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Laurência Ficha 03

Modificação e Subsistência da Constituição


Conteúdo
Para se situarem as modificações constitucionais, importa, antes de mais,
partir de um conceito mais lato – o conceito de modificações constitucionais,
ou sejam, quaisquer eventos que se projectem sobre a subsistência da
Constituição ou de algumas das suas normas.
As modificações são de uma gama variadíssima, com diferente natureza e
manifestação, e podem dividir-se em cinco grandes critérios, nomeadamente:
a) Quanto ao objecto, quando às normas constitucionais que são
afectadas, as modificações podem ser totais e parciais. As primeiras
atingem a Constituição como um todo, trate-se de todas as suas normas
ou trate-se, tão-somente, dos seus princípios fundamentais. As segundas
atingem apenas parte da Constituição e nunca os princípios definidores
da ideia de Direito que a caracteriza.
b) Quanto ao modo, como se produzem, tendo em conta a forma como
através delas se exerce o poder ou se representa a vontade
constitucional, as modificações – e, desta feita, as modificações – podem
ser expressas e tácitas. No primeiro caso, o evento constitucional
produz-se como resultado de acto a ele especificamente dirigido; no
segundo, o evento é um resultado indirecto, uma consequência que se
extrai depois de um facto normativo historicamente localizado. No
primeiro caso, fica alterado o texto; no segundo, permanecendo o texto,
modifica-se o conteúdo da norma.
c) Quanto ao alcance, quanto às situações da vida e aos destinatários
das normas constitucionais postos em causa pelas modificações, há que
distinguir modificações de alcance geral e abstracto e modificações de
alcance concreto ou excepcional. Ali, têm-se em vista todas e quaisquer
situações de idêntica ou semelhante contextura e todos e quaisquer
destinatários que nelas se encontrem. Aqui, situações, verificadas ou a
verificar-se, e alguns dos destinatários possíveis abrangidos pelas
normas.
d) Quanto às consequências sobre a ordem constitucional,
distinguem-se as modificações que não colidem com a sua integridade e,
sobretudo, com a sua continuidade e que correspondem, portanto, a uma
evolução constitucional e as modificações que equivalem a um corte, a
uma solução de continuidade, a uma ruptura.
e) Quanto à duração dos efeitos, distinguem-se modificações de efeitos
temporários e modificações de efeitos definitivos. Aquelas são as
suspensões da Constituição lato sensu.
Portanto, as modificações constitucionais expressas constituem a grande
maioria das modificações; afirmam-se como actos jurídicos; tanto podem ser
totais como parciais; e entre elas contam-se, designadamente, a revisão
constitucional, a derrogação constitucional, a revolução, certas formas de
transição constitucional e de ruptura não revolucionária. Já as modificações
tácitas são necessariamente parciais, ainda que de alcance geral e abstracto;
e englobam o costume constitucional, a interpretação evolutiva e a revolução
indirecta.
Desta feita, apenas as modificações parciais implicam rigorosamente
modificações constitucionais. As modificações totais, essas correspondem à
emergência de nova Constituição, quer por via de ruptura esta que entende-
se como uma revolução, ou por via evolutiva, ou seja, a transição
constitucional.
De igual modo, as modificações de alcance geral e abstracto podem ser
totais ou parciais; não as de alcance individual, concreto ou excepcionais
essas entendidas como derrogações constitucionais, por definição sempre
parciais.
As modificações sem quebra de continuidade são quase todas parciais,
determinam meras modificações; as modificações com ruptura alinham-se
quase todas, ao invés, como totais. Mas pode haver modificações totais na
continuidade – contanto que a nova Constituição advenha com respeito das
regras orgânicas e processuais anteriores – e modificações parciais na
descontinuidade – as rupturas não revolucionárias.
As modificações de efeitos temporários ou suspensões da Constituição
podem ser totais ou parciais e feitas nos termos da Constituição ou sem a
sua observância. A suspensão total da Constituição redunda sempre em
revolução.
Bibliografia: CANOTILHO, J. J. Gomes, Direito Constitucional, Coimbra,
Livraria Almedina, 1993
GOUVEIA, Jorge Bacelar, Direito Constitucional de Moçambique, IDiLP,
Lisboa, 2015, pp. 670