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90 Revisilando as partes do discurso

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fi§'" Aronoff (1976) e Basílio (1980) têm soluções diferentes para focalizar a
(im)produlividade. Para Aronoff, as RFPs dão conta de tudo, uma vez que há um
7
contínuo de produtividade. Para Basílio, fe.nõmenos produtivos são descritos por
RFPs, ao passo que a análise estrutural (de lexemas formados por regras produti-
vas ou não) ficÇlfTla cargo de Regras de Análise de Estrutura (ou RAEs).
Para Bâ'sflio, uma -RFP tem como contraparte uma RAE. Assim, a par da RFP
Classes de palavras, tipo.s
em (6.1), aqui repetida por conveniência, haveria uma RAE, que representa a pos-
sibilidade de o falante reconhecer a estrutura de fonnações em -çãCT.
de significado e questões
RFP: [Xlv --: [[Xlv -çãoJN
relacionadas
RAE: [[Xlv -ção]"

Quando dizemos que conhecemos uma palavra, dominamos, porém, mais do


que a relação entre uma cadeia sonora e um significado,'ou, no caso de uma palavra
complexa, sua estrutura. Dominamos, também, as variações que abrangem as classes
7.1. Introdução
. de palavras como um todo e que "completam uma palavra pela marcação de suas A !rí.!dição.gramaticalgreco-Iatinj\ reconheceu na palavra características de três
.relações no interior de estruturas mais amplas" (Anderson, 1985b: 162). Estamos fa- tipos: (a) sern~tlliças, que nos deram definições como o substantivo é (l palavra que
lando da flexão. Mais especificamente: um lexema pode combinar-se com proprieda- nomeia o.~seres, ou como questões acerca de quais os elementos que podem ser supri-
des Illorfossintáticas. É este o tema dos dois capítulos a seguir. midos do enunciado mantendo-se, ainda assim, uma estrutura com significado; (b)
1110rfológ~c~s,como, por exemplo, o reconhecimento de que o nome pode Oexionar-
sê'·eill Gênero, Número e Caso, mas não em Tempo, Modo ou Voz; e (c) sintáticas,
como a identificação de que o nome, mas não o verbo, pode funcionar como sujeito,
além de questões variadas acerca dos fenômenos de concordância e regência. Em
decorrência desse feixe de propriedades semânticas, morfológicas c sintáticas as pa-
'bviiis foram distríbuídas em c/asses de palavras, ou, na nomenclatura tradicional, em
partes do discurso.

(9 O termo categoria tambêm costuma ser empregado no sentido de classe. Nos


trabalhos sobre sintaxe, categoria designa os constituintes de uma expressão lin-
gÜíslicª. É,por con~eglJirl\e,um termo mais amplo que parte do discurso, porque
ábrange tantónomes, verbos, adjetivos, como posições numa estrutura, elemen·
t()s abstratos, como as categotias vazias ou pro (que representa o sujeito nulo de
línguas como o português). A denominação categoria representa ainda proprieda-
des de um.sistema flexional, tais como T(empo) ou Agr (abreviação do termo inglês
p~lfa Concordân'éiaf
Nos trabalhos sobre morfologla, Cé!t,!l90ria costuma manter o significado mais
tradicional, de conjunto de propriedades que se associa a determinada parte do
discurso, como Caso, Péssoa, Tempo, Modo, Aspecto, Voz, Gênero, Número ...

Em conscqüência da tradição gramatical, habituamo-nos a considerar as pala-


vras do portuguGs como pertcncentes a dez c/asses de pala 1Il'(1,\' -Ilome, artigo, mije-
tivo, pronome, numeral, verbo. advérbio, preposição, conjunção, interjeição, tam-
92 Rcvisitando as portes do discurso Classes de palavras, tipos de significado e qucslõcs relacionados 93

bém presentes nas descrições tradicionais do grego c1âssico, do francês, do inglês, do discurso, MCR]. Uma importância desse sistema é que ele invalida qualquer propos'
ta de que o contraste entre nome e verbo seja universal no nível das partes do discurso".
espanhol-, e a vê-Ias, por essa razão, como o inventário das classes universais que,
A análise do nutka foi revista por vários autores, que discordaram da afirmação
uma vez estabelecidas, deveriam estar sempre presentes nas descrições de toda e qual- de Hockelt, Voltaremos adiante a este tema na seção 7.4.2.
quer língua. Em línguas distintas, reconhecemos uma classe como a mesma com base
em critérios gramaticais particulares a cada língua: embora o nome em inglês (c tam- Adj~ti~os, pOLe..êxcmpls>,não constituem uma classe em todas as línguas, 'e o
bém em português), por exemplo, seja em grande parte identificado pela co-ocorrên-
mesmo acontece com advérbios. O que não significa que em qualquer dessas línguas
cia com o artigo, em latim, que não tem artigos, distinguc-se fundamentalmente pelas
lião-sepóssam exprimir os significados que, em português, expressaríamos por meio
marcas flexionais (Dixon, 1977: 19).
dessas classes, Assim, dentre os vários mecanismos pelos quais algumas línguas -
Nem sempre, porém, essas dez classes podem ser detectadas numa língua. Já
como o haússa, língua afro-asiática falada principalmente na Nigéria - podem ex-
havíamos percebido isso nas primeiras aulas de Latim: não havía nada semelhante
pressar o atributo imeligellle não é por meio de um adjetivo, corno faz o português,
aos artigos do português (exemplo em Nóbrega, 1959:20):
mas pode ser por meio de: (a) uma construção de posse (que utiliza de mài/màascí
(7.1) Mensae discipulamm parvae sunt 'possuidor-sG/possuidor-PL:) com um substantivo abstrato (7.2u); ou (b) de uma cons-
mesa-NO~I-PI. aluna-GlôN-PL pcquena-NoM-PL são trução nome - 'coneetivo' - nomel, algo eomo fazemos, no português, ao usarmos
homem de fortUIlO no lugar de homem rico (7.2b):
'As mesas dilli alunas S;lO pequenas'
(7.2) n. mutum mai IUlIIkl1/i (Schachter, 1985: 15)
Por conseguinte, não há motivo para espanto em descobrirmos que o iana, lín-
gua indígena norte-americana já extinta, de que Morris Swadesh fez um dicionário a pessoa tendo inteligência
partir do material deixado por Sapir (Sapir & Swadesh, 1960), contava apenas com 'pessoa inteligente'
nomes, verbos,ul11as "proclíticas relacionais" que incluíam rnarcadores de Caso e
b. fárí·n zánee (Newman, 1990: 720)
detenllinantes, além de um pequeno conjunto de interjeições. Em outro trabalho, Sapir
brancura-de roupa
(1921: 122 n43) afirmara que, nessa língua, "o adjetivo é um verbo. São·no igualmen-
'roupa branca'
te os numerais, o pronome interrogativo r ... ] e certas conjunções e advérbios [...] . Os
advérbios e as preposições são quer nomes, quer meros alixos na derivação do ver- Os significados que identificamos normalmente como adverbiais em português
bo". A essa altura, qualquer crença na universalidade de um sistema de dez classes
podem, por sua ve7., ser expressos, por exemplo, por verbos, como em haússa (7.3'1 -
está desacreditada.
Schachter, 1985:22), ou por sufixos que se prendem ao verbo, como em iana (7.3b -
Talvez a única distinção univer~al entre classes seja aquela entre o verbo c o
exemplos extraídos de Sapir & Swadesh, 1960):
nome. Negada para o fijianO ma~~em especial a partir de dados das línguas mosan (que
ínclui as famílias wakashan, salishan e chimakuan), a distinção nome-verbo vem sen~. (7.3) n. Ya fi ni hankali
do reafini1ada em reanálises dessas mesmas línguas: como nota Schachter (1985:7), ele (I'ERF) ultrapassa me inteligência
os contra-exemplos que tais línguas fomeeem parecem resumir-se a uma questão de 'ele é mais inteligente que eu'
dados incompletos e assim, (onna-se o consenso de que, embora em línguas como o
iana o nome e o verbo tenham "certos traços comuns que os aproximam um do outro
b, ·?ai 'em fogo, em cinzas'
numa medida que nos pareceria impossível", "nenhuma língua prescinde totalmente
-ca(a)- 'à noite'
da distinção entre nome e verbo" (Sapir, 1921: 122; ver também Dixon, 1977: 72n I),
-sgin- 'pela manhã bem cedinho'
':? Um dos autores que negaram a universalidade da distinção entre nome e verbo ·xkid- 'devagar'
foi Bloomfield (1933: 20). Ao defender a indução na análise lingüística como meio de -xuí- 'com lÍgua, dentro da lÍgua'
prevenir as distorções herdadas da tradição greco-Iatina, Bloomfield partia da hipóte- -ya(a)gal- 'dcpressa'
sede que todas as línguas são diferentes do latim, e afirmava que alguns '~raços,
como, por exemplo, a distinção entre palavras semelhantes a verbo e palavras se- -ya~gu· 'certamente'
melhantes a nomes como diferentes partes do discurso são comuns a muitas lín- -3u- 'freqüentementc, de tempos em tempos'
guas, mas nâo estão presentes em outras".
Outro autor que seguiu pela mesma trilha foi Charles Hockelt (1958: 274): "Pelo
I Realúado como -li, se o primeiro nome é MASC ou ('L; -r, se o primeiro nome é rr,MfsG (Newman, 1990:
menos uma língua, o nutka, sabe-se que tem um sistema bipartite Ide partes do
720),
94 Rev;sitando as portes do discurso
Classes de palavras, tipos de significado e questões relacionados 95

Se deixamos de lado as classes maiores ou principais - nome, verbo, adjetivo, Na Arte Poética (doravante Poct.), Aristóteles (384 a.C.·322 a.C) distingue duas
advérbio -, no que toca às demais classes, as diferenças entre as línguas tornam-se classes: O n()/lle e o verbo (Poét. 20, 8-9). Ambos são portadores de significado, mas
'bem mais evidentes.Talvez a única dentre,estas últimas classes que parece ser univer- seus componentes não têÍn significadoS: Verbo e nome distinguem-se, respectivamcn-
sal seja a das illlerjéições (Schachter, 1985: 23). É interessante que assim seja, uma te, pela presença ou ausência de Tempol>. Aristóteles reconhcce ainda a conjllllçâo e o
vez que, sintaticamente, as interjeições não costumam ter' relação com outras pala- artigo ou artíclIlaçüo (gr, ârthroll) também como elementos essenciais da elocuç~ão;
vras do enunciado. Nossas gramáticas a definem tão-somente corno uma "espécie de 110éiÚ'anto não lhes reconhece sigilificado, mas a função quer de atuarem como uma
. grito com que traduzimos de modo vivo nossas emoções" (Cunha, 1972: 547). .espécie de cimento na formação da proposição simples (isto é, de uma sentença que
Ademais, com o conhecimento adquirido a partir do estudo de línguas não declara ou nega algo, e que é verdadeira ou falsa e que, por conseguinte, transmite
indo-européias, sabemos que alguns tipos de palavras não se ajustam bem a qualquer significado), q~er de identificador de unidades dentro do enunciado, como no caso do
dessas classes. É o caso, por exemplo, dos içleofolles (seçüo 7.5.12, adiante), reconhe- ;~rtigo. Não faz sentido, ncsse sistema, incluir a conjunção ou o artigo no conjunto
cidos primeiramente no estudo de línguas africanas como um tipo particular de advér- formado pelo nome e pelo verbo. Como nota Baratin (I989: 20) acerca das conjun-
bio de modo. Em línguas indígenas brasileiras como o uari3 e o hixkaryaml'l, por exem- ções, "um elemento que une partes de um conjunto não pode ser ele mesmo uma parte
plo, os ideofones compartilham propriedades fonológicas com as interjeições (vide desse conjunto, porque seria, ao mesmo tempo, o que une e o que é unido: seria
Derbyshirc, 1985: 24; Everell& Kem, 1997: 427ss), o que os faz a ambos serem contraditório".
apresentados em conjunto nestas línguas.
Afora as diferenças entre as línguas, a hístoriografia lingüística revela-nos di-
9?' A nomenclatura pode ser (e normalmente é) enganadora, quando trabalhamos
ferenças no tocante aos esquelluL<; c1assifkatórios propostos para as palavras, e assim com épocas tão distantes, sobretudo quando os testemunhos de uma obra nos
descobrimos que aquele esquema de dez classes que nos é familiar não prevaleccu ctlegaram em mau estado (no caso da Poética, a mutilação do texto é enorme, e
nem mesmo na Antigüidade CI<íssica. TampoLlco tiveram sempre acolhida algumas partes inteiras se perderam. Uma dessas partes perdidas inspirou o romance de
Umberto Eco - O nome da rosa).
das distinções que nos acostumamos a considerar lIa1urais.
A~«..q!l.iI,J!19.~C! parece ser aqui mais do que um tipo específico de palavra, pois
Em suma: reconhccer que as palavras dc qualqucr língua podem ser organiza- a!?.f.<loge.:.(.;t)..urn. conceitosemi3lhaniElaode coesã", e, nesse sentido, Ma IIlada é
das em classes ~ algo aceito Jlor quase toda a literatura lingüística. Quantas c quais úma unidade por conjunção" (Poét. 20, 13); e (b) a sinalização explícita da coesão
são, isto jü é outra história, como veremos em seguida. p~rr:neio de palavras específicas_ '" .

o erudito latino Varrão (116-27 a.C.) retoma as duas partes de Aristóteles e as


reelabora, elU ternlOS estritamente gramaticais, num sistema de quatro elementos ou
7.2. O número de partes do discurso palavras l'ariâ\'cis7. Define as classes COIU re!<íçào às categorias Caso e Tempo: o
Até o estabelecimento do esquema "canônico" de oito classes, por volta do
século 11 a.c., c mesmo depois disso, várias possibilidades de organização das pala- , Assim, embora o nome Tendam seja formado dc Ihias 'dcus' e dôroll 'prescnte', "cm Tcodoro, o
vras em classes foram aventadas nos chamados estudos tradicionais. Ilustramos em elcmento doro não aprcscnta significado" (Pai/. 20, 8).
seguida parte dessas possibilidades com algumas das propostas da Antigiiidade que 'Em De !Ilferprctatiorw, AiÍs(ótclcs define o nomc como "um ~om vocal, possuidor dc uma significação
foram relevantes para o pensamento ocidental. eOlll'cncional, scm referência ao tempo, cujas p;u-tes não aprc~cntarn significação C;L,O tomadas separa.
damenlc."

'Yarr.l0 (De Ungtla Latina V)II, iii, 9) distingue dois lipos de palavras: jccclIlilulIl e s/crile. Ao prilllciro
, hucrjcições como oX(I/á. tomara parecem COllslíluir-se em c"ceçflo, uma vez que co-ocorrem eom o lipo pertcnccm aquclilS que podem dar origem a diferentcs formas por tlexão, como h'l;o 'n:úno', /egi
Subjuntivo. Isto leva, porém, ao question:llncnto do SCIl/rlS de intcrjeição. c a ver nelas a marcação de 'rcuni', Icg(J1/l 'rcunirei'. Ao segundo (ipo pCl1encem aquelas que não podem ser f1exionad;ls. como lat-
modalidade, isto é, da atitudc do Elian(e em relaçoio ao que declara - no caso, illdicarn o desejo de que e/ 'c', iam 'já', IÜ 'dificilmentc', n((Jgis 'mais', cur 'porquc', ou cras 'amanhã': "Duo enim genera
algo se realizc.
vernolUm, unum/ccU/utlllll, quod declinando multas cx se paril disparilis formas, UI CS! lego I<'gi legam,
) O uari é uma língua indígena brasilcim. falada em Rondôni:l, na fron(eim com a Bolívia. sic alia, altcrum genus slai/e, qllod ex sc parir nibil, ul es( ct iam vix eras /llagis cllr." O IralarnelHO de
um desscs tipos C0ll10/1(1/m'ms \'ariâl'â.I' é mna simplific;lção a que procedcmos ncstc texto,
'Língua caribe falada no Amazolla~, na regiflo dos rios Nhamundâ, Mapucra c Jalapu.
96 Revisitando as partes do discurso Classos de palavras, tipos de significado e questões roladonadas 97

nomé (ou appellandi 'que nomeia'), que tem Caso, mas não Tempo; o verbo (ou dicl!ndi conjunção, preposição e interjeição. O artigo, inexistente em latim, emprestou por
'que declara'), que tem Tempo, mas não C<L~O;o particípio (ou illllgendi 'que une'); que 'vezessüàdénominaçâo ao que atuahl1ente consideramos pronomelO, e a interjeição,
tem Caso e Tempo; e o advérbio (ou adminiciiláildi 'que apóia'), sem Caso nem Tempo. antes agrupada nos advérbios, foi destacada destes na medida em que não se subordi-
Estóicos (ca. século 11 a.C.), como Crisipo (ca. 280-207 a.C.) e Diógcnes de nava diretamente ao verbo (Mallhews, 1994: 38-39). Vamos a uma visão breve das
Babilônia (ca. 240-152 a.c.), reconheceram cinco classes: mantiveram a verbo, a c1u$ses na tradição greco-lalina.
conjllflçiio e o artigo e subdividiram os nomes no que poderíamos chamar nomes As principais partes do discurso na tradição greco-Iatina da Antigüidade, isto é,
próprios e l10mes comuns, com base na diferente declinação e na possibilidade de aquelas essenciais na construção de lima proposição, são o nome e o verbo, que
fonnação de patronímicos a partir dos primeiros, mas não destes últimos. representam, respectivamente, o argumento e o prcdicado mais simples. O lIome de-
Várias outras possibilidades quanto ao número de partes do discurso foram pro- signa as entidades, ou seres, tem Caso, maS não Tempo ou Modo; o verbo indica as
postas, como, por exemplo, um sistema de 11 partes, que distinguia como classes açoes executadas ou sofridas ('experimentadas') pelos seres, c contém a indicação
independentes (e não como subdivisões no interior de uma dada classe) forows finitas9 de Tempo, de Modo, de Voz mas não a de Caso.
e não finitas do verbo, nomes próprios e comuns, além de destacar do gOlpO dos
advérbios as partículas enf<ilicas (vide Matthews, 1994: 29-43).
(i) O termo nome designa, em geral, atualmente, os substantivos, que se consti-
O sistema que se fixou e que seguiria quase sem modificações até a Baixa Idade tuem numa 'cÜlsse independente daquela dos adjetivos. Assim, por exemplo, para
Média tinha oito partes (vide Malthews, 1994: 38). Segundo Matthew$ (id. et ihid), o Platão", os n'omes opunham-se aos verbos'2. Parece que estamos dizendo o mes-
esquema padrão proposto pelos gramáticas gregos foi nome, verho, particípio, arti- mo que os estudiosos atuais. Note-se, porém, que os atuais adjetivos e verbos fica· .
go, pronome, preposição, advérbio e conjunção, que deveriam ser focalizados nas vam, para Pia tão, sob o mesmo rótulo: eram palavras que podiam expressar a ação
ou a qualidade predicada, ao contrário dos nomes, que nomeavam as coisas sobre.
gramáticas nessa exata ordem.
ás Quais algo era dito. Para os gramáticas alexandrinos, dos quais Dionisio da Tráda
(170·90a.C) é talvez o mais famoso, e para alguns autores recentes, como Camara
(:) A justificatíva para essa ordem de exposição está apresentada na Sintaxe de Jr. (1904·1970), por exemplo, os nomes, como classe, opDem-se aos verbos. Pare-
Apolônio Díscolo (século 1-11), e seguia a oração perfeita (Sint. I, 14). Nomesprece- ce repetição de PJatão? Pois não ê: os nomes abrangem, neste caso, substantivos
.dem verbos porque as entidades têm existência anterior às ações q'üeexecutam e adjetivos. São elementos de "valor estático" (Camara Jr., 1968: 280), ao contrário
ou sofrem (Sint. I, 16). Seguem~se os pat1icípios, qúesão "atransfonnação do dos verbos, que indicam "processos" (id et. Ibid), além de expressarem:por concor-
. verbo em formas Ilexivas" (Sint. l. 21). Os at1igos relacionam-se com os nomes, d~ncia, as categorias gramaticais do substantivo.
com as formas de infinilivo e com os parÚcipios; antecedem os pronomes porque A classificação tripartite nome, verbo, adjetivo aqui adotada remonta á Idade
estes substituem os nomes, em vez de se juntarem a eles (Sint. I, 23-25). A prepo- Média: o nome tem independência sintática (í.e., pode ser empregado sozinho com
siçãovem antes do advérbio porque se antepõe às partes da oração (Sint. I, 26), ao significado), ao passo que o adjetivo se junta (adiacentis) ao substantívo (videRobins,
passo que o advérbio "funciona sintaticamente como adjetivo do verbo", que é o
1967: 67).
segundo elêrnento da exposição. A conjunção vem por último porque não tem sig-
nificado, e apenas relaciona os demais elementos (Slnt. I, 28). .

toNo sistema de Varrão (De Lillglla Lmillll, VIII,xxiii. 45), são artigos os extrcmos de um:! escala c.le
A tradição latina, com ponato (ca. 330), talvez o mais estudado dos gramáticas [± c.lefirlÍdol para as palavras que nomeiam, a qual poderia ser assim representada:

latinos, também manteria oito classes: nome, pronome, verbo, advérbio, particípio, +illdcfinido qUl1se-indefinido quase-definido +dcfinido
(I'rowmlllllwlI) (I'ocabullllll) (llOllléll) (proIlOllléll)
'Na vcrdade, ValTJo não dá nomc às cl:Lsses: apena.s mcnciona que alguns as denominam. respectiva- pron. indef. nome comum nomc próprio demonstr~tivo
mente, appe/lalldi, dicelldi, iUIISt'ndi elldfllillicul(//uli: "Quod ad panis singu!as orationis, deinceps dicam.
Quoius qlloniam sunl divisiones plurcs, nunc ponam potissimulll C;ll11'lua dividitur oralio secundlllll I------- L
(articu/i 'denominaçf>cs')
(1lOmilratlls ';lrtigos') ------- J I
naluram in qualluor partis: in cam quae habct C;ISUS cl quae habcI <Iempora cl quae habet> neullUlll et iu
"Procedcmos aqui a uma simplificação: () lcrmo utili/.1do por Platãoé rllellll1, mas, como nola Hovdh;lUgcn
gua est utmmquc. Has vocant quidam appdandi, diccndi. adminiculandi, iungendi" (De Lillgua Ll/Iit/a.
(1982: 24), "a exala inlerprdtaç50 dos lermos lÓl10mu e rhema] eSlá longe de ser óhvia", Por vezes o
VIII. xxiii. 44).
lexto platônico p;lrece indicar que ,!lêma podc ser traduzido como 'prcdicado' c niio como 'vcrbo'.
, Uma forma finila é aquela "limitada" por TCll1po/l'vlodo, NÚlllerolPessoa. Em suma: é uma forma
verbal que pode ser a tínica da fruse: comcmos é lIIilit fomia finila; CO';IClldo não:
"ú cote o sentido de l'Crbo que se aprescnta na dimologia do tenno advériJio (dat. 'ullido a, que modi-
fica () ~'erbo').
'~;:'i
"1 98 Revisilondo os portes do discurso Classes de palovras, tipos do signifkado e questões relacionados 99
1
r o particípio,
i ao contrário do que se faz atualmente, era considerado uma classe Os nomes no português ou no espanhol, por exemplo, não têm Caso expresso
i
,distinta do verbo~ a qual parlicipaw/ das características do nome (a ausência de Modo, morfologicamente, como acontecia nas línguas clássicas. C0ll10 vÍmos, este era um
I c a presença de Caso e Gênero) c das caraclerísticasdo verbó(a indicação de Tempo, traço importante na caracterização das partes do discurso para os autores chíssicos.
i:
! que permitia c1assific<Í-lo em panicípio presente ou parlicípio passado, e o fato de AntônÍo de Nebrija (1441-1522), autor da primeira gramática castelhana (1492), de
1"
"
suas Oexões serem derivadas do verbo). 'rnodo semelhantc a lingüistas na atualidade, veria as marcas morfológicas como uma
F

! O artigo tinha Oexão (Caso, Número e Gênero) e sua principal função era ante- das possibilidades ela expressão do Caso: o latim tinha Caso e declinação; o espanhol
ceder o nome, enlbom pudesse çOlllbimlHe também Cor;l o partiCípio ecom o infinilivo. tinha Caso, mas este funcionava apenas na sintaxe, uma vez que o espanhol não tem
decliilàção de nomesl5•
No primeiro caso seu uso é anafórico, uma vez que indica haver menção anterior do
nome (Sint. I,43)13. De um modo geral, podemos dizer que as classes do esquema tradicional foram
O pronome, que se flexiona para Caso, Gênero, Número e Pessoa, não se com- mantidas em parte na atualidade: separou-se o adjetivo do nome, manteve-sc o verbo
bina com o nome, como o artigo o faz, antes substitui o nome. Ou melhor, segundo' (incluído aqui o particípio) e, por veles, o advérbio. As grandes divergências com
Apolônio Díscolo, na í~rceira pessoa, por ser al1afórico1-l, substitui não o nome sozi- relação ao elenco de classes do esquema canônico cl<Íssico se dão no nível das chama-
nho, mas o Artigo e o Nome (Sinl. 1,25). J;í na primeira e na segunda pessoa é dêitico, das 0(1;I:sesmel/ores. Deve-se notar, porém, que li classificação das palavras deixou de
i.e., aponta o referente (Sint. I, 40-45). Os casos oblíquos do pronome representam, basear-se em critérios semânticos e passou a ter por fundamentos critérios distri-
nessa tradição, um problema extra: a acentuação, que os faria funcionar conlo um~i b-ucionais, funcionais e sua categorização. A diferença de foco estú, até certo ponto,
sílaba de outra palavra (Silll. 1,54-1(2). reOctida na nomenclatura: o uso da expressão classe de palavras, em lugar de parle
A preposição antepõe-se ao nome e, completariam os modistas séculos mais do di5'Clirso, procura assinalar a nrptura com as noções que norteavam os estudos
tarde, já na Idade Média, "relaciona a palavra l1exÍonada em caso, a que sintaticamen- tradicionais. Isto não significa que não se reconheça que a maioria dos nomes de
te se liga, ao verbo ou particípio" (Robills, 1967: 67); o .advérbio relaciona-se ao pessoas, coisas e lugares, por exemplo, ocorra na classe dos nomes; o que importa é
verbo que est<Í antes ou depois dele, e é indeclin<Ível. Por fim, a conjunção liga ele- que deixa de ser problema o fato de considerarmos nome algo que não se encaixc
mentos, embora não quaisquer elementos. Assim, não se pode unir elementos díspares muito bem nessa definição. Deixam-se de lado, por conseguinte, as intermimívcis
como Ulllnome e um verbo (como em 'll'ífol1 e ler'), mas elementos de mesma classe discussões acerca de se devemos ou não considerar nome uma palavra como hO/lesli.
( 'Jl'ífOfl e Téo ') ou scmelhantes, como nome e pronollle. dade (é nome de uma 'coisa',?), ou uma palavra como azul (não é nome de UllJa cor'?).
As classes estabelecidas no estudo do grego e do latim foram estcndidas para o No que se segue, assume-se: (a) que todas as línguas têm classes de pala \TaS; (b)
estudo de outras línguas e ainda hoje nos são familiares desde os primeiros anos de que hA palavras que pertencem a conjuntos, em princípio, ilimitados, e palavras quc
colégio, embora cOll1ll1odificaçôes e rcfinamentos. Afinal, a gramática do latim não é pertencem a conjuntos que são finitos; e (c) que o significado daquelas diz respeito ?t

idêntica às das outras línguas do mundo, e detalhes de classificação foram discutidos exp'criência no mundo, e o destas, na maioria das vezes, é quase nenhum.
e rediscutidos ao longo de séculos.
A ausência, nos vermículos, dos traços formais que entravam na caracterização
das partes do discurso nas línguas c1<Íssicas levaria as definições a mais e mais se
apoiarem nas noções expressas por elas. E este caminho levaria ao questionamcnlo 7,3. A classificação em partes do discurso
das definições e das próprias classes, embora, por vezes, levasse ü postulação de ele-
mentos abstratos. Ao falarmos em classes menores e em classes principai.\· tomamos como pano
de fundo urna distinção que, em última an;í1ise, confere primazia às palavras consoan-
te o tipo de significado que têm. Há outras implicações, de que trataremos adiantc.

"Se dizemos o rapaz, em principio espera-se que lenha havido mel1ç~o ;mlcrior a esse r.\paz espccífico. ESlreitamentc ligada à questão do significado está ap()ssibilid"dc de uma palavra
Autores como /\polôl1io Díscolo reconheccram outras propriedadcs do artigo, como a cxprcssiio de servir de base à fonnação de novaspal;lvras;
plural idade. uc imjlort:ll1da cm relação a outros seres da mcsma calegoria, ou ainda dc quantificaçiio
unica, se jUllto a um possessivo (para urna rcvisão, \'ide l\'lanhews, t994: SI). "Ncbrija (1.192: lil'ro 3, capo G, foI c3): "[)cclinaciô deI nôbrc no liene Ia lcngu;r caslellana salvo dei
numero de uno ai nUlllero de Illuchos". E no fólio scguinrc: "Los casos em caslcllano sü ciço".
"Por anafórko entcnde-sc que não tcm refcrência indepcmlerile, mas ligada a UII1temia antecedc.nle;
100 Revisilondo as parles do discurso Classes de palavros, tipos de significado e questões relacionados 1 01

7.3.1. Quanto ao tipo de significado: É difícil definir o significado de de se excluímos o ambiente em que se
significado lexical e significado gramatical insere. Daí dizer-se que tais palavras têm significado gramatical. Preposições/
Voltemos por um instante aos elementos da proposição simples segundo Aris- posposições, conjunções, artigos, pronomes, verbos auxiliares, cópulas fazem parte
dC~~Tesegllndo grupo.
(I tóteles. Sua classificação tomava por base o fato de um elemento poder ser interpre-
lid tado scmantiámente quando em isolado. Era o ponto de partida: 'aquilo que se fala'
"'.so··b··..··
re "'1"""
a go . .
II
,;j
(D Novamente procedemos a uma simplificação. Nem lodas as preposições são
li . Significado, nesse contexto, deve ser entendido como a referência ao "ambiente semelhantes a deno que diz respeito ao significado. Como nota Berg (1998), ante,
bio-social", à "significação externa", para usarmos a expressão de Mattoso Camara após, até, contra, desde, entre, perante, sem, sob aproximam-se de advérbiOS.
Jr. (1968: 342; 296), ou seja, àquilo que denominamos tecnicamente significado (o~7m;-pb(exempló, significa 'noção de oposição'; sem,·subiração:ausêiicia'.
Icxical. Os nomes, os adjetivos',<)sverbos e os ádvérbios são palavras que, sozi~
nhas, rcfêrcm; Oàsiciirnente,seres, qualidades, estados, açÕes, ou condições que os
Desta distinção entre os tipos de significado que as palavras podem expressar,
'afetanl~CÕI1;0 li-iodo, tempo, lugár.
aliada a características sintáticas e 1l1orfológicas, decorre umadivisão das palavras em
. Por seu turno, o~ elementcis"sem significado" podem ser compreendidos como
dois grandes grupos: as palavras iexicai.l' e as palavras jllllciollaisi6•
tendo um tipo diferente de ~ignificado. 0, um, de, que, ele, este, quando são considera=
Ás palavras que têm significado lexical são rotuladas palavras /exicllis, Oll
dos' palavras porque se reconhece terem alguma autonomia. Dizemos "alguma autono~
pa{aví'(ú decolltelÍdo, ou ainda palavras plenas ou cOlllentivos. As palavras que
mia" por duas razões bem distint;L,: ou porque tais elementos não podem constituir-se
tcill significado gramatical são as palavras fUllcionais, também denominadas pa-.
na única palavra de um sintagma - como acontece com os artigos, por exemplo -, ou
lavr(1S gramaticais, palavras estruturais, palavras vazias, palavras illStrumell-
porque somente podem ser interpretados quando em relação com outros elementos do tais ou f(lllctores.
enunciado - caso dos relativos, conjunções e reflexivos, por exemplo. Sc lomannos tais
palavras em isolado é difícil dizer o que significam. Esses elementos evidenciam rela-
ções gramaticais quer dentro da oração, quer entre onlçõcs. '"37' Embora cada um desses conjuntos seja formado por termos relativamente si-
Quando dizemos em portuguGs algo como o livro de Tomás, pensamos numa nônimos, parte dos elementos de um grupo costuma formar par com um elemento
relação que se estabelece entre dois nomes - de 'posse', se o livro pertence a To- do outro grupo. Vejamos:
más, mas algo como '9fjgem', se o livro foi escritopor Tomás. É a preposição que palavra de conteúdo vs. palavra deforma; palavra lexical VS. palavra gramatical;
expressa tal rclação. Mas se tomamos a preposição de apenas, fora do exemplo, e 'pá'lavrápiena vs. palavra vazia; contentivo vs.functor .

procuramos descrever seu significado, já não nos parece tão fácil a tarefa. É que sell Para alguns autores, como Camara Jr. por exemplo, palavra é tenno mais restri-
significado decorre, principalmente, ou exclusivamente, do contexto em que está to que vocábulo e é sinônimo de vocábulo lexical. Opõe-se a vocábulo gramatical.
inserida, como podemos concluir da comparação das ocorrências de de nos exem-
.plQ~<lseguir, em (7.4). Os significados indicados entre parênteses para cada ocor-
rência têm por fonte Cunha (1972: 523) e Bechar:l (1999: 312-313): A diferença enlre os tipos de signiticado fundamentou a distinção entre worjemas
gramaticais ou afixos e 1II00femas lexicais ou semantemas ou raízes. A significação.
do vocábulo resulta da soma dos significados desses elementos, pela cOlllposiciq~
(7.4) a. Ele partiu de Paris (movimcnto no espaço)
nalidadel7• A raiz guarda o significado lexical. As palavras que têm raízes são aquelas
b. Ele voltou de Paris (movimento no espaço)
que, na niaioria das vezes, podem servir de base ao vocabulário novo que vai scndo
c, SOll do Rio (origem) criado numa língua. . '. .
d. 5011 da mamüc (posse) Palavras corno de, no entanto, são desprovidas de raízes; por essa razão são
c. Mllro de pedra (matéria)
rcferiâas muitas vezes corno 1I1~liemas (e nesse sentido, nos apropriando da 110Il1Cn'~
f. Regimento de cavalaria (definição)
g. Vali de carro (meio)
"Preferimos a denominação flIIIlIvrafllndo1lal em razão de lerm()s empregado palavra gramalical com
h. Gosto de piz.za (introduz complemento de verbo) oulm :lcepção (4 5,2.4).' " . .... . ...
i. Morrell de parto (causa)
"1:~ncjpi<) descritivo segundo () qual <)signífk:l(lode uma expressão, seja umaraiavra, tlm sinlagma o(j
j. Dedia (tempo) _uma frase. resulta dos significados de stlas pal1es fomlador;ls.
1 02 Ravisilondo os porias do discurso
Clossas da palavras, jipos da signifiçado c qucsfó"s relacionados 103

c1atura de Varrão, são estéreis). Os afixas llexionais e derivacionais conccnlrall10


7.3.2. Quanto à possibilidade de gerar vocabulário:
s'igílificado gramalical. São formús querêl1etem o funcionamento de uma língua p;lr-' classes abertas e classes fechados
tiéülar: SeLÍ sigtíificado se estabelece no interior da gramática, e, por essa razão, quan- '
do se procura traduzi-Ia, temos glosas corno 'relação' (campal. cscolar, arolluítico)
Tente, por exemplo, lislar LOdos os nomes e todos os artigos do português. A
'posse' (solarengo), 'referência' (daI/testo, mO/llisco), 'agente' (jogador, regador).
-I primeira lista ser<í imensa, e a todo momento poderemos acrescentar-lhe novos itens;
'noção coletiva c de quantidade' (cardume, flcgl1J1ne) (dados de Cunha; 1972: 112-
'I a segunda, ao contrário, senl mínima, e as chances de que possamos adicionar um
1
113). Compare essas glosas com as que daríamos a fomms como galO, pilo, astrólogo.
,I novo artigo ao português é muito remota. Na primeira lisla estarão palavras que, para
Se o conteúdo lexical (;ostuma estar expresso Ilas raízes, e o gramatical nos afixas,
serem usadas, dependem em muito do tema a tratar, do registro ou do dialeto; artigos,
é bom Tiisar;',io ellúÍl~tà, COmO fez Sapir, 'que: isso nem sempre acontece, e que-as
línguas podem tratar um mesmo conceito de modos diferentes. O esquimó, o nutka e preposições, conjunções, por exemplo, são em grande medida independentes do as-
sunto de que se trata, do registro ou do dialeto.
o iana, por exemplo, "têm centenas de sufixos, e muitos cuja significação é tão con-
creta que, na maioria das oulras línguas, teria de expressar-se por meio de radicais" 0.5 palavrasque apresentam significado lexical formam, em geral, classes aber-
(Sapir, 1921: 74-75). Em nurka, qualquer palavra "é absolutamente incapaz de COlll- tas, classes em que, em princípio, sempre podem ser acrescentadas novas criaçõcs; as
posição, no sentido que damos a este termo. Constrói-se, invariavelmente, de um só palavras que apresentam significado gramatical, por seu turno, formam classes fecha-
radícal e maior ou menor número de sufixos, cuja significação pode ser quase tão 'das. Vamos em seguida proceder a uma visão rápida dessas classcs. Cabe ressaltar
concreta quanto a do próprio radical" (Sapír, 1921: 73). novamente que os invcntários de classes não são os mesmos para todas as línguas
(vide seção 7.1 ).

6W' Quando saímos do nível da palavra e passamos para o nível do morfema, a


distinção entre significado gramatical e significado lexical parece tornar-se mais
difusa. Como nota Basílio (1974b: 89 - ênfase no original), "se PJLQ!Jenoé conside-
rado como lexical, seria o sufixo ·jnho assim considerado? Se peQueno não for 7.4. As classes abertas
considerado como lexical. devemos admitir que não tem raiz ou que nem toda raiz
tem significado lexical ou que -inho também é raiz".
Além do mais. para alguns elementos, sejam raízes ou afixos, é muito difícil São quatro os tipos de palavras que, em geral, formam classes abertas: 1I0/l/e,
estabelecer qualquer espécie de significado, como vimos anteriormente, na seção verbo, adjetivo, adpérbio. Vamos focalizar brevemente cada uma no tocante: (<I) à
4.2. Raizes como -d/.lz- (ind/.lzir; deduzir; reduzír) têm significado lexical? E elemen-
noção expressa; (b) às funções que exerce. Trataremos em separado, no capítulo se-
tos como vogais temáticas e vogais de ligação?
guinte, de sua calegorização.

As palavras funcionais pertencem a classes fechadas e ocorrem em posiçãode~


7.4.1. O nome (N)
Iemlinada, como os formativos. Assim, uma construção de genitivo, como qualquer
daquelas em (7.5), marcada em grego pela desinência casual -011.'1 e, no exemplo em É neste grupo que ocorre a maior parte dos nomes de pessoas, coisas, lugares,
inglês, peja configuração (ou por um alomorfe 0
do genitivo '.1'18), cstaria marcada em isto é, o nome para "os seres em geral" (Lima, 957: 66). Sua função mais cOll1um é n
J

português pela palavra funcional de: de funcionar como argumento (7.6a) ou como núcleo de argumcnlos (7.6b), embora
também seja possível sua ocorrência como predicado, com ou sem cópula, como,
(7.5) a. gr. hé oikfa Sõkr{Ítolls respecti\;iúiiellle, em português c cm russo (7.6 c-d):
b. ingl. Socrates' hOllse
(7.6) a. Joilo dorme.
c. por!. (/ casa de Sôcrates
b. Os lIlellino.\" comeram todas as Imtas.
Em razão de seu papel na estrutura de lima língua, as palavras funcionais for- c. Eles são prolessores.
mam classes com número restrito e fixo de elementos, como veremos adiante.
d. Olli u eilelja (Schachler 1985: 7)
etes prOfessores
"Quírk ('I (lJi; (1972; 195).
'eles são professores'
104 Rcvisitondo o~ porto~ do di~curso Clo~ses de polovro~, tipos de signífkodo e quostôes relocionadas 105

verbo), e podem ser categorizados para Tempo ou Definitude, marcas típicas de ver.
'iff" O uso dos termos argumento e predicador, no lugar da denominação mais bos e de nomes, respectivamente. pril lugar denome~verbo, a língua apresentaria
tradicional sujeito, objeto; predicado, tem sido adotada em lingüística para evitar
rilíiês flexionadas ou raízes não flexionadas (Hockett. 1958: 224-225).
problemas quando se foca.lizam línguas em que o sujeito não é necessariamente
identificado com o agente, ou o objeto com o paciente. Assim, uma frase como O As revisões nessa análise mostraram: (a) que as partículas indicadoras de Tempo
menino quebrou a janela lena dois argumentos: não eram desinências verbais, mas clíticos de segunda posição e que, por conseguinte,
apoiavam-se na primeira palavra da frase, fosse ela qual fosse; e (b) que as raízes
o menino quebrou ajanqla
--'-"'-" nominais, como qw'as, podiam funcionar como argumentos com ou sem o afixo -.'i;
argumentopredicador argument9 mas raízes verbais, como nWfllll'k, somente podiam ser argumentos se sufixadas.
externo interno A mesma argumentação parece poder ser aplicável à análíse de Kinkade (1983)
sobre três línguas salish quase extintas, o alto chehalis, o columbiano e o cowlitz20•
Kinkade argumenta que nessas línguas há somente 'predicados' e 'partículas', e que
aqueles "podem ser traduzldos para o inglês quer como um nome simples, quer como
7.4.2. O verbo (V)
umn sentença cquativa com um 'it' vazio (dummy) como sujeito, com o todo indican-
Nesta classe ocorre o maior número de palavras que expressam ações e proces- do um estado em vez de umn entidade" (1983: 28): uma palavra como sq 'â? .\"11 pode
sos, "isto é, Ulll acontecimento representado no tempo" (Cunha, 1972: 36i)-··~~~'~X~11~- ser traduzida como 'sapato', mas também como 'é um sapato'. O próprio autor nota,
ção típica é a de predicado, embora haja línguas cmque o verbo possa funcionar como porém, que a dificuldade em aceitar o banimento da distinção entre nome e verbo
argumento (Schaehter, 1985: 9). nessas línguas é, novamente, a presença de partículas detenninantes (ou melhor, 'ele.
Uma vez que nomes podem funcionar como predicados e verbos podem servir mentos dêiticos') que se restringem a palavras que não são prcdicados, elas próprias
podendo funcionar como predicativos (1983: 34).
de argumento, a distinção entre nome e verbo pode tomar-se sutil. Tão sutil a ponto de
Diferença sutil essa apontada entre ambas as classes? Bastante, se as compara-
ser negada. Vamos àquela que é talvez a língua mais citada corno evidência de que a
mos com os nomes e verbos do português: as seme1hançns são "quase impossíveis",
distinção nome-verbo não é universal: o nutka, língua wakashan do NO do Canadá.
para usarmos a qualificação de Sapir.Nomes e verbos de algumas línguas parecem,
Em Schachter (1985, Ilss) e em Anderson (J985b:154ss) aprescntam-se rcan~ílises portanto, mais nomes e verbos que os de outras.
em que a distinção nome-verbo é rnantida, alllbas remetendo ao trabalho de William
H. Jacobsen Jr. (1976)1'1.
7.4.3. O adjetivo (A)
A proposta de que a essa língua faltava tal distinção partiu de exemplos como
aqueles em (7.7), retirados de Schachter (1985: 11):
É neste gnlpO que ocorre a maior parte das palavras que indicam atributos Oll
qua!i,cIml.Ç.s.Nas línguas que apresentam o adjetivo como uma das classes /I1aiores,
(7.7) a. Manmk -ma qu "as·'i
éssc conte~'do semântico é constante (Dixon, 1977: 20). Os adjetivos funcionam como
trabalhando-PRES(IND) homem-DEI' modi ficaclores do nome (7.8a) ou como predicados (7 .8b):
'O homem está trabalhando'
(7.8) a. O cavalo branco
b. Qll'"as-ma mamu'k-"i b. O cavalo é branco
homenHREs(IND) trabalhandO-DEI'
'Aquele trabalhando é um homem' Segundo Dixon (1977: 20-21), a classe dos adjetivos pode não existir numa
língua - diferentemente, portanto, do português e das demais IínglJ~is'r()mânicas -, ou
Os exemplos mostram que tanto (fIe' as como l/IGl/Ilek podem funcionar como existir como uma cIass~ fechada, composta por um conjunto que varia de menos de
sujeito (e parecem, pois, com um nome) ou como predicado (e assemelharem-se a um dez, como em igbo, a cerca de cinqüenta e poucos adjetivos, como nas línguas bantas.
Nos casos em que a Ifngua apresenta uma classe fechada de adjetivos, estes dividem-
'" A refcrência óo tC)(to, a Cjucn~o tivcmos accsso, é a que sc scguc: Jacobscn Jr .• Willbm H., t976. se preferencialmente dimensão
por quatro tipos semânticos que indicam h__ ~,.' (como 'gran-
Noun aoó verb in Nootkao. In: Efrar. Baroam S" ed, 1979. TI,,: Vic!oria COJUemrce ml NOrlhll'cJ!em
Lallgll()gCS. Víctúria: Brüish Columohl I'rúvincial Muscum. p, 83-155. (Brilish Columbia Provincial ")0 alto chchalis c () cowlilZ lÍnham dois falantes em 1990. c o colurnbiano, menos dú 75 (Grimes, cd,
Museum, Hcritagc Record. n2 4). 1996: 136-(37).
106 Revisitando aS partos do discurso
ClassQs de palavras, tipos de significado e questões relacionados 107

de', 'pequeno' kcor (como 'preto', 'branco'), idade (como 'novo', 'velho'), g):qU({~...
Emonds (1976)"1, Reis (1997), exemplos como a celwja que desce redondo/ redO/l-
. çâo (como 'bom';'á1au'). São menos prováve'iS,"nésse caso, adjetivos que indiquem
dmnentel redol1dissil11o/llel1leou bofa redollda/redolldíssíllla/ *redOlldalllente, a classe
pos!ção (como 'alto', 'baixo'), propríedadesfísícas ('duro', 'macio') ou gropcnsües
de redondo seria a mesma, adjetivo, e se.Eç!verbiliz!}I!<.U:JUnão 1)a sLntaxe.
7ííil.ll(lllas.<'gentil', 'crue!'), ou aInda velocidade ('lento', 'rápido'). Apresenta-se em
'(7.9) a seguir a lista completa dos'adjetivos do igbo, língua cuá falada no SE da Nem tôdâ;;' os--~'ul;coi~lln[ôs'de 'ãd;;;cirbios[orli~am classes abertas. Em português,
Nigéria: por exi:5111plo:,ifODllação de novos advérbios, especialmente de modo, se faz com o
sufixo -//leme, a partir de adjetivos. Para as noções de tempo e espaço a produtividade
'velho'
'branco,
'mau'
(7.9) ukwlI'pequeno'
'preto,
'bom'~ :7
lumin~ ojíí
avaliação ~)N<)
escuro' qllla
cor
qca
'novo' 'grande' ~dimenSão
idade
é quase inexístenten.

7.4.5. As categorias lexicais de Chomsky (1981): N, V, A

Em Lectures on government and Bindíng, Noam Chomsky (1981: 48) parte da


Iradição grlunatical e assume a divisão entre slI!Jsfanlil'os, aí incluídos nomes e adjc~
Em razão de casos corno esse, dizer-se que palavras lexicais formam sempre tívos, a que atribui como característica o fato de terem o traço [+NJ, e predícados,
classes abertas é fazer uma afirmação simplificadora.
·cafiiderizados pelo traç~ [+VJ, para propor um sistema de caleg~lí'ias j(!-l;(CHÚ_~.N!V
e A. O que caracteriza [+NJ é ter caso e papel tem:ítico, ao passo que [+V] é caract~-
7.4.4. O advérbio (Adv) rizado'por atribuir caso e papel tem<tticQ. O rcsultado das combinaçõcs desses traços
Icrnbra o sistema proposto por ValTiío, que vimos anterionnenle (embora, obviamen-
Pelo rótulo advérbio respondem palavras que indicam direção/local, tempo, te, num quadro de pesquisas bcm diverso):
,modo, intensidade. Não há aqui a mesma homogeneidade semântica quc vimos ilas
outras três classes. Aliás, a tradição incluiu entre os advérbios v<trios tipos de elemen-
tos que podem ser vistos corno constituindo diversas 'classes 111enor.çs'. (Para uma
I N: [+N, -V] V; [-N, +V] A: [+N. +V] I
revisão da Iiteralura sobre o advérbio em português, l'ideReis, 1997). )
Funcionalmenle, os advérbios são modificadores por excelência, mas não do A quarta possibilidade de combinação de traços nos dâ a p.J:eposiç~o, que ChOlmky
nome. No 'português, modificam além do verbo ou do SN, o adjetivo, outro advérbio, não considerou, em princípio, uma categoria lexicaFl. .
-.'I.l.§!!,dJL.RI9pria sentença. I1ari el alii (1991: 85-87) expandem o conceito de advérbio
para abranger elementos "com funções próprias na organização discursiva", como
agora, entito, aí, inclusive:
I P: [-N, N] I
(7.10) u. Agora, eu não gostei nada de ouvir isso. Uma das implícações desse conjunto de traços é que com eles podemos prever
b. /nc/lIsíl'(! ele desmentiu.
as classes naturais, isto é, que categorias têm mais probabilid.a~_ed~f~;icicjõlii'·dc
modo semelhante: Esperamos qlieN e A possam participar de algum tip'ü de gencraÍi-
Em geral, ~~y~rbios modilicadores da sentença expressam a atitude do falan- zação;'uma vez que ambos são 'nominais'. Nos exemplos apresentados em (7.2),)1.
te em relação àquilo de que fala (7 .lla); os que modi ficam o verbo ou o SN expres- distinção entre N e A 'neutraliza-se' em favor.do N ..Do mesmo modo, A e V têm em
sam tipicamente tempo, lugar, direção, modo (7.11 b); os que modificam {)adje,tiVQ ou
corÍlli'iiio fato de poderém s~r predicad~s; t,lmbém freqücntemenre particípios podem
... ,'" .. ,", ,..• .. ... ,
outro advérbio (7.llc)costumam expressar grau ,(Schachier, 1985:20): "; ... ... ..-." '""'
'•..•." .,1'

(7.11) a. Feliz,lIlellte ele não estava mais aqui.


"Emond,. R. 1., 1970. Root alld slruclUrc'presen'illl; frlJllSjOI1lWfiollS. Blooming{oJl: lndial1~ UniversÍlY
b. Falava lenlamente. Linguis{ics Club, aplld Jackcndoff. 1977.
c. É exlremamellte rico. "O, ad\·<.'rbíos JlOVOSque Sandmalln (1989: 76ss) aprcscnta S:IOadl'érbio dc modo.
<"ChOlllSky (1981: 48): "Assim, lemos um sislema bascado nos lra\'os [:!:N]. (:!:V]. em quc [+N, -V) é
Ao contrário do nome, do verbo e do adjetivo, .?status.doadvérbio~()ll!º_ch\~s.e nome, [-N, +VI é \'crbo, [+N, +V] é :Idjetivo, c [-N, -Vj é preposição, os lrês primeiros scndo calegorias
Icxiçais.
independente dos adjetivos é freqUc..ll,temente qllcstiollado. Para alguns autores, como
;:.4

108 Rov;sitando as portes do discurso Classes do palavras, lipos de significado (\ qucstõcs relacionadas 109

'. tornar-se,%ljetiv?s. Em chinês, por cxcmplo, a distinção V -A não é níüda. Um 'adje- (7.14) Ilgirru/lnthillgap/lklllli (Cryslal. 1987: 293)
. ti'ió' ,'ou melhor; um 'ycrbo adjeüval', ocorre com a mesma partícula de que acompa- ngi . rru - lII11hillg - apu -kalli
nhao N: ISG PAS por algum tempo comer repetidamente
'continuei comendo'

(7.12) a. k§ixifl ·de rén (Li &. llwmpson, 1990: 827)


A importância que as palavras funcionais vêm assumindo em virtude dos estu-
felíz NOMINALlZAÇiio pessoa
dos de sintaxe e o maior conhecimento acerca das línguas do mundo têm levado a um
'pessoas que são felizes'
redimensionamento nas classes propostas. Daí o slIrgimento de nomenclatura variada,
rén que podc ser um obstáculo para aqueles que estudaram línguas scmpre pela:~·dúcri.
b, c/ri rim de
çõcs tradicionais. Por vezes os elementos que pertenciam a uma única classe na des-
comcr came NOMINALlZAÇiio pessoa
crição tradicional passam a ser distribuídos por classes distintas.
'pessoas que comem came' Passamos, em seguida, a apresentar suscintamcnte 16 classes fechadas. Na sua
maioria não fazem parte do elenco tradicional, embora sejam comuns nos trabalhos
Por seu tumo, V e P podem atribuir caso. Também cm algumas línguas, por atuais dc lingüística: profol7lras (pronome, pro·adjetivo, pl'O-advérbio, pl'Over!Jo, pro-
exemplo, o V assume papeis que, em portuguÚ, ~eriam da P, como bem demonstra oraçlio e pro-selltellça), elementos qu-, clfticos, l1Iarcadores, determinaflles, classifi·
Sapir(l921: 121), cadores, a IIxiliares, cópulas e predicadores, conjullções, complemclltizadores,
Quaisquer categorias que compartilhem um mesmo traço fonnam uma classe rc!ativizadores c adl'erbializadores, preposições/posposiçôes, ideofones, imerjeiç6es.

natll;;!. Esses traços são, por definição da teoria, universais.' ," -


Voltando à questão da diferença entre V e N que vimos atrás, a partir da proposta
7.5.1. As proformas
de Chomsky esperamos que N e V sejam duas categorias distintas, ullla vez que não
compartilham traços. "'"
Proforma é adenomínação quee.!lglobaas pal~vras que,subs.tituem ou uma
"\., ':•.. \.
palavr;UexicilI, ou uni' sintúgrl1a,'ou mesmo uma oração ou sentença. -' ,-.
Os pronomes substituem nomes ou sintagmas nominais. Vririos tipos ele prono-
mes são reconheddos de há muito: pessoais, reflexivos, recíprocos. delJlollstratij!()s,
7,5. As classes fechadas rl!.!qlil'os. Não nos deteremos aqui ne:ssifsúbclasses.
Pro-adjcti\'os, pro-advérbios e pro\'crbos podem substituir, respectivamente,
Os estudos tradicionais dedicaram muita atenção à~ palavras lexicais. Elas são tanto uin A, um Adv ou um V,comoúm SA, um SAdv ou um SV. Um exemplo de'
em maior número nas línguas, carregam significado, geram vocab.uhírio novo. Seus ijá.Jl'erbo em português (ou verbo vicário, na nomcnc!atur'a tradicional) são certos
(icid~i1ies 110:~~aãôas tábuas de éôiiX~;gãçao'ê~detlêClina'çãO, q'ue~~up;-n1TioÜPllrte das usos de fazer em frases do tipo Ainda não comprei o vestido, mas {aço isso hoje.
gra;nMkas. Os estudÕ-s-dcsiJiÚÍxe têm,-no entant~: dernonstrado a impQn~ncia das A pro-oração substitui uma oração. Vejamos alguns exemplos:

,p<lluvras fund6r@;/;ébs ·sãoYí1dlcê";d-e--p~~-p-ricda.c!Çs..gramaiicais que fazem~~ dife-


(7.15) a. ptg. Ele vem, né?
rençü'cnlrc·ãS""íf;lg"Uas. Mesmo se-pareçal11-nãõ--t~r granci-é'pãí)e-l: caso elas chan~ãdas
fr, 11 vienl, /l'est-ce pas?
. línguas isolantes, como o chinês (7.13), nas quais as relações se estabelecem basica-
;11elltê-[icl<íõrde-ill,bs palavras no enunciado, e das polissilllélicas, como o tiwi (7.14),
b. tagalo Ana fl1wa, ko?
língua australiana, em que a incorporação forma as extensas palavras que caracteri- um é chover ou
zam tais línguas: 'Está chovendo ou não?'

(7.13) lã qu zhõngguó xué z!lõngguó !luà (Li & Thol1lJlson, 1990: 825) c. ptg. Eu acho que sim.
ele/a ir China aprender China pintura ingl. Ibclievc so.
'Ele/a foi para a China para aprender pintura chinesa'
110 Revisitando as parles do discurso Classes de palavras, tipos de significada e qU()stõcs relacionados 111

Entende-se por pro·scntença a palavra que pode, em isolado, servir de resposta gal (uma vez que no Brasil é cOllstnlção em desuso), por exemplo, o clítico de dativo
a urnapergunta polar2~;<::ôlÍlOúôs exemplos do português e do francês (7, !6a-b), ou a antecede o de acusativo: lha, filO, ta, 10 (mas não *alhe, "'omc... ); (c) em geral se
perguútas"êXTsfêncíâis que equivalem ou a uma sentença afínnatíva ou a uma sentença apresenta sem acento, embora em determinadas condições possa receber acento: as
negativa: proclíticas gregas são acentuadas se antes de um,l enclítica, como em (7.19):

(7.16) a. Você vai à festa? Nüo. (7.19) a, dnç 'se alguém' (Freire, 1997: 153)
Você gosta de bolo? Sim. b. OD J.lot 'não a mim'

b. 11vient? Orli,
7.5.4. Os marcadores
(Schach(cr, 1985: 32)
n ne vient pas? Si.
Os marca~ores são elementos que sinalízal1l uma relação gramatical. Assim,
em virtude'do paralelo que se faz entre oSI1lodemas"dc'Caso, como, por exemplo, o
7.5.2. Os elementos qu- grego -OllS, desinência de Genitivo Singular, como em lJé oikía Sõkrâtous, c uma
preposição como de em {]casa de Sócrates, que, neste caso, assinala o mesmo tipo de
Orações interrogativas diretas ou indiretas, como (7 .17a-b) são introduzidas pe-
relação, esse tipo de palavra funcional é um marcador, aqui, cspecífic<lmente, um
los chamados cIc'llcntosqu-, assim denominados em razão de quase todos começa-
marc<ldor de 'caso. Reconhece-se, desse modo, que, em línguas corno o português,
rem por esse dfgraf;), A denoininação é uma tradução do inglês lI'h· (lI'ho, what, w/wre,
por exemplo, algumas palavras funcionais pennitem identifícar construções que são
wlzell ... ). .
expressas nexionalmente em algumas línguas.
O termo marcador pode aplicar-se ainda a outros tipos de palavras. Um deles é
(7.17) a. Quem saiu?
o !!l;ll'cador_ dC.',!lOdo,. palavra que indica a atitude do falante com rt:,lação ao que é
b. N{ío posso imaginar com quem ela saiu.
e~lJr~ss'O-ll'; frase (C';1;1o'desejo, dúvida - l'ide 11,2 deste capítulo) ou que solicita algo
do ouvinte, como porfavol; por gentileza.
São também denominadas l?,r.0.formas int~rrogati\'a~ Os marcadorei;'de polidez sublinham a atitude do falante em relação ao ouvin-
te. Ern'lagúlo (Schachtcr, 1985: 60), fJO c ho podem ser empregados em qualquer
7.5.3. Os c1íticos sentença para tomá-Ia mais polida. Em português, por exemplo, temos não marcadores
de polidez, mas UIlltipo especial de vocabulário para nos diriginnos a outrem. Assim,
No estudo das línguas românicas, o lermo çlí~icopraticall1entc tornou-se sinô- de acordo com Cíntra (1967: 14·15), o português de Portugal, diferentemente do por-
nimo de pronome pessoal átono; no entanto, a denominação é mais geralqueissÓ. As tuguês do Brasil, distingue: (a) tu; (b) você; c (c) V. Ex', o senhor, o senhor Dr., o
dez proclíticas elo grego (Freire; 1997: 153) servem para exemplificar o quanto pode Antônio, a Maria, o Sr. Antônio, a Sr' Maria, a D. Maria, ete., que são, respectivamen-
parecer heterogêneo esse grupo, que, ao contrário dos demais, não é definido funcio- te:
nalmente:
a) Formas próprias da intimidade, h) Formas usadas no tratamento de igual /l,lra igual (ou
de superior para inferior) e que uão implic;ull illlimidade, c) Fonnas charnad;L, 'de revcr~ll'
(7.18) a. quatro [onnas do lU1igo: Ó, ~l, 0\, at;
cia' - 'de cortesia' -. por sua vez repartida~ por uma série muito variada de nívcis, corre~·
b. - preposlçoes:
tres '- '(')0)'(')'
EI( e.." etç EÇ, EV; pondeu!cs 11 distüncias diver~as elllre os interloclllores,
c. duas conjunções: ~tX;, d;
d. a negação ai; (OUI(, auX). Emjaponês, a escala de policlez envolve até mesmo diferentes termos para 'sim'
(Sehachter, ! 985: 60): /1/1 (informal), ee (polido), hai (superpolido),
Ao contrário dos demais tipos de palavras, o c1íticO: ,(a)lem lima posição fixa em
relação a um outro elemento da oração (que nos dá as proclítica.l' c as enclítica,\');(b)
7.5.5. Os determinantes
tem posição relalÍvamerJie fixa em relação a outros cIíticos - em português de PortlJ- Voltando ao exemplo a casa de Sôcmfes, velllos que o artigo definido a modifi·
"Por polaridade se,elllendc o colllras!c afmnatiyolncgalil'o. Uma pergunta polar lerá corno po.lsibilida· ca o nome que o acompanha, lima vez que se pressupõe que o ser nomeado (casa) é
dcsde:rcspostassi~nc: ~?1t)':""'""--"",,,,""""-"""Y'<'~~' .,. ~... ' ,.,..... '. conhecido do ouvinte. Além disso, sinaliza a [rol1tCifidé"úm sintagma nominal: ou
1 12 Revisilando as porles do discurso Classes de palavras, tipos de significodo (}questões relacionados 113

(7.23) Alamisadon <lOtl


_Qf9..!::~_~.~p()~iSãoi:l.!.Sillld~ ~inY!g):nJlicomo em português, ou se posiciona no final
do constituinte, éomo em iorubá, língua cuá do SE da Nigéria, em quc a posição quinta-fcira PRWIC,\DOR
inicial do sintagma é reservada para seu núcleo (Pulleyblank, 1990: 984): 'Ê quinta-feira'

(7.20) a. acriança
b. Çlll19 náà 7.5.9. As conjunções
criança a
As conjll!1çÕ~S são pal?Vrasqlle uncll1element9s"que,valcmporsi só ea sua .
(\rtigºs,.~omo 0, um, c demons/r({tiyos, como este, esse. aquele, são dctcr- somadá ~slgnificaçãoglbl);;1 élú'(ú1eas signifiçaçÕes dostennos c9,nsÚt~íintesêntrijln"
(ÇrdC'iüi&;Iiielitcla<.lô~I<Ído" (CulÍ<ira lr., 1968):ca;;0 das éoriíu~sõ~~oordciiriti~as;
m!.!!!lnt(;;PPara algú-ns-úíilürcs,'éstê" r6tülo esttiristrit() ap~nas_aartigos- e del~ioií"im:úo- ", ...• '-- ..... -- , ... >.. ' '. /"'.- .•,....... -,-" ..--_.-----
~ tivosj.Jlín~ üSo"maisalT1p]ô:'âí1fgÕ:~ eaélnonstrativossftôdct~rminantes rcfcrchdais ou 'Clli'ê uneiit elemcntos cm que um se subordina ao outro, caso oiGtconjunçõcs
subordinativas.
cdês'úicml1~sé-de dois"ó'utrostiríos'de detemlüúü1tcS: ósquantifjdidórés, palavras
..----,_""_.... . .'. _ .. '. . ..... . ..' ..... _." ..• J.".-", ,_._0<"
'--'Seg~l~doCamara Jr. (1968: 119), alguns autores reservam a denominação.çolle ..
que denotatúqliüntidádé, cOmo todos, a'-ilbos, cCúlh, àlgrúité numerais câfilinais; e os
possessivos, .,como ...sel/,
",."',-,.,.
meu, por
".,.. exclúp!o. )ullç():e,\';?penaspar<~ a:cogr~enaüvas, considerando as sub,()rdínativ~~ ...~ llS preposi-
.'çõe"s éomo conccÚvos súb~rdínátivos. '''''0''-'''.'''''' '.' _"0, ..

7.5.6. Os classificadores
"- ,.",,;.'
7.5.10. Completizodores, relativizadores e adverbiálizodores
Algumas língu,L~ exigem quc nomcs modificados por numerais sejam acompa-
Dentre o conjunto das conjunções subordinativas, costumam-se destacar três
nhados por partículas selecionadas 'pélo"non1e, 'na medida em que o nome refira um
tipos.
sen~ujlíanô,um animal ctc.É o caso do tailandês (exemplos em Schachter, 1985: 39):
Complcti7 ..•
1dor~~ oucoI11p1cm~n.taqorcs indicam que a oração que delimitam
kholl f compfémcniôde l;~l v~rbo,'Jé~lm ;10 111
e ou de Ulll adjéÜvo. Sãocxé'lnpiosn-;'p~rtú~'
(7.21) deg s',)'J'I
menino dois CLASS.
"g~~~~'-a;~o~ju~çõ~~'s~bo~c1;llati~as que, se, que introduzcm orações subordinadas
declarativas finitas.

maa saam tlla Rclativizadores marcam uma oração como re!atiya,sçm, no entanto, exercer
cão três CLASS. qU~llqtíer-flli1Çãó '--'éonisso se distinguerü dos proilOll1es-relativo.s. ' , .... _,,~ ...o_·
Ad~c"rbiali~~Q(?rl:s.,Jlor
"'. '--"""_:'0'" , , •. so~,ll.
..!llr~g,são m.-'.~i_~dica<J,<Jre~.pe
_0._.- ,_~." -~ __....,.'
..•.• -"" que
.. a oração apresQnllL ..
r"''-,~·''-··'.'''.''''''~-''r-~

7.5.7. Os auxiliares função adverbial, como tempo, propósito, resultado (Schachtcr, 1985: 51).

Os lluxil!:~l:cs.s~o verbos que expressam, basicamente, o Tempo, Modo, Aspcc- 7.5.11. Preposições e posposições
to, Vo?:dós'~~rboslexicais (me acoll1r~nham. .
IJo~r(}siçõ.!CS_
e..PQsP.9,siçõ~Ç;'> Vat:l?~tC.,.:l'!t es .
...:~.E9_ç1ç.!n.~!1.~º~"g~l.~.~~?ErS~l},!.~~pecti
(7.22) a. VOII cantar QU depois de umcomplcmcIlto qucin~lu.i llmnOll!C, pronome, SWóú oração que
ftindôna conlouríi SNé;e'lilcOnjÜ;li~ com o complelrieiÍtO~éxprcs;;~~sua relação
b. tinha comprado
com outra Unidade na oração (SIL- Lingllistic GlossGI}').

7.5.8. Cópulas e predicodores


7.5.12. Os ideofones
Cópulas são palavras que expressam a relaçãoexistente entre um sujeito e um
predicãdo-Ilo'i1iitiilL Eiil°portu'gl;ês; {1~1peqlleno conjunt~' de' vc~b~s'cxcicces;;;l f~~i=" Nestc gmpo estão Qoalt,lvras.onomatop:ücasquc, cm diferentc.$,_!Ú!guas,J~Ilcio-
çiÍo: se~;'é:~t(;;;oáil(j(ir,parecer, continuar ... Em algumas línguas distinguc-se a cópula nam como nome,. verbo, aéljeti vo ou ad vérbi~: ;1~-;lS·~lll~·1onni'lii.l-c"i;sses
feC1);d"as, Em
dos p-r~_~JcaQ!lr.~porqll~_~~\~s.são emprc1l,ados. quandQllão. ~4 sujeito claramentc ~;;;;"f:pórcxcl11pl(), os idcofones são n~I~1~~~~~s·cflú;cion"á[i1-cÕIllõvefbosen~mes.
~xpre-;~o, como em b~mbara ('S~l;';dlíe'r~i
985:--55): .' - .-.- ".. - ..-_o', ' .."
114 Rcvisitando as partes do disçurso

No C;jSO. dos verbos, ~Gadeia sonora reproduz o ruído, produz,i(ip pela ação; no ~aso
,!?s'~on:e~, imita vozes dê aniiJiais, ou ruidos provocado por objetQs: .. 8
(7.24) idcofoncs verbais (Evcrw & Kcm. 1997: 427-431):
(nem 'espirrar'
pa 'Iparapa , 'matar'
Categorias e flexão
lI'e' 'vomitar'

ideofones nominais:
ahoo'ahoo 'jaguar'
tao 'objeto de metal' 8.1. Introdução
,~ Essas fOffilUSpodem receber Oexãcs como quaisquer outros verbos ou nomes No capítulo anterior vÍmos que as partes do discurso tiveram como um de seus
,1 (Evcrctt, 1998: 702). fundamentos a classificação em acordo cõõíoiipc} dcsig~ificado das palavras. Refería-
mo-nos, então;a6 significado que, nos dizeres de c.l111afalr. (l?73:Tf3'iJ;z "refe-
7.5.13. As interjeições r~llcia penn,mellle"[...] às coisas e fenômenos do Illundo exlerior c ;IS sensações, voJi-
çõe~ c idéiás do nosso 1~1Undo intcnor"..É ~ssa "referência permanentc", cxpressei lJeh
Em geral, as interjeiçÕes são a expressão de emoções e não têm relação sintúlica ~'ig1/(ficado lexical (v. seção 7.3.1.), que nos permite, por exemplo, procurar palavras no
com o restante da'fr~sc.P(ldell1também apreseillarcaraclcrísticas f~nolôgicas que é1iciomírio,abstraindo a (onna cspecífica sob a qual se apresentam. Qualquer semelhan-
,~tiocs'rftoPfe~enies nas ~utras pal:lvras da\íngua: podemos terçligu~s.Jla illdiEilçãoda ça com as categorias de substância aristotélicas não é, aqui, mera coincidência.
desapro,'ação em portug~ês; ü'ú Uílla'1:,Onsoanteseln vog;il (represent<Ível na escrita H<Í,no entanto, um oUlroJipoue significado, que se junta ü referência ao "nllltl-
como shh) por exemplo. . do dos objetos" (Cam;;;;I'Ú., 1973: 113, citando Emsl Cassirer) c 'que se apresenta el11
É importante nolar que, independentemente do número de classes, todas as pro- 'éonjuntos de elementos semânticos expressos JnorfologicameJl~~;no âmbito de :,ld;l
postas que foram aqui sumariadas decorrcm de UI11 pressuposlo fundamental: o de que cOiijlinto os elementos semânticos são mutuamente comraslantes(Cairstair-McCarthy,
. as línguas têm uma estrutura. Os fenômenos não seaplicam a eSl<IYuàquela palavra, 1992: 174). Estes elemenlos empreslam propriedades "acidenlais" ü "substância",
.maS,a classes. . ,'.' ".".". " ","'-'" '-", ,"'" . São as categorias gramaticais. -,,'" , .
" .. 'P~d~J~oS perguntar: não estamos trabalhando cOl11ll1orfologia'!Quc temos a ver
FO;;1[r7~licIilos'ncstc''capítulo as categorias, parte do estudo da Dcxão ou, na
com elementos que, em última análise, são constilutivos da oraçüo e que deveriam, tennínologia mais antiga, da acidêllGÍa das palavras.
pois, estar no campo da sintaxe? A resposta é que o reconhecimento das partes do
discursodcc;ofre não somente de sua distribuição, das fu;i.ç6ês(i~c'podemcXeicer: ou
(T) Tradução do grego symbaineí, tomado de Aristóleles pelos Estóicos, o lermo
Çros'i;ig.llifif;!c1osqLie~Gxpn~~sam.Depende também de .sua cãtCgOriZ~lÇã(),islOé, da
latino ac;çÜ'!f!.!]$.temorigem"na pergunta avo! accidvn!?(algo como 'Que mudanças
~ssoêiâçãode,(jcle.nninadas propJ-iedades às palav'ras, t,ús como Tempo, Caso, Gênc- na forma sofre essa parte do discurso?') que se seguia à definição de cada parte do
'[0':'05 fenômenosflexioú~~ÍS. discurso. Como nota Bland (1991; 26), referindo L G. Kelly, "O termo filosófico
acidente parece apropriado para as f1exões das partes do discurso porque,osaci-.
dentes não afetam a essênciadascoisas a que aderem; são derivados de"suà
.~ssêncía"e"-são [...js~a expressãóno mUndo real".

O estudo das categorias gramaticais foi tradÍcionalmente desenvolvido em con-


junlo com o das partes do discurso, no estabelecimento das dimensões em que dada
classe de palavras podia variar:~ser_l~
noções como Tempo, Gênero, Núm.ç:r9! por exelll-
pio, as palavras ditas variáveis ficarianílílcoiiíplct:ls. ,....... __