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A Teoria da Literatura e As Desumanidades

ABSTRACT
This article aims at analysing the internal developing of Literary Theory as a discipline
and its connection with the anti-human perspective of Modern Art, concept once proposed
by the Spanish philosopher Ortega Y Gasset. Such an anti-human perspective can be
traced back in the German philosophy of the late XIXth and early XXth centuries, in
special among authors like Nietzsche and Heidegger, as well as in its development
towards a postmodern French philosophy, as practiced by Michel Foucault and Jacques
Derrida. The article brings together a variety of philosophers, sociologists and literary
critics who criticize the anti-human trend, in special Luc Ferry & Alain Renaut, Roger
Scruton, Eric Voegelin, Raymond Aron, Daniel Bell, José Guilherme Merquior,
Raymond Tallis and Tzvetan Todorov, among others, in order to discuss the role that has
been acted by Literary Theory as part of Humanities.

KEYWORDS: Literary Theory, Anti-Humanism, Post-Modernism

RESUMO
Este artigo busca analisar o desenvolvimento interno da Teoria da Literatura, enquanto
disciplina, e suas conexões com a perspectiva anti-humanista da Arte Moderna, tal como
proposta por Ortega y Gasset. O anti-humanismo possui suas raízes na filosofia alemã do
final do século XIX e na primeira metade do século XX, em especial em autores tais como
Nietzsche e Heidegger, e encontra seu desenvolvimento na filosofia francesa pós-
moderna, tal como praticada por Michel Foucault e Jacques Derrida. O artigo reúne um
conjunto de filósofos, sociólogos e críticos literários que se colocam como críticos da
tendência anti-humanista nas ciências humanas, em especial autores tais como Luc Ferry
& Alain Renaut, Roger Scruton, Eric Voegelin, Raymond Aron, Daniel Bell, José
Guilherme Merquior, Raymond Tallis e Tzvetan Todorov, com vistas a discutir o papel
histórico desempenhado pela Teoria da Literatura no conjunto das Humanidades, agora
entendidas como Desumanidades.

PALAVRAS-CHAVE: Teoria da Literatura, Anti-Humanismo, Pó-Modernismo

Os estudos literários, que foram minha especialidade de origem, não


me parecem muito prósperos em seu desenvolvimento atual. Escrevi um
pequeno livro sobre o ensino de literatura na universidade e na escola
secundária, traduzido também no Brasil, sobre a literatura em perigo,
porque percebi que, tanto como historiador quanto como ensaísta,
aproveitei mais da literatura em si mesma do que dos estudos sobre a
literatura, e que lia com mais prazer romances, poemas e histórias
diversas do que análises críticas literárias ou teses escritas sobre a
literatura, as quais me parecem, hoje em dia, se dirigir quase
exclusivamente aos outros especialistas da literatura, enquanto que o
romance interessa a todo mundo. E me sinto mais próximo de todo
mundo do que dos especialistas em tal ou tal assunto.

Tzvetan Todorov
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As reflexões sobre a arte e a literatura podem ser traçadas desde a República, de


Platão, passando em especial pela Poética e pela Retórica, de Aristóteles, para daí seguir
aos tratadistas latinos, depois aos medievais e renascentistas, e então desaguar nas
reflexões dos poetas românticos - seja na Alemanha, na Inglaterra ou na França -, que
colocam as bases das discussões modernas sobre poesia e ficção. Mas, de maneira mais
específica, tal como a conhecemos hoje, podemos dizer que a Teoria da Literatura
constituiu-se como disciplina e saber especializado no começo do século XX, coetânea
do momento heroico da chamada “Arte Moderna”, e como tal foi sempre profundamente
marcada pelo caminho que aquela arte trilhou. Para sintetizar esse caminho da Arte
Moderna, recorro à acertada expressão de Ortega y Gasset: trata-se de um processo de
“desumanização da arte”. Cabe aqui explicar mais detidamente o termo.
O filósofo espanhol escreveu o seu famoso ensaio A desumanização da arte em
1924 (ORTEGA Y GASSET, 2005), quando a arte modernista estava no auge da
incompreensão popular. Segundo o filósofo, a nova arte dividia (e possivelmente ainda
divide) o público em duas categorias: os que a entendem e os que não a entendem. Essa
incompreensão deriva diretamente de sua desumanização, que seria a recusa do ponto de
vista humano sobre o objeto artístico, substituindo-o por um ponto de vista propriamente
artístico, ou seja, a desumanização constitui-se pelo ato de tomar o objeto artístico como
linguagem, reconhecendo sua opacidade, e não como imagem do mundo ou das ações
humanas. Nesse sentido, a Arte Moderna provocaria desentendimento por ser
antirrealista, por fixar-se antes na linguagem que diz, do que no que diz a linguagem.
Vejamos a explicação dada por Ortega através do símile do jardim e do vidro da janela:

Trata-se de uma questão de óptica extremamente simples. Para ver um objeto,


precisamos acomodar de certo modo o nosso aparelho ocular. Se a nossa
acomodação visual é inadequada, não veremos o objeto ou o veremos mal.
Imagine o leitor que estamos olhando um jardim através do vidro de uma janela.
Nossos olhos se acomodarão de maneira que o raio da visão penetre o vidro, sem
deter-se nele, e vá fixar-se nas flores e folhagens. Como a meta da visão é o jardim
e até ele é lançado o raio visual, não veremos o vidro, nosso olhar passará através
dele, sem percebê-lo. Quanto mais puro seja o vidro, menos o veremos. Porém
logo, fazendo um esforço, podemos prescindir do jardim e, retraindo o raio
ocular, detê-lo no vidro. Então o jardim desaparece aos nossos olhos e dele só
vemos uma massa de cores confusas que parece grudada no vidro. Portanto, ver
o jardim e ver o vidro da janela são duas operações incompatíveis: uma exclui a
outra e requerem acomodações oculares diferentes (ORTEGA Y GASSET, 2005,
27).

A obra de arte, no símile exposto, é o vidro, esse elemento que ao mesmo tempo
deixa ver os fatos do mundo mas os separa do sujeito que os contempla. Quem fixa o
olhar no jardim não vê o vidro, pois quem contempla o fato não vê a linguagem que dá a
ver o fato. Inversamente, quem detêm sua atenção sobre o vidro/linguagem, já não se
interessa pelo jardim/mundo, mas apenas pelas puras virtualidades artísticas.
Cabe notar que, stricto sensu, ao nomear o procedimento da Arte Moderna como
“desumanização”, Ortega y Gasset não pretende levar o leitor a intuir e nem se reporta
necessariamente a uma categoria antropológica negativa, mas simplesmente a um
conceito estético que se entende por “desrealização” ou “antirrealismo”, o que seria uma
forma de dizer que a nova arte não mais representa as coisas, como bem aponta Ricardo
Araújo, em prefácio à tradução brasileira da obra do filósofo espanhol (ORTEGA Y
GASSET, 2005, 10). Sob esse ponto de vista, a Arte Moderna, tal como compreendida
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por Ortega y Gasset, seria o lugar mesmo de demonstração do perspectivismo genealógico


nietzscheano, que nega os fatos para enfatizar as interpretações. Diz Nietzsche:

Contra o positivismo, que permanece junto ao fenômeno afirmando “só há fatos”,


eu diria: não, precisamente não há fatos, apenas interpretações. Nós não podemos
constatar nenhum fato “em si”: talvez seja um disparate, então, querer algo assim.
“Tudo é subjetivo”, vocês dizem: mas isto já é interpretação. O sujeito não é nada
dado, mas algo anexado, colocado por trás. – É por fim necessário colocar ainda
o intérprete por trás da interpretação? Já isto é poesia, hipótese. Na medida em
que a palavra “conhecimento” faz sentido, o mundo é cognoscível: mas ele é
passível de receber outras explicitações, ele não possui nenhum sentido por trás
de si, mas inúmeros sentidos, “Perspectivismo” (NIETZSCHE, 2011, 34-35).

Entretanto, apesar da posição aparentemente neutra da explicação dada por


Ortega y Gasset, não há como não ver, nos dois casos – tanto no estetismo da Arte
Moderna, quanto na crítica genealógica de Nietzsche -, a umbilical ligação entre a
desumanização, enquanto procedimento estético ou cognitivo, e o anti-humanismo,
enquanto crítica da filosofia humanista que caracterizou a Modernidade. Nesse sentido, a
arte modernista é o lugar por excelência da crítica à Modernidade e a seu humanismo. De
fato, a “poética da negatividade”, que caracteriza a Arte Moderna, é negativa
propriamente em relação às figuras do homem, o que transparece na sua busca intencional
do estranhamento, da despersonalização, da dissonância, e de todo um léxico de
“categorias negativas”, como bem aponta Hugo Friedrich, em seu estudo da lírica
moderna (FRIEDRICH, 1978, 19 e ss.). A Teoria da Literatura, nascida como derivado e
suporte da literatura moderna, e ao mesmo tempo nascida sobre o solo da crítica ao
humanismo moderno, encetada por pensadores como Nietzsche, Marx e Freud, não
poderia senão trazer essas marcas ao longo de seu desenvolvimento no século XX.
A crítica ao humanismo moderno se configura naquilo que correntemente
chamamos de Modernismo, ou seja, o Modernismo é contrário à cultura moderna. A frase
aparenta uma contradição, e para dirimi-la necessitamos distinguir devidamente os
termos. A cultura moderna, na definição de Daniel Bell, é aquela que se sustenta na tríade
capitalismo, democracia liberal e autorrealização do indivíduo. Nesse quadro, a razão e a
ciência aparecem como estratégias de unificação da compreensão humana da natureza e
do sentido do mundo, sobretudo em substituição à religião (BELL, 1996, 13-14). No
entanto, aponta Bell, a extraordinária liberdade da cultura moderna não a isenta de
contradições (aliás, este é o tema de seu livro): em especial aquelas que ocorrem entre as
estruturas sociais tecno-econômicas, que são burocráticas e hierárquicas, e as estruturas
políticas, que acreditam, formalmente, em igualdade e participação; entre as estruturas
sociais, que são basicamente organizadas em termos de papéis e especialização, e a
cultura, que se volta para a autorrealização do eu (BELL, 1996, 14). Bell nos lembra que
a filosofia de Nietzsche se assenta numa denúncia dessas contradições, porque, para o
filósofo, elas levariam ao niilismo moderno, negação de toda expressão espontânea. Para
Nietzsche, diz Bell, a fonte de todo o niilismo seriam o racionalismo e o cálculo, em
última instância, a ciência moderna. Nesse sentido, o filósofo estaria além da filosofia
moderna, e mais propriamente deveria ser visto como um filósofo modernista. Ou seja,
Daniel Bell está nos dizendo que o Modernismo e os modernistas são a face crítica e avant
garde da cultura moderna, que se volta contra a própria Modernidade no que ela possui
de hierárquico e racional. O capitalismo, o liberalismo, a razão científica e a democracia
constituem assim os alvos do Modernismo, que preza sobretudo a substituição da moral
por uma justificação estética da vida, no sentido nietzscheano. Mais do que criar uma
obra de arte, o modernista busca viver a vida como uma obra de arte, busca ser uma obra
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de arte. De fato, diz o sociólogo Bell: “eu vejo o Modernismo como a instância de
agenciamento da dissolução da mundividência burguesa”. E continua o autor:

Tematicamente, o Modernismo se assenta na revolta contra a ordem, em


particular a ordem burguesa; sua ênfase recai no “eu”, e na busca incessante de
novas experiências. Se Terêncio costumava dizer ‘nada humano me é estranho’,
o modernista poderia dizer com igual fervor, ‘nada inumano me é estranho’. O
racionalismo é visto como desvitalizante; a criatividade tem seu combustível em
uma exploração do demoníaco. Nessa exploração, não há limites estéticos (ou
normas morais) para o alcance proteano da imaginação (BELL, 1996, xxi).

Apesar de recorrer muitas vezes aos temas filosóficos, Daniel Bell sustenta sua
análise das contradições do capitalismo sobretudo na emergência estética do
Modernismo. E lembro que os termos do autor, ao parodiar o dito do poeta latino
Terêncio, nos remetem novamente ao tema do “inumano”, que antes vimos com Ortega
y Gasset. Há que se destacar ainda, no raciocínio de Daniel Bell, que ele engloba na
revolta modernista a sua vertente ainda mais radical - o avant garde do avant garde -,
qual seja, o Pós-Modernismo, que não seria mais do que o ato de levar a lógica do
Modernismo aos últimos limites. Entre esses limites, como veremos mais à frente, está o
de estetizar o pensamento, o de tornar toda reflexão teórica uma espécie de arte moderna
do pensamento, ou seja, de transformá-la em um pensamento que não representa nada a
não ser a si mesmo, um pensamento performático, da mesma forma em que a Arte
Moderna caminhou pela não-figuratividade para alcançar a pura performance.
Antes de voltar-me especificamente para a história da Teoria da Literatura em
sua relação com as ciências humanas, pensada essa Teoria contra o pano de fundo do
Modernismo anti-moderno, quero apenas mencionar três filósofos que fazem coro com o
sociólogo Daniel Bell em sua análise da distinção entre moderno e modernista, seja no
campo da filosofia, seja no campo da arte ou da cultura. São eles Roger Scruton, Luc
Ferry e Alain Renaut.
Roger Scruton, um filósofo de formação analítica, claramente distingue a
filosofia moderna de seu ramo modernista e pós-modernista. São muitos os locais onde
essa distinção se faz na obra do filósofo inglês. Lembro, entre outros, o livro Modern
Philosophy: an introduction and survey (SCRUTON, 1995, 1-15 e 458-480). Uma boa
introdução ao pensamento do autor, no que concerne a uma crítica do Modernismo e do
Pós-Modernismo em filosofia, pode ser encontrada no artigo “Confessions of a Sceptical
Francophile” (SCRUTON´s WEB PAGE, s/d) ou ainda nas suas memórias, intituladas
Gentle Regrets, em especial o capítulo em que narra sua experiência como jovem
estudante na Paris de 1968 (SCRUTON, 2006, 33-56).
Luc Ferry e Alain Renaut dedicaram todo um livro à crítica da filosofia pós-
moderna francesa, intitulado Pensamento 68: ensaio sobre o anti-humanismo
contemporâneo (FERRY & RENAUT, 1988), no qual as relações entre essa vertente
filosófica e o horizonte do Modernismo são devidamente enfocadas, livro esse
infelizmente com pouca recepção entre nós brasileiros, apesar de já ter sido publicado há
trinta anos. Cabe lembrar que o livro antes citado de Daniel Bell traz um capítulo
intitulado “The Sensibility of the Sixties”, que vai na mesma direção, mostrando a
convergência desses autores. As análises de Ferry e Renaut são muito preciosas quando
procuramos entender o lugar hodierno da Teoria da Literatura como derivada direta do
pensamento dos chamados soixante-huitards, o que poderemos ver mais à frente.
No caso da compreensão da postura modernista e pós-modernista como crítica à
Modernidade, mais importante ainda é o livro de Luc Ferry intitulado A nova ordem
ecológica: a árvore, o animal e o homem. Nesse texto, o autor propõe que o humanismo
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pode ser visto como um hiato moderno entre um tempo pré-moderno e um tempo pós-
moderno, que se irmanam em oposição ao tempo moderno através de sua colocação da
natureza como sujeito de direito, ou seja, pré-modernos e pós-modernos veem a natureza
como sujeito moral, fato patente nos debates contemporâneos sobre a animalidade,
colocada no coração mesmo da discussão das relações do homem com a natureza, debate
que ecoa antigas discussões semelhantes, ocorridas na França em momento anterior ao
Iluminismo. Ao analisar a vertente ecológica que se autonomeia “ecologia profunda”,
Ferry mostra como ela é capaz de aliar em um mesmo movimento “...teses tradicionais
da extrema direita com motivos futuristas da extrema esquerda. O essencial, o que dá
coerência ao conjunto”, diz Ferry, “...é o cerne do diagnóstico: a modernidade
antropocentrista é um total desastre”. Porque a modernidade antropocêntrica buscaria a
uniformidade, o consenso e a universalidade, seus críticos têm como estratégia, segundo
o autor, “...o elogio da diversidade, da singularidade, da particularidade, por
conseguinte tanto do ‘local’ (versão esquerda da ecologia profunda) quanto do
‘nacional’ (versão direita)” (FERRY, 2009, 35-36).
Apenas para terminar essa seção, lembro àqueles que se interessarem pelo tema
que os debates sobre humanismo e anti-humanismo estão na ordem do dia entre filósofos,
em especial entre nietzscheanos e heideggerianos, em função de um texto publicado em
1999, da autoria do filósofo alemão Peter Sloterdijk, intitulado “Regras para o parque
humano” (SLOTERDIJK, 2000), em que o autor discute os limites do humanismo à luz
das realizações e do alcance da genética. Uma boa introdução ao debate pode ser
encontrada no artigo de José Oscar de A. Marques, “Sobre as Regras para o parque
humano de Peter Sloterdijk” (MARQUES, 2002, 363-381).
Uma vez colocado esse quadro do humanismo moderno e de seus críticos,
podemos voltar à afirmação antes feita de que a Teoria da Literatura nasce de e para o
Modernismo, e assim se constitui indelevelmente com aquelas marcas da crítica ao
humanismo.
Repassemos, ainda que rapidamente, o conhecido percurso da disciplina. A
Teoria da Literatura, enquanto disciplina específica, nasceu com o Formalismo Russo, na
década de 1910, junto ao chamado Círculo Linguístico de Moscou e à OPOYAZ
(Sociedade Para o Estudo da Linguagem Poética), de São Petersburgo. O chamado New
Criticism anglo-americano também deve ser considerado como um dos movimentos
importantes para o nascimento da Teoria da Literatura, pois, por caminhos diversos, ele
chega a conclusões muito semelhantes às dos formalistas. Mas, para o efeito desta
exposição, vou me fixar no Formalismo Russo, pelo fato de haver uma linha direta que
leva de Moscou e São Petersburgo à Paris de 1968, passando por Praga, além de que
certos traços ideológicos do New Criticism, derivados de sua origem na cultura liberal
anglo-americana, o tornam muito diferente da linha formalista russa em vários aspectos.
Assim é que, na metade da década de 1910, já durante a Primeira Guerra, um grupo de
estudiosos de língua e de problemas de poética – integrado, entre outros, por Viktor
Chlovsky, Yuri Tynianov, Boris Eichembaum, Roman Jakobson, e mesmo lateralmente
por Mikhail Bakhtin -, estudiosos cujo trabalho se associava às pesquisas formais dos
poetas futuristas russos - entre eles Maiakóvski, Khlebnikov e Ossip Brik - começou a
desenvolver abordagens específicas sobre o verso e sobre o romance, abordagens que se
articulavam pelos conceitos de forma e de função, em busca da literariedade, ou seja, dos
elementos construtivos que caracterizam estritamente o trabalho literário e o diferenciam
da linguagem puramente comunicacional. O verso-motivo de Maiakóvski encarna o
espírito dessa tendência crítica, assim como da poética construtivista russa: “Não há arte
revolucionária sem forma revolucionária”. Como o verso citado já supõe, houve por parte
dos formalistas uma adesão imediata à Revolução de 1917. Mas, passado o momento
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heroico da Revolução, já com Stalin no poder, a partir de 1922, os interesses formalistas


passaram a ser vistos com desconfiança, e posteriormente com franca oposição, em
função de sua recusa do chamado “realismo socialista”, o que fez aquele núcleo de
estudiosos se mudar para Praga, onde formaram um novo circuito de interesses,
conhecido na história da Teoria da Literatura como Círculo Linguístico de Praga. A
expansão do estalinismo no Leste Europeu e a Grande Guerra acarretaram uma diáspora
do grupo, emblematizada no exílio de Roman Jakobson nos EUA.
O Formalismo Russo trouxe enorme contribuição para os estudos de literatura
ao recusar a ênfase crítica do Romantismo na figura do autor e na expressão de seu gênio.
Ao assim fazer, os formalistas chamaram a atenção para os processos construtivos da obra
literária na sua dimensão linguística, o que fez a obra passar a ser compreendida como
um sistema, um conjunto de funções. Cabe notar que, ao lado desse formalismo poético,
existe o próprio formalismo linguístico, também importante para os estudiosos russos. A
origem do formalismo linguístico está nos estudos de Ferdinand de Saussure, o pai da
linguística moderna, cuja pesquisa se caracteriza pela ênfase na compreensão da língua
como sendo um conjunto de estruturas e sendo formadora de um sistema no qual os
valores distintivos são antes traços linguísticos funcionais do que sociais. Jakobson uniu
as duas origens formalistas, a linguística e a poética, em um só conjunto de
conhecimentos, expresso nas chamadas “funções da linguagem”. No mesmo Círculo
Linguístico de Praga, um outro pesquisador, Nikolai Troubetzkoy, foi essencial ao
desenvolvimento sistemático da Linguística moderna, com seus estudos de fonética e de
fonologia. Dessa maneira, Teoria da Literatura e Linguística se desenvolveram lado a
lado, como irmãs em disputa, o que até hoje se espelha na divisão funcional das
faculdades e departamentos de Letras, no Brasil e em muitos outros países.
Cabe lembrar que Troubetzkoy, o formalista que se dedicou à fonologia, colocou
nesse momento as bases do que viria a ser o Estruturalismo (não por acaso conhecemos
a sua ciência como Fonologia Estrutural). Segundo Lévi-Strauss, o criador da
Antropologia Estrutural - que a partir dos anos 1960 se tornou paradigmática para o
desenvolvimento de todas as disciplinas à sua volta -, para que as ciências humanas
atingissem maturidade científica, três condições deveriam ser satisfeitas: a) ter um
objetivo universal, vigente em todas as sociedades; b) ter um método homogêneo,
independente da área de aplicação; e c) possuir pressupostos e métodos que fossem
consensuais entre os praticantes da disciplina (MERQUIOR, 1991, 22 e ss). Essas
condições já estavam dadas pela fonologia de Troubetzkoy, e, portanto, sob esse ponto
de vista, a linguística passou a ser, através da Antropologia, o paradigma de todas as
ciências humanas.
Vimos como a Teoria da Literatura, irmã de nascimento da Linguística no ninho
formalista, foi a primeira a se deixar guiar por aquele paradigma, dada a sua atenção às
funções da linguagem. Como corolário de sua ênfase na análise do processo construtivo
e das estruturas de linguagem da obra, e não na figura do construtor, a Teoria trouxe
grandes contribuições para os estudos da arte literária. Mas essa mesma ênfase na análise
linguística trouxe como consequência uma espécie de esquecimento de que a literatura é
antes de tudo uma crítica da vida, e não um construto de linguagem que se basta. José
Guilherme Merquior, em seu estudo sobre a evolução da Teoria da Literatura ao longo do
século XX, mostra com precisão essa desvirtuação do ganho trazido pela crítica estrutural
dos formalistas ao apontar que:

Do fato de que a literatura é feita de linguagem não se conclui que o significado


literário (muito menos o valor) seja algo reduzível à linguagem. Meu carro é feito
de metal, vidro e borracha; mas nunca passaria pela minha cabeça dizer que é
“sobre” borracha, vidro ou metal; é “sobre” transporte. (...) Nada é mais
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verdadeiro, nem mais trivial. Mas a questão é que, dentro da sabedoria tradicional
da crítica estruturalista, estas humildes verdades foram esquecidas, se não
desafiadas – e em ambos, esquecimento e desafio, o santo nome de Jakobson foi
muitas vezes evocado, como prova de que a ciência da linguagem em si
abençoava e exigia a redução da crítica a uma análise linguística de textos
literários (MERQUIOR, 1991, 47).

Ao mesmo tempo, essa mesma perspectiva estritamente linguística da Teoria da


Literatura deixou aberta a porta para uma crítica generalizada do papel do indivíduo
criador. Lembro uma vez mais que a Teoria nasceu como esforço de responder
criticamente aos apelos da Arte Moderna. Ora, se esta, a Arte Moderna, estava marcada
pela desumanização e pelo gosto do inumano - pelo fato de ser uma arte estética, voltada
para a própria linguagem -, a Teoria conforma sua crítica ao humanismo através não
apenas da redução da literatura a puro jogo de linguagem, calcada em sua gênese
formalista, mas igualmente através de um ataque sistemático à figura do autor. De fato,
nas análises formalistas, o autor não apenas não tem importância, mas é verdadeiramente
sequestrado, impedido de atuar, como se não fosse ele uma das instâncias do círculo
comunicacional da obra de arte. O horizonte final desse sequestro é a chamada “morte do
autor”, proclamada pelo crítico Roland Barthes no começo dos anos 1970, como versão
metonímica da proclamada “morte do homem”, ditada por Michel Foucault nas páginas
finais de As palavras e as coisas (FOUCAULT, 1967, 403-404).
O combate formalista ao autor possui um caráter político que está na base de sua
relação com o processo revolucionário russo. Como o autor é o sujeito, e, no caso do
Romantismo, o individualismo do sujeito se expressa na figura do burguês, o ataque
modernista ao burguês se trasveste de ataque à própria noção de autoria. O mesmo
acontece no campo da Teoria da Literatura. Assim é que a teoria do romance em Mikhail
Bakhtin enfatiza não a voz autoral, mas a heteroglossia, o diálogo das vozes no campo
social. Mesmo que a vida em sociedade seja central para o formalista Bakhtin, o que o
coloca em posição diferente de seus contemporâneos formalistas e minimiza o caráter
puramente linguístico que tomava conta da Teoria da Literatura, o seu foco na
heteroglossia dos discursos acaba por contribuir para a morte do autor e para a redução
da literatura ao estatuto de apenas mais um entre outros discursos, o que nos traz
novamente à redução da crítica da literatura à crítica da linguagem. E cabe lembrar que
Bakhtin teve pouca influência no desenvolvimento das ciências humanas, em geral, e
mesmo da Teoria, em particular, entre os anos 1930 e 1970. Apenas aí sua obra começou
a ser traduzida para o francês, sendo publicada no contexto mesmo da morte do autor.
O Estruturalismo francês, com Lévi-Strauss, transformou então a Linguística no
paradigma das ciências humanas. No entanto, Lévi-Strauss, enquanto antropólogo, nunca
perdeu de vista uma espécie de equilíbrio entre o homem e a natureza, e por isso ele se
manifesta muitas vezes contra o Modernismo, que teria perdido o contato carnal com o
mundo e se tornado retórico (MERQUIOR, 1991, 104 e ss.), o que é uma outra maneira
de dizer o que Ortega y Gasset havia dito, ou seja, que a Arte Moderna substituiu o ponto
de vista humano em relação à riqueza de detalhes do mundo por uma contemplação
retórica de seu próprio meio.
De outra maneira, poderíamos dizer que Lévi-Strauss participa um tanto malgré
lui daquilo que sua contribuição às ciências humanas inadvertidamente ajudou a
consolidar, ou seja, a morte do sujeito praticado no advento das estruturas. Essa morte
(ou esse assassinato) se assenta em dois pilares da filosofia e das ciências humanas a partir
dos anos 1960: a) a ênfase na estrutura e na linguagem, impulso que se degrada em uma
visão de que todo conhecimento e a própria realidade constituem apenas discurso, ou
texto, o que levou à prática propriamente pós-estruturalista e desconstrucionista do
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pensamento estetizado, e ainda ao corolário de que, se não há fatos, apenas interpretações,


não há limites para o desejo, essa pedra de toque dos acontecimentos e da ideologia anti-
normativa de maio de 68; b) um radical anti-humanismo, que tinha suas raízes nas
genealogias interpretativas de Nietzsche, mas que, passando por Heidegger, encontrou
solo fértil naquela concepção do conhecimento como pura linguagem e da realidade como
texto, anti-humanismo alimentado paralelamente pela herança cultural do Modernismo,
não apenas em função de sua arte desumanizada, que estanca a representação no limite
da própria linguagem artística, mas igualmente por seu viés contracultural. Esses dois
pilares – por um lado o descolamento entre a linguagem e o mundo, e por outro o anti-
humanismo - se completam no amálgama de uma única fundação, que devemos detalhar
um pouco mais.
Luc Ferry e Alain Renaut demostram com rigor a presença do anti-humanismo
na filosofia francesa dos anos 1960, através de uma tipificação do que chamam de
“pensamento 68”, cuja estrutura intelectual é encarnada por um tipo ideal que possui
quatro características, a saber: 1) a recorrência ao tema do “fim da filosofia”, tentativa de
romper com toda a corrente filosófica que vem de Platão até hoje; 2) a tomada da
genealogia interpretativa como paradigma da atividade filosófica, genealogia que trata
todo discurso consciente como sintoma, e portanto não busca apreender o seu conteúdo,
mas antes interrogar as suas condições exteriores de produção, quer seja essa
interrogação formulada como crítica do Ser, na tradição de nietzscheana-heideggeriana
(crítica da metafísica da presença); quer como elogio da libido, na tradição freudiana; ou
ainda como desvalorização das chamadas superestruturas ideológicas, em favor da
infraestrutura econômica, na tradição marxista; 3) a dissolução da ideia de verdade, pois,
se a verdade é pensada tradicionalmente como adequação entre sujeito e coisa, ela já não
faz sentido quando se postula que não há mais referente, uma vez que a linguagem basta
a si mesma (o que, aliás, já vimos em relação à Arte Moderna); 4) a completa
historicização das categorias e o fim de qualquer referência ao universal, ao mesmo tempo
em que a essa historicidade se recusa qualquer encadeamento causal, substituído por uma
história descontínua (FERRY & RENAUT, 1988, 26-34).
Essas quatro características, segundo Ferry e Renaut, permeiam a filosofia ligada
ao Maio de 68, em especial à de seus quatro maiores anti-humanistas (Foucault, Derrida,
Bourdieu e Lacan), que repetem e aprofundam, na terra de Descartes, os temas do anti-
humanismo alemão do final do século XIX e da primeira metade do século XX, não por
acaso a mesma época heroica da Arte Moderna e de sua crítica à Modernidade. Segundo
os dois autores, a relação entre a filosofia francesa dos sixties e o anti-humanismo alemão
assim se constrói: Michel Foucault corresponde ao Nietzscheanismo francês; Jacques
Derrida ao Heideggerianismo; Pierre Bourdieu ao Marxismo; e Lacan ao Freudismo.
Voltamos uma vez mais a Nietzsche, Marx e Freud, e ainda a Heidegger e sua anti-
metafísica, como os exemplos máximos dos pensadores modernistas, e por isso anti-
humanistas.
Nessa relação entre os pensadores de maio de 68 e os pensadores anti-humanistas
que os precederam, Ferry e Renaut seguem de perto o raciocínio de Daniel Bell, para
quem a contracultura (ou seja a crítica da cultura moderna, praticada em larga escala a
partir de Maio de 68) deriva diretamente do Alto Modernismo, com uma diferença: o que
agora ocupa o largo espaço da cultura massificada era antes restrito ao ambiente da arte
e do pensamento de vanguarda (BELL, 1996, 53-54). Por isso, José Guilherme Merquior,
seguindo o mesmo Daniel Bell, afirma que o “o estruturalismo e sua sucessão devem ser
vistos como as forças principais de uma colonização do pensamento pela ideia modernista
na literatura e na arte” (MERQUIOR, 1991, 246). E continua o crítico:
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O que certa vez foi pensado e simbolizado pelo artista de vanguarda é agora o
que crê e pratica (pelo menos em princípio) o estudante rebelde, o acadêmico
radical, em acontecimentos públicos e na subcultura punk. Para ser exato, todos
esses grupos ainda são, em termos numéricos, uma minoria dentro da sociedade
maior, burguesa e aburguesada. Mas, ao contrário das vanguardas realistas, eles
estão se tornando o público principal da alta cultura, consequentemente
fortalecendo de forma considerável o ataque modernista contra a modernidade.
(MERQUIOR, 1991, 276).1

Como se dá essa colonização, em termos da teoria e da reflexão, e não apenas


em termos de práticas e acontecimentos? Dá-se através da assimilação, pela Teoria, da
antifiguratividade da Arte Moderna, que antes vimos no símile da janela e do jardim,
exposto por Ortega y Gasset. De fato, conclui Merquior:

A teoria pós-estruturalista é a arte moderna do pensamento: deleita-se na sua


própria antifiguratividade obstinada. Equivale a um Alto Modernismo intelectual
(oposto ao literário e artístico), mantendo o mesmo ódio contra a modernidade no
seu sentido histórico-social. (...) Karl Kraus chamou sarcasticamente a
psicanálise a doença da qual ela alega ser a cura. Da mesma forma, a teoria niilista
pode ser descrita como a crise cultural da qual ela pretende ser um diagnóstico
(MERQUIOR, 1991, 276).

Ferry e Renaut voltam a esse mesmo tema do pensamento estetizado quando


mostram que o fim da filosofia, tal como preconizado por Derrida na Gramatologia,
encontra a mesma atitude de pensamento performático:

Ao mesmo tempo apoiada numa representação heideggeriana do fim da filosofia


como metafísica, a Grammatologie explicava, com efeito, que a desconstrução
da metafísica deveria permitir ao pensamento se libertar finalmente de seu
aprisionamento “dentro desta época de onto-teologia, dentro desta filosofia da
presença, isto é, dentro da filosofia”. Contra a filosofia que “no passado” tinha
sido invariavelmente uma filosofia “da presença”, marcada pela obsessão de um
significado presente por trás das palavras e por trás das aparências, Derrida se
dirigia à prática de um pensamento que “não quer dizer nada” e que pretende ser
um puro indício, uma pura significação, sem significado originário (FERRY &
RENAUT, 1988, 27-28).

De maneira que o sistema da língua remente apenas a si mesmo, nunca ao mundo


real, uma vez que o próprio mundo é agora texto, e por consequência o pensamento se
reduz a performance, e não configura nunca um mecanismo de conhecimento.
Eric Voegelin - filósofo cuja preocupação incessante ao longo de toda a sua
imensa obra pode ser resumida como a análise e o desmascaramento do papel das
ideologias no século XX - afirma que, a partir do final do século XIX, entramos numa era

1
Cabe observar, em paralelo, que Daniel Bell, cujo texto antes citado é de 1976, tem uma perspectiva
sombria sobre a crise a ser gerada pela massificação da atitude contracultural. Segundo Bell, a estetização
da vida, antes praticada pelo artista de vanguarda, quando levada à massificação poderia igualmente levar
a uma irrupção da atitude anti-burguesa e anti-capitalista sob a forma de violência estetizada. Merquior,
seguindo Ernst Gellner e se opondo a Bell, pensava, ao final dos anos 1980, que a previsão do sociólogo
americano era exagerada, uma vez que esses grupos permaneceriam numericamente minoritários dentro da
sociedade burguesa, vivendo nas suas franjas, mas sem força para desestabilizar suas bases. As jornadas de
junho de 2013 no Brasil, assim como a emergência, em muitos lugares do mundo, de black blocs, que se
consideram uma tática e uma estética, pode servir de motivo de meditação sobre as previsões de Bell.
10

de “perda da realidade”, e essa perda é o que gera o papel preponderante das ideologias
políticas ao longo do século XX. Para Voegelin, a perda da realidade, e a entrada no que
o filósofo, na senda de Robert Musil e Karl Kraus, chama de “segunda realidade”, se
expressa em primeiro lugar, e de maneira patente, em situações políticas nas quais...

... a língua em sua função real como mediadora entre o homem pensante e a realidade
torna-se oca dentro de um molde que tem sua própria estrutura particular e, portanto,
já não se relaciona com a realidade – ou seja, quando a língua mesma se torna uma
segunda realidade dentro da qual se trabalha. É por isso que essas coisas aparecem.
(...) Se alguém se diverte com a segunda realidade, a língua também se torna parte
dela e surgem esses problemas que, na verdade, são apenas semânticos e resolvem-
se tão logo se começa a pensar. Eles surgem apenas se não se pensa em relação à
realidade, mas dentro da própria linguagem – resumidamente, se surge a situação
que Heidegger formula, ou seja, a situação em que a “linguagem fala”. Não é
certamente a intenção de Heidegger caracterizar a linguagem como segunda
realidade, mas ele de fato o fez. Ou seja, se a linguagem fala, então o contato entre
o pensamento e a linguagem e entre o objeto e a realidade é interrompido, e esses
problemas surgem porque já não se pensa em relação à realidade. (VOEGELIN,
2008, 324-325).

Voegelin está descrevendo a crise de representação da linguagem captada em


Heidegger, mas igualmente em Nietzsche, Freud e Marx (não por acaso, diríamos nós),
pensadores que, segundo ele, possuiriam, a despeito das diferenças de suas disciplinas,
três traços comuns reconhecíveis: a) todos eles concordam que o homem deve ser
entendido da perspectiva do poder, do conflito e do instinto. São portanto, todos eles
filósofos da libido; b) todos eles se preocupam em denunciar os valores como máscaras
de interesses, conflito e instinto; c) em terceiro lugar, todos eles se caracterizam pelo ódio
ao cidadão - do financista e industrial até ao pequeno burguês -, ódio esse que corresponde
à sua aristocracia intelectual (lembremos aqui do espírito aristocrático do Alto
Modernismo) (VOEGELIN, 2008, 335-336). Como se pode ver, Voegelin, por outros
caminhos, chega ao mesmo diagnóstico de Ferry & Renaut, de Daniel Bell ou de
Merquior. Em todos eles, o sintoma principal das ciências humanas ao longo do século
XX é o da colocação da linguagem no lugar da própria realidade, prática que foi
anunciada pela Arte Moderna, mas que invadiu as ciências do homem.
Aqui estamos no centro dos fatos que colocam a Teoria da Literatura como
exemplo acabado desse processo niilista que soma anti-humanismo, elogio da pura
linguagem em detrimento do conhecimento, negação dos fatos do mundo em favor do
jogo de interpretações, destruição da subjetividade pela atitude genealógica, e, não menos
importante, soma ainda a prática de um pensamento vazio. De fato, dizem Luc Ferry e
Alain Renaut:

Se, de um ponto de vista teórico, a genealogia, retirando a priori do sujeito o


controle de seus enunciados, participa claramente desta destruição da
subjetividade em torno da qual se unem os componentes do pensamento 68, ela
apresenta, além disso, praticamente efeitos perversos, onde o menor não é o
delírio interpretativo. A crítica literária dos sixties também pagou seu tributo à
adoção sistemática dessa démarche (FERRY & RENAUT, 1988, 117).

Recapitulando, podemos dizer que a Teoria da Literatura, que ocupou o lugar da


crítica literária a partir dos anos 60, a princípio moldou-se pelo aparato científico da
Linguística. Essa influência – que derivou da já mencionada situação paradigmática da
Linguística como ciência humana de caráter eminentemente racional – levou a que a
11

Teoria da Literatura vislumbrasse alcançar uma teoria geral dos discursos, projeto que
apareceu, por exemplo, no Tratado Geral de Semiótica (ECO, 1976), ou na Análise
Estrutural da Narrativa (BARTHES & TODOROV). O problema do projeto de uma
teoria geral dos discursos é que ele apaga as diferenças específicas do objeto literatura em
relação a outros discursos, e o torna apenas mais uma manifestação das possibilidades da
língua. Dessa maneira, uma parte dos críticos e teóricos percebeu quase intuitivamente
que o caminho levaria à morte da literatura, tese que de fato permeia boa parte das análises
em voga ainda hoje e que é defendida por muitos analistas. A reação a essa possibilidade
de morte da literatura levou a um afastamento da Teoria em relação à Linguística, porque
a Teoria reconheceu que, enquanto ciência, não teria como cumprir aquelas três condições
antes colocadas por Lévi-Strauss (repetindo: objetivo universal, método homogêneo e
consenso sobre práticas disciplinares). Curiosamente, essa mudança de rota se fez sem o
abandono do restritivo enfoque puramente linguístico do fato literário. Somando-se essa
permanência da ênfase no sistema da língua ao arcabouço cultural do anti-humanismo,
que nega ao sujeito o controle sobre seus enunciados, chegou-se à situação antes descrita
de uma linguagem vazia, uma vez que a recusa dos universais de método e meio levou
igualmente a uma recusa dos universais humanos como horizonte de conhecimento, que
permaneceram centrais para a Linguística, mas não para a Teoria. Esta se viu então
liberada para voltar ao seu objeto, mas sem compromisso de conhecimento, apenas como
prática de uma deriva linguística de delírio interpretativo.
A literatura é um objeto de linguagem. Seu compromisso não é com a verdade,
mas com o verossímil, o que já dizia lá atrás Aristóteles, ao enfatizar a dimensão
autônoma que a arte possui em relação ao mundo real. Meditando sobre o mundo real, a
arte no entanto não se faz sua cópia. O que convence o leitor sobre a possibilidade de
verdade do texto ficcional é a sua organização interna verossímil. Para que a obra
funcione como crítica da vida, que afinal é esse o seu objetivo, ela deve imitar o mundo
e as ações humanas não no sentido literal de narrar o que aconteceu (o que seria uma
tarefa da história, não da arte), mas, ao contrário, deve imitar as ações potenciais humanas,
aquilo que “poderia acontecer”, de onde advém seu valor universalizante, pois o sentido
da obra não se deixa amarrar em conjunturas ou localidades, mesmo que deles nasça.
Através da imitação não-servil das ações humanas é que a ficção logra alcançar o seu
valor universal de crítica da vida. Ou seja, mirando no particular, ela logra o universal,
como aponta o mesmo José Guilherme Merquior, em outro de seus textos (MERQUIOR,
1972, 5 e ss). Por isso, o eu que fala em um poema narra uma situação particular, mas seu
lugar pode ser ocupado por todo leitor que se debruce sobre o mesmo poema. Os teóricos
da literatura, portanto, sempre se acostumaram a lidar com pensamentos que são pura
linguagem, pois remetem a um mundo imaginário, ao mesmo tempo em que possuem
como princípio regulador de sua disciplina a autonomia do campo da arte. Ao final dos
anos 1960, esses mesmos teóricos se viram no epicentro de um ambiente cultural que
parecia reduzir os discursos da verdade (seja a filosofia ou a ciência) a puro jogo de
linguagem, contexto em que, de maneira não menos importante, tomava-se como modelo
intelectual a postura contracultural da Arte Moderna, de onde nasceu a disciplina da
Teoria da Literatura. Ao se verem como peixes nesse mar, os teóricos da literatura
sentiram-se respaldados em sua deriva interpretativa. Daí que o próprio conjunto de
reflexões praticadas nos departamentos de Letras deixou inclusive de se intitular Teoria
da Literatura, e passou a se ver apenas, até com certa presunção, como “Teoria”,
doravante sancionada para praticar sua deriva interpretativa, uma vez que agora tudo é
texto, o mundo é linguagem e a verdade não existe, como se finalmente as ciências
humanas (e aqui a Linguística parece ficar de fora) tivessem reconhecido como mestra
uma disciplina antes considerada irmã menor. Acima de tudo, o teórico da literatura, que
12

antes era o habitante de um modesto arraial e o praticante de uma indiferença em relação


à politização dos seus universais, sentiu-se incensado em praça pública, e mergulhou de
cabeça na politização da nova Teoria.
Esse mergulho político explica a emergência dos Estudos Culturais, que focam
nos sujeitos da cultura, o que poderia aparentar um retorno à perspectiva humanista, o
que, no entanto, se frustra pela permanência em seu interior da recusa anti-humanista de
encontrar quaisquer universais, e condena a multiplicidade de sujeitos da cena
contemporânea a uma regressão localista, pré-moderna, quase tribalista. Paralelamente
ao evento dos Estudos Culturais, o sujeito voltou à cena através de uma parcial
recuperação da figura do autor pelos novos estudos dos arquivos pessoais de escritores,
uma forte corrente analítica que se foca nos documentos autorais como maneira de
investigar o processo de criação literária. Mas, mesmo aqui, o anti-humanismo se faz
presente, uma vez que o arquivo literário é enfocado sobretudo como arranjo autônomo
produzido por um autor vazio, que se encena todo o tempo, reiterando uma vez mais o
descolamento entre mundo e linguagem.2 Com certeza, não se trata de defender uma
posição ingênua que igualasse arquivo, documento e verdade, posição simplista que
aceitaria como transparente o papel da linguagem, mas apenas de apontar a
disfuncionalidade de, a partir da autonomia do campo da literatura, deduzir-se um tanto
abusivamente a invasão da realidade pela textualidade, transformando os arquivos e os
documentos em puros jogos de linguagem, como se os escritores escrevessem para dentro
de seus arquivos, e não em direção ao leitor e ao mundo. Dizendo de outra forma, a
opacidade do meio não deveria ser justificativa para o abandono de um horizonte de
representação da realidade no trato com os objetos autônomos de linguagem.
Esse equilíbrio precário entre autonomia e representação seria fator positivo para
uma reavaliação da disciplina Teoria da Literatura. Comentando a história dessa mudança
de perspectiva na crítica literária tornada teoria, e localizando-a a partir das teses de
Nietzsche sobre a interpretação, Tzvetan Todorov, um ex-estruturalista, conclui que, a
partir do começo do século XX,

...parece findar-se assim uma época em que a literatura sabia encarnar um equilíbrio
sutil entre a representação do mundo comum e a perfeição da construção romanesca
(...) Desse momento em diante, cava-se um abismo entre a literatura de massa,
produção popular em conexão direta com a vida de seus leitores, e a literatura de
elite, lida pelos profissionais – críticos, professores e escritores – que se interessam
somente pelas proezas técnicas de seus criadores. (TODOROV, 2009, 67).

Uma vez rompido definitivamente o equilíbrio, ao final dos anos 1960, a Teoria
da Literatura passou a ser uma espécie de modelo em miniatura de uma tendência
generalizada no campo das ciências humanas e sociais: filósofos, historiadores,
sociólogos, antropólogos, psicólogos, teóricos do direito, filósofos da ciência, cientistas
políticos, especialistas em comunicação, e mesmo arqueólogos e geógrafos deixaram-se
tocar pela voga da redução do mundo à linguagem, para não dizer, é claro, dos teóricos
das artes plásticas, da música, do teatro e do cinema, assim como os artistas, os atores e
os compositores. Ao mesmo tempo em que a Teoria da Literatura passou a se ver no
centro da arena cultural, muitos estudiosos das outras áreas passaram, cada vez mais, a
ver suas disciplinas apenas como discurso, linguagem autotélica, e não como instrumento

2
Sobre o assunto ver, entre outros, DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana
(DERRIDA, 2001). Derrida lê o arquivo à luz da genealogia, ou seja, não importando o conteúdo do que
está arquivado, mas o como do arquivamento.
13

de investigação. Além dos próprios corifeus de 1968 (Foucault, Derrida, Delleuze,


Gattari, Bourdieu, Lacan, Althusser, Barthes, entre outros), podemos citar ainda Hayden
White, na história; Giorgio Agamben, Gianni Vattimo, Jean François Lyotard ou Slavoj
Zizek, na filosofia; Bruno Latour ou Isabelle Stengers, na filosofia das ciências;
Boaventura de Souza Santos, na sociologia; todos eles continuadores da senda
desconstrucionista. Cada um desses autores mereceria um estudo de caso, o que, em
alguma medida, já foi feito por Alan Sokal e Jean Bricmont em seu livro Imposturas
Intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos, que estuda vários desses
autores para demonstrar a impropriedade de seu recurso a argumentos pseudocientíficos
(SOKAL & BRICMONT, 1999). O problema com a abordagem dos dois físicos
americanos é que ela se constrói como se a razão permanecesse sendo padrão universal
de julgamento, como se o ato de chamar a atenção para o irracionalismo relativista
daqueles autores tivesse por si mesmo o efeito prático de contrabalançar a sua influência
excessiva. Mas o que se deu foi exatamente o contrário: ao apontar a ausência de
racionalidade naqueles autores, os físicos só fizeram confirmar, na mente dos adeptos, a
certeza de que seus autores estavam e estão certos. Roger Scruton, em Thinkers of the
New Left (SCRUTON, 1985), apresenta uma crítica que, indo na mesma direção tentada
por Sokal e Bricmont, parece, entretanto, mais eficiente, porque leva em consideração, e
muito a sério, a larga presença cultural do irracionalismo.
Aqueles autores irracionalistas antes citados foram e são recorrentemente
adotados na esfera da Teoria da Literatura como autoridades interdisciplinares, sem levar
em conta que toda uma gama de filósofos, historiadores e sociólogos não se deixou tocar
pela onda, e segue cultivando cada disciplina dentro de seus protocolos específicos. Em
várias instituições e lugares pelo mundo, a maré francesa de 68, aquecida pela corrente
profunda alemã, não trouxe à praia os despojos da desconstrução anti-moderna e pós-
moderna. Mesmo na França, para não falar do mundo anglo-saxão, o anti-humanismo e
o pensamento estetizado de 1968 são criticados como um evento importante, mas
localizado, que foi capaz de abalar, mas não de destruir, a corrente de investigação que
começa em Platão e segue até os nossos dias. No calor da hora, Raymond Aron já fazia
críticas contundentes aos seus contemporâneos (ARON, 1968), e Luc Ferry, Alain
Renaut, André Comte-Sponville, entre outros, deram continuidade ao processo.
Cabe aqui uma menção específica às pioneiras e metódicas críticas ao pós-
modernismo e ao desconstrucionismo empreendida por dois autores ingleses anteriores a
Roger Scruton, que permanecem pouco divulgados entre nós, apesar da completa e
hodierna validade de seus argumentos. O primeiro é Raymond Tallis. Em Not Sausssure
– A Critique of Post-Saussurean Literary Theory e em In Defense of Realism, ambos de
1988, com edições posteriores, Tallis debate uma a uma as premissas da crítica pós-
moderna, mostrando as suas falhas. No prefácio à segunda edição de In Defense of
Realism, de 1998, o autor faz uma afirmação que parece profética e perfeitamente
adequada a uma discussão sobre o lugar da teoria da literatura hoje, sobretudo no Brasil:

Há luz no fim do túnel, e está perto o tempo em que historiadores estarão


perscrutando as ruinas da Teoria e se perguntando como a praga do nonsense que
desceu sobre as humanidades na década de 1960 durou tanto. (TALLIS, 1998, ix,
tradução minha).

O segundo britânico de grande importância nesse contexto é Ernest Gellner, cujo


livro Razão, Religião e Pós-Modernismo constitui um marco da crítica ao pós-
modernismo, sobretudo ao demonstrar o modo como as suas marcas se expandiram da
crítica literária para outras ciências humanas e sociais.
14

No entanto, em muitos lugares essa onda não cessou de se autorreplicar. O


mundo da crítica literária constitui um desses lugares privilegiados, porque sempre fomos
muito pouco educados em disciplinas tais como a filosofia, a sociologia, a economia, a
teoria do direito, e mesmo a estética, ramo da filosofia ao qual pertence originalmente a
nossa disciplina, e que temos solenemente desprezado por gerações. Assim sendo, é
sobretudo nos departamentos de literatura, e não nos departamentos de filosofia, que
Derrida, Foucault ou Lacan aparecem como referências fortes. Essa observação é válida
para a maioria dos países avançados – e sobretudo para os Estados Unidos, onde os
departamentos de literatura, além dos de comunicação, constituem expressões fortes do
Pensamento 68, ao contrário dos departamentos de filosofia, onde a onda ocupa um lugar
mais modesto.
Mesmo que os limites desse artigo não permitam uma investigação da
especificidade da evolução da Teoria da Literatura na universidade brasileira, pode-se
aventar a hipótese de que a situação dos departamentos de literatura no Brasil não fugiu
àquela regra de troca do conceito e do método pela metáfora, tão cara ao nosso objeto de
trabalho. Uma olhada no processo de formação de nosso sistema de pós-graduação em
literatura dá um importante indício do caminho trilhado. Nos finais dos anos 1960 e início
dos anos 1970, o doutoramento em literatura levava primordialmente à França, para onde
seguiam, em sua maioria, os nossos professores. Vinte anos depois, nos anos 1990,
quando o pensamento desconstrucionista antimoderno começava a ser detidamente
criticado na França, os Estados Unidos se tornaram o centro de atração para a formação
de nossos doutores em Literatura, exatamente no momento em que o desconstrucionismo
alcançou, com toda a sua força, os departamentos americanos de inglês e de línguas
modernas. Por isso, nossos departamentos de literatura ficaram sempre tão marcados por
aquela vertente teórica anti-humanista. A diferença entre nós e os Estados Unidos, nesse
caso, é que as tradições liberais naquele país permanecem muito fortes, ao contrário do
Brasil, e cada vez mais surge ali uma crítica à tendência desconstrucionista, que tem sido
submetida a um verdadeiro crivo analítico. Um exemplo da pujança dessa crítica pode ser
encontrado no volume intitulado Theory´s Empire: an anthology of dissent, editado por
Daphne Patai e Will H. Corral, no qual os editores juntaram artigos de quase cinquenta
autores, publicados nos quinze anos anteriores à coleção, que mostram uma contundente
crítica à invasão dos departamentos de Literatura pela “Teoria” sem qualificativo (PATAI
& CORRAL, 2005). Cabe também lembrar David Hirsch, um pioneiro dessa reavaliação,
que há mais de vinte anos publicou uma crítica efetiva do Desconstrucionismo no campo
da crítica literária, em seu Deconstructing Literature: Criticism After Auschwitz
(HIRSCH, 1991).
A Itália constitui um caso importante a ser estudado, pois têm produzido
pensadores que dão continuidade ao Pensamento 68, e com certeza estes estão hoje entre
as nossas referências bibliográficas. Gianni Vattimo, Giorgio Agamben, Roberto Esposito
e Toni Negri seriam os mais presentes, ao contrário de Umberto Eco, que, tendo estado
na linha de frente do Estruturalismo, recuou ao se tornar escritor de ficção e tornou-se um
crítico da má-interpretação ativa. Todos aqueles italianos anti-humanistas possuem algo
em comum: a militância política, o que constitui um traço importante a ser destacado.
Seria o caso talvez de pensar em que medida o descrédito da política na Itália, no bojo da
Operação Mãos Limpas, criou o espaço para essa politização da teoria entre os
peninsulares, meditação que nos traria uma vez mais às jornadas de junho de 2013 no
Brasil e às futuras consequências da Operação Lava-a-Jato em termos de substratos para
os rumos da reflexão teórica.
Eric Voegelin, como já mencionamos, observa que o mergulho na “linguagem
que fala”, ou seja, a assunção da linguagem como segunda realidade e substituta do
15

mundo, abre caminho para uma visão ideológica desse mesmo mundo. Sim, porque se a
linguagem se apresenta como sistema autotélico e vazio, sem relação com o mundo
concreto e real, ela pode facilmente ser preenchida pela vontade de poder e pela
imaginação utópica de quem a controla, com o intuito de assim colocar seu projeto de
mundo no lugar mesmo da realidade. Os projetos utópicos se fazem com poética e
retórica, tomadas como substitutos da realidade. Por isso, o trabalho de todos aqueles
pensadores irracionalistas pode ser sumarizado como um esforço de redução da realidade
e da verdade a uma construção retórica e poética. Não é outra a afirmação de Gianni
Vattimo: “a experiência pós-moderna (isto é, heideggerianamente, pós-metafísica) da
verdade é uma experiência estética e retórica” (VATTIMO, 1996, xix). Esvaziando o
horizonte de realidade necessário a toda busca de conhecimento, passa-se a viver no
mundo virtual da própria linguagem, no qual o conhecimento é função da sedução, e logo
de propaganda, não de convencimento.
No plano específico da universidade brasileira, esse estado de coisas possui duas
outras consequências importantes, além daquelas já apontadas. A primeira consequência
tem caráter interno à instituição, e se caracteriza pelo fato de que se criou, no interior da
universidade, uma espécie de incompreensão entre as áreas que se pautam pela
racionalidade da investigação e aquelas outras, nas quais a linguagem autotélica, o
pensamento estetizado e o anti-humanismo constituem largamente os protocolos de ação.
Curiosamente, as instâncias de fomento e os fóruns inter e intraistitucionais ainda nos
denominam “Humanidades”, quando não temos mais praticado ciências humanas, e sim
ciências inumanas, ou Desumanidades. Um bom exemplo está no documento da
Academia Brasileira de Ciências sobre ética de pesquisa, publicado em 2013 e intitulado
“Rigor e Integridade na Condução da Pesquisa Científica: guia de recomendações de
práticas responsáveis”, onde se pode ler:

Neste Guia, Ciência e Pesquisa são compreendidas de forma ampla. A Ciência


envolve todo conhecimento sistematizado, obtido por meio de observação,
experimentação e raciocínio. Ela busca aumentar a compreensão do mundo
natural, físico e social, assim como da mente humana. Nessa dimensão, a Ciência
abrange as chamadas Ciências Exatas, Naturais, Sociais e as Humanidades
(ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS, 2013, 2).

Não se trata de dizer então que o conhecimento das Desumanidades se tornou


irresponsável (em oposição à responsabilidade pedida no documento), mas de reconhecer
que sistematização, observação, experimento, raciocínio (uso racional da mente,
portanto) e aumento da compreensão do mundo não parecem fazer parte do ethos atual
das Humanidades, que se tornaram Desumanidades, exatamente por se pautarem
exclusivamente pelo viés desconstrucionista. Portanto, o documento parece desconhecer
parte daqueles a quem ele se dirige, o que acarreta enormes mal-entendidos. No interior
das faculdades e departamentos de Letras, enfrentamos essa situação, pois uma de nossas
duas grandes áreas, a Linguística, se pauta pelos parâmetros apontados; a outra, a Teoria,
se pauta pelo oposto. E o diálogo entre elas seria fundamental para o avanço do
conhecimento na área, não porque a Teoria deva se mirar nos protocolos da Linguística
enquanto ciência, afinal elas são mesmo diferentes em método e objeto, mas apenas
porque os universais humanos expressos pela linguagem deveriam ser o horizonte de
ambas as disciplinas.
A segunda consequência, e aqui falo especificamente da Teoria da Literatura,
está no fato de que o nosso discurso autorreferente isolou a disciplina de um diálogo além
dos muros de nossa aldeia. Falamos apenas para nós mesmos, de especialistas para
16

especialistas. Por isso tomei como epígrafe desta fala o comentário profundo e
contundente do crítico literário Tzvetan Todorov:

As análises críticas literárias ou teses escritas sobre a literatura (...) me parecem,


hoje em dia, se dirigir quase exclusivamente aos outros especialistas da literatura,
enquanto que o romance interessa a todo mundo. E me sinto mais próximo de
todo mundo do que dos especialistas em tal ou tal assunto. (TODOROV, 2014,
ON LINE).

Todorov foi um dos maiores praticantes do Estruturalismo literário, no interior


mesmo da alta cultura francesa dos anos 1960. A certa altura, entretanto, percebeu a
falácia do anti-humanismo e construiu uma visão crítica sobre o assunto, baseado antes
de tudo na constatação de que a reflexão e o conhecimento sobre a literatura perdem o
sentido se se afastam de seu objeto e de seu leitor. Se nós continuarmos a repetir que o
autor morreu, que a literatura morreu e que o homem morreu, pode ser que eles acabem
morrendo mesmo, numa espécie de profecia autorrealizável. A meditação do crítico pode
servir de guia para todas as outras áreas das ciências humanas e sociais. Que nós possamos
aprender com ele os fatos inegáveis de que o valor da literatura permanece, de que o
homem permanece como um valor.
Não se trata aqui de regredir nostalgicamente a uma figura transcendente do
homem que se configurasse numa ideia absoluta ou numa ficção política ou religiosa que
substituísse o embate com a realidade do mundo. Propor esse retorno seria algo de
ingênuo, que apenas daria à voga desconstrucionista o seu grão de justificativa para passar
o tempo quebrando os ídolos a martelo. Mas a literatura – e esse parece ser o fundo do
comentário de Todorov – se constitui como um objeto no qual a transcendência se dá no
plano mesmo da imanência. A literatura interessa a toda a gente porque ela retira o sujeito
de si apenas para fazê-lo voltar a si mesmo em renovado sentido de sua humanidade. A
experiência da literatura seria assim uma espécie de transcendência laica, em que o
universal não suplanta o particular, o ideal não se opõe ao existencial. Essas figuras gerais
apenas fulguram como medida efêmera, mas necessária, do propriamente humano. Nesse
sentido é que Todorov, no livro citado, diz que através da leitura de um romance
“ascendemos” a uma “compreensão ampliada do mundo humano” (TODOROV, 2009,
81). O verbo “ascender” traz ali a nota transcendente, que no entanto não nega o mundo
propriamente humano.
Se a Teoria da Literatura perde esse valor, perde como consequência o contato
com o homem comum que busca nas obras que lê algo que dê sentido à sua vida. Seria a
literatura apenas então um remédio para a alma? Todorov responde dizendo que não, mas
acrescenta: “... porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos
transformar a cada um de nós a partir de dentro” (TODOROV, 2009, 76). A Teoria da
Literatura tem muito a ganhar com essa lembrança oportuna.

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