugar à escola como “Centro Democrático”,
a que faz referência o Camarada Samora Machel*.
E na escola como Centro Democrático desaparece, de um lado,
o professor que transmite autoritariamente um saber seleto; de
outro, o aluno passivo, que recebe o saber transferido. Em seu
lugar, surgem o professor e o aluno militantes, de quem fala
também Machel. O professor que, ao ensinar, aprende e o aluno
que, ao aprender, ensina.
Numa educação como esta, que coincide com um projeto social
que privilegia a presença cada vez mais consciente dos
trabalhadores camponeses e urbanos na reconstrução da sociedade,
a delimitação do que conhecer, fiel a esse projeto, deve contar com
a participação dos educandos nela. Isto significa, sem dúvida, que
as relações dialógicas, como selo do ato de conhecer, entre o
professor e o aluno militantes, não se dão apenas em torno de um
objeto de conhecimento proposto por aquele a este, mas em torno,
também, da própria delimitação do que conhecer.
Sem sacrificar em nada a organização do conteúdo programático
da educação, no que diz respeito aos temas fundamentais à
sociedade em reconstrução, a participação dos educandos naquela
tarefa é

*
Samora Machel – "Fazer da escola uma base para o povo tomar o poder”,
Cadernos Cultura Popular, 5, l974.
I. Estudantes do Liceu de Bissau participando do trabalho
produtivo. (Foto do Centro Áudio-Visual, Guiné-Bissau)
indiscutivelmente formadora. Além do mais, é um direito deles,
enquanto militantes, o de ter voz na delimitação do que 1hes cabe
conhecer para melhor servir à coletividade.
Assim, ao colocar-nos a questão da delimitação do que
conhecer, na Guiné-Bissau, ao nível básico da alfabetização de
adultos e da pós-alfabetização, colocamos também o problema de
ambas numa linha de massas. Isto é, numa linha em que estas,
mobilizadas, assumem, desde o começo mesmo do processo
permanente de sua formação, o papel de sujeitos deste processo.
Neste sentido, a alfabetização em que a pós-alfabetização se vai
gerando é, desde o principio, um trabalho com as massas e não
sobre elas.
Assim como na escola como "Centro Democrático” a participação
do educando militante, e não privilegiado, na organização do
programa de estudo, em nada deve sacrificar os objetivos
fundamentais do projeto da Sociedade, na alfabetização e na pós-
alfabetização de adultos o mesmo se deve verificar. E a
concretização destes objetivos demanda a clareza em torno das
relações, já citadas nesta carta, entre a educação, de que a
alfabetização de adultos é uma dimensão, e a produção.
Estas relações se fazem mais transparentes na medida em que
se define o projeto global da sociedade, que envolve o para que
produzir, o que produzir, o como produzir, que, por sua vez, implica
na maneira
como se dão as relações sociais de produção e o papel que nela
joga o trabalhador, e o para quem produzir.
Numa perspectiva capitalista, os fatores de produção – meios de
produção de um lado, trabalhadores de outro – se combinam em
função do capital. Parte da acumulação, que resulta da "mais-valia”
– o que deixa de ser pago ao trabalhador que vende sua força de
trabalho ao capitalista – é usada no bem-estar deste e outra parte
na compra de mais força de trabalho e de mais meios de produção
que, combinados, produzem mais mercadorias necessariamente
vendáveis. É que, do ponto de vista capitalista, o que interessa não
é a produção de um valor de uso, mas a de um valor de uso que
tenha um valor de troca, isto é, que seja uma mercadoria vendável.
Mais ainda, a produção de “uma mercadoria cujo valor cubra e
supere a soma dos valores das mercadorias invertidas em sua
produção, quer dizer, dos meios de produção e da força de
trabalho”.*
O que o trabalhador recebe como salário pelo esforço despendido
no ato produtivo e que corresponde a um mínimo apenas deste
esforço se destina a seus “meios de vida” e à sua reprodução como
classe assalariada.
Expropriado do produto de sua força de trabalho, o trabalhador
não tem nada que ver, por outro lado e por isso mesmo, com a
determinação do que deve ser produzido. E na medida em que uma
quantidade significativa do que se produz não corresponde às reais
necessidades dos indivíduos, é preciso inventá-las. Por isso é que se
equivoca, totalmente, a sociedade que, refazendo-se em busca do
socialismo, se deixa fascinar pelo mito do consumismo. Se caminha
*
Karl Marx – El Capital, Fondo de Cultura Económica, México, vol. I, pág. 138;
nesta direção, não importa que já não haja uma classe capitalista,
seu objetivo será produzir valores de troca, isto é, mercadorias
vendáveis. Acontece que o socialismo é algo bem distinto de um
"capitalismo sem capitalistas”.**
“Compre o que você já tem” seria uma forma caricatural de
perfilar a sociedade capitalista, chamada de consumo. O papel que
a propaganda joga nesta sociedade, em que a alienação da
consciência é cada vez maior, teria de ser fundamental. Não
necessitamos de propaganda para convencer-nos de comprar feijão,
pão, arroz, mas precisamos de propaganda para comprar este ou
aquele tipo de perfume e até mesmo para comparar este ou aquele
tipo de arroz, apenas com embalagem diferente.
Se a produção se orienta no sentido do bem-estar coletivo e não
do lucro do capitalista, privado ou estatal, a acumulação,
indispensável ao desenvolvimento, tem uma significação e um fim
totalmente distintos. Agora, numa perspectiva socialista, o que se
deixa de pagar ao trabalhador já não é uma usurpação, mas a
quota que ele dá ao desenvolvimento da coletividade, e o que se
deve produzir com esta quota não é uma mercadoria que se define
por ser vendável, mas o socialmente necessário. Para isto, é preciso
que a sociedade que se reconstrói revolucionariamente, ao superar
a dicotomia trabalho manual trabalho intelectual, se vá
constituindo, toda ela, como uma sociedade de trabalhadores, cuja
liderança, ao recusar, de um lado, qualquer forma de
espontaneísmo, recusa, de outro, enrijecer-se burocraticamente.
Numa sociedade capitalista, tão menos consciência política,
enquanto consciência de classe, tenham os trabalhadores, melhor,
do ponto de vista da classe dominante. Numa sociedade
revolucionária, que visa ao socialismo, pelo contrário, quanto mais
consciência política tenham os indivíduos enquanto recriadores de
uma sociedade que se vai tornando uma sociedade de
trabalhadores, tanto mais criticamente se engajam no esforço
produtivo. Neste sentido, sua consciência política é fator também de
produção. Dai que, no primeiro caso, se fale tanto da neutralidade
da educação e a capacitação do trabalhador seja feita em torno
apenas de um saber como fazer, considerado igualmente neutro.
Numa sociedade capitalista, a educação do trabalhador visa à sua
reprodução enquanto classe assalariada, que é obrigada a vender
sua força de trabalho à classe capitalista. A educação que o
reproduz como classe deve capacitá-lo para ser mais e mais
eficiente no processo de trabalho*. Processo, como salienta Marx,

**
Samir Amim – k'logie du Socialisme, Editions Anthropos, Paris.
*
Com isto, porém, não quero dizer que a educação do trabalhador, nas sociedades
capitalistas, se oriente no sentido de tornar possível uma compreensão global do
processo produtivo, na medida mesma em que tal compreensão não é indispensável à
eficiência do trabalhador no sistema capitalista. Pelo contrário, "quanto mais a ciência
é incorporada ao processo de trabalho, tanto menos o trabalhador entende o processo;
quanto mais a máquina se torna um produto intelectual sofisticado, tanto menos
controle sobre ela e compreensão dela tem o trabalhador. Em outras palavras,
quanto mais o trabalhador necessita de conhecer no sentido de permanecer um
ser humano no trabalho, tanto menos conhece”. Harry Brauerman, Labor and
Monopoly Capital – The degradation of work in the twentieth century, Monthly
Review Press, Nova York e Londres, l974, pág. 425
“entre objetos comprados pelo capitalista, entre objetos que lhe
pertencem”.** A força de trabalho, de um lado; os meios de
produção, de outro.
Quanto mais rentavelmente se combinem aquela e estes, na
produção de valor de troca, isto é, da mercadoria vendável, melhor.
A educação a serviço desta' combinação rentável não pode ter,
obvia-mente, como objetivo desvelar o seu caráter alienador. O que
ela tem de fazer, por isto mesmo, é ocultá-lo, reduzindo o processo
formador à transferência daquele saber como fazer, tomado como
neutro.
Este é, apenas, um dos importantes aspectos das relações entre
educação e produção na sociedade capitalista.
Na sociedade que se reconstrói na linha do socialismo, pelo
contrário, fundando-se na nova realidade material que vai tomando
forma, a educação deve ser eminentemente desveladora e
criticizante.
Neste sentido, é tão contraditório que uma tal sociedade se
oriente no sentido do consumismo a que antes me referi, ou da
rigidez burocrática, como contraditório é que se estabeleça um
sistema educacional autoritário e prescritivo, filho, neste caso, da
própria rigidez burocrática. Sistema educacional em que não há o
clima necessário para a encarnação do educador e do educando
militantes, no sentido antêntico em que os define Samora Machel.
Nesta altura, numa aparente digressão, gostaria de fazer alguns
comentários em torno da experiência brasileira de alfabetização de
adultos de antes do golpe de estado de 1964 e da experiência
chilena, nos governos da Democracia Cristã e da Unidade Popular.
Talvez estes poucos comentários nos ajudem a clarificar melhor
alguns pontos centrais sobre que estamos e estaremos conversando
nesta carta.
A experiência brasileira se deu no quadro de um regime
populista em que se aproveitavam, de um lado, os espaços livres
que ele oferecia; de outro, a forte motivação das massas populares
urbanas e, em certas áreas, rurais, pela alfabetização. Entre estas
áreas, principalmente aquelas em que os camponeses se
experimentavam conflitivamente, empenhados na reivindicação da
terra ou mesmo da melhora salarial. As Ligas Camponesas são um
exemplo, sobretudo no Nordeste brasileiro, da inquietude dos
camponeses e de seu ânimo de organizar-se. É preciso que se diga,
porém, que não foi nenhuma campanha de alfabetização de adultos
que fez nascer as Ligas Camponesas, nem estas surgiram com as
características de luta com que as conheci, mais ou menos de perto,
no tempo em que coordenei, a nível nacional, a campanha de
alfabetização de adultos. Foi a experiência dos campo-neses,
inicialmente associando-se para a solução de problemas vitais,
entre eles o do próprio sepultamento de seus mortos, que os levou
a uma prática mais e mais política. Foi esta prática, sem dúvida,
que se foi fazendo mais e mais política e que os engajou, mais
tarde, na luta pela reivindicação da terra e da melhoria salarial, que

**
Karl Marx – Obra citada, Vol. I, pág. l37.
terminou por dar sentido à alfabetização. Esta aparece, assim,
como algo necessário à sua luta, mesmo que não se tivesse
verificado qualquer alteração nas relações sociais de produção e
precisamente por causa disto. Para muitos, a alfabetização era
vista, nestas circunstâncias, como um instrumento a mais na
efetivação da transformação daquelas relações.
As duas grandes greves de trabalhadores rurais de Pernambuco,
em 1963, a primeira com 83.000 e a segunda com 230.000
grevistas, são um exemplo indiscutível deste fenômeno.
Desta forma, a tônica da campanha de alfabetização no Brasil
era eminentemente política. Interessava-nos, nas condições
históricas em que estávamos, estabelecer um vínculo
absolutamente estreito entre a alfabetização e a consciência política
das massas populares. Daí que, no contexto da experiência
brasileira, as relações entre a alfabetização de adultos e a produção
se tenham expressado na critica ao modo de produção capitalista,
que, caracterizando o pais como um todo, é preponderante nos
centros urbanos, e na análise critica das relações sociais de
produção, nas áreas rurais.
Não poderia estar em nossa cogitação relacionar a alfabetização
de adultos à produção no sentido de uma capacitação técnica dos
alfabetizandos, por motivos óbvios.
Foi por isto também que a campanha brasileira, sem deixar de
ser nacional, estabelecia, porém, prioridades. Entre atuar numa
área em que a consciência popular se encontrasse “imersa” e
noutra cuja rebelião popular fosse visível, não havia como hesitar. A
segunda seria a escolhida.
No caso do Chile, a campanha de alfabetização se dá em dois
momentos distintos. No primeiro, nos marcos do governo reformista
burguês da Democracia Cristã. No segundo, no governo da Unidade
Popular, que pretendia a criação de uma Sociedade Socialista.
Em ambos os casos, na experiência chilena a alfabetização
esteve associada à produção, do ponto de vista da capacitação
técnica dos alfabetizandos, com visões políticas necessariamente
opostas.
Talvez, de maneira um pouco ligeira, pudesse dizer que, no caso
brasileiro, em grande parte, a motivação pela alfabetização entre as
massas populares estava ligada ao desejo de mudança, mesmo que
a visão desta fosse vaga e imprecisa.
No caso do Chile, na primeira etapa, a do governo democrata
cristão, a motivação pela alfabetização se associava ao
aprofundamento das reformas realizadas – como a reforma agrária
– que, por sua vez, davam à alfabetização de adultos um caráter de
necessidade funcional. Necessidade que, mudando de qualidade, se
estende e se intensifica no período da Unidade Popular.
Não foram raros os camponeses chilenos que, em conversa
comigo ou nas discussões nos Círculos de Cultura, falavam das
razões bem concretas que os tinham levado a alfabetizar-se.
Insistiam sempre em que antes da reforma agrária não tinham por
que aprender a ler e a escrever, mesmo que um "patrão mais
compreensivo” o proporcionasse, pois que nada teriam que “fazer
com as letras”.
O caso da Guiné-Bissau é diferente, mas problemático também.
Indiscutivelmente, a guerra de libertação, como “um fato cultural e
um fator de cultura” (Amílcar Cabral), foi a grande parteira da
consciência popular. Não foi por acaso que os camaradas do Círculo
de Cultura que visitamos, Elza e eu, ao discutirem sobre a luta,
diziam que “a luta de hoje é a mesma de ontem com algumas
diferenças. Ontem, diziam eles, com armas nas mãos, buscávamos
expulsar o invasor. Hoje, com armas nas mãos, vigilantes, a nossa
luta é a luta pela produção para a reconstrução de nosso País”.
Lembro-me também de que, na mesma reunião, um outro
camarada dizia que a luta pela produção, que deve ser feita através
do trabalho de todos, insistia ele, exige um total desprendimento,
em função do interesse coletivo, que deve estar acima dos
interesses individuais.
Mas, mesmo admitindo-se que a consciência política da grande
maioria da população do país corresponda ao nível da clareza
revelada nas citações que acabo de fazer, devido à luta pela
libertação, resta um problema sobre que teremos de pensar, no
setor das relações entre a educação e a produção. Um problema
fundamental que tem que ver não só com a organização do
conteúdo programático da alfabetização e da pós-alfabetização,
para ficar só neste campo, mas também com a própria validade do
esforço alfabetizador.
Refiro-me ao fato de se já houve ou de se está havendo, e até
que ponto, alterações nas relações sociais de produção no país.
Alterações que, necessariamente, darão uma nova dimensão ao
aprendizado da leitura e da escrita e à continuidade deste
aprendizado, que se vai ampliando e aprofundando.
No caso brasileiro, como disse antes, a alfabetização, em áreas
rurais, sem que tais alterações tivessem ocorrido, só tinha sentido
para aquelas populações camponesas que, envolvidas em situações
conflitivas, viam nela um instrumento a mais para a sua Juta. Esta
no é a circunstância da Guiné-Bissau, cujo povo teve, na guerra de
libertação, o que nenhuma campanha de alfabetização lhe teria
oferecido.
Na Guiné-Bissau, hoje, a alfabetização e a pós-alfabetização de
adultos, eminentemente políticas, é claro, necessitam de um ponto
de referência material, em transformação, capaz de perfilá-las junto
às grandes maiorias nacionais como algo importante e significativo.
Em outras palavras, é preciso que estas grandes maiorias tenham
realmente necessidade de ler e de escrever, o que não é de se
esperar, se o contexto concreto continua funcionando
tradicionalmente. Mesmo nas antigas “regiões libertadas”, em que
as populações camponesas estiveram diretamente empenhadas na
luta de libertação, participando do esforço produtivo, com que
asseguravam a alimentação das tropas, e dos trabalhos educativos
realizados pelo PAIGC, problema idêntico, me parece, se põe.
Uma coisa, pois, é ligar a alfabetização de adultos e a pós-
alfabetização à produção numa área em que as relações sociais de
produção começam a transformar-se, com vistas a um modo de
produção socialista, em que se implantam, de baixo para cima,
cooperativas com este espírito, e outra é tentar a mesma ligação
sem que estas condições materiais existam.
No primeiro caso, a alfabetização e a pós-alfabetização atendem
a uma necessidade real. Modificado o contexto, sua tendência é
dinamizar-se cada vez mais, do que resulta, de um lado, uma
mudança, ainda que não automática, na maneira de os indivíduos
perceberem sua realidade; de outro, a ampliação dos horizontes de
sua curiosidade.
Desta forma, muita coisa que, no contexto tradicional, não tinha
sentido, por falta de funcionalidade, passa a impor-se, no contexto
em
transformação. É assim que as margens para o analfabetismo
regressivo se limitam ao mínimo normal.
No segundo caso, pelo contrário, as possibilidades de insucesso
acompanham o esforço alfabetizador desde o começo e as margens
para o analfabetismo regressivo são enormes.
Isto não é pura opinião, mas a constatação de um fato que se
vem verificando nas mais diferentes experiências de alfabetização
de adultos, onde quer que esta se realize.
E em razão deste fato que nos parece que a campanha de
alfabetização de adultos na Guiné-Bissau, mesmo que seja nacional,
deveria, porém, começar* nas áreas em processo de transformação
e, possivelmente, naquelas que, segundo os planos do Governo e a
política do Partido, em breve espaço de tempo passariam a sofrer,
igualmente, certos câmbios. Nesta hipótese, a alfabetização poderia
inclusive estimular a mudança.
Percebe-se assim, mais uma vez, a importância da Comissão
Intercomissarial que o Camarada Mário Cabral pretende criar e que,
em estreita relação com o Governo e o Partido, deveria traçar as
linhas gerais da política a ser seguida pela campanha de
alfabetização.
Começar a campanha por estas áreas, cujas condições materiais
estão dando-se, além de não afetar em nada o seu caráter nacional,
assegura o seu êxito.
Sem se perder de vista o projeto global da sociedade, as
condições locais das áreas por onde se comece o trabalho devem
estar bem presentes, quando da delimitação do que conhecer, isto
é, da organização do conteúdo programático da alfabetização, que
se alonga na pós-alfabetização. É a partir das condições locais que
se vai alcançando o mais geral.
Assim, a temática implícita em cada palavra geradora deve
proporcionar a possibilidade de uma análise que, partindo do local,
se vá estendendo ao regional, ao nacional, ao continental e,
finalmente, ao universal.
Princípio metodológico a ser igualmente aplicado na pós-
alfabetização.
Sem outra intenção senão a de exemplificar, poderíamos tomar a
palavra geradora arroz, cuja significação para a Guiné-Bissau é

*
Quando digo começar me refiro ao trabalho a ser desenvolvido pelas FARP, após
o esforço realizado entre elas e a que se junta o que se vem fazendo em certos
setores urbanos de Bissau.
indiscutível, e ver como, a partir da riqueza temática a ela referida,
se poderia organizar grande parte do conteúdo programático, não
somente da alfabetização de adultos, mas da pós-alfabetização, da
escola primária e mesmo da secundária.
Num tal esforço, naturalmente, a equipe que a ele se entregasse
estaria atenta quanto aos princípios gerais da política do Partido e
do Governo – o projeto da sociedade, que ilumina, como sublinhei
antes, o que conhecer, o como, o para que, o em favor de que e
quem conhecer, bem como o que produzir, o como, o para que e o
para quem produzir.
Sem me preocupar com a indicação de todas as áreas temáticas
associadas à palavra arroz, nem tampouco preocupar-me com a sua
sequência rigorosamente ordenada, indicarei algumas delas que,
necessariamente, se referem a outras tantas, não sugeridas aqui.
A temática de cada uma das unidades de aprendizagem ou de
conhecimento que apresentarei, repito, em caráter puramente
exemplificador, seria ordenada, certamente de maneira diferente e
muitíssimo mais completa, se tratada por uma equipe
interdisciplinar, preponderantemente nacional. E seria, por outro
lado, enriquecida de matizes que nos passam despercebidos quando
submetida ao debate dos educandos que dariam assim sua
contribuição à organização do conteúdo programático de sua
própria educação.
Como introdução ao estudo das diferentes unidades
programáticas, relacionadas entre si, em torno do arroz, se poderia
analisar as relações entre os seres humanos e a natureza, tomando-
se sempre, como ponto de referência, a realidade concreta dos
educandos e sua prática nesta realidade.
Tal análise envolve a clarificação de uma série de pontos
importantes, a alguns dos quais, apenas, farei referência. O
trabalho é um deles. A análise do trabalho, a partir da compreensão
do trabalho concreto que realizam os indivíduos e não a partir da
idéia de trabalho.
A discussão em torno do trabalho, que “é, em primeiro lugar,
um processo entre a natureza e o homem, processo em que este
realiza, regula e controla, por meio de sua própria ação, seu
intercâmbio de matéria com a natureza”*, abre, por sua vez, a
possibilidade ao debate em torno da cultura, que, em si, constitui
uma unidade de estudo das mais importantes.
A cultura e a identidade nacional. As positividades e as
negatividades desta cultura. A necessidade de superação das
últimas, que Cabral costumava chamar de “fraquezas” da cultura. A
cultura e a produção do arroz. A cultura e a saúde. A cultura e a
comida. A cerâmica, a escultura em madeira, a dança. A invasão
cultural. A alienação cultural.
Por outro lado, a análise, ainda, do trabalho, viabiliza o estudo
de seu processo, de sua organização social. O estudo dos diferentes
modos de produção: o pré-capitalista, o capitalista, o socialista.
Tudo isto, obviamente, de uma forma simples. Nem simplista,
nem sofisticada.

*
Karl Marx – Obra citada, Vol. I, pág. 130
Gostaria, nesta altura, de sublinhar alguns pontos. Primeiro, que
o fato de ser esta uma temática introdutória, não significa, de
maneira alguma, que não esteja presente também, na discussão
das unidades que se seguem. Segundo, que na sua discussão, que
implica na elaboração de materiais áudio-visuais os mais variados,
não se deve fazer nenhuma concessão às arrancadas oratórias e
verbalistas.
Finalmente, me parece importante salientar que a posição, nem
sempre explícita, segundo a qual uma tal temática, por “ser
demasiado teórica, não interessa aos trabalhadores camponeses e
urbanos nem por eles pode ser percebida”, implicitando uma falsa
visão da teoria, é eminentemente elitista.
Amílcar Cabral, em verdadeiros seminários de capacitação para
militantes, analisou temas de alta relevância prático-teórica, de
maneira realmente concreta e objetiva. Jamais minimizou a
capacidade de conhecer de seus camaradas camponeses. E que a
afirmação de Amílcar de que o intelectual pequeno-burguês precisa
ter a coragem de suicidar-se como tal para, renascendo como
trabalhador revolucionário, poder dar uma contribuição real à luta
de libertação, não era nele uma frase feita, um jogo retórico de
palavras.
Amílcar Cabral falou do que fazia. Daí que jamais se tivesse
admitido como possuidor exclusivo da verdade e do conhecimento
revolucionário que ele devesse, no máximo, num gesto
momentâneo de desprendimento, oferecer, como presente, a seus
camaradas camponeses. Pelo contrário, como todo verdadeiro
revolucionário, Cabral foi sempre um educador-educando de seu
povo, de quem era, ao mesmo tempo, por isso mesmo, um
aprendiz constante.
Suas análises sobre “o papel social do campesinato”, sobre a
“unidade e a luta”, sobre a “realidade”, para citar somente estas,
são um exemplo do que acabo de afirmar.
Por outro lado, minha prática há bastante tempo no Recife
começou, não propriamente no domínio da alfabetização, mas no da
pós-alfabetização, não importando, num aparente paradoxo, se os
participantes dos Círculos de Cultura eram alfabetizados ou não.
Prática em que alguns dos temas aqui referidos foram discutidos
por sugestão dos próprios participantes.
No decorrer de minha prática é que percebi a origem da surpresa
que me assaltava, nos começos dela, diante das posições críticas
que operários desescolarizados assumiam na análise de temas, até
então para mim considerados como exclusividades de
universitários. Minha surpresa tinha sua origem na minha posição
de classe, agravada por minha formação universitária, talvez
dissesse melhor, por meu treina-mento universitário elitista.
Foi a partir dos resultados daqueles primeiros trabalhos que me
dediquei à alfabetização de adultos, não hesitando em propor, como
introdução ao aprendizado da leitura e da escrita, uma unidade
sobre a compreensão critica da cultura.
Vejamos agora algumas das possíveis unidades temáticas,
ligadas entre si, em torno da palavra arroz e alguns de seus temas.
PRODUÇÃO DO ARROZ
Geografia do arroz
Política do arroz
História do arroz
Saúde e arroz

Produção do arroz: A produção do arroz na Guiné-Bissau,


partindo-se da análise desta, na área em que se esteja trabalhando
na etapa da alfabetização ou da pós-alfabetização. As relações
sociais de produção. Técnicas agrícolas para a semeadura e a
colheita do arroz – em áreas molhadas ou secas. Preparação das
áreas a serem cultivadas. Técnicas tradicionais; técnicas modernas.
Problemas fitopatológicos.
A visão cultural dos diferentes grupos étnicos, seus
instrumentos de trabalho, suas técnicas.
Análise comparativa entre a cultura do arroz e outras culturas
necessárias à reconstrução do país: o amendoim, o milho, a batata
doce, a mandioca, o caju.
Agricultura e indústria.
Produção e distribuição dos produtos agrícolas.
Hectares plantados e produção por hectare.
Medidas necessárias para aumentar as áreas cultivadas e para
intensificar a produtividade por hectare.
O papel do arroz na economia geral do país. A distribuição
interna do arroz e sua comercialização externa.
Os mecanismos do comércio externo. As divisas e a
reconstrução do país. Defesa dos interesses nacionais.
As cooperativas de produção etc.
Geografia: A geografia do arroz na Guiné-Bissau, partindo-se,
como sempre, da área em que se trabalha na alfabetização ou na
pós-alfabetização.
A geografia internacional do arroz.
Política: A política do Partido e do Governo com relação ao arroz
e à produção geral do país. Defesa dos interesses nacionais etc.
História, O arroz na Guine-Bissau. O arroz nas outras regiões do
mundo.
Saúde: Arroz, nutrição e saúde. Saúde e trabalho. Saúde e
educação. Saúde, trabalho, educação e o esforço de reconstrução
do país.
Antes de finalizar, gostaria de fazer alguns comentários adicio-
nais sobre certos aspectos do dinamismo de um esquema como
este, ou semelhante a ele, cuja realização, bem sei, coloca uma
série de problemas e dificuldades.
O primeiro aspecto que sublinharei é a possibilidade que se tem,
por exemplo, de, ao estudar-se a geografia do arroz, estudar-se a
geografia do país; ao estudar-se a história do arroz, discutir-se a
história do país, a história das primeiras resistências ao invasor; a
história da luta pela libertação; a história que se faz hoje, a da
reconstrução do país para a criação de uma nova sociedade.
Ao estudar-se, finalmente, a Guiné-Bissau, nos mais variados e
interligados ângulos, situá-la no contexto africano e este no
mundial.
Outro aspecto importante é o papel ativo que devem ter os
participantes dos Círculos de Cultura, desde o momento mesmo das
primeiras discussões, quando da apresentação do pré-programa,
como projeto de trabalho. O papel ativo que indivíduos e grupos de
indivíduos devem ter, se aceito o projeto, na coleta de certos dados
locais, referentes a certos pontos do programa. Dados locais sobre
a cultura do arroz (na área), sobre o modo como se faz esta
cultura, sobre o número de hectares cultiváveis e em cultivo, sobre
as dificuldades com que se defrontam os camponeses no seu
trabalho diário, sobre o número de habitantes da Tabanca, sobre a
distribuição, sobre as vias de comunicação, sobre os instrumentos
de trabalho, sobre a saúde, a educação etc. Atividade investigadora
altamente formadora, cujos resultados aumentam o conhecimento
dos educadores ou lhes fornecem estes conhecimentos. Mais ainda,
cujos resultados se constituem num apor-te de inestimável valor
para o Partido e o Governo, que deles devem ser inteirados.
No Chile foram realizados projetos assim, em que os camponeses
faziam o diagnóstico sócio-cultural de suas comunidades,
responsabilizando-se, inclusive, pelo tabelamento dos dados
obtidos.
O esquema apresentado, a título de exemplo, gira em torno da
palavra arroz, como poderia estar referido à palavra milho, à
palavra amendoim etc.
Durante a etapa da alfabetização, a análise desta temática como
da temática referida às demais palavras geradoras, ligadas sempre
a problemas concretos, locais, regionais, nacionais, é,
necessariamente, uma análise introdutória. Seu aprofundamento vai
se dar, exatamente, na pós-alfabetização. Neste sentido é que esta
é, como ficou dito no começo desta carta, a continuidade
aprofundada e diversificada do mesmo ato de conhecimento que se
inicia naquela.
Insista-se em que a posta em prática de um projeto como este
ou de algo semelhante, no campo da alfabetização e da pós-
alfabetização, coloca problemas realmente sérios no setor de sua
organização, tanto quanto possível descentralizada, no da
capacitação dos educadores, no da preparação do material didático
necessário.
Na verdade, porém, na medida em que pretendemos um mínimo de
eficiência no estabelecimento das relações entre a alfabetização, a
pós-alfabetização e a produção, devemos estar advertidos de que
os desafios, nem sempre fáceis de serem respondidos, que teremos
de enfrentar são múltiplos e variados. O da capacitação dos
educadores militantes é um deles. Educadores que se encontrarão
em diálogo com os educandos militantes, mediatizados pela
realidade que juntos devem transformar e conhecer.
Como um todo, as relações entre a educação (alfabetização-pós-
alfabetização) e a produção envolvem dois níveis presos entre si. O
da compreensão do processo mesmo da produção – o que produzir,
como produzir, para que e para quem produzir – e o da introdução
de novas técnicas de trabalho, que implicam em novos
instrumentos e no seu uso.
Se considerarmos apenas estes dois pontos que, em si,
obviamente não esgotam o universo da capacitação dos educadores
militantes, percebemos quão sério e complexo é o desafio que
temos todos. O importante, na resposta a ele, é que, conscientes de
sua seriedade e de sua complexidade, evitemos, porém, cair na
tentação do perfeccionismo.
Façamos hoje o melhor com o mínimo de que dispomos. Só
assim nos será possível fazer amanhã o que hoje não pode ser
feito.
Com o abraço fraternal de

Paulo Freire
J. Amílcar Cabral com uma criança nos braços. (Publicação
Autorizada pelo Comissariado de Informação e Turismo da
República da Guiné-Bissau)
Genebra, 3 de fevereiro de 1976

Engenheiro Mário Cabral


Comissariado do Estado para
Educação e Cultura Bissau

Camarada Mário,

A esta altura, você já deve ter recebido a carta que Miguel lhe
enviou, á propósito de nossa próxima visita.
Tenho a satisfação de remeter-lhe cópia de mais uma carta
dirigida à equipe, através da camarada Mônica e em resposta à que
ela me fez, pondo-nos a par de uma série de atividades realmente
significativas no setor da alfabetização e da pós-alfabetização, no
seio das FARP.
Através de Mônica soubemos da criação da Comissão Nacional,
com a qual me parece importante que nos encontremos quando de
nossa estada ai.
Creio indispensável debater com ela alguns aspectos, pelo
menos, da problemática geral da alfabetização, da pós-alfabetização
e de suas
necessárias conexões com o sistema educacional do país, bem
como as relações deste sistema com o projeto global da sociedade
que se busca criar. Aspectos a que me referi na última carta à
equipe, de que também lhe mandei cópia.
Ansioso por estar aí com todos vocês, vai aqui o abraço
fraternal
do

Paulo Freire
Genebra, 3 de fevereiro de 1976
(Carta n° 4)

Camarada Teresa Mônica.

Acabo de receber sua carta e me apresso em escrever-lhe algo,


mesmo que estejamos às vésperas de nossa próxima visita à Guiné,
quando, espero, poderemos discutir, em equipe, os pontos a que
você se refere, de maneira, talvez, mais aprofundada.
Hoje farei apenas uns poucos comentários – primeiras reações –
aos aspectos centrais de sua carta.
O primeiro deles diz respeito à pós-alfabetização, sobre que me
estendi um tanto na última carta e em que pretendi enfatizar,
sobretudo, que a pós-alfabetização é a continuidade aprofundada e
diversificada do mesmo ato de conhecimento que se inicia na
alfabetização.
Tanto quanto pude perceber, através de sua carta, vocês estão
realizando algo interessante no domínio da pós-alfabetização,
mesmo que 1he pareça, numa posição crítica elogiável, que nem
tudo o que estão fazendo os convença de todo.
A idéia do livro básico, a ser usado pelos “coordenadores”, em
seminários de capacitação para a pós-alfabetização e a cujos
diferentes textos vocês pensam juntar considerações ou análises no
campo da linguagem e da iniciação científica, “a um nível
perfeitamente viável à maioria dos alfabetizandos” que dominarem
a primeira etapa do processo de sua aprendizagem, me parece
realmente boa.
A este propósito gostaria, contudo, de fazer dois comentários.
Devo insistir, porém, que o primeiro destes comentários de modo
nenhum encerra uma crítica ao projeto de vocês. Ao fazê-lo, é como
se estivesse simplesmente pensando alto. E o segundo é uma
indagação que se alonga em sugestão.
Quando, referindo-se ao livro para os coordenadores você diz:
“Para cada texto (do livro) explorar um conteúdo gramatical e
científico a um nível de 4ª classe”, temo que a equipe se deixe
marcar pela concepção mesma da escola primária tradicional,
tomada como acesso necessário à secundária, que, por sua vez, é
vista como introdução à superior, no momento inexistente na
Guiné-Bissau.
É possível que o meu comentário não tenha nada que ver com a
intenção da equipe mas me parece importante debater este ponto.
Mais uma vez vemos como não é possível pensar a alfabetização e a
pós-alfabetização desgarradas do sistema educacional global e
como, através de medidas concretas, realistas, é tão indispensável
quanto urgente que ele seja reformulado. Noutro momento de sua
carta você se refere a esta relação entre a alfabetização, a pós-
alfabetização e o sistema educacional, quando fala da questão do
ensino do português e do creoulo.
Tentando clarificar melhor o meu receio, o que me leva a um
certo retorno à carta anterior, diria que devemos evitar, desde já,
qualquer tipo de equivalência formal e, pior ainda, legal, entre o
conteúdo programático da alfabetização e da pós-alfabetização e os
diferentes graus da escola tradicional que, quanto mais cedo seja
substituída por um novo modelo, condizente com o projeto global
da nova sociedade, melhor.*
O importante, na verdade, é que o alfabetizando se engaje num
ato de conhecimento que se vai aprofundando e diversificando em
função de sua atividade produtiva, sem ter diante de si o mito de
uma escola secundária em que se “promova” e que alcançará se
satisfizer as exigências curriculares da primária, durante a
experiência da alfabetização e da pós-alfabetização. Neste sentido,
o fundamental é que o novo sistema educacional, a emergir da
prática social que se dá no país, não seja algo piramidal - uma
totalidade que se componha de parcialidades cuja “vocação” ou
razão de ser seja selecionar os educandos para encaminhá-los à
etapa posterior.
Desta forma, a educação chamada primária, enquanto
“província” do sistema total, mesmo que mantenha relações com as
demais, não é, porém, concebida como uma “estrada” que conduz a
um ponto superior. Discutindo o sistema educacional que deve estar
a serviço do projeto socialista tanzaniano, diz o Presidente Nyerere
em seu excelente trabalho "Education for Self-Reliance”: ...“a
educação dada em nossas escolas primárias deve ser uma educação
completa em si mesma. Não deve continuar a ser uma simples
preparação para a escola secundária. Em lugar, continua Nyerere,
de as atividades da escola primária estarem voltadas ao exame
competitivo que seleciona os poucos que vão à escola secundária,
devem ser a preparação para a vida que a maioria das crianças
viverá”.*
Cieio ser interessante aclarar, mesmo num rápido comentário
que, no pensamento de Nyerere, “preparation for the life” não tem
a mesma significação ingênua segundo a qual a escola, fora da
vida, seria um centro de preparação para ela. Uma espécie de
parêntese, feito na vida, em que nos capacitássemos para, em
seguida, ingressar nela. Concepção que mereceu lúcida crítica de
Dewey, para quem a escola haveria de ser vida mesma, e não
preparação para ela.
Em Nyerere, a preparação para a vida se dá na compreensão
critica da vida que se vive, somente como é possível criar novas
formas de vida. Daí que seu pensamento pedagógico-politico esteja
empapado do real, do concreto, na prática de cuja transformação
ele centra a atividade educativa.
Não sei se terei sido suficientemente consistente neste
comentário que, repito, não implica em nenhuma critica negativa ao
projeto do livro a que você faz referência.
O segundo comentário me leva a outro tópico de sua carta – o
em que você fala da “quantidade enorme de escritos, verdadeiras

*
Isto não significa, de modo algum, que, mais tarde, na medida em que o novo
sistema educacional vá tomando forma, não se façam equivalências entre a pós-
alfabetização e os níveis do Ensino Básico.

*
Julius Nyerere – Essays on Socialism. Oxford University Press 1968. Reprinted,
l970, p. 61.
obras históricas, feitos pelos alfabetizandos” e que vocês “não
sabem qual a melhor forma de os utilizar”.
Insistindo num dos ângulos já discutidos por nós, indagaria se o
projeto do livro para os coordenadores não poderia constituir-se
numa excelente oportunidade de aproveitamento de, pelo menos,
alguns dos textos escritos pelos alfabetizandos. Inserindo alguns
destes textos no livro, caberia à equipe, em linguagem simples, e
em seguida a cada texto, fazer considerações sobre este ou aquele
aspecto a que o mesmo se referisse.
Mas, deixando de lado agora o projeto do livro para os
coordenadores e fixando-nos nos trabalhos escritos pelos
alfabetizandos, por que, por exemplo, aproveitando o dinamismo
que se vem logrando (referido noutro tópico de sua carta) não
apenas na intimidade de cada Circulo, mas nas relações entre
alfabetizandos de Círculos diferentes, através de cartas, não
começar a intercambiar também os textos? Textos que, lidos e
discutidos, poderiam provocar a redação de outros como respostas
aos desafios neles contidos.
Por outro lado, antes mesmo que se possa editar um livro
completo, com esses trabalhos, para diferentes usos, se poderia
pensar também, à raiz do que discutimos aí, na sua publicação
periódica por Nô Pintcha, bem como no seu aproveitamento num
programa de rádio a ser estruturado para esse fim.
Em qualquer das diferentes e não exclusivas formas de
aproveitamento desse material, me parece que se deveria enfatizar
a força criadora do povo, indispensável ao empenho de
reconstrução do país.
Creio que em torno do que se poderia considerar como ensaios
da pós-alfabetização – sobre que insisti na última correspondência –
você dá exemplos bastante interessantes na sua carta.
A leitura e a discussão de temas propostos pelo jornal de
Bissau*, trabalhos escritos e orais em torno de datas importantes do
país ou sobre acontecimentos da luta relacionados com cada
participante dos Círculos, na sua experiência de combatente, são
alguns desses exemplos. A eles acrescentaria ainda a discussão em
torno do tema Fábrica, à maneira do que propus em volta do tema
Arroz, a propósito da qual você diz que “há muito de profundo no
que toca às constatações feitas pelos alfabetizados”.
É a reflexão crítica sobre a prática diária de vocês com os
alfabetizandos e com os coordenadores que mais que outra coisa
lhes irá abrindo caminhos para preencher “certas lacunas” que você
constata no trabalho ao nível em que se encontra hoje. Esta
reflexão crítica sobre a prática dando-se é absolutamente
indispensável e não deve jamais ser confundida com um blablablá
alienado e alienante. Enquanto fonte de conhecimento, a prática
não é, porém, a teoria de si mesma. É entregando-se
constantemente à reflexão crítica sobre ela que a prática possibilita
a sua teoria que, por sua vez, ilumina a nova prática.
Por isso é que sempre insisto em que minhas cartas não têm
nada de prescritivas. São antes desafios que lhes faço e me faço
para que nos engajemos na prática da reflexão sobre a prática num
*
Nô Pintcha
projeto em processo, que não repete, necessariamente, em todos
os seus aspectos, as experiências de que antes participei.
O problema que se lhe apresenta como fundamental – uma das
lacunas que você menciona – na pós-alfabetização é o de como nela
integrar, sobretudo, os vários aspectos referentes à reconstrução do
pais. A questão central que este problema coloca está em que a
reconstrução do país não pode ser reduzida a um puro objeto de
conhecimento que se desse à nossa curiosidade. Como, por
exemplo, se tentássemos compreender um arado em suas
diferentes peças, em seu mecanismo, em seu funcionamento. A
reconstrução nacional necessita de uma variedade de
conhecimentos em diferentes níveis e áreas, ligadas entre si e em
relação direta com o projeto global da sociedade. Não pode ser algo
de que se fala como algo que foi, mas algo que se conhece na
prática de fazê-lo. Daí a necessidade de relacionar a educação em
geral à atividade produtiva, fonte daquela variedade de
conhecimentos necessários ao dinamismo que deve caracterizar o
esforço de reconstrução.
Na carta que Miguel acaba de enviar ao Camarada Mário Cabral
sobre nossa próxima visita prevemos uma conversa tanto quanto
possível ampla sobre este ponto.
Outro aspecto sobre que você se estende em sua carta e que
urge ser retomado, como você sugere, em nossa próxima visita, é o
problema da língua em que alfabetizar.
Na verdade, o processo de libertação de um povo não se dá, em
termos profundos e autênticos, se esse povo não reconquista a sua
palavra, o direito de dizê-la, de “pronunciar” e de “nomear” o
mundo.
Dizer a palavra enquanto ter voz na transformação e recriação
de sua sociedade: dizer a palavra enquanto libertar consigo sua
língua da supremacia da língua dominante do colonizador.
A imposição da língua do colonizador ao colonizado é uma
condição fundamental para a dominação colonial, que se estende na
dominação não colonial. Não é por acaso que os colonizadores falam
de sua língua como língua e da língua dos colonizados como dialeto;
da superioridade e riqueza da primeira a que contrapõem a
“pobreza” e a “inferioridade” da segunda.
Só os colonizadores “têm” história, pois que a dos colonizados
"começa” com a chegada ou com a presença “civilizatória”
daqueles. Só os colonizadores “têm” cultura, arte, língua e são
civilizados cidadãos nacionais do mundo “salvador”. Aos colonizados
lhes falta história, antes do esforço “benemérito” dos colonizadores.
São incultos e bárbaros “nativos”.
Sem o direito de autodefinição, são "perfilados”* pelos
colonizadores. Não podem, por isso mesmo, "nomear-se” nem
“nomear” ao mundo que lhes é roubado.
Em um dos textos em que discute o papel da cultura na luta de
libertação, Amílcar Cabral faz análises que se aplicam,

*
Ver, a este propósito, Albert Memmi – Retrato do Colonizado Precedido pelo
Retrato do Colonizador, Editora Paz e Terra, Rio, 1977, 2ª edição.
necessariamente, ao problema da língua. Precisamente quando fala
da assimilação – desafricanização – das minorias urbanas que,
vivendo sob e em volta do poder colonial, se entregam à cultura e à
língua dominante, em oposição às grandes maiorias camponesas
que, escapando ao poder mais destruidor do colonizador,
sobrevivem na preservação dos traços marcantes de sua cultura.
Em certo sentido, essas minorias urbanas, "desafricanizando-se”,
são assumidas por um estranho “biculturalismo”**, expressão, na
verdade, de sua alienação cultural e a que nem sempre corresponde
um bilinguísmo. Tanto mais alienadas essas minorias urbanas
quanto mais se esforçam por negar suas raízes, para esquecer ou
jamais aprender a língua de seu povo, definida pelo colonizador
como dialeto, como algo pobre e inferior. Desta maneira,
“nostalgicamente” atraídas pela cultura dominante, que as perfila
como inferiores, se negam na negação de sua cultura. Dai, a
insistência com que Amílcar Cabral falava na necessidade de
"reafricanização” daqueles intelectuais que se dessem
verdadeiramente à causa da libertação.
A este “biculturalismo” estranho, as populações rurais
conseguem ficar imunes e, acasteladas em sua riqueza cultural, de
que até mesmo o que Amílcar Cabral costumava chamar de
“debilidades” da cultura fazia parte, preservaram sua língua. Língua
com que não apenas se comunicavam mas também se defendiam
da alienante agressão colonial.
A sociedade que, superando o seu estado de dependência
colonial, procura refazer-se revolucionariamente, como é o caso da
Guiné-Bissau, não pode escapar, realmente, ao equacionamento de
seu problema linguístico. Problema que já estava posto na etapa
mesma da luta por sua libertação.
Daí a urgência, caso o creoulo, que deve estar para o português
como este para o latim, se afirme como língua nacional, de um sério
esforço a ser feito no sentido de sua “regulamentação”, como língua
escrita, pois que, enquanto língua que se fala, já tem sua estrutura.
O papel que o creoulo vem jogando – e que você sublinha em
sua carta – na unidade nacional, desde os tempos duros da luta,
parece indiscutível. Não temeria, por isso mesmo, colocar o
trabalho de sua “regulamentação”, como língua escrita, que
demanda, obviamente, a orientação de linguístas competentes,
entre as prioridades da luta pela reconstrução do país.
Compartilho, pois, de suas inquietações que, sobretudo,
resultam de sua prática.
Com o abraço fraterno do

Paulo Freire

**
Nota recente: Ver Louis-Jean Calvet, Linguistique et Colonialisme, Petit
Traitérle Glottophagie, Payot, Paris, l974.
Genebra, abril de 1976

Camarada Mário Cabral,

Estou remetendo-lhe algumas cópias – uma para você – da carta


que acabo de escrever à Comissão de alfabetização – outras para, a
seu juízo, serem entregues a camaradas a quem o conteúdo da
mesma possa interessar.
Uma intenção fundamental me move toda vez que escrevo aos
camaradas, ora cartas menos longas, ora mais extensas – a de
provoca em mim, enquanto as escrevo, nos camaradas, enquanto
as leiam, uma reflexão critica em torno de problemas concretos que
estamos todos enfrentando na fascinante experiência que é o
esforço de reconstrução do país.
Ao falar, em parte, de projetos educativos vividos por Elza e por
mim, anteriormente, com a mesma intensidade.com que agora nos
entregamos à problemática de nossa Guiné; ao narrar retalhos de
experiências de que tenho conhecimento indireto, por leituras, ou
ao descrever outras que vi de perto, a intenção continua a mesma –
a de convidar os camaradas a quem escrevo a assumir uma posição
crítica, de que resulte a possibilidade de recriar as sugestões que
vou fazendo ao correr da pena.
Longe de mim, portanto, pensar que cada carta minha deva ser
tomada como uma espécie de ABC, de fórmula acabada, o que
seria, de resto, não apenas a expressão de um desrespeito pelos
camaradas, mas também a demonstração de que não teria
percebido que uma das melhores características de vocês está na
harmonia que vocês conseguem entre a humildade verdadeira que
os permite aceitar a contribuição estrangeira adequada aos
interesses do país e o sentido profundo da autonomia que não pode
ser ferida. Estas virtudes – que expressam a maturidade política de
vocês – não se aprendem em seminários nem são fabricadas em
laboratórios. O PAIGC, por sua vez, não as inventou. Constituiu-se
nelas que se forjaram na práxis da libertação em que o povo
oprimido da Guiné foi o grande educador-educando de seus lideres.
Amílcar Cabral é o símbolo perfeito dessas virtudes.
Foi exatamente esse espírito de auto-respeito, de vigilância, de
cuidado com a História que ao ser feita por vocês os está refazendo
que provocou em todos nós do IDAC este quase irrefreável desejo
de oferecer o melhor de nós à luta de vocês pela reconstrução da
Guiné-Bissau e Cabo Verde. O melhor de nós, que reconhecemos
ser apenas um mínimo, consideradas as limitações de cada um.
Talvez pudesse dizer, perdendo agora um pouco a humildade,
que uma das melhores maneiras de se lerem minhas cartas seria a
de, após tentar a compreensão de sua globalidade, procurar retirar
delas possíveis linhas de trabalho que me passaram despercebidas,
mas que se encontram ocultas numa ou noutra afirmação no corpo
das mesmas. No fundo, ler profundamente uma carta é reescrevê-
la.
Tenho andado um pouco abalado de saúde, o que me fez cortar
certos compromissos. Não há dúvida porém de que em breve
estaremos ai novamente, quando espero fazer um solene
reencontro com as mangas e os cajus – saudades grandes que
tenho!
Pretendemos Elza e eu ficar uns dias além da semana
oficialmente programada para alguma atividade extra – uma delas
junto à comissão de alfabetização, não a Nacional – com Mônica,
Edna, Alvarenga, Paulo e José. Outras atividades para esse tempo
extra podem ser organizadas aí com nossa presença.
Um abração para você, para a camarada Beatriz e carinhos ao
querido neto Pansau (desta vez, creio, está correta a grafia).

Paulo

P.S. impertinente – Querido camarada Mário,

Mesmo que esteja sem notícias da, espero que a Comissão recente-
mente recriada por você na última reunião de síntese, em fevereiro,
e a quem escrevi a carta cuja cópia lhe envio, já esteja
funcionando, com Edna, Mônica, Alvarenga, Paulo e José – não sei
se haverá outras pessoas. O papel desta comissão é realmente
importante. A dinâmica do trabalho na área civil dependerá muito
do que se possa fazer no seio da comissão que, por sua vez, deve
ainda fornecer materiais à Comissão Nacional à qual cabe pensar as
linhas mais gerais da política da campanha. Fiz um apelo idêntico ao
camarada Julinho, do ponto de vista das FARP.
Perdoe a insistência – ela é, porém, insistência de camarada.

Paulo

Genebra, abril de 1976


(Carta nº 5)

Camaradas Mônica, Edna, Alvarenga, Paulo e José,


Esta é a primeira vez que, de maneira explicita, quase
"oficial”, lhes escrevo, dirigindo-me à Comissão, não apenas
criada mas, espero, em plena função, e que se compõe de
representantes de diferentes setores no campo da alfabetização
que atuam, porém, dentro dos mesmos marcos que orientam a
política do PAIGC e do Governo.
Em setembro do ano passado, quando de nossa primeira visita
ao país, na parte final de nosso trabalho, a que se chamou
"reunião de síntese”, sob a coordenação do Camarada Mário
Cabral e com a presença de representantes dos vários
Departamentos do Comissariado de Educação e da equipe do
IDAC, entre um bom número de pontos concretos e viáveis que
constituem hoje núcleos centrais do nosso programa de
colaboração, se encontrava a criação de duas comissões que, por
sua vez, não fechava as portas a outras comissões ou sub-
comissões ou comitês, que a prática viesse a exigir.
A primeira das comissões a ser criada se comporia, pelo
menos num inicio, de representantes que atuassem nas bases
como responsáveis pelo andamento de Círculos de Cultura na
alfabetização e na pós-alfabetização, num setor especifico, o das
FARP, por exemplo, e representantes de setores da área civil,
com projetos em andamento – projetos junto a comitês políticos
de bairro; de juventude, de mulheres, etc.
O papel fundamental desta comissão, na verdade indispensável,
era o de, inicialmente, assegurar uma certa regularidade na ação
entre os diferentes setores de trabalho, proporcionando ainda a
seus membros uma excelente oportunidade de, discutindo sobre
suas especificas experiências, aprenderem mutuamente dos acertos
e dos equívocos praticados.
No fundo, as reuniões desta comissão devem ser sobretudo
reuniões de avaliação*, no sentido em que numa de minhas cartas
falei da avaliação. Quer dizer, de uma ação em que A e B avaliam
juntos uma prática dada ou dando-se, em função de certos
objetivos, sobretudo políticos, que iluminam a prática avaliando-se
para que, assim, possam na próxima prática ser mais eficientes.
Por isso mesmo é que, em reuniões como estas, de camaradas
militantes, nada pode ser ocultado: nem o acerto, nem o equivoco.
Ocultá-los é que constitui o verdadeiro erro.
No esforço fantástico em que estamos todos engajados na
Guiné-
Bissau e Cabo Verde, o problema que se nos coloca não é o de
sermos
individualmente excelentes especialistas, mas o de aprender a
realizar,
em equipe, o viável, cada vez mais corretamente.
É importante que não nos deixemos enlevar por nossas
positividades, fazendo delas uma cobertura, discreta ou não, para
algumas debilidades, ou que tentemos transferir a causa de nossas
debilidades a fatores inexistentes. Como camaradas militantes
comprometidos na mesma luta, com os mesmos objetivos, devemos
*
De programação também
aprender esta coisa óbvia: ninguém sabe tudo; ninguém ignora
tudo. O caminho, pois, para superar nossas fraquezas está em não
escondê-las, mas em discuti-las em função do concreto onde elas se
expressam, como o caminho de confirmar as nossas positividades
jamais poderá ser o de guardá-las avidamente conosco.
Ambos esses casos a que me referi são casos-limite, expressões
de
uma certa ideologia individualista contra que, mais uma vez com
Amílcar Cabral, devemos estar vigilantes.
Finalmente, os esforços desta Comissão, de que o Camarada
Mário Cabral e o Camarada Julio Carvalho estarão sempre a par e,
quando possível, deles participando diretamente, melhorarão,
corrigirão, desenvolverão a prática realizando-se nas bases e se
constituem como
subsídios indispensáveis à tarefa da Comissão Nacional, já em ação
e
que, partindo do conhecimento do que se vem fazendo a nível local
e
regional, pensa as linhas políticas gerais do programa.
É portanto a esta comissão que ora escrevo, convencido de sua
existência, dada a maneira enfática com a qual sua criação foi uma
vez
mais proclamada pelo Camarada Mário Cabral quando da reunião de
síntese de nossa última visita em fevereiro. É possível, porém, que
haja omitido algum nome, pelo que me desculpo.
Gostaria de, centralmente, retomar nesta carta, em que estarei
tocando num ou noutro ponto já referidos nas anteriores, uma
proposta de trabalho que fiz, há seis anos, a um grupo de
educadores latino-americanos no México.
Talvez seja interessante, porém, chamar a atenção,
imediatamente, para o fato de que não é minha intenção tomar a
proposta apresentada como um projeto (mesmo que,
constantemente, fale em projeto no corpo da carta) e, de acordo
com os princípios normais de apresentação de um projeto, analisá-
lo detidamente em suas diferentes etapas, incluindo o capitulo
necessário às previsões orçamentárias. Este será um trabalho
posterior a ser feito se, primeiro, as idéias aqui apresentadas como
sugestões têm alguma coisa realmente que ver com a realidade do
país; segundo, se as sugestões coincidem com os objetivos
imediatos do Partido e do Governo, quanto às relações entre
educação e produção, apresentando, assim, uma certa viabilidade
em face das condições do país.
Antes mesmo de desenvolver a proposta, direi, rapidamente,
algo sobre dois fatos que me levaram, pelo menos indiretamente, a
pensar em expressá-la. O primeiro, bem mais remoto, foi a minha
própria experiência, criança ainda, sendo alfabetizado por meus
pais, à sombra de mangueiras frondosas, no quintal da velha casa
em que nasci, no Recife.
As palavras com que me alfabetizei eram palavras de meu
universo vocabular infantil, que eu ia escrevendo no chão, meu
“primeiro quadro negro”, com gravetos, meu “primeiro giz”.
O segundo fato, o mais recente, se deu no Chile, onde e quando
tive a oportunidade de ver, gravadas no chão dos caminhos que
levavam às áreas de cultivo, palavras escritas pelos camponeses
recém-alfabetizados, com seus instrumentos de trabalho.
Estes dois fatos, tão distantes entre si, ao mesmo tempo tão
próximos em certos aspectos um do outro, me fizeram pensar nas
sugestões há tanto tempo feitas e agora renovando-se nesta carta e
porque renovando-se ganhando matizes novos que não tinham
quando de sua primeira apresentação.
A idéia básica da proposta é a de tomar uma área de produção
agrícola, que esteja sofrendo ou prestes a sofrer, de acordo com a
análise feita na carta n° 3, alguma transformação infra-estrutural,
como um Círculo de Cultura em si mesma. Desta forma, a
experiência existencial da população, como um todo de que a
atividade produtiva é uma dimensão central, se constitui como a
matriz de todo o quefazer educativo, não só no plano da
alfabetização e da pós-alfabetização de adultos, mas também no da
educação de crianças e de adolescentes. Neste sentido, enquanto
contexto concreto em que se dá a prática produtiva, ela é também
contexto teórico, no qual se pensa sobre aquela prática. Tanto
quanto possível, portanto, se tenta a compreensão do movimento
dinâmico entre prática e teoria no contexto mesmo da prática.
Isto significa, de um lado, que a atividade educativa, no setor da
alfabetização e da pós-alfabetização de adultos, como no das
crianças e adolescentes, se pode dar no campo mesmo (embora
não exclusivamente) à sombra de uma árvore, nos meses de sol, e
sob o abrigo de palhoças (palhotas) funcionalmente construídas
pela própria comunidade, no período das chuvas, até que melhores
condições de abrigo aparecessem. De outro, que a educação como
ato de conhecimento e atividade eminentemente política,
centrando-se numa temática que emerge da realidade concreta dos
educandos e associada à produção, deve ser vista como um fator
importante no processo de transformação do pensamento do povo,
algo sobre que Amílcar Cabral sempre insistiu. Desta forma, o
tempo a ela dedicado, sobretudo no caso da alfabetização de
adultos, dentro mesmo da jornada de trabalho, se e quando
necessário, deve ser considerado como tempo igualmente dedicado
à produção.
A primeira grande “codificação”, cuja descodificação vai
desvelando uma série de aspectos componentes do processo de
trabalho, é o contorno natural da área, já alongado em contorno
cultural, pela presença transformadora dos seres humanos nele.
Num tal projeto, na medida em que a vila é tomada, toda ela,
como um grande Círculo de Cultura, todos nela se vão engajando,
num processo educativo em que todos se vão tornando, ao mesmo
tempo, educandos e educadores uns dos outros. O trabalho
baseado na ajuda mútua, no tratamento da terra, na semeadura, na
colheita, na construção de “palhotas”, nos serviços mínimos
necessários à higiene local, deve ser estimulado ao máximo,
discutindo-se as vantagens do mesmo sobre as atividades de
caráter individualista.
Em última análise, um tal projeto visa a sistematizar, sem jamais
burocratizar, a experiência educativa assistemática, em tempo
algum estranha a nenhuma comunidade humana.
O papel de uma pequena equipe de educadores, devidamente
capacitados e que devem incorporar-se totalmente à vida
comunitária, participando de sua atividade produtiva da mesma
forma que os camponeses, seria, entre outros, o de tentar aquele
esforço de sistematização a que me referi. Esforço a ser realizado
com a população e nunca simplesmente para ela.
O marco geral em que se configurará o conteúdo programático
da educação – o que conhecer* – em qualquer de seus níveis é,
como disse antes, a experiência existencial da população, tomada
como um todo, de que a atividade produtiva é uma dimensão
determinante.
No fundo, numa educação como esta, o que se pretende é o
exercício de uma reflexão crítica, aprofundando-se cada vez mais
sobre a maneira espontânea como os seres humanos "se movem”
no seu mundo. É tomar a quotidianeidade mesma em que se
encontram, como objeto de sua análise, no sentido de desopacizá-
la, alcançando assim, a pouco e pouco e na continuidade da prática,
a razão de ser da própria maneira como estão sendo no mundo. Em
outras palavras, é superar o conhecimento que permanece
preponderantemente ao nível da sensibilidade dos fatos pelo
conhecimento que alcança a razão de ser dos mesmos.
Foi isto o que Amílcar Cabral procurou sempre fazer quando,
transformando os acampamentos de luta em verdadeiros contextos
teóricos, considerava tão importante discutir com os camaradas
militantes o andamento da luta, as táticas a serem usadas, os
objetivos a alcançar quanto debater a explicação científica dos
trovões e dos relâmpagos e a crença nos amuletos*. Amílcar Cabral
sabia muito bem que uma coisa tinha que ver com a outra.
Na medida em que a população vá tomando a sua própria
experiência quotidiana – a sua maneira espontânea de “mover-se”
no mundo – como objeto de uma reflexão crítica, o conteúdo
programático da educação vai emergindo em alguns de seus

*
A propósito da delimitação do que conhecer, do como, do para que etc., ver
carta n° 3.
*
“A nossa cultura nova, dentro ou fora da escola, temos que pô-la ao serviço de
nossa resistência, ao serviço do cumprimento do programa do Partido. Tem que
ser assim, camaradas. A nossa cultura deve desenvolver-se ao nível nacional, da
nossa Terra. Mas sem desprezar, nem considerar menos, a cultura dos outros, e
com inteligência, aproveitando da cultura dos outros tudo quanto é bom para nós,
tudo quanto pode ser adaptado às nossas condições de vida. A nossa cultura se
deve desenvolver numa base de ciência, deve ser cientifica, quer dizer, não
acreditar em coisas imaginárias. A nossa cultura deve evitar amanhã qualquer um
de nós pensar que o relâmpago é mostra de que Deus se enraiveceu, a trovoada
é a voz do céu que fala, ou “IRAN” furioso. Na nossa cultura, toda gente tem que
saber amanhã que trovoada são duas nuvens que se chocam, uma carregada de
eletricidade positiva e outra carregada de eletricidade negativa e quando se
chocam provocam uma faísca, que é o relâmpago, e am barulho, que é a
trovoada”. Amílcar Cabral, Resistência cultural – PAIGC – Unidade e Luta,
Publicações Nova Aurora, Portugal, l974, págs. 198-9.
elementos básicos. Conteúdo programático que se estrutura em
torno de diferentes mas inter-relacionados aspectos que compõem
aquela maneira espontânea de “mover-se” no mundo.
Este “mover-se” ou orientar-se espontaneamente no mundo, que
implica em estar no mundo e com o mundo, algo mais que viver –
envolvendo, indiscutivelmente a consciência de si dos sujeitos que
se movem e a consciência do mundo em que se movem não
significa, porém, que o mundo – realidade – seja tomado como um
objeto de real conhecimento. Daí a ênfase de Cabral em que “a
nossa cultura deve se desenvolver numa base de ciência, deve ser
científica, quer dizer, não acreditar em coisas imaginárias”.
Na experiência da quotidianeidade, ao orientar-se na realidade,
os sujeitos a tomam como o "campo em que se exerce sua
atividade prático-sensível e sobre cuja base surge a intuição prática
imediata da realidade”.**
O fundamental, porém, é que, no processo educativo, a realidade
seja tomada pelos sujeitos que nela se "movem” não apenas como
o “campo em que se exerce sua atividade prático-sensível”, mas
também e sobretudo como objeto de um conhecimento cada vez
mais rigoroso. Conhecimento que esclarece e ilumina a própria
atividade prático-sensível que tem na realidade o campo em que se
dá. "A prática utilitária imediata, para citar mais uma vez a Kosik, e
o sentido comum cor-respondente põem aos homens em condições
de orientar-se no mundo, de familiarizar-se com as coisas e
manejá-las, mas não lhes proporcionam uma compreensão das
coisas e da realidade”.*Uma compreensão crítica das coisas e da
realidade, acrescentaria eu a Kosik.
Importa-nos, pois, a educadores e educandos militantes,
enquanto sujeitos que nos “movemos” no mundo, assumir o papel
de sujeitos conhecedores do mundo que transformamos e em que
nos movemos. Importa-nos, fundados na análise crítica de nossa
prática, ir alcançando um conhecimento cada vez mais rigoroso da
realidade em transformação. Conhecimento através do qual se vão
superando, pela desopacização da quotidianeidade, certas formas
ingênuas de confrontação com o concreto, que se consubstanciam
nas “debilidades da cultura” a que Cabral se referia.
Neste sentido é que insisti, na carta n° 3, em que a educação
envolve sempre uma certa teoria do conhecimento posta em
prática. E que esta teoria posta em prática demanda, na perspectiva
do PAIGC,

**
Karel Kosik – Dialectica de lo Concreto, Editoríal Grìjalbo,
México, 1967, pág.
*
Karel Kosik – Obra citada, pág. 26.
L. Juramento dos dirigentes do PAIGC no momento da declaração
da independência da República da Guiné-Bissau. Melina do Boé,
setembro de 1973. Ao centro, o Presidente Luiz Cabral.
(Publicação autorizada pelo Comissariado de Informação e
Turismo da República da Guiné-Bissau)
um papel importante do educando. Um papel crítico de quem
conhece também e não a atitude passiva de quem apenas recebe o
“conhecimento” que se transfere.
Num tal projeto, os educadores militantes, que devem – insista-
se – participar da atividade produtiva tanto quanto os habitantes da
área, o que vale dizer que devem tornar-se habitantes da área
também, procurariam constituir grupos de estudo, com 15 a 20
participantes. Grupos de estudo que, discutindo sobre sua
experiência diária, estariam debatendo a sua prática produtiva que,
por sua vez, possibilitaria a análise de um sem-número de temas a
ela ligados.
A mobilização da população da área, que inclui a interpretação
do projeto em suas linhas gerais, é o ponto de partida do mesmo. A
mobilização da população, por sua vez, implica na sua organização,
indispensável ao desenvolvimento eficaz do projeto e se constitui,
para os educadores militantes, num primeiro momento em que
devem começar a captar as aspirações básicas dos indivíduos e a
visão que têm de si mesmos e da realidade em sua experiência
quotidiana.
Na verdade, é preciso que o projeto seja assumido, desde o
principio, pela população local como um quefazer seu, que, sendo
significativo para ela, lhe possibilite, por outro lado, contribuir para
o esforço geral de reconstrução do país.
Estes requisitos são básicos na medida mesma em que
coincidem também com os princípios políticos do Partido e do
Governo, que estimulam a participação criticamente consciente do
povo no empenho da reconstrução nacional e no da criação de uma
nova sociedade. Participação sem a qual dificilmente se reconstruirá
o país e mais dificilmente ainda se criará a nova sociedade.
Estes dois aspectos – a significação que o projeto deve ter para
a população da área e a sua repercussão na luta pela reconstrução
do pais – devem ser, de um lado, concreta, clara e objetivamente
discutidos na fase primeira do mesmo, a de sua interpretação à
população local; de outro, constantemente retomados durante todo
o processo.
Sem a percepção nítida de ambos e, em muitos casos,
sobretudo inicialmente, do primeiro de tais aspectos, sem pretender
com isto dicotomizá-los, o projeto pode fenecer antes mesmo de
nascer.É que, se para aquelas populações que estiveram desde os
começos comprometidas, desta ou daquela forma, com a luta de
libertação, a expressão “re-construção nacional” tem uma
significação concreta, para outras, a mesma expressão pode ser
demasiado vaga e abstrata. Daí a necessidade de, conforme as
circunstâncias, orientar-se a mobilização no sentido da reconstrução
da realidade mais próxima da população – sua tabanca e até
mesmo as ruas de um bairro. A partir do engajamento numa prática
concreta, ao nível local, é possível dar-se o salto ao regional e ao
nacional. Por outro lado, é importante, voltando mais uma vez à
carta n° 3, que projetos como este se fundem nas transformações
estruturais realizando-se ou prestes a realizar-se. Transformações
que, movendo o contexto tradicional, criam novas expectativas na
população e dão à alfabetização e à pós-alfabetização um caráter de
necessidade. Neste sentido se estabelece um dinamismo no
processo de conhecimento, não importa o nível em que se esteja
dando, em relação direta com o dinamismo que se vai operando no
contexto em transformação.
Não sei se vocês já leram algo a propósito da transformação de
Tachai, pequena vila montanhosa da China setentrional, que o prof.
Lee considera "o mais exitoso exemplo de aplicação da
alfabetização e da educação ideológica de massas ao
desenvolvimento rural”.*
A experiência de Tachai, que a foi tornando um caso exemplar
para a China toda e uma atração para educadores de todo o mundo,
revela, claramente, o dinamismo a que me referi.
Em 1945, depois da expulsão dos japoneses pelas tropas
comunistas chinesas, se deu inicio a "um plano de alfabetização que
incorporava um esquema para o começo de um programa de
reforma agrária, como pré-condição ao desenvolvimento da vila”. A
reforma agrária, pré-condição para o desenvolvimento da vila, se
associava, como projeto ainda, ao clima geral de motivação, que a
caracterizava, com a expulsão do invasor.
O primeiro momento da campanha de alfabetização, toda ela
eminentemente política, em qualquer de suas fases, se centrou na
discussão em torno da urgência da reforma agrária.
Desta forma, o ímpeto de renovação da realidade local por parte
da população camponesa a fez sentir a necessidade da alfabetização
através da qual lhe foi possível a compreensão critica de uma
necessidade, sem cuja satisfação aquele ímpeto se perderia e, com
ele, o próprio esforço de alfabetização. Mas, realizada a reforma
agrária, os camponeses percebem que, apesar de tudo, não podiam
aumentar a produção (sem a qual a transformação de Tachai se
frustraria) por “falta de animais e de instrumentos” de trabalho.
Foi a experiência da nova necessidade que, surgindo no
dinamismo mesmo da transformação da realidade, provocou uma
nova fase do programa de alfabetização, centrada então na
discussão em torno das vantagens da organização para o trabalho
em cooperação.
Deste modo, a necessidade sentida passa a ser criticamente
percebida e uma primeira resposta a ela é dada através da
organização de uma equipe de ajuda mútua, coordenada por Chen
Yung-Kuei, que vai assumindo, a pouco e pouco, uma liderança
indiscutível no desenvolvimento de Tachai.
Os resultados positivos da experiência de Chen Yung-Kuei e
seus companheiros motivaram outros tantos camponeses que a eles
vieram se associar. Assim, a equipe inicial de trabalho à base da
ajuda mútua se transformou em 1952 numa cooperativa a nível
primário; em 1956 se alonga em cooperativa socialista e,
finalmente, em 1958 a vila de Tachai se torna uma “brigada de
produção”.

*
H. P. Lee – “Education and Rural Development in China today”, World Yea book
of Education, University of London. Institute of Education, Teachers College,
Columbia University, N.Y. Reproduzido em: Literacy Work, I.I.A.L.M., Vol. 4, Nº 2
Outubro-Dezembro, l974, pág. 55.
O processo de educação popular acompanha todas estas
modificações, estimulando-as e por elas sendo estimulado.
Muito tempo depois de haver participado, como analfabeto, da
campanha de alfabetização de sua vila e de ter liderado o primeiro
grupo de trabalho cooperativo, em conversa com professores norte-
americanos que visitavam Tachai, Chen sumaria numa frase as
razões por que sua vila se transformou tão radicalmente: “O poder
criador do povo – esta é a força de Tachai e da China”.*
Talvez não fosse demasiado recapitular, rapidamente, os passos
fundamentais da experiência de Tachai, acompanhando, quase
didaticamente, o movimento dinâmico entre a educação, incluída a
alfabetização de adultos, a que se segue toda uma série de
atividades, através de grupos de estudo, não referidas nesta carta,
e as transformações estruturais.
Durante a invasão japonesa, exploração, dominação, falta de
iniciativa.
A expulsão do invasor em 1945 pelos comunistas chineses
desperta a população completamente e a envolve num sentimento
oposto – o da esperança, o da autoconfiança, que a leva
necessariamente a comprometer-se num esforço sério de
reconstrução de sua vila.
O novo clima criado com a libertação é suficiente para fazer a
população aderir lucidamente à campanha de alfabetização que o
Partido Comunista lhe propõe. A campanha de alfabetização, por
sua vez, previa um esquema de reforma agrária sem cuja realização
seria inviável a reconstrução de Tachai. Desta forma, a campanha
associa ao aprendizado da leitura e da escrita, a “leitura” da
realidade sócio-econômica, de que a necessidade da reforma
agrária era um dado fácil de ser “lido”.
Percebida a urgência da reforma, que não se faz sem a remoção
de certos obstáculos, cuja confrontação se constituiu também como
fator de formação de consciência política da população, se efetiva,
finalmente, a reforma.
Realizada esta, os camponeses se defrontam com uma nova
necessidade, que emerge agora de maneira clara, destacada, no
dinamismo da própria transformação – a necessidade do trabalho
baseado na ajuda mútua, somente como poderiam, juntando suas
forças, superar suas limitações individuais na atividade produtiva.
Somente como, indo mais além de interesses individualistas,
poderiam aumentar a produção e consolidar as vitórias até então
alcançadas. Acompanhando o novo momento, a educação se orienta
na mesma direção – a do estimulo ao trabalho solidário, de ajuda
mútua, que termina, de grau em grau, por levar Tachai a constituir-
se numa “Brigada de Produção”.
Talvez fosse interessante, num puro parêntese, aproveitar a
oportunidade em que estamos discutindo e analisando a hipótese de
trabalho que apresento nesta carta, a fim de chamar a atenção
mais uma vez para as relações entre a educação e o projeto global
da sociedade.

*
China! Inside the People's Republie, Committee of Concerned Asian Scholars,
Bantam Books, Nova York, 1972, pkg. l58.
Um plano como o que estamos discutindo, por exemplo, não
pode ser posto em prática, a não ser em escala demasiado
reduzida, se, no projeto global da sociedade, a política estabelecida
para o desenvolvimento econômico se orienta no sentido de uma
rápida industrialização a ser feita através do “tributo” a ser pago a
ela pela produção agrícola. Pelo contrário, um plano educacional
como este pressupõe uma política industrial que, necessária e
indispensável, enfatize-se, tenha na economia agrícola a sua base,
jamais a sua serva dependente. No primeiro caso, as relações entre
agricultura e indústria são em última análise as relações entre
camponeses e trabalhadores urbanos industriais, produzindo todos
para o bem-estar social e coletivo*, no segundo, necessariamente
se cria um fosso entre os padrões de vida de uns e de outros. E
tudo isso tem que ver, por sua vez,com a concepção mesma da
produção.
Se o lucro continua a ter nela um papel, senão idêntico,
semelhante ao que tem na economia capitalista, a produção se
orientará, como disse na carta n° 3, na direção dos valores de troca
e não na dos valores de uso. Assim, não será de estranhar que os
estímulos à produção sejam sempre de ordem material, ao contrário
do que centralmente pretende um programa educativo como o que
aqui discutimos. Programa que, estreitamente ligado à produção,
busca incentivar a responsabilidade social e o trabalho cooperativo,
com vistas ao interesse comum e que, em última análise, se
fundamenta numa profunda crença nos seres humanos. Crença
critica e não ingênua na sua possibilidade de re-fazer-se na prática
da reconstrução de sua sociedade.
Uma das vantagens de um projeto como este, ao propor a
reflexão crítica sobre a realidade contextual em “convivência” com
ela, é a de estimular o surgimento de um novo tipo de escola – a
que, em sintonia com o projeto de nova sociedade que se procura
criar na Guiné-Bissau e Cabo Verde, não dicotomiza teoria da
prática, reflexão de ação, trabalho intelectual de trabalho manual.
Correndo o risco de ser exageradamente reiterante, diria que,
tão cedo quanto realisticamente possível, deve ser abolida a escola
dicotomizante, onde quer que exista, e jamais permitida a sua
presença em áreas ainda virgens ao contacto de sua força
alienante.
Há pouco mais de um ano tive a oportunidade de conhecer uma
experiência realmente rica numa zona rural do Caribe, de que
alguns aspectos, entre os quais o de como os camponeses
organizavam sua própria educação, nos podem aportar valiosas
sugestões ao projeto sobre que conversamos nesta carta.

*
A este propósito, ver Paul T. K. Lin – "Development guided by values:
Comments on China's road and its implications”, em On the Creation of a just
world order, organizado por Saul H. Mendlowitz, The Free Press – A Division of
Macmillan Publishing Co., Nova York, l975, págs. 259-297.
Organizados em torno de uma cooperativa”** de produção, os
camponeses dividiram a área do cultivo em unidades de trabalho,
participando de cada uma um mínimo de 15 trabalhadores.
Em cada uma dessas áreas construíram uma palhoça que
funciona como restaurante e centro de estudos e em que duas ou
três companheiras (não tinham conseguido superar ainda o
preconceito de que aos homens não lhes cabe cozinhar) preparam o
almoço. Ao chegarem, cedo, ao campo, se dirigem à “sede” da área
– a palhoça – deixando lá a contribuição que trazem – uma galinha,
um peixe, pescado na baía próxima, um pedaço de carne, uma
fruta-pão, legumes, frutas – não tendo nenhum o direito de, na
hora do almoço, reivindicar a contribuição pessoal trazida.
Mescladas as quotas pessoais na grande panela de todos, já nada
pertencia a ninguém. O trabalho em comum, solidário, tem que ver
com a comida em comum.
Cada grupo elege um líder que, trabalhando da mesma forma
que os demais na produção, tem responsabilidades de organização,
de coordenação e, às vezes, de representação do grupo junto à
administração, também camponesa, da cooperativa.
Dedicam duas horas ao almoço em que, invariavelmente,
discutem problemas os mais variados – técnico-agrícolas,
sanitários, financeiros, comerciais e a dimensão política desses
problemas. Pensam sobre sua prática. Assisti a uma dessas
reuniões, à sombra da palhoça rústica, e pude constatar, mais uma
vez, o óbvio: que é pensando a prática que aprendemos a pensar
certo.
Uma vez por semana os lideres dos grupos se encontram com o
engenheiro agrônomo (que vai ao campo diariamente) e fazem
juntos a avaliação do que ocorreu entre uma reunião e a outra. No
encontro seguinte com seus grupos, os lideres fazem uma análise
de sua reunião com o agrônomo que, enquanto funcionário da
cooperativa, é assessor técnico dos camponeses.
Além destas reuniões entre os grupos de trabalho e seus líderes
e daquelas entre estes e o agrônomo, há outras de caráter
administrativo com o corpo dirigente da cooperativa e outras
especiais, em que o presidente camponês discute com seus
companheiros sobre as linhas gerais de ação, sobre os problemas
mais urgentes a serem enfrentados, etc.
Depois de algum tempo de realizarem esta experiência, os
camponeses resolveram ampliá-la. Passaram então a motivar a
população do pequeno centro urbano a que sua área rural se liga,
oferecendo quatro seminários anuais sobre a realidade local,
partindo, naturalmente, da análise de sua própria experiência. Os

**
Esta cooperativa nasceu à raiz de um conflito entre os camponeses e a
empresa estrangeira que explorava a terra e a força de trabalho dos camponeses.
O conflito, por sua vez, resultou da demissão de um agrônomo nacional, havia
pouco contratado, com quem os camponeses se solidarizaram totalmente, devido
à maneira democrática e aberta que caracterizava suas relações com eles. O
conflito se aprofundou a tal ponto, gerando uma extensa e prolongada greve – a
primeira da região – que terminou por impor a “nacionalização” das terras
exploradas pela empresa estrangeira, de que uma parte, apenas, foi "cedida” aos
camponeses, em regime de arrendamento, para o cultivo.
temas destes seminários são escolhidos pelos camponeses que
também indicam entre si os companheiros que devem apresentá-
los, em comunicações curtas, a que se segue um debate.
Quando de minha visita de quatro dias, em que fui hospedado
pelo Presidente da Cooperativa, participei de um desses seminários
abertos à população urbana. Não me surpreendeu em nada a
maneira lúcida como os camponeses trataram os temas do
seminário, como criticavam o individualismo, o oportunismo, o
vedetismo; como enfatizavam a necessidade do trabalho
cooperativo, como repudiavam as soluções verticais, como
defendiam o direito de ter voz; como sua prática política os
radicalizava, fazendo-os ver que a causa dos problemas mais
fundamentais com que se defrontavam nem sempre se encontrava
na “intimidade” de seus poucos hectares. Alcançavam, a pouco a
pouco, a visão da totalidade, superando assim a percepção focalista
dos problemas.
Ao escrever esta carta, não sei se esta experiência foi abortada
ou se continua e, se continua, se terá sido distorcida. Nenhuma
dessas hipóteses me surpreenderia.
É interessante contudo observar como esta experiência
sucintamente referida nos remete a alguns pontos sobre que temos
insistido em cartas anteriores e nesta mesma.
Um deles, por exemplo, é o papel do conflito da clarificação da
consciência política das massas populares nele engajadas. Os
mesmos camponeses que vi ativos, organizando-se na defesa de
seus interesses, se encontrariam, poucos anos antes, apáticos.
A experiência da luta de libertação na Guiné-Bissau, para falar
só nela, e suas consequências na clareza política de seu povo, é
demasiado rica a esse propósito.
O outro ponto é o das relações entre a educação, incluída a
alfabetização de adultos, e as transformações infra-estruturais.
Antes do conflito de que resultou a criação da cooperativa, que
alterou as relações sociais de produção, a mesma população
camponesa que conheci envolvida num interessante esforço
educativo não tinha condições objetivas nem subjetivas para tal.
Dadas estas condições, foi possível iniciar um trabalho em que se
tentava, mesmo ainda a nível introdutório, a unidade da prática e
da teoria, da ação e da reflexão, do trabalho manual e do trabalho
intelectual.
Finalmente, a experiência relatada demonstra a possibilidade de
tomar-se uma área de produção como um grande círculo de cultura,
em que todos educam e se educam mutuamente, tendo na sua
prática o ponto de partida para a compreensão crítica de sua
quotidianeidade.
Façamos, agora, uma tentativa de esquematização, de modo
nenhum, porém, rígida, dos pontos centrais referidos até agora.
I – Tomar uma área de cultivo como um Circulo de Cultura em
si mesma.
II – Como ponto de partida do projeto, a mobilização da população,
o que implica na sua organização, no sentido de, através de um
comitê local, participar diretamente de sua administração. A
população deve sentir o projeto como seu. Dai a necessidade, no
processo da mobilização, de uma interpretação dos objetivos do
mesmo, de certos aspectos metodológicos em que o projeto
implica, bem como da importância da presença permanente, se e
quando possível, de jovens que tenham terminado seu curso de
Liceu e que se incorporarão à população como trabalhadores
também. A incorporação destes jovens à população local – repito se
e quando possível – coloca a eles o problema de sua “morte” como
intelectuais formados à distância da prática produtiva e à população
a aceitação deles como verdadeiros camaradas.
Mesmo que um programa como este seja mais facilmente realizável
por militantes das FARP, que juntem à sua consciência política sua
condição também de camponeses e sua experiência no campo da
alfabetização e da pós-alfabetização, me parece da mais alta
importância tentar a adesão de alguns jovens recém saindo do Liceu
e que se encontrem militando no Partido.
Se não lhes foi possível a esses jovens, por várias razões, entre elas
a da própria idade, dar sua contribuição à luta pela libertação
nacional, esta seria, agora, uma forma de dar sua participação à
luta pela reconstrução nacional. Dois anos que dediquem à prática
produtiva e politico-pedagógica, lado a lado com seus camaradas
camponeses, lhes darão o que o Liceu não 1hes pôde dar,
independentemente da boa intenção de seus professores.
Esses jovens poderiam, de vez em quando, vir a Bissau, toda vez
que possível acompanhados de camaradas camponeses, para
participar de seminários com estudantes e professores do Liceu.
Seminários em que discutiriam a experiência em marcha,
preparando, assim, o terreno para que outros jovens, motivados, se
engajassem em prática idêntica.
Seria este ainda um modo a mais de acelerar a reformulação tão
necessária quanto urgente do sistema educacional do país.
III – O conteúdo programático da educação emerge da reflexão
crítica permanente sobre a prática social de que a produtiva é uma
dimensão determinante. A análise da prática produtiva abre a
possibilidade ao estudo sério, que deve ir gradativamente
aprofundando-se, de uma temática rica e plural. Estudo através do
qual se vai superando a pura opinião em torno dos fatos pela
compreensão de sua razão de ser.
Esta temática plural e rica abarca desde as técnicas agrícolas – a
semeadura, a colheita, o tratamento da terra, o combate às pragas,
à erosão, até a compreensão mesma do ato de produzir. A política
econômica do país – o que produzir, como produzir, para que
produzir. Problemas sanitários, cuja discussão pode viabilizar a
criação de um sub comitê de medicina preventiva, com o
aperfeiçoamento dos “curandeiros” e das “comadres” – doutores
populares – que, devidamente treinados pelo pessoal especializado
do Comissariado de Saúde, poderiam prestar um inestimável
serviço à população.
Seria exaustivo aqui e desnecessário agora referir o sem-
número de temas que a reflexão sobre a prática produtiva nos
possibilita e que vão compondo, em unidades de conhecimento
interligadas, o conteúdo programático da educação. O importante é
que um programa que assim se constitui, de maneira dinâmica,
jamais seja reduzido a fórmulas acabadas, estáticas e burocráticas.
Na carta n° 3, a titulo de exemplo, vimos a riqueza temática que a
palavra arroz nos poderia proporcionar.
IV –A posta em prática de um projeto como este exige a
colaboração estreita de diversos Comissariados – o da Educação, o
da Agricultura, o da Saúde, o de Comunicações, o de Finanças, o de
Comércio, devendo o Partido, no plano local, regional e nacional,
estar não apenas a par da existência do mesmo, mas
constantemente informado de seu andamento.
Em certas circunstâncias seria o próprio Partido o iniciador do
processo, em colaboração com os Comissariados nele envolvidos.
Esta colaboração começa no momento mesmo em que se discute, a
nível dos Comissariados e com a participação do Comissário político
das FARP, a possibilidade de tal experiência, continua na etapa da
capacitação dos educadores e acompanha o projeto em todas as
suas fases.
V –Impõe-se uma relação constante entre o comitê local da área
em que se dá a experiência e os diferentes setores dos diversos
Comissariados, diretamente ligados ao projeto. A maneira como
estabelecer essas relações, o menos possível burocrática, será
encontrada na prática mesma do projeto. O fundamental é que elas
se realizem objetiva e eficientemente.
VI – Na medida em que seja possível realizar uma experiência em
certa área do país e em que a população nela envolvida desenvolva
a prática de pensar sua prática produtiva e de ir mais além da mera
opinião dos fatos, a área pode ir transformando-se não apenas num
exemplo para outras áreas, mas também e por isso mesmo num
centro de capacitação de novos quadros.
A prática ensinará a todos nela engajados a ver uma variedade de
aspectos, de problemas, que não estão sequer mencionados nesta
carta, e possivelmente retificará algumas das sugestões aqui dadas.
Finalmente, sem querer voltar a falar da importância da gravação
do discurso camponês e do variado uso que dele se pode fazer,
insistirei em que tanto quanto possível os debates nos diferentes
grupos de estudo devem ser gravados.
Fraternalmente,
Paulo Freire

Genebra, 7 de maio de l976

Camarada Mário Cabral,

Mais uma vez lamentamos Elza e eu não nos ter sido possível
estar com vocês quando da última visita do IDAC.
Segue a cópia da carta que escrevi a Paulo e, através dele, à
equipe toda. Como você verá pela leitura da mesma, minha
intenção é a de pôr problemas sobre a mesa, a de examiná-los à luz
da prática em que nos achamos envolvidos e não a de dar soluções.
Caso haja na carta algo que não corresponda à realidade do país
e com que, por isso mesmo, você não concorde, chame a minha
atenção para que, corrigindo-me, possa trabalhar melhor.
Continuamos aguardando suas instruções sobre a remessa do
dinheiro de que lhe falei na carta que lhe mandei por Miguel.
Esperando encontrá-lo em Dar Es Salaam, no próximo mês, vai aqui
o abraço do camarada e amigo

Paulo
Genebra, primavera, 1976
(Carta n° 6)

Meu caro Paulo,

Recebi, há dias passados, sua carta em que me fala das


reuniões mais sistematizadas entre vocês, que atuam em diferentes
setores no campo da alfabetização de adultos.
Sem querer re-insistir na necessidade do trabalho em comum,
sem o qual pouco poderá ser feito; sem pretender re-enfatizar o
que já sabemos, o quanto a troca de experiências nos enriquece a
todos, estou convencido de que as dificuldades com que porventura
vocês se defrontem na busca de tal esforço podem ser facilmente
superadas. É que há um denominador comum que tende a
identificá-los – o sentido da militância. Na verdade, quanto mais nos
assumimos como militantes, clarificando-nos em nossa prática
política, lúcidos com relação ao em favor de quem e de que nos
encontramos comprometidos, tanto mais somos capazes de ir
vencendo as tentações individualistas que obstaculizam o trabalho
em equipe. É enquanto militantes que nos fazemos muito mais do
que simples especialistas. É a militância a que nos disciplina e nos
move a procurar conhecer melhor a realidade em cujo processo de
transformação e recriação nos achamos lado a lado com outros
militantes, vigilantemente despertos quanto a possíveis ameaças.
Neste sentido, um encontro de militantes que avaliam juntos
sua própria prática – prática não para o povo, mas com ele – não
pode tornar-se um encontro de especialistas em atitude de defesa
um em face do outro. O encontro de militantes há de ser sempre,
por isso mesmo, um encontro dialógico, jamais polêmico, o que não
significa a inexistência de divergências e de pontos de vista
diferentes, que devem ser superados pela discussão séria e
profunda dos mesmos.
Por tudo isto é que sempre insisto, em minhas conversas com
educadores, não propriamente nas técnicas e nos métodos, mas na
clareza política do educador-militante, com relação ao interesse de
quem se encontra a serviço.
A militância nos ensina que os problemas pedagógicos são
sobretudo ideológicos e políticos, por mais que esta constatação
possa assustar a educadores que falam em fins abstratos da
educação e sonham com um modelo de ser humano desgarrado das
condições concretas em que o ser humano se acha.
O novo homem e a nova mulher não se constituem na cabeça
dos educadores, mas na nova prática social que substitui a velha,
incapaz de criá-los.
É também a militância correta, que demanda a unidade dialética
entre a prática e a teoria, a ação e a reflexão, a que nos estimula a
criatividade, contra os perigos da burocratização e da rotina.
A “convivência”, por exemplo, que venho tendo com temas
desde muito objetos de minha preocupação, jamais foi capaz de
“burocratizar” minha curiosidade em face deles. Aproximo-me
deles, enquanto deles “tomo distância”, apreendendo-os como
problemas, por isso mesmo como desafios a serem desvelados.
No ato de revê-los, de re-examiná-los, re-vejo e re-examino,
também, a percepção que deles tive na minha passada reflexão
sobre eles. Mais ainda, e sobretudo, re-vejo e re-examino a prática
que tive, a prática que estou tendo e a prática dos outros, que tomo
como objeto de minha análise critica – a prática na qual os temas
se configuram como problemas.
A minha curiosidade não se burocratiza na medida mesma em
que não me burocratizo em minha prática, ponto de referência
fundamental de minha reflexão. Assim, o permanente exercício de
reflexão a que me obrigo se encontra sempre orientado ao concreto
em que me acho problematizado. Ao procurar “retirar” do concreto
os problemas em forma de temas para, pensando sobre eles,
compreender sua “raison d’être”, jamais aceito a tentação de
transformá-los em vaguidades abstratas. No momento em que
aceitasse esta tentação, é que estaria desvinculando-me de minha
prática, negando assim o seu papel de matriz de minha própria
reflexão. Esta se converteria, então, num jogo puramente
intelectualista, que se expressaria num palavreado, sonoro ou não,
mas palavreado sempre.
A unidade dialética entre ação e reflexão, prática e teoria, se
impõe a mim, qualquer que seja o contexto em que me encontre –
seja o contexto concreto em que atuo; seja o contexto teórico em
que, “tomando distância” daquele, examino o que nele se dá.
Daí a insistência com que digo e re-digo que a prática de pensar
a prática é a melhor maneira de pensar certo.
Sem pretender dar conselhos, receitas ou aula, é exatamente
esta reflexão critica sobre a prática de vocês, por vocês, que a
militância correta lhes exige, que deve ser uma das preocupações
centrais do trabalho da Comissão que os congrega e de cujos
primeiros encontros sistemáticos você nos dá noticias em sua carta.
Aproveitando, porém, a oportunidade em que lhe escrevo,
respondendo à sua carta e, através de você, aos demais camaradas
da Comissão, gostaria de tocar num ponto que constantemente
emergiu nas reuniões que aí tivemos em fevereiro passado. Refiro-
me ao nível ainda incipiente do trabalho de alfabetização de adultos
nas áreas populares de Bissau. Em todos os depoimentos em torno
do andamento deste trabalho notava-se quão distantes se achavam
os seus resultados, dos alcançados no mesmo esforço, no interior
das FARP.
Mesmo que conheçamos algumas das principais razões que
podem explicar os descompassos entre tais resultados, creio
interessante refletir um pouco sobre o fato, no sentido de repensar
– o que, segundo sua carta, vocês já estão fazendo – o até agora
feito, para encontrar diferentes maneiras de tornar mais eficiente o
trabalho nas áreas populares, chamadas civis.
Parece evidente que uma das razões fundamentais que
esclarecem o avanço que se verifica nas atividades de alfabetização
e pós-alfabetização no seio das FARP é o alto nível de consciência
política de seus militantes. Consciência política forjada na longa luta
de libertação.
Não é de estranhar, por isso mesmo, que esses militantes,
percebendo a luta pela reconstrução nacional como uma
continuação necessária daquela, percebam, também, em termos
críticos, a necessidade de aprenderem a ler e a escrever como uma
forma de melhor servirem à reconstrução do país e não como um
meio de instrumentar-se no sentido de satisfazer a interesses
individuais.
De estranhar seria que entre os militantes das FARP (mesmo
uma minoria) se associasse o aprendizado da leitura e da escrita à
obtenção de bons empregos ou de uma posição de privilégio. Entre
eles, a expressão “reconstrução nacional” tem, indiscutivelmente,
um significado concreto. Significado que 1hes veio sendo desvelado
pela luta mesma. Nesta é que devem ter percebido bem a
advertência de Amílcar Cabral de que “o povo não luta por idéias,
por coisas que estão na cabeça dos homens. O povo luta e aceita os
sacrifícios exigidos pela luta, mas para obter vantagens materiais,
para poder viver em paz e melhor, para ver sua vida progredir e
para garantir o futuro de seus filhos. Libertação nacional, luta
contra o colonialismo, construção da paz e do progresso –
independência – tudo isso são coisas vazias e sem significado se
não se traduzem por uma real melhoria das condições de vida”.*
É precisamente a clara compreensão desta advertência que se
veio constituindo na luta pela libertação, que os faz ver na
reconstrução nacional a continuação necessária daquela luta.
Em um dos Círculos de Cultura a cujos debates assistimos Elza e
eu, em que falavam da luta pela libertação, referindo-se a certos
episódios desta luta, estabeleciam sempre a relação estreita entre
ela e a re-construção nacional. “Se na reconstrução, que exige a
luta pela produção – disse mais ou menos um deles – só pudermos
comer uma vez por dia, comeremos uma vez por dia. Os interesses
do povo estão acima dos interesses individuais”.
Na verdade, o analfabetismo no seio das FARP, como entre
aquelas populações que se encontram diretamente envolvidas na
luta pela libertação, é linguístico e não político. Do ponto de vista
político, esses militantes são altamente “letrados”, ao contrário de
muitos letrados, que são politicamente “analfabetos”.
Por outro lado, um dos traços marcantes do PAIGC, sob a lúcida
liderança de Amílcar Cabral e de seus camaradas, foi sempre o de,
entendendo a luta de libertação nacional “como um fato cultural e
um fator de cultura”, em tempo algum haver dicotomizado nela o
político do militar.
Não uma vez nem duas, em seus textos, Amílcar Cabral sublinha
“que a nossa resistência armada é um ato político” e que a “nossa
resistência armada é também uma expressão da nossa resistência
cultural”.*
Foi esta visão dinâmica da luta, constituindo-se na luta mesma,
que levou Amílcar Cabral e seus camaradas de Partido a jamais
desprezar a formação rigorosa dos militantes. Dai que nunca tivesse
sido esta reduzida a um treinamento puramente técnico-militar para

*
Amílcar Cabral – PAIGC – Unidade e Luta, Publicações Nova Aurora – Lisboa,
l974, pág. 46.

*
Amílcar Cabral – Obra citada, págs. 219-220.
o manuseio das armas. O militante aprendia não apenas o que era
um fuzil e como usá-lo, mas também para que usá-lo, porque usá-
lo, contra quem e contra que usá-lo e a favor de quem e de que
usá-lo.
“Somos militantes armados e não militares”, disse Amílcar,
insistindo na necessidade de “um trabalho político eficaz no seio das
forças armadas”, cuja falta provocava “uma certa mania militarista.
Tendência, enfatizava ele, que deve ser combatida e liquidada com
urgência no seio das FARP”.
Em todos os seus momentos e aspectos, a luta se dava sempre
à reflexão dos militantes, qualquer que fosse o nível de sua
responsabilidade nela.
As FARP se constituíram numa experiência que sendo militar foi
sobretudo militante e em que, por isso mesmo, os seus
participantes eram constantemente desafiados a pensar, a
conhecer, a criticar e a criticar-se; a aprender de seus erros e de
seus acertos. Este foi sempre o clima da luta.
“Desenvolver o princípio da crítica em todas as reuniões do
Partido, diz Cabral em um de seus textos, dirigindo-se aos
camaradas, em todos os Comitês e no seio das forças armadas. Na
guerrilha ou no exército, depois de cada operação contra o inimigo,
devemos apreciar os resultados dessa ação e o comportamento de
cada combatente”.**
Noutro texto, diz ele ainda: “Temos de ter cada vez mais
consciência dos erros e das faltas que fizemos, para podermos
corrigir o nosso trabalho e agir cada dia melhor ao serviço de nosso
Partido. Os erros que cometemos não devem desanimar-nos, assim
como as vitórias alcançadas não devem fazer-nos esquecer os
erros”. E mais adiante: "Devemos, portanto, diante das
perspectivas favoráveis de nossa luta, estudar cada problema em
profundidade e encontrar para ele a melhor solução. Pensar para
agir e agir para pensar melhor”.*
Este sentido de militância, de compromisso, que inclui a
curiosidade crítica, a necessidade de conhecer cada vez mais a
realidade que se busca transformar, continua a caracterizar as FARP
– e não poderia deixar de ser assim – no momento atual da vida
nacional. Este sentido de militância, com tudo o que ele implica, se
faz, afinal, um aspecto fundamental na compreensão dos resultados
altamente positivos que se vêm obtendo no trabalho de
alfabetização e de pós-alfabetização no seio das PARP.
Não é esta, porém, a situação com que nos defrontamos nas
áreas populares civis de Bissau, cuja população, intensamente
exposta, durante a fase colonial, à presença do colonizador, a seu
poder, à sua violência e a seu engodo e intocada ou quase intocada
pela luta, não teve nesta a parteira de sua consciência política.**

**
Amílcar Cabral – obra citada, pág. 59.
*
Amílcar Cabral – obra citada, págs. 14-15.
**
Isto não significa, de modo algum, negar, de um lado, o esforço desenvolvido
em Bissau pelo PAIGC, nos primeiros anos de suas atividades, a partir de 1956,
ano em que foi fundado, nem o massacre de Pidjiguiti, em 1959, bárbara
repressão do poder colonial às primeiras expressões de rebeldia popular
Daí que, enquanto para os militantes das FARP a alfabetização e a
pós-alfabetização sejam percebidas, facilmente, como um ato
político e um meio de melhor servirem aos interesses coletivos,
grande parte dos que têm procurado os Círculos de Cultura nas
áreas civis, segundo os depoimentos que ai tivemos, vê a
alfabetização como um instrumento para a solução de interesses
individuais.
Embora convencido de que esta atitude tenda a ser superada,
na medida em que o Partido, fiel a seu passado de compromisso
com o povo e o Governo, fiel a esse Partido, portanto ao povo, vem
dando testemunho desta fidelidade através de obras materiais, não
podemos desconhecer esse dado concreto.
Parece importante recordar, mais uma vez, a advertência de
Amílcar, já citada nesta carta: “Lembrar sempre que o povo não
luta por idéias, por coisas que estão na cabeça dos homens”. Se
Cabral fazia esta advertência com relação à luta pela libertação, ela
é válida quanto à luta pela reconstrução nacional, a que a
alfabetização de adultos, para falar só nela, se deve ligar.
Desta forma, o trabalho de alfabetização de adultos nestas áreas
civis nos coloca uma série de problemas, entre eles o de como nos
aproximar de tais áreas. O de como encontrar caminhos através dos
quais problematizemos aos indivíduos sua explicável percepção
individualista da alfabetização. O de como, desde o momento
mesmo dos primeiros contactos com os habitantes da área, já
comecemos a vincular a alfabetização a uma tarefa concreta, a ser
feita à base da ajuda mútua, em lugar de enfatizar a percepção que
dela têm – a de uma atividade intelectual capaz de promovê-los
individualmente.
Ao começar a repensar as atividades nestas áreas, creio que
uma das primeiras preocupações da Comissão, que submeto a
vocês, deve-ria ser a de selecionar, com o máximo do rigor,
algumas delas como experimentais, para um diferente início dos
trabalhos de alfabetização. A seleção deverá ser tão mais rigorosa
quanto estejamos advertidos de que os resultados obtidos nas áreas
escolhidas jogarão um indiscutível papel no aprofundamento da
campanha e na sua expansão a outras áreas. Nelas aprenderemos
dos acertos e dos erros cometidos, a serem sempre analisados e
discutidos em sua razão de ser.
Isto significa aplicar ao trabalho de alfabetização, à sua
organização, a seu funcionamento, os mesmos princípios de crítica,
de disciplina criadora e militante que Cabral sempre apresentou
como fundamentais para a vitória na luta pela libertação.
A seleção implica, naturalmente, em certos critérios, entre os
quais salientaria pelo menos dois: o de se a população da área ou
parte dela está envolvida em alguma atividade produtiva
sistemática, ou prestes a envolver-se; o dos níveis de participação
política da população, em outras palavras, como a população vem
respondendo ao esforço de mobilização política feito pelos comitês
de bairro do Partido. Dai que a Comissão deva estar em diálogo

canalizada pelo Partido, nem, de outro, o empenho constante do PAIGC, durante


toda a luta, no sentido de atuar em Bissau.
constante com a liderança desses comitês, não apenas no momento
da seleção das áreas onde atuar, mas durante todo o processo de
sua ação nos bairros. O Partido deve ter um papel importante, não
só na escolha das áreas mas na implantação e no desenvolvimento
do programa.
Escolhidas as áreas – duas, três, não importa – o ponto de
partida do trabalho seria uma visita às mesmas, em que os
membros da comissão se fariam acompanhar de um dos
representantes do comitê político local.
A esta altura talvez se pudesse dizer por que visitar este ou
aquele bairro, como ponto de partida do trabalho de alfabetização,
se vivo em Bissau, se tenho estado nesses bairros por várias vezes?
O fato, porém, de haver estado várias vezes num bairro ou de
caminhar diariamente numa rua nem sempre é suficiente para que
tenhamos da rua ou do bairro uma visão realmente crítica. Visão
que começamos a ter na medida em que, mais do que
simplesmente visitar o bairro ou andar quase automaticamente pela
rua, olhando e escutando apenas, tomamos o bairro ou a rua como
“preocupação”, procurando vê-los e neles ouvir sua população –
comunicar-nos com ela. Processo em que, mais do que especialistas
“frios e distantes”, que fazem da área e de seus habitantes objetos
de sua análise, somos militantes em busca de conhecer a realidade
da área com os que nela habitam.
Nestas visitas, os mais mínimos pormenores em torno da
realidade devem ir sendo anotados – o estado em que se
encontram as ruas do bairro e que tinha que ver, por exemplo, com
a saúde coletiva; a existência ou não de pontos de encontro, em
que as pessoas conversam; a maneira como as crianças brincam ou
não nas ruas; um sem-número, afinal, de dados que se revelam a
nós quando não apenas andamos pelas ruas, mas nos pomos
curiosos diante delas.
De alguns desses aspectos poderiam ser feitas fotografias –
verdadeiras codificações da área – que seriam discutidas,
posteriormente, nos Círculos de Cultura, por seus participantes.
Constituindo-se como uma primeira aproximação crítica aos
bairros, estas visitas nos introduzem ao conhecimento deles,
conhecimento que se irá selando na proporção em que
aprofundemos nossa intimidade com seus habitantes, não só nos
Círculos de Cultura mas sobretudo através de algum programa de
ação concreta a ser desenhado com a participação dos habitantes.
Desta forma, em alguns casos, que a prática nos indicará, a pós-
alfabetização pode “preceder” à alfabetização. Assim, em lugar de
começarmos com Círculos de Cultura para a alfabetização,
começaríamos discutindo com grupos de pessoas do bairro aspectos
concretos de suas ruas e a possibilidade de, em uma forma de
trabalho baseado na ajuda mútua, resolver pequenos problemas
locais. Ao discutir-se, por exemplo, a viabilidade de se juntarem
esforços no sentido de aterrar depressões do terreno em que as
águas da chuva se acumulam e se estagnam, possibilitando a
proliferação de mosquitos, se pode debater uma série de
ângulo@no campo da saúde. E não só isto, mas discutir também a
significação do trabalho cooperativo, da colaboração, da unidade, da
reconstrução nacional. A compreensão desta, neste caso, passa pela
prática concreta da reconstrução da casa em que se mora, das ruas
de um bairro e do bairro mesmo.
Em certo momento do engajamento da população em tarefas
concretas é possível que a necessidade da alfabetização se
imponha. Ela será, então, nesta hipótese, a continuidade
aparentemente paradoxal da pós-alfabetização que a precedeu.
Em qualquer situação, porém, se faz indispensável associar a
alfabetização como a pós-alfabetização a uma atividade prática, de
interesse coletivo, sempre realizada cooperativamente.
Para qual seja esta atividade não há receitas prévias nem pré-
fabricadas. É convivendo com os indivíduos em seu bairro que
iremos descobrindo com eles o que fazer e é dando-nos ao que
fazer e sobre ele pensando que iremos conhecendo mais e melhor.
O conteúdo programático da alfabetização – as palavras
geradoras e os temas a elas referidos – como o da pós-
alfabetização, emerge da compreensão crítica do bairro e das
diferentes práticas que nele se possam desenvolver.
Como tenho sempre sublinhado, ao escrever-lhes não tenho
outra intenção senão a de propor questões, jamais a de oferecer
soluções, mesmo quando sugiro certo tipo de ação.
E com este propósito que lhes escrevo mais uma vez, quando,
desafiados, vocês buscam novos caminhos para dinamizar as
atividades da alfabetização de adultos nas áreas populares de
Bissau.
Com o abraço fraternal de

Paulo Freire
Última página

Até hoje, sem exceção, nenhum dos poucos livros que escrevi
deixou de ser uma espécie de relatório, não burocrático, é certo, de
experiências realizadas ou realizando-se em momentos distintos da
atividade politico-pedagógica em que me acho engajado desde o
começo de minha juventude. Cartas à Guiné-Bissau, Registros de
uma Experiência em Processo, talvez seja, entre todos, o que mais
explicita, a partir de ) seu próprio titulo, este caráter de livro-
relatório. Sua Introdução e o P.S. a ela são o relato que situa as
cartas no contexto para o qual e com relação ao qual foram
escritas.
Na medida em que o processo de que trata o livro prossegue, me
sinto obrigado a continuar fazendo outros relatórios, que ora
aprofundarão afirmações e análises feitas, ora as retificarão, ou a
algumas delas às vezes dirão o que ainda não foi dito.
A maneira como publicar os relatórios que se seguirão – se
simplesmente anexando-os a este volume, na hipótese de novas
edições do mesmo; se constituindo com eles um outro pequeno
livro – não me preocupa no momento.
Um dos pontos a que terei de voltar, de maneira mais ampla,
possivelmente no primeiro destes futuros relatórios, é o da língua.
Na verdade, quanto mais me insiro na experiência guineense, tanto
mais a importância deste problema se evidencia, demandando
respostas adequadas em situações diferentes. De fato, o problema
da língua não pode deixar de ser uma das preocupações centrais de
uma sociedade que, libertando-se do colonialismo e recusando o
neo-colonialismo, se dá ao esforço de sua re-criação. E neste
esforço de re-criação da sociedade a reconquista pelo Povo de sua
Palavra é um dado fundamental.
Impressão e Acabamento

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Fone : 262-5005,
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