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AFASTA DE MIM ESTE

CALE-SE

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AFASTA DE MIM ESTE
CALE-SE

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE


PRÓ-REITORIA DE ASSUNTOS ACADÊMICOS
NITERÓI, 2006

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Copyright © by João Batista de Abreu, Maria Luiza Muniz, Renata Cunha

Direitos desta edição reservados à PROAC - Pro-Reitoria de Assuntos Acadêmicos


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - (CIP)


A162 Abreu, João Batista de; Muniz, Maria Luiza; Cunha, Renata.
Afasta de mim este cale-se: o encontro de memórias e histórias sobre o
regime militar/João Batista de Abreu, Maria Luiza Muniz, Renata Cunha
– Niterói:
Pró-Reitoria de Assuntos Acadêmicos da Universidade Federal Fluminense,
2006
56 p. : 21cm.
1. Memória. 2.História. 3.Título
CDD 900

Capa: Frederico Lopes


Projeto Gráfico/Diagramação e supervisão gráfica: Marcos Antonio de Jesus
Edição e revisão de texto: João Batista de Abreu
Coordenação executiva: Maria Luiza Muniz
Coordenação Geral: José Antonio Fortuna Nogueira (Subcoordenadoria de Prática Discente da
CAEG/PROAC)

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE


Reitor: Cícero Mauro Fialho Rodrigues
Vice-Reitor: Antônio José dos Santos Peçanha
Pró-Reitora de Assuntos Acadêmicos: Esther Hermes Lück
Instituto de Arte e Comunicação Social: Antonio A. Serra

2006
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO:

QUANDO OS FIGURANTES VIRAM PROTAGONISTAS...................7


João Batista de Abreu

VLADO, UM BOM COMPANHEIRO ...........................................................................9


Breno Costa

QUANDO A TESTEMUNHA VIRA VÍTIMA ........................................................... 13


Ana Carollina Leitão

PROFESSOR REVIVE HISTÓRIAS DOS TEMPOS DA


LUTA ARMADA ........................................................................................................... 18
Palloma Menezes

1975, O ANO DA FORMATURA QUE NÃO TERMINOU .................................. 21


Anna Carolina Cardoso

NAS LENTES DO CORONEL, AS RECORDAÇÕES DE


UM PASSADO DE ORDEM ...................................................................................... 26
Pedro Henrique Soares

GRITOS E LEMBRANÇAS DE UMA HÓSPEDE DA RUA TUTÓIA .................. 31


Renata Machado

SÉRGIO RICARDO, DE VOLTA AO PONTO DE PARTIDA ................................. 33


Raquel Campos

TORTURA NUNCA MAIS, A ROTINA DA BUSCA PELOS ... DESAPARECIDOS


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Stephanie Borges

MEMÓRIAS DE MILITANTES .................................................................................. 39


Maria Luiza Muniz

A ODISSÉIA DE ULISSES, UM METALÚRGICO ................................................... 47


Vitor Moretto

VASCULHANDO OS ESCANINHOS DA MEMÓRIA .......................................... 49


Maria Luiza Muniz
Renata Cunha

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QUANDO OS FIGURANTES VIRAM
PROTAGONISTAS

O historiador Marc Bloch, membro da resistência francesa na


2ª Guerra Mundial, desenvolve um pensamento peculiar sobre o
conhecimento. Preso pela Gestapo em Lyon, à espera de ser fuzilado,
escreve para o filho de seis anos respondendo à pergunta sobre por
que estudar História. Primeiro questiona a idéia de que um conhe-
cimento profundo evitaria que se repetissem os erros do passado.
Se assim fosse, não haveria o nazismo. Diante da argumentação de
que a História serve para corrigir as injustiças sociais, Bloch diz que,
se assim fosse, não estaria ele prestes a ser fuzilado.
História e jornalismo costumam caminhar de mãos dadas,
bebem na mesma fonte, percorrem caminhos semelhantes, em-
bora nem sempre cheguem ao mesmo destino. Os jornalistas, como
Vladimir Herzog, costumam ser vistos como cronistas do cotidiano,
e o cotidiano é feito por pessoas anônimas; brasileiros que pagam
impostos, ouvem rádio, vêem TV, lêem jornais e votam – quando
lhes permitem.
A idéia deste projeto, realizado com os estudantes de uma
disciplina de Redação do curso de Jornalismo da Universidade Fe-
deral Fluminense, é recuperar um episódio de nossa História 30 anos
depois, a partir de relatos de pessoas que viveram aquele momento.
Não celebridades, autoridades ou intelectuais, mas gente comum,
que às vezes desempenha o papel de protagonista, mas quase sem-
pre consta nos créditos apenas como figurante. São atores da vida
cotidiana. Professores, estudantes, músicos, funcionários públicos,
jornalistas, metalúrgicos, testemunhas de episódios marcantes do
regime militar. As pautas e as fontes das matérias foram propostas
pelos alunos, que se encarregaram da apuração e do texto final,
claro que com um discreto copy final.
A publicação recupera ainda relatos sobre as mortes dos ope-
rários Santo Dias da Silva e Manoel Fiel Filho, assassinado em janeiro
de 1976, também no DOI-Codi e em circunstâncias semelhantes às
de Herzog. É curioso que este e outros crimes não sejam lembra-
dos com a mesma ênfase pelos meios de comunicação, embora
na época o episódio de Fiel Filho tenha provocado a demissão do
comandante do 2º Exército, general Ednardo Melo Dávila. Questão
de classe? Corporativismo? Está aí uma boa pauta para jornalistas
e um bom tema de pesquisa para historiadores.
O filho de Marc Bloch talvez perguntasse para que serve este
trabalho. Serve para mostrar que em tempos de arbítrio, seja qual
for o matiz da ditadura, direita, esquerda, cristã ou muçulmana, os
abusos não atingem apenas aqueles que se colocam claramente
contra o regime e pegam em armas, mas também quem, por pen-
sar diferente ou por qualquer ironia do destino, se vê no caminho
de autoridades ambiciosas, fanáticas ou despreparadas para o
exercício do poder.
A História serve também para divergir. Quem conhece os
fatos do passado aprende, não necessariamente a evitar sua repe-
tição, mas a entender por que às vezes eles se repetem.

João Batista de Abreu*


Niterói, 26 de Janeiro de 2006

* Professor do Instituto de Arte e Comunicação Social da UFF e atual chefe do Departamento


de Jornalismo. Dout.r em Comunicaçcao pela UFRJ. Bacharel em Ciências Sociais e Co-
municaçâo Social

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VLADO, UM BOM COMPANHEIRO
Breno Costa

Foto cedida por Luiz Alberto Sanz


Às 18h10min do dia 25 de outubro
de 1975, o capitão Ubirajara entra numa das
celas localizadas no prédio do DOI-Codi de
São Paulo. Morto, à sua frente, está Vladimir
Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura.
A alguns milhares de quilômetros dali, na
gélida e distante Estocolmo, capital da Suécia,
um homem de 32 anos prepara-se, depois
de dois anos em solo escandinavo, para ir a
Portugal. Mas uma notícia o deixaria abalado.
O velho amigo Vlado fora assassinado pela
ditadura brasileira. Seu nome, Luiz Alberto Sanz no exílio
Sanz.
Cineasta, ex-membro do Partido Comunista Brasileiro, con-
tando 61 anos de vida, calçando chinelos no conforto de sua casa
no bairro de Itaipu, em Niterói, Sanz volta no tempo por algumas
horas e relembra o convívio com o companheiro.
– Conheci o Vlado através do cinema. Ele era crítico do Estado
de São Paulo e eu, do Jornal do Commercio, no Rio. Tínhamos mais
ou menos a mesma idade, éramos da mesma geração. O Minis-
tério das Relações Exteriores promoveu um curso de cinema no
Rio de Janeiro, que era a capital cultural do país. Isso foi em 1962.
Inscreveram-se no curso Nelson Xavier, José Wilker, Herzog, Carlos
Henrique Escobar, Dib Lutf, muita gente - recorda o ex-militante da
União Nacional dos Estudantes (UNE).
Luiz Alberto Sanz rodou muito por aí, conheceu muita gente,
pegou em armas e perdeu muitos companheiros.
– Quando eu estava na cadeia, no presídio Tiradentes, em São
Paulo, mantinha na minha parede uma lista de companheiros mor-
tos. Aí um trotskista do Rio Grande do Sul, ex-sargento da Brigada
Militar, olhou para mim e disse: “Você vai manter essa lista aí? Um
dia não vai ter mais parede para isso” - conta, com o olhar perdido
em algum ponto do céu, que se destaca, azul, a partir da varanda

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no segundo andar de sua casa.
Apesar de ter conhecido Vlado por meio do cinema, Sanz
ressalta o Herzog político, segundo ele, dono de uma ética extrema,
convicções inabaláveis, mas dotado de cabeça aberta.
– Nossas relações não se estabeleceram por sermos ou não
do partido. Ele sempre foi uma pessoa extremamente coerente
e aberto politicamente. Mesmo as pessoas que tinham rompido
com o PCB, ou eram liberais burgueses, e até algumas de direita, se
davam bem com ele. Mas ele tinha suas convicções políticas e as
punha em prática. Era uma das pessoas com maior capacidade de
abrir a cabeça das pessoas. Eu li num desses jornais, nesse episódio
das fotos, que o Vlado era uma pessoa filiada, mas sem atividade
no PCB. Isso, naquela época, não existia. Quem tem filiado sem
atividade é o PPS hoje. Você podia ser simpatizante, que é outra
coisa. Ele era militante ativo - assegura Sanz, que conviveu seis
meses com Vlado na época do curso de cinema no Rio e depois só
o encontrou esporadicamente pelas esquinas da vida. Um desses
encontros aconteceu no Chile, em 1973, onde Sanz estava exilado
desde 1971, quando foi banido do Brasil, trocado no seqüestro do
embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.
– Vlado foi ao Chile em 72 ou 73, de férias, acompanhado de
Clarice e de uma jovem nissei e, lá, fez questão de encontrar seus
velhos amigos, não importava onde eles estivessem. Nós comemos
um dos pratos típicos e raros do Chile, chamado curanto. Aí nós
restabelecemos um canal de comunicação nosso. Ele me mandava a
revista Visão e outras informações e eu mandava para ele notícias da
gente. Depois do golpe do Chile, nós perdemos o contato de novo
e a próxima notícia que eu tive dele foi sua morte, lamenta Sanz,
como que pausando sua fala na tentativa de rememorar imagens
perdidas no tempo. Ele poderia ter tido o mesmo destino de Herzog,
já que também foi torturado no DOI-Codi paulista.
– Fui detido em maio de 70. O DOI-Codi era um hotel sem
estrelas. Uma experiência que eu não renego, mas que não dese-
jo a ninguém – conta Sanz, que passou oito meses preso entre
o DOI-Codi (Operação Oban), DEOPS de São Paulo e o presídio
Tiradentes.
O ex-companheiro de Carlos Lamarca na Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), quando soube da morte de Vlado, entendeu
o que ele tinha sentido.
– Quando estava preso, já sabia que aquilo poderia acon-
tecer comigo. Porque é mais humano matar do que torturar.
Então, quando a gente era preso, a gente sempre construía a
esperança, no nosso imaginário, de morrer - em combate ou em
circunstâncias mais amenas do que ser longamente torturado.
A versão oficial de suicídio de Herzog nunca foi explicada.
– O que eu acho que aconteceu foi o seguinte: eles não ti-
raram informações relevantes do Vlado. Eles buscavam o resto da
estrutura do PC e, sobretudo, os quadros do PC na imprensa. Eles
odiavam a imprensa. Quando o Vlado morreu, a linha-dura do II
Exército estava sofrendo derrotas no plano nacional. O [Ernesto]
Geisel entrou, mas ele não era um santinho, democrata, liberal. O
que acontece é que a conjuntura fazia com que fosse necessário
iniciar um processo de distensão no Brasil, que foi chamado de
abertura. E o Geisel já tinha iniciado esse processo. E sua eleição,
que não agradava ao Médici, foi garantida pelo ministro do Exército
do Governo Médici (general Orlando Geisel), que era irmão do Gei-
sel. E, até hoje, a linha-dura do Exército considera a imprensa uma
coisa negativa e perigosa e considerava que a grande imprensa era
dominada pelos subversivos, pelos comunistas.
Mas seria a TV Cultura, rede pública, uma representante da
grande imprensa, uma inimiga em potencial da ditadura?
– Os militares de extrema-direita, que dominavam a máquina
da ditadura, viam o Paulo Egídio, governador de São Paulo, que era
liberal, como uma pessoa não confiável. E eles viam o fato de a TV
Cultura, da Fundação Padre Anchieta, ter vários esquerdistas em
seus quadros, como uma coisa perigosa. Eles queriam desmontar
essa máquina. A TV Cultura sempre teve uma certa influência, pelo
fato de ser a única produção cultural alternativa nos meios de comu-
nicação. Você queria ver um noticiário com o mínimo de dignidade,
você ia para o Herzog, você não ia para a TV Globo.
Várias pessoas morreram durante a ditadura. Nenhuma mor-
te, contudo, repercutiu tanto quanto a do jornalista Vladimir Herzog.
Mas Sanz esboça uma careta quando ouve a palavra mártir.
– Ele não era muito conhecido publicamente. Tornou-se mui-
to mais conhecido depois da morte. A morte dele repercutiu mais
porque a imprensa ficou indignada. E ninguém acreditava que fosse
suicídio. O próprio setor conservador que domina a imprensa no
Brasil se considerou atingido. Era impossível acreditar, para quem
o conhecia, que o Herzog tinha sido assassinado por sua militância
comunista. Para mim, o Herzog era ‘o comunista’. Ele era absoluta-
mente ético. As pessoas que lidavam com ele sabiam que estavam
lidando com uma pessoa honesta. Isso fazia com que, até o dono
da revista Visão, que era um burgês milionário, o Henry Maksoud,
sabia que podia confiar no Herzog.
As saudades de Herzog e de seus velhos companheiros per-
manecem. Quebrando o ritmo da voz embargada, dá a sentença:
– Foi o Estado burguês que matou o Herzog. Vamos parar de
brincadeira. Não foram os militares.
O Vladimir Herzog, nascido sob os auspícios de Câncer em
junho de 1937 e assassinado em outubro de 1975, aos 38 anos, já
não existe mais. Mesmo assim, Sanz ainda consegue enxergar, nos
dias de hoje, herdeiros da ética herzogiana.
– Existem muitos Herzogs por aí - acredita Sanz. Ainda
bem.
QUANDO A TESTEMUNHA VIRA VÍTIMA
Ana Carolina Leitão

Pelo corredor do pátio externo da escola, o coordenador dis-


ciplinar do Colégio Pentágono, em Vila Valqueire, desfila com “cara
de mau”, como diz. O trabalho de Humberto Maços Guimarães é
cuidar para que todos os alunos das turmas do Ensino Fundamental
e Médio estejam na sala para assistir aula. Beto, como é chamado
por funcionários e estudantes, à primeira vista mostra-se um sujeito
nervoso, mas isso talvez seja herança da perseguição que sofreu
durante o regime militar.
Os cabelos brancos, coerentes com a aparência de um ho-
mem de 62 anos, surgiram ainda na década de 70. A gagueira foi
outra marca deixada pelas repetidas sessões de tortura psicoló-
gica que sofreu por ser considerado um subversivo. Beto, que se
declara apolítico, passou de vítima a suspeito diante dos olhos da
ditadura.
A manhã de 29 de junho de 1973 tornou Humberto Guima-
rães suspeito de cumplicidade de um assassinato do qual nada
sabia. Beto trabalhava no curso pré-vestibular que funcionava
dentro do Colégio Veiga de Almeida, na rua São Francisco Xavier,
Tijuca. Ele conta que por volta de 11h estava na secretaria do prédio
quando foi rendido por um dos dois homens que invadiram a sala.
Estavam à procura do professor de História sentado à máquina de
escrever, datilografando as questões de uma prova. O professor
da PUC Francisco Jacques Moreira de Alvarenga, um dos mais
respeitados mestres de História na época, foi executado com três
tiros ali mesmo. O crime tornou o funcionário simultaneamente
testemunha e vítima do regime militar.
– A banana ficou comigo - recorda, referindo-se aos proble-
mas decorrentes daquela manhã.
Quando foram embora, os assassinos deixaram no muro
pintado em spray a sigla ALN. (Ação Libertadora Nacional). Na
época, jornais como O Globo relataram a existência de um terceiro
homem, mas Beto diz que não o viu. Após o episódio, entrou em
estado de choque. Naquele dia, foi para casa levado por dois pro-
fessores que chegaram depois de tudo ter acontecido e, por isso,
nem foram identificados pelos policiais. Não podia imaginar que o
fato presenciado lhe renderia seis meses de noites mal dormidas,
visitas de agentes policiais em seu trabalho, seqüestros-relâmpago
e uma constante tortura psicológica.
– Não sei como não sumiram comigo. Naquela época, pega-
vam as pessoas, colocavam em um navio e jogavam no mar.
Os problemas começaram tão logo voltou para casa. Após
ser deixado por dois professores, um minuto depois alguém tocou
a campainha.
– Até pensei que fosse algum deles - recorda. Mas percebeu
que não quando viu dois homens entrarem em sua casa:
– Um grandão de blusão vermelho e cabeça raspada e outro
magrinho, moreno de terno listrado. Levaram dois pequenos álbuns
com fotos de integrantes da esquerda.
Queriam que Beto, que só conseguia balançar a cabeça
(todo o corpo estava adormecido pelo choque), reconhecesse o
professor Jacques.
– Me mostravam a foto e perguntavam: “E esse com barba?
Imagine ele sem barba”.
Segundo Beto, essa visita foi da esquerda. Queriam saber
quem realmente tinha sido assassinado, por isso o álbum com as
fotos.
O episódio fez com que ele se escondesse na casa de uma tia.
Da rua Luis Barbosa, perto do atual shopping Iguatemi, foi para Vila
Isabel ajudado pelo cunhado e pelo porteiro do prédio. Beto fugia
da imprensa. Sabia que sua foto não poderia figurar nos jornais.
Globo, Dia e Jornal do Brasil queriam seu depoimento. Escapou da
perseguição dos repórteres mas não da dos militares.
– O Exército achava que eu era cúmplice - recorda.
As visitas dos agentes eram sistemáticas. Tinham hora e lugar
certos: pela manhã, na sala do diretor Mario Veiga de Almeida.Todos
os dias, Beto era interrogado.
– Queriam saber o que o professor fazia lá fora. Foram cinco
meses na grosseria e um mês no carinho. Tentaram me fazer con-
fessar por bem.
Além disso, era seqüestrado e levado para os QGs da repres-
são - quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, na
Tijuca, presídio da Ilha das Cobras, na Baía de Guanabara, sob a
guarda do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e Delegacia
de Ordem Política e Social (DOPS).
Gaguejando mais que o normal – “o carburador fica entupi-
do” – o coordenador disciplinar conta que da primeira vez que o
levaram foi para reconhecer o assassino do professor de História.
Os agentes o conduziram ao quartel da PE e lhe mostraram um
homem magro e barbado.
– Ele não tinha condições de sair para matar ninguém - lem-
bra Humberto. Foi deixado numa rua atrás do Veiga de Almeida.
Tudo isso fazia parte da tortura psicológica aplicada pelo regime
militar.
Um dos piores momentos para Humberto Guimarães foi ser
encapuzado no pátio do colégio no qual trabalhava.
– Pensei que fosse morrer.
A descarga de tensão foi tamanha que urinou na própria
roupa. Dessa vez foi levado, também pela manhã, para a Ilha das
Cobras. Não sabe dizer exatamente quanto tempo passou lá em
mais uma sessão de interrogatórios. Segundo ele, após quase a
manhã inteira foi abandonado em um lugar desconhecido e teve
que pegar um táxi para chegar em casa. Essas incursões apenas
aumentavam o grau de tensão do homem de 31 anos preocupado
com sua família (a mulher Edir e o filho de seis meses).
Outra incursão pelas dependências militares aconteceu quan-
do foi levado ao DOPS, na rua da Relação, no Centro. Sempre ouvia
as mesmas perguntas, com a intenção de obrigá-lo, pelo cansaço,
a confessar um crime do qual também fora vítima. Na Delegacia,
a própria estrutura do prédio já lhe causava medo. Acompanhado
por dois homens, subiu em um elevador. Nos corredores, ouvia o
barulho das portas que fechavam atrás de si. Depois de inquisição
semelhante às anteriores, foi deixado na Praça Tiradentes, onde
pegou um ônibus e, mais uma vez, voltou para casa após mais um
sumiço repentino.
Observando-se os muitos casos de desaparecimento durante
a ditadura militar, é quase um milagre que Humberto esteja vivo
hoje. Por menos, um amigo do coordenador disciplinar, Ivan, desa-
pareceu. Parecendo surpreso com a própria sorte, ele conta que o
amigo trabalhava como ascensorista no número 31 da Rua México.
Passava pela Cinelândia, palco dos embates entre estudantes e
militares, quando se viu em meio a uma manifestação. Segundo
Beto, no dia, Ivan vestia coincidentemente uma camisa vermelha, o
que era uma espécie de identificação dos comunistas. Apesar disso,
seu amigo não pertencia a nenhuma facção política. Assustado
com todo o tumulto, tentava fugir quando foi confundido com
militantes de esquerda. A partir desse dia, Beto nunca mais teve
notícias do amigo.
Por mais que se declare apolítico, Humberto sempre traba-
lhou em um meio efervescente durante aquele período político: os
cursinhos de pré-vestibular. Outro episódio que data de 1969, no
curso Hélio Alonso, no Centro, envolveu um professor de Biologia
que Beto julgava ser seu amigo. Ele conta que o professor, coronel
da Marinha, fazia questão de estar sempre próximo dele.
– Os alunos achavam que algum de nós dois era gay.
O professor pagava seu lanche durante o recreio e sempre
descia para o pátio abraçado com o inspetor.
– Quando é amigo, você não percebe nada porque é amigo.
Confia na pessoa.
Assim, nem o fato de o coronel da Marinha pintar a barba e o
bigode de caju e entrar armado em sala chamava-lhe a atenção.
– Achei que a arma não era nada demais para um coronel
-justifica.
Beto diz que depois que o regime terminou, descobriu, pelo
jornal, que o tão cordial professor de Biologia era um dos maiores
torturadores do Brasil. Era ele o médico que determinava quanto
de tortura o prisioneiro ainda suportaria. Seu interesse era ter
Beto como um escudo. Um amigo leal que o defenderia em caso
de perigo.
Todo esse contato intenso com a realidade de Regime Militar
instituído no Brasil a partir de 64, fez com que Beto passasse dez
anos sem querer falar, ler ou ouvir sobre política. Diz que em 1975,
quando o jornalista Vladimir Herzog morreu nas dependências do
DOI-Codi em São Paulo, nem acompanhou a notícia tamanha era
a rejeição a tudo que pudesse lembrá-lo dos dias de perseguição.
Hoje, lida melhor com o que sofreu. Exemplo disso é a aula especial
que dá aos alunos da 8ª série do Ensino Fundamental no Colégio
Pentágono. Em 45 minutos, o coordenador de disciplina transmite
aos adolescentes sua experiência.
– Quando toco nesse assunto fico mais leve, mais calmo -
diz, em uma das salas do colégio em que trabalha, onde concedeu
a entrevista. Humberto Maços Guimarães entrou com processo por
meio da Grupo Tortura Nunca Mais.
Humberto entrou com processo contra o Governo do Estado
do Rio de Janeiro, mas acredita que terá êxito em relação ao Gover-
no Federal. Segundo ele, algumas pessoas já ganharam em Brasília.
Os prejudicados pleiteiam pensão vitalícia ou uma indenização. O
reparo moral é fundamental na medida em que Humberto Guima-
rães acredita que toda a tensão sofrida no passado desencadeou
o aparecimento de um câncer de bexiga descoberto em 1992,
durante uma visita de rotina ao médico. Passou por tratamento de
quimioterapia e, atualmente, faz exames de seis em seis meses.
Beto quer uma compensação do Estado pelos danos morais
sofridos. É o número nove nos processos encaminhados ao Governo
Federal. Acompanha a tramitação pela Internet. Sua ação foi aceita
depois do envio, a Brasília, de uma carta com exames médicos, de-
poimento de um amigo de infância, Deusmar João de Carvalhaes
Pinheiro, que o acompanhou nas visitas ao médico José Viana. O
filho caçula, de 25 anos, advogado, teve acesso à pequena sala que
serve de depósito dos documentos do DOPS, no Arquivo Público,
na Praia de Botafogo. Lá encontrou o registro n° 516 que tratava
do caso de homicídio qualificado como “Justiçamento praticado
por subversivos”. O próprio documento revela o descaso com a
apuração e desorganização da estrutura militar. O registro data de
dois dias depois do que aconteceu. Aparecem informações que não
foram dadas por Beto. Até uma segunda testemunha foi incluída
no processo.
PROFESSOR REVIVE HISTÓRIAS
DOS TEMPOS DA LUTA ARMADA
Palloma Menezes

Com passos lentos, uma pasta em uma das mãos e um cigar-


ro na outra, entra na sala de aula um homem de cabelos e barbas
brancas. Seu nome, Noeli Correia de Melo Sobrinho. Professor há
30 de seus 58 anos, ele se prepara para dar mais uma de suas aulas
de Ciência Política, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ).
Noeli ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do
Estado da Guanabara (UEG) logo após o golpe de 64 e ainda hoje
parece não se sentir muito à vontade para falar sobre o período
da ditadura. Em relato conciso e sem muitos detalhes, em meio a
segui-das tragadas de cigarro, o professor universitário conta que
assim que entrou para a UEG começou a partici-par do movimento
estudantil e, em pouco tempo, já estava indiretamente ligado ao
Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.
A proposta geral do PCBR consistia na formação de um novo
partido marxista que reformulasse a linha tradicional do Partido
Comunista Brasileiro (PCB) a respeito da necessidade da aliança com
a burguesia nacional. No entanto, o partido que Noeli apoiava não
pretendia abraçar a bandeira de uma revolução socialista imediata,
como fariam, por exemplo, os dissidentes fundadores do Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
– A estratégia do PCBR não divergia muito do plano estraté-
gico da Ação Libertadora Nacional (ALN). Baseava-se na escolha da
área rural como palco mais importante da luta rumo a um governo
popular revolucionário.
Na época, a atenção de Noeli não estava tão voltada para a
zona rural. O envolvimento maior do estudante de Direito concen-
trava-se com a luta armada urbana. A preocupação com as questões
sociais, em 68, levou-o a prestar vestibular novamente e começar
a cursar História no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS)
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No início de 1969, junto
com outros integrantes do PCBR, participou de operações armadas
urbanas, voltadas para a propaganda.
O envolvimento com o PCBR levou Noeli a ser preso pela
primeira vez em 1969. O jovem ficou três meses no DOPS. Devido
à prisão, Noeli acabou sendo expulso da UFRJ. Contudo, mesmo
com medo de ser preso outra vez e de voltar a ser torturada por
policiais, Noeli não abandonou o PCBR.
– Apesar de todas as ameaças, eu não podia deixar de lado o
compromisso que eu tinha com a revolução - relembra ele, ajeitando
os óculos de lentes espessas.
Em janeiro de 1970, a repressão atingiu fortemente o PCBR
com a prisão de Salatiel Teixeira Rolim, um dos integrantes do par-
tido. Mais uma vez Noeli foi encarcerado. Nessa ocasião, foi levado
de sua casa direto para o DOI-Codi, onde passou uma semana tendo
que responder a interrogatórios sob torturas e maus tratos.
Em 1971, Noeli pôde voltar a cursar História graças à ajuda de
um padre que aceitou sua transferência para a PUC e lhe ofereceu
uma bolsa de estudos. No mesmo ano, logo após se formar em
Direito, o jovem foi preso novamente, ficando detido por quatro
meses no Regimento de Cavalaria. Apesar de deixar claro que
nesse incidente mais uma vez sofreu tortura, Noeli prefere omitir
os detalhes.
Fumando um cigarro atrás do outro e gesticulando sem parar,
o professor lembra do risco que corria durante todo período da
ditadura. “Sempre estava sujeito a ser preso” e poderia, dessa for-
ma, acabar morrendo na prisão, como aconteceu com o jornalista
Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e com o operário Manoel
Fiel Filho, em janeiro de 1976. Apesar de não ter lembranças muito
claras sobre os dois casos, Noeli comenta o episódio:
– A morte dos dois foi muito estranha, porque em 75 o pre-
sidente Geisel já propunha o início de uma abertura política. Tanto
foram estranhos esses casos que, diferente do que acontecia antes, a
repercussão deles acabou gerando a deposição de um comandante
- explica Noeli, referindo-se ao afastamento do general Ednardo
d’Ávila Melo, substituído pelo general Dilermando Gomes Monteiro
no comando do 2º Exército, em janeiro de 1976.
A polêmica sobre a abertura dos arquivos da ditadura não
parece despertar grande interesse ao professor universitário.
– As Forças Armadas fazem e continuarão fazendo sempre
pressão para que as atrocidades cometidas durante o período da
ditadura não apareçam.
Passados 40 anos do golpe militar, Noeli não parece mais
aquele homem tão idealista quanto era na época da ditadura. Não
acredita mais na possibilidade de uma revolução comunista.
– Pelo menos não no Brasil. Quem sabe em outros povos
mais ativos? - diz ele, com uma expressão desanimada no rosto. O
futuro do Brasil é visto com ceticismo e ironia.
– O Brasil será sempre o país do futuro. Futuro que nunca
chega. Parece que nosso país permanecerá deitado eternamente
em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo.
Assim, com um olhar distante, Noeli encerra o relato sobre
algumas de suas lembranças do passado. Por alguns momentos
parece viajar em seus pensamentos, mas logo volta a focar a turma
que o espera para o início de mais uma aula.
1975, O ANO DA FORMATURA QUE NÃO
TERMINOU
Anna Carolina Cardoso

O ano era 1975. Em Niterói, uma turma de jornalismo do Ins-


tituto de Arte e Comunicação Social (IACS) da UFF estava às voltas
com os preparativos de sua formatura, prevista para dezembro. Na
capa do convite, numa página de classificados, os jovens jornalistas
se ofereciam ao mercado de trabalho. Para patrono, fora escolhido
Alceu Amoroso Lima, que sob o pseudônimo Tristão de Athayde
assinava uma coluna na página de Opinião do Jornal do Brasil,
em que denunciava atos de desrespeito aos direitos humanos.
Para paraninfo, o professor Carlos Henrique Escobar, ameaçado
de demissão porque não conseguia obter o atestado ideológico,
documento expedido pelo DOPS e exigido pela Universidade para
contratação de docentes. Ainda no convite, uma homenagem pós-
tuma ao jornalista morto no DOI-Codi.
A turma completava o curso em um período em que ser
jornalista não era exatamente uma coisa fácil.
– Mas nada era fácil naquela época. Ser brasileiro era difícil.
Fazer jornalismo nesta época era só mais um desafio - comenta
Dante Gastaldoni, na época formando e escolhido orador da turma.
Hoje Dante é professor de Fotojornalismo da UFF, da UFRJ e da
Universidade Gama Filho.
Quando o convite começou a ser distribuído surgiram os
problemas.
– Ocorreram reveses de toda ordem. Vários lugares que
já tinham concordado em sediar a cerimônia, como o SESC e o
Colégio Salesiano, mudaram de idéia. A formatura começou a ser
embarreirada. Em parte, pelo peso do Amoroso Lima e, em parte,
porque, na visão de certas autoridades, um grupo de fedelhos re-
cém-formados queria homenagear um cara que a ditadura havia
matado - conta Dante, em um jardim de inverno da ECO, a Escola
de Comunicação da UFRJ.
Depois de algumas recusas, os alunos finalmente conse-
guiram que a Associação Fluminense de Jornalistas cedesse o
auditório, na rua Maestro Felício Toledo, no centro de Niterói. Mas
no dia 17 de dezembro, os estudantes tiveram uma surpresa de-
sagradável.
– Eu me lembro muito bem, inclusive porque tinha um
discurso para ler. Nós chegamos à Associação e grossas correntes
e cadeados fechavam as portas. Os parentes parados na calçada,
policiais à paisana. Ninguém deu uma explicação de por que a
formatura não aconteceu - recorda.
As portas trancadas daquele dia não foram, no entanto, o
primeiro contato do professor com o arbítrio do governo militar.
Em 1971, quando ainda estudava Engenharia na PUC, chegou a ser
detido pelo Polícia Militar. Estava perto do Diretório Acadêmico,
onde havia uma reunião de que sequer participaria, quando dois
carros da PM entraram pela contramão e encostaram vários estu-
dantes na parede.
– Isso é uma descrição da época. Um dos policiais apon-
tou para mim, disse que eu estava em uma manifestação que eu
nem sabia onde era. Me empurraram para o camburão com uma
metralhadora nas costas porque eu era cabeludo. O nível de arbi-
trariedade era uma coisa que a gente foi sentindo na pele - lembra
o professor, que se livrou de uma encrenca maior dizendo que era
filho de militar.
Era verdade. O próprio Dante havia estudado sete anos no
Colégio Militar. Seu pai, brigadeiro e aviador do Correio Aéreo
Nacional (CAN), tinha-se reformado em 1964, justamente por não
concordar com os rumos que o Exército estava tomando. A noção
do que se passava no período não era, no entanto, tão clara quanto
parece 30 anos depois.
– A consciência mesmo da situação, da densidade da situação,
foi adquirida dentro da universidade, com os professores sendo
cassados, por exemplo - lembra. Depois de sair da PUC, ao descobrir
que ciências exatas não era sua área, Dante prestou novo vestibular
e foi para o IACS, em Niterói.
A UFF, como as outras universidades, não escapava da re-
pressão. Vários professores foram afastados e, para que assumissem
determinados cargos, era necessário apresentar um atestado de
idoneidade moral assinado por um militar. Apesar das adversidades,
o professor fala de uma geração que trabalhava com entusiasmo.
Além da ditadura, eles tinham que lidar com a falta de recursos.
– Para você ter uma idéia, eu me apaixonei por fotografia na
UFF, e nós tínhamos uma única câmera fotográfica, que foi rouba-
da - recorda. No curso de Cinema, a câmera era emprestada pelo
professor Roberto Duarte.
Nas redações, o clima repressor também estava presente. O
orador da turma de Jornalismo da UFF de 75 passou acompanhou
este clima de perto. Estagiou na Rádio Jornal do Brasil, e depois
trabalhou sete anos no Departamento Educacional do JB.
– Os jornais tiravam matérias inteiras, cresciam fotos, alguns
botavam tarjas pretas nas matérias, publicavam receitas culinárias.
Às vezes, aconteciam coisas curiosas. Você atendia ao telefone na
redação e alguém falava: “Aqui é o Douglas da censura federal. É
proibido associar a queda do avião da FAB à sabotagem”. E você
nem sabia que o avião da FAB tinha caído. E não podia escrever
mesmo - recorda Dante.
Apesar do período conturbado, Dante Gastaldoni diz que
percebia uma vontade transformadora no ar.
– Uma certa ingenuidade utópica que tinha uma força con-
siderável. Era mais forte aquele romantismo revolucionário do que
a coerção opressiva que nos envolvia. Como se a gente tivesse um
certo escudo - lembra.
Não havia, entretanto, escudo que os tornassem imunes
aos abusos e a notícia da morte de Herzog deixou os formandos
chocados.
– Foi um escândalo. É óbvio que a versão oficial não era ver-
dadeira. E nos atingiu bastante por sermos jornalistas. Olha onde
estávamos nos metendo!
Para os estudantes da UFF, Vladimir merecia sua homenagem
porque sabiam que “ele era vítima de uma lógica perversa contra a
qual a insurgiram”. No discurso, Dante Gastaldoni usaria uma metá-
fora falando da importância de se plantar muitas árvores quando
algumas eram derrubadas:
– A tônica do meu discurso, que se perdeu no tempo, era dizer
que nós ali éramos pequenos arbustos, parte de um reflorestamento
de que o Brasil precisava para substituir essas árvores que foram
sendo decepadas pelos motivos mais torpes, mais escusos. Mas
que nossa missão era reflorestar idéias, ideais e vontades o país.
Mas o discurso era muito ingênuo - reconhece, confessando que,
tempos depois, quando o releu, se emocionou. Ainda mais tarde,
quando quis reler mais uma vez Dante já não pôde porque o havia
perdido junto com outros documentos num temporal que inundou
sua casa em Niterói.
O discurso perdido jamais foi lido em público. A cerimônia de
formatura jamais aconteceria. Mas o professor que não teve direito
à colação de grau diz não ser esta uma grande frustração.
– Não chega a ser um trauma. Quando vou à formatura dos
meus alunos, me formo um pouco porque não tive a minha. No
lugar da frustração, ficou a sensação de dever cumprido. Hoje, até
acho mais importante a formatura não ter havido. Eu não estaria
contando essa história.
De fato, da época da ditadura, as histórias mais marcantes
parecem ser as de coisas que não aconteceram.
– Parodiando Zuenir Ventura, 1975 foi, para nós, o ano que
não terminou - compara Dante.
Apesar de sua “não formatura” não ser, hoje, tão frustrante, a
reação que teve ao se deparar com as portas do local da cerimônia
fechadas não foi a de alguém conformado.
– Eu fiquei puto. Você pode botar que a expressão é essa
mesmo. Fiquei completamente puto. Transtornado. Queria bater no
que estivesse na minha frente. Depois, quando cheguei em casa,
meu pai e eu tivemos uma discussão muito bonita e acabamos
chorando juntos pela total impotência diante da situação, relembra.
No dia seguinte, os grandes jornais, como O Globo e Jornal do Brasil
dedicaram duas páginas à transcrição do resultado do inquérito do
2º Exército sobre as circunstâncias da morte de Vladimir Herzog.
Conclusão do inquérito: o jornalista tinha-se enforcado na cela.
Alguns dias depois, a turma de 1975 teve uma recompensa:
Alceu Amoroso Lima publicou no JB o discurso que fizera, expli-
cando que a formatura havia sido impedida.
– Pela segunda vez a nossa “não formatura” me fez chorar.
Foram dois momentos em que me emocionei muito. Um, pela sen-
sação de impotência e a outra quando li o discurso do Alceu. Teve
pelo menos um lado bom nessa formatura. Eu pensei: Puxa! Ainda
bem que não tive que ler o meu junto com o dele - recorda e ri.
O episódio pode não ter sido tão traumático, mas a lembrança
que o professor descreve não deixa de ser dramática. Lembra, em
especial, de uma colega, Roseana de Seixas Brito, cujos pais tinham
vindo de Belém para a formatura.
– A cena era de um filme de Fellini. Meninas de vestido lon-
go, rapazes de terno, parentes. Alguns chorando, outros nervosos,
outros achando que era perigoso ficar ali e a Roseana, de vestido
Foto Pedro Capeto
azul, na calçada, com os pais.
Como explicar aquele Brasil para
pais que haviam atravessado o
país para ver a filha se formar e
esbarraram em um cadeado? Eu
era um orador com o discurso
debaixo do braço, Alceu Amoro-
so Lima era um patrono que não
pôde ler seu discurso e Vladimir
Herzog era um jornalista morto.

“Reflorestar idéias”
NAS LENTES DO CORONEL, AS
RECORDAÇÕES DE UM PASSADO
DE ORDEM
Pedro Henrique Soares

Atrás das lentes que corri-


gem a hipermetropia, um olhar
ríspido e severo, de quem dedi-
cou ao Exército boa parte da vida.
Mantém estampada a disciplina
no semblante, e só alarga a face
com um sorriso quando algum
conhecido passa e o cumprimen-
ta. Sobre a mesa, uma garrafa de
cerveja, um copo nunca vazio e uns cubos de queijo, que petisca
num pequeno prato. Desde que se tornou coronel da reserva em
1995, Jefferson Jesus Cavalcanti Daniel Mendes, 60 anos, passa boa
parte do tempo com o círculo fechado de amigos na confeitaria
Julcina, esquina da rua Luís Beltrão com a Poços de Caldas, no
bairro de Vila Valqueire, seguindo o estilo boêmio e suburbano do
carioca. Nesta entrevista, esperava sozinho, calmamente, como se
rememorasse os tempos de oficial.
Expõe-se além do que se imaginava. O caráter disciplinar
chega a ditar as frases, da mesma maneira como a censura durante
o regime costumava fazer com a imprensa:
– Pode colocar aí a seqüência das patentes em ordem
crescente: tenente, capitão, major, tenente-coronel, coronel...- diz,
preocupado em não esquecer todo o périplo que percorreu até che-
gar a coronel. Jefferson, a princípio, nega a influência paterna para a
carreira militar – “sempre fui de gostar de disciplina, ordem” – mas
depois confessa que houve influência. O pai também era oficial e
o filho segue a carreira, como 1º tenente de artilharia do Exército.
Como todo pai orgulhoso, não perde a oportunidade para citar o
casamento do filho no sábado seguinte, além de sua habilidade no
conhecimento de armas:
– Meu filho está sabendo de um armamento militar russo
anti-aéreo que está vindo para o Brasil. É muito custoso, tem vali-
dade de cinco anos - diz, orgulhoso pelo conhecimento do filho.
A carreira militar começou em 1967, quando Jefferson foi
aprovado para a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em
Resende, no sul fluminense. Foi enviado para São Paulo no início da
década de 70 para a cidade de Bauru. Serviu na tropa de artilharia do
Exército e diz que teve pouco envolvimento com o Destacamento
de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa
Interna (DOI – Codi) por ser de uma patente inferior:
– O ideal era ser tenente, capitão.
Por estar em São Paulo, talvez tenha visto o capitão Ramiro,
comandante do DOI-Codi no dia 25 de outubro de 1975, no prédio
da rua Tomás Carvalhal, no bairro do Paraíso, em São Paulo, onde
morreu Herzog. Porém Jefferson diz que não o conhecia. Afirma que
teve contatos com presos civis: médicos, advogados, professores,
mas nega envolvimento com torturas.
– Graças a Deus não tive envolvimento. Eles tinham um
esquema muito bem montado, era impossível ter acesso às infor-
mações.
A responsabilidade pela insurgência é atribuída a quem foi
contra o regime. Daí o apoio irrestrito ao golpe militar de 64, “mo-
vimento que iria assegurar a ordem do país”, segundo seu ponto
de vista. As justificativas são em seguida apresentadas por Jeffer-
son, que conta com desenvoltura sua versão da história. Apesar
de desconhecer as “forças ocultas” que afastaram Jânio Quadros
da presidência e não se conformar com as milhares de pessoas
presentes no discurso das Reformas de Base de João Goulart, em
março de 1964, o oficial reformado afirma que a população vivia
sob o caos e sob a constante ameaça comunista, vista por ele como
a “demonização de uma sociedade”.Ele compara o período jacobino
da Revolução Francesa, comandado por Robespierre:
– O povo estava junto com os militares! Em Belo Horizonte, a
tradicional família mineira caminhou na passeata ‘Com Deus para
a Democracia’ por isso. Eles queriam que os militares restituíssem
a ordem pública.
Quando são mencionadas as ações do regime militar – ele
discorda que seja uma ditadura:
– Ditadura é o que Fidel Castro faz em Cuba – o coronel Je-
fferson entra em contradição. Para ele, a insegurança e o descaso de
hoje são muito piores que antes e relembra do crescimento econô-
mico nos tempos de “milagre”, do aumento do poder de consumo
da população, da construção da Ponte Rio-Niterói, da campanha
do ‘Ame-o ou deixe-o’ (cópia da campanha norte-americana Live
it or leave it), da ordem imposta nas ruas. Os insurgentes estavam
presos. Eram insurgentes os artistas, músicos, poetas, estudantes, ou
seja, pessoas de “profissões anormais”,desocupados e comunistas. A
mordaça nos profissionais de imprensa também é justificada. Eram
pessoas que queriam aparecer, ter seus “quinze minutos de fama”.
Para o coronel reformado, o fim da censura só piorou os meios de
comunicação.
– Veja o tanto de baixaria que se passa gratuitamente na tv
de hoje! Tem que dar liberdade, mas tem que dar freio.
Anti-comunista ferrenho, ele propõe que se estabeleçam
hoje no Brasil apenas dois partidos: o do governo e o da oposição,
da mesma forma que ARENA e MDB:
– Também nos Estados Unidos existem dois partidos e eles
são o país mais desenvolvido do mundo - na realidade, os Estados
Unidos têm diversos partidos, mas apenas dois, Conservador e
Liberal, se alternam no poder.
Quando o repórter argumenta que o partido da oposição foi
constituído pelo próprio governo militar, o ex-oficial se demora um
pouco nas explicações:
– É, tem razão que a esquerda é bem diversificada.. Muitos
partidos também viviam na clandestinidade, né?
Exatamente. Muitos partidos como o Partido Comunista
Brasileiro, o PCB, do qual fazia parte Vladimir Herzog, “insurgente
comunista”.
Erros são comuns a todos. Jefferson os reconhece. Acha que
o maior deles foi permanecer 20 anos no poder.
– Deveria ter tempo suficiente para tirar essa cambada toda
e aí sim provocar eleições diretas.
Essa “cambada” é como ele chama os “insurgentes” a que se
referia. Em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional número
5, assinado pelo presidente Costa e Silva, anularia o sonho do
coronel.
No poder teriam ficardo alguns “insurgentes”, entre eles o
capitão Carlos Lamarca, colega de farda de Jefferson.
– Ele roubava bancos, as armas do BIB (Batalhão de Infantaria
Blindada). Foi também um insurgente e merecia ser pego.
Mas o coronel considera exceção na lista de insurgentes, Vla-
dimir Herzog, jornalista , amante de artes em geral, principalmente
teatro, editor-chefe da TV Cultura de São Paulo. Ele reconhece que
se tratou de um assassinato, diferentemente da versão oficial, que
apresentou um laudo de suicídio assinado pelo médico legista
Harry Shibata. Tempos depois, Shinata teve seu registro de médico
cassado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo.
Ao analisar as ações do regime militar, Jefferson descreve
bem como era a situação das ruas:
– Você não podia estar sentado que nem estamos agora,
numa mesa de bar, bebendo um chope. Se parasse algum carro
de chapa fria, suspeito da esquina, era certo que alguém iria ser
capturado.
O coronel entra em consonância com as injustiças cometidas
com os presos políticos, que ficavam sob tortura. A lista de exceções
de insurgências, nesse momento, cresce:
– Houve muitas injustiças sim, não há dúvida - ele mesmo
conta que teve um amigo torturado, vítima da chamada “cadeira do
dragão”. O instrumento de tortura consistia numa cadeira metálica,
onde o presto, nu, era obrigado a se sentar. Prendiam-lhe um fio
de cobre na ponta do pênis e outro na orelha. Depois de molhar
a cadeira metálica, acionava-se o voltímetro. Este instrumento de
tortura, segundo depoimentos de Sérgio Gomes, jornalista preso
no prédio da rua Tomás Carvalhal, em outubro de 1975, e também
torturado, possivelmente foi o utilizado na tortura de Vlado.
No ano passado fotos divulgadas como sendo de Herzog
reabriram as discussões sobre os anos sombrios. Para Jefferson, não
passou de revanchismo e aproveitamento financeiro:
– Interessa a quem descascar a ferida? - questiona. A falsidade
das fotografias foi comprovada: elas não eram de Herzog. Serviram
de rememoração ao consentimento geral de que um dia houve
“insurgentes” que lutaram contra um regime ditatorial, e que a
mordaça foi banida. Jefferson resume numa frase estes anos de
sofrimento e dor, inesquecíveis em páginas negras da história na-
cional:“Há uma frase muito importante, que sempre utilizo:‘Queres
conhecer o homem, dê poder a ele.’” Talvez o coronel não saiba o
autor da frase, o teatrólogo Bertolt Bretch, era um dos ícones da
esquerda alemã nos anos 30.
GRITOS E LEMBRANÇAS DE UMA HÓSPEDE
DA RUA TUTÓIA
Renata Machado
Foto cedida por Marinilda

Jornalista há 36 anos, Marinilda


Siqueira Carvalho, 58 anos, pode ser con-
siderada uma das sobreviventes da época
de chumbo. Ex-militante do PCB, foi
seqüestrada na madrugada do dia 9 de
setembro de 1975, em Brasília, jogada
na traseira de um camburão e, 21 horas
Marinilda: um inferno de 28 dias depois, desembarcada no DOI-Codi da
rua Tutóia, em São Paulo.
– Fui obrigada a tirar a roupa toda e, apesar do medo, contei
cuidadosamente: 31 brucutus estiveram na salinha em que fui ex-
posta, a maioria assoviando ou dizendo sujeira – lembra a jornalista,
com passagens por veículos importantes da imprensa brasileira,
como Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Correio da Manhã, Última
Hora e revista Isto É. Hoje trabalha como editora-assistente do
Observatório da Imprensa.
Uma amiga, após haver sido barbaramente torturada,
falou sobre Marinilda – na época trabalhando na revista Veja
– como vinculada ao partido clandestino. Durante 28 dias ela
viveu naquele inferno, onde a maior tortura era ouvir os gritos dos
torturados.
Marinilda se diz preocupada com as tentativas de acobertar
crimes ocorridos durante o regime militar.
– Se as fotos (inicialmente atribuídas a Vladimir e depois
identificadas como sendo de um padre) não são do Vlado, significa
o quê? Que os militares não despiam as pessoas, não humilhavam,
torturavam, matavam? A lei da anistia existe e a respeito, mas anistia
significa que o poder público perdoou os torturadores. Os tortura-
dos não perdoaram – contesta. Para ela, os torturados aguardam
a exposição de todos os documentos da ditadura num museu da
democracia (como os alemães fizeram com os nazistas).
O abalo diante das imagens de Vladimir Herzog, fotografado
naquele longínquo outubro de 1975 por seus próprios torturadores
nos porões do DOI-Codi da rua Tutóia, em São Paulo, cede lugar a
convicções cristalinas:
– Vlado aparece vivo numa repartição do 2º Exército; es-
tava bem fisicamente, apesar de ultrajado; protegia seu rosto do
fotógrafo, uma reação psicologicamente saudável; era clara e cate-
goricamente um civil desarmado. Um civil rendido, bem distante de
conflitos armados. Ele não estava inerte. E, um preso nu não acha
um cinto para se enforcar. O fato implacável que depreende destas
fotos é que Vladimir Herzog, que se apresentou voluntariamente a
Tutóia, foi executado.
Para Marinilda. essas certezas representam o êxito jornalístico
maior da série publicada em outubro do ano passado pelo Correio
Braziliense, que merece uma chuva de elogios.
A matéria, fruto da pesquisa do repórter Rudolfo Lago, des-
mascara a versão dos representantes do regime militar e de seus
remanescentes nas Forças Armadas.
– O País deve ao bom jornalismo a queda de uma das farsas
mais maquiadas da história do Brasil, que ainda hoje convence
ingênuos e permite ao Ministério da Defesa negar, quase 30 anos
depois, os assassinatos por tortura em dependências militares.
Segundo a editora do Observatório da Imprensa, programa
da TVE, nada escapava dos registros dos militares.
– O repórter que escreveu a matéria do caso Vladimir Herzog
com base nos documentos encontrados – lembra Marinilda, contou
que estão entre os informes até prosaicas atividades de um filiado
do MDB no Mobral de Mogi das Cruzes, em São Paulo, citado como
“o comunista fulano de tal...” Sob a surrealista rubrica “Psico-social”,
constam os presos de cada mês do DOI-Codi de São Paulo.
– Numa tabela com os ‘acumulados’ das mortes de outubro,
que originalmente eram 47, soma-se mais um – o Herzog.
SÉRGIO RICARDO, DE VOLTA AO PONTO DE
PARTIDA
Raquel Campos

A divulgação da morte do jornalista Vladimir Herzog na mídia,


sob a versão oficial de suicídio, fomentou a retomada da cultura de
contestação. A evidência de que era falso o pronunciamento da
União levou segmentos da sociedade a eclodir num grito geral, até
então sem precedentes no regime militar. No teatro, o caso vestiu
a forma de fábula medieval, o que permitiu contornar a censura
e ganhar os palcos brasileiros com a emocionante peça Ponto de
Partida, de Gianfrancesco Guarnieri.
Herzog tornou-se símbolo dos direitos humanos e, posterior-
mente, da redemocratização.
– O estarrecimento era total. Até mesmo Geisel resolveu
acelerar o processo de abertura - observa o cantor e compositor
Sérgio Ricardo, 72 anos, um dos expoentes das canções d e
protesto e autor da trilha sonora da peça de Guarnieri, em
que também atuou.
– Do nosso lado, por causa da violência, que se mos-
trou excessiva e desnecessária, Herzog virou o símbolo
do Basta.
A resistência poderia tudo, inclusive partir para a
ignorância, mas o clímax do regime de exceção teve
na cultura um desdobramento estético impres-
sionante.
– Para dobrar a Censura, nós, artistas,
tínhamos desenvolvido uma linguagem de
resistência, eficiente mas que já chegava
ao desgaste. Com a morte de Herzog ga-
nhamos novo fôlego, um impulso ainda
mais forte - afirma Sérgio Ricardo.
Desde o princípio, Gianfrancesco
Guarnieri, membro do Partido Comu-
nista Brasileiro, manifestou-se contra a versão da União. Foi com
Sérgio Ricardo, pioneiro nos circuitos universitários, que surgiu o
projeto de Ponto de Partida.
– Íamos fazê-la em dueto, mas de nossos encontros só pin-
tava comédia.
A mulher de Guarnieri (Vânia) insistiu na importância e na
beleza do projeto e os dois artistas logo dividiram papéis. O ator,
diretor e dramaturgo, enviaria o primeiro tratamento a Sérgio, que
faria a réplica. O que não foi necessário.
– A peça estava pronta! Linda! Responsabilizei-me, então,
pela trilha sonora, mas Guarnieri foi mais longe. Exigiu que fizesse
o Ferreira, personagem do pai de Vladimir.
Sérgio Ricardo, admirador dos artigos do jornalista, não co-
nheceu Vladimir. Ao rememorar os tempos de repressão, a sensação
de desconforto é recorrente. Emociona-se ao lembrar do sucesso
da estréia. A peça ficou muitos meses em cartaz e percorreu grande
parte do País, desafiando todo dia o elenco a não chorar.
– Estávamos todos revoltados com o Brasil, e fazíamos de
tudo para vivê-lo sem capitular, como aconteceu ao querido Vlado.
A peça, por ser baseada em um fato contundente, levava todos nós
à comoção. Já na primeira cena, eu entrava e via o meu filho morto
numa praça. Essa cena era tão desgastante que lá pelo quinto mês
não pude mais e pedi licença para sair da peça.
Sobre a polêmica das supostas fotos de Vladimir, divulgadas
em 2004 pelo Correio Braziliense, que geraram uma crise entre o
governo e as Forças Armadas, Sérgio é taxativo:
– Temos que saber de todos os detalhes, tortura por tortura.
Não por masoquismo, mas porque de toda ação dramática retiram-
se ensinamentos. O Brasil não avançará se não souber sobre Herzog,
sobre a repressão. Devemos ter a grandeza de chorar sua morte,
afinal faz parte da compreensão de nossa história. Temos de olhar
nosso passado, ler a Carta de Pero Vaz de Caminha, saber quem
foi Pedro Álvares Cabral, o que aconteceu a Herzog, a Lamarca, a
Marighella e a outras tantas vítimas da tortura. É a nossa origem!
Em 2004, Ponto de Partida foi reencenada em março, no
Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Essa revisão, segundo
Sérgio, representou ao mesmo tempo homenagem e iniciativa
política fundamentais para que as novas gerações possam se en-
tender e se renovar.
– São os elos culturais e políticos que se romperam com a
ditadura, que impedem o entendimento das manifestações pas-
sadas e o surgimento de movimentos futuros. Hoje lê-se a História
pulando capítulos. Falar de política virou tabu e o que se copiou
foi a atomização da nossa geração e produção cultural, resultado
de décadas de repressão. A nossa inteligência foi castrada pela
censura e cada um se virou como pode para salvar, primeiro, a vida,
segundo, o próprio destino.
Para o autor de sucessos dos anos 60 como Zelão, os resul-
tados deste comportamento se refletem em centros acadêmicos
parados, sem a retomada dos centros populares de cultura, a identi-
dade nacional em dilema, a política panfletária e esvaziada, a cultura
enlatada e a incompreensão dos processos históricos.
– Pulando-se da Bossa-Nova ao Tropicalismo, não será pos-
sível compreender a música de protesto - frisa Sérgio. Para ele, a
resistência em abrir os arquivos confidenciais dos órgãos de segu-
rança das Forças Armadas também compromete o entendimento
de Ponto de Partida, uma fábula verídica como a de tantas outras
tragédias. Vladimir Herzog: símbolo duas vezes, da abertura demo-
crática e agora, quem sabe, da memória justa.
TORTURA NUNCA MAIS, A ROTINA DA
BUSCA PELOS DESAPARECIDOS
Stephanie Borges

Diante da entrada da sala de reuniões, um grande mural


chama a atenção porque exibe fotografias em preto e branco dos
desaparecidos desde 1964. É a sede do Grupo Tortura Nunca Mais
do Rio de Janeiro, bem em frente ao cemitério São João Batista, em
Botafogo. Ali, tão próximo do campo santo, encontram-se pessoas
que reivindicam o direito de saber o que aconteceu com seus
filhos, pais e familiares, para, quem sabe um dia, poder sepultar
seus mortos.
As reuniões abertas ao público costumam ocorrer nas noites
de segunda-feira. Na de 25 de outubro de 2004, a pauta discutia o
caso das fotos reconhecidas como do jornalista Vladimir Herzog, no
DOI-Codi de São Paulo, publicadas pelo Correio Braziliense em 17 de
outubro, e a polêmica levantada pela nota do Exército classificando
a divulgação dessas fotos como uma “atitude revanchista”.
Após os avisos, a pauta é abordada. A presidente do Grupo,
Elizabeth Silveira e Silva, inicia a discussão comentando a se-
gunda nota do Exército, divulgada em 19 de outubro, em que o
comandante, general Francisco Albuquerque, lamenta a morte de
Herzog. Elizabeth diz que não sabe o que é pior, o tom autoritário
da primeira nota ou a tentativa de reparação da nota seguinte.
Embora pela primeira vez o Exército se manifestasse sobre o caso
com ares de retratação, é vergonhoso, segundo Elizabeth, que isso
só acontecesse a pedido do presidente Lula.
Alguns participantes da reunião contam sentir-se novamente
nos anos 70, diante do discurso contido nas notas. O advogado José
Carlos Tórtima diz que a manutenção do status das Forças Armadas,
mesmo com o final do regime militar, não tem mais razão. Para ele,
países como a Argentina, com o término do regime militar, não
permitem que altas patentes das Forças Armadas justifiquem que
os atos da ditadura visavam à manutenção da ordem.
Membros do Grupo demonstraram decepção pelo fato de
a presença no Governo de ex-presos políticos, como o ministro
da Casa Civil, José Dirceu, não ter facilitado as investigações sobre
os desaparecidos. Cecília Comibra contou que ouviu em Brasília
promessas sobre aberturas de arquivos, mas com cautela, como
declarou o ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo
da Cunha.
– Querem uma abertura lenta, segura e gradual nos moldes
do Geisel.
Para Flora Abreu, se algum dia esses arquivos forem abertos,
isso será feito quando a maioria das pessoas que viveram durante a
ditadura e os parentes dos desaparecidos estiver morta.*

http://www.torturanuncamais-

“Arco da Maldade”, projeto de monumento feito por Oscar Niemeyer para o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ.

* Ao final de 2005, alguns documentos da ditadura foram transferidos para o Arquivo Na-
cional, onde estarão disponíveis para consulta.
Extraído do acervo da Assossiação Brasileira de Imprensa (ABI)
MEMÓRIAS DE MILITANTES
Maria Luiza Muniz

A Comissão de Direitos Humanos da Associação Brasileira


de Imprensa (ABI) constatou que 350 jornalistas foram presos e
processados no Brasil entre 1964 e 1982; muitos deles tiveram
seus diretos suspensos por até 10 anos. Alguns foram torturados
e depois exorcizaram seus demônios em livros, como o jornalista
Álvaro Caldas, autor de Tirando o Capuz. Outros não sobreviveram,
morreram sob tortura. Entre eles, David Capistrano da Costa, Mário
Alves e Vladimir Herzog.
Nilo Sérgio Gomes e Jesus Antunes, passados 30 anos da
morte do jornalista Herzog, relembram o envolvimento político,
a censura e a repressão que sofreram. Nilo Sérgio Gomes, 54 anos,
formou-se em Jornalismo em 1975, ano em que Herzog morria
vitima de tortura sofrida no Destacamento de Operações de In-
formações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI)
de São Paulo.
Nilo Sérgio se propõe a empreender uma viagem até a dé-
cada de 60.
– Naquele tempo, a permanência na Universidade era uma
forma de contribuir com o movimento social e com a organização
dos estudantes. Eu sou do Rio de Janeiro, mas fui para Brasília em
68 por causa do movimento estudantil, da perseguição política, foto
no jornal, essas coisas. Naquela época as pessoas iam “caindo”, em
67, 68. Eu era independente, era simpatizante do Partido Comunista
Brasileiro, da Dissidência da Guanabara. Eu não era uma pessoa ‘or-
ganizada’, então me senti muito fragilizado. Fui para Brasília, prestei
vestibular, passei, mas antes de começar a estudar na Universidade
eu também ingressei no jornal O Globo, na sucursal de Brasília.
Duas semanas depois da primeira entrevista com Nilo Gomes,
outro jornalista, presidente do Conselho Fiscal da ABI, também re-
lembrou um pouco de sua trajetória nos tempos da ditadura militar.
Jesus Antunes concluiu a graduação em Jornalismo na década de
80, mas interrompeu sua atividade profissional em decorrência de
seu engajamento político. Disciplinado ao longo de alguns anos pela
condição de militante clandestino, Antunes diz que ainda hoje se
levanta às cinco horas todo dia. Em uma manhã, na sua sala, no 11°
andar no prédio da ABI, centro do Rio, antes mesmo que o gravador
fosse ligado Antunes começou a contar sobre sua participação na
Campanha da Legalidade, analisando os acontecimentos que leva-
ram ao golpe e recordando a conjuntura repressiva que causou a
morte do jornalista Vladimir Herzog.
No início da década de 60, Jesus Antunes, aos 18 anos de
idade, participou da Campanha da Legalidade, após a renúncia de
Jânio Quadros em defesa da posse do vice, João Goulart, e liderada
por Leonel Brizola no sul do País. O movimento constituiu-se na
ocupação militar das rádios Guaíba e Farroupilha e no comando de
104 emissoras de rádios gaúchas, catarinenses e paranaenses. Na
época, Antunes estudava no Colégio Júlio de Castilhos, segundo ele,
um foco de discussões e mobilizações políticas.
– Para você ter uma idéia, Porto Alegre virou uma praça de
guerra, você não ia nem para casa...Aquela mobilização era pela
questão da legalidade, né? Estudando depois nós vamos ver que a
revolução brasileira deveria ter-se dado em 61 e em 64 era o troco
que eles davam. Os militares derrubaram um governo nacionalista.
O governo do Jango era um governo nacionalista. Daí a traição dos
militares se unindo aos americanos. Sendo que grande parte das
forças armadas foi cassada; eram os nacionalistas.
Nilo Sérgio se manteve atuante como jornalista durante o
período do regime militar e chegou a atrelar sua profissão à resis-
tência.
– Saí do Jornal do Brasil em 76 e fui trabalhar no jornal
Opinião e aí eu estabeleci um relacionamento com a imprensa al-
ternativa.Trabalhei no Opinião até 78, como repórter e depois como
revisor. Escrevi para o jornal Movimento e em 78 nós fundamos na
Zona Oeste do Rio um jornal chamado Arranco. Havia também um
jornal da Baixada Fluminense. Nós éramos ligados ao Movimento
pela Emancipação do Proletariado (MEP), que tinha bases principal-
mente no movimento estudantil... Uma organização de esquerda,
clandestina, originária da Política Operária (Polop).
Um pouco antes, em 1968, que termina com a decretação do
Ato Institucional n°5, o militante Jesus Antunes, envolvido politica-
mente com uma organização da dissidência do PCB, via-jou para o
Rio de Janeiro ao perceber que o cerco se fechava em Porto Alegre.
Antunes conta um episódio vivido ainda no Sul que fizera a morte
do jornalista Herzog assumir um significado à parte. Ele comprara
um espaço na TV local, Piratini, e apresentava ao vivo aos domingos
o programa Panorama estudantil, às 13h. Depois de três meses, no
dia em que um líder do movimento estudantil, perseguido por suas
ações consideradas “subversivas” seria entrevistado, o programa foi
tirado do ar. Antunes, durante o intervalo, foi chamado para compa-
recer à direção. Ele sabia do perigo que corria se permanecesse ali.
Ao reconhecer os oficiais que estavam no prédio, decidiu ir embora,
sem escala, rumo à clandestinidade. Era 25 de dezembro de 1968.
– Eu cheguei aqui no Rio e fui preso. Estava clandestino aqui
no Rio de Janeiro.
A prisão é um espaço comum na trajetória dos três jornalis-
tas citados. Além disso, vale ressaltar que nenhum deles foi preso
estritamente por questões relativas à profissão, mas por um posicio-
namento político que defendiam ainda que de formas diferentes.
– Quando o MEP caiu – o MEP caiu em abril de 78 – eu co-
mecei a olhar com mais intensidade para o movimento operário
porque não havia dirigentes no movimento operário. Nós (da
organização política) tínhamos muito interesse no movimento
operário. Em 79, eu já estava no movimento operário, fazendo um
trabalho de organização de fábricas. O jornal Arranco, fundado em
setembro de 78, se uniu ao jornal Berro, que era o Berro da Baixada,
e deu origem a um só jornal, o Berro, jornal popular independente.
Então, criamos diversos contatos em fábricas e em comunidades
populares – relembra Nilo Sérgio.
Antunes estava na clandestinidade, não exercia a profissão de
jornalista e participava de uma dissidência que se colocava contra
o legalismo do PCB.
- Eu fui de uma dissidência que era contra aquele legalismo
do partido. O partido era contra a luta armada. Eu acho até que
eles estavam certos nisso, porque eu estava contra também. Nós
nunca fomos contra a luta armada, só não achávamos que era a
hora. Fui convidado para ir para Cuba, mas antes de eu sair daqui
eles já estariam sabendo. E eles (os militares) se infiltravam. O
maior perigo nessa época era a infiltração. Eles infiltravam alguém
como se fosse... Era um agente. Agora, no movimento estudantil
era mais fácil porque você sabia quem era seu colega. Então, não
havia relação entre determinados setores na clandestinidade. Era
uma questão de segurança. Quem era operário era operário lá,
quem era estudante era estudante. E o Partido sempre tinha uma
tradição muito grande de ter alguém no meio intelectual, era uma
grande influência. Eu não sei dizer se ele (Herzog) era quadro do
partido ou se era simpatizante. Eles (os militares) receberam uma
informação; deve ter sido de alguém que falou sob tortura. Não
sei se o entregaram porque ele não era de importância interna no
PCB, mas ele tinha importância fora porque ele era jornalista, era
um cara que estava na TV.
Não muito longe dos espaços de tortura ficavam os espaços
de produção da notícia. Se naqueles a lógica era segurar ao máximo
a informação, resistir em silêncio ou “abrir” informações e nomes
menos relevantes e comprometedores para a organização, no es-
paço da redação a lógica era inversa. Jesus Antunes apresenta sua
visão da censura e dos reflexos sobre a sociedade:
– Naquela época ninguém podia escrever nada, não se
escrevia nada. O Estado de São Paulo, quando a censura ficou
muito violenta, colocava algumas poesias de Camões e o Jornal
da Tarde, receitas de bolo. Quem é que lê o Estado de São Paulo?
O povo não lê. Não lê nem hoje. O povo não lê nem O Globo nem
Jornal do Brasil. Quem lê jornais é a classe média. Burguês não lê
nada. Burguês só viaja. Quem lê é a classe média; são os chamados
intelectuais, acadêmicos, universitários. O número de jornais que
se vende é baixíssimo. Algumas coisas eram tão violentas que não
se podia publicar. Era como se fosse um código. Tinha que dizer a
verdade, ‘fulano foi assassinado’. Nenhum jornal fez isso, a não ser
os alternativos, que eram perseguidos, fechados.
Nilo Sérgio recorda uma pequena esperteza da turma dos
jornais alternativos.
- A gente saía da gráfica e a polícia pegava as edições. Da
primeira vez eles pegaram, mas da segunda a gente aprontou uma
armadilha e eles caíram. A gente colocou 500 dentro do carro e eles
apreenderam os 500 jornais. Depois nós fomos para o botequim,
ficamos enrolando durante algum tempo e voltamos para gráfica,
onde pegamos o restante da edição. A repressão para- militar seguia
a gente, seguia minha companheira, seguia outros companheiros
- conta Nilo, que distribuía os jornais pelas fábricas.
A tarefa de denúncia das arbitrariedades do regime ditatorial
que a imprensa alternativa tomou para si foi negligenciada, muitas
vezes, pelos grandes meios de comunicação.
– Setores da mídia difundiram que era mesmo suicídio. Há
determinadas coisas que tem um limite, ético ou moral. Por isso
eu digo que o jornalista não pode virar chapa branca. O 2º Exérci-
to deu uma nota dizendo que ele (Herzog) havia se suicidado. O
Instituto Médico de São Paulo emitiu um laudo dizendo que era
suicido. Então, era uma mentira generalizada. O Globo e os outros
difundiram tudo isso – lembra Jesus Antunes.
O Boletim da ABI de novembro e dezembro de 1985 (Ano
XXIV) afirma que arbitrariedades como aquela cometida contra
Herzog eram banalizadas “pela censura ou pela indiferença e que,
quando isso ocorre, é noticiado em magro registro de uma coluna
nos jornais”. Contudo, Nilo Gomes ressalta o papel exercido pelo
silêncio e pela omissão em determinadas situações.
– Às vezes o silêncio fala. Às vezes a lacuna, a omissão exprime.
Temos que estar sempre atentos a isso na análise do discurso, na
análise das falas, porque muitas das vezes aquilo que não é dito,
aquilo que é silenciado fala com muito mais vigor do que o que
dito.
– Muitas das vezes você lia lá no pezinho da matéria ou na
transversalidade da notícia e ali você obtinha informações a respeito
de rebeldias, de alteridades, de vozes outras.
Nilo reconhece que muitas vezes repetiu, em seu trabalho
na grande imprensa, o discurso oficial. “Eu escrevia o fato é que o
ministro disso isso e aquilo. O ministro Delfim Neto acaba de infor-
mar que a inflação brasileira... Segundo o ministro Delfim Neto...
- afirma Nilo, gesticulando como se estivesse batendo nas teclas
da máquina de escrever.
Tanto Jesus Antunes quanto Nilo apresentam uma visão
crítica quanto ao jornalismo feito nos dias de hoje. Gomes afirma
que a liberdade de imprensa não foi conquistada, mesmo após o
fim da ditadura:
– Tenho certeza de que não existe liberdade de imprensa.
Não existe nem nos organismos da sociedade civil. Há certas mídias,
rádios e TVs comunitárias... Não estou falando somente da grande
mídia não. Mesmo entre nós outros, nem sempre há liberdade para
eu dizer o que eu penso. Se eu digo o que penso, eu estou arriscado
a perder meu emprego.
A respeito da reportagem sobre a prisão de Vladimir Herzog,
Jesus Antunes critica a postura do Correio Brasiliense.
– Achei muito estranho que tanto a mulher (Clarice Herzog)
quanto o jornal tenham entrado numa armadilha dessa, porque
não eram fotos do Herzog. O jornalismo tem que ser investigativo. O
Correio Brasiliense pensou em dar um furo e deu uma barrigada.
Mas Nilo Sérgio diz que a repercussão sobre a reportagem
fortaleceu a campanha contra o esquecimento.
– Sou a favor de uma lei de anistia que anistie sim, mas não
os assassinos. Quem matou Herzog tem que pagar pelo crime que
cometeu. Quem matou Manuel Fiel Filho, quem torturou, quem fez
as barbaridades, as perversidades, as sevícias. Imagine você preso
num pau-de-arara. Eles fazem tudo de você. Você não pode falar
nada, só chorar e orar, se você tiver alguma religião. O resto, você
não pode fazer nada, vão fazer tudo com seu corpo.
Jesus Antunes compartilha com Nilo Sérgio o mesmo ponto
de vista em relação à necessidade de tornar público os documen-
tos e os detalhes dos processos contra aqueles que após serem
indiciados por infringir a Lei de Segurança Nacional acabaram
sumariamente condenados segundo a lei da tortura.
– Eles torturaram gente que não tinha nada a ver. Os caras
eram loucos. Herzog não foi preso por causa do que fez, disse ou
permitiu na TV. Ele seria membro do PCB. Alguns dizem que ele
revelou isso para a própria mulher, mas não se falava disso com
ninguém, nem com a mulher. Você sabia que corria risco, porque
eles te pegavam e a primeira coisa que faziam era te pendurar.
Primeiro eles te davam uma porrada, dependendo do seu nível de
envolvimento. Se você era uma figura secundária davam meia dúzia
de tapas, qualquer coisa, te jogavam no canto.. Agora, se você fosse
membro dos quadros de importância da organização ou se você
tivesse destaque em alguma parte, ai eles te penduravam - aifrma
Antunes, o 80° na lista de pessoas a serem indenizadas pelo Governo
em função dos abusos cometidos durante o regime militar.
No ano da morte de Herzog, um culto ecumênico reuniu
500 pessoas na ABI às 16h do dia 31 de outubro. Ao final do culto
silencioso, o então presidente da ABI, Prudente de Moraes, pediu ao
todos que deixassem a sede da Associação em grupos e em ordem.
Entre os presentes estava Jesus Antunes. Na rua Araújo Porto Alegre
estavam dois choques da PM e várias veículos do Departamento
de Ordem Política e Social (DOPS) e da Delegacia de Policia Política
e Social (DPPS).
Passados 20 anos do término da ditadura, Jesus Antunes crê
na manutenção de serviços de informação capazes de investigar
a vida de qualquer pessoa e aponta os atuais perigos latino-ame-
ricanos contra os quais ainda hoje os EUA estariam atuando: Cuba,
Venezuela e Haiti. Em relação à política nacional, Antunes se opõe
ao governo que ajudou a eleger, enquanto Nilo, jornalista respon-
sável pelo site oficial do PT-RJ, reconhece que quando no poder é
preciso tomar cuidado.
– De repente nós viramos exatamente aquilo que comba-
tíamos.
Nilo Sérgio critica a participação da imprensa no processo
de distensão política no período final da ditadura.
– Foi sempre a sociedade que empurrou a mídia e então
a mídia foi e fez o papel dela - afirma o jornalista que, citando os
versos de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, explica metafo-
ricamente como “o silêncio fala”.
“Que medo você tem de nós.../ Olha aí/ Você corta um ver-
so e eu escrevo outro/ Você me prende vivo e eu escapo
morto.”(Música Pesadelo)
– Quando eu escapo morto é o silêncio que fala. O Santos
Dias (operário morto em São Paulo em manifestação de rua, em
1979) estava convocando uma assembléia e foi morto. Um policial
atirou nele. Até hoje o policial não foi descoberto. Mas a morte do
Santos Dias acabou reverberando tanto, se tornou um discurso tão,
alardeou tanto que foi muito pior para os algozes matar Santos Dias
do que deixá-lo vivo. Ele talvez não fosse tão ouvido quanto foi
sendo morto. Vladimir Herzog, apesar de nunca ter editado jornais
comunistas, acabou falando muito mais através da morte do vivo.
Então ‘você me prende vivo e eu escapo morto’, porque através da
minha morte, da minha ausência eu vou dizer muito mais do que
eu diria com a minha presença. Matá-lo é calar uma voz cujo silên-
cio será muito mais atordoante do seria se essa voz continuasse
emitindo sonoridades.

46
A ODISSÉIA DE ULISSES, UM METALÚRGICO
Vitor Moretto

Quando a ditadura militar se instaurou no Brasil, em 1964,


Ulisses Lopes tinha mais de 40 anos. Metalúrgico e diretor sindical,
Seu Ulisses, que era ligado ao Partido Comunista do Brasil, dali em
diante viveu anos conturbados em meio a prisões, invasões ao sin-
dicato, assassinatos de amigos seus e um período de nove anos na
clandestinidade. Período em que descobriu a morte de um outro
personagem que enfrentara o regime: Vladimir Herzog.
– Não lembro bem como tomei conhecimento da morte
de Herzog. Naquela época, condenado e foragido, escondia-me e
trabalhava como desenhista numa fábrica de móveis.
No entanto, Ulisses, ao saber da morte do jornalista, lembra
que o sentimento de revolta o tomara em um misto de tristeza e
vitória. Numa forma impecável de se expressar, de palavras certeiras
e poéticas, recorda-se:
– Àquela altura [da morte de Herzog] já havia perdido,
mortos ou desaparecidos, bons companheiros e um dileto amigo
[João Massena Melo]. A ditadura não tinha nada a oferecer que nos
permitisse alimentar qualquer dose de ilusão. Seus crimes não me
surpreendiam.
A parcela vitoriosa de sua explicação concentra-se numa
análise digna de um líder revolucionário:
– Deles [dos crimes] tomava conhecimento, revoltado, mas
sempre me mantinha tranqüilo. Estava convencido de que o recru-
descimento da repressão era indício de fraqueza, embora pudesse
parecer o contrário.
Tinha razão. A morte de Vladimir Herzog desencadeou uma
revolta na sociedade onde, pela primeira vez, ficava explícito aos
olhos dos leigos e desinformados que havia tortura, repressão e
morte aos que, de alguma forma, se pronunciavam contra o regime
militar.
Ulisses Lopes, aos 81 anos, faz críticas à imprensa de uma
47
forma geral no que diz respeito ao acesso que a população tem
às informações sobre aquela época. Paradoxalmente, a mesma
mídia a qual pertenceu o jornalista hoje se diz contra a abertura
dos arquivos da ditadura.
– A meu ver, a discussão sobre a abertura dos arquivos não
tem tido na imprensa o destaque que merecia. Lamentável que
respeitados articulistas não se pronunciem sobre o assunto ou
o abordem apenas en passant, enquanto outros, tão enérgicos e
persistentes na condenação de indenizações e aposentadorias
abusivas, silenciem sobre o que é igualmente, ou mais importante,
o conhecimento da verdade sobre quem foi quem na hora da morte
e da tortura - analisa.
Ulisses alerta para a contradição entre a morte de um jornalis-
ta pela repressão e a gravidade do silêncio da mídia. Atualmente, o
ex-metalúrgico faz parte do Grêmio de Veteranos do Sindicato dos
Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Informado, lê jornais diariamente,
tanto os impressos quanto pela Internet, sobre os mais variados
assuntos: desde os esportes, onde acompanha notícias de seu Vasco
da Gama, até política internacional.
Faz críticas ao governo Lula, principalmente ao que chamou
de “balaio de alianças” para que chegasse ao poder.
– Seria ingenuidade supor que a redemocratização política,
por si só, promovesse uma lavagem cerebral redemocratizante
nos corações e mentes de todos os cidadãos brasileiros - comple-
menta.
Ao final da entrevista, fala da necessidade de informação
para que as novas gerações não mais permitam que tempos como
aquele possam voltar.
– É necessário que não se lhes soneguem a verdade, nua,
crua, transparente - defende. E termina, citando Dom Paulo Evaristo
Arns, cardeal emérito de São Paulo:
– Ainda há muito o que fazer para que toda a verdade venha
à tona. Ainda há muito que fazer para que nossa juventude jamais
se esqueça destes tempos duros e injustos.

48
VASCULHANDO OS ESCANINHOS DA
MEMÓRIA

Renata Cunha
Maria Luiza Muniz

“Como beber dessa bebida amarga


Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta”

Cálice – Gilberto Gil e Chico Buarque

O regime instaurado a partir do golpe civil-militar de 1964


deixou marcas profundas na História do país. Muitos dos que se
opuseram ao governo ditatorial escreveram em suas biografias
anos de exílio, clandestinidade, estudos e profissões interrompidos,
inexplicáveis “desaparecimentos”,“suicídios” forjados; enfim, anos de
silêncio. Assim, inúmeras histórias e memórias das arbitrariedades
foram caladas diante do medo e da ação repressiva do Estado.
– O silêncio pode ser visto como resistência ao excesso de
discursos oficiais, mas também como uma espécie de capa prote-
tora contra violências sofridas no passado – esclarece a professora
Icléia Thiesen, do Programa de Pós-Graduação em Memória Social
da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Se-
gundo ela, o silêncio produz lacunas, distorções e o esquecimento,
resultado de negociações e disputas que ocorrem na sociedade.
Para a professora o não-dito não necessariamente é esquecido, mas
permanece nos “escaninhos da memória”, nos redutos familiares ou
nas instituições mais fechadas, aguardando as condições favoráveis
para se tornar público.
Um dos caminhos percorridos no sentido da preservação da
memória acerca da ditadura militar é a publicação de livros-repor-
tagem, como o Dossiê-Herzog: Prisão, Tortura e Morte no Brasil, de
Fernando Pacheco Jordão, Manuel Fiel Filho: quem vai pagar por
esse crime?, de Carlos Alberto Luppi, e Santo Dias: Quando o Pas-
49
sado se Transforma em História. Este último partiu da iniciativa de
Luciana Dias, filha do metalúrgico Santo Dias da Silva, assassinado
em 1979, durante manifestação grevista realizada em frente à fá-
brica Sylvânia, no bairro paulistano de Santo Amaro. A jornalista e
coautora do livro, Jô Azevedo conta que Luciana desejava marcar
os 25 anos da morte do pai com a publicação de um livro sobre a
trajetória do operário e militante.
A obra, lançada em 2004, contém depoimentos de amigos,
vizinhos, colegas de militância e oponentes políticos, mas também
apresenta um panorama do movimento operário em São Paulo
nos anos de 60 e 70. As imagens do livro são da fotojornalista Nair
Benedicto, uma das primeiras mulheres a cobrir manifestações
sindicais. Luciana Dias e Jô Azevedo reuniram ainda, aproximada-
mente, quatro mil documentos relacionados a Santo Dias, que hoje
fazem parte do acervo do Centro de Documentação e Memória da
Universidade Estadual Paulista (Unesp). O trabalho de pesquisa,
que começou em 2000, foi financiado pelo Centro Santo Dias de
Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, fundado um ano
após a morte do metalúrgico e voltado para ações em favor de
vítimas da violência policial.
– A destruição de muitos documentos [sobre a ditadura] foi
realizada, não apenas por órgãos da repressão que tentaram ocultar
suas ações, mas também pelos próprios militantes que precisavam
preservar suas vidas e a de seus companheiros de luta - afirma Thie-
sen, que ressalta a importância dos documentos escritos ou orais
para a reconstrução da memória sobre o regime militar. Contudo,
a professora lança um questionamento:
– Resta saber o que de fato queremos construir como me-
mória social.
Ao falar sobre Santo Dias, Jô Azevedo deixa sua sugestão:
– Santo Dias viveu e militou numa época de efervescência
social expressiva, apesar da violência da ditadura militar. Os grupos e
comunidades estavam descobrindo a força da organização popular,
e eram expressivos na região sul da capital, precursora de uma série
de movimentos. A Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo desa-
pareceu da nossa memória histórica. Santo fazia parte dela e morreu
defendendo as bandeiras que ela [a Oposição] defendia: liberdade
e autonomia sindical, comissões de fábrica, salários e condições de

50
trabalho dignas. Acho que o livro dá essa contribuição de resgate
de um passado importante do movimento social.
Waldemar Rossi, metalúrgico aposentado, ainda é sindicalista
da Oposição Operária de São Paulo. A crença na possibilidade de
justiça social o acompanha desde que ingressou na Juventude
Operária Católica (JOC), em Sertãozinho, sua cidade natal, no
interior de São Paulo. Já na capital, concorreu duas vezes (1967 e
1972) à direção do Sindicato dos Metalúrgicos, sendo derrotado
por Joaquim dos Santos Andrade. Conhecido por Joaquinzão, este
velho sindicalista era acusado à época de não se opor ao regime e,
segundo Rossi e a jornalista Jô Azevedo, “ligado aos militares”.
Waldemar, 72 anos de idade e 50 de militância operária, recor-
da o impacto da morte de Santo Dias em 30 de outubro de 1979:
– Durante essa greve, em frente à fábrica Sylvânia Santo Dias
da Silva é covardemente assassinado pelo policial militar Herculano.
Sua notícia, em plena assembléia na Rua do Carmo, causou forte
comoção e impacto, recrudescendo a tensão e impedindo a mani-
pulação pelega pelo final da greve, que se estendeu por dez dias e
culminou com o atendimento de boa parte das reivindicações e o
reconhecimento de seis Comissões de Fábricas entre as principais
de S. Paulo, tudo isso, à revelia da direção sindical e contra as orien-
tações do poder militar. A morte de Santo Dias causou impacto em
todo o país e fora dele, devido aos laços que mantínhamos com vá-
rios movimentos sociais, principalmente europeus. No dia seguinte
ao de sua morte, saindo da Igreja da Consolação, onde seu corpo
foi velado, e em cortejo até a catedral da Sé, dezenas de milhares
de pessoas estiveram presentes, numa vigorosa e impressionante
manifestação de solidariedade à sua família, mas, principalmente,
em protesto contra a violência e em defesa do direito de lutar pelos
interesses dos trabalhadores. Gritos contra a ditadura estiveram
presentes durante todo o cortejo.
Em 1970, Waldemar participou da criação da Pastoral Ope-
rária da Arquidiocese de São Paulo, cujo marco inicial foi a “Missa
pelo Salário Justo”, celebrada na catedral da Sé.
– A Pastoral Operária (PO) é o resultado da ação militante
junto às Comunidades Eclesiais de Base de alguns de nossos anti-
gos militantes ‘jocistas’ [da JOC, Juventude Operária Católica], em
particular do trabalho de formiguinha que Célia [esposa dele] e

51
eu desenvolvemos na periferia da zona leste paulistana. Muitos
pequenos grupos foram se formando para refletir a vida de fé aliada
à de trabalho e, a partir das exigências evangélicas da justiça e da
solidariedade, agir para conscientizar e organizar os trabalhadores.
As pastorais operárias se espalharam pelo Brasil, chegando a cons-
tituir mais de 100 dioceses - recorda.
Rossi relata ainda que, em 1974, foi preso com outros quatro
companheiros durante uma reunião de sindicalistas de oposição,
na igreja São João, na cidade de São Paulo, sob a acusação de
pertencerem a um grupo denominado Movimento Popular de
Libertação (MPL). Levados para o DOPS, sofreram torturas com
pau-de-arara, choques elétricos e pancadas. Enquadrados na Lei
de Segurança Nacional sob investigação do 1º Exército, no Rio
de Janeiro, em 1978, foram absolvidos por unanimidade após o
julgamento em duas instâncias, mas permaneceram quatro anos
com direitos suspensos.
O ex-metalúrgico avalia os reflexos da repressão militar em
sua vida e na de outros submetidos à truculência do regime:
– A experiência me ajudou a entender até onde podem
chegar os que defendem os interesses do capital explorador e
espoliador. Destroem sua própria personalidade, tornam-se feras
sedentas de sangue, se tornam cruéis e insensíveis. São muitos os
que resistem bem, até a morte. Porém, foi possível entender por que
outros não estão devidamente preparados para esse confronto, já
que a sensação é de desespero, de sofrimento cruel infinito. Vi gente
que se desestruturou humanamente; muitos, pelo contrário, mos-
traram o quanto saíram fortalecidos. Contudo, mesmo para quem
consegue resistir, os traumas permanecem para sempre, ainda que
cicatrizados. E a fé, seja ela político-religiosa ou simplesmente polí-
tica, se revela como um elemento fundamental diante da tortura.
Há um ano, um grupo de amigos se reuniu, constituindo outro
exemplo de tentativa de reconstrução da memória. O Amigos de
68, fundado em janeiro do ano passado e já com 190 integrantes,
nasceu de uma proposta de reunir ex-militantes de esquerda do
período da ditadura.
– O objetivo principal é o de criar um processo permanente
de encontros reais e virtuais, visando recuperar e desenvolver as
raízes comuns e os laços de amizade e solidariedade que nos unem
- afirma Ricardo Pimenta, coordenador do grupo e moderador da
52
lista de discussão na internet.
A lista virtual, de acesso restrito aos Amigos, tem 177 inscri-
tos, que abordam os mais variados temas, de assuntos afetivos a
discussões políticas.
– Há depoimentos incríveis, irmãos que estavam brigados,
separados e que se reencontraram, filhos que passaram a enten-
der seus pais, amigos que venceram seu sentimento de culpa por
não terem aderido à luta armada, outros muito doentes que tem
na alegria de reencontrar antigos companheiros mais um motivo
para viver – relata Pimenta.
Ao mencionar o nome de alguns Amigos, Pimenta os iden-
tifica pelo curso, a Universidade e o ano em que ingressaram na
Universidade.
– Somos, portanto um Grupo, temos uma identidade, e
circula entre nós uma energia positiva fantástica, muito maior do
que a soma da força de cada um de nós – afirma Ricardo, Economia,
UFRJ, 67. O jovem universitário, em fins de 60, militava no movimen-
to estudantil, foi membro do MR-8 (ex – Dissidência Guanabara) e
expulso da Faculdade em março de 1969, pelo Decreto - Lei 477.
O contato entre os Amigos não se restringe à ‘grande rede’.
Eles se reúnem periodicamente.
– Pretendemos fazer um grande encontro a cada ano. O
primeiro foi em agosto, num condomínio onde a Ana Miranda [es-
tudante de Farmácia em 1967], tem casa. Foi sensacional, realizamos
um filme, com 30 minutos, produzido pela Maria de Andrade, neta
da Vera Aché e editado pela Julia Martins, filha do Franklin Martins.
Estiveram na festa 128 pessoas, entre participantes do grupo e
familiares; emoção pura - afirma.
Além de compartilharem lembranças e sentimentos, os in-
tegrantes do grupo planejam atividades que reforcem a memória
e identidade dos Amigos de 68. Para 2006, estão previstos a elabo-
ração de um site, a publicação de um livro, que vai incluir fotos e
textos da época, e a continuação de uma série de debates políticos,
iniciada em 2005.
– A série terá o nome de Ciclo Apolônio de Carvalho, talvez
um dos maiores exemplos de dedicação à vida revolucionária,

53
além de ter sido um ser humano para lá de especial. Um dos filhos
dele, o René de Carvalho, banido dentre os 70 trocados pelo Em-
baixador Suíço, também está aqui no Amigos de 68 - conta Ricardo
Pimenta.
A historiadora Icléia Thiesen explica que grupos de pesquisa
e de discussão, publicações, recursos audiovisuais, outros materiais
e espaços são suportes da memória individual, coletiva e social que
servem de apoio às lembranças de um tempo passado. No entanto,
ela ressalta que tais suportes não determinam o resgate de uma
memória social perdida, mas possibilitam sua reconstrução:
– A memória social precisa ser reconstruída, em diversos
níveis, segundo a vontade dos envolvidos, as ações de organismos
governamentais e não-governamentais e a pressão dos pesquisa-
dores para a liberação dos arquivos militares. Não é um processo
simples, pois envolve interesses pesados, que comprometem a
imagem de diversas instituições e de indivíduos atrelados aos pro-
cessos de repressão.
Ao telefone, a voz do Bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino
é a de um homem bem-humorado, porém indignado, preocupado
com o “direito dos explorados”. O Bispo diz que aos 72 anos sua
memória apresenta “falhas”. Contudo, descreve dois importantes
episódios de uma História recente, embora “esquecida” por muitos.
O primeiro foi o encontro de várias religiões na missa de sétimo dia
do jornalista Vladimir Herzog e o segundo, também uma missa, foi
celebrada por ele próprio. Na ocasião, em janeiro de 1976, se reu-
niram membros da Pastoral Operária e militantes de outras áreas,
todos atônitos com as circunstâncias da morte de Manuel Fiel Filho.
Segundo Dom Angélico, hoje em Blumenau, Santa Catarina, dizia-
se à época que aquele operário era um comunista, como se esta
opção ideológica o desqualifica-se de alguma forma. Entretanto, o
Bispo afirma que sua preocupação era com o “término do arbítrio,
a justiça social e o anseio de liberdade”. Este, segundo ele, nenhuma
ditadura deveria calar. Dom Angélico afirma que as duas mortes
serviram como “bandeiras para defesa da dignidade da pessoa
humana”,embora reconheça que o caso de Herzog, talvez por ele ser
jornalista, teve maior repercussão. O Bispo se mostra inconformado
com os recentes casos de corrupção no cenário político brasileiro,
assistido por um “povo atônito”. E cita:

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– Karl Marx dizia que aos filósofos cabe explicar a sociedade,
a nós cabe transformá-la.
Para o ex-metalúrgico Waldemar Rossi, há várias formas de
se impedir que “a História seja sepultada”:
– A iniciativa de rememorar esses terríveis acontecimentos é
tão necessária e importante quanto a multiplicação de iniciativas
do gênero, com depoimentos dos que fizeram e viveram essa his-
tória, para que as atuais e futuras gerações cresçam em corpo, em
consciência crítica e assim possam resgatar o utopia de lutar pela
construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária - acredita
Rossi.
Thiesen reconhece que algumas feridas continuam aber-
tas:
– Nem todos os que sofreram os dramas da tortura e da
privação de liberdade encontram-se preparados para revelar ao
mundo essa experiência. Além disso, os fantasmas ainda assombram
a sociedade, se pensarmos que os métodos de tratamento de pri-
sioneiros utilizados em nossas prisões permanecem em uso, só que
agora contra os pobres, os moradores de comunidades carentes, os
negros, etc. Essa criminalização da miséria, denunciada em todos
os países do mundo, ganha os contornos de um escândalo a ser
freado a qualquer custo.
Sobre a recente decisão do governo federal de incentivar
a abertura dos arquivos da ditadura, a professora comenta que
é preciso tomar cuidado para que o direito à informação não se
sobreponha ao direito à privacidade.
– Um dos dilemas diz respeito a informações constantes de
prontuários de ex-prisioneiros políticos, as quais foram obtidas
mediante tortura, vale dizer, muitas delas até inventadas. Esse
tipo de documento é sabidamente produzido em circunstâncias
extremamente delicadas. A abertura indiscriminada pode gerar
problemas incontornáveis, como por exemplo, a descoberta de de-
núncias por companheiros feitas nos chamados porões da ditadura.
Daí a importância de serem consultados mediante autorização dos
interessados – defende Thiesen.
Para falar do silêncio de inúmeras pessoas constrangidas
pelo regime de exceção, a professora cita:

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– Os indianos dizem que podemos até obrigar alguém a
fechar os olhos, mas jamais os obrigaremos a dormir.

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