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A seméGntica lexical Antonio Vicente Seraphim Pietroforte Iva Carlos Lopes Conta-se que um determinado professor explicava 0 conceito saussuria- no de signo escrevendo, com uma das mos, no quadro negro, a palavra “nariz” e apontando, com a outra, para o seu préprio nariz. Ensinava que a palavra escrita 0 significante e o Orgao para o qual apontava, o significado. Recolhida durante uma aula, essa historia é engragada porque mostra um equivoco a res- peito do ponto de vista saussuriano, pois a personagem do relato propaga um conceito de lingua ha algum tempo colocado sob suspeita por muitas correntes daciéncia da linguagem. O signo é uma relaciio entre um significante e um significado, e nao entre sor acima mencionado. Ao apon- uma palavra e uma coisa, como entendeu o profes ‘ar para seu nariz e para a palavra escrita no quadro negro, ele entendeu, erronea- mente, que significant é 0 mesmo que “palavra” e, significado, o mesmo que "coisa Saussure, no entanto, ndio diz isso. Ao definir uma relagao entre um significante, a imagem acistica do signo, e um significado, 0 seu conceito, o sentido do signe deixa de. depender de um referente fora da lingua, como & 0 caso do nariz, ¢ passa a Set determinado por uma relagao entre duas grandezas lingiiisticas: uma imagem *eistica, de ordem fonolégica, e um conceito, de ordem semantica, oe Aidéia de que o significado éa coisa é bastante antiga. Na mitologia judai- “std ela aparece logo depois da cena da cria¢do: 112 Introdugdo & Lingtistica I Javé Deus disse: “Nao é bom que 0 homem esteja s6, vou fazer-lhe um AUxiliag convenka”. Javé Deus plasmou do solo todos os animais e todas as aves do ue zis presena do homens, pra ver que nome Ihe darn: too ser eg ide homen Ihe dss. E 0 homem de nome a todos os animais domésticos, ig gy eg a todos os animais do campo. loca, (Gen, n, 18a Nessa passagem, a relacao estabelecida é entre nomes ¢ COisas, oy 9: entre os nomes dos animais € seus referentes, apresentados diretamente homem por seu criador. Séculos depois, 0 Sata do poeta inglés Milton, em = Paraiso perdido, tem um ponto de vista diferente. Ao cair no inferno, deca on 0 anjo rebelde: a Adeus, felizes campos, onde mora ‘Nunca interrupta paz, juibilo eterno! Salve, perene horror! Inferno, salve! Recebe o novo rei cujo intelecto Mudar nao podem tempos, nem lugares: Nesse intelecto seu, todo ele existe; Nesse intelecto seu, ele até pode Do Inferno Céu fazer, do Céu Inferno. Milton ~ O paraiso perdido. (s. d.) Séo Paulo, Para Sata, tanto o inferno quanto o céu sao definidos no discurso que ele, em seu intelecto, é capaz de articular, Os conceitos de ambos os signos, portanto, sao determinados pelo discurso, e no por meio de um referente externo a lingue- gem dado previamente, como ocorre no capitulo citado do Génesis, em que o homem dé nome aos animais, Sem uma referéncia fora da lingua, cabe ao discurso determinar os conceitos de céu eo de inferno €, por isso um pode ser tomado pelo outro, dependendo do ponto de vista. A fim de formar uma primeira idéia da distingao entre essa tradicional con- cepgo de linguagem-nomenclatura ea Perspectiva saussuriana, que data do inicio do século XX, precisamos de algumas nogdes elementares a seu respeito. Umae outra concep¢ao dao origem a modos contrastantes de edificar a semantica. Edigraf, p15, 1. Concep¢ées de linguagem, signo, sentido Um trecho de um conhecido poema de Jotio Cabral de Melo Neto, ie gem do Capibaribe”, vai nos ajudar a introduzir questdes de ampla ee acerca das concepedes de linguagem nos estudos da lingtiistica e campos afi bd ‘Na paisagem do rio dificil é saber Aseménticatexical 113 onde comega 0 rio; onde a lama comega do rio; onde a Terra comega da lama; onde o homem, onde a pele comega da lama; onde comega o homem naquele homem. Dificil ¢ saber se aquele homem ja nio esta mais aquém do homem; mais aquém do homem. a0 menos capaz de roer 0s ossos do oficio; capaz de sangrar na praga; capaz de gritar se a moenda Ihe mastiga o brago; ccapaz. de ter a vida mastigada endo apenas dissolvida (naquela gua macia que amolece seus ossos como amoleceu as pedras). Jo&o Cabral de Melo Neto — O cdo sem plumas, “Paisagem do Capibaribe, II”, In: Serial e antes. (1997) Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p. 79-80. A par da contundente denincia de condigées de vida e trabalho aviltantes de populagées situadas num tempo (anos 1940) e num espaco (Pernambuco) de- terminados, esse trecho traz um questionamento sobre os limites entre as coisas Postas em cena: onde a fronteira entre o rio e a lama? Entre a lama e a terra, entre a terra e 0 homem?... Esse recuo para aquém do evidente, essa problematizacio daquilo que parecia ponto pacifico — trago marcante do refletir — pode ser encara- do, nesse caso, como algo mais do que a mera caracterizagao de uma certa terra e uma certa gente. Aponta para uma discussio decisiva nos estudos da linguagem e que formularemos nos seguintes termos: devemos tomar a segmenta¢do do mundo em classes como qualquer coisa da ordem do “ja dado” ou do “construido”? Em Outras palavras, seria a estruturagdo do mundo em categorias algo previamente Constituido nas préprias coisas ou dependeria ela das diferentes maneiras de olhar Para o mundo? Se aderirmos a primeira hipétese, levantaremos uma teoria escora- da no referente externo a linguagem, ou seja, nas “prdprias coisas”, supondo por- tanto que © homem tem acesso direto a elas, independentemente de quaisquer filttos interpostos pela sua insergao sdcio-histérica ou cultural. Para essa visio, as ,