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INSTITUTO SUPERIOR DE TEOLOGIA APLICADA – INTA

CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA

FRANCISCO DAMASCENO FERREIRA

A HISTÓRIA DAS PRISÕES PELO MUNDO E A EDUCAÇÃO


PARA OS INTERNOS DO SISTEMA PRISIONAL CEARENSE

UBAJARA-CE
Dezembro de 2017
FRANCISCO DAMASCENO FERREIRA

A HISTÓRIA DAS PRISÕES PELO MUNDO E A EDUCAÇÃO


PARA OS INTERNOS DO SISTEMA PRISIONAL CEARENSE

Monografia de conclusão de curso apresentada ao


Instituto de Teologia Aplicada - INTA, como requisito
obrigatório para obtenção do título de Licenciatura em
História.

Orientador (a): Profº. Dr. Rafael Ricarte da Silva

UBAJARA-CE
Dezembro de 2017
FRANCISCO DAMASCENO FERREIRA

A HISTÓRIA DAS PRISÕES PELO MUNDO E A EDUCAÇÃO


PARA OS INTERNOS DO SISTEMA PRISIONAL CEARENSE

Monografia de conclusão de curso apresentada ao


Instituto de Teologia Aplicada - INTA, como requisito
obrigatório para obtenção do título de Licenciatura em
História.

Monografia aprovada em: ____/____/____

BANCA EXAMINADORA

______________________________________
Orientador: Profº. Dr. Rafael Ricarte da Silva

______________________________________
1º Examinador: Profª. Ms. Luciane Azevedo Chaves

______________________________________
Coordenador (a) do curso: Juliana Magalhães Linhares

Ubajara-CE
Dezembro de 2017
A Deus, que nos criou e assim nos deu a
possibilidade de escrever a nossa
história.
A minha família.
Aos meus professores.
E meus amigos.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, por até aqui ter me ajudado, Ele que é o meu alicerce e sempre
está comigo nas horas mais difíceis.
A minha família. A minha filha, Ana Dávyla e minha esposa, Mara Melo que sempre
tem me apoiado, e são a minha razão de levantar e lutar todos os dias.
Ao meu pai, Agenor e minha mãe, Francilene aos quais eu devo minha vida, pois
eles são as razões de minha existência, em especial ao meu pai que já não se
encontra mais em nosso meio, mas que sempre lutou pelo meu melhor.
Aos professores do INTA pela paciência, dedicação, compromisso e orientação, e
em especial a Profª. Euzélia Gomes, pela dedicação à minha turma.
Enfim, sou grato a todos que me ajudaram a concluir este curso.

“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a


apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.”
(Michel Foucault)
RESUMO

Este trabalho visa apresentar o funcionamento da educação dentro do sistema


prisional do estado do Ceará, bem como, trazer um pouco do histórico das prisões
pelo mundo e seus modos educacionais e punitivos utilizados ao longo do tempo,
trazendo benefícios e prejuízos aos presos em cumprimento de pena privativa de
liberdade em regime fechado. As legislações que regulamentam a execução da
pena e a prática educacional dentro do sistema prisional brasileiro através das leis
federais e, no âmbito estadual através de leis e regimentos próprios. Os cursos de
formação profissional, a obrigatoriedade do ensino de 1º grau, integrando-se no
sistema escolar da Unidade Federativa. Ensino profissional em nível de iniciação ou
de aperfeiçoamento técnico. A possibilidade de haver atividades educacionais
desenvolvidas através de convênios com entidades particulares, que instalem
escolas ou ofereçam cursos especializados dentro das Unidades Prisionais. O que o
Estado do Ceará través de sua secretaria, Secretaria da Justiça e Cidadania
(SEJUS), e suas coordenadorias e também em conjunto com outras entidades, tem
feito para trazer esses benefícios para os apenados do sistema prisional cearense,
para que ao terminarem de cumprir suas penas sejam reinseridos ao convívio social
com alguma formação profissional e um nível de escolaridade básica ou também
superior. Os projetos implantados para melhorar a educação das pessoas presas
nas Unidades prisionais do Estado do Ceará.

Palavras chave: Educação; Apenados; legislação; Unidades Prisionais.


ABSTRACT

This work aims to present the functioning of education within the prison system of the
state of Ceará, as well as to bring some of the history of prisons around the world
and its educational and punitive methods used over time, bringing benefits and
losses to prisoners in compliance with prison sentence in a closed regime.
Legislation that regulates the execution of the sentence and educational practice
within the Brazilian prison system through federal laws and, at the state level through
its own laws and regiments. The courses of professional training, the compulsory
education of 1st grade, integrating in the school system of the Federative Unit.
Professional education in the level of initiation or technical improvement. The
possibility of educational activities developed through agreements with private
entities, that install schools or offer specialized courses within the Prison Units. What
the State of Ceará through its secretariat, Secretariat of Justice and Citizenship
(SEJUS), and its coordinators and also in conjunction with other entities, has done to
bring these benefits to the prisoners of the prison system of Ceará, so that at the end
of their sentences are reinserted into social life with some vocational training and a
basic or higher level of education. The projects implemented to improve the
education of prisoners in the Prison Units of the State of Ceará.

Keywords: Education; Distressed; legislation; Prison Units.


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 10

1 HISTÓRICO DAS PRISÕES; AS PENAS E A EDUCAÇÃO PRISIONAL PELO


MUNDO ..................................................................................................................... 12

1.1 A INSTITUIÇÃO PRISIONAL: CARACTERÍSTICAS, CRÍTICAS E DEFINIÇÕES


.................................................................................................................................. 15

1.2 O SISTEMA PRISIONAL NO BRASIL NOS PERÍODOS: COLONIAL, IMPERIAL


E REPUBLICANO ..................................................................................................... 20

1.3 SURGIMENTO E REDEFINIÇÕES AO LONGO DO TEMPO DOS SISTEMAS


PENITENCIÁRIOS .................................................................................................... 21

2 A PRISÃO, AS LEGISLAÇÕES MODERNAS E OS MECANISMOS DE


RESSOCIALIZAÇÃO DO APENADO....................................................................... 24

2.1 AS PENITENCIÁRIAS NO BRASIL DE ANTIGAMENTE E O SISTEMA


PENITENCIÁRIO NO CEARÁ ATUAL ...................................................................... 27

2.2 REINTEGRAÇÃO SOCIAL POR MEIOS EDUCACIONAIS E SOCIAIS ............. 29

3 A EDUCAÇÃO COMO ESPAÇO DE MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES ............... 31

3.1 A DIMENSÃO MACROPEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO NA PRISÃO ................ 31

3.2 A DIMENSÃO MICROPEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO NA PRISÃO ................. 31

3.3. O ENEM PRISIONAL NAS UNIDADES PRISIONAIS DO CEARÁ .................... 32

3.4 TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES: DESAFIOS DO SISTEMA


PENITENCIÁRIO NO TEMPO PRESENTE .............................................................. 35
4 CONCLUSÃO ....................................................................................................... 38

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 39


10

INTRODUÇÃO

O presente trabalho com o tema A história das prisões pelo mundo e a


educação para os internos do sistema prisional cearense. Tem como objetivo
relatar um breve histórico dos sistemas prisionais, seus modos de punição e regimes
de prisão pelo mundo. A educação dentro do sistema prisional cearense e também
em outros países, o processo de como se desenvolveu nos últimos anos até hoje o
sistema de educação dentro dos presídios e penitenciárias no Ceará. No estado
do Ceará a secretaria responsável pelo sistema prisional é a Secretaria da Justiça e
Cidadania (SEJUS) e suas coordenadorias, e por meio da Coordenadoria
Educacional do Sistema Penitenciário (Cespe) desenvolve atividades educacionais
nos presídios de todo o estado. Uma das ações que foi implantada e que vem
mudando a vida de muitos detentos é o Exame Nacional do Ensino Médio, Projeto
Enem Prisional, dentro do Sistema Prisional Cearense. Dentre outras medidas
educacionais implantadas em algumas Unidades Prisionais do Estado.

A Secretaria da Justiça e Cidadania (SEJUS), não mede esforços para


realizar atividades em prol da educação da população carcerária do Ceará, como o
Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual “For Rainbow” leva a Mostra
Educativa For Rainbow à Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, que abriga o
público LGBT. O For Rainbow conta com atividades culturais como espetáculos de
teatro, música e dança, debates e performances artísticas que possuem como foco a
sensibilização para o respeito à diversidade sexual; O projeto Livro Aberto; A
contratação da Federação Brasileira de Xadrez para ensinar os detentos a prática do
jogo de xadrez; dentre muitas outras atividades.

O grande desafio da reinserção do apenado ao convívio social, através de


incentivos educacionais e formação profissional, oferecidos dentro das unidades
prisionais através de empresas públicas e privadas, é o que vem de encontro a
essas ofertas, a má vontade por parte de muitos reeducandos. Daí levanta-se um
grande questionamento, se tudo isso, todo esse investimento, os objetivos
pretendidos não seriam uma utopia? Se levarmos em consideração somente a
11

dedicação dos internos, pode se dizer que seria um esforço em vão por parte do
estado e da sociedade, pois na atualidade a faixa etária dos presos são de 18 a 25
anos de idade. Isso sem contar com os menores que entram na vida do crime aos
13 ou 14 anos de idade. No entanto, são pessoas que não tinham nenhum interesse
em seguir uma vida “normal” quando estavam em liberdade, muito pelo contrário,
aderiram à vida do crime, e não será somente nos presídios e nos núcleos para
menores que irão buscar oportunidades de mudar de vida ou tentar recuperar o
tempo perdido. A mudança virá de muito além do que o estado oferece, dependerá
da família, da comunidade, do investimento nos jovens, e da conscientização da
sociedade em criar e difundir políticas públicas e deixar de ser inerte, pois aquele
que vai preso volta para a sociedade mais cedo ou mais tarde.
12

1 HISTÓRICO DAS PRISÕES; AS PENAS E A EDUCAÇÃO


PRISIONAL PELO MUNDO

Segundo historiadores e estudiosos da questão prisional, a forma-prisão é


mais antiga do que se pensa, especialmente quando se faz datar seu nascimento. A
prisão preexiste antes mesmo de sua utilização sistemática nas leis penais. Michel
Foucault, estudioso da historicidade prisional, descreve em sua obra “Vigiar e Punir”
(1987,13ª Ed.) que a prisão, desde o seu surgimento, sempre foi peça essencial no
conjunto das punições, marcando efetivamente um momento importante na história
da justiça penal, qual seja: seu acesso à “humanidade”. Segundo o autor, na
passagem dos dois séculos, XVIII e XIX, uma nova legislação define o poder de
punir como uma função geral da sociedade que é exercida da mesma maneira sobre
todos os seus membros, e na qual cada um deles é igualmente representado. Mas,
ao fazer da detenção a pena por excelência, a legislação introduz processos de
dominação característicos de um tipo particular de poder. Uma justiça que se diz
“igual”, um aparelho judiciário que se pretende “autônomo”, mas que é investido
pelas desigualdades das “sujeições disciplinares”, tal é a conjunção do nascimento
da prisão, que pode ser definida como a “pena das sociedades civilizadas”, tendo
em vista que as instituições prisionais no passado destinavam-se unicamente à
custódia dos delinquentes enquanto aguardavam a execução da pena, que
geralmente era a condenação à pena de morte, não existia o pensamento de
reinserção social dos apenados através da aplicação de métodos educacionais. Na
medida em que a sociedade foi evoluindo, evolui também a forma de punição das
pessoas que cometiam crimes, passando a ser adotada a pena privativa de
liberdade e posteriormente as progressões de regimes por meio do trabalho e dos
estudos.

Para Foucault (1987,13ª Ed.), a forma-prisão se constituiu fora do aparelho


judiciário quando se formavam, por toda a sociedade;

“os processos para repartir os indivíduos, fixá-los e distribuí-los


espacialmente, classificá-los, tirar deles o máximo de tempo, e o
máximo de forças, treinar seus corpos, codificar seu comportamento
contínuo, mantê-los numa visibilidade sem lacuna, formar em torno
deles um aparelho completo de observação, registro e notações”...
(Foucault, 1987, 13ª ed.)
13

Nesta perspectiva, foi a forma geral de uma aparelhagem para tornar os


indivíduos dóceis e úteis, através de um trabalho preciso sobre seu corpo, que criou
a instituição-prisão, antes que a lei a definisse como pena por excelência. No fim do
século XVIII e princípio do século XIX se dá a passagem a uma penalidade de
detenção, como coisa nova. Mas, na verdade, essa abertura da penalidade a
mecanismos de coerção já vinha sendo elaborada em outros lugares.

Acerca deste aspecto, vale parafrasear com a percepção de Foucault (1987):


se, em pouco mais de um século, o clima de obviedade assumido pela forma-prisão
se transformou, no entanto, não desapareceu. Em verdade, conhecem-se todos os
inconvenientes da prisão, e sabe-se que é perigosa, quando não, inútil. E,
entretanto, não “vemos” o que pôr em seu lugar. “ela é a detestável solução, de que
não se pode abrir mão” (Foucault, 1987, p.208), afirma o autor.

É sabido que a pena privativa de liberdade é recente, e não antiga, como


pode parecer. Conforme citado anteriormente, no passado a prisão era apenas um
local para a manutenção da custódia dos delinquentes, enquanto aguardavam a
execução da pena, que geralmente era a condenação à morte. Os locais, então,
possuíam características que lhe dessem condições de servirem à finalidade única
do recolhimento. Era, portanto, uma maneira de se evitarem as fugas. Algo
semelhante à prisão preventiva ou à prisão cautelar da legislação atual.

Etimologicamente, o valor da palavra “pena” denota uma punição imposta a


alguém como sanção a uma conduta maléfica. Segundo alguns dicionários da língua
portuguesa, “pena” é “aquilo que se faz sofrer a alguém por um delito cometido;
punição, sofrimento, desgraça”1. De acordo com esse conceito, a pena trás consigo
uma acepção de retribuição a um delito.

Segundo Edgard Alberto Donna;

“é a sanção aflitiva imposta pelo Estado, mediante ação penal, ao autor


de uma infração penal, como retribuição de seu ato ilícito, consistente

1
Vide BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. 32. Ed. Compacta. São Paulo: Lisa. 2006, p.743.
14

na diminuição de um bem jurídico, e cujo fim é de evitar novos delitos”


(Donna, 2001, p. 02).

Observa-se que a função e a razão de ser da pena encontram-se


umbilicalmente vinculadas á função e à razão de ser do Direito Penal, como
instrumento excepcional e subsidiário de controle social, visando proteger bens
considerados essenciais à vida harmônica em sociedade. É a mesma sociedade que
pressupõe igualdade de direitos e respeito ao próximo em sua mais ampla acepção,
fomentando-se o desenvolvimento de cada um dos seres humanos que a integram
em sua plenitude. Sendo mais específico quanto ao conceito de pena, há que se
vislumbrar o entendimento de que:

“A pena é a mais importante das consequências jurídicas do delito.


Consiste na privação ou restrição de bens jurídicos, com lastro na lei,
imposta pelos órgãos jurisdicionais competentes ao agente de uma
infração penal” (Prado, 2007: p. 488).

Historicamente diz-se que, apesar de ter contribuído decisivamente para


eliminar as penas aflitivas, os castigos corporais e as mutilações realizadas no
passado como forma de punição criminal, a pena de prisão não tem correspondido
às esperanças de cumprimento com a finalidade de recuperação do praticante do
delito, pois torna-se difícil sua ressocialização em um ambiente com tantas
deficiências como, superlotação, atentados sexuais, falta de ensino e de
profissionalização e carência de funcionários especializados. Desta forma, com a
falta desses profissionais como professores, assistentes sociais, atendimentos
médicos/odontológicos e farmacêuticos, implantação de empresas privadas
oferecendo oportunidades de trabalho e a implantação de cursos profissionalizantes,
com a falta desses recursos essenciais era impossível a recuperação daqueles que
cometiam crimes. Tornava a prisão unicamente como um meio de punição e sem
perspectiva nenhuma de humanizar o cárcere.

Existem diversas teorias acerca da finalidade das penas. Sobre o assunto


descreve Luís Regis Prado:

O moderno Direito Penal acolhe, como consequências jurídico-penais do


delito, as penas e as medidas de segurança; como consequências
extrapenais – alheias, portanto, à culpabilidade ou à periculosidade do agente
15

-, tem-se os efeitos da condenação, a responsabilidade civil (material ou


moral) derivada da prática delitiva e a reparação do dano pelo agente.
(Prado, 2008, 8ª ed.).

Assim, a pena pode ser uma retribuição, ou seja, uma compensação do mal
causado pelo crime. É decorrente de uma exigência de justiça, quer seja como
compensação da culpabilidade, punição pela transgressão do direito, quer seja
como expiação do cliente. Apesar de a pena ainda conter um caráter retributivo – de
compensação do mal causado – tomou o sentido de sanção legal. A ideia de
retribuição pelo delito cometido só passou a ser nitidamente superada no sec. XVIII,
a partir de 1974, com a publicação do livro “Dos delitos e das penas” do autor
Cesare Beccaria. Mesmo tendo alguns de seus posicionamentos anteriormente sido
empregados por Grócio e Montesquieu, Beccaria contribuiu de forma significativa
para a reforma do Direito Penal e consequente humanização das penas e prisões,
em combate à crueldade que imperava como forma punitiva. Tal perspectiva
humanizadora resultou no novo entendimento de Defesa Social de Marc Ancel, que
faz surgir a teoria ressocializadora. Deste modo, através das obras destes
renomados autores, já era possível observar no horizonte um sistema prisional mais
humanizado e com o intuito de reinserção daqueles que se encontravam nos
cárceres.

1.1 A INSTITUIÇÃO PRISIONAL: CARACTERÍSTICAS, CRÍTICAS E DEFINIÇÕES

A forma de atuação e os critérios definidos pelo sistema penitenciário no


Brasil levam a uma reflexão sobre a natureza do trabalho desenvolvido nos institutos
penais brasileiros e, mais especificamente, no contexto do Ceará. Vale questionar
sobre a natureza destas Instituições historicamente, tendo ao fundo um cenário
contemporâneo, demarcado por uma política institucional, ainda marcada pela
cultura de vigilância e de repressão e por políticas governamentais que se
ressentem das condições necessárias para a viabilização de uma prática de
reinserção social do detento de fato. Questionamentos também incidem,
exatamente, na natureza destas instituições, num contexto de repressão e
precariedade que marcam as políticas públicas do tempo presente.
16

Em busca de avançar nesta reflexão, retomo vias analíticas abertas por


Goffman (2001), Foucault (1987, 13ª ed.) e Bauman (2005), que permitem
desvendar, por dentro, as instituições de clausura, reclusão ou privação de
liberdade. Tais autores, em seus aportes são unânimes em denunciar a natureza
repressiva, de disciplinamento, de ressocialização e vigilância permanente de tais
instituições.

Na perspectiva de Goffman, estas instituições, por serem caracterizadas pelo


fechamento, clausura e “caráter total”, simbolizado pelo bloqueio com o mundo
externo e por diversas proibições, acabam privilegiando a obediência às regras,
desconsiderando o próprio indivíduo e seus aspectos identitários. A estrutura física
nestes espaços é representativa desta percepção, caracterizadas por portas
fechadas, paredes altas, arame farpado, fossos, pântanos ou florestas. A esses
estabelecimentos, Goffman deu o nome de “instituições totais”. Pode-se observar
que a forma de reeducar o preso é sempre com base na clausura total, e assim não
se conseguia educar para reinserir na sociedade, mas de adestrar para obediência
enquanto permanecer preso.

Na compreensão de Foucault (1987), os espaços prisionais se definem como:

“instituições completas e austeras..., que ao fazer da detenção a pena


por excelência, introduz processos de dominação, característicos de um
tipo particular de poder”. (Foucault, 1987, p. 207).

Nesta perspectiva, a obviedade da prisão se fundamenta em seu papel,


suposto ou exigido, de “aparelho para tornar indivíduos dóceis”, um “quartel um
pouco estrito”; “uma escola sem indulgência”; “uma oficina sombria”. Assim, o
trabalho penal é pensado como um mecanismo de adequação, no sentido de
transformar o sujeito rebelde, transgressor, irrefletido em uma peça que
desempenha seu papel com perfeita regularidade na sociedade capitalista.

Nesta compreensão, sustenta Foucault:


“é uma forma de fabricação de indivíduos-máquinas, mas também de
proletários; efetivamente, quando o homem possui apenas „os braços
17

como bens‟ e só poderá viver do produto de seu trabalho, pelo exercício


de uma profissão, ou do produto do trabalho alheio, pelo ofício do
roubo” (Foucault, 1987, p. 216).

Com base nas formulações acima, pode-se concluir que a prisão, apesar de
ter galgado alguns avanços em sua forma de atendimento, ainda enfrenta, nos dias
atuais, muitos desafios, no sentido de não ter conseguido alcançar, de fato, uma de
suas múltiplas funções sociais, qual seja: a de reinserir o detento no convívio social
de forma plena e participativa. Em verdade, a instituição prisional vem-se definindo,
historicamente, muito mais como lugar de punição, unidade ou blocos de cela, onde
são desenvolvidas atividades que visam (re) socializar o público interno, no sentido
de devolver a eles hábitos de socialidade, numa tentativa de adequá-los ao convívio
social. É bem verdade que o Estado do Ceará tem se esforçado para conseguir
devolver à sociedade seus detentos socializados, mas por não cobrar os deveres
dos internos, muitos não buscam as oportunidades oferecidas e, quando saem,
voltam a reincidir por não terem nenhuma capacitação profissional.

Para melhor caracterizar este entendimento, tomo emprestado de Zygmunt


Bauman (2005), a “metáfora da reciclagem”. Nesta metáfora, os espaços prisionais
são definidos como armazéns de refugo humano, depósito de vidas desperdiçadas.

Segundo Zygmunt Bauman:

“As prisões, como tantas outras instituições sociais, passaram da tarefa


de reciclagem para a de depósito de lixo. Foram realocadas para a linha
de frente a fim de resolver a crise que atingiu a indústria da remoção do
lixo humano” ( Bauman, 2005, p. 108).

Nesta linha de raciocínio, Bauman sustenta que as mudanças vivenciadas no


tempo presente, foram nefastas ao convívio social, no sentido de reformar uma
sociedade produtora de “refugo humano”, de seres sobrantes. Assim, enquanto a
produção de excluídos prossegue atingindo novos índices, o planeta passa a
necessitar cada vez mais de locais de despejo e de ferramentas para a reciclagem
18

do “lixo humano”. Daí, talvez, o crescimento das instituições prisionais e internatos


na contemporaneidade, respaldado pelo entendimento de que:

“é preciso construir novas prisões, aumentar o número de delitos


puníveis com a perda da liberdade, instituindo uma política de
„tolerância zero‟ e o estabelecimento de sentenças mais duras e mais
longas podem ser medidas mais bem compreendidas como esforços
para reconstruir a deficiente e vacilante indústria de remoção do lixo –
sobre uma nova base, mais antenada com as novas condições do
mundo globalizado” (Bauman, 2005, p. 109).

Com inspiração na multiplicidade de enfoques sobre instituições prisionais,


foi-se construindo um jeito novo de pensar as instituições de reclusão,
circunscrevendo-as não apenas como “instituição total”, definida como uma forma de
castigo, mas sim de uma instituição onde o recluso poderá ter uma chance de se
reeducar através do trabalho, de atividades esportivas e nos estudos. Também, nem
se definir, como desde os primeiros anos do século XIX, que era apenas como um
“mecanismo de poder”, ligado ao próprio funcionamento da sociedade capitalista,
cujo espaço possui uma função específica qual seja: a “remontagem” de “peças
danificadas”, “depósito de vidas desperdiçadas”, para os quais já não há mais uso
na lógica do sistema capitalista.

Conforme mencionado anteriormente, Foucault deixa claro, ao escrever sobre


o caráter de obviedade que a privação de liberdade, como uma forma de castigo
assumiu historicamente, desde o início do século XIX, em sua origem. Em verdade,
desde a origem das prisões, mais de um século se passou. Todavia, ainda
justificamos na atualidade, frases e classificações, como: “desviante”, “bandido”,
“pária”, “marginal”, enfim. Nesta análise, vale afirmar que, talvez, as modificações no
sistema econômico, na dimensão política e na cultura não redimensionaram a ideia
de que o “bandido” deve ser atacado, isolado, banido ou exterminado da sociedade.

Sobre este aspecto cabe refletir o seguinte: se a tarefa de “reinserção social”


parece fracassar ao longo desses anos, então, estamos diante de uma cruel
realidade, onde as chances de lidar com indivíduos classificados de “delinquentes”,
19

“loucos”, “marginais”, “sobrantes” ou “minoritários” seria, objetivamente, acelerado


seu processo de decomposição? Ou seja, isolando-os, alienando-os, matando-os?

Em uma entrevista ao jornal “A Tarde” (17/02/2007), a titular da Secretaria da


Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia, em Salvador, Marilia
Muricy salientou que em um cenário de desemprego e desagregação familiar, é
inconveniente separar o preso, levando-o para um ambiente em que ele perde a
conexão com a família e o meio social, porque ele vai criar vínculos afetivos com a
população carcerária. É preciso dar trabalho para eles; digno, remunerado, que
garanta inclusive sua saída direta para o mercado de trabalho. No Brasil, esse tipo
de ação ou é inexistente ou, quando ocorre, dificilmente está programada para
preparar a reinserção social do preso. Para que isso se efetive, é preciso,
obviamente, que se tenha uma política carcerária que garanta a dignidade do preso
em todos os sentidos, desde a prática de atividade física e esportiva até o acesso
aos estudos e ao mercado de trabalho. Como possibilidade de solução destes
problemas, pode-se propor um trabalho em rede, ou seja, uma parceria com a
sociedade, através de diálogo, conscientizando-a de que segregar o preso e o lançar
no esquecimento do cárcere, na clausura total, somente se terá um regime de prisão
que oferece resultados falsos, aparentes, esgotando a capacidade humana, ao
utilizar a figura do detento remido como modelo de que o sistema é eficiente. Na
verdade, cabe usar uma expressão de Graciliano Ramos: “Prisão não é bom para
ninguém”, e nesse mesmo pensamento relatou a secretária Marilia Muricy:

“é preciso criar a consciência social de que o respeito à dignidade do


preso e a preparação para o retorno á sociedade é de interesse de
todos. Não se trata apenas de praticar um gesto humanitário – o que,
por si só, já seria um treinamento importante, porque a questão ética
não pode ser esquecida. Mas, do ponto de vista pragmático, a
sociedade está trabalhando contra si mesma quando joga o preso no
presídio e o abandona” (Marilia Muricy,2007).

Diante disso, é preciso que a sociedade se conscientize de que o crime está


dentro dela, como parte integrante de sua teia, portanto, é necessário envolvimento
de todos na busca de soluções para os conflitos sociais. O homem ao ser
20

sentenciado e preso, após sair do cárcere não irá para outro planeta, retornará para
esta mesma sociedade, que agora o rejeitará ainda mais. Ele leva agora uma marca,
um “estigma”, como diz Goffman.

1.2 O SISTEMA PRISIONAL NO BRASIL NOS PERÍODOS: COLONIAL, IMPERIAL


E REPUBLICANO

No Brasil, antes da chegada dos portugueses, os costumes penais dos


indígenas são destituídos de interesse jurídico o direito era consuetudinário. Vale
assinalar que o direito consuetudinário, nenhuma influência teve nos recém
chegados, que aqui vieram trazendo suas leis. Apesar de à época estarem em
vigência as Ordenações Afonsinas2 que, logo foram substituídas pelas manuelinas, o
primeiro Código Penal foi o Livro V das Ordenações do Rei Filipe II. De fato, as
Ordenações Filipinas foram o primeiro estatuto no Brasil, pois as anteriores tiveram
muito pouca aplicação no país, devido às condições próprias da terra e da
população. As Ordenações Filipinas refletiam o direito penal daqueles tempos na
Europa, onde não se pensava em ressocializar os presos mas, sim em punir com
todo o vigor da lei que imperava. Havia a pena de morte, a qual comportava várias
modalidades: morte na forca; a precedida de torturas; a morte para sempre, em que
o corpo do condenado ficava suspenso, até a putrefação; a morte pelo fogo; açoites;
degredo para a África e outros lugares, mutilação de mãos, da língua, etc. Quanto
ao crime em si, era este confundido com o pecado.

Para o julgamento, entretanto, havia a desigualdade de classe social,


aplicando o juiz a pena segundo a gravidade do caso e a qualidade da pessoa: os
nobres, em regra eram punidos com multa; aos de classe inferior, os castigos eram
mais pesados e humilhantes. A prisão, como na Europa, era apenas
estabelecimento de custódia. Após a proclamação da independência, a Lei de 20 de
outubro de 1823, manda que continuem a serem observadas as Ordenações. Tal
observação continua em vigência até 1830, quando foi sancionado por D. Pedro I o
novo Código, projeto de Bernardo Pereira de Vasconcelos. Esse Código possui
forma de compreensão liberal, inspirando-se no Código francês de 1810 e no

2
Vide FRAGOSO, Cláudio Heleno. Lições de Direito..., op. Cit., p. 59.
21

Napolitano, de 1819, não se submetendo, entretanto, a nenhum deles. Foi um


Código original, pela primeira vez contemplando: os motivos do crime, o que só meio
século após seria tentado na Holanda e em outros países; fatores atenuantes da
menoridade, o que era desconhecido nas legislações francesa e napolitana;
indenização do dano ex delicio, como instituto direito público, etc. Apesar de
qualidades, apresentava defeitos, como por exemplo, não definira a culpa, aludindo
apenas ao dolo; homicídio e lesões corporais por culpa, omissão que veio a ser
suprida mais tarde. Pode se observar que o cenário legislativo no que tange a
crimes e penas, começa a criar forma, mesmo que apenas no sentido punitivo, mas
ainda não se tinha a ideia de leis e regimentos próprios de recuperar encarcerados
por meios sociais, educativos e religiosos. Talvez pela classe social baixa dos
presos, não havia interesse da sociedade de classe alta de reinserí-los na
sociedade, isso pode ser notado pelas penas duras que existiam, como a pena de
morte e outras cruéis e degradantes.

Em virtude da abolição da escravatura, houve a necessidade de reforma na


legislação penal. No último ano do império, foi incumbido de elaborar um projeto de
reforma penal o Conselheiro João Batista Pereira. O novo Código Penal foi aprovado
pelo Decreto Nº 847, de 11 de outubro de 1890. Tal Código foi muito criticado. Era
fundamentalmente clássico. Tentou suprir lacunas que o antecessor apresentava.
Aboliu a pena de morte e outras, substituindo por penas mais brandas e criou o
regime penitenciário de caráter correcional. Neste momento a instituição prisional já
é lugar para execução e aplicação da pena.

1.3 SURGIMENTO E REDEFINIÇÕES AO LONGO DO TEMPO DOS SISTEMAS


PENITENCIÁRIOS

Segundo Foucault (1987, 13ª Ed.), a forma geral de uma aparelhagem para
tornar indivíduos dóceis e úteis, por meio de um trabalho preciso sobre o corpo,
criou a instituição prisão antes que alei a definisse como pena. A aplicação da pena
de prisão, como sanção autônoma demorou muito a surgir na história do direito
penal, prevalecendo até então, com raras exceções, sua imposição como fase
preliminar das penas corporais, principalmente a de morte.
22

Na Inglaterra, por volta do ano de 1552, protestantes se utilizaram de um


velho castelo londrino denominado Bridewell para alojar vagabundos e mendigos,
cujo empreendimento em 1575 passou a chamar-se House of Correction e inspirou o
legislador em 1576 a determinar que os outros condados também tivessem um
estabelecimento daquela espécie. A Holanda, que não possuía galeras, criou o seu
estabelecimento prisional em 1595 para homens e em 1598 para mulheres. Em
1656 foi a vez da França levantar o seu cárcere para acolher as pessoas
consideradas vagabundas e miseráveis na época. Na Itália, por iniciativa do Papa
Clemente XI, é construído em 1703 o Hospício de São Miguel, que se destinava
também a menores delinquentes, termo utilizado na época.

A esta altura, o alvo da repressão penal abandona as penas corporais e dá


lugar ao controle, à disciplina e à correção. Surgiram, pois, os sistemas prisionais de
relevante importância para os estudos na atualidade.

Quanto aos tipos de sistemas penitenciários, vários deles existem na história,


entretanto, os que mais se sobressaem são: o Sistema de Filadélfia, em que se
utilizava o isolamento celular absoluto, com passeio isolado do sentenciado em um
pátio circular, sem trabalho ou visitas, incentivando a leitura da bíblia. Nesse sistema
pode-se observar a leitura e o isolamento aplicados como pena, ao invés de penas
punitivas infligindo sofrimento corporal por meios de tortura; o Sistema Auburniano,
aplicado na penitenciária da cidade de Auburn, no Estado de Nova Iorque, que
mantinha o isolamento noturno, mas criou-se o trabalho dos presos, primeiro em
suas celas e, posteriormente, em comum, porém, havendo a exigência de absoluto
silêncio entre os condenados, mesmo quando em grupos, o que fez surgir o costume
dos presos de se comunicarem com as mãos, prática que se observa até hoje nas
prisões. E ainda, o Sistema Progressivo que surgiu na Inglaterra, no século XIX,
esse modelo serviu de inspiração para os de hoje, levando se em conta o
comportamento e aproveitamento do preso, demonstrados pela boa conduta e pelo
trabalho, estabelecendo-se três períodos ou estágios no cumprimento da pena, o
primeiro deles, período de prova, constava de isolamento celular absoluto, o outro se
iniciava com a permissão do trabalho em comum, em silêncio, passando-se a outros
benefícios e o último permitia o livramento condicional, o que hoje significa apenas a
23

assinatura mensal no Fórum. Ainda hoje, o Sistema Progressivo, com certas


modificações, é adotado nos países civilizados, inclusive no Brasil.

Cabe assinalar que os sistemas penitenciários não se confundem com os


regimes penitenciários, tendo em vista que, enquanto os sistemas representam
corpos de doutrinas que se realizam por meio de formas políticas e sociais
constitutivas das prisões, os regimes são as formas de administração das prisões e
os modos pelos quais se executam as penas, obedecendo a um complexo de
preceitos legais ou regulamentares. Assim, os regimes de penas são determinados
pelo mérito do sentenciado e, em sua fase inicial, pela quantidade de pena imposta
e pela reincidência. São três os regimes de cumprimento das penas privativas de
liberdade: regime fechado, com a execução em estabelecimento de segurança
máxima ou média: regime semiaberto, com a execução em colônia agrícola,
industrial ou estabelecimento similar: regime aberto, com a execução em casa de
albergado ou estabelecimento adequado, é o que diz o artigo 33, § 1º do Código
Penal brasileiro, e também na lei federal, a Lei de Execuções penais que trata
exclusivamente sobre a execução da pena. Vale salientar que em todos os regimes
o condenado tem o direito aos estudos e ao trabalho, para ter o direito no
abatimento da pena e consequentemente a progressão para o regime seguinte.
24

2 A PRISÃO, AS LEGISLAÇÕES MODERNAS E OS MECANISMOS


DE RESSOCIALIZAÇÃO DO APENADO

Historicamente, a emergência das prisões, desde o surgimento até fins do


século XVII era utilizada como contenção e guarda dos réus, até o momento de
serem julgados ou executados3. Outrora, o aprisionamento só era usado para evitar
a fuga dos réus. Não passava, pois, de medida processual, equivalente à atual
prisão preventiva. Penas, propriamente ditas, eram a morte, os tremendos castigos
corporais, o exílio, os trabalhos forçados4. Na Idade Média também não era
considerada como pena em si mesma, sendo apenas um preparatório da pena
propriamente dita e preparada nos moldes aceitáveis pela sociedade da época.
Segundo Foucault em seu livro Vigiar e Punir: história da violência nas prisões
(1987, 13º. Ed.), constituía um verdadeiro festival de punições destinadas a infligir
aos condenados o máximo de dor possível por meio dos suplícios mais variados.

John Howard e Cesare Beccaria bradaram contra a vergonha das prisões,


procuraram definir a pena como uma utilidade, de maneira que o encarceramento só
se justificaria se produzisse algum benefício ao apenado e não apenas a retribuição
de um mal por outro mal 5. Vale assinalar que foi através das idéias de Beccaria,
Howard e Bentham que se originaram os Regimes Penitenciários clássicos
desenvolvidos de maneira mais concreta a partir do século XIX, embasados em
sistemas diferenciados de reeducação. Entretanto, após inúmeras transformações,
a prisão começou a dar mostras de sua fragilidade. Mesmo tendo passado por longo
processo de humanização, entrou em acintosa falência nos termos das medidas
retributivas e preventivas, demonstrando o descrédito na forma quase que exclusiva
de controle social formalizado. Segundo lição de Cláudio Heleno Fragoso, ficou
demonstrado e efeito devastador do confinamento sobre a personalidade humana e
a contradição insolúvel entre as funções de custódia e de reabilitação 6.

3
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. História da violência nas prisões. 28. ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
p. 30-32.
4
GARCIA, Basileu. Instituições de Direito Penal. 4. ed. São Paulo: Max Limonade, 1975, p. 53.
5
Vide OLIVEIRA, Edmundo. Futuro Alternativo das Prisões. Rio de Janeiro: Forense, 2202.
6
Vide FRAGOSO, Cláudio Heleno, op. cit., p. 278.
25

Mesmo apresentando como sua proposta oficial de finalidade a punição


retributiva pelo mal causado pelo criminoso, a prevenção da prática de novos delitos
por meio da intimidação do próprio delinquente e dos demais integrantes da
sociedade e, inclusive, a ressocialização, a pena privativa de liberdade atende com
êxito não mais que a primeira delas, ou seja, apenas retribuir o mal causado. Mais
que retirar o indivíduo delinquente do convívio social, ela visa também sua punição,
por meio de sofrimentos físicos e psicológicos, além de privações. Obviamente há
aqueles que, para a proteção da sociedade e pela impossibilidade de sua reinserção
no meio social, tornam necessário seu isolamento, mas não perfazem a maioria dos
que hoje se encontram nas penitenciárias. Na atualidade a faixa etária dos presos
são de 18 a 25 anos de idade, esses são considerados os mais problemáticos no
âmbito prisional e social, talvez por ter uma ligação maior com a vida às margens da
lei e muitos deles desde a menoridade já vem com uma vida conturbada de muitas
passagens pelo sistema socioeducativo. Os apenados que estão a mais tempo
cumprindo pena são os que melhor se encaixam nas políticas humanísticas nas
unidades prisionais. Já os menores infratores, que entram na vida do crime aos 13
ou 14 anos de idade, deveriam ser os principais alvos para um investimento com
políticas públicas e, desta forma reduzir ao máximo o número deles no convívio com
o mundo do crime. No entanto, estas pessoas não tinham nenhum interesse em
seguir uma vida “normal” quando estavam em liberdade, muito pelo contrário,
aderiram à vida do crime, e não será somente nos presídios e nos núcleos para
menores que irão buscar oportunidades de mudar de vida ou tentar recuperar o
tempo perdido, o que de fato acontece é um número muito alto de reincidência. E,
mesmo como forma de punição para os crimes cometidos, só o simples
encarceramento sofre grandes críticas: acostuma o preso ao sistema da cadeia, às
suas leis e regulamentos internos, que não são os vigentes no mundo aqui fora. E
isso tanto é para o preso na penitenciária como para o menor infrator recolhido no
sistema socioeducativo. Daí que continuam, mesmo após longos anos de prisão
inabilitados para a convivência em sociedade.

A despeito de todas as suas falhas, a prisão ainda é utilizada largamente


como pena básica e fundamental nas modernas legislações. Todavia, como fruto de
uma revolução do Direito Penal moderno, em contrapartida ao aumento do número
de estabelecimentos prisionais hoje existentes, há a proliferação de mecanismos de
26

ressocialização que visam manter a sociedade unificada, como as penas e medidas


alternativas, seguindo a tendência das novas leis penais. O motivo da existência
desses novos mecanismos seria tratar o problema referente ao trabalho prisional, ou
seja: de como os presos deveriam ser reinseridos no convívio social, hoje um dos
maiores desafios. Recomenda-se que as penas privativas de liberdade limitem-se às
condenações de longa duração e àqueles condenados efetivamente perigosos e de
difícil reinserção social. Não mais se justificam as expectativas da sanção criminal.
Caminha-se, portanto, em busca de alternativas para a privativa de liberdade.

Assim, fica claro que, em posição contrária à impunidade, mas causadora de


semelhante mal, é a rigidez excessiva nas punições por parte do Estado. Melhor
seria, segundo Foucault, que a prisão não fosse vista como uma instituição inerte,
tendo em vista que volta e meia ela teria sido sacudida por movimentos de reforma.
Sobre este aspecto, conclui o autor:

“A prisão, essa região mais sombria do aparelho de justiça, é o local


onde o poder de punir, que não ousa mais se exercer com o rosto
descoberto, organiza silenciosamente um campo de objetividade em
que o castigo poderá funcionar em plena luz como terapêutica e a
sentença se inscrevem entre os discursos do saber”. (1987, 13ª ed. P.
227).

Segundo o aludido autor, a prisão sempre fez parte de um campo ativo, onde
abundaram os projetos, os remanejamentos, as experiências, os discursos teóricos,
os testemunhos, os inquéritos, tudo servindo de base e de exemplo para outras
atividades no meio jurídico e social. No início da década de 1980, surgiu a
necessidade de uma lei que regulamentasse em âmbito nacional a execução das
penas de prisão, criou-se em 1984 a Lei 7.210/84, Lei de Execuções Penais, que
contém recomendações e diretrizes, formuladas pela Organização das Nações
Unidas – ONU, e editada pelo ministério da Justiça. E, com a necessidade de
regulamentar as ações desenvolvidas no âmbito do Sistema Penitenciário cearense,
para o pleno desempenho das atividades das unidades prisionais, foi aprovado o
Regimento Geral dos Estabelecimentos Prisionais do Estado do Ceará, Portaria Nº
0240/2010. O Art. 8º, IV, da referida portaria, diz que: os estabelecimentos
27

destinados aos presos condenados ao cumprimento da pena de reclusão, em


regime fechado, deverão conter locais de trabalho, atividades socioeducativas e
culturais, esportes, prática religiosa e visitas, e o inciso V do mesmo artigo,
complementa com o trabalho externo, e ressalta que será conforme previsto no art.
36 da Lei de Execução Penal.

2.1 AS PENITENCIÁRIAS NO BRASIL DE ANTIGAMENTE E O SISTEMA


PENITENCIÁRIO NO CEARÁ ATUAL

Para podermos compreender o sistema prisional por dentro, sua formação no


Brasil e o porquê de sua forma atual, é indispensável observar e conhecer o seu
passado. No início da colonização brasileira o sistema penal foi baseado nas
Ordenações Afonsinas. Repletas de atrocidades no seu Direito Penal e Direto
Processual Penal, utilizando-se da prisão como prevenção, aprisionava o autor até
seu julgamento. Posteriormente nas Ordenações Manuelinas, que tinham
características do Direito Medieval, confundindo religião, moral e direito, utilizava-se
da prisão como repressão pessoal até o julgamento. E finalmente, nas Ordenações
Filipinas as penas utilizadas eram baseadas na crueldade e no terror tendo a pena
de morte com punição frequentemente utilizada, assim como as diversas punições
desumanas, além da deserdação e o confisco.

Com a independência do Brasil, iniciava-se o período imperial. Neste período


as prisões serviam não apenas como uma maneira de punir o criminoso e proteger a
sociedade, mas também tinham como intuito a ressocialização do condenado. No
ano de 1823, José Clemente Pereira e Bernardo Pereira de Vasconcelos
apresentaram cada qual um projeto de Código Penal; o apresentado por Bernardo
Pereira de Vasconcelos sofreu algumas modificações e agregou-se ao Código de
1830, que ainda continha a pena de morte. Entretanto, após a execução de Mota
Coqueiro, que de maneira injusta foi condenado, tendo a sua inocência apenas
provada depois de ser executado, foi então abolida por D. Pedro II. Com a
República, muitas leis foram divulgadas, e foi também publicado um novo Código
pelo decreto 847 de 11 de outubro de 1890, que adotava como linha de princípio o
fato de a criminalidade não poder ser atenuada por meio de medidas penais de
extrema severidade. Apresentava em suas modalidades de penas as seguintes
28

características: prisão celular, reclusão, trabalho obrigatório, prisão disciplinar e a


aprovação pecuniária; excluía as penas infamantes, e o tempo de reclusão do
condenado não poderia ultrapassar 30 anos, e aboliu a pena de morte.

Com o advento da Revolução de 1937, o Presidente Getúlio Vargas pretendia


fazer reformas legislativas, o que resultou no Decreto Nº 2.848/40, que passou a
vigorar em 1º de janeiro de 1942, como novo Código Penal, que mesmo com
algumas alterações, continua vigorando até os dias atuais. Esta dava uma
importância maior á figura humana, tendo como suas principais características: a
reclusão pelo máximo de 30 anos, o que já era observado no anterior, detenção,
multa, pena e medida de segurança e individualização da pena.

Contudo, a pena privativa de liberdade, em contrapartida aos grandes


avanços da legislação em matéria de proteção do indivíduo contra o poder punitivo
do Estado, manteve-se como a mais importante forma de punição do sistema
jurídico, não tendo sido implementada formas mais eficientes de alternativas. Até há
uma tentativa de substituição da prisão por medidas que já são consideradas falhas,
a exemplo do início de cumprimento de pena em condicional, ou por monitoramentos
por tornozeleiras eletrônicas, as audiências de custódia, onde grande parte dessas
pessoas submetidas a tal procedimentos aproveitam a oportunidade para voltar a
delinquir.

No Ceará, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional –


DEPEN, já é possível observar avanços em relação ao atendimento prisional. O
Estado vem investindo esforços na tentativa de compreender a realidade do sistema
de forma específica, refletindo acerca do contexto e especificidades regionais,
juntamente com os poderes locais e com a sociedade civil em busca de uma nova
cultura de aplicação da lei penal no país. O objetivo é continuar a contribuir para o
desenvolvimento de estratégias para o enfrentamento dos problemas do sistema
penitenciário brasileiro, com a adoção de novas diretrizes para a política criminal e
promoção de uma recomposição institucional dos órgãos da execução penal, tudo
visando estimular o efetivo cumprimento do princípio da intervenção mínima previsto
no artigo 5º, § 2º da Constituição Federal e a melhoria do tratamento penitenciário.
29

2.2 REINTEGRAÇÃO SOCIAL POR MEIOS EDUCACIONAIS E SOCIAIS

Partindo-se do princípio da integração social da pessoa presa, a sociedade


não pode continuar a ser alienada do processo. A prisão não ressocializa. Sem a
participação efetiva e progressiva da sociedade nos mecanismos do tratamento
penal, não há perspectivas de avanços na tarefa da inserção social da pessoa
presa. Entendemos o meio social como o início e o fim de todo o circuito
penitenciário: o lugar de onde o sujeito veio e para onde vai retornar – sem nunca ter
deixado de, bem ou mal, ser parte dele, estando apenas temporariamente, “isolado”
pelas muralhas de concreto.

A gestão penitenciária precisa promover a inserção da sociedade no cotidiano


da prisão, abrir canais que promovam maior aproximação, e participação efetiva de
segmentos, organizados e credenciados, da sociedade no âmbito do funcionamento
no cotidiano das prisões. A prisão não precisa ser uma ruptura tão radical na vida do
encarcerado. Os seus núcleos relacionais de origem devem ser maximamente
preservados, ou até mesmo na maioria das vezes resgatados, minimizando traumas
que, se nada for feito, tendem a progredir e mesmo se tornar irreversíveis. A pena
deve ser uma oportunidade de investimento nas pessoas e não apenas um
mecanismo de punição ou de degredo social. Se foi no ambiente das relações
sociais que o infrator se desajustou, não podemos prescindir dessas relações nos
processos do tratamento e da cura. Enfim, a sociedade não pode mais permanecer
distanciada dos mecanismos institucionais do tratamento penal, no intercurso do
cumprimento da pena. A pena precisa ser pensada como uma oportunidade de
investimento nas pessoas e não apenas como mecanismo de punição ou, pior, de
degredo social. Precisamos pensar o recluso como uma individualidade sensível e
como um ator social, temporariamente em observação intensiva. Essa oportunidade
excepcional de observação deve ser aproveitada para orientá-lo, e mobilizá-lo para
outras perspectivas, enfim, para a construção de um projeto de vida, minimamente
possível, fora da marginalidade.

O caminho da convivência com segmentos sociais fragilizados, para ser


pacífico deve ser, necessariamente, uma via de mão dupla – os excluídos,
marginalizados e egressos penais precisam demonstrar a vontade de conviver bem
30

com a comunidade, mas a sociedade também precisa se desarmar contra eles. Mais
do que se desarmar contra seus potenciais e reais agressores, a sociedade deve
criar instâncias de atenção e acolhimento, de educação, de orientação, de inclusão e
geração de oportunidades através das suas organizações e de projetos específicos.
O sistema penitenciário não tem o poder de reintegrar ninguém à sociedade – ele é
reconhecidamente desintegrador. Embora estejamos diante de um paradoxo,
somente a sociedade como instância de organização superior a qualquer instituição
ou grupo localizado, pode acionar dispositivos inclusivos em relação aos seus
reclusos e orquestrar a integração de pessoas presas ao seu convívio.
31

3 A EDUCAÇÃO COMO ESPAÇO DE MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES

Nas prisões, a educação pode ser pensada em duas dimensões: uma


dimensão macropedagógica, que consiste em pensar as prisões como lócus de
múltiplos aprendizados e, portanto, educativo – a instituição, como um todo, seria
objeto de uma intervenção pedagógica; e a dimensão restrita à oferta de educação
regular e profissionalizante do encarcerado.

3.1 A DIMENSÃO MACROPEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO NA PRISÃO

A acepção macropedagógica consiste em pedagogizar o ambiente da


reclusão, explorando os múltiplos conhecimentos e aprendizados que a experiência
do confinamento compulsório oferece ao ser humano. Não somente os reclusos,
mas os trabalhadores e gestores penitenciários seriam levados a compreender e
redimensionar a natureza das suas relações neste ambiente, sendo possível
encaixá-las em um projeto educacional, teórica e metodologicamente orientado. E
não apenas os indivíduos, mas as tarefas e os processos – administrativos,
operacionais, culturais, etc. – podem ser analisados à luz dos conhecimentos
reproduzidos, dos aprendizados concretizados e repensadas em uma perspectiva
educacional. Todas as relações da instituição com a pessoa presa percorrem uma
trajetória educativa. Mesmo quando não haja uma sala de aula, um curso
profissionalizante, os atores sociais da prisão – presos, operadores do sistema,
parentes e visitantes regulares – consumam aprendizados que se fixam e se
reproduzem em todos os níveis relacionais com o recluso.

3.2 A DIMENSÃO MICROPEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO NA PRISÃO

Na dimensão micro, específica da oferta da educação regular em uma


unidade prisional, tem se como base o que diz a Constituição Federal no seu artigo
205, onde ressalta que a educação, é um direito de todos e é dever do Estado e da
família, e será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao
pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho.”
32

A condição de recluso não retira da pessoa presa o direito à educação, direito


que deve ser provido inteiramente pelo Estado, dado que o recluso está impedido de
buscar, por iniciativa própria, o acesso a esse benefício. A Lei de Execuções Penais
(LEP), também trata desse direito nos seus Artigos do 17 ao 21:

Seção V
Da Assistência Educacional.

Art. 17. A assistência educacional compreenderá a instrução escolar e a


formação profissional do preso e do internado.
Art. 18. O ensino de 1º grau será obrigatório, integrando-se no sistema escolar da
Unidade Federativa.
Art. 19. O ensino profissional será ministrado em nível de iniciação ou de
aperfeiçoamento técnico.
Parágrafo único. A mulher condenada terá ensino profissional adequado à sua
condição.
Art. 20. As atividades educacionais podem ser objeto de convênio com entidades
públicas ou particulares, que instalem escolas ou ofereçam cursos especializados.
Art. 21. Em atendimento ás condições locais, dotar-se-á cada estabelecimento
de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros
instrutivos, recreativos e didáticos.

3.3. O ENEM PRISIONAL NAS UNIDADES PRISIONAIS DO CEARÁ

Do ano de 2011 até 2016, o número de inscritos no Enem prisional aumentou


significativamente, no ano de 2011 cerca de 100 internos de seis unidades prisionais
foram inscritos. Já no ano de 2016, 1.382 internos de 62 unidades prisionais foram
inscritos no Enem, um aumento tanto na quantidade de internos quanto em unidades
prisionais. Em uma ação conjunta da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado
do Ceará (Sejus) e Secretaria da Educação (Seduc), internos de unidades prisionais
e cadeias públicas do Estado têm a oportunidade de encontrar nos estudos uma
ferramenta eficaz para a mudança de vida, embora a grande maioria não demonstre
33

interesse em reconstruir sua história através das oportunidades sugeridas dentro do


sistema prisional, ainda assim é um avanço que vai sendo conquistado a cada ano e
a esperança de um sistema penal mais humanizado e socializado.

Para complementar a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio


(Enem) às pessoas privadas de liberdade da Casa de Privação Provisória de
Liberdade Agente Elias Alves da Silva (CPPL IV), terão um aulão preparatório. O
objetivo das aulas preparatórias é treinar os inscritos nas áreas de Ciências
Humanas, Ciências da Natureza, Matemática, Linguagens e Códigos e
Redação. Além da UP Irmã Imelda, o Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri
Moura Costa, a Casa de Privação Provisória de Liberdade Agente Elias Alves da
Silva (CPPL IV) e a Cadeia Pública de Maracanaú receberão os aulões
preparatórios. A prova do Enem 2016 será realizada para os internos nos dias 13 e
14 de dezembro.

O assessor educacional da Sejus, Rodrigo Moraes, destaca o crescimento da


adesão ao Enem pelos internos no ano de 2016: “É importante ressaltar o aumento
do alcance, que foi de 58 unidades em 2015 para 62 em 2016, e os inscritos que
somaram um total de 1.382”. Pode-se ver os frutos do investimento do Estado
ao apoiar técnica e financeiramente a implementação da Educação de Jovens e
Adultos no sistema penitenciário, a elaboração dos planos de educação nas prisões,
a oferta de formação continuada para diretores de estabelecimentos penais, agentes
penitenciários e professores e, por fim das aquisições de acervos bibliográficos.

Em 2016, a Sejus alcançou um recorde de aprovados na seleção. Foram 11


selecionados no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e outros 18 conquistaram
bolsas de gratuidade no Programa Universidade para Todos (ProUni). Vale salientar
que, além de ampliar o conhecimento e ter a possibilidade de abrir novos rumos,
quem estuda enquanto cumpre a pena pode reduzir o tempo de detenção. A cada 12
horas de aulas, um dia é reduzido na condenação, essa remição pode ser adquirida
com o hábito da leitura, cada livro completamente lido também é contabilizado para
o benefício. Enquanto que ao trabalhar três dias o interno terá 1 (um) dia remido em
sua pena.
34

A educação é considerada como um dos meios de promover a integração


social e a aquisição de conhecimentos que permitam aos reclusos assegurar um
futuro melhor quando recuperar a liberdade. Essa posição talvez seja compartilhada
pelos apenados que compreendem que o encarceramento tem uma finalidade que
vai além do castigo, da segregação e da dissuasão e que, portanto, aceitam
voluntariamente e aprovam o aspecto reformador do encarceramento, em especial
as atividades de educação profissional e as informações sobre oportunidades de
emprego. Esses podem ser aqueles que estão a mais tempo cumprindo pena e,
portanto, conhecem bem o sistema, e possuem uma visão diferente dos muitos que
entraram a pouco tempo.

Outros apenados, ao contrário, rechaçam a educação como parte de um


sistema impositivo e castrador, que os querem alienados. Sem dúvida alguma, por
outro lado, é possível ainda que muitos apenados participem inicialmente das
atividades educativas por razões alheias à educação; por exemplo: sair das suas
celas, estarem com amigos ou evitar o trabalho.

Na verdade, o que se pretende com todo o investimento é manter os reclusos


ocupados de forma proveitosa; melhorar a qualidade de vida na prisão; conseguir
um resultado útil, tais como ofícios, conhecimentos, compreensão, atitudes sociais e
comportamento, que perdurem além da prisão e permitam ao apenado o acesso ao
emprego ou a uma capacitação superior, que, sobretudo, propicie mudanças de
valores, pautando-se em princípios éticos e morais. Essa educação pode ou não se
reduzir ao nível da reincidência. Já os demais objetivos formam parte de um objetivo
mais amplo do que a reintegração social e o desenvolvimento do potencial humano.

A atual titular da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará,


Socorro França, indica que só através das oportunidades no âmbito educacional é
que internos e internas do sistema penitenciário serão ressocializados. “Não há
outro caminho para trilharmos. A educação é a ponta de lança para que eles possam
se capacitar e assim, voltar refeitos da realidade prisional para a sociedade”,
sentencia a secretária.
35

A Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado (Sejus) mantém hoje, nas


penitenciárias e cadeias públicas do Estado, cerca de 140 turmas ativas, que vão da
alfabetização ao Ensino Médio, incluindo a preparação para o Exame Nacional do
Ensino médio para pessoas privadas de Liberdade (Enem PPL). Os números do
Enem PPL, são animadores dentro das unidades. Desde 2015, 71 pessoas foram
certificadas no Ensino Médio por meio do exame e 45 passaram nas universidades
públicas e particulares com o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e o Programa
Universidade Para Todos (ProUni).

O interno de iniciais F.A.P.S., 52 anos, fez o Enem PPL duas vezes, obteve
aprovação e não conseguiu autorização judicial para cursar. Desta vez, a equipe de
educação da Sejus matriculou o interno na modalidade de Ensino a Distância (EaD).
O interno fez a prova novamente, foi aprovado e desta vez ele tem a certeza de que
conseguirá cursar Serviço Social de dentro da unidade. “É gratificante lutar por um
objetivo em meio às dificuldades. Todos sabem como é difícil a vida dentro de uma
penitenciária... então. Vocês vão ouvir muito falar de mim ainda. E bem!”. Festeja o
interno.

A Secretaria da Justiça e Cidadania (SEJUS), não mede esforços para


realizar atividades em prol da educação da população carcerária do Ceará, além de
trazer a possibilidade e deixar ao alcance de todos a chance de dar continuidade
aos estudos ou se profissionaliza por meio de cursos, traz também a parte cultural,
como o Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual “For Rainbow” leva a
Mostra Educativa For Rainbow à Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, que
abriga o público LGBT. O For Rainbow conta com atividades culturais como
espetáculos de teatro, música e dança, debates e performances artísticas que
possuem como foco a sensibilização para o respeito à diversidade sexual; O projeto
Livro Aberto; A contratação da Federação Brasileira de Xadrez para ensinar os
detentos a prática do jogo de xadrez; dentre muitas outras atividades.

3.4 TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES: DESAFIOS DO SISTEMA


PENITENCIÁRIO NO TEMPO PRESENTE
36

O desafio para a instituição prisional na atualidade circunscreve uma busca


de ir além do seu caráter punitivo. Daí, a importância de se trabalhar formas
concretas de reinserção social do detento. Desse modo, um dos seus desafios
consubstancia-se na visibilidade das relações entre segmentos que tecem as
condições de sociabilidade: Estado, Igreja, Mercado e o terceiro setor (ONG), onde
se formam redes que são as forças das ações de um processo de inclusão social de
fato.

No entanto, para avançarmos no projeto de inserção social do interno ou


egresso do sistema penitenciário ao convívio social de forma participativa, temos
que contar com o apoio do próprio detento nessa dinâmica. O interno e o egresso do
sistema penitenciário poderiam ajudar no trabalho pessoal e coletivo de construção
de reintegração das condições de sociabilidade? Sim, deixando de reincidir. Mas
porque o fariam? Só pelo medo de ser preso novamente? De serem oprimidos,
violados? Tal visão é muito simplista. O medo da violência até pode deter por certo
período, mas não elimina a violência. Ela volta. Poderia conseguir isso sozinho sem
a participação dos diferentes setores que compõem o tecido social? Pode-se afirmar
com toda convicção que não. Daí, a importância do trabalho em rede, que visualiza
detentos e egressos do sistema penitenciário como supostos parceiros, capazes de
somar esforços e abrir possibilidades de trabalho, estudo e formação, oportunidades
a serem ofertadas na confirmação de um contrato de não violência e no empenho
em se tornarem agentes de educação para a não violência dentro do espaço
prisional, na família e na sua comunidade.

O que dificulta é que são raros os sujeitos e movimentos que se abrem para
acolher o egresso como um apoiador direto, mesmo na condição de pessoa livre,
nos casos de liberdade condicional. Parece-nos que, de alguma forma, é fechada a
inserção de egressos nessa luta. Quando participam são público alvo. Recebem
atendimentos, atenção apoio, informação útil, mas pouco participam desse
processo. Na maioria das vezes, não se sentem convocados a participar desse
trabalho, onde eles têm muito a aprender e a ensinar. Será que não facilitamos ou
mesmo abrimos o acesso a se identificarem com estas causas de luta? Eis aí um
desafio a ser colocado na agenda política do tempo presente.
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A busca pelo Estado em ressocializar os encarcerados é de fato buscada


através da Secretaria da Justiça e Cidadania de forma a trazer a educação a todos
os internos dos 155 estabelecimentos penais em todo o Estado, mas mesmo com
todo o investimento, ainda são poucas as pessoas reclusas que realmente querem
mudar de vida e aproveitar a oportunidade que lhes é oferecida. A ideia é que mais
espaços do sistema prisional ofereçam um clima diferente das celas. Como no
Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, em Itaitinga. Pela
manhã, cerca de dez internas se reúnem na sala com máquinas de costura. É hora
de confeccionar roupas no projeto Cadeias Produtivas. Nas paredes, imagens de
modelos usando peças de jeans e cartazes com fotos das próprias internas em
confraternizações. “É muita diferença estar aqui o dia todo. E saber que, de longe,
estou ajudando a minha família”. É o que relata uma das internas.

Atualmente, 1,8 mil vagas em projetos de inclusão social são ofertadas a


presos no Ceará. Uma das propostas da Sejus às indústrias é a adoção de modelo
semelhante ao da lei estadual nº 15.854, aprovada em setembro de 2015. Pelo
texto, empresas contratadas pelo Estado para construção de obras públicas devem
reservar entre 3% e 10% dos postos de trabalho para presos e egressos do sistema
prisional e jovens do sistema socioeducativo. A Sejus tem atualmente 180
funcionários egressos do sistema prisional. Um dos resultados considerados
positivos é o baixo índice de reincidência no crime: enquanto 7% voltaram ao
presídio em 2015, este percentual baixou para 6% em 2016.

Projetos de inclusão social: Mundo Melhor (746 internos), O Pão de Cada Dia
(240), Querer (180), Sou Capaz (158), Criando Oportunidades (121), Mãos Livres
(100), Plantando o Amanhã (80), Reciclovidas (54), Fabricando Oportunidades (40),
Promil (38), Cadeias Produtivas (39) e Fábricas (18). Projetos para egressos: De
Portas Abertas (180 egressos), Vivendo e Empreendendo (42), Coaching por um
Ceará Pacífico (30) e Celebrando a Restauração.
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4 CONCLUSÃO

O Estado do Ceará possui atualmente uma população carcerária de quase


21.000 (vinte e um mil) reclusos, sendo o 7º estado brasileiro com a maior população
carcerária, e o alcance máximo de inscritos no Enem Prisional foi no ano de 2015,
com 1.682 inscritos. Ainda é um número muito pequeno em comparação ao total de
presos nas Unidades cearenses. Com esse resultado pode-se concluir que quase a
totalidade de internos não tem perspectiva de serem reinseridos na sociedade.
Provavelmente quando tiverem a liberdade voltarão a cometer delitos, pois não terão
outra alternativa, sem estudo e sem um curso profissional não lhe restará outra
saída se não a vida do crime ao serem postos em liberdade. Não por falta de
oportunidades, pois quando estão em liberdade todos têm a sua disposição escolas
e centros de ensino, eles mesmos não buscam. E quando na condição de preso,
mais uma vez lhe é ofertada outra oportunidade de estudar e de se profissionalizar,
mas pelas próprias escolhas mais uma vez não querem, preferem ficar ociosos.

Mesmo com o benefício de remição de pena pelos estudos, alguns presos


preferem continuar cometendo delitos de dentro dos presídios, como tráfico de
drogas, sequestros, e assaltos, tudo feito simplesmente com um aparelho celular ou
até mesmo utilizando suas visitas para passarem ordens aos seus comparsas para
executar tais malefícios a sociedade e cidadãos, e dão preferência a viverem sem
perspectiva nenhuma de um futuro social melhor e fora da criminalidade. São
poucos os internos que criam uma visão de futuro melhor, e percebem que
ocupados em atividades de educação, qualificação e trabalho, podem ver a
diferença entre o simples encarceramento e as oportunidades de tentar novos
caminhos após a prisão. De sonhar com uma vida diferente, longe do crime.

Assim, com todos os benefícios ofertados nas unidades prisionais, tanto para
o bem como para o mal, seu destino vai depender do que cada um escolher,
segundo a sua cultura, modo de vida deixado do lado de fora, e criar uma noção de
que toda essa vida na marginalidade só lhe oferecerá dois caminhos, quais sejam: a
realidade em que se encontra, mas que ainda tem a chance de uma mudança, ou o
cemitério, ao qual não há mais volta nem pós arrependimento.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2005.

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40

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Módulo I, Administração Penitenciária, Curso de Formação de Agentes


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Módulo II, Reinserção Social, Curso de Formação de Agentes Penitenciários do


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