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Teoria

da Sedução
Generalizada
e outros ensaios

úvraua PilpU/JrliJ DtsC.DS & fltiU

R FERN~NOES TOURINHO, 257


SAVASSI FONE 221.7473
AV P~UDENTE DE MORAIS, 5BO
PRUDENTE FO.NE 337.64 65
AV AMAZONAS, 471- LOJA 9
AMAZONAS FONE. 201.2932
R. SÃO PAULO, BIO- CENTRO
A L F A FONE 201.009 9
l314t l.aplanche, Jean
Teoria da sedução generalizada e outros ensaios I Jean l.aplanche : trad.
[de] Doris Vasconcellos. - Porto Alegre : Artes Médicas. 1988.
126p. : il. : 23cm.

1. Psicanálise. 2. Sexo (Psicanálise). I. Vasconcellos, Doris. 11. Título.

C.D.D. 616.8917
C.D.U. 577.8:159.964.28

Índices Alfabéticos pm o Catálogo Sistemático

Sexo: Psicanálise 577.8:159.96428


Sexualidade: Psicanálise 577.8:159.96428
Psicanálise: Sexo 159.964.28:577.8
Psicanálise: Sexualidade 159.964.28:577.8

(Bibliotecária responsável: Sonia H. Vieira CRB-1 0526)


JEAN LAPLANcHE

Teoria
da Sedução
tterallzada
e outros ensaios

Tradução:
DORIS VASCONCELLOS
Do Laboratório de Psicanálise e Psicopatologia da
Universidade de Paris VIl (dirigido por Jean Laplanche)

PORTO ALEGRE I 1988


© da Editora Artes Médicas Sul Ltda .• 1988

Capa:
Mario Rõhnelt

Supefl'isào editorial:
Paulo Flavio l.edur

Diagramação. arte e composição:


AGE -- Assessoria Grafica e Editorial Ltda.

Reservados todos os direitos de publicação à


EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA.
Av. Jerônimo de Ornelas. 670- Fone (0512) 30-3444
Loja centro: Rua General Vitorino. 277- Fone (0512) 25-8143
90040 Porto Alegre. RS - Brasil

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
SUMÁRIO
1- Os princípios do funcionamento psíquico: Tentativa de esclarecimento 7
2 - Interpretar (com) Freud .................................................................................... 21
3 - Oestruturalismo diante da psicanálise ............................................................ 33
4 Uma meta psicologia à prova da angústia........................................................ 38
5 - É preciso queimar Melanie Klein?.................................................................... 50
6 - Reparação e retribuição penais: uma perspectiva psicanalítica.................... 60
7 - Apulsão e seu objeto-fonte: seu destino na transferência............................ 72
8 - Traumatismo. tradução, transferência e outros trans(es) ........................... 84
9 - Apulsão de morte na teoria da pulsão sexual ................................................. 97
X 1O -- Da teoria da sedução restrita à teoria da sedução generalizada ................... 108
OS PRINCÍPIOS DO
FUNCIONAMENTO PSÍQUICO
TENTATIVA DE ESCLARECIMENTO*

O título deste texto indica claramente seu campo e seus limites. Trata-se de
um esclarecimento de metapsicologia que se refere. portanto. aos fundamentos básicos
da nossa teoria. Apresentar aqui minhas idéias sobre um ponto fundamental da
nossa doutrina. sem tentar dissimular as dificuldades teóricas com exemplos clínicos
mais ou menos adventícios. peças escolhidas e retomadas de uma experiência que
é nossa referência comum.
"Tentativa de esclarecimento": estes termos querem marcar que nossa reflexão
tomará como ponto de partida o que Freud chamou de Prinzipien des psychischen
Geschehens.
No texto de 1911 que leva este título. dois princípios são enunciados: prazer
e realidade. e sozinhos já bastam para nos embaraçar. Todos nós os utilizamos:
alguns. talvez. sem escrúpulos. outros com um pouco mais de reserva: não são.
se desculpam. o que se diz deles vulgarmente ... Mas quem dentre nós não é, hoje
em dia e alternativamente. às vezes este psicanalista vulgar que, quando é preciso
atender ao mais urgente. na clínica, para o relatório rápido de uma cura, a explanação
simples que vai fazer a principiantes. agarra-se às concepções teóricas estereotipadas.
e, às vezes. que, na calma de uma reflexão ou de discussões que se pretendem
mais aprofundadas, coloca entre aspas os termos clássicos que ainda emprega, para
testemunhar que o psicanalista realmente está "noutro lugar" e que a psicanálise
autêntica é "outra coisa"?
Nossa finalidade aqui não é de alimentar esta cômoda duplicidade. Mas tentar
introduzir alguma clareza em referências confusas e múltiplas. Confusas: as definições
são freqüentemente feitas de aproximações. e o próprio Freud referiu-se mais de
*Texto baseado em conferências proferidas em Strasbourg e Paris.

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uma vez à necessidade que sentia de manter ao menos provisoriamente uma certa
ambigüidade. Múltiplas: o princípio de prazer e o princípio de realidade não são
os únicos enunciados. Encontramos ainda o princípio de constância. o princípio de
estabilidade (por referência a Fechner). o princípio de Nirvana. o princípio de inércia
neurônica da' Entwu?f... Sem contar as pulsões de vida e de morte! das quais. há
muito tempo. àssinalamos que se situam num plano mais geral. mais importante.
que o plano propriamente pulsional.
Multiplicidade e confusão exigem que se ponha em ordem. Como operar? Pode-
mos nos contentar com uma espécie de imagem composta? Permitir-nos-emas esco-
lher o que nos agrada em função dos progressos realizados depois de Freud?

Nosso método

É uma reflexão sobre a obra de Freud e sua experiência. alimentada evidente-


mente, controlada pela nossa experiência de psicanalista. Esta reflexão. inseparável
para mim na sua gênese de um trabalho desenvolvido em comum com J.-8. Pontalis
sobre os conceitos fundamentais da nossa ciência. como caracterizá-la? Talvez por
dois termos: problemática e histórico-estrutural. Problemático. nosso método quer.
em primeiro lugar. ser analítico. se possível em todos os sentidos do termo. caminhando
passo a passo em contato com os textos. utilizando as contradições que não podem
ser tratadas todas da mesma forma. algumas podendo ser consideradas como adven-
tícias. outras devendo ser utilizadas dialeticamente. sllia como contradições do pensa-
mento. seja como contradições da própria coisa (que se pense por exemplo. na
noção de Ego ou no uso freudiano da biologia). "Analítico", nosso enfoque leva
a interpretações que absolutamente não se recusam a declarar-se abertamente como
tal.
É através da interpretação que unimos as noções de história e de est[u_tura:
trata-se de tentar reencontrar. através dos rerlian~ds estruturais ou das contradições
aparentes. das exigências. das correspondências. produtos freqüentemente de verda-
deiros "deslocamentos" no sentido psicanalítico do termo: noções. elementos doutri-
nais. às vezes panoramas inteiros do pensamento se encontram. numa outra configu-
ração. desempenhando um papel inteiramente novo no pensamento de Freud. enquan-
to a exigência fundamental permanece imutável. Equivale a dizer o quanto uma
explanação sincrética. sintética. do pensamento freudiano leva necessariamente a
um absurdo. ou seja, por redução. à mais completa evidência.

1 _ Partiremos do princípio do prazer e do princípio de realidade tomando-os


a um nível fenomenal. descritivo. da maneira como somos convidados pela sua própria
denominação...

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O princípio do prazer

Suas definições são pouco numerosas na obra freudiana. e relativamente unívocas.


Em Os dois princípios do funcionamento psíquico. se enuncia: "Os processos psíquicos
tendem ao ganho de prazer. Nossa atividade se retira dos atos que podem despertar
desprazer".
Esta definição acarreta duas séries de observações:
1) É o desprazer que tem primazia - Sabe-se. aliás. que nas suas primeiras
formulações Freud partiu da noção de princípio de desprazer. depois da de desprazer-
prazer. Isto destaca o fato de que se passa sempre da tensão presente. desagradável.
à descarga.
Já para Fechner, esta idéia estará presente. e convém insistir sobre o fato
de que é a Fechner que se deve o enunciado do princípio de prazer (Uber das
Lustprinzip des Handelns, 1848) e não somente o do princípio de constância ou
de estabilidade. Ora. para Fechner. não se trata absolutamente de um hedonismo
no sentido tradicional: a representação do prazer ou do desprazer futuro não serve
para nada. O princípio de prazer é um princípio regulador exigindo uma sensação
atual para pôr tudo em andamento. é um princípio que já atua ao nível das próprias
representações e não ao nível do representado, do visado, do projetado. Como o
movimento é sempre um movimento que vai do desprazer ao prazer. concebe-se
que, nesta dupla. o termo presente. motivante, seja o desprazer. Freud fala várias
vezes de uma regulação automática do curso dos prpcessos psíquicos por este princípio.
o que significa apenas a retomada da tese fechneriana.
Z) Para quem existe prazer-desprazer? - Primeira interpretação possível: é
a nível do conjunto da atividade psíquica. Conhece-se o modelo freqüentemente
retomado: o de uma vesícula viva de um organismo com uma camada periférica
figurando o sistema percepção-consciência. Esta camada superficial receberia do exte-
rior as quantidades e as qualidades. sendo estas a primeira garantia da realidade
do que é percebido. Do interior só recebe uma única gama de sensações. as que
escalonam entre o máximo de prazer e o máximo de desprazer.
Ora. assim que o modelo se complica. surgem as dificuldades: e o modelo
se complica necessariamente com a idéia de conflito e de inconsciente. A experiência
psicanalítica mostra que o prazer. por exemplo no sonho. pode aparecer sob uma
outra forma (mascarado -ou traduzido?). a dos sonhos de angústia. por exemplo.
A distinção tópica que nos é bem familiar volta aqui a nos ajudar de um ponto
de vista teórico: enunciemos. o que é prazer_ para um sistema, é desprazer para
um outro. Assim. no quadro de referência da primeira tópica. um prazer inconsciente
pode se mascarar num sintoma aparentemente neutro ou desagradável. Na segunda
tópica. as instâncias estando ainda mais personificadas, teremos ainda menos escrú-
pulos em invocar, por exemplo, o "despra~er" ou o "prazer" do Superego sem
implicar com isto que um tal desprazer ou prazer chegue até a consciência.
Mas que sentido tem ainda falar. nestas condições, do prazer e do desprazer
como qualidades psíquicas? Isto sem querer ir mais longe do que mencionar um

9
fenômeno clínico ainda mais embaraçante: o famoso Schmerzlust. o prazer que o
masoquista encontra na própria dor. Diante destas dificuldades dois tipos de solução
são tentadas por Freud:
Manter-se num mínimo de respeito de uma psiclogia descritiva ou fenomeno-
lógica. conservando seu sentido qualificativo aos termos prazer e desprazer. o que
supõe que s~am percebidos pelo sistema percepção-consciência ao menos a título
de afeto inicial, de sinal. Este é o caminho indicado em Inibição, sintoma e angústia.
A outra solução é do tipo econômico: trata-se de interpretar o prazer-desprazer
em termos de processos puramente objetivos. Deixa-se. assim. de lado a difícil questão
de saber a partir de que momento um aumento de tensão torna-se motivante como
prazer sentido. A partir daí pode-se enunciar o princípio de prazer em termos tão
válidos para as instãncias inconscientes como para as instâncias conscientes da pessoa.
As dificuldades inerentes ao princípio de prazer são então transferidas ao princípio
de constância que estudaremos mais adiante.

O princípio de realidade

Suas definições também são raras nos textos de Freud. Conhece-se do texto
sobre os Dois princípios:
"É somente a falta persistente da satisfação esperada, a decepção. que provoca
o abandono da tentativa de satisfação pela alucinação. No seu lugar. o aparelho
psíquico teve que se decidir a se representar o estado real do mundo exterior
e a buscar uma modificação real. Assim. um novo princípio da atividade psíquica
foi introduzido: o ::JUe era representado não era mais o que era agradável.
mas o que era real. mesmo se isto devia ser desagradável."
Sabe-se que é apresentado como modificação do princípio de prazer e como
regulador deste. que introduz condutas de tergiversação e a capacidade de adiar
a satisfação: conhece-se sua ligação com toda uma série de funções nas quais se
encarna: atenção, julgamento. memória. pensamento como atividade de controle.
seja uma atividade onde se substitui a descarga imediata à manipulação de pequenas
quantidades de energia. O pensamento é considerado como uma "ação para ver".
Sabe-se. também. que o princípio de realidade se encarna na busca da "identidade
de pensamento" substituindo-se à busca primária da "identidade de perceção" que
caracteriza o prazer. O que é notado com menos freqüência é que a identidade ·;

de pensamento é apenas um elo intermediário na busca da identidade de percepção.


Tudo isto se conhece bem, mas permanece um problema central: em virtude
de que Freud chama este princípio princípio de realidade. um tal termo implicando
quase necessariamente uma teoria da aprendizagem. do amestramento da pulsão
em contato com o real?
No mesmo texto do qual tomamos esta definição é igualmente introduzida
a "prova de realidade". a Realitãtprüfung. Mas só aumenta a ambigüidade do termo.

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O termo prova. por si mesmo. induz a noção de ensaios e erros. De prova de
realidade, termo relativamente neutro. os psicanalistas escorregaram muito depressa
para a noção de prova da realidade. Tratar-se-ia. portanto, aí. de pôr à prova nossas
pulsões ao contato da realidade, de submeter à prova a alucinação pela confrontação
com a decepção que não pode deixar de suscitar. com uma apreensão mais discrimi-
nativa das relações objetivas. com os resultados. enfim. de uma ação motora proba-
tória. Destacamos de passagem que se a teoria freudiana da alucinação primitiva
devia implicar na possibilidade de uma redução. por aproximações suscessivas. do
erro que comporta. a experiência clínica da alucinação. que sabemos impossível de
reformar por qualquer confrontação que seja com o real. viria revogar definitivamente.
Naqueles casos (sonho, alucinação) em que a prova de realidade seria mais necessária
e onde se esperaria que devesse desempenhar seu papel. ela é estritamente ineficaz.
posta imediatamente fora de cogitação.
Se colocamos agora em relação o princípio de prazer e o princípio de realidade,
que visão estranha nos traz um texto como Os dois princípios mas também todos
os outros textos freudianos sobre este tema, O prqjeto de psicologia científica. A
interpretação do sonho. O Ego e o ld, o Esboço de psicanálise.
Estranha visão se tomamos as formulações ao pé da letra: trata-se de uma
visão genética. o que Freud afirma abertamente alardeando sua intenção de trans-
formar a psicanálise em psicologia genética.
Dentro deste panorama. o ponto de partida é uma espécie de mônada fechada
sobre si mesma e. neste sentido, narcisista. Ora. esta mônada auto-suficiente, que
só tende a descarregar e que alucina sua própria Satisfação, Freud pretende mostrar
como ela se abre. em função de uma insatisfação impensável, para o mundo exterior.
como elabora as funções do Ego começando pela própria percepção.

Insatisfação impensável

Se nos situamos. como Freud parece fazê-lo às vezes. a nível de uma mônada
em princípio sem representações. a única alucinação que se possa. então, imaginar
é a da qualidade prazer. fora de qualquer outro conteúdo. Muito esperto será então
quem for capaz de dizer a diferença entre o prazer alucinado e o prazer sentido,
quem poderá mostrar como a falta representada por uma insatisfação, por mínima
que seja. poderia se introduzir na vivência de um prazer alucinado até a consumpção.
Ou então o recém-nascido alucina algumas de suas primeiras representações
(Vorstei/Ungen). Evidentemente, esta é a solução de Freud. Mas então toda a sua
dedução cai. Enquanto ele pretendia deduzir a formação de um sistema de marcas
(Merken) da intervenção secundária do princípio de realidade. eis que este sistema
de marcas. proveniente da percepção. deve ser concebido como anterior ao princípio
de prazer. se é verdade que o princípio de prazer é captado primeiro na reprodução
alucinatória de tais marcas. Em outros termos. longe de serem pontos de referência
para um esquadrinhamento cada vez mais perfeito do princípio de prazer pelo princípio

11
de realidade, as marcas de origem perceptiva são indispensáveis ao funcionamento
do processo primário.
Esta idéia de um acesso perceptivo imediato da realidade é, ao mesmo tempo,
conforme com tudo que sabemos da psicologia do recém-nascido e prefigurada
em inumeráveis indicações de Freud. Nossa finalidade não é. como se diz, pôr Freud
em contradição com ele próprio. Não se trata. por assim dizer. de forçá-lo retrospecti-
vamente a escolher neste velho debate psicanalítico que opôe os partidários de um
absurdo idealismo ou mesmo solipsismo biológico de partida e os que colocam de
saída a existência de uma "relação de objeto" ou de um "amor primário de ol:!jeto".
É a um outro nível, ao nível da interpretação. que colocamos a questão. Se
é verdade que para Freud. cientificamente, não há dúvida de que existe de saída
uma abertura perspectiva ao Aussenwelt*, qual é, então o sentido de sua absurda
dedução do princípio de realidade a partir do princípio de prazer? Absurda a nível
do indivíduo. será extrapolada à história da espécie (como parece fazer o Prqjeto
de psicologia científica) ou mesmo à história da vida (Para além do princípio do
prazer)? Ou então pode ser considerada como uma gênese transcendental, e que
quer dizer isto? Ou então trata-se de uma ficção. um mito até. e, neste caso, que
ele encobre? A que campo se aplica este mito?
Antes de tentar responder, é preciso que passemos ao plano da significação
econômica do princípio do prazer.

11 - O PRINCIPIO DE CONSTÂNCIA

Freud declara explicitamente que é o fundamento do princípio de prazer. Um


seria apenas a tradução do outro no plano da vivência suQjetiva.
São nos dadas numerosas formulações dele, sem que jamais s!liam. no entanto,
satisfatórias. Freud anotou desde cedo que "pode-se entender por isso as mais
diferentes coisas", tem-se a impressão que, para ele, o termo "constãncia" cobre
uma mercadoria relativamente heteróclita. Citemos. neste sentido. duas formulações
claramente exemplares de Para além do princípio de prazer:
- a tendência à "redução. à constância, à supressão da tensão de excitação
interna" ...;
- ou ainda, a tendência do aparelho psíquico "a manter tão baixa quanto
possível a quantidade de excitação presente nele. ou ao menos de mantê"la constante".
Existe aí uma contradição maior: a redução a zero é posta em oposição, e
concebida como sinônimo de manutenção da constãncia. ou, ainda, a constãncia é
apresentada como o menor dos males na falta da redução absoluta das tensões.
A contradição pode ser percebida aqui: num sistema dito homeostático, num
organismo regido por uma lei de constãncia, a carga energética tanto quanto a
descarga pode. segundo as circunstãncias. ser favorável à constância (simbolizada
abaixo pelo nível N) ou desfavorável a ela.
' Em alemão no original: Mundo exterior. (N. do T.)

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Esta contradição fundamental pode se esclarecer por uma comparação do pensa-
mento de Breuer com o de Freud.
Breuer (nas suas Considerações teóricas de 1895) e Freud (no seu Prqjeto
de psicologia científica de 1895) atribuem-se mutuamente a paternidade do princípio
de constãncia. É certo que partem ambos da mesma experiência: a "ab-reação",
e seu contrário, a "retenção" do afeto nos histéricos. No entanto, a perspectiva
é completamente diferente.
Não esqueçamos que Breuer colaborou nos trabalhos de Hering a respeito
de uma das mais importantes auto-regulações do organismo: a da respiração. A
constãncia da qual fala é do mesmo tipo: trata-se de uma homeostase. Certamente
não uma homeostase do organismo no seu conjunto (como o são precisamente
aquelas que regulam as grandes funções vitais) mas uma homeostase de um sistema
mais particular. mais especializado, a do sistema nervoso central.

~.=I ~
N. ~7
L "".
/
É neste referencial que deve ser compreendida sua distinção entre uma energia
"quiescente" ou "excitação tônica intracerebrai", e uma energia cinética circulando
através do sistema. O princípio de constãncia regula, para Breuer. o nível de base
da energia tônica e não, como o fará o princípio de prazer para Freud, o escoamento
da energia dita livre.
A partir daí, enuncia-se assim: "Existe no organismo uma tendência a manter
constante a excitação tônica intracerebral" (Studien über Hysterie)•.
Tal nível de base é concebido como um optimum. Como tal. pode ser ameaçado
por diversas modificações de nível, algumas operando uma perturbação generalizada,
outras mais localizada; como tal pode ser restabelecido pela descarga (ab-reação)
mas também pela carga. Trata-se, diríamos. de manter uma verdadeira Gestalt ener-
gética.
Este optimum. finalmente. tem um objetivo: é a boa e livre circulação de energia
cinética. isto é, um funcionamento confortável do pensamento. a existência de associa-
ções não entravadas:
"Falamos de uma tendência do organismo a manter constante a excitação
cerebral tônica: mas 1,1ma tal tendência só pode ser compreensível se podemos
perceber a que necessidade responde. Compreendemos atendência para manter
constante a temperatura do organismo com o sangue quente porque sabemos
por experiência que esta temperatura constitui um optimum para o funciona-
mento dos órgãos ...

' Em alemão no original: "Estudos sobre a histeria." (N. do T.)

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Acredito que também se pode admitir que o nível de excitação tônica intrace-
rebral tem um optimum. Neste nível de excitação tônica, o cérebro estaria
acessível a todas as excitações externas, os reflexos têm a melhor condução,
mas somente nos limites de uma atividade reflexa normal, o fundo das represen-
tações é capaz de ser despertado e associado segundo esta proporção relativa
recíproca entre cada uma das representações. que corresponde a uma reflexão
clara."
1 nversamente. no sonho. as associações seriam defeituosas e entravadas. Osonho.

segundo Breuer. é testemunha de um estado no qual a energia não está absolutamente


livre: tese diametralmente oposta à de Freud!
A metáfora que prevalece geralmente aqui é a de um circuito elétrico ou telefônico
cuja modulação só é possível a partir de um certo nível de base que deve ser
mantido a qualquer preço: a energia tônica tem uma prioridade absoluta sobre
toda circulação possível da energia cinética.
Este resumo demasiado curto do pensamento de Breuer deveria bastar para
mostrar todo o interesse de um enfoque neurofisiológico que. embora partindo
das noções ditas fisicalistas da escola de Helmholtz, permaneceu muito flexível, muito
próxima da experiência fisiológica. Tal enfoque pode ser considerado como não sendo
rigorosamente contraditório com as descobertas ulteriores da neurofisiologia (manu-
tenção de um nível de atividade pelo sistema reticular ativador. por exemplo ...).
como uma hipótese cientificamente provável e aberta.
Bernfeld, pretendendo reconstituir as primeiras etapas do pensamento freudiano,
assimila-as sem discussão às de Breuer. Que diferença. no entanto (1 ). entre as
hipóteses razoáveis de Breuer e a grande maquinaria que nos apresenta o Prqjeto
de psicologia científica!
O Projeto de psicologia científlc.:i: só podemos dar aqui algumas referências
esquemáticas:
1) Freud parte de um modelo abstrato do qual jamais saberemos fundamen-
talmente se se trata do psiquismo. o sistema nervoso central ou o organismo que
está em questão. Ignora-se. também. se a espécie de dedução dos diferentes modos
de funcionamento que nos é apresentada se situa ao nível ontogenético, a nível
filogenético ou a nível transcendental.
2) Este modelo está inteiramente constituído a partir de duas espécies de
elementos de base: os "neurônios" e a "quantidade". Tudo indica no texto que
estes neurônios são apenas as próprias Vorstellungen (representações). A clínica
das neuroses, que impôs a distinção entre representação. por um lado. e quantum
de afeto por outro. vê-se aqui diretamente transposta em: neurônios Iquantidade.
Tudo que se passa neste sistema ou neste modelo é somente a conseqüência
da posição dos neurônios (considerados em si mesmos como todos idênticos: gleichge-
baut). de suas bifurcações. da diferença de condução entre estas bifurcações. Com-

1 Pode-se perceber os indicias deste desacordo latente concernente ao principio de constância nas
r]ifPrPntw; rPrli1{/1PC: quP rhrqararn atil nôr; rlíl "romunicação preliminar".

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preende-se imediatamente como se torna possível uma interpretação em termos
de memória eletrônica ou de lingüística estrutural.
Voltemos ao que concerne aos princípios:
Freud parte, no Prqjeto do princípio de inercia neurônica que se enuncia assim:
"Os neurônios visam a se livrar da quantidade" (Neuronen sich des Quantitat zu
entledigen trachten).
Este princípio é constantemente identificado com as seguintes noções:
- energia livre. tendendo livremente. pelas vias mais curtas, à descarga. Nenhu-
ma estase de energia em um neurônio:
- processo primário:
- princípio de prazer (ou de desprazer).
"Como conhecemos com certeza uma tendência da vida psíquica a evitar o
desprazer somos tentados a identificar esta tendência com a tendência primária
à inércia. Odesprazer coincidiria, então, com o aumento quantitativo da pressão ...
O prazer seria a sensação de descarga ..."
Não se trata absolutamente de constância nesta definição do prazer.
Clinicamente, isto corresponde a quê?
Toda a experiência de Freud nesta época. experiência sobretudo no campo
da histeria e do sonho, está centrada sobre aespecificidade dos processos inconscientes.
Que se tomem como referência a este propósito as passagens do Projeto sobre
a simbolização histérica nas suas relações com a simbolização normal. Entre as
representações B e A. das quais uma "simboliza" a outra. há um deslocamento
de energia: mas, na simbolização normal. A retém para si uma parte da carga:
assim sendo. o soldado que morre pela bandeira não esqueceu ou recalcou o fato
de que morre pela pátria. A simbolização histérica. ao contrário. caracteriza-se por
um deslocamento completo. total. de A a B. O processo primário é dito igualmente
processo vali, pleno. no sentido em que se pode dizer que existe entre as representações
em causa uma passagem a "descarga aberta".
Geneticamente. o que Freud visa, então. na sua reconstituição das origens do
desejo humano ou da pulsão é à experiência de satisfação como reinvestimento
plano. que vai até a alucinação, da representação ligada à primeira satisfação. É
o primeiro enunciado da tese da alucinação primitiva, que nunca será abandonada.
Estranho, na sua origem. à concepção clínica do processo primário como lei
do inconsciente, o princípio de constancia está. portanto. ausente da primeira elabo-
raç~o freudiana? Não, mas se o encontramos é em uma posição completamente
diferente. onde não tem nada a ver com o processo primário e a "livre" circulação
do desejo inconsciente.
A noção de constância é introduzida secundariamente como uma adaptação,
devido às exigências da vida. do princípio de inércia: "O sistema neurônico é forçado
a abandonar a tendência originária à inércia. isto é. ao nível =. O. Deve decidir-se
a ter uma provisão de quantidade para satisfazer às exigências da ação específica.
Na maneira como o faz. aparece, no entanto. a continuação da mesma tendência.

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modificada em esforço para manter ao menos tão baixa quanto possível a quantidade,
e a defender-se contra os aumentos. isto é. a mantê-la constante."
A lei de constância. mesmo se não foi colocada explicitamente como princípio.
corresponde muito exatamente à energia ligada e ao processo secundário.
Esta lei de constância aparece em dois contextos. A nível de uma dedução
biológica, a respeito da qual voltaremos a falar. da "função secundária" no seio
do organismo ou do sistema nervoso central. A nível específico da psicanálise. isto
é. a nível das representações.
O problema é saber. neste segundo contexto. o que vem entravar, moderar.
regular a circulação livre que constitui o desejo inconsciente ou. é a mesma coisa.
a ficção da satisfação alucinatória do desejo: surge aí a intervenção do Ego.
Haveria aqui toda uma série de erros a serem dissipados: o Entwurf* é um
grande texto. o grande texto sobre o Ego: o Ego é tomado aí como instância no
sentido que reencontrará em Para introduzir o narcisismo. e depois na segunda
tópica.
Como defini-lo? É agente de inibição, freio. lastro. Através daquilo que Freud
chama de processo de investimento lateral (Nebenbesetzung) introduz o processo
secundário sem ser ele mesmo este processo secundário.
A definição mais compacta que Freud dá é a seguinte: "Uma rede de neurônios
investidos e cujas comunicações recíprocas permitem a passagem facilitada da energia"
(Ein Netz. besetzer. gegeneinander gut gebahnter Neuronen).
É. portanto, uma rede de neurônios ou de representações no interior da qual
a circulação de energia é quase livre. mas que mantém em relação ao exterior
uma diferença de nível correspondendo a um investimento libidinal constante.
Interpretemos: é uma espécie de Gestalt possuindo uma estabilidade que age
pela sua densidade sobre as representações vizinhas. as quais. sem ela. estariam
submetidas ao processo primário.
Salientemos ainda sua relação com a realidade: O Ego age exatamente para
inibir a alucinação. e. neste sentido. temos aí o primeiro modelo. em Freud. e talvez
o único que jamais tenha desenvolvido. de uma "prova de realidade". Mas esta
instãncia age por tudo ou nada, e não por aproximações sucessivas. Ela inibe um
excesso de realidade que traz a alucinação. Isto não ocorre por função de uma
relação de privilégio imediato do Ego com a realidade: a instância do Ego não se
articula com ela. como se tivesse. para além de um primeiro contato ingênuo com
o real. um contato mais verdadeiro permitindo retificar o primeiro. Topicamente,
aliás. no modelo do Prqjeto de psicologia científico. ela absolutamente não se confunde
com o sistema percepção-consciência que é o único articulado sobre a realidade
(1).

' Em alemão no original: Prqjeto. (N. do T.)


1 - A instância do Ego tem certamente uma relação com a percepção, mas uma relação mais complexa
do que se fosse simplesmente o mediador ou o instrumento da percepção.

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Concluamos a propósito do Entwurf, mas nossa conclusão poderia ser verificada
em toda a obra e na .experiência psicanalítica:
- Os princípios da psicanálise são princípios que regulam a circulação. ao
longo das cadeias e das bifurcações associativas. de um certo quantum dito "afeto".
São princípios que foram descobertos e só são válidos a nível das representações,
no campo próprio onde se movimenta a psicanálise. Não poderiam ser definidos
tal qual princípios aparentemente similares que têm referência na ordem vital sem
que a maior confusão se introduza na psicanálise.
Inversamente. não poderiam ser transpostos tais e quais na ordem vital sem
grave dano para a biologia.
- Estes princípios correspondem a duplas de oposição constante no pensamento
psicanalítico, duplas que poderíamos ordenar segundo duas colunas:
Processo secundário Processo primário
Energia livre Energia ligada
Bindung (ligação) Entbindung (descarga. desencadeamento)
Ego Des!lio
Os termos princípio de constáncia e princípio de prazer são difíceis de situar,
em razão das próprias hesitações de Freud. Numa terminologia coerente seria preciso
colocar o princípio de constáncia na coluna esquerda, mas sabemos que toda a
ambigüidade de Freud vem do fato de ter. às vezes. situado a constãncia do lado
da tendência a zero.
Proponho, portanto. termos historicamente menos pesados a fim de situar.
em nossas duas colunas. os princípios:
A nível econômico:
Pnncípio de nível constante Princípio de descarga
A nível descritivo:
Princípio de ligação Princípio do des!lio ou do gozo
Como no alto de uma penosa escada, uma tarefa considerável se oferece a
nós então: problemas a colocar com Freud, problemas a propósito de Freud. isto
é. interpretando-o, problemas. enfim. para além de Freud.
Mencionarei somente três questões: o biologismo paradoxal de Freud, a segunda
teoria das pulsões. a significação da ligação (Bindung).

1) O biologismo paradoxal de Freud

O absurdo enigmático do biologismo de Freud torna-se nítido em comparação


com o neurobiologismo de Breuer. este tão verossímil.
Breuer parte de um organismo viável cujas relações com o exterior são reguladas
por homeostases. Freud parte da ficção de um organismo em princípio não viável.
fechado ao exterior. tendendo por si mesmo à morte. Por um gesto mágico impensável
deveriam emergir deste "organismo" mecanismos secundários de regulação.

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Esquematizo voluntariamente o aparente paralelismo das concepções de Breuer
e Freud no quadro abaixo:
Breuer Freud
Homeostase do organismo
Homeostase nervosa (energia tônica)
J..
Boa circulação (energia cinética) Energia liv~>: descarga
Energia ligada: nível

Claro que se pode dizer e deve-se dizer que todo o Freud e o co[jjunto do
campo psicanalítico se situam para além dos problemas colocados por Breuer.
Mas esta é uma solução que. em um certo sentido. livra-se da questão. precisa-
mente da questão do organismo, contentando-se em considerar o biologismo de
Freud como um modelo puro, uma ficção, um simples modo de dizer.
A permanência desta ficção, sua insistência na obra deste o Prqjeto até Para
além do principio do prazer e o Esboço de psicanálise. incitam-nos aqui a interpretar,
não sem fundamento: a ficção biológica significa que a passagem da energia livre
à energia ligada é mediatizada, para Freud, pela idéia de organismo. Entendo aqui
idéia com todas as suas conotações, tanto a de representação como a de ELii o.;:
forma. A homeostase do organismo. sua forma que se mantém no ser. aí está
o que "precipita" a ligação e o fator maior desta última. isto é, o Ego.
A idéia de organismo age como causa final: a necessidade de uma provisão
de energia sexual para realizar a ação específica? É o que Freud defendeu às vezes,
por exemplo no início do Entwurf. Mas uma tal teoria choca-se às aporias de todo
finalismo.
A idéia de organismo age como metáfora? lntrojeção de uma Gestalt? Mais
de uma indicação de Freud iria neste último sentido. Neste caso, a ficção biológica
freudiana. sua "metáfora". seria apenas o reflexo de uma "metáfora" realizada.
de uma verdadeira marca: introjeção. sob a forma do Ego, da Gestalt do organismo.
Enfim lembremos que para Freud a homeotase, mesmo orgânica, não pode
ser originária. É preciso que, por sua vez. a passagem da energia livre à energia
ligada encontre seu antecedente mítico numa outra passagem a nível da natureza:
a passagem da morte à vida. A morte sendo concebida como o estado anorgânico
onde impera uma transmissão puramente mecânica de energia. transmissão total
que significa equalização, sugiro completar assim o quadro precedente:
Breuer Freud

Morte (lei das coisas e das causas)

Homeostase J.
Vida (homeostase do organismo)
L
Boa circulação Energia livre

+
Energia ligada

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Constata-se que em nenhum momento Freud se situa a nível neurobiológico
tal como este se apresenta em Breuer. Situa-se. às vezes. a um nível aquém, em
suas especulações sobre a morte e a vida. às vezes a um nível além. o nível da
psicanálise clínica. Evidentemente é a relação destes dois níveis, para além do biológico,
que constitui o ponto a decifrar no pensamento freudiano.

2) A segunda teoria das pulsões

Sua aparição se situa (1919·1920) no centro de uma "guinada" que, retrospecti-


vamente. pode parecer a origem das piores aberrações sobre a noção de Ego.
Fundamentalmente. esta segunda teoria das pulsões marca a reafirmação da
tendência ao zero que é o princípio mesmo do des~o inconsciente. portanto do
desejo sexual. Reafirmação do princípio de prazer. se queremos tomá-lo no sentido
mais radical como princípio de gozo e não como princípio de constância.
O princípio de prazer. diz-nos Freud (Para além do princípio de prazer). está
a serviço da pulsão de morte. Todas as emendas ulterioes não poderão apagar
esta afirmação. O Esboço de psicanálise virá reiterá-la: a pulsão de morte é uma
força de Entbindung (tradução literal: desligamento). a pulsão de vida é uma força
de ligação (Bindung).
Para nós, a afirmação da pulsão de morte é a afirmação da sexualidade em
seu estado radical, Já onde é indissoluvelmente gozo e morte. desejo, interdição
e transgressão. Através de que paradoxo Eros. esta força que no início da teoria
era ruptória. geradora e até mesmo sinônimo de angústia, "desencadeamento" energé-
tico, voltou novamente a ser o Eros platônico fator de unidade e de síntese... isto
é outra história; história que, mais uma vez, não é somente a história do pensamento
freudiano, mas a própria história da realidade: no caso. a gênese do narcisismo.

3) O último problema a evocar é o da ligação

Problema que já podemos colocar com Freud, mas que. na sua complexidade.
leva-nos para além.
Se o Entbindung. o desligamento. é um e único. se é nele que reside a intuição
fundamental reafirmada até a forma da pulsão de morte, a ligação, seria ela única?
Existem diferentes tipos de ligação? Talvez mesmo radicalmente heterogênicos?
O que vem dar lastro ao processo primário, pois é disto que se trata.
Em um ensaio já antigo, publicado com S. Leclaire, sobre o Inconsciente. tentei
prolongar o que. em Freud. incita a ver na ligação um fenômeno de estrutura:
o inconsciente seria a própria condição da linguagem, o desdobramento da cadeia
associativa significante sendo o que permite um relativo arranjo na ordem do discurso.
A raiz deste desdobramento. deste "recalcamento originário". é, evidentemente. a
estrutura edipiana.

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Hoje segui uma linha bem diferente. uma linha igualmente freudiana: o Ego,
na sua consistência energética, seria um elemento de gravitação capaz de inibir
este mesmo processo primário. e talvez primeiro ao próprio nível da percepção,
de precipitar estes correlatos - irreconhecíveis - do nosso Ego que chamamos
"objetos".
Se é possível que existam dois tipos de ligação. uma que s~a Gestalt e outra
que s~a estrutura. qual é a sua relação? A ligação que provém do Ego - a Gesta/t
é outra coisa que uma bengala (provisória. mas um provisório que se tornou
definitivo) para esta outra ligação?
E. se assim é, não seria preciso conceber que a ligação estrutural já está iniciada,
a mínima ("em estado reduzido") nas estruturas elementares do desejo inconsciente?
Só posso deixar estas questões em aberto. contentando-me. aqui. em ter pro-
posto, por esta "tentativa de esclarecimento", uma limpeza parcial do terreno sobre
o qual somos chamados a trabalhar.

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INTERPRETAR(COM)FREUD

1. INTERPRETAR COM FREUD

Interpretar: a palavra não surpreende e a função-- profana ou, mais facilmente,


sagrada - que designa pode parecer bem estabelecida. Em todas as épocas, em
todos os espaços culturais. interpretaram-se os sinais. os oráculos. os escritos. Sempre
a interpretação faz uso da ambigüidade, ou. como se diz. da "polissemia" do elemento
manifesto: seja porque a mensagem se apresente por um fenômeno de aparência
natural. seja porque se enuncie em uma frase propositalmente falaciosa, seja, enfim.
porque. bíblia ou carão, transborde por todos os lados. por sua riqueza. o texto
proposto a uma leitura imediata.
Nutrindo-se na ambigüidade de um dado. a interpretação redobra. em si mesma,
esta natureza ambígua: durante uma negociação, na qual presto meus serviços. posso
protestar minha imparcialidade lembrando-lhe que "sou apenas intérprete dos desejos
de seu adversário B". Mas quando transmito a Besta entrevista. este. inquietando-se
que eu posso ter me comprometido demasiadamente em seu nome. replicará indig-
nado: "Aí você interpretou meu pensamento".
Traduzir. mas também desviar. acrescentar. distorcer. ainda que ligeiramente.
o sentido manifesto e imediato é o que conhecemos também em psicopatologia:
a interpretação paranóica. Sistemática, armada de uma visão do mundo que é sem
dúvida somente a contrapartida e a transposição da unidade precária e ameaçada.
e por isso mesmo mais rígida. do seu Ego. o paranóico nos apresenta uma espécie
de compendium de todos os procedimentos da hermanêutica: interpretação de sinais,
de gestos. de ausências tanto quanto de presenças. de textos também - tanto
sagrados como profanos- que direta ou indiretamente sempre lhe são endereçados.

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Tudo isto com uma precisão e uma perspicácia que Freud bem salientou. (1 )É verdade
que ele retoma tudo no seu discurso pessoal, mas seguindo linhas de força virtuais,
significações inconscientes que estavam apenas esboçadas, às quais dá uma ênfase
impiedosa.
No sentido de toda hermanêutica não-freudiana. cabalística ou paranóica. antiga
ou patrística, interpretar é situar-se mais além de um dado e. a partir deste ponto,
visar a um aquém. Procedimento que se pretende nascido de um saber. e que
não temeria comparar-se ao da ciência. Mas aqui o dado se apresenta já como
portador de um sentido, como uma palavra a decifrar, um livro que seria ao mesmo
tempo para ser lido. traduzido e substituído por um texto mais verídico. Nas palavras
de Foucault. a propósito da hermenêutica do Renascimento: "Não existe comentário,
a menos que. sob a linguagem que se lê e se decodifica. flui a soberanidade de
um texto primitivo". (2)
Penhor do empreendimento de interpretar na sua autenticidade, esta estrutura
de dois níveis -texto manifesto e texto latente - é maltratada pela crítica moderna.
O texto manifesto, gesto, palavra cotidiana ou mesmo obra. é apenas, afinal de
contas. uma "nature2.a" aberta a todos os sentidos. Não há "Racine" de Racine.
de maneira que o crítico clássico que pretende no-lo restituir é apenas um falsário.
na melhor das hipóteses. um ingênuo. Ou então. se admitimos que havia. talvez.
um sentido da obra para o autor. este sentido não nos interessa mais do que toda
outra variante ou variação sobre o texto. no máximo como documento "psicológico"
e "anedótico". Interpretar ou ler é a mesma coisa: retomar no seu universo pessoal,
reanimar com seu próprio sopro. como o faz o "grande intérprete" para a partitura
morta que vai procurar na loja de Durand. (3)
Deutung: interpretação. Sem querermos chegar nós mesmos ao misticismo her-
menêutica que. se autorizando d<l "profundidade" germânica, toma por discurso
científico o que é apenas exegese etimológica e filológica, salientemos. entretanto.
que o termo alemão tem ressonâncias ligeiramente diferentes das do francês. Deutur(g
é mais realista: supõe a existência de um sentido que deve ser reencontrado e
não criado. Trata-se de esclarecer um texto, certamente. mas sob sua luz particular,
dizer a verdade, encontrar a significação imanente: a Bedeutung. Interpretar. para
Freud, é ir do texto manifesto ao texto latente que o fundamente. é percorrer
em sentido inverso os caminhos que resultaram na produção do fenômeno. O obscuro

1 - "Para todas estas manifestações do inconsciente de sua mulher (o paranóico ciumento) mostrava
uma atenção extraordinária e se aplicava a interpretá-la com rigor. tanto assim que. para dizer a verdade,
tinha sempre razão e podia ainda fazer apelo à análise para confirmar seu ciúme. Na verdade. sua
anomalia limitava-se ao fato de dar ao inconsciente de sua mulher uma observação demadíadamente
aguda, dando-lhe muito mais importância do ue o teria feito qualquer outro". (Freud. S. 1922. Sobre
alguns mecanismos neuróticos no ciúme. na paranóia e na homossexualidade". Obras completas).
2 - Foucault, M. Les mots et les choses. Paris. Gallimard. 1966. p. 56.
3 - A gravação em disco ou em filme de uma obra musical ou teatral não muda nada a objeção,
quando esta é levada ao seu principio: em nome de que absoluto privilegiar a execução da "Sagração
da Primavera" dirigida pelo individuo Stravinsky?

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pressentimento do sentido. a intuição, podem ser apenas arautos deste trabalho
de decodificação. (4)
A originalidade da interpretação freudiana merece. na realidade, ser relembrada
e enfatizada, P9i?_!§ freqüentemente mal conhecida tanto em certos esforços teóricos
para fazê-la entrar no quadro geral de uma iiermenéllficãquaiiti:i ein uma prática
que, mesmo para os psicanalistas mais ortoaoxõs.
nem sempre resiste às seduções
de uma leitura a livro aberto.
Nosso livro, nosso texto pode ser o sintoma neurótico. os atos ou o discurso
de um sujeito. o texto de uma observação clínica e. de maneira exemplar. a narração
de um sonho. Estamos aí diante de um dado que se apresenta com um certo sentido
e pretende bastar-se a si mesmo - significante e significado - : contamo-nos
os sonhos, rimos deles ou nos amedrontamos, seu sentido poético é reconhecido
universalmente. Um texto, portanto, que podemos ler e parece que até resumir.
expor de segunda mão, etc.
Diz-se com freqüência - o próprio Freud algumas vezes o disse - que a
psicanálise descobriu que existe um sentido oculto nos sonhos. E apoiando-se sobre
a noção rapidamente assimilada de "sobredeterminação" acrescenta-se que existe
UIJ!a pluralidade de sentidos possíveis e talvez todos igualmente válidos, cada um
com seu nível maior ou menor de "profundidade". Sustentando-se apenas sobre
este tipo de formulação. vemos mal o que poderia distinguir Freud de toda a corrente
contemporânea que recusa a idéia de que existe uma interpretação válida de qualquer
produção significante.
E os próprios psicanalistas prestam-se seguidamente a uma tal redução de
sua teoria e de sua prática: introduza-se numa reunião em que um deles expõe
a seus colegas um caso clínico e preste atenção à discussão. Com facilidade será
percebido no momento o mais sábio e o mais reservado dos auditores: ele se arrisca
a propor uma interpretação mais completa e mais profunda do material que foi
exposto. utilizando. sem dúvida com discrição, o contexto. a parte das "associações"
que foi relatada pelo conferencista. etc. Mas o mais louco, e nem sempre o mais
jovem, chegará a traduzir de uma só vez e como sobre um livro aberto tal sonho
que só foi contado incidentalmente e sem nenhum comentário. O mais louco pode
ser o próprio conferencista; pois. em seu lugar, não é necessariamente privilegiado
e nada o autoriza a subentender que tal fragmento manifesto é portador de um
sentido inconsciente suficientemente claro para que seus auditores e ele próprio
tenham acesso a ele sem trabalho. (5)

4 - Cf. o início do capítulo da Traumdeutung que fala sobre "o método de interpretação" e situa
a prática psicanalítica em relação aos procedimentos antigos ou populares de interpretação dos sonhos.
(Freud, S. A Interpretação dos sonhos. Obras completas.)
5 - Ninguém entre os analistas resistiu a este gênero de interpretação. e sem dúvida nem o próprio'
Freud. No momento de entusiasmo pela descoberta psicanalítica que nascia no deslumbramento de
ver coincidir as interpretações da cura psicanalítica dos indivíduos com as análises dos mitos e do
folclore. Freud dá consistência e autoridade a uma teoria do "simbolismo" que pretende reencontrar
uma linguagem inconsciente universal. símbolos que não seriam marcados nem pela história do individuo
nem mesmo pelas particularidades desta ou daquela civilização. Nesta interpretação dita "simbólica"

23
O que. então. caracteriza a interpretação psicanalítica? Não é somente a certeza
de que existem nos comportamentos com os quais é confrontada ao menos dois
textos: aquele que o sujeito dá ou se dá na imediaticidade de sua consciência, e
um texto. uma espécie de discurso inconsciente que se chama "fantasia de desejo".
É o método necessário para pàssar de um a outro. Este método, caracterizamo-lo
como análise, mas num sentido ao mesmo tempo hiperbólico e desviante em relação
ao que o espírito cartesiano entende como tal. As Regras do método supunham
uma decomposição em partes naturais e simples. justapostas umas às outras. de
modo que o procedimento da reconstrução. da "síntese", resultava por si mesmo
nos termos de um recorte convenientemente ajustado às linhas de clivagem do
objeto. Na técnica psicanalítica tudo se passa de forma bem diferente. As duas regras
do diálogo. regra das associações livres para o analisado e regra da atenção igualmente
flutuante para o analista. formam um todo metodológico. O essencial da ênfase
porta sobre este preceito de tratar igualmente a todos os elementos do discurso.
Todos os detalhes de um sonho, por exemplo. devem ser tomados, sem que nenhum
seja privilegiado. como ponto de partida possível para uma cadeia associativa. Mas
o próprio termo "elemento" não deve iludir: não há, num sonho, partes extra partes
que mereçam uma delimitação simples, os elementos não são átomos significantes
nem mesmo átomos "distintos" no sentido em que a teoria lingüística pode concebê-lo
para o discurso articulado. O que chamamos elemento do relato é qualquer coisa.
propriamente falando, deste relato, tanto um detalhe como uma cena ou o conjunto
do sonho. Entre a parte e o todo não existe nenhuma relação de subordinação:
a parte pode valer pelo todo. o todo pode valer como um elemento entre outros.
O que Freud chamou deslocamento da intensidade psíquica ou. ainda, inversão de
todos os valores psíquicos no sonho é apenas a justificativa teórica desta regra
de divisão da unidade significante segundo todas as linhas de repartição imagináveis.
segundo as fronteiras aparentemente menos naturais que possam existir. Escandalosa
para o pudor ou o sentido moral. a regra de nada omitir durante uma sessão
e de tratar todo pensamento da mesma maneira é pelo menos tão chocaftte para
o entendimento quanto para o "Ego". Os paradoxos, os paralogismos que provoca.
somente as confirmações e as avaliações da cura nos obrigam a admitir. Assim.
podem fazer parte dos elementos do sonho. e sem que nada lhes confira um valor
privilegiado. a impressão que produziu sobre mim (tristeza? medo?) ou ojulgamento
que acredito ter sobre ele em "segundo grau". Este sonho era "vago" ou. então.
"a partir daqui não lembro mais nada": estas frases podem nos pôr na pista. não
de uma característica do sonho. mas de um "pensamento latente" entre outros:
o de meu amigo X que gosta de usar roupas meio "soltas". ou de um esquecimento
que cometi em estado de vigília. antes do sonho. Inversamente. o pequeno absurdo
de um detalhe apenas perceptível pode marcar. como o faria um "exponente" algébrico.
ele chega mesmo a ver um segundo método paralelo àquele que passa pelo trabalho paciente das
"associações" individuais.
Se refletimos. portanto. o "simbolismo" (tomado neste sentido bem preciso de uma "simbólica") pode
ser reduzido talvez a um só símbolo verdadeiramente universal: o elemento significante mínimo e desta-
cável. o "pequeno ("das Kleine'l. o falo nas suas inúmeras figurações.

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o conjunto da fórmula de um sonho do sinal de negação ou de derisão. Assim
também o relato pode valer pelo conteúdo. o significante pelo significado. e reciproca-
mente. Desse modo, a metãfora encontra seu pleno peso na realidade: a lembrança
desta pessoa. que trago na idéia. é o mesmo oQjeto que coloquei em mim. incorporado.
· · propício ou destrutivo.
Interpretar em psicanálise é. em primeiro lugar. desmantelar e desarticular.
de maneira radical, a organização do "texto" manifesto. E a partir daí seguir. sem
perder pé. as cadeias associativas que formam uma rede aparentemente desordenada
e monstruosa. sem nenhuma proporção nem correspondência com a cadeia da qual
• saiu. E. se um conteúdo latente acaba por se esboçar. nunca é como uma tradução.
no sentido corrente do termo. nem mesmo como uma transformação que, fosse
ela tão complexa. na sua lei, quanto uma anamorfose. ainda assim não faria corres-
- ponder ponto por ponto o texto manifesto e o conteúdo latente.
Interpretar é agarrar-se firmemente às asas do discurso. aceitando não ver
mais longe do que o passo seguinte, animado pela única certeza de que as pegadas
do caçador-caçado acabarão por se desenhar. pela reincidência dos seus numerosos
entrecruzamentos. os nós significantes que marcam uma certa seqüência inconsciente.
(6)
Ese. às vezes. é preciso tentar enunciar esta seqüência num discurso. dificilmente
pode-se ainda considerar como interpretação, tanto que Freud. num artigo tardio, ,
preferiu introduzir o novo termo "construção" a fim de reservar o de interpretação
a este caminho do singular ao singular que consiste no essencial do procedimento·
analftlco. "O termo Interpretação relaciona-se à maneira pela qual nos ocupamos
de um elemento em particular do material. uma idéia que vem subitamente. um
ato falho. etc. Mas pode-se falar de construção quando se apresenta ao analisado
uma parte de sua pré-história esquecida ... " (7)
Construir este procedimento próximo da interpretação. mas já distinto dela.
seria ligar na seqüência da fantasia um certo número de elementos significantes
aos quais está fixado o des~o. Quanto a esta "reconstrução". a esta "síntese", da
qual muitas vezes se queixaram de que ele não a levasse ao paciente abalado pela
análise até em suas razões de existir. Freud constantemente recusou-se a tanto.
Aqui o adversário, Jung e a escola de Zurique. desenvolve num mesmo front um
só e mesmo ataque. Às vezes. mais francamente. reclama do analista que substitua
o que sua interpretação "redutora" destruiu. propondo ao neurótico novos ideais
de natureza "ética" e religiosa (edificar: piedosa reconstrução ...). Às vezes. mais
insidiosamente. apresenta sua exortação religiosa como interpretação. senão como
a única verdadeira interpretação. É a via dita "anagógica" que pretende transformar
a interpretação freudiana restituindo-lhe seu "verdadeiro" sentido. reatando ao mes-
mo tempo com a tradição teológica que pretende elevar-se do sentido literal dos
textos sagrados ao seu sentido "espiritual". São as estruturas fantasmáticas desco-
bertas pela análise freudiana que se tornam elas mesmas "símbolos" a serem decifra-
6 - Cf. Laplanche e Lecalire: Tinconscient, une etude psychanalytique" (Les Temps Modernes, julho
1961) e, principalmente, a análise de S. Leclaire do "sonho da licórnia".
7 - Construções na análise. Obras completas de Freud.

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dos: "O complexo de Édipo tem apenas um valor simbólico. a mãe significa o inacessível
ao qual se deve renunciar no interesse do progresso cultural. o pai que é morto
no mito de Édipo é o pa1 'interior' do qual deve se libertar para se tornar independente".
(8) Inútil enfatizar que esta pretensa transformação da perspectiva freudiana degrada
o método psicanalítico naquilo que tinha de propriamente revolucionário e científico,
para voltar ao deciframento místico do "Tratado das Assinaturas". Sem querer discutir
a eficácia (para quem e para quê?) da terapêutica jungiana. constatemos que a
interpretação sobre a qual pretende se fundar consiste apenas finalmente em captar
o desejo do sujeito, retomar seu discurso num outro discurso. o do médico da
alma.

2. INTERPRETAR FREUD?

Ler - interpretar. Entre estes dois termos se situa um debate teórico sobre
o que se chama. na imprensa. o "retorno a Freud". termos estes sujeitos, eles
mesmos, à interpretação ... Pois aquele que se diz Leitor de Freud enobrece esta
qualificação com uma maiúscula que deve consagrar sua leitura como Única e Profética.
E o outro que quer afirmar a possibilidade de manter separados o tempo da leitura
de Freud e o da interpretação. deixa de lado, na sua própria metodologia, o que
podemos aprender em Freud de uma e de outra. (9)
Lá onde o sapato aperta, na verdade, não é no que concerne ao direito do
não-analista de ler Freud, expô-lo ou interpretá-lo; (1O) é quando se trata de apreciar
o que se chama leitura e o que se chama interpretação. Leitura? M. Tort formulou
a objeção decisiva: toda leitura de um grande autor não é necessariamente interpre-
tação: "O problema verdadeiro da 'leitura' não é, absolutamente. expulsar toda inter-
pretação, mas construir uma que sElia rigorosa com o texto". E de mostrar que
uma leitura que se pretende apenas leitura, exposição fiel visando, pedagogic_amente.
a substituir-se ao próprio texto. seria. ainda, uma interpretação, mas por falha.
Vamos trazer a este debate duas peças tiradas de Freud. do que ele faz e do que
ele diz.
Do que ele faz. pois lhe acontece de ser ele próprio... leitor de Freud. e de
expor sinteticamente seu pensamento, sllia sob a forma de uma apresentação dogmá-
tica. seja numa história da evolução de suas idéias. Por mais apaixonantes. sob
vários aspectos. que possam ser tais textos. carregam certamente sua parte de
responsabilidade na degradação e no empobrecimento da sua doutrina. no desconhe-
cimento e na distorção de sua verdadeira história. No entanto. Freud não é destes
8 - Freud. S. Contribuição à história do movimento psicanalítico. Obras completas.
9 - CF. P. Ricoeur: "De l'interprétation. essai sur Freud. In: M. Tort: "De l'interprétation ou la machine
herméneutique". Les Temps Modemes. n~ 237·8 (fev. - mar. 1966) e P. Ricoeur: "Une interprétation
philosophique de Freud". La NEF. n~ 31 Uul.-out. 1967).
1O - Será preciso que a intimidação por certos "analistas". a chantagem da experiência incomunicável.
do "terreno" e da caça eXClusiva da cura tenham se mantido firmes para que o filósofo, esquecendo
seu procedimento soberano (homo sum.•. ), deva antes se encorajar para encarar lembrando-se que,
finalmente. "é Freud que veio para o nosso terreno". (E ele se fez homem e habitou entre nós... )

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autores que vivem da exploração de uma obra passada. O cuidado que dispensa
ao escrever seu Esboço da psicanálise é testemunho disto. até os derradeiros anos
de sua vida. Mas é, sem dúvida. por natureza que o desenvolvimento sistemático
e sintético que procura ser um reflexo fiel da obra. e apenas isto. abre o campo
a mecanismos intelectuais situados em um outro nível, mais "superficial". que os
que entram em jogo na descoberta e exposição de primeiro impulso.
O conceito de "elaboração secundária". fadado por Freud a propósito do sonho.
é imediatamente utilizável em muitos outros campos. Este "levar na consideração
a inteligibilidade" tem por finalidade tornar aceitável aos olhos das exigências morais.
lógicas e até mesmo estéticas do pensamento vigil um conteúdo onde se exprime
ainda. mesmo já de maneira deformada, algo da vivacidade e da incoercibilidade
do desejo inconsciente. Agindo. de forma exemplar. no sonho. onde monta e impõe
- como "acolado" - o argumento. ela pode ser reencontrada de maneira mais
ou menos marcante em toda produção consciente. "Uma função intelectual nos é
inerente. a qual exige. de todos os materiais que se apresentam à nossa percepção
ou ao nosso pensamento. unificação. coerência e inteligibilidade; e não teme estabelecer
relações inexatas quando. como resultado de certas circunstâncias. torna-se incapaz
de perceber as relações corretas. Conhecemos certos sistemas que caracterizam
não somente o sonho. mas também as fobias. o pensamento obsessivo e as diferentes
formas do delírio. Nas doenças delirantes (a paranóia). o sistema é a coisa mais
clara. domina o quadro mórbido. mas também não deve ser negligenciado nos outros
casos de psiconeurose. Em todos os casos. pode-se demonstrar que foi efetuado
um remant;Jo do material psíquico em função de um novo fim. remanejo que com
freqüência é fundamentalmente forçado. ainda que compreensível se nos colocamos
no ponto de vista do sistema". (11)
Ler. e expor Freud. segundo P. Ricoeur. seria dar uma "reconstituição arquite-
tônica da obra", "produzir... um homólogo. isto é. no sentido próprio da palavra.
um objeto substituto apresentando o mesmo arranjo que a obra". (12) Mas se
os efeitos mais diretos da elaboração secundária observam-se no que uma obra
comporta de mais manifesto. na preocupação de inteligibilidade senão de senso comum.
na disposição e na estrutura arquitetônica. como uma "pura" leitura de Freud. supon-
do-se que tal fosse possível. poderia fazer outra coisa além de reforçar os efeitos
de filtro. de censura e de colmatagem, efeitos "egóicos", até mesmo "superegóicos",
já iniciados na inevitável leitura de Freud por Freud?
Da "leitura" à "interpretação" passamos. com P. Ricoeur. de um extremo ao
outro: da pura e impossível objetividade a esta "retomada em um outro discurso"
para o qual o autor reivindica. senão os direitos da suQjetividade individual. ao menos
os de uma espécie de subjetividade filosófica: "Absolutamente não digo que uma
só filosofia sllia capaz de fornecer a estrutura de acolhimento onde a relação da
força e do sentido possa ser explicitada: creio que se pode dizer a leitura de Freud;
só se pode dizer uma interpretação filosófica de Freud. A que proponho vincula-se
(

11. Freud. S. 1912. Totem e tabu. Obras completas.


12. La NEF. n~ 31 Uul.- out. 1967). p. 112.

27
à filosofia reflexiva". (13) A franqueza com a qual P. Ricoeur define sua interpretação
como extrínseca. como apropriação de um pensamento. ou ainda como "retomada
reflexiva", não deveria. no entanto. dispensá-lo de responder a esta pergunta: o
que se torna. nesta concepção da interpretação. a descobertil freudiana da interpre-
tação? Pois o que Freud chamou Deutung. aquilo através do que pretendeu trazer
um método original. fundado e confirmado por uma experiência conduzida paciente
e rigorosamente. para dizer tudo: um método científico. ou é preciso que se trate
apenas. no fundo. de uma nova manifestação da eterna hermenêutica. ou. então,
conviria que nos explicassem por que nada deste método freudiano pode ser. senão
diretamente utilizável. ao menos transponível quando se deseja ser intérprete de
Freud. E não bastaria que nos objetassem com a confusão de áreas ou de níveis:
interpretação do sujeito humano. por um lado - interpretação do pensamento
freudiano por outro. Pois se entendemos bem P. Ricoeur. é a mesma espécie de
"teleologia" que implica o sujeito e o freudismo "numa seqüência de figuras onde
cada uma encontra seu sentido nas seguintes". ( 14)
A menos que se obtenha esta resposta. será preciso concluir: o ponto a que
chega P. Ricoeur com seu próprio método de interpretação é precisamente o que
Freud sempre recusou. contra o qual lutou através do desvio jungiano: a velha
hermenêutica de inspiração religiosa. o "acolhimento" do sujeito no seio de uma
"teleologia" que lhe é apresentada como a forma mais alta e mais verdadeira de
seus conflitos. Com a Escola de Zurique. o "anagógico" se encontrava diante do
dile~a: assumir sua natureza de doutrinação piedosa ou se apresentar sob a máscara
de interpretação psicanalítica. Para P. Ricoeur. a hermenêutica se declara abertamente
como retomada de um discurso na alteridade contingente de um outro discurso
(uma interpretação) sem nada reter nem do que visava o procedimento freudiano
("os desejos inconscientes levados à sua última e mais verdadeira expressão"), (15)
nem os meios rigorosos que ela entendia se dar para chegar a isto. (16)

3. INTERPRETAR (COM) FREUD

Se chamamos "psicanalítica" e "interpretativa" nossa abordagem do texto freu-


diano não é no mesmo sentido em que o concebe um Ernest Jones na sua biografia
13 -C f. NEF. p. 119. Há termos que marcam uma safra. Em 1967 fala-se de "estrutura de acolhime~to"
para os futuros órfãos da U.N.R. Mas Freud não construiu "duro" para que se acredite necessano
propor um (ou vários) centros de alojamento pré-fabricados para alguns mfellzes freudianos errantes
e perplexos?
14- Cf. NEF. p. 124.
15. Freud. S. A interpretação dos sonhos. Cit.
16. Para esclarecer a "dialética teleológica" que permitiria uma "retomada" do freudismo. a referência
a Hegel está longe de ser univoca. As melhores e as mais convincentes das análises hegelianas são
aquelas onde a nova "figura T, a interpretação, se impõe num convívio apaixonado. atento e obstinado
em contato com a literalidade da "figura" precedente. Por este aspecto "terra a terra" do trabalho
de "leitura". Hegel de alguma forrna prefigura a interpretação "redutora" de Freud.

28
de Freud, inspirando-se - é preciso que se reconheça - em indicações dadas
pelo próprio Freud. O esquema que Freud propõe, às vezes, para um estudo psicana-
lítico do pensamento. uma psicografia de artistas. filósofos. etc.. (17) não poderia
ser considerado como a última palavra da psicanálise sobre esta questão. Tomado
entre a redução do pensamento a condições puramente subjetivas resultantes da
contingência de uma história individual. e a crítica simplesmente racional deste pensa-
mento. Freud somente encontra um hábil compromisso: a psicanálise. nos diz ele.
aponta os pontos fracos de tal teoria, mas é à crítica racional. à crítica interna.
que cabe demonstrar estas fraquezas descobertas por uma outra disciplina.
Aplicado aos filósofos. aplicados por Jones ao próprio Freud. este método aparen-
temente esquece um dos pontos essenciais da descoberta freudiana: a neurose no
seu sintoma. e com mais razão ainda o pensador. até em certos desvios de seu
raciocínio, deve ter. de alguma forma. razão. Uma psicografia psicanalítica que levasse
constantemente a sério esta máxima não poderia chegar ao puramente contingente.
ao aberrante. mas. sim. a um des~o cujas figuras e razões desenham um fragmento
de uma combinatória mais geral. (18)
Resta. entretanto. que uma psicanálise do pensador e de sua obra se baterá
sempre contra a objeção de princípio: encontramo-nos fora da cura. condição maior
de aplicação do método. E. mesmo se q•Jeremos esquecer este detalhe (como o
fez Freud para o presidente Schreber. por exemplo). é preciso confessar que, no
caso de Freud, os elementos biográficos dos quais dispomos são incrivelmente incom-
pletos. escandalosamente cortados e censurados (em primeiro lugar pelo próprio
autor).
O peso destas objeções é considerável. mas só pesa plenamente sobre o projeto
de uma psicografia psicanalítica de Freud. O projeto do qual esboçamos aqui certas
condições de possibilidade é diferente: transpor. mutatis mutandis. o metodo freudiano
de análise do indivíduo e do seu desejo às exigências de um pensamento. ou seja.
ao que. no plano da discursividade. se aparenta mais de perto a este desejo. Assim
como demos apenas indicações fragmentárias quanto ao método de interpretação
psicanalítica na cura. da mesma forma aqui só podemos nos limitar a alguns pontos
do método:
Conduzido no gabinete do psicanalista. o desmantelamento do pensamento e
da expressão, o fato de colocar sobre um mesmo plano o "insignificante" e a declaração
de princípios continuamente reafirmada. da parte e do todo, etc.. constitui uma
regra metodológica salutar pelo fato de tomar pelo avesso as elaborações secundárias
eas camuflagens da compreensão. permitindo que se revelem outras redes de significa-
ções. Esta regra. que poderíamos ainda chamar princípio da análise igualitária. conduz
a um respeito renovado da literalidade. Sem que a literalidade do raciocínio seja
evidentemente negligenciável. deve ser confrontada à - e contrabalançada por -
literalidade da noção. Um trabalho produzido com J.B. Pontalis ( 19) permitiu-nos

17. Freud. S. 1911. O interesse da psicanálise. Obras completas.


18. Cf. O que tentamos em nosso trabalho sobre Hõlderlin et la question du pére. Paris. PUF. 1961.
19. Laplanche. J. e Pontalis. J.B. Vocabulário da psicanálise.

29
constatar o quanto o desmembramento de um pensamento. longe de conduzir a
um canteiro de obras disforme. permitia colocar em evidência o rigor da conduta
freudiana no que concerne à criação e à utilização dos conceitos.
Palmilllar a obra em todos os sentidos. sem nada omitir e sem nada privilegiar
a priori. é, talvez. para nós. o equivalente da regra fundamental na cura. Uma vez
esta enunciada e aplicada. numerosos mecanismos ou procedimentos do inconsciente.
descobertos na interpretação psicanalítica da neurose ou do sonho. podem ser reencon-
trados a nível da obra.
A absurdidade de um detalhe. como vimos. pode marcar o conjunto de um
sonho do símbolo da negação. Na história do pensamento freudiano este procedimento
do inconsciente se encontra em mais de uma ocasião. Assim. quando Freud introduz.
em 1895. os conceitos de energia ligada e de energia livre que vão se tornar funda-
mentais para a doutrina. pretende estar apenas adotando a oposição introduzida
por Breuer entre duas espécies de energia cerebral: energia tônica ou quiescente
e energia cinética. Ora. três pontos chamam a atenção: 1~) Freud acha útil empregar
outros termos diferentes dos de Breuer. 2~) Os termos que ele utiliza são na verdade
tomados à física de Helmoltz. onde têm um uso bem preciso. com o qual Freud
e o próprio Breu er estão familiarizados. 3~) O uso freudiano destes termos é aberrante
e mesmo absurdo em relação ao uso de Helmoltz. uma vez que a energia livre
de Freud corresponde. a grosso modo. à energia ligada de Helmoltz. e vice-versa.
Para nós. aí está o sinal de que há um deslocamento a ser reconhecido, uma inversão
a ser corrigida: o que Freud entende marcar assim inconscientemente do sinal da
crítica é a teoria de Breuer com a qual. explicitamente. ele pretenderá constantemente
estar de acordo.
Do esquecimento. no sentido de recalcamento, encontramos um exemplo massivo
com a teoria freudiana da gênese da sexualidade ou da pulsão, pois que Freud,
após ter descrito de n1aneira tão pertinente nos Três ensaios sobre a sexualidade
o nascimento da sexualidade a partir de toda atividade do indivíduo humano (nasci-
mento pontuado pelos termos: auto-erotismo, apoio, perversidade polimo ri'&.- etc.).
com a sua teoria do "ld" acaba por recolocar aparentemente a pulsão na ordem
da natureza e do biológico. O psicanalista. diante de um esquecimento tão massivo.
e que vai se perpetuar nos sucessores de Freud. não pode deixar de interpretar.
Este esquecimento. para ele. é apenas o rebento. a encarnação intelectual de um
recalcamento fundamental: aquele pelo qual a pulsão. renegando suas origens infantis
e intersubjetivas, acaba por se apresentar ao sujeito como uma natureza. que conduz.
após desvios complexos e aleatórios. a uma regulação quase instintual da atividade
sexual do indivíduo.
Equivalências ou permutações do significante e do significado, do oQjeto e da
expressão. aparente confusão do plano da realidade e da causalidade com o plano
da metáfora. tudo isto deve ser corrigido. analisado. interpretado. Assim. se nos
dizem que o "Ego não é somente uma superfície. mas a projeção de uma superfície".
não adianta nada denunciar a enorme confusão entre o modelo espacial do aparelho
psíquico na superfície do qual se situaria o Ego. e o processo real de projeção

30
(no sentido ao mesmo tempo geométrico e neurológico) que viria somar-se a este
modelo por uma ingenuidade demasiado evidente do raciocínio. É preciso chegar
a entender que existem relações complexas. redes serradas entre as metáforas cons-
cientemente expostas por Freud, metáforas inconscientes que a interpretação de
seu pensamento permite reencontrar. e estas espécies de metáforas realizadas (as
identificações. por exemplo) que a psicanálise descobre como constitutivas do ser
humano.
Vemos como um tal tipo de interpretação deveria se situar à distância do
manifesto, a que ponto desconfiaria de tudo que é. na doutrina. remam;jamento
"egóico". Equivaleria a dizer que este uso metódico e crítico de uma desmontagem
dos significantes da obra implica a r~eição definitiva de qualquer perspectiva: perspec-
tiva histórica ou perspectiva arquitetônica? Perdoar-nos-ão por apenas invocarmos
aqui este problema complexo.
Em uma abordagem interpretativa inspirada pela descoberta freudiana. talvez
a noção de história (história de um pensamento) devesse ser retomada em um
outro nível: o de uma "histórica" (no sentido em que. do problema. se passa à
"problemática"). Longe de ser mais simples que a história. longe de ser o geometral
que poderia explicar idealmente da passagem de um "estado de sistema" a um
outro "estado de sistema". (20) esta "histórica" seria mais complexa. desenrolando-se
segundo vários níveis. Mas para colocar seus princípios conviria primeiro examinar
as múltiplas funções da contradição e situar no seu papel e na sua significação
maior a instância repetitiva do desejo.
A arquitetônica? Este termo implica demais a idéia de sistema. de bela ordenação,
de harmonia. para que o analista não o considere com uma certa desconfiança.
Ele prefere freqüentemente o termo "estrutura" do qual, para além dos modismos.
Jean Pouillon deu recentemente uma tentativa de definição particularmente convin-
cente. (21) Para esta definição. a psicanálise freudiana contribui com um detalhe
bem particular. ligado ao seu método: a estrutura não poderia ser assimilada à
forma ou ao sistema. na medida em que estes implicam. especificamente. um equilíbrio
entre as partes cujos pesos comparativos podem ser avaliados em função da impor-
tância quase volumétrica que tomam no cor]junto. Um dos resultados da interpretação
freudiana. como vimos. é de desvalorizar as considerações de ordem. de substituição
da parte pelo todo, etc.. mostrando, por exemplo. como um detalhe ínfimo do sistema
manifesto pode constituir. a nível do inconsciente. o eixo que faz contrapeso a massas
"energéticas" consideráveis. A estrutura para Freud (isto é, ao mesmo tempo na
sua obra e no seu objeto) é um equilíbrio binário ou ternário entre os elementos.
os quais. no decorrer da história. podem se encontrar inteiramente deslocados. inves-
tidos de uma função completamente diferente, conservando. ao mesmo tempo. o
mesmo nome e. aparentemente. a mesma natureza na obra manifesta.
Para dar apenas um exemplo. é impossível encontrar. além das formulações
às vezes inábeis de Freud. o significado do princípio de prazer sem levar em conta
20. Cf. P. Ricoeur. A NEF. p. 115.
21. Les Temps Madernes, n~ 246. nov. 1966.

31
os transtornos estruturais. as mudanças de investimento quase caleidoscópicas que
conduzem a este aparente paradoxo: o princípio de prazer. situado no início da
?bra f!eudiana do lado da pulsão sexual é. num determinado momento. anexado
a pulsao de morte.. para. finalmente. se encontrar como princípio regulador de Eros.
esta força construt1va e geradora de síntese. bem diferente. no fim da obra freudiana
do que era descrito em 1905 como sexualidade. •
Uma história estrutural do pensamento de Freud é talvez possível sob a condição
de levar plenamente em conta. no seu próprio método. o pensamento freudiano.
Impõe-se como pré-requisito um longo contato junto a uma obra e aos seus impasses
e ace1tar plenam:nte o !empo de uma análise "redutora". Podemos censurá-la por
chegar a Uf!la v1sao relativamente fixa na medida em que acaba por mostrar. através
das mutaçoes da teoria. uma permanência de exigência. a permanência de uma
descoberta que deve. amda. talvez. encontrar sua forma científica adequada?

32
O ESTRUTURALISMO
DIANTE DA PSICANÁLISE

Para o Seminário* em que apresentei este texto foi proposta a discussão de


um certo número de temas. a seguir. sem procurar ordená-los de maneira sistemática.
Eventualmente farei referência a alguns artigos meus, já publicados na revista Psycha-
na/yse à J'Université.
1? Já faz mais de 20 anos que a "onda" do estruturalismo varreu a Europa.
Nascida da lingüística. depois da etnologia. arrastou a psicanálise. Atualmente está
refluindo. É tempo de fazer um inventário, positivo e negativo. colocando-se do
ponto de vista da psicanálise e da sua especificidade.
2? A psicanálise estruturalista lacaniana parece ter sido sinônimo. nos Estados
Unidos, de psicanálise francesa. O "French Freud"** é um Freud unicamente estrutu-
ralista?
O responsável por este Seminário. se faz parte do "French Freud". não se
deixa absolutamente englobar no estruturalismo no sentido que Lacan o definiu.
ou seja. "os efeitos que a combinatória pura e simples do significante determina
na realidade em que ela se produz". (1)
3? O termo "estrutural" é utilizado classicamente em inglês psicanalítico para
designar a parte da metapsicologia que se ocupa da tópica do aparelho psíquico.
(2) Já foi dito mais de uma vez que uma tal concepção não tinha nada a ver
com o estruturalismo. Esta ambigüidade permite abrir uma questão fundamental:

• Texto baseado em Seminário ocorrido na Universidade da Califórnia. Berkeley.


•• "Freud francês", em inglês no original. (N. do T.)
1. J.acan. J. "Resposta ao Relatório de D. J.agache". In: Écrits
2. Cf. Hartmann. Kris e Lõwenstein. por exemplo.

33
uma tópica estruturalista, até mesmo topológica, matemática. no sentido que queriam
os lacanianos, é possível e conforme com o seu objeto?
Os toros. as fitas de Moebius. os nós boromeanos, etc. propõem figuras racionais
do objeto da psicanálise... Racionais demais, talvez. se é verdade que testemunham
um desprezo pelo que há de antropomórfico em toda figuração imaginária do aparelho
psíquico.
Minha proposição seria a seguinte: toda tópica é uma tópica que parte do
Ego. E. como tal. é necessariamente imaginária. tão necesariamente quanto o Ego
e o aparelho psíquico se constituem de forma imaginária.
As figurações da tópica, derivados metáforo-metonímicos das realidades corpo-
rais e da ordem vital. são necessariamente imperfeitas. contraditórias. Não se pode
"contornar" o Ego. e não basta denunciar suas ilusões para ultrapassa:lo ou aboli-lo.
(3)
4? Em Freud, numerosos aspectos se prestaram à interpretação e mesmo à
anexação estruturalista. Cito:
a) A noção de fantasia originária, precedendo a maneira como cada um de
nós "interpreta" à sua maneira. como um músico, uma partitura preestabelecida.
O conflito seria apenas a maneira como um indivíduo consegue se acomodar
com "a estrutura". (4)
b) Apredominância e a universalidade do Édipo. Esta predominância é interpre-
tada por Freud como o resíduo filogenético da experiência da horda. Conhecem-se
as objeções a esta teoria:
- objeções históricas:
- objeções metodológicas: esta teoria pressupõe o Édipo que ela des~a funda-
mentar:
- objeções psicofisiológicas: a hereditariedade de experiências vividas é mais
do que controversa. Com mais razão ainda a de uma experiência única.
Se quisermos "ultrapassar" esta interpretação de Freud e conservar a proemi-
nência do Édipo, seremos tentados a ver aí uma necessidade estrutural, até mesmo
matemática: o "dois". a relação dual, representaria o risco de in diferenciação perpe-
tuada entre mãe e filho: o terceiro termo, o pai, introduziria separação, ordem,
lógica; em resumo, a lei. Está tanto melhor colocado para isto justamente por estar
ausente: pater semper incertus. o pai morto, etc. (5) (
c) A estrutura edipiana se transmite como estrutura. de uma geração à outra?
É o que se pergunta. por exemplo, R. Girard: "Como reproduzir um triângulo"?
Eis aí uma leitura precipitada de Freud. Do triângulo parenta! ao Édipo da criança,
nenhuma correspondência estrutural. nenhuma "transformação matemática" racional.
O Édipo não se reproduz a si mesmo. Assim. a identificação da criança com o
3 - Laplanche, J.: "Faire Dériver la Sublimation". Psychanalyse à Université. t.2. n~ 7 e 8.
4 - Laplanche. J. e Pontalis. J.-8. "Fantasia Originária". In: Vocabulário da psicanálise. Cf. também
a artigo "Fantasme Originaire, Fantasmes des Origines. Origine du Fantasme". em colaboração com
J.-8. Pontalis, Les Temps Mademes. abril 1964. n? 215. pp. 1133-1168.
5 - Laplanche, J. e Pontalis. J. - 8. "Complexo de Édipo". In: Vocabulário d<rpsicanálise.
genitor do mesmo sexo não consiste em "colocar-se na mesma posição": Freud
é muito cético em relação à "identificação com o rival". Identificação é sempre
identificação com o objeto de amor. Um Édipo que fosse só direto, "normal". daria
uma identificação com o objeto: do filho à mãe. Para que o Édipo chegue a uma
heterossexualidade é preciso que a constelação edipiana ~a também invertida, quer
dizer, homossexual!... (6)
d) A noção de castração e sua predominância crescente na obra de Freud:
(7)
De teoria sexual infantil (a do pequeno Hans). a teoria da castração progressi-
vamente tornou-se "teoria de Hans e Sigmund" (como se diz da "lei de Weber
e Fechner"). Torna-se mesmo uma realidade, uma vez que seria uma "negação
da realidade da castração" que daria origem à perversão. Inversamente. todo sujeito,
especialmente em análise. seria incitado a "assumir sua castração". A castração,
fantasia classificatória da "fase fálica" (todo humano ou é fálico ou castrado). torna-se
o fundamento de uma "lógica fálica" funcionando segundo o princípio binário. Isto,
seja sob a forma freudiana simplificada (ter ou não ter) seja sob sua forma Iacaniana
mais sofisticada "ela é sem o ter". "ele não é sem o ter". Esta formulação é considerada
por Safouan e pelos lacanianos como normativa: é preciso passar por isto para
ser "normal".
e) Mais geralmente. uma certa tendência classificatória, com freqüência binária,
do freudismo, pode ser considerada como pré-figurante do estruturalismo: Ego e
ld. dualismo pulsional. classificação nosográfica, etc. Mas não pensamos assim, na
medida em que se trata sempre de quadros com várias entradas, e sobretudo onde
o sentido das formas de passagem. até mesmo da dialética, são conservados.
Entre estes tipos ideais e a realidade. as "séries complementares" acomodam
transições sutis e. sobretudo, sínteses imprevisíveis. Por outro lado, a psicanálise
estruturalista se compraz em um binarismojurídico. totalitário e sem sutilezas. sempre
marcado pela normatividade:
o normal e o neurótico.
o neurótico e o psicótico.
o neurótico e o perverso,
o simbólico e o imaginário,
o pênis e o falo,
a análise do significante e a análise do significado,
a análise e a psicologia,
etc, etc.
5.' Para me deter em dois exemplos precisos. tentei mostrar como um verdadeiro
processo de simbolização - na vida social, na vida individual ou na cura - era
mais rico. mais ambíguo e mais contraditório que a assunção unívoca de uma posição
normativa em relação "à Lei" e "à Castração": (8)
6 - Laplanche. J. Problemáticas 1: A angústia (3~ parte: angústia moral). Paris. PUF. 1979.
7 - Laplanche. J. "Simbolizações". In: Psychanalyse à /'Université. t.l. n~ 1 e 2. Cf. n? 1. pp. 15-28.
8 - Ibidem.

35
Assim para os ritos de passagem. e principalmente a circuncisão. A fecundidade
de uma circuncisão verdadeiramente simbolizante é de englobar nela, de retomar.
significações múltiplas e de fazer todo o espaço à bissexualidade. (9)
Da mesma forma. o sintoma fóbico que pode ser com freqüência considerado
como uma etapa positiva, simbolizante, principalmente na criança. O trabalho de
Freud na cura do pequeno Hans foi de aprofundar e alargar o seu sintoma. não
de reduzi-lo ao significado unívoco do medo de castração. (1O)
6~ Mais de uma vez tive ocasião de me expressar sobre a questão da linguagem,
e especialmente sobre a fórmula de Lacan: "O inconsciente é estruturado como
uma linguagem". Minha distância em relação a esta fórmula. distância que sempre
foi nitidamente marcada, (11) acentuou-se ainda mais:
a) O que quer que digam, a linguagem não é tão estruturada como se pretende.
Não é o modelo de uma estrutura alogorítmica e binária perfeita. (12)
b) O inconsciente não é feito de palavras. mas de traços de coisas, sendo que
as próprias palavras aí são coisas. (13)
c) O funcionamento inconsciente, sob seu aspecto mais radical, é o próprio
oposto da estrutura:
- ausência de negação.
- coexistência de contrários.
- ausência de julgamento,
- nenhuma "retenção", ou fixação de investimentos.
d) Que o inconsciente seja, num sentido lato. um fenômeno de significação.
é evidente, mas é uma espécie de linguagem que perdeu ao mesmo tempo sua
intenção de comunicação e sua intencionalidade referencial.
O trabalho analítico seria precisamente de lhe restituir estas duas dimensões.
(14)
e) O modelo do recalcamento, que anteriormente propus em "O Inconsciente.
um Estudo Psicanalítico" (15). continua me parecendo válido, sob condição de inte-
ressar sobretudo. não à sua seqüência matemática, mas às distorções reais que
sofre nas diferentes conjunturas. isto é, naquilo em que escapa à matemática:
- derivação pura
- simbolização
- recalcamento (16). \..
f) Finalmente. minha fórmula sobre o inconsciente seria antes: "O inconsciente
é um como-uma-linguagem, mas não estruturado".
9 - Ibidem. a propósito da circuncisão (L 1. n~ 2. a partir da p. 221 ).
1O - Ibidem a propósito da fobia.
11 - Laplanche. J. e Leclaire. S. T lnconscient: une Étude Psychanalytique". L'lnconscient. Colloque
de Bonneval. Paris. Desclée de Brouwer. 1966.
12 - laplanche. J. "La Référence à l'lnconsdent". Psychanalyse à /'Université. L 3. n~ 11 e 12.
13 - Ibidem. n~ 11. •
14 - Ibidem. n~ 12, pp. 602·603.
15 - Laplanche. J. e Leclaire. S. Tlnconscient: Étude Psychanalytique" Cit.
16 - Laplanche. J.: "La Référence à L' lnconscient", Cit.

36
7~ A irrupção, a intrusão do estruturalismo logicista na teoria do inconsciente
pode se esclarecer usando os termos "digital" e "analógico": que se pense. por
exemplo. nos dois tipos de mostradores de relógio definidos assim. O nível analógico
do inconsciente é o nível do Ego e dos objetos mais ou menos totais. possuindo
uma forma. É o que alguns desvalorizam sob o termo imaginário. O nível mais
profundo do inconsciente ("pulsão de morte") é muito mais desarticulado. feito
de elementos separados. de fragmentos de cenas, em resumo. por assim dizer.
de pedaços di~untos. Esta descontinuidade do inconsciente pode dar origem à infe-
rência de que ele funcionava como uma máquina binária. Mas a descontinuidade
do inconsciente. que não conhece a negação e deixa subsistir lado a lado todos
os elementos mnésicos, nada tem a ver com a lógica binária, a dos "bits" (no
sentido de "binary digits"*).
8~ Isto quer dizer que toda tentativa de falar do inconsciente em geral. fora
de um asssunto concreto (inconsciente de um texto. inconsciente de uma obra, de
uma língua. etc.), me parece ser das mais criticáveis:
- retorno ao incosciente coletivo de Jung;
- esquecimento do que há de revolucionário no método analítico de inter-
pretação;
- indulgência para com as divagações individuais pseudopoéticas. trocadilhos,
delírios. arbitrariedade pura da interpretação. O trocadilho do analista, se não se
fundamenta no método, "só se autoriza de si mesmo". isto é. do inconsciente de
seu autor.
9'! Existirá um pensamento não-binário? Pode-se "pensar o Impensável"? g___
o que Hegel nos perguntava. ou antes, nos impelia a empreender.

• Em ingles no original: dígitos binários. (N. do T.)

37
UMA METAPSICOLOGIA
À PROVA DA ANGÚSTIA*

Pôr à prova: esta expressão mereceria ser examinada sob vários aspectos. Antes
de tudo, é pôr à prova o fato de querer explicar uma seqüência de pensamentos
que se desenvolve há muitos anos, limitando-me. ao mesmo tempo, a aprofundar
apenas um número bem restrito de problemas. Um movimento de espiral: é assim
que imagino, às vezes, esta progressão: a espiral repassa regularmente, ciclicamente.
na vertical dos mesmos pontos. Uma espiral achatada sobre um só plano volta
a ser um círculo, círculo puramente repetitivo. Nenhum pensamento escapa à repetição
porque nenhum pensamento escapa ao que chamo sua ··exigência··. e que é apenas
a projeção. a nível intelectual. do nosso desejo. Um pensamento fecundo seria aquele
que poderia. ao menos por momentos. descolar do plano do círculo. transformar
seu movimento circular em aprofundamento. \
E uma vez que quis me apresentar rapidamente antes de abordar este assunto.
reivindico também que minha produção. no campo da análise. está entre aquelas
que geralmente se chamam "teóricas". A oposição entre teoria e clínica sempre
me pareceu particularmente vã. sobretudo quando a clínica é invocada para recusar
todo aprofundamento conceitual. Mais do que clínica, prefiro falar de experiência.
da qual a dita clínica é apenas um fragmento artificialmente separado, uma espécie
de artefato ... basta ver como o "pequeno fato" clínico. abstraído do seu contexto.
é invocado em certos textos analíticos pela "veracidade". quando se pode ver que
está inteiramente recortado e infiltrado por pressupostos teóricos não formulados.
Experiência: é evidentemente a experiência das curas analíticas.'mas que nos
remete diretamente à nossa experiência pessoal na cura. É também. da mesma

• Texto baseado em conferéncía proferida na Universidade da Califórnia. Berketey.

38
forma. o que chamo a experiência teórica, e em primeiro lugar para nós. a de
Freud e do nosso contato com o pensamento freudiano.
O pensamento de Freud é seguramente o próprio modelo dà ~i@_Lf:! ..cJa__e)(pe-
riênclã:õ pensa!Jlf:!l)tQ_êjª_~J(periencia. e nao o pensamento da "exp!!_!'imentação".
Mencionarei aqui de passagem Ümá-pesqwsa reaHZãaa,-num dõSi'iieus seminários
sobre a metodologia da prova. e sobre a retórica. a arte de convencer. nos textos
analíticos. Pois bem. para um lógico neopositivista, certamente que decepção: mesmo
em Freud: o _que quer se provar jamais é provado: o progresso, a descoberta. está
sempre alhures. às vezes escondido hUm çánth1hp do texto. Os argumentos testemu-
nham o contrário ... e freqüentemente a lógica utilizada é a famosa lógica do caldeirão.
Tenham a curiosidade, por exemplo, de procurar como é provada, na Interpretação
dos sonhos, a tese da realização do desejo. Exemplos inadequados. raciocínios inade-
quados. recurso às pseudo-evidências do conteúdo manifesto... sem contar o que
foi acrescentado em contradição. nas sucessivas reedições da obra ... e, Jast but not
Jeast*, o blackout com que Freud encobre a análise dos seus próprios sonhos quando
ele atinge, precisamente, o des~o sexual. E. no entanto, isto funciona: a exigência.
a pulsão. diria. é mais forte do que todos estes artifícios. A Wunscherfüllung••
sai vitoriosa.
Minha experiência pessoal? É. portanto, a da teoria: mais precisamente. a da
minha exigência interna tal como se reflete na teoria. Mas como agir com a teoria.
se se pretende buscar aí outra coisa além de encadeamentos lógicos impecáveis?
É aí que entra o termo "pôr à prova". Pôr a teoria à prova não é procurar "aplicá-la".
Aplicar uma teoria (ou uma interpretação) nunca é mais do que uma forma de
"aderi-la" artificialmente aos fatos. Nãol Pôr uma teoria à prova não é assim tão
neutro. tão científico. tão desencarnado assim. É, muito pelo contrário, maltratá-la.
fazê-la ranger. fazê-la agüentar as cargas mais insuportáveis: não para destruí-la.
simplesmente: mostrar sua vaidade e suas contradições: mas para. de algum jeito.
fazê-la "entregar a alma".
Agora. depois desta digressão. chego ao meu propósito. Pois que instrumento
de tortura - ou que teste de sobrecarga - seria mais adequado para fazer a
teoria psicanalítica "entregar" sua verdade do que a _prova da _éll!.9_ú_stia? Angústia.
experiência cotidiana de nossas curas. experiência cotidiana de nosso próprio incons-
ciente, experiência também que percorre a obra de Freud do princípio ao fim. como
uma pergunta clJja resposta nunca será assegurada. Uma metapsicologia, portanto.
posta _à prova da angústia ...
A metapsicologia. como sabem. mais do que em capítulos. se diferencia para
nós em "pontos de vista": tópico. econômico. dinâmico e, enfim. genético. Pontos
de vista que se cruzam. se recortam. com duãS afinídãdeslmportãiil:eS. 'ã meu ver:
por um lado a tópico-econômica. uma vez que o estudo das pulsões é inseparável
dos locais onde elas exercem suas forças e. por outro lado. ã'Cifriamico-genetJca.· -.. -

• Em inglês no original: em último lugar. mas não de menor importância. (N. do T.)
•• Em alemão no original. (N. do T.).

39
Minha abertura. quanto ao problema das pulsões. será voluntariamente abrupta.
polêmica. fazendo alusão a este outro ponto de vista metapsicológico que Rapaport,
apoiando-se sobre Heinz Hartmann. quis na sua época acrescentar aos quatro clássicos.
e até mesmo considerar como dominante: "o ponto de vista da adaptação". Para
me exprimir de maneira humorística, direi: como no serviço militar. na chamada
nominal dos "pontos de vista metapsicológicos sobre a angústia", quando se clama
o nome: "adaptação". a resposta é "ausente". Claro que estou esquematizando.
com a finallaãaê i.íriica de esclarecer de sáída minha posição: trata-se de uma franca
contestação da tese de Inibição, sintoma e angústia que deu uma verdadeira guinada
no pensamento freudiano. colocando em primeiro plano a noção de perigo real.
com a introdução da angústia-real (Realangst) concebida como primária em relação
à ang~stia pulsional (a Triebangst). Nesta obra rica e apaixoriante. mas bastante
ambígua e mesmo contraditória. uma trqjetória fecunda me parece desviada, talvez
invertida de maneira inquietante: a linha de pensamento que encontrava seu ponto
culminante em Para além do princípio do prazer e estava marcada pela Introdução
à psicanálise. capítulo ~ (exposição demasiada e facilmente negligenciada como
fazendo parte de uma obra reputada de vulgarização).
Aceitemos. como ponto de partida. a distinção freudiana de três afetos: Schreck
- Angst - Furcht: terror. angústia e medo; os distanciamentos e coincidências
e
semânticas entre estes três termos. nõ5êliferentes idiomas. podem estimular a
reflexão e qjudar-nos a alcançar a complexidade dos fenômenos. Mencionemos como
típicos:
- o terror da neurose de terror. ou traumática:
- a angústia da neurose de angústia;
- o medo... diríamos da fobia? mas não é sem razão que esta é chamada
Angsthysterie. histeria de angústia e não "histeria de medo". Tomaríamos antes
como exemplo de medo as reações de medo diante de um perigo real. Mas isto
se um tal medo pudesse ser isolado em estado puro, misturado de angústia: este
é precisamente um dos aspectos mais importantes da questão.
Entre estes três afetos. o terror é o termo fixo: unívoco. relativamente fácil
·· ' de apreender nas suas manifestações e a definir como estado de desorganização
- resultante de um afluxo de excitação incontrolável. Em compensação, a relação da
angústia com o medo permanece flutuante mesmo que. à primeira análise. admitamos
a distinção que consiste no fato de dizer que a angústia faz abstração do-objeto
para enfatizar a preparação ao perigo. enquanto que o medo supõe ~'um objeto
definido do qual se tem medo". Rapidamente o critério de relação ao objeto. principal-
mente, se revela insuficiente. uma vez que na fobia encontramos uma Angst vor.
~ma angústia de ... alguma coisa ou alguém.
r ·· É ãe Sê éolocãr. portanto. a questão da prioridade do medo 'tlu da angústia,
e a única maneira correta é fazê-lo em função da assim chamada adaptação. referência
central de Inibição, sintoma e angústia. À Zweckmãssigkeit. ou adaptação a uma
finalidade natural. opõe-se a Unzweckmassigkeit que recobre não somente a inadap-
tação. mas o fato de que uma reação ou um modo de defesa se tome secundariamente
inadaptado. anacrônico. A partir daí, nossa interrogação se formula assim: a angústia
40
do ser humano é um medo anteriormente utilitário, que depois se tornou inadaptado.
tendo buscado secundariamente um novo objeto ou um novo perigo como pretexto?
Ou então a angústia - não adaptada a um perigo real qualquer -seria o fenômeno
inicial?
A existência ou a ausência de um medo (no sentido adaptativo) na criança
é uma questão quase experimental, e surpreende-nos que Freud em Inibição, sintoma
e angústia não tenha aderido firme e constantemente à evidência que ele próprio
havia demonstrado antes de maneira tão clara: a inexistência na criança de montagens
adaptativas "instintivas" face aos perigos reais. Cito aqui o texto tão importante
da Introdução à psicanálise: (1)
"Quanto à verdadeira angústia-real. a criança parece possuí-la num grau
pouco pronunciado ... Seria desEliável que tivesse recebido de herança um maior
número de instintos tendendo à preservação da vida; isto facilitaria grandemente
a tarefa das pessoas que a vigiam e que estão encarregadas de impedi-la
de expor-se a perigos sucessivos. Mas na realidade a criança começa por exagerar
suas forças e se compor!_a sef!! expe!!_f!l~f!ta~angústiª pqrque iQ.f!(Jra o_P.E:r.igg_.
Corre na beira da água. sobe na soleira da janela, brinca com objetos cortantes
e com o fogo. em resumo. faz tudo que lhe pode ser nocivo e causar preocupação
aos que a cercam. _É:_~omeote_pela educação g~e se acaba f~~~!l_d.Q...D..ascer
nela a angústia-real. pois não se j)õdê reãTmente permitir ijúe aprenda por
experiência pessoal." -
A ciência comportamental mais moderna descreve em detalhe no animal estas
montagens inatas: assim ocorre com o medo do vazio em certas espécies de pássaros
que fazem ninho nas fendas das falésias. Coloque um bebê numa situação análoga:
o vazio nem mesmo terá sentido para ele.
Na nossa opinião, o que aparece primeiro é, portanto.• a angústia.oão.a<laptada
'ª9 real. e não o medo ou a- arígúSfiã~reãl. Mas a angústia pode contaminar todo
medÕ dtto "normãl". pode se disfarçar em angústia-real na fobia. Vamos mais longe
com Freud: é talvez somente a angústia des-real que leva o pequeno ser humano
para o caminbÓ destes Ersatz de montagens instintivas que seu Ego deve acabar
porõoter. seja como for.
- ·Ápoiemo-nos aqui. como o faz Freud às vezes. sobre categorias gramaticais.
ou seja. precisamente. sobre as "vozes" dos verbos. que se distinguem em ativa
ou transitiva. passiva. reflexa. e também voz mediana. em certas línguas, como
o grego.
- O medo é transitivo:
ich fürchte...
temo ... tal perigo
Infelizmente. este medo transitivo. percepção ou objetivo adaptativo do "valor" perigo
não existe de saída no ser humano.

1- Freud. S. lntroduction à la psychanalyse. Paris. Payot. 1972. p. 385.

41
- A angústia originalmente não é transitiva. mas reflexa ou média:
ich habe Angst
ich ãngstige mich
je m'angoisse (eu me angustio)
- A transitividade da angústia. a que constatamos no sintoma fóbico, é secun-
dária, indireta:
ich ãngstige mich vor dem Pferde
me angustio diante do cavalo
- No ser humano a própria transitividade do medo, do fürchten. é, talvez.
indireta. Atrás do aparente:
ich fiirchte den Pferd
.temos o cavalo
perfila-se o:
ich fiirchte mich vor dem Pferde
ponho-me a ter medo diante...
simples evolução do:
ich angstige mich vor. ..
ou mais exatamente ainda de um:
es ãngstigt mich vor...
É. portanto, na voz reflexiva ou. mais precisamente. na voz mediana que encon-
tra~o.e~ajQ_çl_a_ ang~~tia:
I isto me angustia diante do cavãiõ:)
A transltlvidade do medó. iio ser tíl.imano. é, portanto. uma ilusão? É provável.
em geral. e é em todo caso certo no que concerne ao medo fóbico. Lembremo-nos
que a psicanálise sempre progrediu por destruição das pseudo-evidênci<J_S_do_s~_nt:!d~
comum. em particular das pseudo-evidências de umã logiêã dos afetos. o que é
mais "evidente" do que o luto. e: no entanto. que trabalho complexo. escondido.
e de uma natureza completamente diferente para explicá-lo. Da mesma forma para
a fobia. Pois, mesmo que estejamos de acordo para dizer que não deve ser tomada
no seu sentido literal. sua interpretação encerra mais de uma armadilha. A solução
de facilidade é primeiro procurar a origem e como que a "versão original" de um
medo fóbico num medo deslocado. considerado real, um medo que teria perdi<!Q
seu verdadeiro oQjeto e que.?e_ ef1COntraria (como Freud aízia de in~ft!J.:TaiSãmente
conectado". Do cavalo do pequeno Hans. que tentação virar-se diretamente e de
maneira unívoca para o pai castrador e a mãe devorante! Não, o sintoma não substitui
um medo por outro mais maleável, como Freud foi tentado a dizer EWl Inibição,
sintoma e angústia. Osintoma é a realização de des!lio e não uma encenação alegórica
de um medo.
Reafirmamos. pois, a prioridade da angústia pulsional. do ataque interno pela
pulsão. Mas não acreditamos ter acabado com as pseudo-evidências. A própria pulsão.
por mais interna que seja. é preciso que tenha sido modelada ou até constituída
pelas experiências que põem em jogo as relações com o mundo exterior. Tínhamos
eliminado uma seqüência direta que faria derivar. de um modo educativo. o "tenho
medo do cavalo" de um "tenho medo do pai". Seria simplesmente para intercalar
42
entre estes dois medos externos um medo interiorizado, reflexo: "tenho medo do
pai interiorizado". por exemplo? Aqui me falta tempo para discutir a fundo esta
noção de interiorização. e v!lio-me forçado a enunciar. nos termos mais claros possíveis,
as proposições aparentemente contraditórias que é preciso conseguir abordar simulta-
neamente.
Sim. a relação com o mundo exterior vem em primeiro lugar. e todo o mundo
inferno. inclusive as próprias pulsões. coristitue!Tl~!le _a partir de_ele~ntos intt~J~Eº"S,
pinçados destas experiências. M~s ao mesmo tempo o m!Jnpo i!!_~rior vem ~!!!_primeiro
lugar. no sentido que os fantasmas que definem as pulsões sexuaisnão têm mE1Qida
éomum com as experiências das quais são derivadas, ·
Sim, o oQjeto real está perdido eo Íantasmã sexual ~!LÇQDs.tJl:!lLa.pa[tir_desta
perda. Más. ao mesmo tempo. o ol:jjetiJ fantá:sio_s0 Cl\!ELP_õe em_ação_des!liQsexual
é apeiiãs um derivado longínquo. irreconhecível. do objetqQ[imário deapego.
É. portanto. no primeiro tempo da introjeção que se situa a ruptura fundamental.
a que institui um modelo do des!lio e da sexualidade a ~r!i.L~ll_f!l~ela_ção mais
ou menos adaptativa. Esta ruptura. esta introjeção. é o que tentei. seguindo Freud.
âé5érever o mais exatamente possível recolocando em funcionamento e reinterpre-
tando dois conceitos meio abandonados. o de apoio e o de sedução. Todos os contra-
sensos são possíveis aqui: e principalménte um termo como o de interiorização
se presta para tanto. pois deixa crer que é uma relação externa que se encontra,
no seu conjunto. sem modificação essencial. transpo'stà ao interior. Assim. uma mãe
realmente sedutora se transporia em mãe excitante interna: uma mãe ou um pai
realmente atemorizantes Interiorizar-se-lam ern medo ou angústia pulslonal.
Ora. o que é preciso compreender é que a gênese tanto da excitação sexual
interna como da angústia que lhe é ligada está em função não das características
do objeto real. mas do movimento de introjeção, do 'Jogar para dentro de si".
Tlldo que é "posto para dentro" na fantasia, só pode sê-lo co~o sinal. o expoente.
enrolado na bandeira da excitação sexual e da ameaça interna ligada a ela.
- Concebem agora minha hesitação para definir a angústia pulsional como voz
reflexiva:
eu me angustio
ou antes como voz mediana: alguma coisa assim como:
isto se angustia em mim.
Certamente existe. em toda experiência, um momento de reflexão, de interiorização.
mas o erro é de crer que o
eu me angustio
pode. por exemplo. decorrer diretamente de uma interiorização da agressão do
outro. ou de uma "identificação do agressor". O agressor interno não é o agressor
externo secundariamente interiorizado: $ agressor e aQ[ll_stiante porq~e é__intgrf1º·-
porque. como diz Freud. ataca o Ego dQ lado em que_este não espera.

43
Tópica e econômica da angústia

Introduzi há pouco o termo "Ego", o que nos faz passar diretamente à questão
tópica: a angústia põe necessariamente em jogo as grandes instâncias. Ego, ld e
Superego. Não que exista. como Freud discute às vezes. uma angústia do ld. uma
angústia do Superego e uma angústia do Ego. TÇJda angústia é angústia--de--Ego.
o Ego é "o verdadeiro local da angústia". Mas toda angústia é a tradução do ataque
interno proveniente de uma outra instância: o ld. e tamb~m o Superégo.
Falar de angústia é. portanto. necessariamente. referir-se a uma tópica como
teoria dos lugares. Tópica psíquica mas também tópica diretamente material: é no
espaço do corpo que a angústia é sentida, e. mais do que qualquer outro afeto.
são as descargas e as inervações corporais que a especificam: dificuldade respiratória
e constrição torácica. palpitações e vertigens são espontaneamente situadas numa
topografia corporal. É também no seio de uma topografia que surge necessariamente
a angústia fóbica: acomodação defensiva, no espaço, de toda fobia. mas também
investimento ansioso do próprio espaço e particularmente de seus limites. tão parti-
cular na agorafobia: o espaço como lugar da angústia é. provavelmente. apenas
uma projeção ou uma dilatação do espaço psíquico.
Toda tópica é tópica do Ego. e toda tópica só pode partir dos esquemas mais
simples. aquele. por exemplo. da famosa "vesícula" de Para além do princípio de
prazer. esta bolha de protoplasma. este protozoário que logo vai se complicar estranha-
mente. ou mesmo tornar-se contraditório.
Nosso primeiro modelo é. portanto. o de um Ego. bolha ou "organismo" homeos-
tático que tende, por todos os meios. a restabelecer seu nível de funcionamento
e a forma correlativa deste nível. Vê-se como tópica e econômica são estreitamente
solidárias: não há nível constante sem a configuração fechada de uma Gestalt não
há Gestalt sem uma diferença de nível mantida entre seu interior e o exterior.
Ainda outra observação: o Ego assim concebido constitui por definição o paradigma
e o correlativo de todo objeto, entenda-se objeto "total".
O ponto crítico de um tal esquema é o seguinte: concebe-se bem a homeostase
de um protozoário, tendo de enfrentar os ataques provenientes da sua periferia;
mas então como figurar a homeostase do Ego? Ele também deve manter seu nível,
sua constância interna ... aparentemente. portanto. contra um "exterior';. "Mas os
ataques que ameaçam esta constância provêm eles mesmos do interior desta fronteira.
desta periferia interna onde atua seu conflito com o ld.
Contradições?
Quando se trata de tópica. reivindicamos abertamente direito às contradições
do imaginário. Se é verdade que nosso aparelho psíquico se constrói realmente,
no seu ser-próprio. pelo processo da nossa imaginação. como é que os modelos
que fabricamos a posteriori poderiam se liberar das contradições "da própria coisa"?
Estes modelos. para serem fiéis. são. necessariamente. incoerentes: fazem figurar
sobre um mesmo desenho e atuar uns com os outros os elementos mais heteróclitos:
corpo. psiquismo e Ego, pele e angústià, fantasia e complexo de Édipo... Nenhum
esquema freudiano. desde a correspondência com Fliess até as "Novas Conferências".
44
subtrai-se a esta condição constitutiva. A tópica deve. assim. permanecer aberta
a um certo número de contradições. ou pelo menos acomodar-se com elas; assim.
por exemplo:
O ld é um externo-interno. Corpo estranho "implantado da carne". isto é,
na periferia do Ego; ligado aos objetos exteriores. atacando ao mesmo tempo do
interior; o que Freud parece indicar com o seu esquema das "Novas Conferências",
este famoso ovo aberto "para baixo". isto é. ao mesmo tempo em direção ao corpo
e em direção ao exterior.
- rã mésmã contradição se encontra ainda do ponto de vista do "Ego": pois
este possui pelo menos dois "interiores": o interior "constante" que mantêm contra
as agressões dirigidas à sua integridade. e o interno-externo das energias pulsionais.
Às vezes. Freud nos descreve o Ego como que submetido a dois tipos de exigências
simétricas: as da realidade exterior e as do ld. O fenômeno da angústia. relacionado
ao esquema tópico e às "fronteiras" do Ego, obriga-nos a fazer importantes correções
nesta aparente simetria. O Ego não é. como a bolha protoplasmática da metáfora.
submetido diretamente aos ataques e aos afluxos de energia do mundo exterior:
o que desempenha. para o Ego. a função de energias anárquicas. traumatizantes.
destrutoras. é o ld. Quanto às exigências da realidade, estas só intervêm para o
Ego transpostas. consideradas de outra maneira. Aí está a_g~a.!!_d§..!l~coberta. do
narcisismo. da qual Freud não tirou.talvez .tod.a?..ªS conc~\l_mutaç~~r
humano. da ãLitrironservação. À medida que se desenvolve o Ego. as prinçipais.funções
vitais e relacionais~ desde a alimentação até a "lutâ_pei,!J vida" ou ªin~ª-.QJl~.ll~IDDeoto
operatório são. assumidas pelo Ego. ou •. mais exatamente. pelo amoLdo_E;go. É
por amor. e não por instinto de sobrevivência. que o bebê vai se alimentar, em
breve: amor de seus objetos, amor da mãg•.af!Jgr do seu Ego.
-· Eeis que passamos aí insensivelmente do rilvei tópico ao nível do econômico.
isto é. da teoria das pu/sões.
Insisti e volto a insistir ainda sobre o fato de que a autoconservação foi expulsa
desta teoria. Pressentirão talvez meu "hegelianismo", que faz coincidir o movimento
da teoria com o movimento da "própria coisa". Pois bem. direi que a autoconservação
(o instinto). na vida de cada um de nós. é posta de lado. desqualificada. exatamente
como a autoconservação é afastada depois de 1915 do movimento do pensamento
freudiano. Falo aqui de instinto no sentido preciso. isto é, por oposição ao drive. *
Entretanto. o conflito psíquico e a angústia que é. ao mesmo tempo. testemunha
e estímulo só pode se conceber como uma dualidade de forças em presença, um
dualismo pulsional. Não cabe aqui descrever como os analistas enfrentaram aafirmação
freudiana das pulsões de vida e pulsões de morte. Interpretações múltiplas. r~eições,
edulcorações... Estas interpretações. aliás. devem-se não apenas aos discípulos. mas
já ao próprio Freud. Freud foi o primeiro a se achar embaraçado com a~~'!_ descoberta,
como de um objeto estranhá. nõvã. que nãõsãliemuitõ fiem_ como integrar.
•· · ··· Não podemos. portanto. abordar a pulsão de morte sem intérpretar e talvez
já saibam que um dos meus principais trabalhos foi dar uma interpretação que
• Em inglês no original: pulsão. (N. do T.)

45
leve em conta as exigências fundamentais que obrigaram Freud a esta afirmação:
uma afirmação que é, ao menos em aparência. tão contrária a esta outra idéia
fundamental da psicanálise: que a morte não é um conceito. uma representação
inconsciente.
Da pulsão de morte. da sua profunda originalidade, eu quis reter, "salvar",
principalmente três características:
- a prioridade do tempo voltado para o interior. o que chamo de tempo
auto. se/bst, self-destruction:
- a particularidade do regime econômico desta pulsão, que faz dela, de alguma
forma, a pulsão por excelência, a alma pulsional de toda pulsão, o modelo mesmo
da energia livre e do processo primário;
- enfim. a oposição às pulsões de vida. oposição que deve ser reveladora
se se mostra ser não somente uma oposição no seu fim, mas no modo de funciona-
mento. no "regime" (da mesma forma que se fala no "regime" de um motor).
Estes três pontos me parecem ser precisamente ausentes na analista que, no
entanto, levou extremamente a sério a nova teoria freudiana: quero dizer Melanie
Klein.
Se a pulsão de morte era apenas outro termo para falar de agressividade,
como poderia ter Freud, durante anos. descartado todas as proposições de seus
discípulos para introduzir uma pulsão de agressão? Nesta história da "política" teórica
de Freud seria pueril ver apenas na obstinação de Freud o desejo de se reservar
a prioridade da descoberta. Seu objetivo é cada vez diferente do que aquilo que
lhe propõem. Ele não adere nem à pulsão de agressão nem ao protesto viril de
Adler. nem à pulsão de morte de Spielrein, como teria desprezado tudo que, hoje
em dia. coloca-se sob a rubrica banal e vulgar de agressividade e de luta pela vida.
Minha idéia fundamental é. pQrtanto, a seguinte:_~ pulsão de morte não é
uma descoberta. mas uma reafirmação. um aprofundamento dã ãfirriíaí;ao originária
e fundamentá! da psicanálise: a sexualidade; ela é a sexuálidade sob o menos civilizado
dos seus aspectos, o mehos sociáveL funcionando segundo o princípio da energia
livre e do processo primário.
Falarei, portanto, com a finalidade de esclarecimento. da oposição entre pulsões
sexuais de "morte" e pulsões sexuais de "vida", para indicar bem que o grande
dualismo se situa no coração da sexualidade; e, além disto, colocando "yi_[ja:·_g_;:m_orte"
entre aspas para tornar claro que se trata dá V~<j.,El..s;l!i..m\l.,de em "psicanálise".
e não da vida e da morte biológicas. · ·· ·
~se a pulsão de morte é uma reafirmação da sexualidade, qual é a descoberta
que leva a este reequilíbrio? Pois bem. é precisamente a das pulsôes sexuais de
vida. Quero dizer com isto a exploração de um novo campo da sexualidade, sexualidade
não .mais livre. mas ligada, investida, de. maneira mais ou rhemí;Js e5i:á_yel n_o objeto.
e nÓ Ego tomado ele próprio como otijétõ dê ãmor narcisista. O amor de o~eto
e o narcisismo. como sabemos, estão estreitamente ílgãdéis. e é ~~e tmenso campo
da sexualidade conservadora e produtora de formas vivas, a sexualidade como forma
de síntese. que toma o nome de Eros. -· --.. · ·· ··

46
É, portanto. por retroação face a esta invasão de um Eros talvez um pouco
otimista demais e edificador - quem sabe edificante - que deve ser reafirmada,
sob sua forma mais desencadeada, desligada, uma sexualidade que só funciona segundo
o princíPlO'ae zero;ãõ' maiõr declive, para chegãr o máíS rapidamente possível
à aescarga ê à identidade de representãÇãõ (termo que prefiro ao de identidade
de percePÇão).
~;s.tas duas grandes pulsões. ou .mal.~ e~atarnente ~ dois grand~ regimes
pulsionais da sexualidade. terei ainda ten~ênçia a distinguHos quanto a2 seu _objeto.
isto é. aquiio no que investem. para distingui-los em "pulsões sexuais de obJeto"
e "pulsões sexuais de representação". (2) Bem entendido, trata-se aí de uma polaridade
dialética: o pólo-objeto da sexualidade marca as esta~il~zaçõ,es, !JS inv!!SÜrnentos mais
OlJ menos eStáveis da libido; o pólo-represÉmJ:aÇao. ~m última a.nálise~ troca facilt11ente
de objeto privilegiando as modificações incessantes. deslocamentos e condensações
que são as mesmas do processo P._riinário. - - ·
· Para voltar à angústia, é preciso primeiro entender bem a correlação entre
nossa distinção tópica. o Ego e o ld, e o dualismo pulsional. Freud colocou várias
vezes esta questão. sem poder respondê-la na verdade. Para nós, sem fazer coincidir
exatamente cada um dos pólos tópicos com um pólo pulsional. é, no entanto. evidente
que se perfila uma afinidade fundamental. De uma maneira geral. deve-se afirmar
bem que o Ego é um lugar de.eleiçª-o_para as ou.Isõ.es .. sexuais__dg "vida", e que
sua COTJ)QUisão à Slntese encontra nelasséu fundamento energético. Mas eSfã afirmação
cfeVeiia ser relativizada levando-se em cõritã êspéciãrmente aScõiítribuições kleinianas:
o Ego, que no início não passa de uma forma lábil e frágil, encontra meio de se
confortar pela introjeção de seus objetos. Objetos totais. objetos "bons" favorizando
a síntese ou a reparação.
Inversamente, o ld. no seu fundo mais radical. é o lugar da pulsão sexual
de "morte": mas esta só pode ser concébida cômoorn estado=Iirriitê da Uóldo.estãdõ

decles-ligaménto do qual até mesmo ã psicose aállê!SheS'momentáneõs e aproxim.a-
tivos. Assim que se atinge níveis menos profuridõs, menos radicais emais
ãteSsíveis
do ld, encontramos aí representações de objetos mais estáveis, investidos de maneira
mais constante, pontos de ancoragem para o que chamamos de pulsão sexual de
"vida". Como quer que seja. os pontos de vista tópico e econômico concordam
amplamente. se levarmos em conta as relações dialéticas e móveis entre nossos
dois pólos pulsionais. Para esquematizar. poder-se-ia definir assim uma tópico-eco-
nômica da angústia:
A angústia se processa entre um Ego. Gestalt energética tendendo a manter
seu nível e o ataque incessante das moçóés e incitações pulsionais.O desenvolvimento
da angústia e. mais além, o terror. são, não um snal de perigo, mas as próprias
situações perigosas (perigo interno) a caminhodE; uma dest_ruiçã() total,correspon·
dendo ao transbordamento do Ego pelas "energias equalizadoras e portanto destru-
tivas" do Id. (Reconhece-se aqui a expressão de Para além do princípio de prazer
que fala das "energias equalizadoras. portanto destrutivas" do mundo exterior.)
2 - Ou. talvez. "pulsões sexuais de índice".

.. I. 47
~
'' ' ' f r'> I f:" ' t l..,..yl.
'· . I. I~ 1· 1.
.I
Mas o desenvoi"Jimento da angústia já é correlativo de uma certa tentativa
de ligação e de imobilização local. E, acima de tudo, o processo da angústia é.
muito freqüentemente, devido a um Ego preparado, imobilizado mesmo. A angústia
é. então, antes de tudo, um fenômeno de fronteira, o que é bem traduzido pela
sua vivência corporal. Ela é contra-investimento ativo, criação desta linha de batalha
ou paraexcitações dinâmica. que tenta bloquear no local a energia pulsional.
Um tal contra-investimento é bem diferente das modificações permanentes do
Ego por formação reativa. tais como são descritas por exemplo na neurose: piedade.
escrupulosidade, limpeza. No processo da angústia, as barreiras do Ego desapareceram.
ou talvez tenham sido reduzidas a este menor denominador comum dos afetos
que é a angústia. No caso mais puro, contra-investimento e investimento se afrontam
doravante sem a máscara do sintoma. por assim dizer de mãos desarmadas. Se
lembrarmos que libido livre e libido ligada (ou do Ego) são. em última análise.
da mesma natureza. e conversíveis uma na outra. concluiremos que, no auge do
combate, no ponto onde se opera a imobilização ansiosa e a elevação de tensão.
estas energias sejam indiscerníveis. Por esta razão ainda não poderíamos optar entre
uma angústia do ld e uma angústia do Ego. "O Ego é o verdadeiro vínculo da
angústia", mas a origem econômica da angústia está indissoluvelmente no Ego e
no ld, na invasão pelo ld e o contra-investimento, mais ou menos arcaico, do Ego.
Não posso abordar. aqui. o :fgundo aspecto metapsicológico da angústia. aquele
que designo como dinâmico-genétVco. Para introduzi-lo. gostaria somente de enfatizar
a conclusão pouco otimista que parece resultar do ponto de vista econômico-tópico.
O que afirmamos realmente?
1~ A angústia é o impacto de desestruturação produzido no Ego e nos seus
objetos pelo ataque pulsional. Ou. ainda. é o resíduo inconciliável, Ego-distônico.
em última análise. do desejo sexual.
2~ A angústia é uma espécie de moeda de câmbio universal de todos os afetos.
Mas esta moeda não é livremente conversível; o efeito de destruição produzido
pela angústia é dificilmente reversível. Esta é uma observação essencial que Freud
desenvolve a propósito do pequeno Hans: "Uma vez estabelecido o estado de angústia,
a angústia absorve todos os outros sentimentos; com os progressos do recalcamento ...
todos os afetos se_ tornam capazesçle se transformar em angústia". '
Exatamente como a termodinâmica mostra que a energia tende a se degradar
em sua forma mais anárquica, ocorreria o mesmo com a energia libidinal? A questão
seria. então. a seguinte: por que tudo, na vida psíquica. não é angústia. e constan-
temente uma volta à angústia?
A este pessimismo, a esta tendência invasiva da "pulsão de morte", trago esque-
maticamente as seguintes correções:
1~ Disse que era preciso compreender "vida" e "morte" "em psicanálise", isto
é. metaforizadas, ou, como prefiro, "metabolizadas" no campo sexual. o que quer
isto dizer concretamente? Quer dizer que, por exemplo. a tendência sintética. repara-
dora, que cabe ao Eros construtor de formas, esta tendência de vida. não é necessa-
riamente e sempre tão positiva quanto parece. A síntese torna-se compulsão à síntese.

48
torna-se conformismo, imobilização obsessiva, ou ainda busca vã de realizações altruís-
tas narcisistas.
Inversamente. a pulsão de "morte", em psicanálise, não é somente a metáfora
psíquica do retorno ao. inanimado. Todos os analistàs perceberam que a morte da
guàl se trata é também o estímulo do d~~· __destruLdor_ de toda forma estável.
E a angústia paralisante mas também éstimulante, aquela que, 111E!. íJé!rece. Leonardo
tentáfigurãf(figürãr b infigurável) nos seüs desé.:rífíos-do::õiiúvio". -·
. - - 2?sé o dualismo pulsional não éÚm dualismo substancial e definitivo, mas
um dualismo de regime de funcionamento. se é uma só e mesma energia libidinal
que se encontra. tanto nas pulsões libidinaisde-"Víclã" quan1õ nas pu!Sõés libidinais
ae "iTIDrte", então nada imJ)ede de déscrever as passagens de uma para a outra.
Lembro que esta tese de uma só energia para as duas pulsões é explicitamente
formulada por Freud em "O Ego e o ld". e~ele nunca defendeu o concei!o
absurdo de uma "destrudo", simétrica da libido. E se conhecemos o caminho da
pulsão de vida em direÇão à púlsao de morte (âegrâaãÇãõ ãõsafettls em aiígilstía.
por exemplo) 5abeinos pôr éxperiêlirurqmnrcaminho inverso é possível: a constituição
de objetos estáveis aPàrtir das primeiras slhiáções de ansiedade (para falar como
Melanie Klein).
3~ Enfim, arrisquei uma hipótese ainda mais problemática, hipótese que pode
parecer cientificamente sacrílega uma vez que atinge o princípio sagrado da constáncia
da soma das energias psíquicas. Sugeri. a propósito da sublimação, que talvez fosse
preciso levar a sério esta idéia freudiana de que todo abalo da vida psíquica, desde
o choque físico até a emoção, acompanhar-se-ia de um afluxo novo, de uma verdadeira
neoformação de libido. Se estas "fontes indiretas" da pulsão sexual atuam na infância,
por-qUe não ocorreria o mesmo durante toda a vida?
É evid~te que esta energi9__se~ual surgin_do constantemente. vai se repartir
entre as pulsões sexuais dé vida e as pulsões sexuais de morte. Depende do destino
de cada um que nem a angústia seja para ele invasiva e paralisante, nem, inversamente.
a libido investida de maneira demasiado estável e demasiado exclusivamente narcisista.
A esta questão somente um estudo dinâmico-genético pode trazer o enquadra-
mento de uma resposta. e, para cada um de nós, suas capacidades singulares de
sublimação e de simbolização.

49
É PRECISO QUEIMAR
MELANIE KLEIN?*

Por que este título que. aparentemente. nos traz de volta os tempos obscuran-
tistas: os tempos obscuros da Inquisição. quando se queimavam as pessoas e as
obras? Eram queimadas. não sem antes tentar fazer o possuído confessar sua verdade.
dele mesmo ignorada: o demônio que estava nele.
Em primeiro lugar. destacarei a que ponto as imagens de demônios. de feiticeiras
e de possessão são correntes. não somente na clínica. mas na teoria psicanalítica.
Uma tese concluída por uma de minhas alunas sobre Freud e o diabo (1) mostrava
recentemente a que ponto estas imagos são coextensivas ao pensamento freudiano
e ao seu desenrolar. Certamente uma visão racionalista. aparentada à filosofia dos
"Iluministas" é um outro aspecto do pensamento de Freud: lá onde a razão se
faz dia. os demônios noturnos desaparecem para sempre: Afflavit et dissipati sunt.
Contudo. não menos forte em Freud é o entusiasmo indefectível pelo diabo,
irredutível a qualquer tentativa para reduzi-/o a uma ilusão. A tal ponto que a metapsi-
co/ogia - ela própria este aspecto mais teórico da obra - é, às vezes. assimilada
a uma feiticeira. Lembro ainda a esplêndida homenagem fúnebre a Charcot. Freud
mostra ai como. a partir do momento em que as histéricas não foram mais ridicula-
rizadas. a descobertá psicanalítica estava próxima. Esta histérica que chora deve
ter razão. E mesmo ter razão quando diz ignorar por que chora. Era preciso. então.
supor uma clivagem da sua consciência. Mas como aceitar esta coisa estranha de
saber sem saber? Que modelo encontrar para a c/ivagem? Teria bastado. diz Freud.
lembrar que a humanidade. há séculos ou milênios. outorgava um lugar inteiro
e completo a esta divisão e a este sofrimento sob o nome de possessão. Charcot
mais os exorcistas. e toda a psicanálise. já estão de pé.
• Texto embasado em conferencia proferida na Faculdade de Psicologia de UNAM (México).
I - Urtul1ey. L. tie. Freud et /e diab/e. Paris. PUF. I 983.

50
Levado a este ponto, o diabo torna-se quase um conceito. ou um preconceito.
Como a história. o possesso e o exorcista devem. de uma certa maneira. ter razão.
E é, evidentemente. a estranheza absoluta do inconsciente. o fato de ser estrangeiro.
que dá base à idéia de possessão. cuja forma ligeirament~ mais mode~na é a de
"corpo estranho interno". O próprio Freud. nesta fantasia de possessao - ~ue
é um avatar da de sedução - não se nega a ocupar todos os lugares: a do exorctsta.
a do possesso. mas também a do diabo intrusivo.
_ Com o título "É Preciso Queimar Malanie Klein?" quero evidentemente prestar
uma grande homenagem àquela que muitos consideram a maior cri~dora d~~ois
de Freud. Equivale a situá-la nesta tradição flamejante (como se diZ do got1co)
que reconhece o caráter estranho. estrangeiro. hostil. angustiante do "nosso mundo
\ interior".
"-- Falou-se. a propósito de Klein. de uma "demonolog~a": e i~o n~m sentido
pejorativo. A demonologia seria alguma coisa que se opoe a pstcologta, fazendo
de nossas fantasias entidades. seres reais. atacantes. sadtzantes ou aterronzantes.
Já se tinha falado do antropomorfismo de Freud. para criticar a idéia "pueril'' (I)
que teríamos em nós homenzinhos que lutam entre si. Pois bem~ os "objetos" k~eini~­
nos levam este realismo até seu extremo. e é. na minha opiniao, a mesma dtreçao
fecunda, a da realidade psíquica. que nos indicam o antropomorfismo e a demonologia.
Hoje em dia ainda se queimam feiticeiras ? No meio psica~alítico às vezes
não estamos longe disso. Outros como eu relataram este cerimontal de exorcismo
que se desenrolava nos porões de Londres durante o B/itzkrieg: tratava-se de e~puls~r
Melanie Klein do movimento psicanalítico. E a paixão consagrada a este cenmomal
mostra que se tratava de bem outra coisa que de teoria. de conceitua~ização, ou,
mesmo. de clínica. Atualmente e. de uma certa maneira, _infelizmente, nao se tenta
mais queimar Melanie Klein. Negligenciam-na. isolam-na. As vezes, ~dere~se aos se~s
dogmas. assim como se faz com uma receita. Os que isolam e negligenCiam .Meia?Je
Klein são os detentores de um racionalismo estreito, aqueles que. desde ha mUJto.
esqueceram a lição interpretativa de Freud; uma lição que !essoa sempre nos mesmos
termos: Melanie Klein, de uma certa forma. deve ter razao.
Não me considero como um detentor da filosofia das luzes. nem do racionalismo
psico/ogizante que reina em uma parte do mundo analítico. M.as também não sou
um adepto do kleinismo que, como movimento e con;o doutrma. :empre sus.cJtou
minha desconfiança. O que caracteriza este movimento e um verdadeiro proselttismo.
a ausência de questionamento sobre os conceitos de base e, sobretudo, a volta.
por outras vias. a uma hegemonia: é novamente a_tentativa ~e fazer do pensamento
psicanalítico uma explicação geral, uma pstcologta de conj~nt?~ o qu.e. me parece
ser. paradoxalmente. uma m~neira de tornar insossa a contnbUJçao k/emta.na. . .
Menos ainda poderia aderir à técnica inaugurada por Mela~Je Klem. ~ecmca
cujo único mérito é o de ter enfatizado.~ fantasia, mesmo nas mterpretaçoes de
defesa: mas que me parece implicar um abandono quase total da metodo/ogta freudtana
da interpretação. O bombardeamento interpretativo é apenas o aspecto ma1s chocante.
o que é evidente é a imposição de um sistema simbólico preestabelecido que descon-

51
sidera todo passo a passo da análise freudiana. destinada, antes de mais nada, a
dar oportunidade e audiência ao processo primário: é surpreendente que uma teoria
que se situa tão próxima dos processos mais profundos do inconsciente só tenha
conseguido se traduzir num método que chega à decodificação mais estereotipada
dos d1tos e dos gestos significativos do paciente: sem considerar o movimento associa-
tivo. a referência histórica e individual, ou os mil indícios pelos quais descobrimos
se a interpretação está ou não num bom caminho.
Se não sou, portanto. em nada um adepto. também não sou. por oposição.
daqueles que decidem que os feiticeiros. os seguidores do demônio. devem ser encarce-
rados numa espécie de gueto ideológico. encarceramento este que permite sem
maiores dificuldades negligenciar o que dizem como coisa impossível de se referir
à ·'medida de todas as coisas" isto é. ao nosso próprio Ego.
A defesa contra Melanie Klein por anulação é apenas uma manifestação da
defesa geral contra a análise e suas descobertas fundamentais. Freud formula de
maneira pitoresca esta defesa no início de A sexualidade na etiologia das neuroses:
"Não será difícil contestar a originalidade desta teoria assim que se tiver renunciado
a negar seu fundamento".
Em outras palavras: é falso e. se é verdade. não é nada novo. Reconhecemos.
dirigida contra Freud e Klein. uma modificação do famoso argumento do caldeirão.*
Evidentemente, a feiticeira chama o caldeirão ...
Como progride o pensamento analítico? Por repetição e ruptura. por banalização
e reafirmação. por circularidade e aprofundamento. Os momentos inovadores são
também retorno àfonte. Oaprofundamento é reafirmação de uma exigência originária.
Gostaria de mencionar aqui dois destes momentos de ruptura. tempos "inspirados"
do kleinismo.
O primeiro é o debate sobre. a psicanálise de crianças. que opõe Anna Freud
e Melanie Klein. herdeira segundo a carne e segundo a forma. de uma certa maneira.
e a herdeira segundo o espírito. Evidenciarei três pontos capitais: a técnica do jogo.
o problema da educação e o da transferência.
A técnica do jogo não é. de forma alguma. Melanie Klein que a inaugura. mas
sim quem a leva ao seu apogeu. à sua sistematização. Ojogo é. para ela. um equfvalente
pleno das associações livres. A oQjeção de Anna Freud parece clamar a evidência:
o jogo da criança tem uma função. e mesmo várias. Tem um papel manifesto no
desenvolvimento. no processo da relação ao mundo. no controle dos afetos. etc.
Ver aí alguma coisa de puramente simbólico. o equivalente de um discurso. seria
um golpe de força injustificátivel. Trata-se aí de uma questão sobre a qual gostaria
de fazer sentir o quanto ela ultrapassa um simples problema de técnica.
A essência da resposta de Melanie Klein (que evidencio mais do que ela própria
o fez) é que o jogo. na análise. torna-se outra coisa do que o jogo observado
objetivamente: converte-se. então. no equivalente de um discurso. Assim como o
discurso do analisado presta-se aos movimentos de interpretação. de confirmação.
de simbolização. o jogo na análise volta-se para o analista.
• Referencia a Freud. Interpretação dos sonhos. Cap. 2. (N. da T.)

52
Acrescentarei uma conclusão segundo meus termos pessoais: é necessário reco-
nhecer o corte entre o que se passa na análise e o que se passa fora dela: é o
que chamamos a constituição da "tina .. que só pode se produzir pela exclusão do
adaptativo. do funcional (invocado por Anna Freud). O jogo, diriam os lacanianos.
é uma linguagem. Mas pode-se virar o argumento. que. portanto. não é decisivo:
toda linguagem não é tomada na transferência. toda linguagem não é linguagem
segundo o amor e o ódio. de modo que é preciso estabelecer. no seio da própria
linguagem. o mesmo corte que no jogo. Como quer que seja. notemos esta falta
de fé na análise por parte de Anna Freud: ela não crê na especificidade da situação
analítica. capaz de fazer virar do avesso tanto o jogo como a linguagem.
Nosso segundo ponto é a objeção educativa: Anna Freud fica aterrorizada pelo
perigo de liberar as pulsões. Trata-se aí de uma concepção muito mecanicista: as
pulsões se situariam do lado puramente biológico. enquanto que as defesas e o
Superego. unicamente do lado social. Melanie Klein responde primeiramente que
jamais constatou uma tal liberação da maldade das pulsões. e isto apesar de uma
técnica absolutamente não educativa. Quanto ao fundo. faz intervir a noção de Supe-
rego precoce. Afirma que o Superego é muito pouco calcado sobre as interdições
parentais. Sua severidade pode apresentar-se na razão inversa da permissividade
parenta!. E o próprio Freud foi obrigadq a_concordar coll! este ponto em Mal-estar
na civilização.
· Sé assim é. impõe-se uma concepção muito mais dialética. Não ocorre, num
face a face absoluto. o pulsional e o educativo, o puro desejo e a pura lei. As
interdições mais ferozes encontram suas rafzes no ld. No sadismo do ld. Pensar
em termos puros de educação é negligenciar o fato de que se arrisca a construir
intérdições sobre raízes pulsionais que se recusa a analisar. Isto vai se esclarecer
ainda melhor no terceiro ponto da discussão: a transferência e a sua possibilidade.
Á objeção de Anna Freud é. ao mesmo tempo. hiperclássica - irrefutável.
de uma certa forma - e completamente fora de cogitação. Seu referencial é a
análise de adultos: aqui os pais já estão longe no passado: o Édipo passou. como
se diz; só ficou dele a lembrança. A transferência seria, então. a repetição desta
antiga situação. Tanto assim que a concepção do processo analítico é simples: a
essência está em desiludir o adulto. "Você se engana, você me considera como seu
pai (ou sua mãe). É anacrônico." Ora. para a criança. lembra Anna Freud. a relação
com os pais ainda está presente, contemporânea. Donde esta dupla objeção: a transfe-
rência é impossível: mas se. eventualmente. fosse possível, seria uma substituição
efetiva. um verdadeiro roubo de criança.
Como responde Melanie Klein? Em primeiro lugar ela dá uma resposta cronoló-
gica, genética. que não vai até o fundo das coisas: com dois e meio ou três anos.
diz ela. quando tomo em tratamento estas crianças, o essencial de seu inconsciente
já está constituído. já ficou para trás. Isto não vai ao fundo da questão, pois apenas
se transfere no tempo o que se pretende ser o processo de análise de adultos:
arcaísmo e desilusão.

53
Oessencia/ da resposta. tal como a interpreto. está muito longe: é a afirmação
do mundo interior. das imagos primitivas. Estas imagos não são a lembrança de
éxperíericias rêáis ma!s antigas; são o depósito íntrÓjetàdo destas experiências. mas
ae
modificado ~o pi'Opi'iõ próéessõ inl:roJeçãõ:-'·l'Jao devemos em C:áso algum identi-
ficar os verdadeiros objetos com aqueles que as crianças introjetam". Há entre os
dois um "i:onl:fãste grotesco". Assim. dirfamos. a introjeção é o fundamento de
um mundo interior. processo que não tem nada à ver com uma memorização. Vê-se
como a resposta cronológica era insuficiente.
O problema essencial de transferência não se resume. portanto. numa relação
passa_d_ol!!~e; está na relação_.entre_este_mundo_iJ)_terior e _as relações novas
que se instauram. Neste gmtido. não se deve Jermedo de dizer qüe· ã relação
com os pais reais é, ela mesma. uma transferência. Esta é a única maneira de
e
) esélarecer justifiC:ír a análise do pequeno Hans: que Freud tenha confiado o papel
de analista ao próprio pai de Hans. supõe. com efeito. que uma transferência sobre
I o pai era possívéj.
Nossa conclusão no que concerne a esta revolução da análise de crianças é.
portanto. dupla: afirmação do mundo interior - povoado de demônios - que
não se parece em nada ã um decalque mnésico de um mundo real anterior. mesmo
se'tomã emprestadas suas representações a este mundo anterior. E afirmação que
a aná/isê reitera. tanto na criança como no adulto. este corte entre o mundo adaptativo
e àquele onde reinam o amor e o ódio.
Segunda trovoada: é a grande descoberta. inaugural. ao mesmo tempo clínica
e teórica. resumida no infcio do famoso artigo de 1934. Contribuição à psicogênese
dos estados maníaco-depressivos. onde diz:
"Nos meus escritos anteriores relatei uma fase de sadismo no seu auge, pela
qual passam as crianças durante seu primeiro ano. Durante os primeiros meses
de sua existência. o recém-nascido dirige suas tendências sádicas não somente
contra o seio. mas também contra o interior do corpo de sua mãe; deseja
esvaziá-lo devorando seu conteúdo. destruí-lo por todos os meios que o sadismo
propõe." {2) ~

Qual é a novidade? Qual é a descoberta? Atenção! Nem a própria Klein. nem


os kleinianos são. talvez. os melhores indicados para este julgamento. para interpretar
a descoberta.
Finalmente. poderão dizer. Freud descobriu a pulsão de morte. Visão banal:
ele acrescentou a pulsão de morte à sexualidade. e foi Melanie Klein que deu toda
a sua amplitude a este novo desenvolvimento. Visão puramente exterior: a análise
progrediria por novas incorporações sucessivas. à medida que novos campos fossem
explorados. Uma tal concepção cumulativa não é verdadeira nem mesmo para as
ciências da natureza. O movimento científico é sempre aprofundamento e. em psicaná-
lise. este aprofundamento não se faz sem um retorno incessante à exigência originária.

2 - In: Contribuições à psicanálise. São Paulo. Mestre Jou.

54
É a nível da exigência originária que se encontram a pulsão de morte de Freud
e o sã&imó infantil de Klein. mas não da maneira que um e outro talvez acreditassem;
· põfs: segundo penso. a própria pulsão de mo'rte não é algo que se acrescenta à
teoria da sexualidade: mas seu aprofundamento. E. da mesma forma. a exploração
de Klein sobre o sadismo é o aprofundamento. a renovação da descoberta originária,
a dos Tres Ensaios. É preciso salientar que o sadismo é colocado por Klein na
origem. antes do amor. exatamente como a sexualidade é colocada por Freud na
origem. ántes do amor de objeto. As duas descobertas soam da mesma maneira:
escandalosas. contestáveis. inelutáveis. Nos dois casos trata-se de alguma coisa de
violentamente negado. combatido pelos adultos; é quase a única definição freudiana
da sexualidade infantil: o que os adultos. com todas as suas forças. não querem
ver. Erealmente trata-se de algo pouco visível para a observação objetiva. A sexualidade
infantil é. sobretudo. inferida. por Freud, a partir da análise de adultos. Dir-se-á:
Melanie Klein se aproxima mais das crianças? Que seja! Mas. assim como Freud.
ela infere. a partir daquelas que analisa (crianças de 3 a 5 anos) para concluir
sobre o primeiro ano. Pouco importa que o intervalo cronológico diminua: o essencial
é o enfoque dirigido ao passado... ou ao originário.
Vamos mais longe: esta dupla "descoberta" contradiz parcialmente a observação
direta. Salvo nos casos patológicos. nem a sexualidade infantil de Freud, nem o
sadismo originário de Klein são fenômenos patentes. ou em todo caso constantes.
do comportamento do bebê. São fenômenos esporádicos. eventuais. o que não suprime
nada à sua significação. Lembremos o horrível quadro de destruição de guerra.
tortura. corrosão. explosão. que Melanle nos traça na análise de Richard. É perfeita-
mente ilusório pretender que este quadro. encontrado na análise de uma criança
de dez anos. seja a cópia real. mnésica. do que se produziu na sua vida quando
tinha um ou dois anos. Sem insistir sobre esta discordância entre o bebé observado
e o mundo interior encontrado na análise. notaremos que a própria Klein o percebeu.
Seu artigo. "Observando o Comportamento do Bebê". propõe uma descrição bem
diferente: um bebê mais calmo. mais sorridente. Às vezes temporariamente raivoso,
mas não o bebê "encontrado" na análise. entregue. ininterruptamente. à mais violenta
Juta interna.
Paremos um instante. Parece que eu quis destruir Melanie Klein salientando
suas contradições. Mas meu objetivo é completamente diferente. Mostrar. para além
das contradições. em que as exigências de Freud e de Klein se encontram. se aprofun-
dam uma à outra. Esta exigência é o reconhecimento do mundo inconsciente. que
é muito diferente do decalque esquecido da nossa infância. É o reconhecimento
da verdade da puisão. para além das assimilações biologizantes, que fariam dela
uma variedade do instinto e dos comportamentos adaptativos (mesmo se estes são
parcelares. insuficientes. deficientes). A verdade da pulsão. sua constituição. tal como
a v~o. é inseparável daquilo que chamo o tempo auto: o retorno sobre si mesmo.
que é. ao mesmo tempo. a constituição do objeto-atacante-interno.
Que se tomem as primeiras descobertas de Freud sobre a sexualidade: esta
é inseparável da noção de corpo estranho interno. excitante a partir do interior.

55
"desencadeado" (entbunden) no interior. Este corpo estranho interno: é ele que
se estabelece no momento em que se perde o objeto da autoconservação. Que
se tome a teoria freudiana da puJsão de morte é ainda a prioridade do tempo
auto. tempo da autodestruição e do masoquismo originário. Que se tome. por fim.
o mundo interior de Melanie Klein: é ainda a mesma introjeção do objeto perdido.
sob a forma de objeto atacante. perseguidor interno. Para Melanie Klein - pelo
menos no início da vida psíquica - não existe simbolização da ausência. A ausência
do objeto que satisfaz coloca. no sujeito. sua cópia clivada. atacante. má. Cada vez
que o objeto apaziguante se afasta. é o objeto excitante que se interioriza.
Certamente haverá objeções: é preciso uma certa temeridade para assimilar
o objeto da pulsão sexual e o objeto mortífero de Melanie Klein. Tomaria muito
tempo para expor minhas justificativas. Mas o que está presente nas origens do
pensamento freudiano é certamente o caráter demoníaco. atacante. desestruturante
da sexualidade. Este aspecto escandaloso da sexualidade é que tende a ser continua-
mente abafado na evolução do pensamento psicanalítico. Dai estas ressurgências.
cada vez mais explícitas: a pulsão de morte. que para mim deve ser denominada
"pulsão sexual de morte". e os objetos internos mortíferos de Klein.
Chegamos. agora. ao que se pode chamar de sistema kleiniano. Pois há. certa-
mente. um sistema que funciona por jogo de pares opostos permitindo todas as
mecânicas e todas as estereotipias. Estas dicotomias são as do interior e exterior.
da introjeção e da projeção. do bom e do mau. do total e do parcial. do depressivo
e do paranóide e. finalmente. do amor e do ódio. Os adeptos correm o risco de
utilizá-los mecanicamente. como as peças destes jogos de construção, nos quais.
com o auxílio de. um mínimo de elementos conjugáveis. de oposições binárias. poder-
se-ia reconstruir o mundo. Encontramos aqui a tentação construtivista dos kleinianos
que é sempre. apenas. uma forma do hegemonismo psicanalítico. Mais uma vez
trata-se de converter a psicanálise ·em psicologia universal. Entretanto. para dizer
a verdade. estes pares de opostos são bem mais interessantes do que o uso dogmático
que se pode fazer deles. É preciso interpretá-los. fazê-los trabalhar. mostrar que
por trás do seu caráter mecânico se processa uma dialética.
Tomemos o par interiorização - prqjeção tão freqüentemente utilizado sem
pensar. Nossa primeira interrogação seria: como pensá-lo sem coloca r previamente
a questão: interior e exterior de quê? Do organismo? Do Ego? O que levanta.
então. todo o problema da constituição do Ego como espaço. como limite. Isto
quer dizer - como V8remos mais adiante - que o jogo paranóide de introjeção
e de projeção só pode ser correlativo de uma certa constituição de uma totalidade.
isto é, de um elemento essencial da posição depressiva.
Mas. sobretudo. cabe questionar fundamentalmente a aparente simetria. o jogo
incessante de pinguepongue. no qual se encontra presa para Klein esta oposição:
a projeção sendo continuamente seguida de uma introjeção. e assim infinitamente.
Lacan teve o mérito de levantar esta objeção: não há uma dissimetria absoluta entre
o que se chama introjetar - pôr para dentro - e projetar? A idéia. presente
em Freud desde o início. do corpo estranho interno leva-nos a privilegiar a introjeção

56
como processo constitutivo fundamental. A intrqjeção deve ser compreendida à luz
dos processos descritos por nós como traumatismo em dois tempos ou como seduÇão
9riginária. A introjeção originária não é o recalcamento. mas seu primeiro tempo.
E a introdução de "significantes enigmáticos", que o recalcamento isolará num segundo
tempo. Digo "significantes enigmáticos" para mostrar bem que o universo de signifi-
cantes inconscientes absolutamente não é transmitido à criança "como uma lingua-
gem".
Falamos sobre a introjeção a propósito da análise de crianças para indicar
seu caráter fundador na constituição do mundo interior. mas também da própria
pulsão. Trata-se de algo muito diferente de um mecanismo de defesa, ainda que.
secundariamente. possa aparecer como mecanismo de defesa. e entrar. então, numa
certa simetria com a projeção.
Examinemos agora a oposição "bom-mau .. a qual. entre todas, é talvez a menos
bem pensada por Klein. Sem dúvida os termos são postos entre aspas; mas o que
não se questiona é uma certa normatividade. O bom deve triunfar do mau. Ora.
antes de colocar assim o objetivo de uma cura. é necessário perguntar-se se "bom"
e "mau" não implicam um ponto de vista unilateral. É "bom", nos diz Melanie
Klein. o que leva à síntese. e "mau" o que divide. dispersa. Ora. tal ponto de vista
só pode ser o cje um órgão. ou mesmo de um organismo de síntese. isto é. o
próprio "Ego". Inversamente o que é mau para o Ego só pode ser, definitivamente.
a pulsão. pulsão que, por definição. põe em perigo o equilíbrio homeostático do
Ego.
Aproximemos um instante esta oposição "bom-mau" do problema da "neutra-
lidade benevolente". Na benevolência analítica, qual é o bem a que visamos? É o
bem do Ego. e unicamente do Ego? Ainda aqui um mínimo de pensamento dialético
seria indispensável para mostrar como "bom" e "mau" não são simplesmente produtos
de um splitting absoluto, mas também que se transmutam um no outro. segundo
a posição do sujeito e sua adesão mais ou menos marcada aos objetivos do Ego.
A dupla total-parcial pode por sua vez servir uma perspectiva puramente constru-
tivista numa compreensão irrefletida do kleinismo. Este é o caso quando total e
parcial referem-se unicamente à oposição do corpo como totalidade e das partes
do corpo. A partir de Já apresenta-se naturalmente a idéia de que o total deve
se construir a partir do parcial. idéia esta que toda psicologia genética. fundada
sobre a observação. repudiaria. aliás. Mas a questão deve ser aprofundada: ainda
aqui não haverá uma dissimetria profunda? A parte não é uma parte do todo:
pertence a um outro registro. Constitui um elemento -freqüentemente metonímico
-tomado como signo. como índice. Mas nada impede que um corpo. no seu conjunto,
possa ser ele próprio tomado como um índice. E. inversamente. uma parte pode
ser tomada como um objeto total. É bem o que Klein viu quando afirmou: o seio
bom. enquanto bom. é um objeto total; de tal maneira que o sentimento a seu
respeito pode ser de culpabilidade. assim como em relação à pessoa da mãe.
Sobra-me pouco para apresentar a última dupla de opostos: paranóide-depres-
sivo. a não ser para ressaltar que se trata. certamente. da dupla mais fecunda de

57
Klein. Fecunda pela idéia de posição, que ultrapassa. explicitamente. toda redução
em termos de cronologia. Fecunda pela complexidade dos elementos em jogo. pois
que todas as duplas precedentes aí se encontram. Fecunda. pois Klein nunca deixou
de requestionar a oposição esquemática do paranóide e do depressivo, para fazê-los
trabalhar um em relação ao outro. Cada vez mais. as duas posições aparecem como
correlativas. Finalmente a fase paranóide, o ataque pelo parcial e pelo mau. só se
concebe em relação a uma totalidade - mais ou menos completa - que recebe
e contém o ataque. Inversamente, a angústia puramente depressiva, a da perda
do objeto. nunca se define como puro vazio. pura perda. Não existe simbolização
da ausência que não tenha tido que encarar o retorno do objeto sob a forma de
objeto mau. Assim. como chega a dizê-lo Melanie Klein. a oposição das angústias
paranóide e depressiva acaba por se tornar apenas um conceito limite. Toda angústia
é, do ponto de vista do seu processo. ao mesmo tempo paranóide e depressiva.
Seria preciso. no entanto, ir mais longe para mostrar que o problema da constituição
ou, mais exatamente. da ancoragem do sl.jjeito. é o que as diferencia. Ancoragem
relativa do sujeito que caracteriza a fase depressiva e que só ela permite. de forma
paradoxal. levar em consideração a sobrevivência do objeto. Ancoragem que só se
concebe como correlativa do processo de recalcamento e da constituição do incons-
ciente.
É preciso. portanto. queimar Melanie Klein? Volto à minha questão inicial. É
preciso mesmo enterrá-la correndo o risco de vê-la voltar. mais uma vez. sob uma
forma incontrolável. como um objeto mau?
Lembrarei. de passagem. o que Hegel descreve como luta à morte de consciências.
como pura e simples exclusão de um desejo por um outro. o que Hegel não viu
é que não há luta à morte que não engendre a volta de fantasmas. Em compensação,
o que ele descreveu bem é a outra saída. a solução dialética: a luta de consciências
vira dialética do mestre e do escravo. e sabe-se que. finalmente. é o escravo. pelo
seu trabalho paciente. que será vitorioso.
Assim ocorre com Melanie Klein; ao invés de bani-la, de exorcizá-la. peÇamos-lhe
que trabalhe. forcemos seu pensamento e sua obra a trabalhar. Perceberemos. então.
que o trabalho de toda grande obra psicanalítica se sobrepõe em certos aspectos.
se entrecruza com o trabalho de uma outra obra. Para além de todo ecletismo.
é a este trabalho. a esta sobreposição paciente das exigências. que nossa época
deveria. no meu entender. se consagrar. Qualquer que seja o ponto de partida.
todo trabalho de um pensamento psicanalítico encontra o de um outro pensamento.
sob condição que se trate de pensamentos verdadeiros e de um trabalho verdadeiro.
Ao final da conferência, me foram apresentadas duas questões. que apresento
aqui. A primeira é sobre as diferenças que encontro entre a concepção da pulsão
de morte em Freud e em Melanie Klein. Penso que a concepção de Freud é a
mais profunda do ponto de vista da exigência teórica pelo fato de colocar no primeiro
plano o que chamo de tempo auto: quer dizer. o fato de que a pulsão de morte
trabalha primeiramente no interior, e contra o próprio Ego. Ao contrário. Melanie
Klein desenvolve clinicamente a descoberta de Freud. mas sem se dar conta que

58
era necessário partir do tempo auto. Somente nos seus últimos textos. especialmente
naquele sobre a angústia, que trata de alcançar a concepção freudiana. mas creio
que ela o fez de forma imperfeita. Do meu ponto de vista. é através de um conceito
como o de introjeção primária, isto é, um processo que transforma os objetos externos
em objetos internos completamente diferentes e atacantes que se pode encontrar
a articulação entre a pulsão de morte de Freud e o pensamento de Melanie Klein.
A segunda. a propósito do mundo interno, o que é que rege o destino? A
introjeção? A projeção? Certamente. para Melanie Klein, a idéia é que a projeção
é que é primária. E quando aparece esta idéia. a concepção correspondente da pulsão
é tal que não podemos nos satisfazer com ela; isto é. uma pulsão que não seria
ligada a objeto nenhum. que seria uma pura força biológica. Na minha opinião,
o único momento em que vejo aparecer a pulsão é quando o objeto se cliva; não
exatamente no sentido de clivagem bom-mau. mas porque se deposita, a partir
do objeto de autoconservação. um significante que está em relação metafórica ou
metonímica com ele. Evidentemente não falo aqui de significante de linguagem.
e nisto me distingo absolutamente de Lacan. Tenho tendência a aproximar a idéia
de introjeção primária e de sedução primária. Em Freud também encontramos esta
noção originalmente. de uma espécie de depósito anterior ao recalcamento; uma
espécie de interno-externo que se torna. ao mesmo tempo. excitante e atacante
para o Ego. Não sei se satisfiz à pergunta: de qualquer modo, fazer trabalhar Melanie
Klein é evidentemente fazê-la sofrer. torturá-la e. evidentemente. ela não estaria
de acordo com o que eu digo aqui.

59
REPARAÇÃO E RETRIBUIÇÃO PENAIS:
UMA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA*

O presente texto não poderia propor uma teoria psicanalítica da pena. ou da


sanção penal. nem mesmo destes aspectos particulares que são a retribuição e a
reparação. A psicanálise é claramente mais modesta. e talvez também mais pretensiosa.
Mais modesta em extensão. no sentido de não poder enunciar uma teoria unitária
do social. nem. por conseguinte. deste aspecto fundamental do social que é a lei.
Modesta igualmente em "intenção". pois não poderia substituir-se a uma teoria
ou. até mesmo. a uma técnica da normalidade e do direito. Entretanto. mais ambiciosa.
pois a psicanálise quer abranger tudo com o seu olhar. um olhar freqüentemente
crítico. Sem ser tudo. está em toda parte. assim como dizemos que a sexualidade
está em tudo sem ser tudo. o que significa precisamente nossa noção de "panse-
xualismo".
Por outro lado. a psicanálise não é uma disciplina norm';Jtiva. a não ser. talvez.
no negativo. Ela pode ajudar a descobrir e a denunciar certas vias de alienação.
mas não traçar o caminho da liberdade.
Concretamente. minha relação pessoal com o problema da pena é tripla. O
primeiro contato que tive foi minha experiência psiquiátrica num departamento bem
conhecido dos juristas e psiquiatras. o famoso departamento de alienados criminosos
(não sei se ainda o chamam assim atualmente) "Henri Colin" em Villejuif. É preciso
dizer que o mundo 'psiquiátrico. visto de dentro. é algo exemplarmente instrutivo.
ao mesmo tempo que aterrador. com seu caminho utilitário e seus engodos. o
que é. na verdade. uma experiência insubstituível.
O outro local é. evidentemente. minha experiência psicanalítica e a multiplicidade
de formas do sentimento de culpabilidade. a universalidade da culpabilidade. mesmo
• Texto baseado na conferencia proferida no Centro de Filosofia do Direito da Universidade de Paris.

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se esta estiver inserida num conjunto de outros afetos conexos. que se pode chamar
vergonha. inferioridade. desonra. Variantes que traçam as fronteiras da culpabilidade.
ao mesmo tempo que se contaminam com ela.
Enfim. determinada reação me fez intervir. em um certo momento. em um
debate atualmente ultrapassado. pelo menos sob a forma da discussão, sobre a
extinta pena de morte: subitamente apareceu-me a universalidade do raciocínio utilita-
rista. ao mesmo tempo odioso nos seus objetivos manipulatórios e pueril nos seus
meios. embora tenhamos medo de que a puerilidade ceda pouco a pouco seu lugar
a uma conduta odiosa.
Em vez de uma concepção psicanalítica. gostaria. portanto. de apresentar alguns
pontos de referência psíquicos e algumas reflexões de um psicanalista sobre a pena.
Meu primeiro ponto será o seguinte: a pluralidade do indivíduo humano. Certa-
mente me dirão que não é novidade: a bela e a fera. Doutor Jeckyll e Mr. Hyde.
ou ainda a voz da consciência individualizada como tal. a voz da consciência moral.
Entretanto. a psicanálise levou esta pluralidade ao extremo. bem além da simples
consideração da uma complexidade de cada um de nós. A psicanálise descreveu
primeiro uma cisão. como se sabe. entre o consciente e o inconsciente que leva
a uma verdadeira oposição no psiquismo. Mas Freud e os psicanalistas não pararam
aí. A cisão do consciente e inconsciente era um sistema finalmente bastante abstrato.
mecanicista. ou. como se diz. "psicologizante". Ora. chegamos a uma concepção
que designo como "antropomórfica". e devo dizer que uma de minhas manias é
precisamente martelar a verdade do antropomorfismo. querendo dizer com isto
que a pessoa ps[quica é verdadeiramente múltipla. que abriga nela várias pessoas.
várias posições pessoais que estão em relação e em conflito umas com as outras.
É através da descoberta da identificação que se confirmou esta expressão muito
antiga de Freud sobre uma "pluralidade de pessoas psíquicas". Que quer dizer isto?
Quer dizer que somos constituídos a partir do modelo do outro e dos outros; o
que se chama Ego - mesmo que se queira pretender que ainda tem qualquer
coisa a ver com um sujeito autônomo e racional - está ele próprio fundado sobre
identificações parentais: com mais razão ainda. o Superego. o que chamamos cons-
ciência moral. uma vez que foi a partir da redescoberta desta voz da moral que
a "pluralidade das pessoas psíquicas" pouco a pouco se impôs. Enfim. em nós existe
alguma coisa ainda mais estranha. que chamamos ld. sem dúvida muito vagamente
uma pessoa: como uma "coisa" em nós mesmos que nos empurra. com a qual.
às vezes. nos identificamos e que. de todo jeito. pede. exige a palavra.
Então acreditamos que facilmente podemos nos orientar: numa interpretação
meio simplista. propõe-se o Superego como a lei interiorizada. o ld são os instintos
e quanto ao Ego é. evidentemente. a racionalidade. Pois bem: é preciso ir mais
além. é preciso perceber que esta pluralidade de pessoas psíquicas se faz acompanhar.
na realidade. de uma pluralidade nas ou de uma ambigüidade nas pessoas psíquicas.
Falar do Superego como de uma instância unitária é ignorar que. na realidade.
ele próprio se desdobra em aspectos que são de atração. de fascinação. e que chamamos
ideais. assim como aspectos pura e simplesmente de interdição. enunciando ou Jem-

61
brando o que não devemos fazer. Freud mostrou que a lei do Superego é tirânica
pelo fato de ser contraditória: o pai diz ''deves ser como eu··. e. ao mesmo tempo,
"não serás como eu". Enfim. de outro ponto de vista, podemos situar ainda, no
Superego, uma clivagem mais essencial: se, de uma forma evidente, ele se situa
do lado da lei (quer se trate de interdição ou, mesmo, de ideal), não se pode negar.
ao mesmo tempo, que a maneira pela qual nossa consciência moral age para conosco,
a maneira pela qual nos tortura. às vezes, a situa também do lado pulsional: o
Superego, dizemos. é também uma instância sádica.
Esta dualidade ou esta ambigüidade não é menor no que concerne ao ld; para
uma primeira aproximação, freqüentemente se apresenta esta ''instância" como repre-
sentando a natureza em nós: os instintos ou pulsões, afirmamos, são nosso ser
biológico: no entanto. percebemos, estupefatos, que esta pseudonatureza é muito
pouco natural: as pulsões, ao contrário, drenam toda a sua força e sua eficácia
das razões culturais e, principalmente. de nossas relações com nossos primeiros
objetos humanos que evidentemente são nossos pais. Existe aí, então. tanto a propósito
do ld como a propósito do Superego, uma curiosa inversão. ou pelo menos uma
curiosa ambigüidade, cada um dos dois estando, ao mesmo tempo, ao lado da natureza
e da cultura: e insistimos, de bom agrado, talvez por paradoxo atualmente, no fato
de que o Superego está freqüentemente do lado do mais instintivo, do mais pulsional,
e o ld, eventualmente. do lado do mais cultural.
Agora. uma palavra sobre a culpabilidade. Aí também há uma primeira aproxi-
mação da psicanálise, e depois o que a psicanálise descobre pouco a pouco, tanto
em seu movimento histórico como em cada uma de nossas psicanálises. e que é
muito menos simples e muito menos tranqüilizante.
Afirmar-se-ia, em um primeiro tempo, que a psicanálise existe para descobrir
a culpabilidade, mas também para livrar-nos dela, como de um erro, ou de uma
falsa impressão, ou eventualmente de um anacronismo: talvez nos sintamos culpados
de crimes que são simples pecadilhos, ou, em todo caso, de crimes que não são
mais presentes, crimes de criança. que aumentamos à distância. Rois bem. se nos
reportarmos à cura de um dos grandes "culpados" da psicanálise, quero falar do
''Homem dos ratos", grande culpado, homem da dívida, uma dívida impossível de
resgatar, perceberão qué o cáminho de Freud -é bem éuriÓso. Trata-se (como em
uma anedota engraçãda, mas meio azeda que às vezes se conta) de dizer ao Homem
dos ratos: ··você se sente culpado e trata-se de descobrir por quê": não "você está
errado em sesentir culpado", mas "você tem razão de se sentir culpado, e há
um crime a ser descoberto". E ainda mais: aqui o Homem dos ratos está realmente
encerrado: o .!Iime a_ser descoberto_é_ finilli"T)gnt~_JJI]_frj_mg_de pensamento, um
crime de desejo,. e deste crime, de qualquer maneira, não.se~j)ãr;-pois
todo péi)SámentÓ do_ crime é () próprio crime. Trata-se, evidentemente, no caso
do Homem dos ratos e para Freud, do assassinato do pai, do desejo de morte
do pai.
Então. seguramente, a culpabilidade está para nós situada, relativizada e inserida
na série das "angústias": é uma angústia entre outras, a angústia moral. a angústia
social, talvez a angústia de castração. e a culpabilidade seria uma delas. Ou ainda,
62
como indiquei há pouco, pode-se situá-la entre outros sentimentos bastante próximos,
e penso que uma psicologia da vergonha, uma psicologia da desonra ou, ainda,
uma psicologia da inferioridade, tem interesse em se destacar de uma psicologia
da culpabilidade.
No entanto, a psicanálise reserva um lugar à parte para a culpabilidade, e
se relerem Mal-estar na ciVilização verão como Freud tem dificuldade de lidar com
ela. sendo forçado a voltar continuamente: retomemos novamente a questão, não
se consegue ... com esta franqueza que caracteriza o procedimento do fundador
da psicanálise. A culpabilidade tem um lugar à parte porque está ligada ao crime,
de uma certa forma, para Freud o crime é consubstanciai ao ser humano, o crime
número um sendo evidentemente o de Édipo, o crime do próprio Édipo, isto é,
a morte do pai: crime impossível de evitar. pois ocorre. na criança como no inconsciente,
uma identidade absoluta entre o pensamento e o ato.
A partir daí, a partir do Édipo e do des~o de matar o pai, existe um caminho,
sem dúvida fácil demais. Como o outro mostrava por que sua filha é muda, demons-
tra-se facilmente por que seu filho é culpado: a angústia ou o medo do castigo,
e igualmente a angústia da perda do amor - isto é, a angústia não somente de
ser castigado pelo pai por seus desejos, mas também a angústia da perda do amor
do pai, pois é preciso não esquecer que os sentimentos são todos ambivalentes
e que o sentimento pelo pai é feito igualmente de amor e de ódio -, pois bem,
esta angústia, num segundo tempo, seria interiorizada, precisamente em angústia
de perda do amor de - ou de ser castigado por - esta instância interna que
é, segundo Freud, herdeira do complexo de Édipo, ou s!l]a, o Superego.
Dizia que é um pouco simples e um pouco fácil pois estamos aqui bem próximos
de uma certa teoria da amostragem: as interdições externas são primeiramente
recebidas como tais e depois. num segundo tempo, interiorizadas. Mesmo se admitís-
semos este esquema - que nos chega de psicologias inspiradas na análise - seria
preciso ainda perguntar o que se torna a interdição, quando passa do exterior (lei
dos pais) ao interior (a lei do Superego). Que se torna, então, a assimilação do
pensamento ao ato? Como se "negocia", no adulto - e sem dúvida de forma
diferente em cada adulto -, a culpabilidade da intenção criminosa e a do crime
efetivamente perpetrado?
Mas, no seio do movimento analítico. a objeção maior a uma tal concepção
veio de um outro horizonte: o da experiência clínica. Rapidamente os analistas perce-
bem que o esquema de amestramento edipiano - isto é, que as interdições encon-
tradas primeiro na família seriam em seguida transformadas em lei interior -
é difícil de aplicar. Constata-se, sobretudo, que a culpabilidade só raramente é propor-
cional à severidade parenta!: com freqüência, ela é inversamente proporcional. Esta
é uma descoberta à qual ficará ligado o nome de Melanie Klein e a qual o próprio
Freud, no fim de sua vida, teve de considerar. A partir daí, nada mais funciona,
pois o Superego não é o herdeiro direto da fonte de interdição externa.
Então só restam duas possibilidades: uma é a de voltar a um esquema arcaico,
filogenético: é a criação de um grande mito que é o da "horda primitiva", ou seja,
que a interdição interna. o Superego, mas também a interdição externa, o próprio
63
pai, seriam apenas as herdeiras de um esquema pré-histórico, hipoteticamente trans-
mitido pela filogênese. o do assassinato atávico. Neste sentido, observe-se que estabe-
leço uma certa distância. não fazendo parte daqueles que tomam por uma verdade
histórica este mito que Freud, aliás, denomina como tal. Penso que todos os mitos
devem ser interpretados e, por conseguinte, que é preciso ultrapassar o mito.
A outra possibilidade é ainda mais estranha; diria que se trata da teoria endógena
da culpabilidde. Proponho uma inversão extraordinária. Para resumir em algumas
palavras: a culpabilidade seria simplesmente uma modalidade de angústia. talvez
uma primeira maneira de fazer um pacto com a angústia: e a própria angústia
seria o correlativo do ataque pulsional interno, o ataque que nossos des~os dirigem
continuamente contra nós. no sentido que nos atacam e nos submetem a um questiona-
mento. Neste ponto de vista que, finalmente. também deve alguma coisa a Melanie
Klein, a angústia é coextensiva ao inconsciente. E a culpabilidade. os crimes, a dialética
de crimes e castigos seriam secundárias em relação a esta angústia primordial. secun-
dárias a este momento primeiro de humanização que é o surgimento simultâneo
da pulsão e da angústia; finalmente. poder-se-ia dizer que a culpabilidade já está
no caminho da simbolização. Poder-se-ia sustentar que o próprio "Édipo" já seria
uma primeira tentativa para controlar uma angústia em si mesma destrutiva e anár-
quica, uma maneira de controlar esta angústia dando-lhe personagens. inserindo-a
num cenário. Neste sentido, o Édipo seria o primeiro crime por sentimento de culpa.
Sabe-se bem quanto, desde Aichhorn e Freud, foi retomada esta idéia de que certos
criminosos só atuam para dar corpo ao seu sentimento de culpa. Pois bem, Freud
não desconfiava que. \lnalmente. seria possível se aplicar este esquema ao próprio
crime edipiano. Não é o complexo de Édipo que cria o crime. mas a culpabilidade
ou. antes. a angústia que sente a necessidade de se controlar num cenário que
seria o cenário edipiano. o que pode ser enunciado de uma forma um pouco diferente
partindo do que chamamos "castração". Sabemos que os psicanalistas consideram
a ameaça de castração como aquilo que vem selar o complexo de Édipo e sancionar
a interdição de incesto. Pois bem: o medo da castração correlativo desta ~ameaça
não seria puramente negativo. Teria uma função positiva. tranqüilizante ou. pelo
menos, estabilizante: a de transformar uma angústia inominável em um medo, este
perfeitamente delimitado; a ameaça de uma destruição absoluta, de uma perda de
si mesmo, transformando-se no risco. terrível mas limitado. de ter de sacrificar
uma parte pelo todo.
Quis fazer sentir esta correspondência entre o mundo do crime e o mundo
de cada um de nós. O castigo não coloca um juiz diante de um criminoso. mas
coloca cada um de nós como juiz e como criminoso. E o juiz, o Superego. ele
próprio se desdobra geralmente em justiceiro e sádico.
Ainda estamos no palco interior. Podemos passar ao exterior? Para isso. gostaria
de aludir. primeiro, ao que se chama, em psicanálise. de necessidade de punição
e ao que talvez em Filosofia do Direito poder-se-ia chamar de necessidade de justiça
ou sentimento de justiça. Estes conceitos parecem superficialmente se opor. um
como tendência estranha, patológica. a submeter-se ao castigo. enquanto que o
sentimento de justiça se aplicaria mais espontaneamente à exigência que o outro
64
seja punido. Contudo, esta oposição do sádico e do masoquista - de punir e de
ser punido - se revela pouco pertinente se levamos a sério o que lembramos
a propósito da "pluralidade das pessoas psíquicas". O que, antes. me interessa. nas
duas expressões. é a noção de necessidade. necessidade esta que alguma coisa se
passe finalmente no real. Necessidade de punição e necessidade de justiça postulam
esta passagem ao real. É preciso que apareça qualquer coisa que não fica mais
no que eu chamei de inominável do pulsional.
A necessidade de punição é, enfim. de ser sancionada, de forma clara e precisa.
por um ato: ou. mesmo. nem por um ato! É de criar um ato para que a própria
pulsão encontre seu limite. Se necessário. é preciso. mesmo. cometer o crime. ou
simplesmente o furto; conhecemos isto na psicanálise de crianças. sabemos o quanto
os delitos familiares. principalmente os das crianças. são na realidade apelos, apelos
ao amor e à punição que são talvez, neste momento, indiscerníveis. Já lembrei
aqui o trabalho totalmente inaugural de Aichhorn que foi o primeiro a evidenciar
esta noção da criminalidade pela necessidade de punição. Quanto à necessidade de
justiça, ele postula que uma vez que as coisas tenham passado à "efetividade" -
para falar como Hegel - existe uma lei possível. pode-se circunscrever o inominável.
Do encadeamento sem fim de crimes e de ódios, passa-se a algo que, pode se
dizer, pode ser legislado. ainda que pela lei de talião.
O psicanalista só trabalha na realidade psíquica. Postula. portanto. a igualdade
da fantasia e da realidade, no que se encontra. evidentemente. desqualificado para
legislar fora. para dar conselhos fora do seu consultório. Um homem mata outro,
de automóvel. na estrada. Para o psicanalista. quaisquer que s~am as circunstAncias,
a questão do assassinato está aberta e assim deve continuar; nossa função é mesmo
abri-la imediatamente. Tanto assim que. no momento em que se passa à realidade
efetiva. o psicanalista só pode emitir opiniões parciais. opiniões completamente conjec-
turais sobre as articulações do seu domínio e o da justiça.
Gostaria, entretanto, de apresentar rapidamente algumas impressões sobre cer-
tas noções de grande relevância à reflexão do tema sobre o qual ora discorro.
a noção de utilitarismo. Refiro-me à exposição rápida, mas. é preciso que se o
diga. magistral de Pierrette Poncella em pequeno opúsculo tão rico e tão denso
sobre "O Útil e o Justo". Refiro-me à sua crítica. não menos pertinente. da sua
imoralidade, o homem sendo tomado como um meio por um outro, e a pena decidida,
como se diz, no cardápio, em função da eficiência. E me refiro também à crítica
do seu caráter finalmente contraditório. Mas que pode acrescentar o psicanalista?
O psicanalista pode acrescentar que há uma verdadeira puerilidade do bentha-
mismo, esta aritmética dos bens e dos males. e. mais ainda, de uma aritmética
transindividual: como se pode somar o bem de um e o bem de outro. subtrair
o bem de um do mal do oútro? Certamente o psicanalista está um pouco mais
armado para interpretar o que diz Bentham. na medida em que ele mesmo supõe
uma espécie de transindividualismo das pessoas psíquicas. Mas o psicanalista vai
se perguntar por onde se efetua a passagem de um indivíduo a outro, por onde
passa esta aritmética. por que instáncias passam estas equações. Passam pelo ld?
Trata-se de mais pena para o ld? Trata-se de mais pena para o Ego? Ou mais
65
felicidade para o Ego? Ou ainda, para o Superego? Por que instância passa a aritmética
benthamiana e, sobretudo, por que meio? Evidentemente. ela passa por meio da
representação. A representação foi muito criticada durante estes últimos anos. Não
misturo minha voz a estas críticas. pois a psicanálise só se movimenta na representação;
move-se na fantasia, mas ao mesmo tempo radicaliza a representação. O que a
psicanálise mostra é que a representação não é pura e simplesmente a realidade
diminuída à qual se anexou um coeficiente atenuador que até poderia ser calculado,
nem mesmo. diria. de um coeficiente multiplicador. Certamente o coeficiente seria
antes multiplicador que atenuador, quando se passa da realidade da pena à represen-
tação e à fantasia. Mas. para dizer a verdade, é insuficiente. A passagem à fantasia,
para o psicanalista. estâ ligada á interiorização e nos faz passar a uma outra ordem:
o que chamamos a sexualidade. a ordem da excitação sexual. O que era em princípio
cálculo dos bens e dos males de um ponto de vista puramente utilitarista, torna-se-ia.
neste momento, cálculo de excitações. A fantasia é traumatizante porque é interna.
é excitadora e incitadora. Para a psicanálise. o homem não é apenas o ''homem
útil". segundo a expressão empregada para designar Bentham. O homem não é
apenas o "'homem útil"' para a psicanálise: o homem útil. o homem da autoconservação.
ou da adaptação existe junto com o homem pulsional ou, digamos. sexual. O homem
vive e age pelo amor. pelo ódio de... Vamos desencorajar o alpinista mostrando-lhe
as dificuldades e os riscos do pico que pretende conquistar? Vamos convencer o
jogador mostrando-lhe os riscos de perda ligados ao bacará ou à roleta? Há uma
inversão de valores e atrações quando se passa da autoconservação ao sexual. Neste
sentido. o utilitarismo absolutamente não leva em conta o elemento pu/sional no
sentido em que o entendemos, o elemento pulsional do delinqüente. Esporte do
fraudador capaz de integrar mesmo a multa no seu cálculo. ou esporte do audacioso.
Finalmente, muitos delinqüentes (não digo todos). mais do que delin!ijüentes
por sentimento de culpa. poderiam ser listados na categoria do que chamamos.
às vezes. traumatófilos. isto é, pessoas para as quais o próprio traumatismo gera
excitação. ou ainda do lado dos ''filobatas"', tomando como referencial uma oposição
caracteriológica proposta por M. Balint. entre os que ele chama "'ocnofílicos". isto
é, que se agarram ao que possuem, e os "filobatas", as pessoas que. ao contrário.
caminham na corda bamba: evidentemente. os delinqüentes estariam. antes. do lado
dos filobatas. O ser humano propenso à atuação é um filobata. e isto evidentemente
destrói todo cálculo utilitarista. salvo talvez para alguns raros delinqüentes puramente
utilitaristas.
A noção de exemplariedade. Não sei bem se a compreendo tal como. tecnicamente.
é empregada em Filosofia do Direito. mas vejo. neste termo. dois aspectos e não
somente um.
Um ligado ao utilitarismo: a intimidação. para citar Pierrete Poncela. é preciso
que a pena real seja aparente. Ora. é aí que a crítica pela representação é fundamental.
pois a aparência. o que aparece, o que é representado. é introjetado. e pelo fato
de ser introjetado e de agir doravante ao interior. torna-se outra coisa. Um outro
aspecto da exemplariedade me parece muito mais profundo. Não é o exemplo da
pena como intimidante ou dissuasiva, mas a certeza de que. pelos menos uma vez.
66
o delito teve seu castigo, que em algum lugar existe uma justiça. Para explicar
isto, gosto de me referir aos postulados kantianos da razão prática, uma vez que
Kant pretende "'provar" a imortalidade da alma através desta exigência. desta necessi-
dade que em alguma parte. enfim. os crimes recebam castigo, e as boas ações
sejam recompensadas. Chegar a provar a imortalidade da alma por um tal postulado
é um ato de fé extraordinário, e penso que na idéia de exemplaridade existe este
ato de fé. Esta exemplaridade endereça-se não somente ao delinqüente, real ou
potencial, mas a todo ser humano. é um elemento do que chamo simbolização ...
Quanto ao tratamento ou à punição. quer se queira ou não, este pedido de
tratamento para os delinqüentes é uma variante do utilitarismo, com seu duplo
aspecto: odioso e ridículo. Poder-se-ia fazer alusão, trata-se de uma imagem mas
ela não é tâo má assim como apólogo, do famoso filme "Laranja Mecânica"'.
Odioso. pois a via psiquiátrica. apesar do álibi terapêutico. permanece uma
via penal puramente utilitarista. Refiro-me. aqui. à minha experiência no Henri Colin.
tal como era há vinte anos atrás. mas duvido que os dados tenham mudado completa-
mente. Naquela época, o laudo dos peritos e daqueles que esperavam mostrava
bem que a via "terapêutica"'. a via psiquiátrica era buscada por razões de comodidade
e de utilidade social. Uma utilidade da qual os experts não hesitavam em se declarar
especialistas e guardiães! Era o mais desumanizante dos caminhos! Doravante. nega-se
ao delinqüente a certeza de uma pena pronunciada e fixada. para ser submetido
à incerteza total. à arbitrariedade absoluta dos médicos, que são seus únicos senhores.
É um caminho odioso. pois freqüentemente irreversível, no sentido de que, uma
vez entrando na via psiquiátrica (ainda que pela ação dos seus próprios advogados!).
não há mais possibilidade de voltar a uma via puramente penal.
Mas digo também "caminho ridículo"'. pois seguidamente se trata de um álibi.
talvez dos especialistas. mas. sobretudo. dos não-especialistas, de pretender tratar
a delinqüência. A delinqüência não é uma doença: em todo caso não é uma doença
unívoca. Certamente existem certas delinqüências demenciais. mas, mesmo nestes
casos, podemos nos perguntar se o caminho de uma total irresponsabilidade é o
melhor. Mas o mais freqüente é que se possa afirmar que a delinqüência faz parte
de um destino ou. se quisermos. mas no mais profundo sentido. de uma doença
da personalidade. Tratar um destino "desdestinando-o". tirando sua seriedade. é
evidentemente uma contradição absoluta.
A via psiquiátrica. como alternativa à via penal, é uma outra via penal que
não quer dizer seu nome. Em todo caso. a psicanálise não poderia tomar o lugar
da via psiquiátrica. por ser ela. psicanálise. totalmente fundada sobre a responsabilidade
e o reconhecimento da responsabilidade.
Traçarei. agora, algumas considerações sobre a reparação. noção que aparente-
mente estabelece uma ponte entre penalistas e psicanalistas. mas talvez com equívocos.
Assim, em psicanálise. a noção de reparação foi introduzida pela grande continuadora
e inovadora de quem já falei: Melanie Klein. Para ela, de forma diferente de Freud.
conviria colocar uma prioridade da agressão. Já tive ocasião de mostrar que esta
diferença não é tâo essencial como parecia, e que talvez Melanie Klein falasse. a
propósito de agressão. de uma coisa que não é muito diferente do que Freud falava
67
em termos de sexualidade. Sabemos. também, que Klein parte de uma visão da
evolução da criança que designa como uma sucessão de "posições". termo muito
mais interessante do que "fases", pois estas posições pode ser reabitadas. reinvestidas
em qualquer idade da vida. e não são definitivamente ultrapassadas como as fases.
Melanie Klein opõe, na evolução do sujeito e da sua "agressividade", dois tipos
de posição: a posição ditaparanóide. onde se trata de uma atividade psíquica puramente
destrutiva, o caos da agressão e da contra-agressão, dos objetos parciais que se
atira na cabeça do outro. que o atacam. que o destroem. sem que se saiba. mesmo.
talvez. quem é destruído. Em compensação, a posição que ela chama depressiva
nos aproxima do problema da reparação. Supõe que o sujeito percebe-se a si mesmo
como uma certa unidade e percebe igualmente seu objeto. isto é, o genitor ao
mesmo tempo amado e odiado. digamos a mãe. como uma totalidade. Nesta "posição
depressiva" subsiste. todavia. uma tendência a despedaçar este corpo total da mãe.
talvez tanto por amor como por ódio. E evidentemente a angústia de culpabilidade
é inseparável deste quadro, pois o sujeito se constitui a si mesmo por identidade
com o outro: destruir seu objeto é, evidentemente. uma forma quase automática
de destruir-se a si mesmo. não somente destruir-se a si mesmo arriscando-se a
ser destruído pelo outro - o que seria pura e simplesmente uma vingança do
outro - mas destruir-se a si mesmo porque o outro é a única maneira para o
sujeito de se manter como uma unidade. Correlativamente a esta culpabilidade -
culpabilidade de destruição do corpo materno - Melanie Klein nos descreve um
momento que é de reparação ou de restituição. O que é reparar? O que é restituir?
É. evidentemente. supor que o corpo da mãe sai. enfim. vitorioso dos ataques e
deste desejo de destruí-lo. que é o des~o da criança. Mas esta reparação apr~senta.
para mim. um duplo aspecto. E é por isso que a noção de reparação deve ser
utilizada com precaução. Um aspecto pura e simplesmente patológico. isto é, que
esta reparação se torna uma espécie de trabalho sem fim: aquilo que se quer destruir
não se acaba nunca de reconstituir, de refazer; nunca se tem certeza de refazê-lo
ou. então. se se tem certeza de refazê-lo. é num sentimento de onipotência. que
é puramente mágico. Ao contrário. uma reparação que se poderia dizer normal
consideraria o fato de que aquilo que se desfez não se pode jamais refazer; levaria
igualmente em conta o fato de que o oQjeto não é todo bom. que ele também
é ambivalente, que pode ser, ao mesmo tempo, bom e mau, sob certos aspectos.
e que o sujeito mesmo não é todo bom ou todo mau. É. enfim, aceitar a idéia
que não se repara fazendo voltar tudo ao status quo ante, mas que se reconstrói
outra coisa, que só se repara construindo alguma coisa de novo. Freud gostava
de citar este coro do Fausto: "Desgraça, tu destruíste este belo mundo. ele cai
aos pedaços. mas agora mais belo, mais belo, tu o reconstróis... "
Há. pois. uma reparação que seria apenas reduplicação. e que finalmente se
choca com a noção de irreparável: o que foi destruído ou o que foi danificado
nunca será reparado. E depois uma reparação que seria reconstrução e invenção.
Alguns procurarão reconhecer. talvez. aí. a oposição lacaniana do imaginário e do
simbólico; mas de minha parte não gosto muito de fixar esta oposição. porque

68
toda reparação está presa entre os dois, entre a nostalgia da integridade e a aceitação
do desastre como incitação a uma nova criação.
Ainda há um termo que eu gostaria de reintroduzir aqui antes de falar na
retribuição; trata-se do perdão. É bem triste que a noção de perdão tenha quase
desaparecido do nosso mundo social. A anistia de contravenções à qual assistimos
periodicamente não passa de uma medíocre caricatura. Proporia, portanto, esta tese
de que qualquer reparação só pode ter seu efeito apaziguador. estabilizador. na
medida em que for mediatizada por um reconhecimento recíproco. na medida em
que, de reparação de alguma coisa. torne-se reparação feita a alguém. o que implica
o perdão do outro. mas também o perdão de si mesmo a si mesmo: evidentemente
poderia me apoiar sobre uma dialética bem conhecida, a de Hegel.
A retribuição: Há dois anos, em um artigo. afirmei que o talião era a aurora
da lei. Evidentemente. esta é uma afirmação que pode parecer escandalosa. O talião
é o olho por olho. evidentemente, além do: serás punido Já por onde pecaste. Observem
que já se encontra aí o esboço de um movimento e de uma evolução. Cortar a
mão que furou o olho já não é mais "olho por olho". Que pode constatar um
psicanalista? É que a retribuição, mesmo na sua origem mais grosseira que. na
verdade. é a de talião. estabelece equivalências; e não poderíamos esquecer que
o ponto de partida das equivalências. no ser humano. é a equivalência dos órgãos:
equivalência do mesmo ou do semelhante (olho por olho); equivalência do "próximo":
a mão pelo olho. Estas equivalências são o pão-de-cada-dia do psicanalista. O sintoma
histérico nos demonstra que és punido por onde pecaste, por onde desejaste; és
cego, de fl)Odo histérico. porque desejaste ver. Estás paralisado porque desejaste
ir a algum lugar. E o sintoma histérico mostra. igualmente, a existência de uma
mobilidade. e é por um "deslocamento"de um órgão a outro que começa a se
estabelecer um jogo de equivalências. Exemplo: o olho para a castração, no mito
de Édipo; Édipo peca pelos seus órgãos genitais e é punido pelo olho; talvez mesmo
se possa dizer que já tinha sido punido antes de ter pecado: através do pé, pelo
qual. recém-nascido. tinha sido pendurado. Pois bem: esta equivalência de órgãos.
na criança. é descrita por Freud como "equivalências simbólicas", termo sobre o
qual os convido a refletir. Freud afirma que as primeiras equivalências simbólicas
são as do seio. das fezes. do pênis e da criança. E o interessante é que o próprio
sujeito humano, nestas equivalências, é tomado como um elemento entre outros.
ao lado das partes do corpo.
A psicanálise é o conhecimento destes deslocamentos e destas equivalências.
E é bem evidente que. em certo nível. ela inclui as equivalências estabelecidas por
todo código penal. desde Hamurabi. A questão para o psicanalista - e também
para ojurista- é saber se existe um último equivalente, se estas equações simbólicas
se justificam ou se simplificam pela posição de uma "medida" universal. Uma resposta
a esta busca de uma "chave universal" pode ser encontrada num certo falocentrismo
freudiano. Entre todos estes órgãos que se equivalem uns aos outros na sua perda,
no fato de serem ou poderem ser cortados. trata-se exatamente de punir alguém
retirando·o, seria o "falo" que viria estabelecer a boa ordem: a medida padrão.

69
se assim podemos dize,-. Esta solução. se existe. inegavelmente não é a única, entre-
tanto. Sabemos que há outras equivalências universais mais próximas da justiça
moderna que não praticam mais a pena da castração. Temos o equivalente dinheiro
e o equivalente tempo: a multa e a prisão. Diz-se que há um fetichismo do dinheiro
em nossas civilizações modernas. mas quem diz "fetichismo" diz. ao mesmo tempo.
uma certa universalização. Esta passagem de um "valor de uso" a um certo "valor
de troca" é uma tentativa de resposta a esta pergunta que é a dos economistas
e também a dos juristas: como quantificar o inquantificável? Como quantificar o
qualitativo? Os economistas se perguntam. pois minha dor ou minha alegria não
podem ser pagas. Mas igualmente os juristas. pois se perguntam como um crime,
uma infração, pode ser "reembolsada" e qual é a quantidade de conta possível.
O que surpreende é uma falta de inventividade da nossa época no que concerne
à retribuição e às unidades de retribuição. Por que sentimos a necesidade de uma
unidade geral de retribuição? A quantificação da pena. se a relacionamos ao aspecto
qualitativo do delito. é impensável em si (como o mostra igualmente a aporia da
reparação. pois o que foi destruído nunca será reparado, mas reinstaurado de uma
nova maneira). O ato é único. E é exatamente sobre esta constatação que se funda
uma filosofia penal que quer "individualizar" a sentença, com o risco de fazer desapa-
recer toda noção de avaliação. Assim como uma economia funcionando sobre o
"valor de uso" seria a negação de toda economia. da mesma forma para uma justiça
que pretendesse sondar apenas os rins e os corações. Pois a necessidade de retribuir.
portanto de quantificar. só se justifica na intersubjetividade. A necessidade de justiça
é também uma necessidade de igualdade. E refiro-me aqui a este 'mito da horda
sobre o qual já disse não lhe reconhecer valor histórico: os filhos que mataram
o Pai selam. por este ato. a existência de uma sociedade "fraternal" onde todas
as precauções são tomadas para que nenhum deles se atribua. doravante. o papel
do tirano. Conhecemos isto em todas as famílias: o ciúme e o sentimento de injustiça
são antes de tudo uma exigência de igualdade ao nível dos irmãos e irmãs.
Voltemos. ainda. à necessidade dejustiça. Deve-se compreendê-la nos movimentos
complexos da identificação e da pluralidade de pessoas psíquicas. Um sentimento
tão desacreditado. tão "baixo", dizem. como o ciúme ou a inveja, ou o grito de
ódio da massa, deve ser compreendido como tradução subjetiva de um desequilíbrio
e como tendência ao restabelecimento de uma certa ordem. o que chamamos. em
linguagem psicanalítica. uma ligação da pulsão, o fato que a pulsão não esteja mais
entregue ao processo primário. ao jogo infinito das equivalências. mas que. enfim.
esteja inserida num certo cenário preciso.
Vamos nos deter. portanto. aqui. que me parece centrar toda nossa relação
aojudiciário. e enunciar com o que podemos contribuir. para além de uma "psicanálise"
vulgar: a necessidade de ser punido e a de que o outro sf!ja punido não são dois
desejos diferentes. patológicos. dos quais se poderia dizer que um é "masoquista"
e o outro "sádico". Fundamentalmente trata-se de uma só e mesma necessidade:

70
que um limite. uma "ligação" seja. enfim. imposta, no outro e em cada um de
nós. ao incontrolável da pulsão de morte (1 ).
Conclusões? Simplesmente isto: o psicanalista não pode e não pretende trazer
soluções sociais ou jurídicas. uma vez que se recusa a propor mesmo as soluções
terapêuticas à delinqüência.
Apresentei mais incertezas: muito ceticismo em relação ao universo das pessoas
jurídicas separadas. mas também algumas certezas. Uma certeza negativa que vale
tanto no campo jurídico quanto na experiência psicanalítica: é a desqualificação, no
ser humano. do utilitarismo: uma psicologia da adaptação é uma psicologia essencial-
mente falsa que não leva em conta os móveis pulsionais, sexuais. do ser humano.
O ser humano se nutre e vive por amor e por ódio antes de se nutrir para sobreviver.
É o que nos mostra a psicanálise. E também uma certeza positiva. que nem por
isso é muito otimista: é de que a culpabilidade e a angústia são inerentes ao ser
humano: agem como freio. mas também como motores. e a busca incessante de
um nível superior de simbolização é precisamente para onde levam.
Enfim. propus talvez um pouco de idealismo, um pouco ingênuo: pode-se ajudar
a devolver seu sentido pleno a termos como responsabilidade (h o sentido de: responder
por). reparação (no sentido de: reparar para alguém e não alguma coisa), retribuição
(como ordem simbólica a ser criada e não como pura e simples aritmética) e talvez.
ainda. a noção de perdão?

1 - Foi isto que quis dizer no meu artigo "les Vaies de la Déshumanité". Le Nouve/ Observateur.
n: 642. 28 fev .. 6mar/1977.

71
A PULSÃO E SEU OBJETO-FONTE:
SEU DESTINO NA TRANSFERÊNCIA

Puisão para fazer o quê? Esta pergunta nos acompanha durante este artigo.
pois considero que a pergunta encerra uma armadilha. Como toda pergunta. aliás.
se respondemos nos seus termos. Trata-se de uma pergunta que é preciso questionar.
Sua formulação - felizmente - é ambígua: trata-se da "pulsão" ou do "conceito
de pulsão" de que se quer "fazer" alguma coisa? Não duvido que, no espírito da
maioria dentre nós. leitores. se trate do conceito: um conceito. como se diz. científico
e teórico. Como utilizá-lo? Para que pode nos servir? Colocando assim os termos
da interrogação,juntamo-nos à concepção pragmática que é válida em todo o universo
das ciências da natureza e provavelmente também da psicanálise. Certamente a ciência
moderna (para fazer uma perífrase) não se acha submetida a um "fazer" tecnicista
imediato. "Para fazer o quê?" em última análise pode querer dizer: em que isto
nos serve para compreender e não para agir diretamente? (Penso em conceitos
como. por exemplo, os da astrofísica.) Mas. infelizmente diria, os analistas. de uma
certa maneira. parecem querer dar lições de pragmatismo aos físicos. Ligados diaria-
mente a uma prática. exigem que todo conceito os ajude cotidianamente ao menos
a se orientar, senão a construir e interpretar. Do "para que" questionado ao conceito
de pulsão não é raro que se passe. então, abertamente entre nós a um "por que"
em geral. colocado à própria "teoria". A teoria. para fazer o quê? A teoria está
em vias de se tornar um dos bodes expiatórios da psicanálise. O outro bode expiatório
sendo a psicanálise dita aplicada, que chamo "psicanálise fora dos muros". Existe
aí. tanto em relação à teoria quanto em relação à psicanálise fora dos muros. um
duplo fenômeno de repulsa que se torna um só. Pois é diante de uma certa concepção
da teoria como devendo ser aplicada (e até tecnicista) que se encontra a razão
deste duplo banimento.

72
Portanto. em relação a nossa questão de partida - para fazer o quê? -.
proponho-me a formular como resposta uma dupla interrogação: a pulsão. deve-se
fazer dela alguma coisa? E. em segundo lugar. a teoria: qual é seu estatuto, sua
função. sua distância em relação à experiência (a nossa. a da prática analítica)?
E se em preâmbulo coloquei estas duas questões que finalmente fazem apenas
uma. é porque o conteúdo mesmo do que conto lhes propor deve ajudar a respondê-las.
A teoria analítica deve nos ajudar a situar o lugar da teoria. Voltarei. portanto.
no final. a esta interrogação.
Minha segunda observação em preâmbulo é a seguinte; relaciona-se com a
história. O problema que colocamos é. evidentemente, a pulsão, para nós analistas.
Mas podemos nos desfazer de toda abordagem histórica, de toda problemática.
de toda referência em relação à obra que nos precede e, principalmente. em relação
à obra freudiana? Já me exprimi demais sobre este ponto em outros artigos para
fazer aqui mais do que uma breve alusão. Penso que entre nós não se pode tratar
de. freudologia. Mas o freudismo. tanto o de Freud como o de após Freud. é uma
experiência. e penso que infelizmente em francês temos uma só palavra para designar
ao mesmo tempo o que é experiência adquirida (experience. em inglês) e a experiência
científica codificada, que é o experiment. Em alemão também há duas palavras.
O que quero dizer com isto é que a experiência da qual falo é a experiência no
sentido do inglês experience. quer s~a prática ou teórica. pois a teoria também
é uma experiência. ejustamente não no sentido experimentalista. Há uma experiência
viva dos conceitos. da sua origem. da sua derivação. do seu engano ou desvio.
Há uma maneira pela qual a evolução da experiência teórica alia-se aos avatares
da evolução da própria coisa. ou s~a. do ser humano. e isto até nos seus erros
sobre ele mesmo. como se os erros do ser humano sobre si mesmo se encontrassem
desdobrados nos erros da teoria. que certamente devem ser situados e ultrapassados.
Gostaria de começar agora. a partir da experiência no seu segundo aspecto
(sempre desta experience). deste húmus comum que representa a experiência prática.
a experiência "clínica" como se diz. Aquilo a que. a meu ver. deve responder nosso
pensamento da pulsão. Tentarei enumerar estes requisitos da experiência prática
em quatro pontos.
1~ O primeiro requisito é o determinismo psíquico. Há uma afirmação geral
do determinismo psíquico que nenhum analista renega. O campo psíquico. como
qualquer outro. deve poder ser ordenado pela r~zão. A casualidade deve ser banida,
etc. É um postulado freudiano. bastante geral. E um postulado para os psicólogos
e não somente para os analistas. Freud alinha-se aqui abertamente dentro da ciência,
no sentido de que o homem faz parte da natureza. Mas (pois existe um mas),
se só houvesse isto. a psicanálise seria apenas uma psicologia, seria uma ciência
como as outras e deveria seguir o movimento de todas as ciências. isto é, a passagem
de noções confusas. subjetivas (noções como a vontade. as motivações. até mesmo
as causas. e este é o ponto evidentemente). deveria passar da noção de causa.
como se diz há muito tempo a propósito das ciências da natureza, ao estabelecimento
de leis. quer dizer. de relações constantes. até mesmo quantificáveis. entre os fenôme-
nos. A noção de causa. pode-se com razão supor que provém de uma certa experiência
73
subjetiva do ato psíquico e que se encontra em primeiro lugar projetada no mundo
exterior. o qual supomos ser ele próprio movido por algur!ia coisa. da mesma forma
como temos a impressão. nós mesmos, de nos mover ou sermos movidos. Pouco
a pouco. nas ciências do mundo exterior, esta causa dá lugar ao estabelecimento
de seqüências regulares cujo ideal é a função matemática. Se seguimos. então, este
movimento da ciência. o refluxo deveria se operar: deveria haver aí reinteriorização
do determinismo legalista. até mesmo do determinismo matemático interior; deveria
ocorrer aí a reconquista do psiquismo pela ciência da natureza.
Ora. existe um "osso" que se opõe a este refluxo (perdoar-me-ão esta metáfora
um pouco inc~rente). Este "osso" não é o recurso ao sentido. não é a reivindicação
personalista. E a resistência e o aprofundamento da noção de causa. tal como nos
apresenta a psicanálise. A investigação. a análise, a interpretação do sintoma. do
sonho. do lapso. do ato falho, etc. bem que pode ser chamada de busca do sentido.
Mas. mais além do sentido. o que nos ensina Freud é que se trata de um outro
conteúdo e. por isso mesmo. uma causa real que buscamos. E na evolução constante
do pensamento freudiano sobre este tema. a idéia de Jd, a idéia que somos operados
por este conjunto de causas obscuras que ele chamou assim. vem selar, de forma
quase definitiva. este reconhecimento do nosso fundamental descentramento.
2~ Meu segundo ponto, sempre dentro destes requisitos aos quais toda noção
de pulsão d~ve obedecer. será o seguinte: a causa. ~sas g~_a_p~ç~n~i~e~usca
e de~IJre _sao çla ordem da representação; são Jembrançª-0a[!j:a~as..QU imi;lginações,
imagos, com uma dupla particularidade. Trata-se de representações que estão como
qüe paralisadas. fixadas. para além do sentido que podem encérrar, parâ_ãiém dos
múltiplos sentidos que podemos lhes dar. EStas représentaçoes pàralisadas ou fixadas
' têm a intensidade significativa de esquemas. guardando ao mesmo tempo a_materia-
l!dade de quase-coisas. É assim que comento o problema de tradução que nos coloca
a Sachvorsteliung de Freud. que é, evidentemente, representação de coisa no sentido
intencional. mas que no inconsciente se torna uma verdadeira representação-coisa.
Este movimento da representação de coisa à representação-coisa significa precisa-
mente esta fixação para além de todos os sentidos. até mesmo para além de toda
referência. como dizem os lingüistas. Asegunda particularidade destas representações
é que elas são inconscientes. ou que mergulham no inconsciente, e que ao menos
uma parte é incapaz de voltar a ser consciente, nem mesmo pela análise. como
sabemos. A análise só pode constatar que uma parte do inconscien~~-I}!JDca_poderá
ser rememorada e trazida de volta ao consciente. màs sorriente encerrada numa
rede de construções que tenta aproximá-la mas que não atinge a prÓpr]ã cãSã. -
a representação-coiSa mesma.
3: Meu terceiro requisito é que estas representações têm em grande parte
relação com os processos corporais, que se organizam em torno do corpo, desta
ou daquela de suas zonas ou de suas funções. É o reconhecimento essencial das
"organizações"- ou da complexidade- libidinais, que são organizações fantasiosas
bem descritas por Freud. Daí. desta centragem sobre estas organizações, daí a ver
na zona erógena (zona oral. zona anal. etc) a fonte da pulsão. falta apenas um
passo.
74
Um passo fácil de dar e que Freud parece dar alegremente nos Três ensaios: mas
esta alegria é talvez relativamente fácil quando se trata da zona genital (dizer que
o pênis ou os órgãos genitais femininos são a fonte da pulsão parece fazer sentido).
ou ainda a zona anal, ou mesmo a zona oral (mas onde está realmente a fonte
somática da excitação oral? Nunca ficou bem estabelecida, finalmente). Em todo
caso. bem mais difícil de sustentar é esta metamorfose da fonte quando se trata
de alguma coisa como a pulsão de ver (a pulsão de ver é uma excitação do olho,
existe um orgasmo ocular? Poucos dentre nós aceitariam dizê-lo) ou ainda a pulsão
sádica proveniente de uma excitação muscular?
4: Meu quarto requisito. enfim, é de explicar os fenômenos de deslocamento.
O fato que uma mesma reação afetiva se encontre ligada a uma representação
completamente diferente das circunstâncias reais da sua gênese constitui uma expe-
riência que Freud destaca desde o início dos seus primeiros escritos, os Estudos
sobre a histeria principalmente, e aí está alguma coisa que não podemos evitar
em nossa experiência e em nossa reflexão. Ou ainda o sufocamento do afeto, a
"bela indiferença" das histéricas como se diz. e sua reaparição (ou assim dita?)
a aparência de reaparição em outro lugar. na somatização ou no ataque. Ou ainda
o desligamento do afeto de toda representação, sua desqualificação. e. no lugar
de um afeto qualificado. especificado, a sobrevinda da angústia. Ou ainda os fenômenos
como a transferência, e isto em todos os sentidos do termo. quer se trate da transfe-
rência do sonho, isto é, a transferência sobre os restos diurnos. de certos afetos,
de certas moções de des!ljo. ou ainda a transferência no sentido que empregamos
diariamente. a transferência na cura. Eis ar. portanto, as múltiplas experiências da
análise que talvez só venham radicalizar uma maneira espontânea de perceber; quero
dizer que o deslocamento é uma experiência da análise, mas já é uma experiência
cotidiana. uma experiência da linguagem cotidiana. Que outra coisa fazemos quando
dizemos (e o dizemos sem Freud): "transferimos nosso amor desta ou daquela
pessoa para uma outra". "temos um potencial agressivo que está só esperando
um objeto, qualquer um. o primeiro que me cair na mão, qualquer ocasião, etc"?
Em resumo. os fenômenos do deslocamento. até mesmo da condensação. levam
naturalmente a uma teoria da separação radical do afeto e da representação, a
uma esquematização tornando um independente do outro; um. segundo o modelo
físico, sendo o móvel (o afeto). o outro a via associativa. a linha de trem que leva
de uma representação a outra com todas as metáforas freudianas sobre, precisamente.
as vias (tanto as cadeias como as vias férreas) que levam de uma representação
a outra. Existe aí uma experiência muito forte, muito persuasiva. se não convincente.
uma experiência que se liga diretamente a modelos fisicalistas, em termos de quanti-
dade e de neurônio, em termos de energia e de estrutura. ou. ainda, como se
dizia no século XVII, em termos de figura e de movimento. Modelo que foi dominante
no pensamento freudiano ao longo de toda a sua evolução.
Mais adiante vou expor em detalhes minha posição a respeito da hipótese econô-
mica. Quero somente enfatizar que nenhum pensamento metapsicológico pode negli-
genciar explicar o deslocamento que constitui nossa experiência cotidiana. Mas é
preciso reconhecer inversamente que o deslocamento absoluto. no qual o afeto nada
75
retém da sua representação de origem, é somente um caso de figura,jamais verificado,
assintomático. como o seria um processo primário absoluto. Evidentemente. é a
psicopatologia (no sentido mais amplo. incluindo a Psicopata/agia da vida cotidiana)
que dá o modelo dos deslocamentos mais radicais (ou, como tenho tendência a
dizer: os deslocamentos "mais esquecidos", que esqueceram de onde provêm). Mas
um deslocamento radical. um processo primário absoluto. deveria poder se traduzir
pela seqüência: "esqueci - o quê? - esqueci - o quê? - esqueci"; o que é
precisamente o limite absoluto colocado à investigação analítica, se esta deseja buscar
efetivamente o que foi esquecido; o que supõe que o processo primário não seja
absoluto.
Um determinismo casualista. que nos torna estranhos a nós mesmos e nos
aliena num ld. Uma determinação por representações inconscientes. Representações
formando flocos em complexos ligados ao corpo ou a uma de suas partes ou funções.
O fenômeno do deslocamento que não poderia ser negligenciado nem levado ao
absoluto. Eis aí quatro resultados da experiência analítica. Entendo por isso não
uma experiência bruta (que não existe, no sentido do empirismo), mas uma experiência
relativamente independente de todo sistema teóri~o. É aí que vem se enxertar a
teoria da pulsão, se pulsão existe. É aí que Freud vem introduzir. com um sucesso
notável. dois tipos de modelos bem diferentes. no entanto: um modelo dito fisicalista.
reduzindo. como já disse há pouco, todo fenômeno a energia + figura. ou energia
+ representação; e um modelo biologisante, fundado sobre o princípio de constância,
a tendência inegável de todo organismo para manter sua diferença de estrutura
e de nível energético com o seu ambiente. Dois modelos freudianos que por vezes
concorrem. que com mais freqüência se combinam, mas cujo lugar deve constan-
temente ser reavaliado. Para resumir minha reavaliação pessoal destes dois modelos,
diria que a principal virtude do modelo fisicalista é sua falsidade fisica. o que o
torna apropriado para explicar a estranha materialidade, dura como o ferro ou
mais dura do que o ferro. que chamamos "realidade psíquica inconsciente" ou como
"corpo estranho interno". É aí que se situa o retorno - a reintrojeção. diriam
- do falso causalismo físico. no seu lugar de origem: o psiquismo inconsciente.
Quanto ao modelo homeostático. biologisante. é no que se relaciona ao Ego que
ele se verifica melhor. ao longo de toda a elaboração freudiana.
Minha finalidade não é absolutamente expor a teoria freudiana da pulsão que
constitui uma espécie de síntese ou de compromisso entre o fisicalismo e o biologismo.
Citarei apenas: fonte. impulso. finalidade e objeto. com esta famosa contingência
do objeto que nos vale tantos problemas. E apenas lembrarei a origem biológica,
segundo Freud. da pulsão sexual. da mesma forma. aliás. que a origem biológica
das funções de autoconservação. Todos conhecem a fórmula mais sintética: a pulsão
é "um conceito-limite entre o psiquismo e o somático"; é "o representante psíquico
de estimulações que provêm do interior do corpo e atingem a alma"; ela é "a
quantidade de exigência de trabalho imposta à alma em conseqüência da sua relação
com o corporal".
Encaremos agora este recurso massivo ao biológico face às nossas quatro exigên-
cias enunciadas há pouco. A exigência de uma causa que nos aliena e nos torna
76
estranhos a. nossos próprios atos: certamente sim. a referência biológica nos torna
bem estranhos a nossos próprios atos. A ligação com as zonas corporais (meu
terceiro ponto de há pouco): isto parece convir... ainda que o estado de tensão,
tumescência e detumescência seja apenas um modelo muito pobre para explicar
a noção de fonte pulsional (evoquei há pouco a pulsão de ver). Que dizer de nosso
quarto ponto. o deslocamento? Pois bem. a teoria de Freud. a teoria biológica da
pulsão o explica. mas ao preço de levá-lo ao absoluto. A contingência do objeto
é total. A pulsão se resume num impulso (a única coisa que resta finalmente desta
espécie de faca de dois gumes que é a pulsão é o Drang). um impulso energético
que se liga a (e se desliga de) qualquer coisa. como a um engodo. Mas é sobre
nossa segunda exigência. a relação às representações (lembranças e fantasias), que
a teoria biológica ê mais fraca e mais arbitrária, negando a estas representações
toda eficácia própria, para ver nelas apenas o lugar de ancoragem. de investimento,
de uma energia indiferenciada e flutuante. Na minha opinião. recorrer a uma pulsão
biológica para explicar a força do determinismo inconsciente é uma hipótese inverifi-
cável. contestável e, de qualquer forma. extra-analítica.
Vamos mais longe. A hipótese de um equipamento pulsional inato carrega em
si. como por necessidade. a idéia de que as fantasias são apenas eflore~cências,
traduções psíquicas de uma evolução endógena. finalmente maturativa. E o qUe
se revela em Freud, no momento mais biologisante de seu pensamento. entre 1897
e 1905. no que se seguiu a esta famosa carta de 21 de setembro de 1897. É
o que se verifica também em Melanie Klein, onde fantasia e pulsão são estreitamente
ligadas. e finalmente endógenas (como tantas vezes lhe foi reprovado) não somente
na sua força. mas também nas suas modalidades de manifestação. Entramos aí
no caminho daquilo que chamo um idealismo biológico onde o vivido é apenas um
ponto de apoio e de ancoragem. Esta é uma objeção decisiva a toda teoria psicanalítica
que entende confrontar um organismo biológico ou somato-psíquico a um ambiente
considerado. na sua essência. como não-psíquico.
É possível uma outra teoria da pulsão ou é preciso abandonar toda noção
de pulsão? Pode-se propor uma outra retomada do processo freudiano. a volta
a um outro Freud. a um terceiro modelo esboçado, depois "abandonado na embala-
gem .. e pelo próprio Freud? Entre mil. uma indicação poderia vir do fato que o
Trieb, a pulsão, só é apresentado em 1905 (mesmo que o termo apareça uma
vez no Entwurf).
Mas. evidentemente. a noção de excitação de origem interna aparece antes.
A excitação interna. lembra-nos Freud. é aquilo de que podemos nos livrar pela
motilidade. Definição inegável. mas permanece aberta a questâo de partida: aquilo
de que não podemos nos livrar pela motilidade é o corpo? é o investimento da
reminiscência pelo corpo? ou é o próprio corpo estranho interno, isto é, a própria
reminiscência? Há uma outra palavra nas Cartas a Fliess. é a palavra Impu/se, que
se encontra num certo número de textos bem localizados no tempo, e que é traduzida,
na edição atual do Nascimento da psicanálise, por "pulsões". Sem dúvida. não se
trata de forças corporais. nem mesmo de investimento de fantasias. Estes Impu/se,
estes impulsos no sentido que se diria na fisica ou na eletrônica, são a própria
77
ação das lembranças recalcadas e das fantasias, o que nasce delas, o que decorre
delas como de sua fonte. Encontraremos isto no Manuscrito N, especialmente. Estes
textos. com este emprego anterior ao Trieb, situam-se plenamente no que se chama
a teoria da sedução, e quer dizer que o modelo freudiano que tento fazer funcionar.
nas origens da pulsão. é o da sedução e do reca/camento originários.
A apresentação que segue só deve ser tomada como um esquema geral. Não
deve ser concebida como estritamente cronológica. ainda que s!lia um esquema de
criação portanto. no sentido mais amplo, um esquema. apesar de tudo, genético
(se aceitamos tomar "genético" no sentido mais amplo de criação). Enquanto que
a teoria clássica da pulsão propõe uma antecedência, uma precessão e apenas uma
- a dos estímulos endógenos somáticos - pensamos que é indispensável conceber
uma dupla precessão: por um lado o pré-requisito de um organismo votado à homeos-
tase e à autoconservação; por outro lado. a de um mundo cultural adulto. no qual
a criança é mergulhada completa e imediatamente.
Entremos um pouco nos detalhes. Opomos as funções de autoconservação à
sexualidade. como funções biológicas e biopsicológicas visando à manutenção do
organismo. de sua estrutura e de suas constantes assimiláveis a um nível energético
homeostático: é um modelo. finalmente, que os físicos retomaram em todos os
seus sistemas de regulação e de feedback. A autoconservação vem. em primeiro
lugar, para o ser humano como para todo ser vivo. Insisto sobre o fato de que
isto implica uma abertura imediata ao mundo, abertura perceptiva e motora do
organismo sobre seu ambiente. A idéia de um organismo em princípio fechado sobre
si mesmo. que deveria depois se abrir num segundo tempo ao objeto (ou construí-lo,
que sei eu?). é uma das modalidades de idealismo ou do solipsismo biológicos que
tantos teóricos da psicanálise imprudentemente retomaram.
Em compensação, face a esta intensidade significativa da autoconservação, com
Freud e também, marginalmente em relação a ele. em seguimento a Bolk. insistiu-se
com justo motivo sobre a insuficiência parcial ou sobre o atraso dos mecanismos
adaptativos no ser humano. Esta dependência do rebento humano em relação ao
adulto. muito mais marcada do que nas outras espécies. favorece este distanciamento
que é a origem da humanização. isto é. a sexualização precoce do ser humano.
Entretanto. as pesquisas modernas (como as de Brazelton) mostram até que ponto
a abertura perceptiva e adaptativa do recém-nascido ao objeto não deve ser subesti-
mada. Isto no que se refere à primeira precessáo. com as nuances que é preciso
considerar para a noção de autoconservação.
Quanto à segunda precessão. trata-se do mundo adulto ao qual é confrontado
o organismo nascente. Rapidamente. constatamos que se trata de um mundo de
significado e de comunicação. transbordando por todos os lados as capacidades de
apreensão e de controle da criança. De todos os lados afluem mensagens propostas.
Por mensagens não entendo necessariamente nem principalmente as mensagens
verbais. Todo gesto. toda mímica tem função de significante. Estes significantes
originários, traumáticos. chamemo-los: "significantes enigmáticos", precisando o que
entendemos por isto. Estes significantes não são enigmáticos somente pelo simples
fato de que a criança não possui o código e que teria que adquiri-lo. Sabemos
78
bem que a criança começa a habitar a linguagem verbal sem que lhe seja fornecido
um código previamente, assim como podemos adquirir uma língua estrangeira pela
prática diária. Não se trata disto. Trata-se do fato que o mundo adulto é inteiramente
infiltrado de significados inconscientes e sexuais, dos quais o próprio adulto não
conhece o código. E por outro lado se trata do fato de que a criança não possui
as respostas fisiológicas ou emocionais correspondentes às mensagens sexualizadas
que lhe são propostas: em resumo, que seus meios de constituir um código substitutivo
ou provisório são fundamentalmente inadequados.
O que é, portanto, a sedução como dado e como teoria? Faz-se disto atualmente
toda uma história, em torno da correspondência com Fliess, e do que Freud teria
calado, ou recalcado. dos fatos históricos de sedução aos quais foi confrontado (tanto
na sua análise quanto nas suas primeiras análises). O relato de um fato curioso
é uma coisa; a sedução como fenômeno estrutural é outra. E talvez mesmo uma
tenha comprometido a outra. Quero dizer que o abandono parcial da teoria da
sedução em 97 talvez seja devido à confusão. para o próprio Freud, entre a contingência
das manobras sexuais ditas perversas, por parte do adulto, e a generalidade da
situação de sedução. Freud joga fora sua "neurótica" quando teria sido preciso
talvez aprofundá-la. no sentido da sedução fundamental. originária. Mais tarde. retifi-
cará parcialmente o tiro ao enfatizar a generalidade da sedução ligada aos cuidados
maternos. Mas é preciso ir mais longe; mais além das manobras excitantes, perversas
ou simplesmente ingênuas. é preciso ver a prática cotidiana.
Retomo rapidamente o exemplo do seio, com a importância extrema. talvez
exorbitante. que lhe é atribuída pela psicanálise. Ora. frente a esta eflorescência
do seio, bom ou mau, dado ou recusado. frente a esta onipresença entre os analistas
e principalmente os analistas de crianças, relevarei a ausência. na reflexão analítica,
do seio erógeno, do seio erótico. O seio é uma zona erógena importante da mulher,
que não pode deixar de atuar como tal na relação com a criança. Que quer de
mim este seio que me alimenta. mas que também me excita: que me excita se
excitando? Que quer ele me dizer, que ele mesmo não sabe? O exemplo do seio
é talvez apenas um apólogo, sobretudo para a criança moderna que tem cada vez
menos contato com ele. Tem o mérito de fazer compreender sobre que bases se
produz a constituição dos primeiros objetos-fontes. objetos interiorizados. ou antes.
introjetados. No início. uma relação centrada sobre a autoconservação. sobre a satisfa-
ção de uma necessidade adaptativa principal (a alimentação). No inicio também.
a centralização sobre uma zona de trocas entre o exterior e o interior do corpo,
a zona oral, que compreendemos bem porque se torne o ponto de evocação e
de fixação de uma erogeneidade, que seja necessário atribuir-lhe uma eretilidade
fisiológica particular qualquer. No início também. concomitante à presença do alimento
(o leite), a instrumentalidade do seio que se impõe como mensagem enigmática.
carregada de um prazer de si mesmo ignorado e de impossível circunscrição.
De passagem. e sem me deter aqui. aproveito a oportunidade para dizer uma
palavra sobre a teoria do apoio. Teoria apresentada. posta de lado. retomada. por
Freud. depois por nós todos. Esta teoria do apoio afirma o surgimento da pulsão
sexual apoiando-se sobre (in An/ehnung an) a função de autoconservação. Este apoio
79
se traduz pelo fato de nascerem em um mesmo lugar. sobre a mesma fonte. numa
mesma atividade, depois que o objeto e o fim começam a divergir num movimento
progressivo de clivagem: o objeto, como se sabe, sofrendo uma derivação do tipo
metonímico, por contigüidade: o seio pelo leite: e o fim divergindo de maneira meta-
fórica em relação ao fim da alimentação, isto é, se modelando erri analogia com
a incorporação. "Apoio" se tornou um termo bem maltratado atualmente. Já se
fez dele o apoio do espírito sobre o corpo, já se falou de contra-apoio. etc. Mas,
mesmo tomado no seu melhor sentido (em seu sentido freudiano), trata-se apenas
do último marco de uma concepção fisiológica da pulsão sexual que deve ser abolida
e invertida. É inconcebível que a sexualidade emerja biologicamente da autocon-
servação. ainda que por um distanciamento de fim e de objeto. Este é o cúmulo.
o nec plus ultra da robinsonada: entenda-se aí a tentativa de reconstituir o mundo
cultural a partir dos recursos endógenos apenas do bebê-Robins?n· Minha fórmula
seria, portanto, a única verdade do apoio é a sedução originária. E porque os gestos
autoconservativos do adulto são portadores de mensagens sexuais inconscientes para
ele e incontroláveis pará a criança, que elas produzem. sobre os lugares ditos erógenos,
o movimento de clivagem e de deriva que leva eventualmente à atividade auto-erótica.
Mas o veículo obrigatório do auto-erotismo, o que o estimula e faz existir. é a
intrusão e depois o recalcamento dos significantes enigmáticos trazidos pelo adulto.
É preciso, portanto. falar aqui do recalcamento originário. Pois é de um movi-
mento apenas que este cliva do psiquismo um inconsciente primordial que se torna,
por isso mesmo, um ld, e que constitui os primeiros oQjetos-fontes. fontes da pulsão.
De acordo com a teoria freudiana do apres-coup concebemos o recalcamento originário
como em dois tempos, pelo menos. O primeiro tempo, passivo, é como que a implan-
tação, a primeira inscrição dos significantes enigmáticos, sem que estejam ainda
recalcados. Tem uma espécie de estatuto de espera. estatuto de externo-interno
ou ainda (segundo uma outra expressão de Freud), de sexual/pré-sexual. O segundo
tempo é ligado a uma reatualização e a uma reativação de~es significantes, doravante
atacantes-internos. e que a criança deve tentar ligar. E a tentativa de ligar para
simbolizar os significantes perigosos e traumatizantes que leva ao que Freud chama
de teorização da criança (as teorias sexuais infantis). e ao fracasso parcial desta
simbolização ou desta teorização. ou seja, ao recalcamento de um resto incontrolável,
impossível de circunscrever. São estas representações de coisa, tornadas representa-
ções-coisa, que tomam um caráter isolado. fora de comunicação e fora de significância.
naquilo que chamamos ld.
A pulsão não é, pois, nem um ser mítico. nem_ um~ f_ocça bio!Qgica, n~m~um
o
conceitO-limite. Elã é im-pacto sobre o indivíduo e sobre _Q_ Ego da ~_.!.r:!lu~as~o
conSi:ante, exercida do interior, pelas representações-coisa re_cai~<J.9~s_,_ql!e pOdflmos
designar como objetos-fOntes da pulsao. Quântci à rêiãção da pulsão com o corpo
e as zonas erógenas, longe de ser concebida a partir do corpo, eiã é àção dos
objetos-fontes recalcados sobre o corpo: isto através do Ego que é ant(!sEgo-~c::rpo.
eni:J qual. bem naturalmente. as zonas erógenas se tornam os lugares de precipitação
e de organização de fantasias. -

80
Apenas uma palavra sobre o dualismo pulsional. do qual penso que é uma
articulação. uma dicotomia interna à pulsão sexual. É em função da própria natureza
do objeto-fonte que se distinguem pulsões de vida e pulsões de morte. Na pulsão
de morte, o objeto se encontra reduzido a um só aspecto, unilateral. parcelar, excitante.
até mesmo destruidor. Na pulsão de vida o objeto sempre tem aspectos unificados,
totalizados, mesmo se se trata do que chamamos um objeto parcial, isto é, uma
parte do corpo. Tanto assim que os objetos-fontes das pulsões de morte e de vida
são finalmente os mesmos: mas reduzidos. como descarnados, resumidos a índices
de excitação no primeiro caso, enquanto que. no segundo, a tendência a unificar
e a sintetizar encontra-se na própria apresentação do objeto-fonte.
Gostaria de repetir alguma coisa sobre a concepção dita "econômica" para
distinguir aí o aspecto quantitativo e o aspecto de processo. Antes de tudo, a idéia
de uma força relativamente constante da pulsão permanece um postulado plausível,
mesmo que seja utópico querer quantificar esta força. Trata-se aí apenas da "exigência
de trabalho" exercida pelos "protótipos inconscientes recalcados". Se eu devesse
formular uma hipótese quase metafísica sobre a última origem desta força, diria
que é a medida da diferença ou do desequilíbrio entre o que é simbolizável e o
que não o é nas mensagens enigmáticas trazidas à criança. É, se quisermos, a medida
da quantidade de traumatismo.
Em segundo lugar. de toda maneira. e mesmo fora de todo objetivo quantitativo.
a constante do impulso pulsional é apenas aproximativa, válida por um lapso de
tempo determinado. Contra uma constante absoluta. depõe principalmente a hipótese
de uma neocriação de "energia" sexual. segundo as mesmas linhas que presidem
a sua gênese original.
Mas existe um outro aspecto do econômico que conserva toda a sua importância:
é a distinção dos modos de funcionamento: processo primário (dito de energia livre)
e processo secundário (dito de energia ligada). Pode-se imaginar que a circulação
em causa - os tipos de circulação, livre e ligada. mais ou menos livre e mais
ou menos ligada- possam ser concebidos segundo um modelo não-fisicalista, referin-
do-se ao que se pode chamar circulação de sentidos ou de informação nos circuitos
de comunicação - com, talvez, este paradoxo que seria preciso, também, falar
da circulação do não-sentido, isto é, do não-simbolizado.
Enfim. sempre dentro deste problema econômico, voltarei sobre o fato de
que a existência independente do afeto e da representação é postulada por Freud
a partir de fatos clínicos indiscutíveis. Ela merece. por um lado, ser traduzida segundo
o modelo de circulação evocado há pouco, e por outro lado de ser modulada segundo
os casos. Quanto mais um afeto é qualificado, menos é móvel: quanto mais desquali-
ficado, mais o processo em causa se aproxima do processo primário. Mas só se
pode postular assintoticamente uma descarga (angústia) ou um deslocamento de
afeto absolutamente des-ligado.
Propus-me a articular a pulsão à transferência. Isto necessitaria longos desenvol-
vimentos, e contentar-me-ei de indicar suas linhas mestras. A transferência, tal como
a concebo. é característica da situação analítica e de algumas outras constelações

81
intersubjetivas específicas. que tem em comum o fato de reproduzir, de renovar,
a situação de sedução originária. É assim que interpreto a fórmula de Lacan mais
sugestiva do que argumentada com precisão. sobre o "sujeito suposto saber". O
sujeito suposto saber. de início. é o adulto para a criança: tanto assim que pode-se
dizer que a situação originária da pulsão já é uma relação tanto de transcendência
quanto de transferência. Transcendência aquém. uma vez que há um vazio de signifi-
cância ou uma falta de significado que constitui o caráter enigmático da mensagem
do adulto. Transcendência e transferência para além, uma vez que todo o movimento
de simbolização consiste em acrescentar novos significantes com a finalidade de
deslocar. de transpor, e. assim, de ligar os significantes mais traumáticos. A transfe-
rência - no sentido analítico - só pode ser o prosseguimento ou a retomada
deste movimento de simbolização. Neste sentido. longe de ser a espécie de jogo
de papéis e de desilusão que se quer às vezes ver nela. a transferência seria a
reabertura da transferência originária. e seu destino. por sua vez, só poderia ser
de ser ela mesma transferida (fórmula que reencontro em Wilhelm Reich. provavel-
mente sem lhe dar o mesmo sentido: transferência de transferência).
Também tinha prometido voltar às minhas duas perguntas do início: a pulsão.
deve-se fazer alguma coisa com ela? A teoria, qual é o seu estatuto? Pois bem.
o próprio conteúdo do que propus oferece as pistas. Em primeiro lugar. quanto
ao "que fazer?" Não podemos negligenciar o fato de que este tipo de pergunta
(que fazer de?) é inseparável. na sua "representação-fim", de um objetivo adaptativo.
Aqui. adaptação de um conceito a uma finalidade. ainda que puramente técnica,
e mesmo que não pretenda implicar a idéia de "valor". "Que fazer de" é uma
idéia que pode existir no campo do sexual? E não seria preciso perguntar. antes
de tudo, o que a pulsão pode fazer de nós. e como podemos nos acomodar da
sua existência?
Quanto à teoria, seu estatuto não pode ser separado da função do saber e
da teorização infantil na gênese do psiquismo (lembro novamente este termo de
"teorias sexuais mfantis"). Não se trata absolutamente aí de desvalorizar a teoria.
como se pretende freqüentemente dizer. fazendo dela um avatar da fantasia, enquanto
que, em cadeia. se desvalorizaria, por sua vez, a fantasia vendo nela apenas o fictício.
e ressaltando apenas os aspectos irreais. Se quiserem me seguir, deve-se supor
que a teoria analítica. no seu nível mais geral (principalmente esta teoria da pulsão
ou do objeto-fonte). deve nos mostrar como. em que condições. com que resultados
e que fracassos. a que preço, o sujeito "teoriza". metaboliza os enigmas que lhe
propõe de imediato a comunicação inter-humana. De uma certa maneira. a teoria
analítica é. portanto. uma metateoria em relação a esta teorização fundamental
que opera o ser humano: não como primeiro objetivo de se apropriar da natureza.
mas para ligar a angústia em relação com o traumatismo do enigma.
Quer dizer que a teoria analítica não poderia de forma alguma se impor. nem
mesmo interferir neste processo de simbolização individual. tal como se opera desde
as origens e tal como a prática da cura pretende dar-lhe prosseguimento. A teoria
diz que cabe ajudar o paciente a "teorizar" nos seus próprios termos. com os elementos

82
que lhe restaram da sua história individual. A teoria da pulsão, uma pulsão encontrando
sua fonte nos objetos-representações de cada indivíduo, é um convite discreto a
manter a teoria analítica à distância da cura e de seu processo de transferência.

83
TRAUMATISMO, TRADUÇÃO,
TRANSFERÊNCIA E OUTROS TRANS(ES)*

Jogamos palavras sobre o papel. como por acaso. levados pela assonância,
seduzidos pelo efeito produzido ou a produzir: traumatismo. transferência, tradução,
transe. transcendência: ei ·los inscritos doravante, não completamente sem história.
nem sem intenção deliberada, mas vagamente entre as duas, num lugar onde exigem
uma busca de sentido. Mas, desde então, não se tem mais sossego, eis que estão
investiêlõs~j:íelã exigê~~i~dotema. pontos de estimulação deonde irradia a inquietude,
s~não_a angústia: verdadeiro diabinho cuja energia é preciso ligar antes de toda
esperança de fazê~iã fluir_ e de obter daí um certo prazer. Eis aí, mais do que
uma imagem. mais do que um modelo: um destes microtraumatismos renovados
que pontuam. que relançam nossa atividade criativa.
Por outro lado. "Atualidade do Traumatismo", título das jornadas e que originou
este artigo e cuja formulação exata· não tinha detido minha atenção até hqje, não
provoca em mim nem este distanciamento nem esta ameaça de transbordamento.
É. na verdade, numa certã atualidade que eu desejava me situar, mais precisamente
na atualidade do movimento psicanalítico e do que ele é levado a descobrir sobre
si mesmo.
Os documentos sobre a história da análise se amontoam e não há editor que
não proponha uma ou várias coleções de obras que lhe sf!jam consagradas: histórias
de pacientes, especialmente pacientes de Freud. história de documentos concernentes
a Freud. história de analistas e do movimento psicanalítico.
O arquivo Schreber não cessa de aumentar: documentos minuciosamente reco-
lhidos sobre um pai que não se está longe de acusar de todos os males. Genealogias
• Texto baseado em conferência proferida em um dos Encontros de Psicanálise em Vaucresson. organi-
zados pela APF.

84
remontando a séculos. à procura do famoso assassinato da alma. tradução de textos
inéditos ... Dovarante, reúnem-se "Congressos Schreber".
O arquivo do Homem dos Lobos também se torna, a partir de agora, acessível.
Aqui está mais organizado, o "corte transversal", para falar como Michel Schneider,
está mais centrado. Aliás, é o próprio Homem dos Lobos que foi, desde o início,
conservado como uma peça: peça anatômica, cotação de arquivos.
Os arquivos Freud - esta grande estrutura concebida para armazenar todos
os documentos da nossa fabulosa história - fazem brilhar diante de nossos olhos
a esperança de outros "cortes". Mas quando aparece um arqueólogo pirata, um
cavador de túmulos. um jornalista (Karin Obholzer) já começa a confusão na tribo.
Inquietação e pânico, nos arquivos, com a abertura sem preparação da correspon-
dênciã Freua-Fiiess. O que analistas respeitáveis só tinham podido obter através
de seu prestigio, era dado a um aventureiro, um "Ávida Dólares", para engordar
seus bolsos. Depois de ter se introduzido junto aos nossos Cérberos através de
uma operação-sedução sem precedentes. eis que divulga, profana, comenta sem pre-
cauções e - é preciso que se o diga - sem nenhuma competência. Golpe de
força ao mesmo tempo publicitário e salutar, o de um Jeff Masson. O ladrão de
túmulos quebra objetos. destrói camadas que outros levam anos fotografando e
arquivando. Põe tudo à venda ... evidentemente bem caro. Sem ele, no entanto. a
história oficial e hagiográfica, inaugurada pelo próprio Freud. continuaria a se desen-
rolar.
Que se passa com toda esta confusão e estas ressurgências? Qual o proveito,
qual o progresso para a análise, sua teoria e sua prática?
Dois debates são reativados e fazem furor, debates velhos como o próprio
freudismo, jamais liquidados: part_e._respectiva da fantasia e/ou da realidade na causa
da neurose. ou simplesmente dõ próprio ser. psíquic.õ~ ResponSãiliii(iâde, até mesmo
cul~~ls e/Ql,l_dQs_filhos em um des1:ioo freqüentemente pouco invf!jável.
e
Debates evidentemente conexos. ordenados um pelo outro, riô qual as tomadas
de posição deveriam ser, senão matizadas. pelo menos circunstanciadas. Mas eis
nossos ladrões de túmulos, brandindo seus fragmentos de estátuas. e gritando: "Quase
não me atrevo a acreditar de verdade. É como se Schliemann tivesse exumado
esta Tróia que se considerava legendária". O primeiro dos ladrões de cemitérios
é o próprio Freud, e ter-se-á reconhecido aí um fragmento de uma carta a Fliess.
carta tardia (21.12.99), bem depois da assim chamada conversão à fantasia.
Fantasia ou realidade? Falsa questão~oll verdadeiro debate? Questão verdadeira.
embora mal colocada, no "ou" que dificulta toda articulação. Mas, sobretudo. questão
a ser transmutada, se é verdade que Freud. e mais ainda aqueles que pretendem
reabilitar - ou, ao contrário, desqualificar - o traumatismo real não tem bem
claro de que realidade se trata.
Tra~matismo fisico - traurrmtismo psíquico- concepção traumática da neurose
-: aí e_sJãotrês entidades que se derivam. isto é, ao mesmo tempo em continuldáde
e em d~scontinllidade com mudança de registro. em metonímia e em metáfora.
O que as une. certamente, é a noção de furar. Tpcx.iJ'jla: leva a T~Tpáw ou

85
TcTpiflq_k w e às raízes Tpw,Tap,To:p ou Tpo:: furar. perfurar. penetrar.
onde ã penetração sexual está explicitamente presente.
Isto nos leva às descrições definitivas de Freud em Para além do princípio
do prazer: CJ_tJ:aumª-ªrrq_m_tJ.<JIT1E!Ilt:o.e_Jg:enso. e_não Jimitado _cjg_u__ll]j!nvelope. Invasão
implicando a necessidade de empregar todos os meios possíveis para bloQuear o
invasor. antes mesmo-de pensar em evacuá-lo.
A noção dé arrõmbamento,__no feriÍnento,_é_l;i)o_f3_?sencial que Freud jamais
assimila o ceri:eãiri_e_nto em si mesmo. _a castração.a l]_m t[aurriã. E preciso aí um
intermediário essencial: a castração só é trauma na medida.em que entrega o orga-
nismo, doravante sem exutório. ao acúmulo e ao arrombamento pela energia interna.
- Que organismo? Limitado por que envelope? Perfurado por qual flecha ou
projétil? É aí que atua toda uma série de envelopamentos dos envelopes. uns em
relação aos outros: corpo. ego-corpo ou ego-pele. aparelho psíquico. ego... existem
aí coincidências parciais. que se fazem ou se desfazem. e nas quais desempenham
um papel maior os pontos de tangência destes envelopes. as zonas de entrada e
de saída do corpo, as zonas erógenas. "O olho é a janela da alma". diz Leonardo.
Aí está o perigo maior. quando as janelas, os pontos fracos. se sobrepõem umas
à outras. Há, portanto. uma teoria (ao mesmo tempo realidade e modelo) espacial
- espaço-econômica - do trauma, perfeitamente elaborada no freudismo. e à
qual não posso voltar aqui. ( 1) E. de maneira complementar, há uma teoria temporal.
Complementares. pois absolutamente nao se excluem nas formulações de Freud.
É neste aspecto temporal que gostaria de me concentrar. Ele está pelo menos
mascarado na noção de traumatismo psíquico ou físico-psíquico massivo. Aqui. poder-
se-ia dizer. a repetição mascara o apres-coup. Em compensação. é na concepção
travmática da neurose que ele pode ser melhor percebido. Concepção jamais abando-
nada. ou sempre revificada, wiederbelebt: "A velha teoria traumática da neurose.
construída finalmente sobre as impressões emanadas da terapêutica psicanalítica.
retomou subitamente todo o seu valor": esta observação se encontra na "História
de uma Neurose Infantil" (2) e gostaria, por um momento. de retomar esta proble-
mática do Homem dos Lobos. Certamente não para "refazer" mais uma vez "melhor
do que os outros" a sua análise. Sobre esta formulação indico o belo prefácio de
Michel Schneider, que mostra precisamente como Serguei Constantinovitch Pankajeff
foi "refeito". em todos os sentidos do termo, por Freud e a eomunidade analítica.
- Refeito: pelas suas análises sucessivas-. Na armadilha: pela coincidência, forçada
e alienante, da teorização analítica com esta auto-simbolização que está no próprio
movimento de uma análise autêntica - Encarcerado: pelo termo temporal autorita-
riamente fixado por Freud (Leclaire). que fará do fim de sua análise um período
"durante o qual a resistência desapareceu progressivamente e no qual o paciente
deu provas de uma lucidez que normalmente só se atinge na hipnose". (3) (Comuni-

1 -~ Cf. especialmente Problemáticas 1: A angusUa e Problemáticas 111: A sublimação.


2 - Freud. S. Cinco psicanálises. Obras completas.
3 Cinco psicanálises_ Cit.

86
camas. neste parêntese de tempo quase hipnótico, tanto com o início da psicanálise
quanto com o que Fereczi chama .::tr~nse" ...) E ainda, last but not least*, com o
arquivamento. o fato de ser transformãê!õ em uma peça teórico-clínica: o que, na
minha opinião. somente leva ao extremo o perigo latente de toda "comunicação
clínica".
Não entrarei em detalhes, limitando-me a interrogar alguns momentos do pro-
cesso de Freud. Para esta interrogação, uma cronologia rudimentar me basta: com
um ano e meio._ a cena originária; com quatro anos, o sonho que é a origem da
rotíia. Neste ínterim. lembranças pardais com conoi:ãção sexi.iai. geriitál (a masturbação
pela irmã) ou gênito-anal (a cena com Grouscha) -tudo isto pontuado de ameaças
de castração.
Lembranças, reconstruções. lembranças de cobertura? A questão continua coloca-
da: precisemos alguns elementos de resposta. A cena originária (observação do coito
parenta!) é inteiramente construída. Isto nos é confirmado tanto por Freud como
pela entrevista do Homem dos Lobos. Trata-se de uma construção retro~!va.!lo
curso da análise. a partir do sonho e das suas associações. Càda elemento terminal.
cãdà ponto nodal das cadeias associativas é proposto. por Freud, para "verificação".
Alguns são "recusados" pelo paciente. no sentido que ainterp_r~_!a~?9 não.suscita
novo material. É o que ocorre com a hipótese de uma ameaça de cas!ras~~_formu_lada
peloj[Qprjo pál: por._não ser fecunda, foi abándonada. Em ~ompensação .. o~~ras
sugestões de Freud são "aceitas": é o caso das que provocam smtomas transito nos.
A partir deste momento, é preciso sàlientar. o "l~vantamento da amnésia infantil"
foi abandonado. como finalidade da análise. em favor daquilo que é apenas uma ..
reconstrução. mas devidamente confirmada. Bem antes do artigo sobre as "Cons-
truções na Análise". o processo construtivo e o próprio termo já são empregados.
(4)
Mas então, salientemos isto. que é importante para o nosso tema: todo debate.
sabemos. está centrado sobre esta reconstrução da cena originária e sua maior
ou menor realidade factual; mas, ao mesmo tempo. toda a eficácia. o poder traumato-
gênico está situado fora da cena originária; portanto fora do debate!
Onde está o traumatismo? Categoricamente, Freud o situa no sonho. e no
seu efeito de aprês-coup: "O acontecimento que tornou possível esta divisão (da
história do paciente em duas fases) não foi um traumatismo exterior. mas~m
sonho do qual a criança se acordou cheia de angústia". (5) E: "A ativação da imagem
[Bild] que pode agora ser compreendida graças ao desenvolvimento intelectual mais
avançado age como um acontecimento recente. mas também à luz de um novo
trauma. de uma intervenção estranha. análoga a uma sedução". (6) O trauma. o
arrombamento propriamente dito. está no sonho: no momento do ataque interno.
·· Ônde está a sedução? Explicitamente é preciso reconhecer sua factualidade
nas cenas ditas "intermediárias": episódios com a irmã ou com as domésticas. Mas,
* Em inglês no texto: por último mas não de menor importância. (N. do T.)
4 - Cinco psicanálises. Cit.
5 - Idem.
6 - Ibidem.

87
na realidade, está toda na relação e na reativação das cenas umas em relação às
outras, relação que só se compreende no espaço temporal aberto entre a cena
originária e o sonho. ~amais, n_o entanto. Freud. terá . ousado situar__a_§.e_dJ)ção na
própria cena originária. Como se a sedução devesse permanecer uma estrutura à
parte. separada das outras. (7) ·
É preciso voltar a esta cena originária. com todos os seus detalhes concretos:
voltar obrigatoriamente, como Freud foi obrigado a voltar. Todo o processo do
trauma. toda a teoria da sedução se situa em !l!D jogo de aprês-coup. em uma
sucessão de tràduÇões (voltaremos a isto). Ora. para Freud é necesSário que tudo
encontre seu !)Onto de partida na percepção. na imagem. Imagem realmérite percebida
e/ou fantasia originária, sabemos que a discussão permanece interminável. Mas como
quer que s~a. cena vivida ou fantasia originária. trata-se sempre de uma imagem
sem falhas. um quebra-cabeça onde todas as peçás devem se completar. "As diferentes
peças deste material se encaixam perfeitamente uma na outra... (8) É quando o
quebra-cabeça é imperfeito quj: se vai procurar as peças na filogênese. ou. ao menos.
no esquema que se acredita ter surgido dela.
Apresenta-se. neste artigo, para mim a ocasião de me distanciar em relação
a esta noção de fantasia originária que Pontalis e eu exumamos de Freud: nem
sua origem. nem sua função. nem sua situação tópica. nem sua dita fixidez me
parecem aceitáveis tais como Freud as afirma. Para ficar no exemplo preciso do
Homem dos Lobos e da cena originária. elementos evidentes me parecem sobressair
do aprês-coup da tradução sádico-anal. sem que s~a absolutamente preciso postulá-los
em qualquer imagem onto ou filogenética. É preciso acrescentar que esta questão,
no texto de Freud, está na verdade envenenada pelo debate com Jung: digamos.
de uma fórmula. que o zuriickphantasieren* impede o zurückkonstruiren* de se
desenvolver. '' · · ·· · '· '" '· ' . ·. " •··'
Uma outra questão. um outro debate. volta igualmente aqui. talvez extraviado.
ele mesmo. por uma polêmica: a discussão com Adler. Aquestão é a do recalcamento .
e seus determinantes. O recalcamento. no Homem dos Lobos. está ligado ao sonho
e ao traumatismo. O sonho restaura a organização genital e. ao mesmo tempo.
a soterra. Em seu lugar surge o sintoma fóbico. Mas aqui, é inevitável. convém
lembrar desde a correspondência com Fliess. até "Uma criança é batida": o que
é recalcado. e por quê? Questão que rapidamente pode ser formulada assim: deve-se
"sexualizar" a teoria do recalcamento? (9) Freud hesitará muito tempo. para sempre.
7 - E não como tendo pessoalmente a pensar. como uma estrutura inerentE as outras "fantasias
originárias", cena originária ou castração.
B - Cf. Cinco psicanálises.
• Em alemão no original Fantasia retroativa e construção retroativa. (N. do T.)
9 - Compreender-se-á. pelo que segue. que minha posição implica distinguir os termos "sexualizar"
(= =
ligar a sexualidade) e "sexuar" ( ligar a diferença dos sexos). O debate com Adler. e já com
Fliess. o de "Uma Criança é Batida" (in Neurose. psicose e perversão) enfoca. na verdade. uma sexuação
do recalcamento: sexuação que Freud recusa justamente o que é recalcado não podendo ser definido
universalmente nem como o sexo "dominado" (o feminino no homem. o masculino na mulher). nem
como. em todos os casos. a femínílídade (devido ao protesto viriL. ou ao complexo de castração).
Mas uma vez excluída uma tal sexuação. a teoria do recalcamento contínua não podendo passar sem

88
talvez. sobre a resposta. Mas aqui. no Homem dos Lobos. a resposta é clara: o
que é recalcado é a passividade, que faz correr o risco de um transbordamento,
de um esmagamento do Ego: "A atitude homossexual que se estabelece ao longo
do sonho era de uma tal intensidade que o Ego do pequeno ser humano se achou
incapaz de controlá-la e defendeu-se dela através de um processo de recalcamento.
A masculinidade narcisista do membro viril... foi chamada em socorro para realizar
este intuito". (1 O) Compreendem: o complexo de castração. a diferença masculinidade-
feminilidade. vem somente em socorro para selar o recalcamento. Mas este, por
si mesmo. é um processo destinado a controlar uma essencial (não uma feminilidade
- mas -) passividade. Lembremos muito bem disto que Freud afirma desde o
começo: todo sexual começa por uma experiência de passividade; posição que não
cessará de encontrar ecos ou prolongamentos: assim se encontra na postulação
sistemática da histeria sob a neurose obsessiva.
Que ele consiga definir a passividade. eis a questão. pois quero crer que por
aí se perde. Trata-se da iniciativa do gesto? Mas entre o Homem dos Lobos e
sua irmã que pega seu membro - ou mesmo entre violador e violado adultos
- quem tem a "iniciativa"? Trata-se da penetração? Mas entre a penetração sexual
e a penetração traumatizante talvez a coincidência não seja absoluta. Isto parece
óbvio. e. no entanto. lembrarei a perplexidade de Freud diante do aleitamento de
Leonardo: "Esta lembrança parece ainda conter coisas que não compreendemos.
Seu traço mais extraordinário é de ter transformado o fato de mamar no seio
materno em receber-o-seio; portanto em passividade e. assim sendo. em uma situação
de caráter indubitavelmente homossexual". (11) Aqui, a língua alemã dispõe de três
termos que permitem um jogo considerável: ~ugen, verbo ativo: mamar; saügen.
verbo ativo. factitivo: dar de mamar. aleitar; gesaügt werden. verbo passivo: receber
de mamar. ser aleitado. Um jogo que Freud não utiliza a fundo. pois permanece
prisioneiro de um esquema da pulsão sujeito-cêntrica. na qual é necessariamente
1 o bebê, "sujeito" da pulsão oral. que é ativo. De onde este enigma de uma pulsão

ativa e, no entanto. "não-penetrante". De onde os rodeios para alcançar. a partir


da "atividade" do bebê. a "passividade" homossexual de Leonardo, e antes de tudo
a passividade inscrita na famosa lembrança do milhano. Para reencontrar esta atividade
da mãe sedutora. Freud deve passar por um intermédiário obrigatório: os "5eHos
escaldantes" que se supõe terem sido "esmagádos" sobre ãtiõca de seu filho, tomo
se o fato de dar. de propor e até mesmo de impor o seio não fosse suficientemente
ativo e penetrante por si mesmo.
A gramática sozinha. no entanto. não basta para nos orientar entre o saugen
e o saügen. Para dar aqui uma ilustração polêmica. direi somente que, tentando
a referência a sexualidade. no sentido que esta. com Freud, ultrapassa em todos os sentidos a sexuação.
Mais exatamente. o recalcamento. nos seus tempos originários. é inseparável da sexualidade, este inconci-
liável fundamental: está de saída sexualizada. De maneira secundária. o recalcamento poderá ser sexuado
com a aparição do complexo de castração.
1O - Cf. Cinco psicanálises. Cít.
11 - "Eine Kindheitserinnerung des Leonaroo da Vinci", Obras completas de Freud. e cf. Problemáticas
lll: A sublimação.

89
explicar para um público londrino esta questão da passividade, essencial na sedução,
vi que me opunham uma incompreensão massiva e talvez irredutível: certamente.
me replicavam. num ciclo de comportamento mãe-criança tudo é interação: a comple-
mentaridade. a reciprocidade, são evidentes: cada um é ativo e passivo à sua maneira.
a criança tomando o seio. a mãe o dando. Na interação o quebra-cabeça (aqui como
antes) se completa perfeitamente. Se levamos este raciocínio até seus limites. não
há sentido em falar de passividade...
Passarei agora por um circunlóquio. apesar do risco de redobrar a incompreensão
com este pensamento empirista que nos invade sob os pretextos falaciosos da clínica
e da observação:
"Definição 11. Digo que somos ativos quando, em nós ou fora de nós. alguma
coisa se faz. da qual somos a causa adequada. quer dizer quando. em nós ou fora
de nós. decorre da nossa natureza alguma coisa que se pode. por ela mesma. conhecer
clara e distintamente. Ao contrário, digo que somos passivos quando se faz em
nós alguma coisa, ou qlle decorre da nossa natureza alguma coisa da qual somos
a causa apenas parcialmente." "Proposição I. Nossa Alma é ativa em certas coisas.
passiva em outras. a saber. conquanto tenha idéias adequadas. é necessariamente
ativa em certas coisas; quando tem idéias inadequadas. é necessariamente passiva
em certas coisas". (12)
Passar por Spinoza (eu poderia ter escolhido outros cartesianos) pode parecer
provocador; o vocabulário da alma. entretanto. não é nem mais nem menos espiri-
tualista que em Freud; a referência a "idéias" adequadas ou inadequadas não nos
arrasta. apesar do que se possa dizer. para o caminho do intelectualismo, mas em
direção aos meios de que dispõe o pequeno ser humano para tentar controlar o
que lhe vem do mundo adulto. A passividade, a atividade não devem ser definidas
nem pela iniciativa do gesto. nem pela penetração. nem por qualquer outro elemento
comportamental. A passividade está toda inteira na inadequação para simbolizar
. o que ocorre em nós vindo de pari:e do outro. (13) Assim para diferenciar e articular
o saugen e o saügen as noções de interação e reciprocidade se desqualificam. O
saugen é uma montagem comportamental da ordem da autoconservação. O saügen
é, sem dúvida, um. comportamento. mas habitado por uma mensagem "de si mesmo
ignorada". O gesaügt werden é este momento em que se faz em nós alguma càisa ...
da qual somos a causa apenas parcialmente (14) e da qual buscamos. em vão.
tornarmo-nos a C!JUSa adequada. A passividade da sedução, geradora do trauma
interno. não é a passividade gestual ou comportamental. A criança que olha avidamente
a cena originária é tão passiva. no sentido de Spinoza, quanto aquela que é masturbada
por sua mãe. na medida em que há uma inadequação fundamental da sua compreensão
à mensagem proposta.
12 - Cf. Spinoza. Etica. tomo I.
* Em inglês no original: A agressão à verdade: Freud suprime a teoria da sedução. (N. do T.)
13 - Quanto à atividade. ela só pode ser definida de forma negativa relativamente àquele que é
passivo. O ativo absoluto, adequado a si mesmo e às suas ações. não é o adulto. Mas "Deus".
14 - A famosa tríade oral de lewin "Comer - ser comido - dormir" deveria ser ordenada e
reforrnulada segundo a mesma seqüência.

90
Do quebra-cabeças eis que passamos ao enigma, e ao que chamo "transcen-
dência". Vê-se que tem a relação mais estreita possível com o que pode vir a ser
definido como situação originária de sedução. Com a sedução. com a teoria e os
fatos da sedução, alcanço este segundo imenso volume de documentos que nos
chegam, e eventualmente nos esmagam: cartas a Fliess. enquetes de Marianne Krül
ou de Masson e também de Schur. Documentos centrados, como por um epicentro,
em torno do que se quis batizar - e desgraçadamente este nome de batismo
colou na pele- de "abandono" da teoria da sedução. The assault on Truth. Freud's
suppression of the seduction theory: tal é o título do livrinho de Masson. traduzido
por "O real escamoteado. A renúncia de Freud à teoria da sedução". (15) Entre
o titulo e sua tradução. qual corresponde melhor ao que se passou? E que não
é, necessariamente. o que quis dizer Masson ... Pois para Masson e todos os outros.
fatos reais de sedução e a teoria da sedução são uma só e mesma coisa: a sedução
sexual. devido unicamente à sua factualidade. seria um traumatismo contingente.
patogênico. do qual não há recuperação ... Saber o que quer dizer isto para Fréud?
Mas. sobretudo, saber que bebê foi. por ele. jogado fora com a água do banho?
Todo o mundo retoma. hoje em dia. a famosa carta do equinócio de setembro
de 1897: "Não creio mais na minha Neurótica... " Pode-se. comodamente, considerar
esta carta como uma série de argumentos refutando uma teoria. É o que faz. por
exemplo. Marianne Krüll. Uma carta de "falsificação". diria Popper. A "falsificação"
ou a "refutação de 1897"? Por que não? Isto mostraria. ao menos, que a psicanálise
está sujeita a refutações. O que não me desagradaria; mas sob a grande condição
de não considerar a cura como um dispositivo experimental adequado para uma
tal refutação.
Como quer que sl:lia. esta refutação de 1897 está sujeita a caução, tanto naquilo
que refuta (ou recusa?) realmente. quanto no valor- freqüentemente "do caldei-
rão",* de seus argumentos. Com esta volta ao período 97 ("período": pois a evolução
é mais complexa. com retornos, etapas). de que se trata? Três possibilidades. três
interpretações, três opções se propõem:
A opção dos revisionistas selvagens, ou dos "apaixonados pelo real", como
dizia Platão, aqueles que não sossegam enquanto não beUam as árvores. Se acompa-
nhamos seu discurso inflamado, os argumentos de Freud 1897 seriam de má fé.
ligados à sua resistência para levar sua auto-análise às últimas conseqüências. Resis-
tência diante do real infantil marcado (como está bem assinalado na passagem)
pela "perversão" do pai: resistência diante do real que se interporia também na
relação atual com Fliess (sob a dupla figura de Emma Eckstein e do filho de Fliess ...).
Como quer que seja quanto à análise do indivíduo Freud. é neste momento de
repúdio que seria preciso retomar a pista da investigação histórica. que seria a
própria análise: de maneira predominante. a revelação dos acontecimentos de sedução,
tomados no sentido mais concreto: os fatos de pedofilia adulta.
Diria francamente que este é um caminho inegável, inevitável. mesmo se peca
pela ausência total de interrogação sobre o que significa esta pedofilia. e sobre
15 - Masson. J. Le niel escamoté. Paris, Aubler. 1984.
• Referência à Interpretação dos Sonhos. Cap. 11. (N. do T.)

91
a maneira como pode ser recebida: é, de uma certa forma; o caminho de Ferenczi.
Mas é também o de Freud. precisamente em "O Homem dos Lobos".
Entretanto sabe-se que a rememoração destes fatos somente se refere a cenas
relativamente tardias, de maneira que. além deste beco sem saída mnemônico, dois
caminhos duvidosos se propõem: o da reconstrução e o do transe. Dois caminhos
sempre presentes. experimentados e reexperimentados alternativa ou conjuntamente.
precisamente desde a cura do Homem dos Lobos. Vias forçadas. uma como a outra.
na medida em que são levadas a extremos: este extremo que "Construções na análise",
por fim. designa como a revivescência alucinatória indesejável de resíduos metonímicos
de cenas originárias.
É apenas como lembrete que cito a segunda opção possível concernente à
revisão de 97. Segundo a fórmula clássica, ela abre caminho para o reconhecimento
da realização psíquica. da vida de ràntasia espontânea. e do complexo de Édipo.
Este happy end, como podem imaginar. não é do meu gosto. Na pior das hipóteses,
alimenta as teorias biológico-filogenéticas sobre o Édipo. que não vão parar de
freqüentar o freudismo. Na melhor das hipóteses. conduz às tentativas de uma
interpretação estruturalista ou estruturoculturalista do Édipo, que fracassam em
situar corretamente de que lado se encontra a castração e. de uma maneira mais
geral. a lei.
A terceira saída. a partir da revisão de 97. será. se me permitirem. um aprofunda-
mento da noção de sedução. Fiz menção a três saídas. Mas. na verdade, Freud
(como ele próprio o diz a propósito de outra coisa - mas não seria o mesmo?
-- do Homem dos Lobos) "conservou as três correntes lado a lado", Sua teoria,
sua libido, se encontrava dividida segundo três vias: a que continua a seguir o aconteci-
mento: aquela que toma por regra manter a análise suspensa no meio da "realidade
psíquica": a que tenta elaborar a noção de sedução reduzindo-a ao essencial. especifi-
camente a sedução de base que representariam os cuidados maternais.
Freud não podia ir mais longe. Não podia levar mais adiante a articulação
original do acontecimento e da fantasia que fazia o essencial da sua teoria. a que
se encontra tanto no Prqjeto quanto na Etiologia da Histeria ou no Conto de Natal.
A verdadeira teoria da sedução articulava o depósito de um primeiro real. um primeiro
acontecimento, e a eficácia que adquiria em se tornando reminiscência. corpo estranho
interno. Faltava mostrar qual era a natureza deste primeiro depósito. destes primeiros
indicias externo-internos, e diferenciar este real de uma simples percepção objetiva,
de uma simples imagem.
A carta 112 de Freud a Fliess. ( 16) datada de 6 de dezembro de 1896, ou
seja, em pleno período de desenvolvimento da teoria da sedução, é talvez a que
melhor indica o lugar deixado livre por Freud para a mutação que propomos. Não
posso fazer melhor do que citar antes algumas passagens que comentam este primeiro
esquema do aparelho da alma:
"Sabes que trabalho com a hipótese de que nosso mecanismo psíquico
formou-se por estratificação. o material disponível de traços mnésicos conhe-
16 - Carta 52. segundo a antiga numeração. o que indica a amplitude da censura exercida por ocasião
da primeira puhlicação.

92
cendo, de tempos em tempos. um reordenamento segundo novas relações,
uma reescritura. O que há de essencialmente novo na minha teoria é portanto
a afirmação de que a memória não está presente de maneira única mas múltipla,
depositada em diferentes espécies de signos ... Donde o esquema abaixo... :

11 111
w Wz Ub Vb Bews
XX XX X X X X X X
X X X X X X X

"P[W] são neurônios nos quais se produzem as percepções. ligadas à consciência.


mas que em si mesmos não conservam nenhum traço dos acontecimentos.
Com efeito. consciência e memória se excluem.
SP[Wz] é a primeira inscrição das percepções. completamente incapaz de cons-
ciência. disposta segundo associações de simultaneidade.
lc[Ub] é a segunda inscrição. ordenada segundo outras relações, talvez causais.
Os traços lc corresponderiam. talvez. a lembranças conceptuais, igualmente
inacessíveis à consciência.
Pc[Vb] é a terceira reescritura. ligada a representações de palavras, correspon-
dendo a nosso Ego oficial. A partir deste Pc os investimentos tornam-se cons-
cientes segundo certas regras, e. para dizer a verdade, esta consciência de
pensamento secundária é uma consciência de aprês-coup segundo o tempo.
provavelmente ligada à ativação alucinatória de representações de palavras ...
Quero deixar claro que as inscrições sucessivas apresentam a operação
psíquica de épocas sucessivas da vida. Na fronteira entre duas destas épocas
deve se efetuar necessariamente a tradução do material psíquico ... No local
onde falta a transcrição ulterior a excitação é liquidada segundo as leis psicoló-
gicas em vigor no período psíquico precedente. e segundo as vias que estavam
então disponíveis. Subsiste assim um anacronismo, numa certa província alguns
fueros* ainda estão em vigor: produzem-se sobrevivências.
~-;;,recusa de tradução é o que clinicamente se chama recalcamento". (17)
Antes de introduzirmos nossa marca nesta montagem cerrada, situemos o modelo
em causa: é um modelo ao mesmo tempo genético (diacrônico) e tópico (sincrônico):
as considerações econômicas e dinâmicas. também essenciais, situam-se neste enqua-
dramento. Os sistemas em causa se sucedem no tempo e se ordenam no aparelho.
É um modelo semiológico, mas não um modelo lingüístico: os sistemas são feitos
de sinais, de traços de natureza diferente; mas os sinais lingüísticos só aparecem
com a "terceira reescritura", a do pré-consciente.
É um modelo "tradutivo": a passagem de um sistema a outro é uma nova
inscrição segundo um código heterogênico àquele que o precede. O recalcamento.
a.ri@]lJt!l.o.ção no inconsciente, é apenas o fracasso, o obstáculo. a recusa (Versagung)
da tradução. ·
* Em espanhol no original: "Lei particular de um Estado". (N. do T.)
17 - In: La naissance de la psychana/yse. Paris. PUF. 1979.

93
Modelo admirável, mas no qual todo o enigma (é bem o caso de dizer) repousa
na natureza do sistema Wz, sistema pré-inconsciente, (18) que participa ao mesmo
tempo da percepção (W) e do Zeichen. Zeichen: signo ou indício? Nos sistemas
seguintes é evidente: uma tradução só pode operar a partir dos sinais que ela retrans-
creve. Língua de origem e língua visada, cada sistema é as duas coisas ao mesmo
tempo: visada por aquele que o precede, origem para aquele que se segue. Mas
com o primeiro sistema o que ocorre é diferente: como se supõe que se origine
na percepção, representa dela apenas um índice objetivo; mas, por outro lado, como
se proporia a ser traduzido, se não se apresentasse como signo? É exatamente
porque faz sinal (em todos os sentidos desta expressão) que é preciso tentar traduzi-lo,
que ele se impõe, à criança. para ser traduzido, numa tradução originária que só
pode deixar um resíduo importante, este fuero que vai cair no inconsciente, como
representação-coisa.
Ferenczi com a sua noção de ··confusão de línguas" parece, por um momento,
ter querido completar este modelo genial. Ele situa bem o diferencial, de onde
surge todo o movimento. na oposição entre duas línguas. Mas falha por não conceber
que o essencial do diferencial não se acha imediatamente entre a criança e o adulto,
mas, mais originalmente, no próprio interior da linguagem do adulto. O melhor
que posso fazer é citar Gantheret: "É muito surpreendente que Ferenczi não tenha
dado mais um passo na direção que havia tomado. A linguagem da paixão, proferida
pelo adulto, violenta, nos diz ele, a ternura infantil. Mas como Ferenczi, que tanto
insistiu sobre a criança no adulto. pode neste momento reduzir o adulto ... ao adulto?
É talvez por ter se centrado de maneira demasiado realista numa cena de violação
que tenha sido levado a tomar este passo; passo que certamente não teria tomado
se tivesse permanecido na sua intuição da linguagem dos adultos: pois a linguagem
não pode trazer o atentado sem trazer ao mesmo tempo a inocência; o momento
sem a duração. O que o adulto impõe à criança não é somente distante da ternura
infantil: é esta distância mesmo". (19)
Assim, no próprio lugar do traço de percepção, do Wz. o que é registrado
antes mesmo de ser traduzido uma primeira vez, passivamente registrado, o que
é preciso situar é uma "mensagem de si mesmo ignorada", um significante enigmático.
1 o int_rajluzívJ:lJi.~a_l!'aE!.q,_glle_ s~_t:l_epositará a .ç~da _estagio. ulterior. é apenas b
. eco. o resíduo, deste intraduzível interno à própria mensàgem. É a traoscendêhcia
• • • i da, sitpaç~_origi~ckia --: esta r~lação da criança a um adulto que signTiiCã o que
11
· ela _/lé/()__sabe - que sera traduzida. transportada, transferida com mais ou menos
resíduos, mas jamais reduzida.
É precisamente neste sentido que falei da transcendência da transferência. A
situação analítica, enfatizamos bem, é feita de ausência e de simbolização, de conteúdo
e de Versagung (recusa e estado de recusamento). Desta maneira, ela é diretamente
uma réplica. uma reedição da situação originária. Evidentemente. isto se sabe. Conhe-

18 - O que mostra bem, mais uma vez, que o inconsciente não é o primeiro. não é o fons et origo
do qual tudo derivaria. (Cf. Problemáticas IV: O inconsciente e o ld.
19 - GanthereL F. lncertitude d'Eros. Paris. Gallimard. 1984.

94
cemos cada vez melhor também, o jogo e a dosagem. freqüentemente perigosa,
entre o trabalho analítico, trabalho de desligamento que, por algum tempo, pelo
menos, funciona segundo o princípio da pulsão de morte, e a necessária reorganização,
a necessária manutenção de limites, até mesmo a prótese temporária de um Ego
hesitante. O corpo da análise, o enquadramento ou o "setting", como se diz, não
desempenha sua função de manutenção se não for habitado pelo corpo do analista.
A atenção, antes de ser igualmente suspensa. é presença atenciosa, atenção e até
mesmo atenções de um corpo. Evidentemente, aqui falo apenas das análises relativa-
mente clássicas (se é que existem ... ) de neuróticos. E é por isso, também, que dirijo
minha atenção, antes de tudo. sobre o outro aspecto, o que se chama as frustrações.
as recusas, ou ainda a neutralidade analítica.
Isto para dizer em uma palavra que a análise - segundo uma fórmula que
corre entre Pascal e Descartes - não valeria uma hora de esforço se fosse este
local neutro destinado a permitir que volte a se desenrolar. se esgotar e depois
se desfazer a seqüência indefinida de medos, de recalcamentos e de traumatismos
antigos. Apesar de tudo, apesar de nós, existe na análise, mesmo na freudiana,
a nostalgia de desfazer pela transferência. ao desfazer a transferência, o que ocorreu
noutros tempos "em pleno", "in praesentia". "Tornar não ocorrido", ungeschehen
machen, não é o ideal absurdo que transparece através de termos como "falsa
conexão", "repetição", "anacronismo", do qual cumulamos, a exemplo de Freud,
a transferência, na esperança louca e derrisória de "liquidá-la"?
Minha declaração, felizmente, não é somente para fazer humor, pois o que
"não valeria nem uma hora de esforço" também não pode se produzir. uma vez
que aquilo que vem se alojar no espaço aberto pela análise não é uma plenitude
que viria como que se dissolver aí: é um outro espaço que se abre. Na transcendência
da transferência, a transcendência da situação originária.
Para resumir, separo dois tipos maiores de recusa do analista ou de recusamentos
da situação analítica. (20) Em primeiro lugar o analista recusa, e se recusa, a fazer
coincidir o plano do sexual com o plano do adaptativo. Esta espécie de recusa é
em suma o prolongamento interno, a reduplicação na própria cura daquilo que
chamo "tina" analítica "Recusa de interferir no real?" Lamentamos que uma tal
formulação veicule em si mesma todas as aporias da categoria do real, e leva, final-
mente, a interpretar somente ao nível de uma fantasia concebida como pura fantasma-
goria subjetiva. A "tina", como a vejo, não implica que o acontecimento real, visado
f pelo discurso. não s(jja eventualmente objeto de interpretação. Esta recusa é, portanto,
' de outro tipo, é o de toda intervenção adaptativa: manipulação ou conselho.
-- -Mas o segundo tipo de recusa é ainda mais essencial. é a recusa do saber.
Aqui a fórmula de Lacan é capital, mas a ser trabalhada: "o sujeito suposto saber".
O paciente se dirige ao analista como àquele que sabe: a causa do seu sofrimento...
o que ele quer realmente ... O que é para seu bem. O que poderia sugerir uma
certa ressonânciLl com a situação original: o do pai (ou mãe) suposto...? digamos:

20 - Cf .. por exemplo, "A transcendência da transferência". In: Psychana(yse à J'université. 1984.


9. 36. pp. 581-3.

95
"suposto significar". Ora, se o saber aparece, pode aparecer, como um prêmio,
se pode ser o objeto de uma demanda imperativa, o dever do analista é de recusar.
Recusar o saber é renovar o traumatismo e a sedução originária: traumatismo sob
controle ou violento, mas que somente assim permite repor em andamento o processo
de tradução e de simbolização.
De uma certa forma isto se situa nos antípodas de Freud declarando ao pequeno
Hans: "desde toda a eternidade eu sabia que um dia um menininho, etc.". Que
Freud, como pretende Lacan, tenha sido aquele que sabia, e o único. isto pode
justificar as coisas, inclusive o arquivamento do Homem dos Lobos? Será que Freud
não sabia que não sabia? Será que Freud não sabia o suficiente para se recusar
a saber? Recusar-se a saber me parece ser a regra, talvez impossível, mas fundamental,
que decorre de nosso conhecimento teórico.
André Beetschen nos fala em "escutar, ligar". (21) Ligar, é um per. uma perlabo-
ração que só pode ser uma escuta. uma escuta elaborativa, mas sempre subordinada.
Poética, talvez; mas não é poeta quem quer, e a faisca só pode surgir entre dois
pólos. É um per que vem suprir em todo ser humano (que vem se analisar) as
faltas, os dilaceramento:, as monstruosidades irremediáveis do para-excitações inter-
no. (22)
A transferência: seguramente trata-se de um trans, transporte e transmissão,
mas sobretudo não se trata de um transe. Um trans para permitir um per. Mas
que leva necessariamente a um outro trans, pois não vElio outro destino real e
realista da transferência, exceto ser. por sua vez, transferida. (23) Não segundo
a história sinistra de "João Sortudo" contada por Freud a Ferenczi, que a transferência
seja passada a um outro. com uma perda a cada vez. uma entropia, e que este
processo continue até o último fragmento. Uma concepção que Lacan não teria
rejeitado ... Mas para ser transportado mais além, num outro lugar de transcendência.
e para uma outra perlaboração-retranscrição.

21 - Conferência de André Beetschen: "Escutar, ligar: o analista e o para-excitações".


22 - Para-excitações interno tão naturalmente demissionário ... que Freud dizia não existir!
23 - Fórmula já apresentada por Reich. mas não sei se a entendia assim. e duvido mesmo.

96
A PULSÃO DE MORTE NA TEORIA
DA PULSÃO SEXUAL

1. PREÂMBULO

Tendo tido inúmeras vezes a ocasião de me exprimir sobre a questão da puisão


de morte. desde o Vocabulário da psicanálise, com J.-B. Pontalis (1967), e depois
com Vida e morte em Psicanálise (1970) até Problemáticas IV. posso apenas propor
nas notas constitutivas deste artigo um esquema reunindo um certo número de
teses, afirmando certos contornos para tornar mais perceptíveis as diferenças e
as opções.

2. PROLEGÔMENOS
2.1. A noção de Todestrieb foi introduzida por Freud num certo momento
da sua obra. Ela coloca, eminentemente, para todos aqueles que a adotam ou que
e
a recusam, a necessidade de se situar em relação à teoria freudiana à sua histÓria.
Devemos encontrar uma posição clara entre dois obstáculos opostos:- adotar
o termo "pulsão de morte" dotando-o, ao mesmo tempo, de um conteúdo (ex:
agressividade) que não responde nem às expeiiências visadas por Freud nem à função
da noção no equilíbrio geral do pensamento freudiano.
- Ao contrário, aderir de maneira puramente literal e dogmática às formulações
freudianas. posição absurda e insustentável. nem que sElia em razão das contradições
destas formulações e desua evolução.
- -2.2. Uma teõrização que sesitua depois de Freud, ao mesmo tempo marcando
as diferenças às vezes essenciãis -com st.iãs formulações explícitas, só se justifica

97
na medida em que for capaz de prestar contas de suas opções, numa tripla perspectiva:
problemática, histórica e crítica.
. - . Frol5lématica: as contradições e dificuldades não podemserevitadas, pois estão
ligada~. a dificuld~<&.pJ:9p.[iÓ o~jeto. E_g~lso.Jl9~~to. fazê-i~ "trabalhar",
quer dizer, levar a contrad!@QJ!O extremQ.él_ ti.lll.rA!!_~!ItaLencontrar. num outro
nível, uma fcÍimiJiaçaõquemodifique a pr~pria Jl()_5ição_d_O_Q..rotÍkima.--- ..
·· · RiSfi5i1cii e mtêrpretãflvã: ã fiiSfOrlã do pensamento freudiano não é nem uma
simples cronrnõgla ooae ãs descobertas (clínicas e/ou especulativas) acrescentar-se-iam
umas às outras, nem mesmo uma dialética cljjo último estágio coroaria as dificuldades
de uma síntese suprema. O pensamento de Freud é ele prót:Jrio svbm-ªido aos
fenômenos do apres-coup, dÕ reêãJCãriiêiifõ é do retorno dõ reéãlcado, da repetição.
efr. Enfim; sotmn!íãisaê üm poiiro. a evolUÇão do pênSiimêrito reflet:e-nvõlução
da "própria coisa'' (ex. Freud :·a_b_an~ona" as pul~ de ~lJ!ocon~f',la~eara reinte-
gráclas num outro nível. exatamente como oser humano é levado a fazê-lã}:-
- Çrítj_ça, enfim. no sentido de que é necessário fazer escolhas. Estas próprias
escolhas são comandadas pela leitura histórica e interp~liv~Lque_permite desvendar
as
as exigmlcías fundamenfãiS. neg~o rnéionalizações secundárias e a maneira
freqüentemente falseada pela qual Freud reescreve sua própria história. Por que
direito tal formulação de 1915. 1920, d_939· seria privilegiada ou. ao contrário,
criticada. senãó graças a uma visão interpretativa permitindo explicar o progresso.
as estagnações. as recorrências, os recalcamentos. as metaforizações internas ao
pensamento p5icimalítico?
2.3. Adotar (ou recusar) a Todestrieb implica um mínimo de clareza sobre
o que Freud entende J)or frlilb ePõr Tod.
No que concerne a Trieb. o avánço dos estudos freudianos há muito tempo
mostrou que a tradução por 'instinto" não é simplesmente inexata. É fundamen-
talmente contrária ao pensamento de Freud que utiliza em sentidos muito precisos
e heterôgêneÕS Triéb (puiSão - drive) e inst;jlkt (instinto). Uma outra oposição
se esboça, certamêntê menos categórica, entre a Trieb (pulsão) _e noções como necessi-
dade e função mais geralmente utilizadas quando se trata de autoconservação do
que para o caso da sexualidade. De nossa parte. teríamos tendência a enfatizar
esta última oposição.
2.4. No que concerne à noção de morte na Todestrieb, parece-nos que três
exigências freudianas devem ser salientadas, mesmo com o risco de reinterpretá-las.
a - A morte em questão é sempre a morte dC!..Q[óprioindivíduo. e somente
de maneira secundária a morte infligida ao outro. Freud passou anos r!lcusando
a "pulsão de agressão" que lhe era continuamente proposta por seus discípuiOs.
Jnsistimós àqui sobre a prioridade do tempo "auto" (selbst-Se/bstdestructionstrieb)
onde encontramos a mesma exigência que na prioridade concedida ao auto-erotismo.
A clareza da discussão deveria excluir que se fale de "pulsão de mortê" senão
como "pu/são de sua própria morte".
b - A pu/são de morte estã estreitamE!!l!!! ligada parª_Ere~d _à no_çãu de
princípio do zero· ou do Nirvana (retorno à ausência de excitação pelas vias mais

98
curtas). e à compulsão de repetição cljja insistência se faz cada vezJ!lªls~yig_ente
D_a_cUoica enã çura (neurose deaest:ínO=repêtiÇao na frãniférênda~ tendênEia·
à· análise infinita - ilérrota do Qãrªdigma da .iinuiàÇ_ao ~ã ãm_11~~a _infantil. etc) .
"Em resülno o 'lf@.esíiicíitel". o "demoníaco". o que não se Põcíe ligar e controlar.
retomam com toda a forÇa: em P?rã~J~mdo prinéípio do prazer.
c - Aexisténcia de uma pulsão de morte a9..nível mais profundo do ld incons-
ciente nunca pareceu a Freud incompatível com estas outras teses que ele reafirma:
ausência de IJE!ga@Q, de_contraqLção. e ausência da idéia de morte. no inconsciente.
. 2.5. Estas diferentes observaçoes. se as fazemos "trabalhàr". impõem uma
interpretação do pensamento freudiano em duas direções:
- interpretação diacrô[Jica para se perguntar se. com a Jlljlsão de morte.
não é reafirmada, com _llla_is força_ e nitidez do que nunca, uma dimensãÕ presente
os
_desde ãibores da experiência analíflcà. -- ·· - · -·· · ----..-. -
. . .=.Interpretação epiStémoiógicii. visando à significação do modelo biológico.
I (/ metabÕiógico. até mesmo metacosmológico em obra na especulação de Para além
. '/ do princípio do prazer.
Um certo número de desenvolvimentos freudianos são insustentáveis se os
tomamos ao pé da letra: longa discussão de experiências sobre a imortalidade celular.
onde Freud conclui o inverso do que mostram as experiências - por assim dizec
·a prioridade, na evolução do universo, de um estado ae morte ou de igualdade
energética em relação a um estado de altas diferenças de potencial - esquema
mecanicista do organismo como um aparelho reflexo tendendo à evacuação total
da energia em vez de levar em conta a homeostase, etc. Todas estas "absurdidades"
são. talvez. o Sinai de-que-ã morte visada na "pulsão de morte" não é a morte
do organ\sri10. mas _a mort{deste "organismo" g_LJ~o ser humano. representa
os interesses do organismo _I:Jj'ôíQillco. isto Lo--Ego. ---

3. TEORIA GERAL DA PULSÃO. COMO PULSÃO SEXUAL


3.1. A necessidade do conceito de pulsão em psicanálise foi e continua a ser
contestada. Estes ataques. desde Politzer. provêm de duas inspirações que na verdade
freqüentemente se combinam:
- uma inspiração epistemológica (na linha que reúne o empirismo humano
à filosofia "analítica" moderna) que refuta como metafísica. "mecanicista", etc. toda
invocação a forças abstratas postuladas por trás dos fenômenos (cf. Daniel Widlõcher);
- uma inspiração personalista. que pretende restituir aos fenômenos psicoló-
gicos sua formulação na "prirpeira pessoa" (desde a "psicologia concreta" de Politzer
até a "action Ianguage"• de Roy Schafer).
Esta dupla crítica nos parece contradizer a experiência psicanalítica que mostra
precisamente que é bem no que concerne à ação do ld-inconsciente que formulações
em termos de "forças que nos empurram" ou de "terceira pessoa" são as mais
• Em inglês no original: linguagem de ação. (N. do T.)

99
apropriadas. É a existência e a propulsão do ld, é nossa ~~iyh;lad_EU!I]l relaçã_p
a ele. que definem as condições do ato psicanalítico e marql_f!l_ seus limites. A reapro-
priação, "na prir:n!!lr.ã pessoa", da for~pulsional só pode ser. ~o. melhor dos casos.
um oQjetivo "infinito" da cura: acreditar que se atinge este oQ]etivo propondo uma
teorização _que nega_ nossa passividade em relação à propulsão pulsional equivale
a sühSi:ituir_ a lenta ner]aboraçãopsicanalítica pelo pensamento_ mágico.
3.2. A passividade em relação à pu/são não implica uma concepção biológica
desta. A noção de "conceito-limite" entre o biológico e o psíquico é uma noção
confusa. que apela para o dualismo clássico e contestável do "psíquico" e do "somático".
Que a pulsão nasça' sobre um limite. sobre a linha de articulação entre o autoc9n-
servativo e 0SexuàlnaO implica que Seja eJa mesma Um Ser-lin_Jite. cl) r-·~· I·[;._;·,: I
Que o biológico. o autoconservativo. se encontre, por diversas razoes, repre: -
sentado no conflito pulsional não implica que a pulsão s!lia uma força biológica.
nem mesmo "a exigência de trabalho" exercida pelo somático sobre o psíquico.
Se "exigência de trabalho" há, concebêmo-la como aquela exercida pelo ld,
verdadeiro "corpo estranho interno" (ou conjunto de corpos estranhos internos)
sobre o organismo do Ego, que "permanece. antes de tudo, um Ego-corpo".
(Estas formulações implicam evidentemente uma reavaliação do desti~o do ~~oló­
gico eda sua metabo/ização, tanto no ser humano quanto no pensamento ps1canalitico.)
3.3. A noção de um ld ou de um inconsciente primários, não-recalcados, pare-
ce-nos ligada a uma falsa apreciação do lugar do biológico na psicanálise.
A hipótese de um ld não recalcado, concebido como absolutamente primeiro
("tudo que é consciente era antes inconsciente"), leva a todas as_ aporias d~ u.~a
tentativa para reconstruir o mundo humano a partir de uma mo_n~d~ a pnnCJplo
fechada sobre si mesma, e que deveria. não se sabe como. abrir-se ao mundo e
ao ser-no-mundo.
A hipótese de um ld não-recalcado implica a possibilidade de rastros psíquicos
hereditários de experiências arcaicas, visão lamarckiana que contrasta estranhamente
tanto com o darwinismo freudiano quanto com o triunfo atual do neodarwinismo. ·
Para concluir. é somente pelalãÇao !lo recalcamento originário que se constitui
• - o inconsciente Õriginário. O inconsciente. uma vez constituído pelo recalcamento.
é mesmõ ·uín ld. torna-se uma· natureza mesmo, uma segunda natureza que "nos
age". _ -
', ,·· 3.4. Distinguem-se classicamente na história do pensamento freudiano duas
teorias (sexualidade/autoconservação - pulsões de vida/pulsões de morte). Nossa
interpretação é que estas teorias não se substituem uma à outra mas se completam,
a segunda vindo modificar e reeqUilibrar a primeira. Neste sentido. atribuímos uma
grande importância ao momento intermediário ("Para intJ"_oduzir o narcisismo") que
permite apreender sobre que eixo pivota a evolução {cf. 4. L).

100
O esquema que propomos seria o seguinte:

funções d e - - - - - - - - - - - - - - - - pulsões sexuais


autoconservação
(antigas "pulsões
~ \

do ego") _ . _ - --:-----. 7
pulsoes sexua1s pu 1soes sexuaiS)
de vida de morte -

/
libido
do Ego
""' libido
do objeto

3.5. Opomos a ayt:Qconservação, so~?.a direção das grandes funções visando


à homeostase do organismo, à sexualidade, somente para a qual vale plenamente
a descriÇão proposta em "Pulsões e destino das pulsóes".
indicaremos somente algumas características da autoconservação:
- A autoconservação é primeira. Ela explica a abertura imediata, perceptiva
e motora. do organismo ao seu meio.
- A autoconservação no ser humano é parcialmente falha ("prematuração"),
mas as pesquisas modernas (Brazelton) mostram a que ponto a abertura adaptativa
ao objeto foi subestimada.
- . - A autoconservação não toma partido no conflito psíqul_c9. Ela não é recalcada.
É representada no conflito psíquico pelo Ego, cuja energia é libidinal.
3.6. A pulsão é pulsão sexual, no sentido mais amplo definido abaixo. Somente
a sexualidade é objeto do recalcamento, por razões freqüentemente estudadas por 'r,
Freud, e cujo essencial se resume no distanciamento entre o universo sexual adulto
· -· . 1q\l~faz chegar suas mensagens à criança, e_ as capacidades de ligação e de simbolização
do Ego infantil.
- .3.7. ~w; c_o~stitui a puls~c:_~~~! é exatamente aquele que dife-
ren.9ªJl.-ªPílre)h_()_p~gl,!lç_o~ ~o ~menta ong1f!anõ. -- ·-·
Seu ponto de partida é a "Sectução-ongii'rárlã'~ a ser concebida não como manobra
sexual particular da parte do adulto, mas como o fato que a criança imatura é
confrontada a mensagens carregadas de sentido e de desejo, mas das quais não
possui a chave ("significante enigmático"). O esforço para ligar o !raumatismo que
acompanha a sedução originária leva áo recalcamento destes primeiros significantes
'l! tte seus derivados metonímicos. Estes objetos inconscientes ou representações-coisas
inconscientes constituem a fonte da pulsão (oQjetos-fontes).

4. A PULSÃO DE MORTE NO CAMPO DA PULSÃO SEXUAL

Para justificar a inclusão da pulsão de morte nas pulsões sexuais, numerosos


argumentos podem ser propostos.

101
4.1. A aparição da pulsão de morte no pensamento freudiano (1919). e os
reman~os estruturais aos quais está ligada, merece interpretação. Não poderia ser
mantida a idéia de que se trate de uma nova "descoberta" adicionando-se, de maneira
cumulativa, à descoberta da sexualidade. E. aliáS. cÕmo exigência expeculativa que
a noção de pulsão de morte foi primeiro, e será por muito tempo, proposta (ou
recusada por numerosos discípulos).
q. movi!Tlento h!stórico _gu~_~_v~ à seg~nda!_El.Qria _das pulsões é uma evolução
complexa, feita de aprofund?_fllil.D.tos •.de..reafirmaçõesL.c!e...de.sl:Qb.effil.s ~e não se
s1tuãm õtll:le· se ãCi'ifclífãnã" (retomamos a seguir uma passagem deP lemáticas
IV). Desenhemos a evolução da teoria das pulsões como numa revista érii qúãdrinhos
ou como num filme:

CD @ ®
1914-1915 1915-1918 1919
sexualidade sexualidade Eros =
de objeto e --~11!> de objeto e ---pulsão de
narcisista narcisista vida

sexualidade
(única "pulsão"
----'-~----~~
verdadeira) sexualidade pulsão
desligada e - - - . de
demoníaca morte

No primeiro tempo partimos de um primado da sexualidade, sobretudo no


ano 1915 com os textos sobre o inconsciente e o recalcamento. Somente a sexualidade
tem direito a ser chamada pulsãó; o único conteúdo do inconsciente é a sexualidade.
E depois eis o segundo ternpo: que é bem o de uma descoberta. Mas o que é
então descoberto e apresentado [lão é a pulsão _de_[f!Q.Ij:g,_rn~ ~á rio, a
, j sex~~dade investida no objeto e no_Ego_,_l®_~~a.sex.ualid~de ~o amor
· do oQjeto e o amor. do Ego. Trata-se de uma exploração absolutamente nova. a
do Ego como objeto de amor. a idéia que os objetos exteriores são reflexo ou
estão em relação corri este inveSfimimtó primeiro âóEQà, jjõís que âíTiãinõS õ outro
ou segundo nossa pr6pria imagem óli erttãõ grãÇas a urri pÕtenciaí .àrl'!à"fõsõ que
é antes ó potencial quê faz com que nos amemos á iiós mesmos. A sexualidade,
neste momento. tende portànto a ser absorvida por este âspecto do amor. Daí
o terceiro tempo, o da "guinada" com Para além do princípio do prazer; a sexualidade
correu o risco de ser incorporada. arriscamos só ver na sexualidade este aspecto
ligado, investido, calmo. quiescente; daí em 1919 a necessidade de reãfirmár áiguma
coisa que tinha se perdi:io, isto é, a sexualidade não ligada, a sexualidade que se
pode dizer "desligada" no sentido da pulsão. isto é, a sexualidade mudando de
102
objeto. uexuali-º_adej;endo como ú(1iC.Q._91ljetivo,_c~r:r:~_fllais d!!~t:!!~ possível
em direção à suasati_s[açã0 e ao esgotame!lto_cQmQLeto....Jl9_ seu des!lio. isto é, a
realiza@Q_ ~mQLeta dQ._se_l.l__deslli9 ~às viasmais_cur.tas.:..PQI:taoto...neste momento.
a necessidade de reafirmar alguma coisa que era essencial na sexualidade e que
·tinha siÇ!g_ pirdiéla, seú ãspeeto âeiri@íãcó, sujE!il:él_c19-ªº..PIOCesso primário e à com-
--') ~ repetiÇão. li. Pãrnr dâí, a sex\iãhd(!Qe._ (j cõrtteWõ que abarcava de início,
ericonfi'ã:se C9mO que esquartejada doravante entre estes dois clSPectoS. que serão
finalmente reagrupados por Freud sob os termos de pUISões dê vida. ou Eros. e
pulsões de morte. Eros retomando não a. totalidade da sexualiâaàé,_ f!lª~ .os..aspectos
da sexualidade votados ã conservar o objeto, e também a conserVar o Ego como
objetO primário. ·
--4.2. li. relação das pulsões devida e de mortecom_os_''prindpios" do funciona-
mento d(; aparêJho pslquico merecéna longas exPlJeações (cf. Vocabulário de psicaná-
lise. artigos: "Princípio de Constância. Princípio de Prazer. Princípio de Nirvana;
Principio de Inércia").
Pode-se dizer esquematicamente que o princípio de prazer está de saída dividido
entre duas tendências contraditórias: princípio de [nér:cia ou_de_ zerg (futuro princípio
de Nirvana) e princípio de constância (regulando a homeostase do organismo e
do seu repréSentante. b Ego).
Quando estes dois aspectos estão mais esclarecidos, depois de Para além do
princípio de prazer chega-se, não obstante. a formulações invertidas, segundo o
principio de prazer 5Elia atraído para o zero ou para a constância.
Quando o "principio de prazer" signifLca_roouçá9. absoluta das tensões, diz-se
que está'aseiVIçci dã pü~õ ª~1]9rtê;·. - · ·--
-uuanaõTtenaencia ao zero absoluto é designada como "princípio de Nirvana".
o princípiõ ae prazer distingue-se dele e confunde-se com 6 princípio de constância:
representa. então, a exigência das pulsoes de viélã. hã sua tendência à homeostase
e à sío~se.
4.3. Do ponto de vista "energético", Freud s~pre se ~~1!..59~~ostular um
"destrudo". ou seja, uma energia própria à pulsão de morte. ("O Ego e o ld").
o dualismo pulsional deveriá. portantõ:ser ciinêiiiàdo i:àm um monismo energético.
o da"libiâo.
· ··· · 4.4. Asituação da pulsão de morte em relação ao ld e ao recalcamento originário
implica opções incompatlvels naíiossa opiniaii: .. =f ··- :-...:.. ..l ...

- Freud, como vim~. man~~- até_Q_fim•. com_ am~.ci~:u~~~ci!l®~.


a idéia de que o recalcamento se aplica à sexualidade por excelencia.
- A sitiiãção da pulsão de morte no mais prbftffido dõ-·ldé inegável (cf.
André Gréeri: Le diSéáürs vivantj. . .....
- Apartir daí, ou é preciso manter uma dupla ficç~o~ izante: 9 ld "a..Qê!:to:'
para Q çorp(). e a pulsão de morte CQf!IO _te.lliJ~_ncia( biológiçíl 9_i.!lanLmªdo. Ou
então é preciso admitir que o recalcamento originário ~ r a pul_são de morte
e asitua no próprio núcleo do ld, como núcleo da pulsão sexual.
4.5. Certas conjunturas perturbantes levam ainda a conceber a pulsão de morte
como aprofundamento e não como inovação.
103
- Para Freud, prioridade do tempo "auto" que, a quinze anos de distância,
caracteriza do mesmo modo o primeiro estágio dapulsão sexual (auto-erótica) e
o primeiro estágio da pulsão de morte (pulsão dit~uaprópria morte}.
- Entre Freud e Melanie Klein. Só podemos nos surpreender pelo fato de
M. Klein descobrir, trinta anos depois de Freud, no mesmo ponto onde Freud situava
a emergência da sexualidade. a aparição do ''sadism at its peak"*. Para um tanto
quanto para o outro destes autores. esta descoberta não é. aliás, fruto de pura
observação: é preciso, ao contrário, ultrapassar a observação ingênua e sobretudo
interpretar, reconstruir retroativamente a partir de estâgios ulteriores.
Não se pode pensar que Klein e Freud vêem, ou reconstroem. no mesmo ponto,
o que podemos chamar oataque interno da pulsão, ou o "ódio do Jd" pelo Ego?
4.6. A contribuição kleiniana pode ser consideradaçor:nii a contribuição clínica
mais fundamental à teoria da pulsão de morte. Mas ainda é preciso não deixar
a teoria kleiniana no isolamento de seus conceitos, considerando-a s!lja como um
andar complementar de um mesmo e único edifício psicanalítico, s!lja como um
edifício à parte, ao lado do edifício freudiano.
Uma das dificuldades maiores da concepção kleiniana do sadismo infantil reside
na sua conciliação com a tese freudiana do masoquismo originário, o que chamamos
o aspecto originariamente "auto" da pulsão de morte.
Parece que se propõem dois esquemas de ~riZé!tão:
- O esquema da projeção do sadismo sobre os objetos exteriores, seguida
da introjeção destes objetos. que se tornam atacantes internos. Um tal esquema,
se fosse primeiro, suporia que é a destruição (enão a autodestruição} que é primeira,
ainda que só deva se especificar encontrando seus objetos no exterior.
[Odeio o seio--.o seio é mau--ÍD-o seio é màl1 em mlm]
- o esquema da deflexão da pulsão de morte adotado em 1948 em concor-
dância com a teoria freudiana.
para não me destruir d . .
. - o eJO o Selo \j '
a mim mesmo
A deflexão pode ser ela própria seguida pelo movimento projeção-introjeção.
Klein, no entanto. parece hesitar com justa razão sobre o sentido a dar à autodestru-
tividade primeira. Trata-se de uma pulsão de morte sem fantasia. uma auto-destruição
estagnante e cega, ou antes, já um ataque pelos oQjetos internos? (Cf. Klein 1948.
A propósito da angústia e da culpabilidade: " ... este temor (dos animais selvagens}
exprimia seu sentimento de serem ameaçados pela sua própria destrutividade (assim
como por seus próprios perseguidores internos".)
~ Nossa concepção seria que a pulsão de morte estagnante e sem representação
é apenas o relicário de uma concepção biológica errônea. A pulsão de morte só
e
pode ser o ataque interno por objetos ao mesmo tempo estimulanteS pêrigosos
o
pàrà Ego. Mas a constituição destes objetos-fontes, atacantes internos, é elá própria

' Em inglês no original: sadismo no seu auge. (N. do T.)

104
~ltado de um processo de intrqjeçãoprimário que teve sua origem no que chama-
mos asitüãção originária de sedução (cf. 3.7.i .
-- ·4:7.-A contribuição kleiniana também deveria ser reavaliada no que concerne
às oposições parcial-total. paranóide-depressivo e mau-bom (é, aliás, o que Klein
faz parcialmente. principalmente no artigo de 1948 citado). "Paranóide" e "depres-
~ivõ" devem ser postos em relação reçíproca. Por outro lado, e sobretudo, a oposição
do "parcial" e do "total" não poderia ser concebida, de maneira genética e construtiva,
baseada numa dita imaturidade perceptiva, como relação de partes do corpo a um
corpo, enfim, percebido com totalidade. O "parcial" é mau porque representa um
objeto clivad_o.JJJJJ resto atacante do objeto-(mesmo se este é uma "pessoa total"}.
O "totafé ·sintético e apaziguador. conforme ao Ego, mesmo se se trata de uma
parte do corpo como o seio "bom".
4.8. Assim como o parcial e o total, ou o mau e o bom, as pulsões de vida
e as pulsões de morte também não são "simétricas". Opõem-se do ponto de vista
do seu modo de funcionamento energético, de seu fim. de sua relação com o Ego
e, enfim. do seu objeto-fonte.. As pulsões ~exuaisde vida fundonai:n segürictcÚ
prJfldpio aa energlã ligada (ilrincípio de constância}; seu fim é a síntese, a manutenção
ou a constituição de unidades e de vínculos; são Cõntõrrries ãõ Ego; seu oQjeto-fonte _
-é-um· úljjetO "tOtal". regulador. As pulsões sexuais de morte funcionam segundo
o princípio da energia livre (princípio do zero); seu fim é a descarga pulsional tOtal,
mesmo qu,!! isto custe o aniquilamento do oQjeto; são hostis ao Ego. o qual tentam
d~stabilizar; seuobj;tü:fo~te!_Uf11.8~pectcJ cliV'!do,unilate~al, um indicio do o~eto ..
4.9. ESta oposlçao 56 se concebe. no entanto, com base numa energia liblâlhiil
E,O_fllljm. Isto implica que eQt_reo PtQÇ~oprimário eJivr~iLO pr()cesso secundário
e ligado existam formas intermediárias e passagens possíveis. Mas uma dE;simetria
fundamental persiste, a pulsão de vida tendendo à união entre ela me?mae o_ princípio
de desunião; a pulsão de morte tendendo à desunião tanto de sua união com a
ae
pulsãÕ vida corrío da própria pu!São âe vida.

5. ALGUMAS OBSERVAÇÕES

5.1. Uma teoria da "agressividade" deveria ser necessariamente pluridimen-


sional, tendo em conta ao menos três fatores:
- o "pedaço de atividade" inerente a toda ação, quer seja autoconservativa
ou libidinal:
- a deflexão da pulsão de morte sobre o mundo exterior (sadismo);
- os componentes agressivos da relação especular.
5.2. A, ausência de "idéia de morte:· _no ld (como a ausência de toda idéia
implicando o negativo. ex. a castração, Isto é, em última ãnálise. ã ãüSêricta.de toda
a
"idéia-de"), não_é_incompatível com aangústia de morté no Ego. ESta é percepção
do peifçjo proveniente do trabalho interno dà pÜÍsão C!é morte.

105
5 .3. A nível do Ego, a morte psíquica pode revestir ao menos dois aspectos:
1? a desestruturação do Ego pelo transbordamento. a invasão, a equalização
introduzida pela pl11Sãó sexual não ligada;
· 2~ ·~â evitação das tensões" (Daniel Lagache) PE:!Io Ego narcisista; trata-se de
manter a todo preço a homeostase visando_poupar toda .sobrecarga, méls também
toda fíemorragia iibidinal: recusa de novás possibilidades no obsessivo ou iio ocnofllicb;
ascetismo, estoicismo ou epicurismo. Parece-me que é a esta categoria que André
Green chama "narcisismo de morte".
O paradoxo do termo "princípio de Nirvana" liga-se. sem dúvida, ao fato de
poder designar estes dois aspectos dificilmente redutíveis à unidade: a raiva frenética,
esquizoparanóide, da pulsão de morte atacando o Ego, e a abolição imaginária do
des~o na ataraxia, verdadeira mimetização da morte, mas conforme ao princípio
de constância.
Certamente o primeiro aspecto é mais conforme à significação econômica do
princípio de inércia, o segundo aspecto fazendo eco com a significação filosófico-
religiosa do Nirvana.
O Nirvana da pulsão e o Nirvana do Ego não são idênticos, portanto, mesmo
se durante uma parte do trajeto os processos que aí conduzem parecem coincidir.

Nirvana do Ego

QIL-----------------
Nirvana da pulsão

A pulsão só tem um meio de atingir o nível = O : a descarga completa. O


Ego tem quatro ou seis maneiras de manter a homeostase: aceitar uma descarga
ou um aumento de tensão moderados- evitar uma descarga ou uma tensão excessivas
- evitar a descarga e a tensão mesmo se moderadas.
Estas duas últimas eventualidades corresponderiam ao Nirvana budista, tão
diferente da devastação esquizofrênica quanto o silêncio do monastério difere do
de Hiroshima.

106
5.4. Pode-se sustentar que o medo da castração é. a.maneira- culturalmente
normativa - de ligar a angústia. Que dizer do medo. de morrer, no sentido da
relé!Ç?o do indivíduo com o aEq_ntecimenro_ce sua moftê
biológica e psíquica?
Estando Sêdlâdó no Ego, como todq_arero; Q_mectQJ!e mos~r é sQmE:!nte uma
elatíOràC;ao dã mals inominável das angústja~. de Q_rjg!l_rn_jJ.Iterna,_graças ._à_única
~fêe~taÇão_~sível:_~. ~e-~-~ _ [>!!rig~~r_!3_ vid,<!Z.ABJd~f!g~_{ªngústia . qe
morte ou angústia-morte) ligando-se, assim, em Lebensgefahr?"
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• Em alemão no original: perigo de morte. (N. do T.).

107
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DA TEORIA DA SEDUÇÃO RESTRITA À


TEORIA DA SEDU~ÃO GENERALIZADA
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. .,I' \.-\/~
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Temos o dever de afirmar que entre o fim do ano de 1897 e a dupla data
de 1964 e 1967 foi ocultado, junto com a teoria da sedução. um fundamento
essencial da psicanálise. Nosso objetivo, neste artigo, não é principalmente histórico.
mesmo que nos seja necessário. cursivamente, acompanhar a história (1 ). Trata-se
de mostrar as razões profundas deste ocultamento. de indicar como pode ser ultrapas-
sado e como pode ser fundamentado de novo. mas desta vez na sua radicalidade.
o que Freud havia largamente traçado antes de apagá-lo.
Freud não dissimula o caráter genialmente inovador desta descoberta: "Considero
que se trata aí de uma revelação importante, algo assim como a descoberta de
um caput Ni/i da neuropatologia" (2). Trata-se de pôr em relação uma realidade
E!fetiva, que se traduz nos fatos concretos - a "sedúção" - e uma teoria da
mais ampla repercussão. uma vez que, explicitamente, pretende explicar a totalidade
da psicopatologia e uma ve?. que, implicitamente. através da noção de recalcamento.
o que se encontra em perspectiva é a gênese do sujeito humano enquanto possuindo
um inconsciente e uma sexualidade (no sentido freudiano deste termo).
Estes dois elementos: !.e~Hdacje efe_tiva de uma sedução e teoria da sedução
vão percorrer toda a nossa exposição. Vejamos como se conjugam antes de 1897:

1 ~ Deixamos a outros o cuidado de escrever em seus detalhes esta "História da Teoria Freudiana
da Sedução" que nos faz_ uma falta cruel. Doravante os documentos estão completos, com a publicação
m extenso da correspondenCia de Freud a Fliess. Entretanto. desde há muitos anos os textos fundamentais
estavam à disposição daqueles que desejassem interessar-se por eles: manuscritos de "O Nascimento
da Psicanálise". "Projeto de Psicologia Científica". "Novas observaçóes sobre as psiconeuroses de defesa",
"A Etiologia da Histéria". etc.
2 "A etiologia da tlisteria". fn Neurose. psicose e perversão. Obras completas.

108
Os fatos da sedu~Q..tais como Freud os aponta nesta época são o que designo
como seduçãciTiifantil. Concretizam-se em "cenas" que, graças ao método analítico,
podernsel'reenêontradas, reconstruídas. rememoradas. Mas Freud não se priva
de confrontar esta rememoração intra-analítica com informaçoes colhidas entre os
próximos, e às vezes realizando uma verdadeira investigação. Todos os escritos
freudianos desta época estão cheios de exemplos destes "acontecimentos de uma
experiência sexual prematura" (3) na qual uma criança mais ou menos pequena
é confrontada passivamente com uma manifestação, uma irrupção da sexualidade
adulta. Retomemos rapidamente os elementos. A criança da qual se trata situa-se
sempre num estado de imaturidade, de incapacidade, de insuficiência em relação
à experiência que lhe acontece. As lembranças evocadas, diz-nos Freud, podem remeter
até o segundo ano de vida (4). mas a questão não é de pura cronologia: da mesma
forma como, na neurose traumátiça do adulto, o estado de despreparo (fortuito)
é necessário para que aconteça o traumatismo, da mesma forma a criança pequena .
(mas esta por natureza) encontra-se num despreparo essencial. sem recurso, aflita
(hinflos) em relação à "arbitrariedade" do aténtadó sexüalperpetrado pelo adulto:
"Um certo estado infantil das funções psíquicas. assim como do sistema sexual.
é necessário para que uma experiência sexual, tendo ocorrido durante este período,
deSenvolva mais tarde, como lembrança, uma ação patogênica" (5). A imaturidade.
a "impotência sexual inerente às crianças" é assim avaliada por Freud em relação
a uma espécie de escala de desenvolvimento comportando' etapas. níveis: nível de
reação somática. nível de ressonância afetiva, nível de compreensão psíquica, tudo
Isto fazendo apenas um: é na sua totalidade psicossomático-afetiva que a criança
pode ou não integrar adequadamente o que lhe acontece. Evidentemnte, a etapa
de maturação pubertária atua aqui como o limiar temporal maior. mas também
como o modelo de outras barreiras mais precoces, outras trocas de nível, prefigurando
já a noção de fase. O essencial é que a crianQ!..nl!_m primeiro tempo do traumatismo
situa~se num "antes", rium "pré"(6)que a ~epara (foque ~[}ó Sií[úiido têifiPõ.
Oparceiro obrigatório da sedução é o adulto. Seguramente a anamnese encontra
cenas sexuais entre adolescentes ou cdanÇãs deidade aproximada. mas. regularmente,
remonta a cenas mais arcaicas onde uma das duas crianças (às vezes as duas) foi
submetida à infecção (7) pelo adulto: "Lá onde as relações se passam entre duas
crianças. as cenas sexuais conservam o mesmo caráter chocante, dado que toda
relação infantil postula uma sedução prévia de uma das crianças por um adulto"
(8). O adulto incriminado por Freud - e por seus pacientes - certamente não
era qualquer um. Era um adulto "perverso" e isto no duplo sentido que vai ser
3 - Ibidem.
4 - Ibidem.
5 - Ibidem.
6 - "Pré-sexual", diz Freud. Mas este termo pode e deve ser tomado em duplo sentido: absoluto:
antes dã irrupção da sexualidade e relativo: numa etapa anterior da sexualidade infantil.
7 - A comparação com a "transferência" (Übertragung) de uma doença infecciosa é abertamente
colocada. "A etiologia da histéria". Cit
8 - Ibidem. Grifo noSSQ.

109
estabelecido, mais tarde. nos Três ensaio~ desvio~. uanto aoi_Objetéit pois que é
U!f! pedófilo, até mes~o incestuq;o, desviJ> q~ªnti) áofim iJo~-·~!0~~ RQ<J.ê_esperar
de pessoas que não têm nenhum êscrúP'ulo em sati er suas necessidades .Sêiruais
através de crianças que se preocupem com sutilezas na lljneira de obter esta satisfa-
ção" (9). A passagem da qual foi tirada esta última citação descreve. de ulna maneira
que um Nabocov não contradiria. o caráter ao mesmo tempo "grotesco", "chocante",
"incongruente" e "trágico" destas relações sexuais de um "casal desigualmente combi-
nado" . .freud. até _a negação total da sua teoria. não cedeu a respeito deste caráter
perverso do "pai da histérica". -- --- - _-
Este aspecto patológico das cenas incriminadas representa um papel ?ds Ímp~ss
em que a discussão se comprometerá a seguir~s~a que toda esta mixórdia1teratológi
seja renegada. em co[jjunto e sem maior exame~ por _conta da ''fan~sia''~f-1-G . üa
para ser exifrillida-e branéliâá. bem mais
í:ãrde. como árma de_guêrrá d.elibe_radan_Jente
antipsicãnalítita. Duplo Impasse que evli:ará rét:Orriàr ã questão do ponto onde Freud
a deixa. e grâças aos desenvolvimentos que nos deixaram principafnente os Três
ensaios: por mais inegável que s~a a perversão clínica de numerosos adultos nas
suas relações com a criãllçã. esta psicopatologia deve ser relativizada, reconstituída
sobre o fundo daquilo que conhecemos de arbitrário 'que cimicteri:la a sexualidade
humana em geral. precariectade e intercambialidade de seus fins. estranheza e inacessi-
bilidade de seu objeto "perdido", etc.
"Um ou vários acontecimentos" nos diz Freud: mais praticamente todos os
seus exemplos clínicos põem em relação. em perspectiva. várias cenas que se sucedem
no tempo mas que. sobretudo. "simbolizam" uma em relação à outra. Já na configu-
ração do conjunto pode-se demonstrar esta ressonância de um cenário ao outro.
Mas é preciso ultrapassar a analogia global entre as cenas; o trânsito. o metabolismo
de uma a outra. opera-se sempre elemento por elemento: o esquema desenhado
no "Projeto de Psicologia Científica" (caso Emma) (11) continua sendoo mais demons-
trativo neste caso; é exatamente do mesmo tipo daquele que iiga o son-ho a seus
pensamentos latentes. eventualmente a uma cena vivida na véspera.
Atrás de uma cena perfila-se. portanto. uma outra. a qual deixa pressentir
[]ma terceira. Esta passagem de cenà em cena até uma lmprovavel cêriã primeira.
originária. será um argumento no momento da crise de 1897. Contentemo-nos
em notar. de momento. o aparente paradoxo de voltar-se a um acontecimento pri-
meiro.
Última característica. a mais essencial. pois que define a própria sedução: a
passividade da criança em relação ao adulto. É este que toma a iniciativa. insinua-se
por palavras ou gestos: a sedução é descrita como "agressão". irrupção. intrusão.
violência. Esta afirmação total. a essencial passividade da criança na sua confrontação
com a sexualidade adulta. deve. no entanto. apresentar nuances em função, precisa-
mente, ao encadeamento e da sucessão de cenas sexuais. Antes de tudo. sabemos.

9 -- Ibidem.
1O - Só se emprestl aos ricos ...
11 -- In: La naissance de ta psychana/yse. Paris. PUF. 1973. pp. 363-366.

110
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Freud,bpõe a histeria. na qual seduçã_o_ e passividade seriam imediatamente evidentes,


à etiologia da neurose obsessiva. na qual "não- se trata mais de uma passividade
I sexual mas de uma agressão praticada com prazer, de uma participação, experimentada
com prazer. em atos sexuais: portãn1õ.Liêuma atividade sexual". Mas a oposição
aqui é uma falsa simetria: passividade e atividade infantis não dividem o jogo em
partes iguais: a atividade encontrada na infância do obsessiVo perfila-se sempre
sobre o fundo de uma experiência passiva: "Em todos os meus casos de neurose
obsessiva encontrei um substrato de sintomas histéricos. sendo que estes terminavam
por se ligar a uma cena de passividade sexual que tinha precedido a ação geradora
de prazer." (12)
Entremos. entretanto, mais nos detalhes e ultrapassemos esta oposição esque-
mática de obsessivo e histérico. Efetivamente. a objeção está ao alcance da mão:
em mais de uma "lembrança" na qual o sujeito pretende ter sido seduzido passivamente
não se pode demonstrar que ele desempenhou um papel provocador, indutor. em
relação ao gesto do adulto? Quem seduz quem? A questão não corre o risco de
se perder nos meandros de ações e de interações recíprocas. até mesmo em espelho?
Ainda aqui o pensamento de Freud é muito claro. como o vemos no caso Emma:
;' (13) a provocação pela criança se situa nas cenas mais recentes. repetitivas. (14)
\ mais se volta atrás no tempo mais a passividade (ligada ao aspecto fortuito inesperado)
/ domina. mais avançamos no tempo mais a atividade do sujeito se insinuà nas cenas.
-~ Vê-se que nossa descrição das cenas já se abre sobre o que se chama teoria
t1a sedução: uma teoria original e complexa que se desenvolve ao menos em três
registros: temporal. tópico e "tril_c!l!tivo". Registros estreitamente solidários, comple-
men1ãres. êqLié desejamos apenas relembrar muito brevemente (15).
o aspecto temporal da teoria da sedução permaneceu - ao menos assim o
esperamos - uma aquisição da psicanálise: é ~!~oria chamada posterioc ou__~nda_
do traumatiSI]lO_~m. dqis tempos. P@:Uia qu~ na_dase .Íf!?C!~Y~!lQ incgl}_sciente humano
senaô iiã relação de aõ menos dois acontecimentos separados. noter!liJp. j)Or].lm
ffi()IiienEo de mutação que permite ao sl!ieito reagir de forma diferente da priJl1eira
experiência. o primeiro tempo. o_~o terror. confronta um süjeltO iiãó preparado
· i::om uma ação sexual_ altamente siQi1ificativa. mas cl!ia significação não pg_Qe__?.~r
·• Iassimilada. Deixadã ém espe~ra. _ã):!fl}~ran_Çil_QªQ_f!_eiTl__S~ m~Illapatogên~em
· ' fraúrríãtií.ante. Só se o torna pela sua revivescência. por ocasiãõãeUmã segunda

12 - "Novas observações sobre as psiconeuroses de defesa".


In: Neurose, psicose e perversão. Sabemos que Freud não desistirá ulteriormente deste subStrato histérico
na neurose obsessiva.
13 - La naissance de la psychana/yse. Paris. PUF. 1973. pp. 364-365.
14 - "Apesar deste primeiro incidente ela tinha voltado à loja. depois parou de ir. Em seguida. recrimi-
nou-se por ter voltado à loja, como se tivesse querido provocar um novo atentado. E. de fato. a "consciência
pesada" que a atormentava bem que podia derivar deste incidente". Ibidem. De maneira reciproca
em relação ao "substrato histérico" de toda neurose obsessiva; temos aqui uma histeria que se desenvolve
em obsessão. fobia de impulso. recriminações obsessivas.
15 - Para maiores desenvolvimentos. rever principalmente: Fantasme originaire, fantasmes des origines.
origine du fantasme" em colaboração com Pontalis. J.-8. Paris. Hachette. 1965. pp. 22-8.

111
~~a,.q~~_,_e.!ltra..e'!l__~~!l~f!~..,~~Íéltiva com a primeira. Mas, devido às novas
poss_JbJIIdades de reaçao do S.Y,J_eJto, -~jl_p!!Jpna lembrança, e não a nova cena, que
,, . fimc1ona CQJ!lQ.f.OI!te de energia lirndinal interna. autotraumatizante·: -----
Este tempo autõfrãmatlzânfê encõiifi'ã silll saíãa nao nürriã'liquidação ou numa
elaboração normal. mas numa :·d~~W\:Qló.Q:iç_( pu__recalcamento; isto por razões
ligadas ao aspecto tópico do processo implicando uma verdãdeli'ã eSfratégia de guerra.
O indivíduo que vai, aliás, ?urante o curso_ de~ processo mesmo. ~rasitado
f!!Jf seu Ego nasce11te. está entre9ue a d01s tipos de aflição e de vulnerabilidade:
quando ?o-P.r:~rneir,oataque~ o externo, não tem ás méíàs de defesa adequados,
quem seya responsavel, e pode, no máximo, bloquear o inimigo no lugar. No segundo
., _tempo. já tem os meios. mas se encontra revirado, atacado no seu fronte desarmado
isto é, do interior. ·
Teoria genial, que desdenha todas as dosagens que se buscará. a seguir. descrever
entre fatores exógenos e fatores endógenos: aqui tudo é exógeno e tudo é endógeno.
Mas esta proposição só poderia ser verdadeiramente fundamentada por um desenvol-
vimento da teoria tópica e principalmente por uma explicitação da teoria do Ego
e de suas peripécias. que aqui só se apresenta esquematicamente. (16)
Enfim. ao lado destes pontos de vista temporal e tópico, também se desenvolve
a teoria da sedução. sobre um plano (não lingüístico mas) da linguagem. incluindo,
como Freud sempre o fará. todos os modos articulados de comunicação neste termo
de linguagem (17). Refiro-me aqui sobretudo à carta a Fliess de 6 de dezembro
de 18~. Tive sobretudo de comentar várias vezes (18) este modelo que assimila
a relaçao das cenas entre ela~_a_ljfT)a reinscrição e a uma tradução, e o recaicamento
~ ta[ila_(pa~ial) ~-e t~_adução. processo situadoná bãrreira que separa duas
épocas psíquLcas. Aqui também muitos pontos são apenàs esboçados, principalmente
a natureza de uma primeira inscrição, no pequeno ser humano. de um "sinal de
percepção".
No total, esta teoria freudiana de antes de 1897, que designaremos doravante
comq~·~r.ia ~a-~~~~ção_r~strJta". apresenta, ao mesmo tempo, uma grande força
e pontos de fraqueza. Sua força reside: 1) n_a trama .fechada que liga a teoria
..a~-d~_?S- tiradCJ_~_da_ eJ(periência analítica; 2) no fato de pôr em jogo, já de forma
ngorosa e âoravante int~ansponível, est~ três fatores_ da radonalidáde analítica
- temporalidade do aprês-coup, localização tópica suQjetiva, laços tradutores ou
interpretativos entre os cenários e as cenas; 3) na capacidade explicativa do modelo,
amplamente transponível e extensível no campo da psicopatologia; 4) na capacidade

16 - V~r p_rincipalmente, para tudo que concerne ao Ego e seus envelopes. a relação do Ego-corpo
~do Ego-1nstanc1a. etc:- VIda e morte em psicanálise. Porto Alegre. Artes Médicas. 1985, (O "Ego-pele":
Som?s. portanto. l':vados a admitir a existência de uma identificação muito precoce. e provavelmente
lambem mu1to sumana, na sua primeira fase. identificação a uma forma concebida como limite. como
~lsa: a bolsa da pel_e') - Problemáticas 1: A angústia. 2; parte: "A angústia na teoria tópica". _
e Uma metaps1colog1a a prova da angustia".
17 - É o campo coberto pela semiologia. segundo Saussure.
18 - Ver Problemáticas 1: A Angústia. -- "A situação psicanalitica: o psicanalista e seu baque!". In:
Psychanalyse à I'Université. 1980, 5. n:s 19 e 20.

112
( \
evolu!i'{~ ºo modelo: o que designamos. de passagem, como "esboços" para desenvol-
vimentos fÜturõs: -- --- ·- - ··· -- · · .
--os pontos fracos. inversamente. são aqueles onde uma teoria restrita corre
o risco de ser bloqueada numa concepção restritiva. Pode-se relevar vários, precisa-
mente aqueles qug ::quebrarão" no momento (!á_revisão dilacerante do 21 de setembro
de 18~"I,_Do lado das "cerias:·: é a essenc)ado.f'I)Q.Q'!J!l.!l.O sedução que não é questio-
naaa: a concepção de Freud mantém:seãõ ilivel da psicq:>atolQgia ã maís"manifesta.
isto é,dãS reiélções pelverSàs - no sentido clíniCo do termo : .___ ent:I:ê Üm adulto
e orriã i:í'iãnÇà. A partir daí. a interrogação "estatística" dé Freúct. tão simplista
qoarítõ possa parecer, não poderia deixar de ser desconcertante: não deveria haver,
necessariamente, um maior número de perversos na geração dos pais do que de
neuróticos na dos filhos? Da mesma forma. e mais profundamente, é o tipo de
fatos em causa, ou, mais exatamente. o medo da realidade buscada na investigação
analítica, que é mal apreciado: se as cenas traduzem-se umas às outras. se voltar
atrás na interpretação não tem outro objetivo senão descobrir, enfim. uma cena
que entregaria, no seu texto, todo o seu sentido, concebe-se que a busca de uma
cena sempre. mais antiga. mais escondida. mais totalmente reveladàra•. ãpofJniJ~
n
só pÕêfêser infinita e engànadora. 9) bõ iãdo da teoria, a mesma rigidez apái-ente.
O modelõ concebido, por mais coerente que s!lia. tem por objetivo explicar a psicopa-
tologia: e somente ela. Defesa patológica, recalcamento e inconsciente pertencem
ao mesmo conjunto. aquele que, inversamente. a cura se propõe a desfazer. A idéia
de um inconsciente "normal" (20) irredutível apesar do que se pode conquistar
solm!ê!te, á postulação de um recalcamento originário que a própria teoria da sedução
explltãria. tudo isto ainda está fora do alcance. (21) Alouca esperança de um "sucesso
total", da descoberta do "segredo do incidente infantil", de uma "dominação completa
do inconsciente pelo consciente" acaba necessariamente na decepção. mas esta termina.
sem outra forma de processo. por fazer explodir a teoria ém pedaços: enquanto
qüe à relação da teoria com os fatos poderia ser radicalmente renovada pelo seu
aprofundamento conjunto. Pois apenas um aspecto parcial e restritivo da fatualldade

19 - O recurso que Freud faz à fantasia - ou à indistinção da "ficção" e da "verdade" não esclarece
nada: uma fantasia não produz necessariamente um sentido auto-suficiente mais do que uma cena
rememorada. A volta para trás na fantasia também será infinita. Donde o último recurso à biologia.
20 - Pressentimento. entretanto: "Não basta levar em conta o recalcamento entre o pré-consciente
e o inconsciente: é preciso ainda pensar no recalcamento normal que se produz no próprio sistema
inconsciente. É um fato muito importante, mas que ainda resta muito obscuro". Manuscrito M. In:
La naissance de la psychanalyse. Paris, PUF. 1973. p 181-182.
21 - Um outro fator de obstículo é a importância quase exclusiva que Freud reconhece ainda à
puberdade entre as fronteiras separando as fases temporais. A infância e a sexualidade infantil é e
será ainda por muito tempo percebida por ele como um todo (o periodo auto-erótico) face ao todo
pós-pubert.ário. Dai a dificuldade em fazer atuar o mecanismo do aprês-coup. entre dois momentos
da infância, do qual o "Homem dos Lobos" dará posteriormente um exemplo surpreendente. Uma
dificuldade análoga encontrar-se-á até os anos 1900-191 O a propósito da teoria da homossexualidade.
Freud. com Sadger. depressa descobre que um vínculo heterossexual apaixonado pode ser a origem
de uma escolha homossexual. mas é-lhe necessário muito tempo para aceitar levar este vinculo até
a infância (Leonardo da Vinci).

113
era invocado para recusar. sem mais, uma teoria que era ela mesma por demais
restrita. enquanto que a discussão de 1897 (22) podia se abrir sobre um reman!ljo
dialético como o que se observa na história das ciências, uma dupla generalização
. rio sentido exato de que falamos, em fisica. da teoria da.. relatividade generalizada.
Uma .!.OO!.]a_ dasedução g~n~raJJZada? vise
qu~ já traço o programa de após
1964-1967. Mas não posso pássãr emSllêncio o período intermediário de setenta
anos, mesmo se os limites deste artigo que. assinalemos, deseja ser mais teórico
e epistemológico que histórico. assim me restringem.
É um período de recalcamento. se podemos aplicar este termo à história do
pensamento. (23) Na literatura psicanalítica - com exceção de Freud e de Fereczi
- é o deserto. "O Índice dos escritos psicánalíticos" de Grinstein. que cobre este
período muito exatamente. é revelador. A palavra-chave "sedução" indica em tudo
e por tudo três artigos de curiosidade psicopatológica e um artigo de curiosidade
histórica. todos publicados em revistas não-psicanalíticas por autores c4.ia posteridade_
não nos deixou nenhum testemunho. (24) A restrição da teoria à psicopatologia.
seu repúdio por Freud como pertencendo a um período ultrapassado. atuaram. no
movimento. exatamente como uma censura.
No próprio Freud, depois de 1897, a teoria passou por um verdadeiro cataclisma.
Sabe-se que é próprio do recalcamento (secundário) agir sempre "individualmente",
isto é, pedaço por pedaço. Tão eficaz quanto o próprio reealcaménto, este processo
de deslocamento. de deSmembramento. dé ocúltamento._ é esta reelaboração secun-
dária que recoloca juntos elementos não coerentes e desfaz os vínculos de coerência
real. Cada um dos membros da teoria sediJtivá, membra di~ecta, continua a evoluir
por si_mesmo, procurando para si eventualmente um outro contexto. Assim o aspecto
i:emporal da teoria, o aprés-coup, continuará a ser uma linha diretiva do pensamento
-e da prática- psicanalíticas: apesar das tentações da "fantasia retroativa" apresen-
tada por Jung, Freud insistirá em manter a dupla tensão, a tensão em sentido
duplo. entre a cena mais antiga e o drama mais recente: testemunha disto todo
o texto sobre "O Homem dos Lobos". É verdade, no entanto. que privado do contexto
da sedução, o aprés-coup pode apenas procurar desesperadamente um outro ponto
de ancoragem. numa outra "realidade": aquelas que se chama "fantasias originárias",
he-rança filogenética. "mito científico" da horda originária. etc. (25)
22 - Mas que interlocutor verdadeiro tinha Freud então?
23 - Tomamos a liberdade de falar de recalcamento (processo pessoal). pois se trata essencialmente
do pensamento do indivíduo Freud.
24 - Margaretha Kossak "Sexuelle Verführung der Kinder durch Dienstboten" (Sedução sexual das
crianças pelos empregados): Sexual Probleme jan. 1913.
- Berllhold E. Schwarz e B.A.Ruggieri: "Morbid parent-child passions in delinquency" (Paixões mórbidas
de pais·filhos na delinqÍiêrKia) SOcial Therapy, 1975. 3. 180 e "Sadism seduction and sexual deviation""
(Sadismo. sedução e desvio sexual), Medica/ Times, 1959. ff'l. pp. 216-224. - Alexander Schusdck
"Freud"s "seduction theory": a reconstruction" (A "teoria da sedução" de Freud: uma reconstrução)
J. Hist behav. Sei.. 1966. 2, pp. 159-166.
25 - Ver, a respeito deste movimento de ascendência na "história da espécie". Fantasme originaire.
fantasmes des origines. origine du fantasme . 1964. Les Temps Modemes. 215. Por mais de uma
vez exprimimos desde então nossa oposição a este gênero de especulação sociológico-antropológica

114
No que tange aos aspectos tópicos da teoria, as coisas também vão derivar
perigosamente. A nocãQ_JI.e...ati!!llJ.í! interno, até mesmo de corpo .!!~ranho interno.
n~2_1lf!Lealmentv;ontes.tada_;_é a fan13tsia, sabemgs_. fl11~ará o lugar desta
última "re~ica";_masJáJ:am~m o solo de uma realidade mais "Qgi~t;iva"
~ inevitaY~!!Jen~ pus~d(J: a pulsão será, em último caso. de origem biológica; quais-
quer que s!ljam as relações. de "representação" que a~egurem a mediação, o movi-
mento vai no sentido: excitações somáticas -:-- pulsão :..__:-fantasià. enquanto que.
em plena teoria da sedução (maio 1897). a série cãüsal SêesfliDêlecllrasslm:-
impulsos
_ _,... (lmpulse)

:e~~rança das cenas -------- .


--------_. fantasias ----~~>• impulsos

O terceiro aspecto da teoriª, .o.riJodelo de linguagem e tradutivo, vai, para


Frelld. afundar pouco a pouco. É em Fereczi que encontrará mais do que a sua
~IJ!I!.~Ilçia (pois Fereczi. cert:ameD~ão .tinha conhecimento da. carta 52), sua
renovação. Vemos no_ seu artigo "Confusão<J.e IÍÕQli~Q~fT! E!ntre os adultos ea criançà"
Um-verdadeiro prefácio da "teoria dª sed!JçãQgeneralizada", e, por um anacronismo
apenas aparente. reservamos-lhe todo um espãÇo no movimento teórico de ápós
'1964; (26) .. . .
Se.. a.sedução como teoria sofre. para Freud, esta espécie de recalcamento )
e _Qe_ des.m~mbra!Tlen~ .que lamentamos. por outro lado, em compensação, o da
"fatuaJ~~ad~·:. um_.aprofu!J~Íil~fi~ lf!.íf!9itãlite ~é.- é$!)Qça, com a introdução de um
~?u~do nível. que se_pode ch~.~·mr:_~eduÇao precoce. o pai, gràride · personãgem

e filogenética. qualquer que 51tla a função que lhe é conferida e o tipo de existência que lhe sflja atribuída:
funçãg_~:HJI.JU[Tla causalidade transmitida geneticamente) e realidade histórica para Freud. (um dos
textôs que vão mais íOnge neSte séntido acãiiã ser re<féscoberto: ''Visaci de coÍ])untó das neuroses
ãe @.Ã';fi'rê.ilda"") Texi:o enviado em 1915 ... a Fereczi). Realidade e função dé mitó para outros. mas
_.este tenno apenas. em si mesmo fascinante. basta para responder aos problemas concretos q~e deveria
leva[ltar: relação do.."mito" psicanalítico. ao .mito dos etnólogos. modalidade da sua transmissão no
indiví<jug,_local de seu impacto na tópica subjlrtiva. etc.
26 - In: Psychanafyse. 4 (Obras completas de Fereczi) Paris, Payot. pp. 125-135. Lembramos que
esta conferência data de 1932, um ano antes da mori:€ de Fereczi. Que Freud (não mais do que seus
discípulos) não parece ter. de fonna alguma. respondido a esta antecipação. Que a primeira tradução
francesa, feita por Vera Grancfi. data de 1961 1/.a Psychanafyse, 6). Que os comentários principais
podem ser encontrados em:
- Granoff. W. "Fereczi: falso problema ou verdadeiro mal-entendido?" La Psychanalyse 6, 1961. p275
sq.
- Laplanche. J. et Pontalis, J.-B. "Fantasme originaire. fantasmes des origenes. origine du fantasme"
in Les Temps Modemes. 1964,215. Nova edição Paris, Hachette, 1985. p 28-29.
- Laplanche. J. Vida e morte em psicanálise. Porto Alegre, Ari:€s Médicas. 1985.
- Gantheret, F./ncertitude d'Eros. Paris, Gallímard, 1984. p. 143 ss.
- Laplanche, J. Ver cap. "Traumatismo. transferência, transcendência e outros trans(es)".

115
da sedução "infantil". cede lugar à mãe. essencialmente narelação dita "pré-edipiana".
A sedução é aí yeiçula_da pelos cuidados corporais prodigalizados à criançà: Este
é um tema que se repete em Freud. e sua_IT1_anej;:a cl_!!_demonstrar que nãQs_Qrnente
a sedução não é abandonada mas que segue seu caminho, para além_ do episódio
em direção ao essencial. Só posso citar a passagem canônica: "Aqui a fantasia toca
o solo da realidade efetiva. pois foi efetivamente a mãe que, no desempénho dos
cuidados corporais, riei:éssariamente provocou é ralvéz mesmõClespi!rtõU peJa primeira
vez sensações de prazer no órgão genital". (27) - -- - -
Trata-se aí de um passo capital na via que nos faz voltar atrás não somente
~o tempo (trata-se dos primeiros meses) mas na categoria de n'!ãí[(íáde em que
e preciso situar os _fatos de sedução. Pois não se trata mais exatamente de pura
re~lidade fatual (Realitãt) mas de _e.fetivjd~d_e (~i~~keit), .!;ategpria que nos leva
alem da contingência e da peripécia: trata-se diLL!_fTia_ S~IJção_ neces~ria (musste,
verbo que marca o caráter obrigatório da ação materna) inscrita na própria situação.
Em compensação, Freud falha em analisar o que constitui esta universaÍidade e ""-.
a caracterizaria como um dado humano fundamêntâÍ; não chega a introduzir o
inconscien~te[í!ãíjmas isi:o é muito gera) nJ! su~ ânáli~é-~a situaçao pais-criança);
!<Jiha _sobretudo em resti,tuir esta sedução precoce no conjuntà féórii:o que lhe confe-
riria todo_ o__seu valor. E tão artificial distinguir, como o fizemos por comodidade,
à'liiítíà dã fatualidade da linha da teoria: uma teoria da sêduÇao generalizada só
pode se desenvolver se estabelecemos com precisão a efetividadeda sedui;ao originária;
inversàmente. sobré à sàlo de ur_na teoria :ombinando um
bl;:il99lii!!~. é_pÜisão
e_ulll~antropofilogênese das fantas1as. Freud nao podia levar a bom fim sua reavaliação
do fato sedutivo. (28) ·
Eis que chegamos ao período contemporâneo. depois de 1964-1967. (29) Não
será para atrelar ao nosso trem. sem outro exame. o vagão daqueles que exploram
a pré-história de Freud colocando toda a ênfase sobre seu interesse oculto pelas
observações psicopatológicas. até .mesmo médico-legais. de abusos sexuais cometidos
contra crianças. E. se o capítulo de Jeffrey Masson: "Freud no necrotério de Paris"
não é para ser obrigatoriamente recusado, esta volta à psicopatologia mais massiva
só poderia nos desviar no aprofundamento da efetividade subjacente. Aliás. é notável
que este livro (30) cujo título se refere à supressão (em inglês) ou ao "abandono
da teoria da sedução", ignore desde a primeira palavra desta teoria. Voltar..sR,m
27 - Novas conferências de Introdução á Psicanálise. obras completas de Freud.
28 - Todo discipulo de Freud que tenta fazer progresir o pensamento anaJitico (todo pesquisador
inscrito_ numa. tradição) só pode alternar duas atitu.des: a que consiste em se deixar propulsar p~r l · , .r
md1caçoes. relampagos da obra. correndo o nsco de adiantar-se a Freud: e aquela que. por uma apreciaçao ,.\'
mais objetiva do conjunto da pensamento freudiano. lhe confere um lugar relativament;i fica. ]avalia '
suas riquezas mas tabém seus limites. suas falhas e seus impasses. PenSáinos ter de maneira sutiti~ilt~mente
freqüente adotado o primeiro ponto de vista para ter o direito de não extrapolar indevidamente Freud
na teoria da sedução generalizada. Um dos textos que mais convida a esta extrapolação-propulsão
é. sem dúvida. o Leonardo. Comentamo-lo neste sentido nas Problemáticas 111: a Sublimação.
29 - 1964: Laplanche. J. e Pontalis. J.-B.: Fantasme originaire. fantasmes des originés. origines du
fantasme. Cia.
30 -- Le réel escamoté. Paris. Aubier Montaigne. 1984.

116
outra reflexão .. à sedução infantil é cair de novo na pesada oposição do real e da
fànta~ia que a teoriajÍl~fTI_ente permite uJtrapassar. ·· · ·
A"generalização" que propÕmos se coloca. portanto. e antes de tudo, sob
a forma de um questionamento teórico. Seu priméiro.fÜndamento é mesmo muito
precJ_~r1l!!!lte filos{lficQ: Uf11?. reh!ti.!:~~~~.Qmio.ªtlvida_~_i;'-~ssividade. Freud
teve_~ _[~_!l~e mérito.. a grande_ªygácia; de colocá-\Q.D.1l.?_Q!:ig~n,s~tãêitorii teoria
~~?-~s•.quanto n?, desenvolvime!lto q~_yidil_~xua[. (31) Audácia. se lembramos
a man~1ra moderna . anglo-saxã para falar claro, pela qual se pretende esvaziar
a questão fala~do de ·~nteraçã?"· Pois certamente~ ~o plan(J ga pu r-ª <:le_?cri_çã__c> compor-
_j:.;lmenl:iJI. mu1to esperto sera aquele capaz de medir, numa relação interpessoal
~uem_é ativo e quemé passivo, "C<&éi_p_u]s_~o-~_IJfT! p_ed_aÇ9_ de atividade. quand~
3 !!!l~_ de~a~eira negligente de pu}_~a~iva~~g ~e_p~_r:_qÜ~er_qizer pulsões
....Alim PaSSI'JQ_ (32). No _entanto. mesmo com esta referência ao fim. Freud se
atrapalha. como demonstramos a propósito da situação inicial do aleitamento. Pois.
:e n:a_~ ~~?vas Liçõe~:· afirma que "A mãe é, em toc!os os s~ntidos,_ativ_a_ em. relação
a c_r:~~~--(33) no Leonardo" (noutros sentidos tão claramente orientado) parece
descon~ertado pelo caráter passivo da "lembrança do milhano" enquanto pensa que
o erot1smo_=oraJ (a sucção do seio) deveriã ser. como por definição. ativo. (34)
l'Orf.ãnto. nao se deve temer aqui invocar a reflexão filosóficã, especificamente a
dos cartesianos que colocaram de forma bem marcante a qu~o da atividade passivi-
~d_~na relação intersubjetiva: as criaturas umas emrelação âs outras, ou. então.
as criaturas na sua relação com Deus. Citei uma vez Spinoza, mas também podemos
recorrer a Descartes. para o qual deve haver pelo menos "tanta realidade" na causa
ql!_anto no efetivo, óu sóbrétudo a Lelbrilz: "Diz~se que a criatura age para fora
~0.~? tem a perfeição. e suporta uma oytra quando é imperfeita. E uma criatura
e ma1s perfeita que uma outra quando encontramos nela o que serve com razão
a priori daquilo que Sé paSSa na OUtra, e é por iSSO que dizemos que age sobre \
ela". (35) ·· ··· ·····- --- · -
· -Eãpoiados sobre este firme critério, o de l!..~~rn-~?··. de conteúc1o. de significação.
portanto de_ men~gem. que podemos abordar a situação origináriª ga criança e
tentar_:__<:lefim-la. alem de todas é!S suas variações. Aqui. o atrevimento de Ferécí:i
nos guia. permitindo-nos desvencilharmo-nos da exclusividade "familialista" que pesa
sobre todo o pensa~ento psicanalítico. Pois é finalmente uma contingência (ainda
que e~ra1zada na b~ologia (36) e na história humana) o fato de que uma criança
no ma1s das vezes seja educada por pais. por seus pais. pelos pais. Asituaçãq_orlgj_náda.
tal como a coloca Ferenczi. é a confrontação da criança e do mundo adulto. Pois
~ . - ·- ----···- \,

31 - Ver Atividade- Passividade. In: Vocabulário da psicanálise.


32 - Pulsões e destino das pulsões. Obras completas.
33 - Novas conferências de introdução á psicanálise. Obras completas.
34 - Cf. nossa discussão: Problemáticas 111: A Sublimação. e o cap. 'Traumatismo. transferência. trancen-
dêncla e outros trans(es)".
35 - Monadologia. 49.50.
36 - Até quando. aliás?

117
podemos, em todo rigor, e quaisquer que sejam as distorções que possam daí resultar.
nos tornar. semfamília, uiii ser f:iumá_ii(), (37)JJ]ââ. não sem esta confr:QIJ.t:aç39.
Mas este mundo adulto não é um mundo objetivo, que a criança teria que
descobrir e aprender, como aprende a caminhar e a manipular coisas. Caracteriza-se
pelas mensagens (lingQígicas ()~ simplesmente semiológicas: pré ou pãralingUíSticãsj
que questionam a criança_antes 9l!.~.eLaas çorrmr:eel]_da, e às quais deve dãrsiú)udo
e resposta (o que vem a darno mesmo),
Até aqui Ferenczi nos acompanha. Ainda que a expressão: confusão das línguas
não nos pareça completamente adequada. Há várias línguas do adulto, linguagem
verbal, linguagem dos gestos, da mjmiq~_!!dO$_&e1:Qs. Há na criança uma pôtencia!idade
parei eritraf nestãs _línguas. potencialidil_de. naturaUnstrumental e. também.'lfetiva.
Mas o problema não se resume nem no da aquisição de_ul!@(ou_várias) linguagem(nsj,
nem no da confrontação de duas linguagens com suas lógicas e suas bâteriãs si~gifi­
cantes diferentes. Sabemos que, sem gramat:kâ nerri dicionário, uma tal ãquisição
1 ou uma tal correspondência éperfeitameb.tê pQ.~sível. · - -~
Seguindo pará isto uma imà~m de ficção científica já proposta por Freud,
(38) podemos ser tentãâéJs a invocar ãqüi ã éorifrontação de nossa civilização com
a chegada de extraterrestres, ou bem mais simplesmente a acolhida reservada a
Pizarro pelos incas. Sabemos através deste último exemQLo_!:}Lie_qu_?isquer_que s~am
as diferenças de estruturas menfàJS, aehistórias.e mesmo. de referenCiais, a ÇQ[lfUsão
das línguas acaba por dar lugar a alguma. mod.alidi;içj~p[depada de correspondência
e de aquisição. Da mesma forma. para voltar à criaDça._esta se. IntrodUZ sem professor,
habita a linguagem (verbal) que lhe preexiste, e isto. finalmente, sem véStígiõs. (39)
É, portanto, aqui. muito precisamente, que é preciso ir mais longe dô que
Ferenczi. mas também em uma via diferente do lacanismo. Pois Ferenczi .não dá )
. i o_pas. so. d. e l.eva. r em.l ~sideração que. esta~'ll!!.g.yaQem.._d·a· Qª-...i~~o"_.sóé. tri.u.!')~~
na medida em. ql!~'(\!n:LsenJ:icj() .'.'de si. f!l.~!Tlo 1gl}()rad(;J': .. isto é, que manifesta a
pre5eriÇi do inconsciente parenta!. Ma,s. contra Lacan. afirmamos que esta manifes- }
e
tação do incoÍlsCÍente irredutível somente às potencialidades polissêmiEaS de Uma
linguagem em geral.
Para ligar entre si todos estes elementos, enunciaremos: a confrontação adulto-
criança engloba uma relação essencial de atividade-passividade,liQada ao fatô lnefutavel
que õ psiquismo parenta! é mais "rico" que o aã é:í'iariÇã. Mas. de forma diferente
dos éartesianos, não falaremos de maior "perfeição" porque esta riqueza do adulto
também pode ser considerada imperfeição: sua clivagem de seu próprio inconsciente.

37 - A menos que se reintroduza a familia através do expediente das fantasias edipianas transmitidas
geneticamente.
38 - Num texto totalmente coerente com o nosso propósito: "As teorias sexuais infantis". In: La
vie sexuel/e. Paris, PUF, 1969.
39 - "O que não se pode dizer, deve-se calar" diz Wittgenstein. convidando-nos, assim. a nos limitarmos
ao campo da Íinguagem. e pensando refutar definitivamente a hipótese de um inconsciente impossfvel
de ser conhecido. Mas corrigimos. acrescentando: o úniCo indizível verdadeiro é o doantigo dito que
perdeu seu dizer. é o significante dessignificado. Pois este foi dito e nãó pode mais ser calado. (Dedicamos
esta nota a Maurice Dayan).

118 .,
'I'
I
~~- • t_,

Pelo termQ_sedução originárja qualifit;é!!!!Qhll.O_rta~~i!JJ?çáo ~~.!l~.él!!!ental


narqual Q_JildU~p.fQf!91! ª_cria_nça_significan~!anto 9l!ªnto y_ef~ª[s,
e até_co.rnportarnentais. impregnados de signiticaçõe!u?~isinconscientes .. (40)
Do que chamo significantes enigmáticos. não é necessário procurar longe para encon-
trar exemplos. c()ii@fõs. o proprio seio, órgaõ ãpanintemente. riãtllrãraã ractação:
podemos negligenciar aindà seu investimento sexuàl e incon5éiente maior pela mulher?
Pod~_mos supor que este investimento "perverso" não é percebido, suspeitado, pelo
bebê,. como fonte deste obscuro questionamento: que quer ele de mim?
- Mas des~aríamos reservar aqui o lugar principal para à que se chama a "cena
origin_ária''. Querer situá-la. como o faz Freud, ao mesmo nlvei da sedução,.!!() .saco
sem fundo das fantasias originárias, é esquecer este fato essenciai: ãcena do coito
eritre os pais é ela mesma sedução para a crlar1Çã. no sentido de sectução oí-iglnãrla.
Propõe (freqüentemente: impõe) a esta imagens. frag[l1entos de iíiSi:6í-iiis trãümâti-
zantes. inassimiláveis porque parcialmente obscuros para os próprios atores. Âconcep-
ção kíeíriiãnã dos "pais combinados" ilustra bem este aspecto: unidôs num coito
eterno que conjuga o gozo e a morte, excluindo o bebê de toda cápacidãde de
'! participar. portanto de simbolizar.
É neste mesmo registro que funcionam também os dois grandes enigmas revela-
dos por Freud comô os que despertam ao trabalho a atividade teorizante da criança:
, , a vindade uma outra criança e a diferença dos gêneros. Ainda aqui, é através
· do expediente da incapacidade dos adultos de se explicar isto a si mesmos que
se produz o efeito traumático. ·
Vê-se que incluo na sedução originária situações, comunicações que nada têm
a ver com o "atentado sexual": 9 ~nigma cujo móvel é inconsciente é sedução por
si mesmo e não é em vão que a Esfinge está postada às portas de Tebas (41 ).
Não está entre os menores méritos de Leonardo - e do "Leonardo" de Freud
- o de nos indicar os três níveis da sedução, tais como os percorremos: sedução
pedófila. (agui, homossexual), sedução precoce pela mãe, seduç~o originária cuja fi91:lra
é o inelutável sorriso enigmático da Gioconda, da Virgem e de São João. Pois o
· qlie-e preciso compreender bem é que a sedução originária não abole a importância
dos dois outros níveis mas vem arifes lhes dar seu fundamento. A sedução pmcoce,
priríé:Tpalmente. merece toda a nossa atenção na nova teoria da pulsão. AS noções
de zona erógena, de fonte somática da pulsão, de pulsão parcial anal, oral ou fálica,
não podem ser liberadas dos impasses aos quais nos convida uma fisiologia temerária,
se não lembramos que estas zonas, lugares de trânsito e de trocas, são antes de
rudo e primordialmente os pontos de focalização dos cuidados maternais. Cuidados
de higiene. motivados conscientemente pela solicitude maternal, mas onde as fantasias
de desejo inconscientes funcionam plenamente. Enfim. é a partir do solo da sedução

40 - É notível que as Lições de introdução à psicanálise tomem como ponto de partida a elucidação
dos atos falhos (não somente dos lapsos verbais). O que é próprio do ser que tem um inconsciente
não é o sonho, mas o ato falho.
41 - A sedução pedófila. "infantil'', inaugura a tradição. Mas a sedução originária, a do enigma, é
o prólogo da tragédia.

119
originária, e da sedução precoce, que é possível atribuir toda a sua importância
aos fatos da sedução infantil, para fazê-los sair, enfim, da espécie de gueto teórico
onde estão confinados há anos. \
Na série: sedução infantil- sedução precoce- sedução originária, enfatizemos
ainda uma véz que não há uma progressão do mais real ao mais "mítico". pois
convém recusar a classificação de mítico (ou de "tempo mítico") pela qual desfljam
se livrar do originário; o originário é um aprofundamento da noção de real, em
~ireção a Si!Uações inelutáveis que O fundamentam: é uma categoria êiã efetividade,
da Wirk/ichkeit
É a partir de uma forma precisa desta hierarquia das "seduções" que deve
ser reconstruída. sob sua forma generalizada. a teoria da sedução. Teoria que explica.
através do mecanismo do recalcamento. da constituição e da permanência. de um
inconscien!e. assim comg do efe!to ·:pulsão" que lhe é indissociável. Mas que também
deve inciÜir no seu modelo o que se chama a "cura", seus efeitos como seus limites.
Só pode se tratar aqui de um esquema, uma vez que uma parte destas questões
já foi tratada em outros lugares. e outras permanecem em estado de programação.
Recentemente traçamos o esquema geral com a maior precisão a propósito
da pulsão. (42) É a confrontação de um indivíduo cujas montagens somatop~quicas
se situam de maneira predominantemente ao nívél da necessidade, com significantes
emanandõ dõ adulto. ligados à satisfàção deStas necessidades mas veiculando com
eles ã potencialidade, à interrogaç~o puramente potencial de outras men5agens -
sexuais. O trabalho de domínio e de simbolização deste "significante enigmático"
termina necessariamente em restos "fueros"• inconscientes. que chamamos "objetos-
fontes" da pulsão. ' -
Aqui Perênczi só fornece uma indicação, rapidamente insuficiente. Pois não
se trata de uma vaga "confusão", mas, muito precisamente. de uma inadequação
de linguagens. inadequação da criança aà adulto, inadequação do adulto ao objeto-fonte
qué age nele.
O ponto de vista temporal, - o aprés-coup - só se compreende, portanto,
através do ponto de vista semiológico e tradutivo. aquele introduzido pela carta
de 6-12-1896. Lembremo-nos. no entanto, do lugar vazio (43) deixado pelo Wz.•
Como umà pura perç_epção poderia deixar sinais, se eram sinais propostos por um
outro. E. inversamente, se se tratava ápenas de indícios, de traços puramente factuais,
de relicários sem intenção semiológica, como poderiam se propor a Uma primeira
tradução pelo sujeito? Portanto assimilamos o Wz. • tal como se apresenta. exatamente
ao significante enigmático. tal como se apresenta, se inscreve. antes de toda tentativa
de tradução.
O ser humano é e não cessa de ser um ser autotradutivo, autoteori.:z:ante.
O reéãlcamento originário é apenas o momento primeiro e fundador de um processo
42 - "A pulsão e seu ol]jeto-fonte: seu destino na transferência", vide cap.
• ~· Em espanhol no original: Lei particular a um estado. (N. do T.)
43 - Verdadeiramente enigmática para nós ...
44 --- Problemáticas IV: O inconsciente e o ld.
• Ver capitulo "Traumatismo, tradução. transferência e outros trans(es)." (N. do T.)

120
gue dura toda a vida. Para este processo propusemos um esquema. o da substituição
significante ou metábole, com suas diferentes modalidades: segundo prevaleça o
vínculo de contigüidade (metonímia) ou de semelhança.. (metáfo@);~gundo .. s~a
"e5qüecédora", "recalcante" ou "integrante": (44) segundo permaneça isolada óu
5e cristalize. tomé consistência com outras metáboles naqÜiíõ Qiié CFíãmamos ''simboli-
zaçáõ... (45)
- - -- FreLid mostrava imediatamente que o ponto de vista tópico é indispensável
para__ ~pt;ar o processo de recalcamento e fóriieé8f ã:r~aõ ·Pêia
qüãf o próprio
sujeito deve se abandonar ao processo primário. A partir daí. resta modular os
diferentes níveis. e as diferentes etapas do recalcamento. em função, é claro. do
tipo Q_~ sedução mas sobretudo da evolução e ~ã _c~iflpl~xificãção do sistema de
instãnciaspsíquicas. O recalcamento originário, como insi~~?ylviã_ Bl~êlima[. ~-um
pr~ê5So que. não podendo ser percebido diretamente. pode s~r if)çljgido_~ 9_el!n_eado
na- evolução individual. Mas entre suas maior€§ Célrar;Wó~~s _est:á o fato .de ser
éle próprio. no 5eu cónjunto. sob a depeod~ncia go__ªpJ:~:ÇQ.Up. A constituição do
!::go;·lsto é. o tempo do narcisismo originário, desempenha éiÍ u.m papel éSSendai.
precipií:ànte, mas nao como um momento último. Pois somen~ o r.ecáíéãrru~rifu
secunãano. correlativo do Édipo e do complexo .de castraÇão. vem selar a constituição
do inconsciente. (46) ·· · ·
O ponto de vista econômico é um aspecto essencial da teoria. Mas aí também
a concepção deve ser generalizada. libertada de um domínio demasiâdo éxclusivo
ãanOÇão de força e de quantidade. o esseliC:jaJ,:_ilo ê:õi1ôm1i:o. nao tãri@'l:rqoe e
mas a
'.:;.:, clrCútã: maneirã como circ,ula. Assim a oposição dedõis-fípo~·êlÊ! prp~esso.
prTriiãilo ê sécunctâiici: desempenha um gràni:le papel na teoria do conflito. e ari~
de tudo na definição das forças pulsionais 9\!~.?.§_ilcharn em jogo:_pulsões de.!flgrte
é pulSõêS de iJ!Ciá. Nao há outra maneira de definir su~ oposição (e. suas ligas e
·compromissos) a maior ou menor ligação ou desliga_IT1.§D.\JJ__ Ql1~_a_s__ caracterizam.
Ligação edesligamento que são elas mesmas correlativas do aspecto peíà qiiãl se
apresenta o "objeto-fóiib:": puro índice ou_obj!')tojá:~totaL.::totalizante". (47)
O projeto ~rico, tal como acabamos de esboçªclo, não podenã.--sob o risco
de se estiolar no cêu aas idéias. ser limifudó ao riível dã pura contemplação. do
"teorético". o solo dé onde tira sua focça, d.e p:n.ae dr~6~ éôll1radiÇãõ olÍ éonfirníãção.
~fiíPt?:_il~~lllll~o edaprâi:ica qu~_su~g!u a rev§õ_de j ~.'7: Jrés il~nvoi­
Vlmento~_nos parecem aCJiilessêiidãis tõcantes à situação, à transferência e ao pro-
cesso:
- -A situaçãg_, caracterizamo-la como~ _da "tina", e)(ci,llindo ()_ª9~t:?t~o. Não
para fazer da psiêiinálise um processo "desencarnado" llJ~S!_ ao co~y-á~i~. pai!! ver
nelã üiií'lügar âe êóriceritrãção (48) do que faz a essênciamesmoda açãõ humana:
vivere mõrrer pêio amor do amor e do &li o. (49) ... -
'•
45 - Problemáticas 11: Castração. Simbolizações. Segunda parte: Simbolizações.
46 - Bleichmar, S., Aux origines du siJiet psychique. Paris. PUF. 1985. principalmente p. 153-160.
47 - Cf. "Problemática do ld", In Problemáticas IV: O inconsciente e o ld.
48 - Um acelerador de particulas, diríamos.
49 - Cf. cap. "Traumatismo. transferência. transcendência e outros trans(es)".

121
Vemos a concepção e a prática da transferência dominadas pela seguinte alterna-
tiva: trata-se de uma neutralidade cuja finalidaq!!,~ ~i!..~ deixa~pr~ncher por todas I
as repetições aberrantes do sujeito. com a finalidade. ulteriormente, de desiludir
~é! ilusão? Ou se tratá de um retomo. um lugar de ~n)gffia,_enu:esumo. néste sentido.
originárioS aõ sújêlto? -
e
' urriãseaUç'ão destinada â permitir retomar prosseguir a elaboração dos enigmas
- - ----
- Trân5ferênCia em vazio, ou tran5fer~ncia ª_pJ!;!nQ, ~ é a escolha fundamental,
mesmo se a5 vicis5it1Jdes da cura podem às vezes fazê-las pãrecer como dois aspectos
tão prováveis um quanto o outro.
b processá. enfim. é evidentemente o da interpretação e o da construção a
ser restituído, entretanto. nesta proposição uíilversaE o ser humano é. pÔr natureza.
àiifu-interpretante. Processo finito ou processo infinito? Voltemos um instante à
conStatação desesperada de 1897: não se toca jamais o solo da derradeira cena;
tendo por eco a afirmação de 1937: mas batemos na rocha de origem. biológica,
dâ castração. Nossa maneira de compreender as coisas é, de tocia evidêndã; .muito
. diferente: por um lado, não existe ceni!_d~rradeira, nem mesmo fantasia derradeira.
fundamental, uma derradeira chave (individual ou i:rànslndlvidual) qué resolveria
o processo da análise. Neste sentido, eSta é mesmo intél]]llnável, assim como as
potencialidades criativas do ser humãnõ. Masã.interpretação nem por ls5o é uma
invenção ex nihilo. Refere-se. a uni conteúdo. qúe ten1:à. ãrtãncar à sua obsctirldáde,
o
e que nao é outro 5enãÕ próprio inconsciente. Aí está a rocha. ou antes aí está
~ fechadura cuja chave se perdeu. t-'las antes d!! ter sido perdida pelo próprio sujeito.
rio proceSso dê rêéalcamento. foi. mais profundamente. perdida pelo outro. o outro
aduifu. ó outro da sedução originária. Perdida para sempre para a crlánÇa.

"POST-SCRIPTUM"

O texto acima foi discutido, juntamente com outros. durante as jornadas sobre
"A Sedução em Psicanálise". organizadas pela Associação para Estudos Freudianos
e realizadas dias 5 e 6 de outubro de 1986.
Em conseqüência das discussões. apresenta-se, a seguir, um esclarecimento.
Meu artigo tendo sido interrogado a fundo, gostaria simplesmente de acrescentar
alguns esclarecimentos. mais ainda devido ao fato de que meu texto é certamente
denso. Abordarei cada ponto na ordem em que me ocorre.
A expressão, a bela expressão "um sentido dele mesmo ignorado" não é exata-
mente minha. Vem de Freud, oÜ antes. destes tradutõfeS, as vezes irispjracfos, que
foram M. Bonaparte e R. Loewenstein. É no "Homem dos ratos", quando este
"confessa" a grande apreensão obsessiva. e que Freud "observá no seu rosto a
expressão complexa e bizarra. expressão que não poderia traduzir de outra forma
senão como sendo o horror de um gozo dele mesmo ignorado" (P.U.F .. p. 207)
"Einen Gesichtsausdruck den ich nur ais Grausen vor seiner ihm selbst unbekannten
Lust auflosen kann ".

122
Evidentemente. na minha e~gressiig,g~j:j.Q_Q é ignorado por aquele que propõe
o significante. Mas este retorno que faço ao Homem dos ratos conforta meu ponto
devista em dois aspectos. Por um lado. Freud não recusava fazer-se atento aos
significantes enigmáticos não verbais (aqui: a expressão de um rosto). Por outro
lado. a anáÍise (auflõsen) ou. cómo dizem os tradutores. á ... tradução, se faz em
linguagem verbal. Penso ainda na passagem bem conhecida de "a negação" na qual
Freud traduz em palavras a "linguagem das moções pulsionais orãis".
Isto nos leva a um ponto importante: surpreende-me a surpresa de Conrad
Stein sobre a ênfase que porta sobre "Os significantes não verbais e até verbais
e até mesmo comportamentais". Com efeito, sempre- desde Bonneval 1961 -
mé-mãntive na posição clássica freudiana segundo a qual_a linglJ_agem vert:Jal._~_clo
nível do processo secundário. ou antes, que é aquilo que se acrescenta ao processo
primário para secundarizá-lo. Os gestos. o seio, o sorriso dé umã mae saõ signlficaritês
não verbais que o sujeito tenta traduzir (sobrando um resto) em outras linguagens.
inclusive na linguagem verbal. Esta reina na cura. mas não é porque Freud traduz
a níiinii:a do homem dos ratos em palavras que esta estivesse de imediato impregnada
de paiavràs. Quanto a saber se é preciso ter a linguagem (verbal) para sorrir. e
·seos animais não sorriem. eu não poderia decidir: mas penso, contrariamente a
Stein. que as mãos de uma mãe podem veicular des!lios sexuais inconscientes sem
~:::S:--jmplicar de forma alguma a linguagem. Como poderia ser diferente, se o mais profundo
/do !Cs é feito de representações-coisas (e mesmo as representações de palavra.
se existem aí. estão no estado de representaÇões-coisas ou, êomo digo. de significantes
__ des-significados).
Chego à sedução originária. sobre a qual talvez tenha me feito entender mal.
A "generalização" que opero. das seduções - infantil e precoce - freudianas à
originária não é uma passagem a um primeiro tempo, numa regressão temporal
e na dimensão de um "apres-coup"*: é. uma passagem ao ess~:ncial à "efetividade"
em relação às seduções que apenas descrevem o ocorrid() (infaírtil) ou
sitüãêionais
(precoce). A sedução originária quer dizer. que. é_apresença de um maior sentido,
mas de um "maior sentido" escondido, ig_norªdo, cjiie é o próprio mecanismo de
toda sedução. quer esta seja precoce. infantil. adulta._ etc. O estupro de uma criança
pór seu pai. as carícias eróticas de uma inae só são sedutoras porque veiculam
o enigma do des!lio inconsciente do adulto.
O "apres-coup ": agradeço mUito ã [e Guen por ter levantado a questão, pois
corre-se o risco de incluir aí qualquer coisa. A sedução originária não poderia ser
uma primeira ocorrência. mas, como a própria eS?ênçi<t ºª se..Q.JKã.Q, _Ln~itil em si
mesma a sucessão de cenas e esta ten5ao tradutorá entre elas que ct1amo "apres-coup".
Conrad Stein designou perfeitamente a diferença entre nós dois; para ele não
há outro originário que a cura analítica. O originário infantil. qüe o analisando e
o analista constroem nela. é da ordem do mito. Enquanto que de minha parte
• Expressão idiomatica utilizada correntemente em francês na literatura, e que significa "num segundo
tempo", "a posteriori". "depois do ocorrido". Ver "Posteridade" no Vocabulário da psicanálise. (N. do
T.)

123
recuso este recurso ao termo mito para qualificar fenômenos significantes que se
produzem (efetivam~nte!) na infância. Trarei aqui a referência a Jung tal como
aparece no Menino dos Lobos; não para brandir o espectro da heresia. mas para
esclarecer as coisas: Freud mantém firmemente (sem a ver claramente) a distinção
de seu nachtraglich do Zurüçkphantasieren de Jung. Mas este não tem. precisamente.
o
uma concepção inteiramente centrada no presente. todo passado sendo fantasiado
re~roativamente a partir daí? E que diferença. senão a maior dignidade dos termos.
extste entr~ _a "fantasia retroa~iva" e o mito retroativo? Temo que incluir toda
a teona analittca no processo analitico acabe numa espécie de subjetivismo psicanalítico,
ou ~té mesmo solip~ismo _a 9oi~quele que encontro. para tomar dois exemplos
notonos. tanto ~.l"_flllarl_ÇQmo em J.C. Laviê_(1 ).
Para min.'. o "apres-coup ", essencial na nossa concepção da temporalidade. só
se concebe como tensão bipolar entre os "acontecimentos". uma tensão para a
9ual o modelo tradutivo parece-me ser o mais adequado. Mas o que tento formular.
e que par?_ que haja traduções sucessivas (e fracassos de tradução) é preciso que
haja mensagem ou significante de imediato (é o .."'!.z) *. Neste sentido não penso
de forma alguma que a regressão no tempo seja infinita. como parece pensar Conrad.
e como Freud acreditou constatar. desesperando-se por isso. A série ascendente
de c~n.a: é (talvez) indefinida. mas comporta seu lil]ljte. seu~ limites: os significantes
ongmanos propostos pelo adulto.
- Quer isto dizer que concebo a cura comq nãooriginária? Nãol Parece-me.
ao cdntrário. que a psicanálise reinstala a siWaç~o originária de_ sedução. Mais ainda,
pode-se dtzer que somente ela a instaura na suap_ureza. na medida em que se /
guard~ de palavras. de gestos e da atitude psíquica que poderiam produzir uma
seduçao de fato. Neste sentido. pode-se dizer que situação analítica éa mais "originária ..
de todas. Aqui concordo com Conrad Stein ... felizmente nos reencontramos sobre
a prática!
. Outra precisão: renego abertamente a concepção freudiana de fantasmas originá-
nos. O q~e _quer que Conrad pareça pensar. não se trata de uma depuração própria
do meu ultimo texto. na sua vontade de ir diretamente ao essencial. mas de uma
posição deliberada e antiga. Não é porque Pontalis e eu mesmo exumamos esta
dimensão do pensamento freudiano que eu esteja de acordo com o que ela veicula.

I. Esclarecimento de Conrad Stein sobre esta questão:


"Em vista dos importantes esclarecimentos trazidos por Jean Laplanche ao seu post-scriptum.
e que me parecem de natureza a relançar a discussão. lamento ser obrigado a me limitar a apontar
aqUI. por mmha vez. um mal-entendido. Nunca cemccLao. termo.mito. para qualificar. segundo a fórmula
de Laplanche. os fenômenos significantes que se produzem (efetivamente!) na infância tanto é verdade
que.longe de pôr em dúvida ~ua efetividade. nunca deixei de dar a maior importância ao s~u ressurgimento
~o cu~o do proces~? ~~a.IJtJço_. Minha _contribuição ao número dé Etudes freudiennes consagrado à
seduçao em ps1canalise e. alias. mequ1voca sobre este ponto. ·:o_senhor gritou. meu irmão gritBva"
tmha dito a paCiente da qual se tratava. para deduzir em seguida que seu irmão tinha sido seu sedutor
e. na sua conjugaçao. a lembrança sessão precedente e a lembrança da infância reencontrada estão
relacionadas uma e outra a acontecimentos perfeitamente reais ...
• Ver cap. 'Traumatismo. tradução. transferência e outros trans (es)". (N. do T.)

124
Sou totalmente oposto a todo recurso ao mito no freudismo: fantasmas originários
filogeneticamente transmitidos. mito da horda. do assassinato do pai. etc. (não falo
d~análise dos mitos como na "tomada de posse do fogo". Mas Freud justamente
não analisa seu "mito" da horda). Na minha opinião, é por ter deixado de perceber
a situáção originária de sedução, verdadeiro irredutível além do Ql!ªlnão é necessário '
(nem possível) regredir!J.Cl.Jempo.. que Freud se envolve nesta corrida de regréssão
pré~históricã:-ilriiãCOrrida que seus sucessores embelezaram e enobreceram falando
de dimensão mítica. Mas não cria um mito quem querl Na minha opinião. somente
os povos. e outros tipos de coletividades. são capazes disto.
Todo signJficante é _enigmático? Certamente sim. E chego a temer que esta
constatação om pouco fácil não seja a origem da maneira pela qual o lacanismo
se livra do inconsciente individual. Mas o que chamo de enigma vai muito além
da potencialidade polissêmica. até mesmo poética. de toda palavra: é o fato de que
OS significanteSéJdUitos (parentais), no CUrSO dOS recalcameotos-trádUÇÕÉ:S SUCeSSiVOS,
abandonaram seus sígnificadg~ b_em precisos mas "perdidos, para sempre". ,
a
- Sei que a partir daqui tudo resta a dizer e fazer. Em partiCi.Ílar. a relação
geral de sedução deve ser especificada. seus aspectos traumáticos e/ou estruturantes
precisádos. etc. Penso. principalmente. esta questão tendo me sido um diã colocada.
que a distinção entre "duplo vínculo" deve ser revisada: o,enigma não é o duplo
vínculo ...J:T:l!ls_é__ provável que o duplo vínculo seja uma forma particular - particu-
larmente ,perversa e provavelmente nao metabolizável - de enigma. A chave da
relação de sedução originária deve permitir estudar nas suas pàfficUJarltlatles os
diferentes tipos de sedução.

125
BIBLIOTECA ARTES MÉDICAS

TfTULOS EM PRODUÇÃO

• Aimard & Morgan: Abonlngem Mctodo/ôgic:r dos Problemas de Linguagem


• Ajuriaguerra, J.: A E.~crita lnf.1ntil- Evolução c Dificuldade
• Andolfi, Maurizin: Tempnr.1/idadc c: Mito em Psicoterapia Familiar
• Au~tin. D.L.: OrwnJo Dizer ê F:m:r -I'ilf<tnas e AçJn
• Balahan, N;mcy: O hridn da Vid:~ r:~mlnr- DJJ Sep:tr.1r:in :i hnlcpl'llrfênci:t
• Befgerct: f'l'r);tJil:rlitllrdc Numwl t' f'ortoltígh·;r
• llcndhcim. BrunP: Sohn:1·in=nóa e ourm.~ E.~wdo.~
• Oleichm:tr. Eruilce: O Femini.~mo E.~pontiinco d:~ Hi.qcria
• Bleidnuar. Htrgo: Ang!Í$1Úr c Fô!lllasrmr
• Cabral, Lama & Tcjcra: Educar Vh·cmlo: O t11rpn l' o (irupn 11:1 E.~cola
' Calkins. Lucy: A Arte tiL' E11.~inar ;r E\crt'\'t't
• Calkins. Lucv: Li~·tics de uma Cri:lll\'11
• Caslorina c l'ols.: l'simlo!!ill Cicm!tica
• Chassegut·t Smirgel- Sc.w.1/id:dc Feminin:;
• Chasse!!UC! Smirgcl- O Ego ltlc:rl
' Cherrv: A. l'wcura do Símbolo
• Cole ..Jcmmc: r\J:uwal de Psicof.1rmno1/n,~?,i:r
• Cnr5nn: Cirunú:r Ciinecolthúc;r dt• Greenlli/1
• l"mUy. Bry:m!: o o~·.Çcll\'1;/vimcntn l't•rct:ptua/ c Moror em Lacte/1/CS c Cri.1nças
• CurEis~. Sandra: i\ Alegria tio Atlnimcnto 1111 Prt'·Esco/a
• C1ermak. Mareei: P.1i.'i:ôcs do Ohjt•to (Üiudol'~!L·:m:r/ílit"tr da.ç 1'.~icmc.ç)
• Dchray. Rosinc: Ik/Jt1.ç t' M:ic.ç t'/Jl Rcwrlt:t
• De jtltrr. C.: O Corp11 entre ;1 Bi1r/ogia L' a / 1 .~ie:rlliilisc
• DuHn. Fr<rr1ÇOÍ5c: .l.,'nlid.-in
• Onlto, Fr:m~·oisc: A Dificufthrdc i/c Viver
' Dnr. JuCI: lnrroduç<io a tm::rn (O lm:nmcienrc Eçrruturatlo como Uul!lllll!t'mJ
' Ellwin Munir: Formaç;io c PráliL·a em Terapi:1 Familiar • •
' Enderlc. Carmen: P.~h·t1lugi.1 tia ;\do/esdnd:1- Unw A!mrdagcm Pluridimensional
• F:rin & Dcjour~: Corp<1 Enfermo L' Corpo Enítko
• Foge!, L[lnt: & Lcibctt: l'.'iico/ngia M:1.~eu/in:c - Nm·a.~ 1't·r.~pcctiv.1~ P.~icanalílicol.'i
• Fmmhcrg &. Dri">coll- O Sm·t·.~-~n t'lll Sa/11 ck Aula
.. (it•arhenrl. Bill: Di.~uil/lim dt• 1\ptt'rulil"nJ!t'lll
• ltamaydc: /Jeao/.1· -·- llmalu!rnc/upiH CulliJJ/ci:J :w Métocfo tio Grande EdUL':rclnr
• Hanlcman, Mildrcd: Os Cnminllm do Cnn/tct•irncnlo mc fuf:inci.1 -O.~ Trab:c/hm
de NATHAN ISAACS na Educar:io. f'sico/ogia t' Pilrget
• Hughcs: Cri:HJÇl!i e Nlimt•rus
• Jcru">alinsky, A : Defidéncia Mcnr.1/
• Julicn. l'hillipc: O Retorno de I.ac:rn :1 Fretul
• Kccney & Ro~s: .4. Mt•ntc em 1i.·mriir - Con.~lruinún Tcwpí:1.~ Sistémic;cs da Famr1ía
.. Klcrman: Psictlft•rapia d:c D~·prcs~:io
• Kohut. Hcinz: l'.~icnftleia do Scff
Koppitz. Elilaheth: A·~·a/i:~r;io Jl.~im/6gic;r d11 Dt>.~t·nlw c/:c Figur:c Hmmma por E.çcn·
/:Jrt'S
• Lahn, Edirh e Col~.: Computaç;in Clínica c F.•p;c~·o {riafil'tl - O Computador t'
m Tr;mstomo.'i de Lingu.1gcm t' Aprendiz.1gem
• Lcboukh: Fal"c .1u Esporte
• Luvcl!, Kurt: O Dcscm·nh·imt'JJicJ de Cont·ciws Matem:iticm e Cicnrificn.~ mJ Lrianç;c
• Luhorsky, L.: Prindpios úc: I'.~icotempia Jl.çicamrfiric:J
• Luria & Tsctkova; A Hc.~olu~·<io de Pmhlenws c Seus Tr:IIISfLJW!lS
• Mackinnon & Yutlorfski: A\•:J/iltç-:io Psitjui;ífric;c n:c f'r:itica Di:iri:t
• Mahlcr. M;crg:uct: o.~ Tique.~ htf,1nfis
• M:mfrcdi & Bassa: Om!idade e Psicogêncst'
• Mannoni. MrlUd: Uml.ugar para Vi~·cr
• Man:clli & Braconnicr: M:mua/ Jc: !'.~im/';Jro/ogia Jo Adolc.~cc:ntc
• Maudirc, Pnulcttc: Exifmlos tl;r lnf:incia
• Me Hugh: I'erspccriv.a.~ 11.1 Psiquiatri:c
• Mdman. Charlcs: Esrw1ur.1 Lacanimw d:c.~ ('.çinm•s
' Mnscnvici, Serge: P.~imlogia Soâ:1/
• Nasiu & Dnlto: i\ Crí:cnÇ<l do E~pdlw
• Na~io. Juan: Os 0/hm de La um
~ Ncil. Kniskcrn: Da P.çiiluC .10 Sistem:1 (C:ul WJiitakc:r)
• Piagct, Jcítn: A Reprt.'Sl'nfiiÇIÜl do E~p:1çn n;J Cri:mç:r
• l'orluondo. J.: O 1Cste-Projctin> de K:rrcn MadJtJn•r
• Quirnga. Ana: P.>icnloei:J Soci:cl- EnfotJIIt'.~ c f'cr.•pt•cri,·as
' Sehaffer. Hoy: A Atitude An:r/ilica
• Souza, Alduisin M.: Re/;Jfo lk um:~ Amili.~t· 1"crmimul;c
• Spmlek. 13ernard: Prê-E~m/:1 Hnic
• Tiikhii. Vcikkw O Hdndon:uncnrn · Jiw-l';ccicme
• Talli": Dificuldades na Apn·ndizHgcm Eçcui.1T
• Vct"t·hiato. Mauro: Jl5il'OIII<Itricid;ltk• Ud;rciomr/ t' Tcr;1pia
' Wcbcr. E\·clyn- fd6:1s que /nflucrJcúcrll ;c l'n'·EH·ola
\... • Wcircc r<.hroU" l'~ictlft•r;cpill f'r;l/iea