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Coleção

História "57
Entramos de fato, há algumas décadas, nesta nova fase da história
do capitalismo que se chamou "globalização"? Ou estamos, antes,
assistindo à etapa da crise terminal do capitalismo como sistema
histórico mundial? O conjunto de ensaios aqui reunidos parte da crítica
LI?.'
radical dessa ideologia inventada pelos meios de comunicação de
massa, que criaram e difundiram em escala planetária a tese da suposta
"globalização"ou"mundialização''Com base em uma análise fundada na
longa duração,Carlos Antonio Aguirre Rojas propõe a tese instigante de
PARA COMPREENDER
que a etapa na qual nos encontramos há cerca de quatro décadas pode
ser mais bem definida como uma transição histórica global do capita
lismo rumo a uma nova sociedade mundial, cujos contornos podem ser
traçados em experiências como os movimentos antissistêmicos da
América Latina, de que são exemplos o Neozapatismo mexicano ou o
O SÉCULO XXI
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Brasil.

Assim, revisando esta etapa da crise final do sistema capitalista


mundial a partir de um horizonte crítico, global e amparado na perspec
tiva da longa duração histórica,este livro procura explicara significação
histórico-universal de fenômenos e processos fundamentais como a
Revolução Cultural de 1968, a queda do Muro de Berlim em 1989, a
tragédia do 11 de Setembro de 2001, a invasão do Iraque em 2003,
entre outros acontecimentos dramáticos de nossa época.
Finalmente, a partir daquelas mesmas premissas, ensaia-se também
uma explicação do papel específico, privilegiado e central desempe
nhado hoje pela América Latina no concerto das nações mundiais.

Í.ÍÍ'
Carlos Antonio Aguirre Rojas
(Tradução Jurandir Malerba)

ISBN 9788574309491

ISBN 9788575154489

^ U P R

Pontifícia Universidade Católica


UNIVERSIDADE DE PA S S O

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do Rio Grande do Sul
788575 154489
eUTOM DA U N I V t f I S l O Á O t O e PA S S O FUNDO

1
Carlos Antonio Aguirre Rojas (Ciudad
de México, 1955) é licenciado em Econo
mia, mestre em História Econômica e
Doutor em Economia pela Universidade
Nacional Autônoma do México, com
pós-doutorado na Escola de Altos Estudos
em Ciências Sociais cie Paris.
Atualmente é investigador Titular no
instituto de investigaciones Sociaies de ia
Universidad Nacional Autônoma de
México - UNAM e professor na Escueia
Nacional de Antropologia e Historia no
instituto Nacional de Antropologia e
listoria-INAH.
Foi nomeado várias vezes diretor de
estudos na Casa das Ciências do Homem,
de Paris, tendo recebido diploma de
Reconhecimento Acadêmico da Universi
dad de San Carlos da Guatemala. Foi
também professor visitante nas universi
dades de Toulouse, Michoacana de San PA R A C O M P R E E N D E R O
Nicoiás de Hidalgo e na Universidad
Nacional Mayor de San Marcos, de Lima, SÉCULO XXI
assim como pesquisador visitante no Uma gramática de longa duração
Centro Fernand Braudei da State Univer
sity of New York, Binghamton, no Centro
"Juan Marineiio'de Havana e investigador
Associado na sede de Paris da Universi
dade de Columbia. Membro do Sistema
Nacional de Investigadores de México
desde 1988, é, atualmente, o diretor da
prestigiada revista Contrahistorias. La otra
mirada de Clío.
Além de inúmeros artigos científicos
publicados em 12 idiomas e em 25 países,
tem seus livros publicados em espanhol,
francês, português, alemão, russo, polonês'
e chinês, editados em 14 diferentes países
"^UPF
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do Rio Grande do Sul

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Carlos Antonio Aguirre Rojas
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História "57
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Editoração e Composição Eletrônica Prólogo à edição brasileira
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Impressão e Acabamento 1 Balanço crítico do século XX. Breve, longo ou muito longo? 9
Este livro no todo ou em parte, conforme determinação IpoaI o- ^
De séculos cronológicos e de séculos históricos 9
expressa e por escrito do autor ou da editora. A exatidão da. por qualquer meio sem autorização As linhas de força do século XX histórico
imagens, tabelas, quadros e figuras, são de exclusiva responsabilidad^drautor ® opiniões emitidos, bem como as Século XX - periodização e caracterização
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fim de século e de milênio histórico, alvorecer de um mundo novo 25
2 1968: a grande ruptura
A284p Aguirres Rojas, Carlos Antonio
Uma sacudida planetária
durijooTSSt
- Port onl
Alegre: ^A^^^^^^^
EDIPUCRS; Passo Fundo: UPF 2^0 '• México, a sacudida civilizatória
128 p. - (Coleção História; 57) As lições de 1968

3 Repensando os movimentos de 1968 no mundo


de «I sigio XXI: una g,amé,ica
ISBN 978-85-7515-448-9 (UPF). 4 1989 em perspectiva histórica
ISBN 978-85-7430-949-1 (EDIPUCRS). História imediata e perspectiva histórica
Os vários significados de 1989
Traços essenciais do pequeno século XX
As lições de 1989
CDD 909.82
5 1992: uma leitura crítica do passado a partir do presente 61
Fciha Catao
l gráfcia ea
l borada peo
l Setor deTratamento da Informação Modas acadêmicas e realidades historiográficas
UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO Temas novos da historiografia latino-americana
EDIPUCRS
editora universitária 1492 em perspectiva histórica
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Campus I, BR 285 - Km 171
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Bairro: Partenon 6 Colocando o 11 de Setembro de 2001 em perspectiva histórica ....69
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Qfy
Editoras afiliadas à 7 As lições da invasão no Iraque °'
O novo "maccartismo planetário" dos Estados Unidos 87
NC&i O contexto econômico e geopolítico da invasão no Iraque 88
Associação Brasileira
das Editoras Universitárias Os grupos de interesse que governam os Estados Unidos após
o 11 / 9 / 2 0 0 1
"Oposições" e cumplicidades ao novo maccartismo global 91
A saída do labirinto: os novos movimentos antissistêmicos e
anticapitalistas mundiais 94
8 Marxismo, liberalismo e expansão da "economia mundo"
europeia 97
9 Atuais encruzilhadas do neozapatismo mexicano. Há dez anos Prólogo à edição brasileira
do 1° de Janeiro de 1994 105
10 América Latina depois do 11 de Setembro de 2001 117 O livro que o leitor tem em mãos consiste, na realidade, de uma com
O contexto mundial posterior ao 11 de Setembro de 2001 117 pilação de textos escritos entre os anos de 1991 e 2004. Esses textos foram
A América Latina na geopolítica mundial contemporânea 120 redigidos em diversos momentos, porém sempre com a intenção de procurar
analisar e interpretar alguns dos acontecimentos imediatos e mais impor
As novas formas da imposição hegemônica norte-americana na tantes que se sucederam, a partir de uma ampla e profunda perspectiva tem
América Latina 123
poral, ou seja, a partir do enfoque braudeliano da longa duração histórica.
Felizmente, sem dúvida, "um outro mundo é possível!" 127 Tratava-se, em cada caso, de considerar tais acontecimentos e manifestações,
para além de sua imediatez, como expressões de tendências profundas e es
truturais das sociedades, ou, em outro sentido, como acontecimentos cuja
explicação pode melhor ser alcançada com base na perspectiva dessas estru
turas lentas e processos essenciais de muito maior alento.
Em seu momento, estes ensaios foram publicados, em espanhol, em
revistas do México, Espanha, Colômbia, Argentina e Guatemala, e, em al
gumas ocasiões, foram traduzidos ao italiano, francês, português, alemão,
galego e inglês, circulando também em revistas da Itália, França, Portugal
e Alemanha, ou em revistas eletrônicas internacionais, o que lhes deu uma
certa difusão. Ademais, este livro, com pequenas variantes devidas a razões
locais, já foi editado em formato livro em Cuba, Espanha e Argentina, o que
fez ampliar ainda mais a circulação do material que contém.
Por esses motivos, decidimos publicar os presentes ensaios sem modifi
cações, ainda que conscientes de que certos detalhes possam, eventualmen
te, causar espécie ao leitor brasileiro hoje. Porém, a razão, efetivamente, de
fundo para que estes ensaios não fossem alterados para a presente edição
repousa em nossa convicção de que o diagnóstico e o exame críticos neles
empreendidos em torno dos processos essenciais e das tendências evolutivas
fundamentais consideradas permanecem essencialmente válidos e, por fim,
ainda úteis para a compreensão do mundo atual a partir de uma gramática
de longa duração. Vistas com a distância do tempo transcorrido, as análises
e hipóteses que fomos elaborando a cada momento em torno dos distintos
temas que estudávamos parecem ter resistido à prova do tempo, sustentan-
do-se como possíveis explicações dos núcleos centrais de tais problemáticas.
Isso, em nossa opinião, referenda a legitimidade do enfoque que aqui pro
curamos pôr em prática.
que, a rigor, se revela na medida mesma dos fatos, fenômenos e processos socialismo como projeto histórico, na irrupção do fascismo e do nazismo - com
sociais que estudam tanto os cientistas sociais quanto os historiadores.' todas suas profundas mazelas históricas -, ou, ainda, em outras explicações,
Por isso, já há algum tempo os historiadores críticos se acostumaram a a sublinhar como traços dominantes deste século XX histórico o processo de
não dar muita importância aos séculos cronológicos, com seus cem anos pre
emergência, desenvolvimento e crise da hegemonia norte-americana sobre o
cisos, para falar, agora, dos séculos históricos, possuidores de durações crono conjunto do sistema capitalista mundial.''
lógicas muito diversas. Essa nova atitude em face da cronologia levou os his Advogando-se, então, por um "breve século XX", que na maioria dos casos
toriadores a postular a existência de, por exemplo, um "longo século XVI" de
começa em 1914 ou 1917 e chega até 1989 ou 1991, ou, no outro caso, por um
quase duzentos anos, algo entre 1450 e 1650, assim como de um século XVII "longo século XX", que correria aproximadamente entre 1870 e, talvez, 2025 ou
que só acabaria por volta de 1730; ou a proporem um estudo sobre "os séculos 2050, o primeiro ponto de discrepância em torno deste balanço crítico do século
XVI e XVir, neste caso situados entre 1492 e 1715; ou, ainda, um ensaio so XX histórico apresenta-se justamente em relação a qual foi o processo funda
bre um século XVIII abarcando o período entre 1715 e 1815. Para além desse mental desenvolvido dentro do século XX cronológico, processo que, com sua
olhar envolvente, ao subdividir ainda "o longo século XVI" em um "primeiro"
e em um "segundo século XVI", ou ao propor que todos os séculos históricos própria temporalidade, determinaria também a possível duração do referido
século XX histórico.
sao "longos", necessariamente se sobrepondo ou invadindo uns aos outros,
os historiadores e cientistas sociais realmente críticos acabaram definindo,
mmto claramente, que a duração específica de cada século histórico depende, As linhas de forca do século XX histórico
essencialmente, dos principais processos e fenômenos históricos que o carac
terizam e que dentro dele se desenvolvem processos e fenômenos que acabam Também não acreditamos que a Segunda Guerra
determinando justamente as datas-baliza de cada século histórico estudado ^ Mundial possa ser vista, em suas origens, unica
Desse modo, e seguindo essa lição importante da historiografia francesa mente como um conflito de ideologias... (ao contrá
dos últimos cinqüenta anos, os cientistas sociais trataram de caracterizar rio disso) é todo um mundo social, o do capitalismo
decadente, segundo Sombart, que então vacila em
qual sena a temporalidade especifica correspondente ao século XX históri seus próprios fundamentos, que treme nas bases.
co. Nessa perspectiva, a temporalidade deveria se estabelecer em função dos
processos e fenômenos fundamentais que marcaram «cc - j f- ■ Fernand Braudel
™ abordageme
l vou ag
l uns a faa
l rem de um "00^ o^d?;:teve ScuTo ("La faillite de Ia paix 1918-1939", Conferência
proferida na Universidade de São Paulo, 1947)
depósL~ Xr e^e^rnt^^^^^^ XX".
' desenvolvimento - do-
e crise Qual seria a característica dominante e essencial do século XX, o pro
' Sobre esta muito distinta noção do tempo, concebida com cesso central que nele teve lugar e que, em conseqüência, dá sentido a todos
os demais processos e fenômenos deste mesmo século? Qual a chave mestra
tradição da corrente dos Annales, ver BLOCH, Marc An ^ histórico-social dentro da
historiador. México: Fondo de Cultura Econômica 1996 BRAnn^T '"«'""a o d ofido de para a compreensão global desse momento histórico fundamental?
historia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1991 Veiai^T k Duas respostas diferentes apresentaram-se para responder esta per
balhos: ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. La Escuela de tos An^i^ seguintes tra- gunta inicial, as quais, para além dos matizes de cada autor, logo de cara de-
celona: Montesinos, 1999; Fernand Braudel y Ias ciências hum n
1996;
- Sobre osEnsayos
exemplos brauddianos.ver
mencionados Rosári o: Manuel
Fernand Braudel,Suárez
que falaEdi
H»tor, 2000 Montesinos,
por exemplo, em seu ensaio European expansion and capitalism ' Sobre essas distintas caracterizações do século vinte histórico, ver HOBSBAWM, Eric. Historia
western civilization. Nueva York: Columbia University, 1961- ou Piar.- "n ?' (Chapters in dei siglo XX. Barcelona: Crítica, 1996; HABERMAS, Jurgen. Nuestro breve siglo Nexos, ago.
temporalidade do século XVII desde 1598-1602 até 1730, em'seu litTr T ^ 1998; ARRIGHI, Giovanni. El largo siglo XX. Madrid: Akal, 1999; WALLERSTEIN Immanuel.
au XVIle siecle. Paris: Flammarion, 1968. Também o livro de RolandMoS" Siglo pasado, milênio pasado. La Jornada, 10 mar. 2000; El siglo XX: òoscuridad al me lo la^.
XVI. Barcelona: Destino, 1981; o de Roland Mousnier e Ernest Labrousse. S WífRe! Eseconomía, n. 2,2003; ECHEVERRÍA, Bolívar. El sentido dei siglo XX. Eseconomia, n.
ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. 1989 en perspectiva histórica. La Jornada Se-manal, n. 199,4
volución intelectual, técnica y política (1715-1815). Barcelona: Destino iQfti n « • abr. 1993. De maneira complementar a esses textos, ver também SAID, Edward. La experiencia
to" e um "segundo" século XVI falou Immanuel Wallerstein em seu 1í\t-o Fi P""""®' histórica. Viento dei Sur, n. 8, 1996; a coletânea Le court vingtieme siecle. 1914-1991. La Tour
mundial. México: Siglo XXI, 1979 (tomo I). Immanuel Wallerstein defende a ideia^dos "lonMS d'Aigües: De TAube, 1991; HOBSBAWM, Eric. Entrevista sobre el siglo XXI. Barcelona: Crítica,
séculos históricos" que se superpõem constantemente em seu livro Critica dei sistema-mundo
2000; BRAUDEL, Fernand. La faillite de Ia paix 1918-1939. In: Les ecrits de Fernand Braudel.
capitalista. Entrevista con Immanuel Wallerstein. México: Era, 2003.
L'histoireauquotidien. Paris: De Fallois,2001;Lascíi;i/í2acíoncsacíz/a/es. Madrid: Tecnos, 1978.
1 O Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 11
finem duas visões mmto distintas do que foi o século XX, e, por fim, duas ava- No outro extremo, temos o entendimento segundo o qual o século XX
laçoes também muito diversas dos principais processos no período em tela.
or ® o» temos a tese de que o processo essencial do século XX histórico foi o da "hegemonia norte-americana", que postula ainda a existência de um
"longo século XX", cuja curva de vida seria idêntica à do itinerário geral da
1914-iq ® afirmação do projeto socialista mundial, iniciado em construção, auge e decadência dessa mesma dominação histórica dos Estados
H ^° triunfo da Revolução Russa, e concluído em 1989-1991, com Unidos. Portanto, esse longo século XX teria começado por volta de 1870, mo
se cri ^ ^ Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Assim, o projeto de mento que marca o fim do auge da hegemonia capitalista inglesa e quando
mais socialista em escala planetária seria a empresa histórica
ou "breve° de^todo o século XX, o que nos levaria a falar de um "curto" começa a se esboçar a disputa entre Alemanha e Estados Unidos pela hege
monia capitalista no planeta. Esse longo século XX não teria ainda chegado
rárin rlJ? XX", cuja periodização geral coincidiria com o próprio itine- a seu termo, e, dando-se crédito à teoria dos ciclos econômicos de Kondratiev,
Ness edificação do socialismo."'
coisa sen~^ de raciocínio, a hegemonia norte-americana não seria outra perdurará até o ano de 2025, ou mesmo até 2050.®
versas h ^ ®^Pítulo mais recente de uma série mais longa e repetida de di Esta segunda posição ou entendimento funda-se na centralidade da he
go dos capitaUstas, as quais, renovando-se e sucedendo-se ao lon- gemonia norte-americana, que desconsidera o socialismo do século XX como
o seu últi^°^ ^^ünhentos anos, teriam nessa hegemonia dos Estados Unidos um fato relevante', ou melhor, considera que as sociedades socialistas, para
seria tal ° ^^®tar. Um avatar cuja diferença com seus homólogos anteriores além de sua retórica e do combate ideológico ao capitalismo, permaneceram,
'to "imn ^^i'- ° agora uma hegemonia do "capitalismo imperialista" ou em essência e ao longo de todo o século XX, como sociedades capitalistas, ca
nem, seo mas não um processo novo, tampouco mais importante, racterizadas pela existência de uma nítida divisão de classes e pela luta de
projeto equiparável à significação do intento representado pelo classes e nas quais, para além de certas mudanças jurídicas e políticas for
tão fort^^*^^^^^^' ■^t'emais, essa hegemonia norte-americana não teria sido mais, mantiveram-se a exploração econômica, a opressão política e a desigual
^onte decisiva, pois seu domínio teria sido questionado e seria- dade social.
"mundo - ^ dnrante várias décadas em razão da existência de um vasto Em sintonia com essa caracterização, os defensores da tese de um longo
chegou a cobrir um terço de todos os países do globo. século XX insistirão em que as dimensões do horror representado pelas duas
® Princi nessa perspectiva que privilegia o socialismo como
guerras mundiais e, sobretudo, o fenômeno do holocausto se explicam pela
duas ^ tinha de força do século XX, o fascismo, o nazismo e, inclusive, magnitude igualmente enorme que alcançou a curva de crescimento demo
capitalisf^^^^^ mundiais seriam apenas a expressão renovada da violência gráfico durante o século XX e, com ela, todos os fenômenos sociais possíveis,
to eníT-í, imperialista) própria dessa época, a qual se teria exercido tan-
agora convertidos em fenômenos de massa, sob um pano de fundo de uma
®9uela di ■ . ^®ies capitalistas para definir a nova divisão do mimdo, ou sociedade capitalista e, por isso, estruturalmente racista, violenta, repressiva
® União contra o povo judeu pelos nazistas; ou ainda a violência contra
e indiferente em relação ao destino das populações pobres e oprimidas.
anular suas^^^^^^ seguida, contra todo o mundo socialista, na busca de Para além dessas duas posturas, e talvez sem pretenderem propor uma
mente como conquistas
® alternativa ou de,
histórica aosi
mplesmente,
capitalismo eliminá-las completa-
reinante. nova temporgdidade para o século XX histórico, há autores que insistiram
em certos fenômenos virtualmente decisivos do século XX, seus divisores
4 Ta l v © " de águas fundamentais, ou que procuraram definir seu sentido de desen
seja representativo desta posição que defende a existência de um breve século
volvimento mais profundo e essencial. Por exemplo, afirmam que um des
com ele Jur ^®t)awm, em seu livro Historia dei sigla XX, acima citado. Também concorda ses divisores de águas é a "derrota do fascismo" depois da Segunda Guerra
antes da oi^r em seu ensaio igualmente citado "Nuestro breve siglo". Desde 1993,
defendido t <le Eric Hobsbawm e do ensaio de Jurgen Habermas, tínhamos
tórica" E ^ ®esma tese de um "breve século XX" em nosso ensaio "1989 en perspectiva his- ® Talvez o autor mais representativo desta posição seja Immanuel Wallerstein. Deste autor, ver
essencial, ™aate
considerando que as principais teses desenvolvidas nesse possível
ensaio permanecem "El siglo XX óoscuridad al medio dia?" e seu livro Crítica dei sistema-mundo capitalista. En
corretas,
is onco dentro de umpensamos, aosécul
"muito longo contrário,
o XX", que
nareenquadrar
perspectiva esse
que desenvolv"breve"
eremosséculo
mais trevista a Immanuel Wallerstein, ambos citados. Também seus artigos: La imagen global y Ias
posibilidades alternativas de Ia evolución dei sistema-mundo, 1945-2025. Revista Mexicana de
sentid explicar melhor os mesmos processos que então tínhamos caracterizado nesse Sociologia^ n. 2, México, 1999, e Paz, estabilidad y legitimación, 1990 - 2025/2050. In: Después
dei liberalismo. México: Siglo XXI, 1996.

1 2 Carlos Antonio Agulrre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 3
Mundial, que viria acompanhada de uma reivindicação radical dos valores descendente do projeto da modernidade burguesa, iniciado em 1492 com o
da herança da Ilustração, a qual abriria espaço para o desenvolvimento do descobrimento da América, e também com esse "nó histórico privilegiado"
Estado de bem-estar social e para os processos de descolonização do segundo que é o século XVI - o século que, segundo Marx, marca o início da "era do
pós-guerra.® capital", projeto da modernidade burguesa cuja linha ascendente atravessa,
Esses autores insistiram, ainda, na postura que perceberia a violência aproximadamente, trezentos e cinqüenta anos, para culminar justamente na
nazi-fascista como a resposta radical e exacerbada do "partido da ordem" irrupção das revoluções européias de 1848.
europeu e do projeto burguês da modernidade à possibilidade do triunfo do Tudo isso fica muito evidente nos planos geográfico, tecnológico, econô
projeto comunista ^oletário, prefigurado e afiançado ao longo da segunda mico, social, político e cultural a partir de uma perspectiva de longa duração,
pois o conjunto de tarefas históricas que correspondem a esse período históri
^voluçao Russa de 1917 e nos primeiros anos de história da União Soviética co da modernidade capitalista burguesa já se realizou, chegando a seu ponto
qualitativo de culminação histórica quando, no nível geográfico, a presença
da civilização europeia capitalista tomou-se mundial, no momento em que
as potências européias lograram expandir as malhas do mercado mundial
capitalista por todo planeta, o que se alcança com as guerras do ópio contra
a China e com a partilha da África realizadas em meados do século XIX cro
Io XX^TeveríamCi^n^ um «longo sécu- nológico.®
do socialismo ou a curva da^eeemo^^^^° <^mmante dele o projeto histórico Junto com essa culminação da "tarefa geográfica" ocorrem também a
dos casos, com bLeTeLÍtracT^Z Revolução Industrial e a criação das formas mais elaboradas do modo de
^ como
\ mentosexpl
sociicaar o nazi
is de 1968smo
ou ae o fasci
queda do's
Mmo aMundi
uro^e TeZLalMundi al,-
, os movi
produção capitalista, ou seja, as claras expressões do coroamento tecnológico
e econômico da função histórica da civilização capitalista. Ao mesmo tem

^ ~Ij fundamentais deste século


superarXX histórico? ^ fenôme- po, com a formação completa da estrutura das classes sociais hoje existen
opinião, e buscando est?n nr.f tes e com a Revolução Francesa, surgem as hierarquias e as figuras sociais
y posiçoes indicadas, talvez devêssemos oLtuL^r ®ntre as duas principais características do mundo burguês moderno, bem como as formas
f muito hngo sim
histonco ilar ao
tena tidoigualmaproximada4nte
início, ente Jgo jeulo ^aÊr
u^'fd"""? ^
^
de Estado e de política mais desenvolvidas que correspondem a este projeto
da modernidade burguesa ainda vigente. Finalmente, com o movimento da
peias de 1848 e se estenderia ao longo dos últim^ ^®^oluções euro- Ilustração burguesa, atingem o ápice todas as transformações progressivas
6 mesmo além, para, talvez, terminar em uma data ení ® ^^^^^^enta anos que essa modernidade capitalista podia oferecer à história cultural do gênero
2050. Esse muito longo século XX de quase duzent ^030 e humano.®
como processo característico ou traçominante
dominnr,+ci
o de cronológicos terá
abarcar toda linha Assim, se 1848 é a data em que simbolicamente culmina esse movi
mento ascendente e progressista da modernidade burguesa, marca também o
início da linha descendente da curva global deste projeto da modernidade ca
" Este ponto de vista é defendido por Jurgen Habermas no ensaio "N
nossa opiniáo, apesar de Habermas mencionar vários processos e oreve siglo". Em pitalista. Isso explica o fato de que, depois da primeira metade do século XIX
racterísticos do século XX, não consegue articulá-los dentro de^ ®^o"^enos importantes ca- cronológico, a modernidade burguesa não criou mais qualquer forma quali-
permita deles inferir uma linha central ou um processo fundament global, que ® Sobre as vicissitudes históricas do processo de expansão geográfico-econômico, de magnitudes
cuj
■Para
aotemporal
desenvid
ovade
i enpermi
lm to matasi ja
um
stificpar
l dsua
o estaposturra
postu a vsobre
er Boílvum
ar Ecbreve
heverrLsécul
"El o ^ processo planetárias, da civilização europeia, veja-se, por exemplo, BRAUDEL, Fernand. Civilización
XX", acima citado. Em nossa opinião esta postura, que remonta à explicação material, economia y capitalismo. Siglos XV-XVIII. Madrid: Alianza Editorial, 1984, e Los civi-
barbárie nazista do holocausto judeu, assim como à confrontação de longa dur^''^'"° ^ lizaciones actuales, citado. Ver também a obra de Immanuel Wallerstein. El moderno sistema
proe
j to comunsi ta e o proe
j to burguês, parece também apontar para uma possível mundial México: Siglo XXI, 1979, 1984 e 1998, tomos I, II e III, respectivamente.
® Esta idéia de que no século XIX culminam os aportes histórico-progressivos da modernidade é
com a hp i ótese que desenvovl eremos a seguri acerca da exsi tênca
i de um "sécuT
l ^'
o
l ngo". Sobre a postura da Escoa l de Frankfurt referd
i a, verADORNO,Theodor; HORm i p^" expressa claramente por Marx em seu célebre texto Manifiesto dei Partido Comunista. Moscou:
MER, Max. La dialéctica dei ilunnnismo. Buenos Aires; Sudamericana, 1969; ADORNO Th Progresso, 1970, e também, de uma maneira muito mais complexa e desenvolvida, em seus Ele
dor. Mf/íi/no Moro/ío. Madrid: Ta u r u s , 1987. ' mentos fundamentales para Ia crítica de Ia economia política. Grundrisse 1857-1858. México:
Siglo XXI, em três tomos: 1971, 1972 e 1976, respectivamente.

1 4 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 5
tativa nova que não existisse antes de 1848, pondo-se tão-somente a incre chinesa — nas futuras tentativas e esforços de superação do capitalismo ainda
mentar e potencializar quantitativamente as mesmas propostas e as mesmas reinante.
realidades antes conquistadas, ao mesmo tempo em que expandia e intensi Tal involução dessas revoluções anticapitalistas triunfantes deve-se, em
ficava sua presença planetária por todo globo ao acelerar o desenvolvimento grande medida, ao fato de que ocorreram, em geral, em países muito pouco
do capitalismo em todos os rincões do mundo europeu. desenvolvidos em termos capitalistas, ou seja, em sociedades pouco maduras
Se 1848 é esse ponto de viragem na curva da longa duração da moder econômica, social, política e culturalmente. De uma maneira dramática, isso
nidade, que anula a possibilidade da aparição de novas contribuições histó- nos lembra a tese proposta por Marx: da necessidade de um certo grau míni
rico-progressivas, marca também o imcio de uma longa e complexa curva mo de desenvolvimento capitalista como precondição de qualquer tentativa
de desenvolvimento histórico, que estará marcada, simultaneamente, pela para sua própria superação histórica."
lenta, mas inexorável demonstração da falência histórica do projeto dessa Porém, por outra parte, em face dos defensores de um longo século XX
modernidade, o que se constata na recorrência de cada vez mais numerosas e e da centralidade da hegemonia norte-americana, há que se sublinhar que
cada vez mais sohdas tentativas e esforços históricos práticos para transcen se tratou de uma hegemonia mundial própria da etapa de decadência da mo
der esta civilização capitalista moderna, substituindo-a por um novo projeto dernidade capitalista e, por fim, de uma hegemonia não progressista, mas
histórico de sociedade.
destrutiva, que sem oferecer praticamente nenhum novo desenvolvimento
Em nossa opinião este seria o traço dominante do longo século XX que qualitativo importante, seja no plano político, seja no social ou no cultural,
postulamos: o da existência de uma lenta dacootm + - . limitou-se a potencializar o crescimento econômico e a riqueza material do
Se conteúdo do capitalismo, comTtambémTr'^^""^^^° f esvaziamento esquema vazio e limitadamente técnico do americam way of life.
premissas e pré-requisitos necessários para a edificaSf^^^" diversas Se esse longuíssimo sécvdo XX é marcado por uma hegemonia mundial
histórico não capitalista. ^ ^ edificação de um novo quadro decadente e pela decadência geral da modernidade, essa talvez seja a expli
Essa longa e permanentemente conflifí,,., • r- .
nada casual de que o marxismo tenha nas "d explica o fato cação de que, em vez de novas "Américas por se descobrir", tenham havido
movimentos antissistêmicos de 1848 e qu ° Precisamente na época dos apenas novas partilhas mesquinhas do mundo e do fato de que os progres
sos tecnológicos e econômicos atuais estejam, mais do que nunca, orientados
to crítico contemporâneo,!® assim como ex origina o pensamen-
movimentos sociais antissistêmicos e anf ^ e existência de para os fins de uso bélico nas guerras cada vez mais destrutivas do nosso
cuja ação, lutas e vicissitudes cobrem alistas cada vez mais sólidos, tempo, assim como para uma exploração econômica e o desenvolvimento de
go século XX. ™ praticamente toda a história desse lon- processos complexos de manipulação da consciência e da opinião pública,
Então, diante dos defensores do breve ' quando a polarização social entre as classes, grupos e nações alcança extre
socialista como seu traço dominante, esta ^ ^ e da idéia do projeto mos insondáveis.

longo aceita que, sim, tratou-se de toda ^ Desse modo, tanto o projeto real, mas perdedor, de construir o socialis
de superar o capitalismo, originadas de poder genuínas tentativas mo em vários países do mimdo, quanto a curva de vida da decadente hege
tas inicialmente triunfantes, que, após breveT°^^' revoluções anticapitalis- monia norte-americana se integram num processo mais global e dominante,
décadas - talvez até aproximadamente 1927 alguns lustros ou que seria o desse ramo descendente da modernidade burguesa capitalista,
caracterizada, ao mesmo tempo, por toda a série de manifestações da len
para o caso chinês, por exemplo -, acabaram ínooZ°russo, ou até 1976 ta e progressiva desestruturação do capitalismo, bem como pelo conjunto de
construir versões bizarras do capitalismo nos res"^'^^°' terminar por experiências, de ensaios — vitoriosos ou derrotados — e de manifestações do
aconteceu não sem antes esses movimentos tere^^^^^^°^ Países. Mas isso pensamento crítico e dos movimentos sociais anticapitalistas.
rias dos movimentos sociais anticapitalistas, cujo lee ^d
como no caso dos profundos debates em tomo da constmc~ tendamental -
nãocapta
isiltaesboçadosnaRússa
i dosanosvn
i teouna^evohT^^emnoma
i
Sobre o nascimento do marxismo e o desenvolvimento do horizonte do
contemporâneo, ver El discurso crítico de Marx. México: Era, 1986; crítico Sobre este ponto vejam-se os trabalhos de MARX, Karl. La ideologia alemana. México: Edicio-
Aguirre.Antimanual dei mal historiador. México: La Vasija, 2002; à probleina^eT nes de Cultura Popular, 1974 (capítulo I); Crítica dei Programa de Gotha^ Pequim: Ediciones
en Ia concepción de Marx y Engels, Revista Mexicana de Sociologia, n. 4, 1983 ^ istona en Lenguas Extranjeras, 1979.

Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 7
Essa chave permite não apenas entender as duas guerras mundiais, o de 1949, respalda-se e fortalece-se enormemente o projeto iniciado em 1917
fascismo e o nazismo, as ditaduras militares e os recentes fenômenos do 11 de com a Revolução Russa, implicando que um terço dos territórios do planeta
Setembro de 2001'^ e das invasões no Afeganistão e no Iraque pelos Estados fossem então, e durante várias décadas, parte do mundo socialista.
Unidos, mas também, no outro extremo, as revoluções européias de 1848 e a Assim, para essa perspectiva de um curto século XX, o único corte sig
Comuna de Paris, o crescimento impetuoso do movimento socialista, primeiro nificativo de periodização seria este de 1939-1945, que dividiria em dois esse
europeu e depois mundial, a Revolução Russa de 1917 e a Revolução Chinesa mesmo breve século XX. Nessa perspectiva, a decisiva revolução cultural pla
de 1949, bem como as revoluções culturais de 1968, o desenvolvimento das
netária de 1968 simplesmente não seria relevante, sendo aqui considerada
novas esquerdas, a rebelião neozapatista de Chiapas'-' ou os Fóruns Sociais
Mundiais de Porto Alegre, entre muitos outros fenômenos do século XX. como não mais que um conjunto de movimentos e agitações estudantis de
Trata-se, ainda, de uma chave que nos permite aproximarmo-nos com importância menor, jamais um ponto de ruptura ou de viragem histórica dig
novas luzes críticas, de uma possível periodização desse século XX histórico. no de nota. Ao contrário, a revolução de 1968 é subsumida totalmente dentro
da idéia de que, entre 1945 e 1990, o mundo viveu uma série de profundas
Século XX - periodização e caracterização revoluções demográficas, sociais e culturais de grande envergadura, mas que
em nada se achariam associadas a essa data simbólica essencial de 1968.
A verdadeira exatidão consiste em se deixar guiar, No outro extremo do leque, a postura que advoga a existência de um
em cada ocasião, pela natureza do fenômeno
longo século XX, entre 1870 e 2025-2050, reconheceria, ao contrário, que o
considerado.
primeiro e mais significativo corte na periodização do século XX seria o da
Marc Bloch dupla ruptura representada por 1968 e por 1972-1973, ou seja, a ruptura que
{Apologia por Ia história o ei Oficio de históriador, cadência a revolução cultural de longa duração representada por 1968,'"'jun
1941-1943) to com a crise econômica mundial de 1972-1973, inaugura a etapa de bifurca-
Uma vez estabelecidas as balizas temporais desse possível século XX ção histórica geral, ou crise terminal do sistema mundo capitalista mundial,'®
histórico, levanta-se o problema de sua periodização^ ou seja, dos possíveis que marca a história do longo século XX.
cortes significativos que, num segundo momento da análise, subdividiriam Então, considerando 1945 apenas como o fim da "guerra dos trinta
internamente essa história do século XX que aqui buscamos explicar. anos", que marca a derrota total da Alemanha e o triunfo dos Estados Unidos
Neste ponto, os critérios daqueles que defendem a tese de um breve em sua disputa pela hegemonia mundial, os defensores deste longo século
século XX e que postulam a idéia de um século XX longo voltam a se cin XX vão, ao contrário, sublinhar a centralidade e prioridade do corte de 1968-
dir. Para os defensores do breve século XX, o primeiro e mais importante 1973, o qual iniciaria um processo duplo. Em primeiro lugar, o início da fase
ponto de periodização do itinerário histórico compreendido entre 1914-1917 de decadência da hegemonia mundial norte-americana, exercida praticamen
e 1989-1991 seria, sem dúvida, o do corte de 1945, que finaliza a Segunda
te sem contestação entre 1945 e 1973 e que, a partir desta última data, come
Guerra Mundial. Isso porque, se o processo fundamental do século XX é o da
existência de um mundo socialista^ 1945 será o momento a condensar simbo ça a se erodir definitivamente para desembocar nas desesperadas e fraudu-
licamente esse nascimento de todo um "sistema global de sociedades socialis
tas". Com todas as nações da Europa oriental que se convertem ao socialismo Sobre esta revolução cultural de longa duração de 1968 ver BRAUDEL, Fernand. Renacimien-
depois da Segunda Guerra Mundial e com a Revolução Chinesa triunfante to, reforma, 1968: revoluciones culturales de larga duración. La Jornada, Suplemento La Jor
nada Semanal, n. 226, 10 out. 1993; WALLERSTEIN, Immanuel. 1968: revolución en el siste-
ma-mundo. Tesis e interrogantes. Estúdios Sociológicos, n. 20, 1989; ROJAS, Carlos Antonio
Sobre este problema ver: ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. 11 de septiembre de 2001: una pues- Aguirre. 1968: Ia gran ruptura. La Jornada, Suplemento La Jornada Semanal, n. 225, 3 out.
ta en perspectiva histórica. La Insignia. Disponível em: http://www.lainsignia.org. Acesso em: 1993; Repensando los movimientos de 1968. In: 1968. Raíces y razones. Juárez: Universidad
20 nov. 2001; El maccartismo planetário. América Latina después dei 11 de septiembre. La Autônoma de Ciudad Juárez, 1999.
Jornada, Suplemento Masiosare, n. 237, 7 jul. 2002. Sobre esta tese da bifurcação histórica ou crise terminal do capitalismo, ver WALLERSTEIN,
Sobre esta rebelião neozapatista de Chiapas, veja-se o livro de ECHEVERRÍA, Bolivar; WAL- Immanuel. Después dei liberalismo. Siglo XXI, 1996; Utopística o Ias opciones históricas dei
LERSTEIN, Immanuel; MONTEMAIOR, Carlos; ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. Chiapas en siglo XXI. México: Siglo XXI, 1998; HGPKINS, T. H.; WALLERSTEIN, Immanuel (Coord.).
perspectiva histórica. 2. ed. Barcelona: El Viejo Topo, 2002. The age of transition. Trajectory of the world-system 1945-2025. Nova York: Zed Press, 1996.

1 8 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 9
lentas respostas belicistas dos Estados Unidos ao 11 de Setembro, seguidas simbólica do colapso definitivo da ideologia do liberalismo como geocultura
pelas contestáveis mvasões no Afeganistão e no Iraque. Em segundo lugar, dominante do sistema capitalista mundial. Se para esta visão o socialismo
o início da cnse terminal do capitalismo como sistema histórico, a qual há nunca chegou a se constituir enquanto tal, o acontecimento simbólico da que
tnnta anos vem desestmturando tanto a "nação" como o Estado, pondo em da do Muro de Berlim é mais bem definida como a crise final do domínio que
xeque a economia, sociedade, política e cultura modernas Esse cõlanso é ge- o liberalismo, como ideologia política e como geocultura dominante, exerceu
rado quando essas realidades e instâncias da mnHo • j i ^sse colap g durante praticamente dois séculos tanto sobre a ideologia "conservadora"
se veem ameaçadas tanto por uma insolúvel crise ewló como sobre a ideologia "socialista".
catastrófica baixa da rentabilidade das inversões can ""T Acorde, então, com a idéia do fracasso e da não existência histórica do
mente, pela democratização generalizada que abala ^ socialismo, esta postura vai postular que, nos líltimos trinta anos do século
ou por um descrédito geral das nonnio - marcos capitalistas, XIX, e sobretudo de quase todo o século XX cronológico, o liberalismo domi
dos políticos em geral, juntamente com a'crisTgiotefd" ' nará efetivamente a cena geocultural mundial, penetrando tanto a concepção
conhecimentos humanos, construído Ká • - sistema de saberes e socialista como o pensamento conservador, para terminar submetendo-os e
modernidade burguesa e capitalista séculos, junto com essa mesma incorporando-os como simples variantes suas: em um caso, como a versão
liberal-conservadora e, no outro, como a vertente liberal-radical ou liberal-
1968,asduasperspeSvasTobre^^l'^^'^^®quantoaoscortesde1945e socialista. Assim, o verdadeiro sentido da ruptura de 1989-91 não seria a
bém visões distintas com relação d T ^ ^ crise final do socialismo real, mas, antes, o colapso final da hegemonia do
que são 1914-1917, por um lado 1989 balizam o breve século pensEimento liberal sobre as duas vertentes do pensamento que lhe eram
defensores do breve século XX 1914-1 qi 7 -' Enquanto, para os supostamente alternativas, a saber, a ideologia conservadora de direita e a
do pensamento socialista crítico.^®
o projeto socialista e, por isso o inío- d ^ fundamental do início
O colapso do liberalismo como ideologia dominante do sistema capita
fensores de um longo século XX tr^íT ® os autores de- lista mundial seria, então, uma das chaves centrais da explicação dos pro
entre Alemanha e Estados Unidos 0!^^' do início da disputa cessos desenrolados dos quinze anos posteriores a 1989, marcados pelo claro
capitalista. Nessa perspectiva, a rLL ~ dentro do sistema ressurgimento de uma direita conservadora, belicosa e militante, que agora
projeto que estava condenado ao fi-acas^fd ó vista como um detém o poder em países como Estados Unidos, Espanha, Áustria, México
ciedade nova e socialista, superior ao canití ^ P^opo^ uma so- e Itália. Igualmente, assiste-se, nessa mesmo período, ao florescimento de
além de tudo, de um país pobre, rural e n^ de um único país e, várias novas esquerdas, relativamente isentas dos elementos da ideologia
naquela época. Pertencente k periferia do capitalismo liberal e francamente perfiladas a um pensamento ideológico genuinamente
Tal entendimento leva esses autores a de esquerda.
revolução socialista, a Revolução Russa de do que uma Desse modo, resta claro que as duas posições divergentes em torno da
com as revoluções posteriores da China da Eu também sucederia defesa, por um lado, da vigência de um longo século XX e, por outro, a de
Cuba - foi, a rigor, apenas uma revolução nari ^ °"ental, do Vietnã ou de um século XX histórico breve, não apenas diferem quanto à caracterização
de um profundo e radical sentido social, mas • talvez impregnada histórica do período, mas também quanto à explicação do que, em termos
não a construção de uma verdadeira sociedade ° ^®si^tado global terá sido gerais, consistiram as rupturas ou pontos de inflexão histórica fundamentais
de 1914-1917, 1939-1945, 1968-1973 e 1989-1991. Todas de inquestionável
processo que permitiria à Rússia passar da condic-'^^rf relevância histórica, essas datas também podem ser avaliadas sob outra luz.
capitalista para a de semiperiferia. ® Periferia do sistema
Igualmente, é divergente a avaliação da ruptura histórí. ^ ,
De um lado, é vista pelos defensores do breve sécXÃ 1989-1991. Sobre este colapso total do liberalismo e sobre esta dialética histórica entre as três ideologias
nal do proe
j to do soca
i sil mo, que ao o
l ngo do sécuo
l se convTrte^nr-^^'^^^' que caracterizam a cultura dos últimos dos séculos, ver WALLERSTEIN, Immanuel. El colapso
dei liberedismo. In; Después dei liberalismo, citado. Sobre alguns dos principais efeitos desta
mo real", marcando com sua sombra todo esse século XX histórico crise do liberalismo posterior a 1989, ver ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. Chiapas, América
oposto, dos defensores do longo século XX histórico, é concebida como a data Latina y el sistema-mundo capitalista. In: Chiapas en perspectiva histórica; Introducción: una
perspectiva global dei "Análisis de los sistemas-mundo". In: Crítica dei sistema-mundo capita
lista. Entrevista a Immanuel Wallerstein, citados.
20 Carlos Antonio Aguirre Rojas
Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 21
quando abordadas da perspectiva que aqui propomos, da existência de um mente o da crise terminal deste mesmo sistema capitalista, a qual esvazia
século XX muito longo, iniciado em 1848 e vigente até hoje. rapidamente de conteúdo todas as principais estruturas de tal sistema, como
Assim, com base nesse ponto de vista, que caracteriza o longo século XX que as encaminhando diretamente ao seu colapso final irreversível.
pela tensão permanente entre uma longa decadência do capitalismo mundial Ao mesmo tempo, se a crise global cria uma verdadeira situação de caos
e um lento e persistente processo de aprendizagem e fortalecimento dos mo histórico e social generalizado, é mister dizer que se trata de um caos cria
vimentos anticapitalistas, bem como pela construção das premissas rumo a tivo, que franqueia e canaliza os distintos esforços, projetos e tentativas de
um novo sistema histórico, a data simbólica que representaria o principal di criar realidades e relações não capitalistas, ou, pelo menos, de ir preparando
visor de águas de período em tela seria, sem dúvidas, o do corte de 1968-1973. os elementos desse iminente passo histórico rumo a outro sistema social, di
! Como propõem os defensores da tese do longo século XX, esse breve lapso verso do capitalista.
, temporal assistiu a uma verdadeira revolução cultural mundial, de consequ- Sob essa luz, de um muito longo século XX histórico, não apenas se
j ências profundas, que afetaram e ainda afetam as próprias estruturas da ci- matiza um pouco o significado profundo do corte essencial de 1968-73, mas
j vilização capitalista criada pela modernidade, em uma linha de transforma também os outros pontos de inflexão histórica antes mencionados. Assim,
ções que terminaria apenas com a dissolução total dessa mesma civilização 1914-1917 se apresenta, diferentemente do que sustentam tanto os defenso
capitalista e sua substitução por um novo projeto de civilização humana. res do longo século XX como os do século XX breve, como um dos elos cruciais
Quando analisamos o corte 1968-1973 na ótica do longo século XX, de uma larga cadeia, a qual se inicia em 1848 e tem em Seattle, Praga e Gê
podemos observar que nessa data tem início não apenas uma crise cultu nova alguns de seus últimos momentos. Pois se 1848 é a primeira vez em que
ra de proporções gigantescas, mas também uma aguda crise econômi- o proletáriado se manifesta como força independente e autônoma e a Comuna
^ ca mundial, jtmto com uma crise geral de todas as estruturas da civiliza de Paris de 1870 é a primeira ocasião em que um movimento anticapitalista
ção urguesa moderna. Esse conjunto de crises concomitantes afetará, logra tomar o poder do Estado, o corte de 1914-1917 representa, genuina
^exemplo, tanto as premissas básicas e a concepção geral das próprias mente, o primeiro intento histórico orgânico de construir uma sociedade não
^ ciências naturais quanto as estruturas do Estado e da nação modernos; tanto capitalista na escala de toda uma nação.
a relação fiindante do homem com seu entorno natural quanto as diversas Isso eqüivale a dizer que 1917 é, sim, uma revolução anticapitalista
ormas a socialidade contemporânea, os padrões globais do comportamento inicialmente triunfante e, portanto, uma vitória essencial e uma experiência
emogra co das sociedades; ou, ainda, as expressões de moralidade e os cos fundamental para a história dos movimentos sociais anticapitalistas mun
tumes vigentes, entre tantas outras transformações radicais. diais. Porém, por esses estranhos paradoxos da história, temos uma revolu
ção anticapitalista que triunfa dentro de um país muito pouco desenvolvido
manif•restada
1968,aoentramos
mesmo tempona situação
no caos, nade confusão
uma crise civilizatória
e na global,
dissolução de todo em termos capitalistas, pois, após o trágico "encontro fracassado , ou melhor,
tipo de relações antes vigentes e sólidas, como na variada busca de saídas, de o desencontro histórico entre a Europa capitalista desenvolvida e o projeto
soluçoes alternativas para essas mesmas relações em crise. Tais soluções são socialista que representou a Primeira Guerra Mundial, esse esforço socialista
perscrutadas desde o nível primário da ecologia e da relação do homem com se viu obrigado a "emigrar" para fora da Europa, fixando-se em 1917 na Rús
a natureza ate as formas mais sofisticadas de arte e da criação humana, pas sia predominantemente rural e subdesenvolvida daqueles tempos.
sando por toda a vasta gama de realidades tecnológicas, econômicas, sociais, Isso significa que, desse ponto de vista, 1917 foi, sim, um primeiro e
familiares, religiosas, jurídicas, políticas, culturais as mais diversas. genuíno esforço de se construir uma sociedade não capitalista, a qual, devido
Portanto, se o período compreendido entre 1848 e 1968 é marcado pela às condições adversas geradas por um desenvolvimento capitalista anterior
lenta decadência do sistema capitalismo, incapaz de criar algo qualitativa- muito pobre, terminaria involuindo para uma forma estranha de capitalis
I mente novo, e apenas dedicado a se expandir quantitativamente por todo o mo estatal centralizado, que daria forma às bizarras sociedades do chamado
planeta, ao mesmo tempo em que já começa a evidenciar nitidamente aspec "socialismo real". Porém, se ao cabo de uma década este projeto socialista se
tos histórico-regressivos - como a guerra, o nazismo e o fascismo, as novas desvirtua e involui sob Stalin, isso não elimina o fato de que, embora a ten
I formas da violência social e política -, o período posterior a 1968 será clara- tativa de construir uma sociedade não capitalista na União Soviética tenha
fracassado, sem dúvida a realidade — capitalista — daquilo que se chamou o
Sobre esta crise global da civilização capitalista ver ECHEVERRÍA, Bolívar. Valor de uso y "socialismo real" representou um enorme progresso social, econômico, político
utopia. México: Siglo XXI, 1998. e cultural para a imensa maioria da população soviética russa.

22 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 23
Se hoje nem Rússia nem a China padecem da miséria e do atraso que Ta l v i o l ê n c i a i r r a c i o n a l e c r e s c e n t e m a r c o u o s é c u l o X X e m a c o n t e c i m e n
afligem a índia, se hoje Cuba não está na extrema situação do Haiti, isso se tos como a guerra de 1914-18, o holocausto dos judeus na Segunda Guerra
deve, em todos esses casos, ao fato de que Cuba, China e Rússia experimenta Mundial, a guerra contra o Vietnã, os massacres das ditaduras promovidas
ram essas tentativas, vitoriosas num primeiro momento, depois deformadas
por governos da América Latina, África e Ásia, as guerras étnicas fratricidas
com o passar do tempo, de se construírem como sociedades não capitalistas, de Ruanda e Kosovo, tanto quanto as injustas invasões recentes dos Estados
ao passo que índia e Haiti permaneceram sempre sob os parâmetros capita- Unidos no Afeganistão e no Iraque, entre tantas outras de suas terríveis
listas tradicionais.
manifestações.
dn Rússia, China, Vietnã e Cuba, entre outros, do ponto de vista Finalmente, sempre à luz de um século XX muito longo, para além de
Sr^S^llrquVaS™^ capitalistas, são, no final das contas,
tanto no que se refere ao tempo, enormes êxitos,
um fecho do percurso histórico percorrido por essas estranhas sociedades do
"socialismo real" — que, nesta data, de "socialistas" não tinham senão o nome
alcançaram durante o século XX ° social, político e cultural que — e do colapso geral do liberalismo como ideologia dominante do capitalismo
passos adiante no lontrr» 'j c^Pcríencms ímporíaníes e
anti
capitaliSs X "acumulação de forças» dos .i^ovimentos
nova sociedade não capitalista ^ construção de uma
mundial, a data de 1989 se apresenta como o momento simbólico da abertura
de um processo de radicalização crescente da tendência geral de decadência
do capitalismo mundial. Essa radicalização permite explicar tanto a tragédia
cortes de 1914-17 e 1939-4^Perspectiva temporal mais ampla, os do 11 de Setembro de 2001 e as arbitrárias invasões dos Estados Unidos no
hoje siificientemente assinalndo significação profunda que não foi até Afeganistão e Iraque, como o presente auge dos novos movimentos anticapi
XX, nem peo
l s que concebem um séc^o^XX que faa l m de um breve sécuo
l talistas e antissistêmicos, desde o levantamento neozapatista mexicano de
o percurso posterior a 1848 é o Hn l + j Reis, se aceitamos que todo
1994 até a geografia mundial dos protestos iniciados em Seattle, juntamente
podemos entender a PrimeU e decadência do capitalismo mundial, com os dois Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, no Brasil. Detenhamo-
cjsmo, o nazismo e o franq^rct^SÍ o fas- nos um pouco mais nesta etapa mais recente do longo século XX ainda em
Civilização capitalista T centrais de uma
s mecanismos de autocontrole dos im i ®cuceme ao desenvolvimen- marcha.
mento do Estado como detentor do monon^-^ f violentos e do estabeleci-
processos tão brilhantemeute 0010^ .í^rT u"'™ Fim de século e de milênio histórico, alvorecer de
Se os cortes da Primeira c ^ ^
mente etapas da construção da hegemmi Mundial são efetiva- um mundo novo
momentos iniciais de reiteradas vitorias'd^ e também os
de tentativas logo desviadas de construção^d anticapitalistas e Períodos deste tipo, períodos de transição,
oferecem uma ocasião especial para a reflexão:
entendê-los também como extravasament^ d socialistas, podemos [...] os homens põem em questão grande parte
ciai e política capitalista, violência que, nesta da violência so- do comportamento de gerações anteriores...
dade,riá se manfiestar repetd
i amente e de moX^^ descendente da modem-i Norbert Elias
aol nga etapa da curva ascendente da modernd i adeu' dci al do que durante (O processo civilizador, 1939)

Para os defensores da tese de um curto século XX, a queda do Muro de


Berlim e o fim dos projetos do socialismo real são muitas vezes interpretados
Sobre este problema ver ELIAS, Norbert. sE/proccso de Za düiZiz no sentido de que uma de suas principais conseqüências seria a do fortaleci
tura Econômica, 1989, e La sociedad cortesana. México: Fondo Fondo de Cul-
Em Los
iz^iii Alemanes.iviexico:
j^iernanes. México: Insti
tuto Mora,
instituto 1999,lyyy,
iviora, EliasHilias
desenvol vptim^K^n?^uma
desenvolve Fconómi
b Ibca,xcfo-c.
1982. mento, talvez apenas conjuntural, mas importante, do poderio dos Estados
holocausto judeu, dentro da perspectiva de um processo "descivilizattóo" ®*Plicaçáo do Unidos e do unilateralismo quanto ao desenho atual da geopolítica mundial,
avançosdadacivilização.
avanços civilização.
VerVer ROJAS,
ROJAS, Carl
Carlos os Antoni
Antonio o Agui
Aguirre. rre. Norbert
Norbert Eliai EIím hist *1°® ou seja, uma situação na qual, à espera de novas revoluções sociais ou de
de Ia modernd
i ad. In;Aproxm
i aco
i nes a Ia modernd
i ad. Méxci o; UAM Xochm
i cli o^ I9/
24 Carlos Antonío Aguirre Rojas
Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 25
novas transformações radicais, o capitalismo contemporâneo parece se asse- hegemonia mundial. A absurda invasão no Afeganistão, bem como o imo
nhorear de todo o planeta.'® ral ataque contra o Iraque - realizado contra o povo afegão e contra o povo
Ao contrário, para os defensores de um longo século XX, cujo desen iraquiano, sob o pretexto de capturar Osama Bin Laden e Saddam Hussein
volvimento estaria ainda em curso, essa data simbólica de 1989 teria repre -, representa, no fundo, o fraudulento uso da força militar norte-americana
sentado apenas o colapso total do liberalismo e de sua hegemonia ideológica dentro da guerra econômica contra a Europa.
mundial, o que implica que os últimos quinze anos sejam mais bem avalia Pois há trinta anos os Estados Unidos vêm perdendo sistematicamente
dos como a continuação dos processos de decadência iniciados desde 1968-73, a competição econômica tanto em relação à Europa ocidental como ao Japão,
os quais acompanham o fim da hegemonia mundial norte-americana, com o nos planos tecnológico, produtivo, comercial e financeiro, levando a que hoje
penodo terminal de vida do capitalismo como sistema histórico específico. [no ano de 2004] não sejam mais o líder em qualquer dos quatro âmbitos
Tais processos, então, estariam ainda fortemente vivos e fortalecidos com o
desmoronamento da ideologia liberal, a qual até 1989 funcionava como um mencionados. Porém, dado que a única liderança que ainda conserva é a de
primeira potência militar do mundo, os Estados Unidos recorrem, no Afe
elem^to de coesão ideológica do sistema capitalista mundial. ganistão e sobretudo no Iraque, ao seu poderio militar, utilizado como sua
onr-r- A muito diferentes da última década trans- última cartada para reverter sua derrota tecnológica, produtiva, comercial e
tta^s
ados aacomp''^"
i entosadoavaliações
contecm i os três anomuito
s útlm s, os qudistintas isobre
asi , como sgnos de pos
roceagi-
ssos fi n a n c e i r a .
e de read
il ades masi profundos, nos permtiem também vsi u
l mbrar Z po^ Como um jogador truculento, que vai perdendo enquanto as regras do
os cenanos que haveremos de enfrentar num futuro próximo. jogo são respeitadas, mas de repente saca uma arma ao final para tomar
posse de todos os cacifes, os Estados Unidos vêm usando a força militar para
tecimeníoí ma'ir ^l^^os quinze anos e também os acon- tentar mudar o rumo geral dessa competição econômica mundial com a Eu
ropa ocidental e o Japão. Porém, dado que o poder militar depende do po
LLClis rLi, """ " "ue situa os aoonte- derio econômico, e posto que a economia norte-americana está também em
dência dos Estados manifestações da crescente e irrefreável deca- um claro processo de decadência, esse uso fraudulento da força militar não
como clarL :^dtne!Í1rcr7°'f r" "^^a-nònica mundial e. também, consegue triunfar no prazo médio, ao qual corresponde a competição econô
térico particular Porém diferon) enquanto sistema his- mica. Isso resulta em que, para além das aparências imediatas, os Estados
XX. e posto que cons^amÕ »? . de longo um século Unidos cairão muito em breve como potência hegemônica mundial, tal como
Chinesa, Vietnamita e Cubana expenencias das revoluções Russa, sucedeu com a Holanda em fins do século XVII e a Inglaterra no último terço
movimentos anticapitalistas dos P^o&^esso dos do século XIX.21
que o corte de 1989-91 é também o da cHq Tr pensamos Ainda na ótica do longo século XX, fatos como a emergência ou o res
velhas esquerdas, reformistas e autorit' ^ ^ mitiva e do colapso geral das surgimento de vários novos movimentos sociais anticapitalistas, que foram
apomndo-senomto
i dequeo"soca
isilmoTea"l eraTm^ centrais depois da queda do Muro de Berlim e da dissolução da União Sovié
pitahsta, depois de sua etapa de vida inicial e aue d ^ tica, acabam sendo muito importantes. Movimentos como o dos indígenas re
mundo, durante quase todo o século XX cronolóeicn o
manuae
l scaevug
l ardomandsmoedopensa^ beldes neozapatistas do México, dos "sem-terra" brasileiros, dos "piqueteros"
argentinos e dos indígenas equatorianos, bolivianos e peruanos, entre outros.
Esse afastamento crítico nos permite analÍQa " °-
profunda os últimos anos e os acontecimentos recent^^iT^ maneira mais Immanuel Wallerstein vem desenvolvendo sistematicEimente esta tese da decadência norte-
prendemos que, por exempo l , a resposta dos Estados Umd
' r,^^ modo com- americana e do uso de seu poderio militar como elemento de "compensação" à derrota econô
11 de Setembro explica-se não por sua grande força e sua coLt-'^T mica para a Europa e o Japão. Ver seu artigo recente "òConmoción y pavor?". La Jornada, 19
potência bélica do sistema mundial, mas. antes, por sua crescente e irX' a b r. 2 0 0 3 .
Para uma avaliação mais detida destes acontecimentos recentes ver o conjunto dos boletins
ave] debilidade, somada ao também irreversível dprlír»ir.
c>ivei aeciinioAr.
de seu poder como redigidos por Immanuel Wallerstein e publicados a cada 15 dias no site do Fernand Braudel
Center: http://fbc.binghamton.edu, Seção "Commentaries", em especial os boletins posteriores
ao 11 de Setembro de 2001. Veja-se também ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. 11 de septiembre
Sobre este ponto, ver, por exemplo, Eric Hobsbawm. Entrevista sobre el Siglo XXI e Jür en de 2001: una puesta en perspectiva histórica, citado acima, e Otra mirada sobre el 11 de sep
Habermas, "Nuestro breve siglo", ambos citados anteriormente. ' ^ tiembre. Un balance provisional. Le monde diplomatique - edición Colombia, n. 5, Sep. 2002,
e El maccartismo planetário. América Latina después dei 11 de septiembre, antes referido.

Carlos Antonio Aguirre Rojas


Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração
ganham especial relevância. Esses novos ou renovados movimentos antica- um pequeno grupo no poder por outro, começa-se agora a lutar por um en
pitalistas, presentes um pouco por todo o planeta, parecem ter alcançado um volvimento permanente das massas na tomada de decisões políticas, o qual
grau de presença social e de desenvolvimento político mais elevado dentro fomenta distintas formas da autogestão popular, numa lógica segundo a qual
dos distintos espaços nacionais do nosso semicontinente latino-americano. as próprias massas populares se tomam não apenas o apoio coletivo do mo
Essa concentração muito maior e mais intensa de vários dos mais im vimento, mas os próprios construtores ativos e permanentes do novo sistema
portantes movimentos anticapitalistas mundiais dentro dos espaços nacio histórico, com o qual se buscará substituir o agonizante sistema capitalista
atual.
nais da América Latina sugere a tese de que, nos próximos anos, nosso se
micontinente haverá de jogar um papel central no contexto histórico global, Se o capitalismo mundial dos últimos quinze anos tem essas como suas
linhas de evolução mais importantes — a da gestação de uma família de vá
no qual o capitalismo estará em xeque, para ser substituído por um novo rias novas esquerdas, inclusivas e muito mais radicais que as precedentes, e
sistema histórico. O papel central é derivado da função que agora parece ca- a da acelerada decadência da hegemonia dos Estados Unidos e do conjunto
ber a America Latina, enquanto uma das principais frentes de vanguarda do das estruturas desta mesma sociedade burguesa capitalista —, é pertinente
movimento anticapitalista mundial, posição que explica o fato de que tanto o perguntar acerca de qual seria a natureza do novo sistema histórico que nas
Primeiro Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neolibera- próximas décadas acabará substituindo o capitalismo mundial. Claro que a
ismo como os dois grandes Pónms Sociais Mundiais tiveram lugar em países resposta a esta pergunta se encontra muito além do final do longo século XX
da Amenca Latina, no México e no Brasil, respectivamente. histórico.
Tal resposta não poderá ser senão o fruto de nossa ação coletiva, de nos
nnvr>Q 6 O a longa cadeia iniciada com as revoluções de 1848, esses sa inteligência social e de nossa vontade e capacidade de construir, para além
ca de sj^ticapitalistas devem se aproveitar das lições da heran- desse capitalismo injusto, explorador e discriminador, uma nova sociedade,
século XY ^'^saios e experiências que os precederam desde meados do mais livre, justa e mais racional em todos os sentidos. Confiemos em que
cessário conT'^ ° movimento anticapitalista hoje ne- com o novo século XXI histórico, neste também novo terceiro milênio estamos
que agora ise^ mudanças e de transformações globais inaugurando um mundo novo e superior com o qual sonharam e pelo qual
impulsionar!o<s acalentar. Pois, diferentemente dos movimentos lutaram tantas gerações de homens lúcidos, honestos e abnegados.
as reformistas e autoritérias,
rantes e muito ^ como movimentos plurais, abertos, tole-
e de deLTlo r ® flexíveis em suas formas áe organização
sociais mais inrln.f"^™° empo, e em sintonia com esses novos movimentos
suas diferentes dpm^°^ ^ ^ urais, multiplicam-se e diversificam-se também
iunto às essencial rentes de luta, passando a incorporar também,
os problemas cultura ícaçoes econômicas e políticas de mudança social,
cfaí^do mdsmn ^^^estões de gênero, os temas da discriminação so-
rtn hL ' ' dos grupos ecologistas, a luta pela gestão
rliferenra p ^ efesa dos direitos das minorias, ou o direito à
dfaagenda
da JpudaTderrluTtaexpressões, entm
dos novos movi reentos
muito s out
aisranti
soci oscdos
apitalisnovos
tas temas
Simultaneamente, mudaram também os modos de conceber os proces
sos de mudança social global que promovessem novos movimentos anticapi
talistas. Ao invés de fomentar a mudança puramente política, de substituir

Sobre as razões deste papel de vanguarda dos movimentos anticapitalistas atuais da América
Latina, ver ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. América Latina hoy: una perspectiva desde Ia
larga duración. Theomai, http://unq.edu.ar/revista-T/ieomai, n. 6, 2002, eílí maccartismopla
netaria. América Latina después dei 11 de septiembre, antes citado.

28 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 29
1968: a grande ruptura*
Que a revolução européia ocidental, quase mundial,
de 1968 fracassou politicamente, o sabemos todos
a quase quinze anos de distância. Mas triunfou e
não voltará atrás no qual concerne aos costumes, à
relação entre os sexos, à crise aguda da família.

Femand Braudel
(Domina Ia parola "cambiamento", Corriere dela
Sierra, 7 maio 1982)

Uma sacudida planetária


Mais de vinte e cinco anos depois da enorme ruptura que representou o
ano de 1968, fica um pouco mais fácil tentar decifrar o que tal ruptura encer
rava, o que naquele tempo talvez fosse menos evidente.
Diante das seqüelas deste "acontecimento ruptura", que foram se des
dobrando claramente ao longo do último quarto de século - entre as quais
também se destacam as fundamentais transformações do ano de 1989 -, já se
dissiparam as primeiras interpretações deste simbólico acontecimento, que
procuraram reduzi-lo às dimensões de um simples "movimento estudantil"
efêmero, ou à escala de uma sensível ruptura, ou explosão social passageira,
sem maiores conseqüências ulteriores.
Agora, em 1993, tende cada vez mais a se converter num dado consen
sual o reconhecimento de que 1968 foi, em primeiro lugar, uma ruptura de
dimensões praticamente planetárias e, em segundo lugar, um ponto de crise
global ou generalizada, um momento de condensação histórica excepcional,
que colocou em xeque os próprios fundamentos civilizatórios — ou seja, as
formas da "cultura" moderna no sentido mais amplo deste termo — das socie
dades então existentes.
Ao concebermos 1968 como o momento de clímax de uma evidente onda
de grandes movimentos sociais protagonizados entre 1966 e 1969 e ao pro-

" Publicado em La Jornada Semanal, México, n. 225, p. 18-22, 3/10/1993.


curarmos reconstruir o mapa específico desses movimentos, vemos que este questionado: a hegemonia do sistema capitahsta mundial; as atitudes dos
mapa se nos apresenta, praticamente, como um novo "fantasma" que ago homens com relação à vida, ao trabalho, ao uso do tempo livre; a consciência
ra "percorre o mundo", cobrindo em seu percurso desde Pequim a Berlim, das implicações da relação entre o homem e seu meio ecológico circundan-
de Nova York a Dakar, passando pela Cidade do México, Praga, Córdoba, te; o reconhecimento da diversidade e pluralidade dos caminhos ou opções
Roma, Berkeley, Belgrado ou Calcutá, sem esquecer, obviamente, o emble civilizatórias que o homem tem emprendido ao longo da história. Tudo foi
mático Maio parisiense. Ao reivindicar, assim, segundo os distintos lugares e questionado e problematizado pela geração dos soixante-huitards críticos em
contextos, tanto uma "volta ao caminho socialista" e uma radical "revolução todo o mundo. Todo esse questionamento é, em parte, expressão das impor
cultural-proletária , quanto o respeito às liberdades políticas elementares e o tantes mudanças reais que as estruturas sofreram durante este mesmo últi
mínimo exercício democrático, ou ao questionar, igualmente, tanto as formas mo quarto de século.
da vida cotidiana do mundo capitalista quanto o rígido sistema escolar então Não é casual, então, que, ao revisar o que se passou nos últimos quinze
vigente, os protestos sociais simbolizados pelo ano de 1968 alteraram de fato anos, ganhe destaque o florescimento de novos movimentos de protesto ou de
a pagina da historia que então se estava escrevendo, abrindo uma nova con
impugnação social, que vêm impulsionando novas temáticas e tentativas de
juntura global, cujo primeiro desenlace radical se realiza em 1989. aproximação a velhos e novos problemas. A antipsiquiatria e o heterogêneo
detidamente as conseqüências provocadas pela ruptura espectro dos movimentos "verdes", passando pelo feminismo, os estudos so
Ha ^ ^ ^ I960, comprovamos que, depois dela, e como um tipo bre os fundamentos do racismo, a história das mentalidades ou a recuperação
solnta^^ t parcia de sua agenda principal, começaram a se modificar ab- do "orientalismo" em suas múltiplas expressões, são todos elementos que po
atuais o os os elementos fundamentais constitutivos das sociedades dem facilmente ser associados aos desdobramentos dos debates iniciados com
a grande ruptura de 1968.
os meiornT^-^^'^ lienor lentidão, e com ênfase muito diversa de acordo com Essa data simbólica se apresenta, então, a um quarto de século de dis
podem ser Questão, pode-se dizer que os anos setenta e oitenta tância, como o início de uma conjuntura excepcional, vivenciada no m\mdo
segundo o narâm ^ Profundamente revolucionários, quando medidos inteiro e vivida como uma conjimtura profundamente revolucionária, carre
Enquanto as econom^ Profundas transformações geradas nesse período, gada de mutações e mudanças resdmente radicais, que, ao afetar todas as
e a um ritmo mais lento ^nel desenvolvidas - seguidas apenas de longe. dimensões do tecido social e das estruturas civilizatórias das sociedades con
Mundo" - introduziam em do "bloco socialista" e pelo "Terceiro temporâneas, teve uma primeira e decisiva conclusão com os acontecimentos
vel e começavam a nm escala as novas formas da automação flexí- simbolizados no emblemático ano de 1989. De tal modo que ainda estamos
vivendo hoje sob a sombra dessa conjuntura de 1968/1989, cuja herança mar
desaparecer, aceleradamente asv^lC f começavam também a ca profundamente as nossas realidades cotidianas até hoje.
ou autoritário. Tais Estados diante H^h Í^^^ intervencionista e/
crise das velhas esquerdas reformt t ^ partidos tradicionais e da
novos movimentoslocS e T " emergência dos México, a sacudida civilizatòria
o Estado, viram-se obrigados a sociedade civil perante jCómo me acuerdo de ti, JOSE, en medio de todas
gemonia sobre os distintos corpos sociais nos^íT^^ articulação de sua he- e s t a s R E V U E LTA S ! *

duas décadas a que nos referimos. apoiavam durante as (Grafite do movimento estudantil mexicano de
1987/1988)
m
miicca,
a ^soci
sori^ae
'l ^enoHítifi!^c"a^que
pol essetradi
s grcaionnal
demsente
proceatraem
ssos de mhuardados
o ol nçacieecntiosntas
ô
sociais, desaparecem também outras estruturas profundas das sociedades Se 1968 teve em Paris e em Praga dois de seus principais epicentros - o
humanas, igualmente forçadas a se transformar essencialmente primeiro correspondendo ao mundo capitalista desenvolvido e o segundo à
Conforme já muitas vezes comentado, embora não devidamente expli área das economias do bloco europeu-oriental sob a influência soviética -,
cado e teorizado pela cntica, 1968 também colocou em questão as dimensões
mais elementares da vida moderna, suas estruturas mais universais, impug
Usando o trocadilho com alusão ao escritor mexicano de esquerda Jose Revueltas (1914-1976), a
nando, assim, todo o tecido social das sociedades contemporâneas. Tudo foi frase joga com o duplo sentido da palavra revueltas (o sobrenome do escritor e "rebelião". N. T.

Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração
a Cidade do México foi o espaço privilegiado de seu terceiro epicentro, este tidos políticos, sem exceção, entram em crise profunda, vendo-se obriga
último representativo dos movimentos de impugnação que protagonizaram dos a cindir-se, a renovar-se, a transformar-se radicalmente, devido às no
os países do chamado "Terceiro Mundo". vas demandas postuladas pela própria população mexicana, agora imersa
Em sintonia com os significados e seqüelas veiculados por todo o pla numa politização crescente. Assim, o surgimento do neopanismo,* a cisão
neta, também no México a ruptura de 1968 constituiu um verdadeiro divisor da "corrente democrática" e, depois, a formação do PRD,'" mas também a
de águas na história daquele país. E isso não apenas porque concluiu de fato crise do velho Partido Comunista Mexicano e suas sucessivas transforma
com um prolongado ciclo que se poderia chamar "pós-revolucionário" de sua ções até sua condição atual e o florescimento dos novos partidos "paraes-
história, herdeiro das instituições e transformações provocadas pela Revolu tatais", são acontecimentos que podem ser lidos como diferentes sintomas
ção Mexicana de 1921, e que se estenderam até o fim dos anos sessenta, mas da clara politização em vigor na sociedade mexicana. Essa politização pro
também porque reatualiza e reclama definitivamente o acesso à modernida
gressiva também se expressa não apenas na redefinição constante do espec
de capitalista então vigente em nível mundial. tro partidário, mas também no âmbito dos movimentos sociais: no último
.^sim, e
no México, para além
a um da derrota
quarto política
de século imediatafica
de distância, dofácil
movimento de 1968
agora observar o quarto de século entra definitivamente em colapso o sindicalismo oficial
— hoje, cada vez mais, uma fachada que sobrevive a si mesma, mais que
modo radical como essa data transformou a vida política do país, ou melhor, uma realidade —, diante da consolidação do sindicalismo independente e,
no mvel menos espetacular, mas tão profundo, dos comportamentos políticos também, daquele que popularmente é chamada de "neocharrismo" sindical,'
niais cotidianos das grandes massas da população, de suas atitudes em rela no contexto da emergência eloqüente na cena social mexicana de novos mo
ção aos partidos e ao Estado e de sua posição perante a esfera da vida política vimentos, como os da tendência democrática dos electricistas, as lutas cam
institucional.
ponesas, o sindicalismo universitário, o movimento urbano-popular, o movi
Em nossa opinião, diferentemente das décadas anteriores à de sessenta, mento estudantil e a mobilização geral pré e pós-1988.
a ruptura de 1968 desencadeou no México um processo de profunda politiza- Ao mesmo tempo em que se alteram a estrutura social e a vida polí
ção, lenta mas progressiva, da vida social mexicana: desde os anos setenta tica do México, também se modifica completamente a esfera produtiva de
em diante, a política se converte em assunto cotidiano dos mexicanos, que co seu "capitalismo salvagem". Isso é perceptível não apenas no esgotamento
meçam a se interessar em participar dos diferentes movimentos sociais e po- do movimento ascendente da economia, que entre o "milagre mexicano" e o
iticos — lembre-se como os anos setenta e oitenta foram marcados pelo auge "desenvolvimento estabilizador" acompanha a conjuntura expansiva mun
os movimentos camponeses, pela efervescência e riqueza das discussões das
dial do pós-segunda guerra (1945-1973), mas também na consolidação de um
esquerdas, pelo renascimento dos movimentos operários combativos e pela verdadeiro setor nacional de grande indústria. Desse modo, após a primeira
primeira eclosão de um movimento urbano-popular orgânico no país. Come
çam os mexicanos a abandonar progressivamente sua tradicional apatia polí irrupção da crise econômica internacional, com seus devastadores efeitos so
tica para buscar os canais adequados de expressão dessa nova politização. bre a economia mexicana - que ali se encobre e posterga devido aos "parênte-
Ao renunciar ao consenso passivo que caracterizou a história política de ■ Refere-se ao surgimento de uma tendência no interior do Partido Accion Nacional (1939), par
todo um setor majoritário da população mexicana até a década de 1960, após tido da direita mexicana que agora está no poder. Como os membros deste partido eram chama
1968 os mexicanos se incorporam de maneira massiva à vida social e política dos "panistas" por causa da sigla "PAN", os membros da nova tendência foram batizados "de
durante os últimos vinte anos, tal como o ilustra enfaticamente a votação de neopanistas"
" Sigla ou de
do "Partido "de Ia
novos panistas".
Revolución N. T.
Democrática", fundado no México em 1989. Inicialmente
julho de 1988 - esse mesmo acontecimento, em um certo sentido, também com pretensões de esquerda, com o passar do tempo, porém, tornou-se um partido burocratiza-
fruto da ruptura anterior. do, dividido internamente e de caráter reformista, com posições timidamente progressistas. N.
Fechando, assim, a conjuntura social e política iniciada com o fim T.
■ O termo "neocharrismo sindical" alude ao fato de que no velho sindicalismo corporativo, domi
da Segunda Guerra Mundial e inaugurando a nova conjuntura vivida até nado pelo Estado mexicano, chamavam-se charros (equivalente a "pelego" no Brasil) os líderes
1989, o acontecimento-ruptura de 1968 e seus desdobramentos constituem vendidos e corruptos, que não representavam os trabalhadores mexicanos sindicalizados. Por
a chave de leitura para a compreensão dos processos recentes da história isso, esse sindicalismo era conhecido como "charrismo sindical". Nos anos 70 esse sindicalismo
entrou em crise e houve a emergência de muitos novos sindicatos líderes. Alguns deles criaram
social e política mexicana recente. Nas três últimas décadas, todos os par o sindicalismo independente, e outros, um sindicalismo neocorporativo, novamente dominado
pelo Estado mexicano. A estes últimos se denominou "neocharrismo sindical". N. T.

34 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 35
ses petrolíferos" da segunda metade dos anos setenta avança incontinente força, descrente das antigas certezas e utopias antes amplamente mobiliza-
a reestruturação produtiva da economia mexicana, quando se introduzem as doras, ao mesmo tempo em que constata derrotas e fracassos evidentes, não
novas tecnologias e formas de organização do trabalho, ao mesmo tempo em é capaz de perceber que ela mesma não é senão uma efemera manifestação
que o salário real é reduzido à metade e explode o fenômeno do desemprego. de um mundo que, obrigado a avançar, quis poder suspender por um instante
No cenário da integração do México no novo "bloco econômico de Amé sua marcha vertiginosa.
rica do Norte" — nova denominação da velha hegemonia da economia norte- Porém, tal como o "fim da história" não é mais que uma ilusão efemera,
assim também são efêmeras as senhas do neoconservadorismo, da atomiza-
americana sobre as economias canadense e mexicana —, assiste-se à retração
do velho Estado populista, interventor e protecionista, hoje agente da priva ção e do refluxo que hoje parecem ser os signos de identidade de algumas
correntes sociais e de alguns movimentos intelectuais presentes em algumas
tização de seus ramos constutivos. Nesse cenário, modificam-se não apenas partes do planeta.
as relações sociais, econômicas e políticas do país, mas também as próprias Diante da confusão que hoje pretende se impor como uma virtude e da
estruturas de nossa vida cotidiana. Esse processo está presente, guardadas renúncia e apatia que hoje se insiste em apresentar como a única saída, será
algumas nuances regionais, nas mais importantes economias da América La útil lembrar que em 1968 o fim do capitalismo e o advento de uma socieda
tina, como Chile, Argentina e Brasil. de verdadeiramente humana e livre se colocavam como uma coisa segura
Ao compararmos a situação atual com a situação prévia a 1968, não e inevitável, já parte da história imediata que se inaugurava. Porém, para
a surpresa a verificação da mutação radical dos costumes do povo me- além desta história imediata, que se diverte em ludibriar seus protagonistas
ao fazê-los crer que o "agora vivido" encerra toda a espessura dos futuros
socied h'' concerne a suas estruturas familiares, ao papel da mulher na possíveis, existe também uma história profunda, de mais longo alento, que
ao iB iistrumentos e métodos de educação dos filhos, assim como permite decifrar com mais e melhores elementos a verdadeira trama desse
vi
vissõõpc
es deri m
livu
re,
ndoàsdaati
st"udes
novas"frente
geraçõeao
s. trabalho e à vida, ou mesmo às mesmo devir histórico.
A partir desse outro registro, o da história profunda, dessa perspectiva
demo" de expressam o caráter mais urbano, alfabetizado e "mo- da longa duração na qual se inscrevem os verdadeiros acontecimentos his
posição s b^r analistas da sociedade mexicana recente, a recom- tóricos, 1968 aparece como uma enorme ruptiira, planetária e civilizatória,
sureidac! n sistema, das necessidades e formas de consciência que transformou radicalmente a história. Mas, ao mesmo tempo, ainda na
efeitos civilséculo - e testemunham também os profundos perspectiva da longa duração, 1968 apresenta-se apenas como o último elo de
uma imensa e milenar cadeia de grandes rupturas que, periodicamente, lem
americanac! ^ grande
amencanas, em particularruptura
sobre a de
mexi1968
cana.sobre as sociedades latino- bram à humanidade que a única coisa eterna é a mudança, não a permanên
cia. Mil novecentos e sessenta e oito está aí e aí permanecerá até a chegada
de uma nova ruptura comparável, que não nos permita esquecê-lo.

Eu faço parte dessa oposição que se chama vida...


Honoré de Balzac

cas nrofundamori^^ conjuntura excepcional, marcada por mudan


do. P"°^"J^,^^®^^7®^°l^«onárias do tecido social e da vida toL em geral
em
em 1989, com1a9mst 8auraçao
9 doscparadoxos
omiP que-ainda viv^emos atu'alm
pent
™e. '
epois de vinte anos de tantas e tão profundas transformações, parece
que hoje as sociedades se deram uma espécie de "pausa para descanso", dei
xando que tudo volte a ser como antes e evitando qualquer possível mudança.
Assim, a onda pós-modema e desencantada que hoje se expande com certa

36 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 37
Repensando os movimentos de 1968
no mundo*

[...] O perigo ameaça tanto a existência da tradição


com quem a recebe. Para ambos, trata-se da mes
ma e única coisa: prestar-se como ferramenta da
classe dominante. Em cada época, é preciso arran
car a tradição ao conformismo, que está a ponto de
assenhorear-se dela.
Walter Benjamin
(Tese VI, Sobre o conceito de
história, 1940)

Por que voltar, três décadas depois, a questionar sobre da significação


e a explicação profunda de todo esse conjunto de movimentos sociais que,
por todo planeta, se vinculam ao simbólico e decisivo ano de 1968? Por que,
depois de mais de trinta anos, continuar a levantar a necessidade de se as
similar e tornar explícitas as principais lições desse conjunto de fraturas e
transformações que aqueles movimentos desencadearam em suas respecti
vas sociedades?
Em primeiro lugar, de modo geral, pelo simples fato de que a identidade
dos povos, grupos, gerações e movimentos se vincula sempre, e necessaria
mente, ao processo de resgate de sua memória histórica específica. Não existe
identidade que não seja construída, e um dos elementos centrais dessa cons
trução identitária constitui-se justamente na definição específica do sujeito
histórico portador dessa mesma identidade.
Sabemos também que o mundo não se refaz completamente do nada a
cada dia, o que significa que os homens se veem obrigados constantemente
a recuperar seu passado, conectando-o, por meio do processo de transmissão
das lembranças, com o(s) passado(s) que o antecedeu. Recriar a conexão es-

Publicado na coletânea colectivo 1968\ Raices y razones. Chihuahua: Ed. Universidad Autôno
ma de Ciudad Juarez, 1999. p. 93-114.
sencial entre o presente e o passado é uma tarefa ineludível das sociedades
reaparecem sempre como as perguntas iniciais e fundantes, aquelas que não
em qualquer época histórica, mas se toma particularmente urgente naqueles têm sido formuladas de maneira totalmente explícita, ou, então, mesmo que
momentos em que a identidade dos povos e sociedades entra em crise, quan tenham sido claramente levantadas, não conseguiram ainda ser respondidas
do se questionam seus perfis mais essenciais e se abre uma interrogação de forma convincente.
sobre sua possível transformação e redefinição radicais. A primeira delas se refere à data de irrupção de tais movimentos. Essas
Desse modo, voltar a repensar o movimento de 1968 depois das enormes datas preenchem todo o segundo lustro dos anos sessenta, com o conjunto de
mudanças que o mundo experimentou a partir de 1989 torna-se um exercício movimentos que no imaginário popular se vinculam espontaneamente a esse
^ simples e trivial intento de "compreender o pas- mesmo ano emblemático de 1968. A quase perfeita sincronização do conjunto
sado Trata-se de um esforço para se elaborar um diagnóstico crítico mais de deflagrações que percorre o planeta em revoltas e rupturas, que vão desde
refinado de nosso presente e, em conseqüência, de propor uma real indaga- a revolução cultural chinesa de 1966 até o quente outono italiano de 1969,
flTg^ante futuros que se abrem a partir deste presente em crise irrompe de uma maneira tão estendida e tão simultânea que faz de 1968 um
dos movimentos mais internacionais e mais amplamente difundidos de toda
• modo, não é tarefa difícil descobrir as conexões evidentes que a história do capitalismo.
nculam nosso presente com o grande acontecimento-ruptura de 1968: nos Assim, no curto lapso de quatro anos, a geografia da revolta se expande
nos paisagem política atual, por todo o planeta, de Madrid a Tóquio, de Córdoba a Nova York, passando
em Xíl ? de todas as instituições e realidades culturais por Berkeley, Paris, Cidade do México, Berlim, Pequim, Nova Delhi, Praga ou
podemos'ft n""' T® expressões do tecido social contemporâneo, San Salvador, entre tantos espaços de sua manifestação.
A amplitude planetária e a quase simultaneidade da revolução de 1968
nos levam a perguntar sobre as possíveis causas que podem ter provocado,
vimeMoVdTiqtir^^^'T™®''^'' importantes conexões entre os mo- por todo o planeta, essa multiplicidade de manifestações entre 1966 e 1969.
e mSco Srtt ® ^ particular da Europa, França Para além das particularidades nacionais, regionais e, mesmo, locais desses
atualidade nn<5t ^ permitir realizar vários balanços parciais da movimentos, aventuramo-nos a afirmar que é um espírito comum e unívoco o
t^Íos temLlT t questionamento nos remete, ao mesmo tem- que as provoca, anima e leva adiante.
Para tentar explicar a simultaneidade e o caráter internacional de
sociedades contp!t ^ agenda de demandas ainda não resolvidas pelas
t imos
n t o movi
s mentos
c o n anti
t i nssi
usatêmi
m cos pel
ao l ipl
maneta
enta afora.
ndo os dis- 1968, é imperativo lembrar que, depois de 1945 e durante todo o imediato
pós-Segunda Guerra, o papel social da universidade dentro da sociedade con
crticamentro^osi t^prti pres^nte.""^^^^'condçi ões, é perssi tri pensando temporânea mudou de maneira substantiva - e isso no mundo inteiro. Pois
foi justamente nos anos quarenta e cinqüenta que se iniciou a massificação
* * :i: da matrícula universitária, que fez crescer enormemente o tamanho das uni
versidades em todos os países, substituindo-se a velha e tradicional universi
Escolhamos maio de 1968. O acontecimento me dade de elite, privilégio de uma seleta minoria social, pela nova universidade
interessou e então pensei: estou frente a uma re-
vo ução cultural, que talvez não chegue até o final, de massa.
mas que nos obriga a perguntar, então: o que é uma Com isso, logicamente, muda não apenas a função social da universida
revolução cultural? de dentro da sociedade, mas também sua própria composição social interna.
Com o crescimento quantitativo espetacular das universidades e com a mu
Femand Braudel
{Renascimento, Reforma, 1968. Revoluções dança de seu papel e presença na sociedade, deflagra-se a incorporação das
culturais de longa duração. Entrevista La classes médias e mesmo de certos setores das classes populares aos espaços
Jornada Semanal, out. 1993) universitários, atribuindo aos centros de educação superior o papel de no
vos mecanismos de desenvolvimento e promoção de mobilidade social dessas
^ significação profunda doa innmeroa classes médias e popiilares.
aessaa
essrrlaíadif Parguntaa
reiteradas questões que. em qualquer análiseessenciais,
desses movimentos, O duplo processo de modificação do papel social da universidade e a
transformação de sua estrutura interna, que é simultâneo no mundo inteiro.
40 Carlos Antonio Aguirre Rojas
Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 41
abarcam toda a conjuntura expansiva do ciclo Kondratiev, que começa em O estrato dos jovens encontrou nos movimentos da revolução de 1968 seu pri
1945 e termina em 1972-73, o que explica, em uma certa medida, a amplitu
meiro espaço privilegiado de aparição pública e, com isso, uma legitimação
de e sincronia dos movimentos do 68 em todo o mundo. Pois foi justamente
essa modificação profunda do conjunto das universidades, com a concomi- social e política dentro da arena do conflito social que jamais abandonaria
an ® ança de seu papel dentro da sociedade, que nessa conjuntura do depois.
evidente por meio das variadas expressões do Uma terceira questão importante se refere ao tipo de demanda que os
movimento internacional, que foi a revolução de 1968. movimentos de 1968 apresetaram. Ainda que em cada contexto nacional, e
mesmo local, tais demandas se particularizem e se matizem de acordo com
em Questão que vale a pena abordar se refere ao fato de que
-^u pelo mZr movimentos de 68 o personagem principal as diversas condições históricas, talvez seja possível descobrir certos traços
til QraXSnHr --atrais - foi sempre a clLse LtudL comuns a elas subjacentes. Analisando com mais cuidado o conjunto de rei
como agente único do mT^° sublevação popular geral, ou vindicações apresentadas pelos movimentos eclodidos em tomo de 1968, é
descontentamento mn í°' ° Papel de "vanguarda" de um fácil perceber o fato de que os temas da agenda colocada em discussão por
tudantil figurou pela^nif^"^'^^ izado, em todos esses casos o movimento es- esses movimentos, em todos os casos, foram temas ligados à esfera da cultura
centrais do movimento dri96R^^T7 história, como um dos protagonistas dessas distintas sociedades.
essencial em relação ao passado representa uma mudança Assim, tanto ao reivindicar que a "imaginação tomara o poder" e cri
Guerra Mundial. Antesnovamente com a anterior à Segunda ticar o "velho saber" dos professores, como ao exigir a liberdade dos presos
que constituem uma peonp ^ ®yento traumático da guerra, os estudantes, políticos e o diálogo público, ao criticar os privilégios dos intelectuais e propor
vão também participar da ^ ^ ^ egressa das fileiras da classe dominante, sua reeducação por meio de uma autêntica revolução cultural proletária, ou
e ectuais, correntes de onini^^ criar, por exemplo, movimentos in- ao discordar do monopólio do partido único nas questões da ideologia e da
dos políticos. Nesses casos Z ~ inclusive, clubes, grupos e parti- cultura, em todos esses casos, os distintos movimentos de 1968 afirmavam a
cuja função ou missão declaraquantitativamente pequenos e necessidade profunda de uma radical revolução cultural.
n classes sociais. a e a de convocar ou representar outros setores A revolução cultural se fez presente no Terceiro Mundo como crítica da
cultura antidemocrática, autoritária e repressiva de governos e instituições
Porém,
® com depois de
o ingresso 1968
nela dasonr f^'^i'^nia com a massificação da universidade dominantes e, nas sociedades do "socialismo real", irrompeu como crítica à
novo seíor social estudantil classes médias e populares, emerge esse "falsa cultura socialista" e à esclerosada ideologia oficial dos partidos comu
nistas no poder. Nos países do capitalismo desenvolvido, por sua vez, a revo
lução cultural tomou a forma de crítica da cultura alienada e enaltecedora do
nn ^ ^^^'^^'^niporâneas A ^^'^Pre presente dentro dos conflitos das consumismo vazio, da sociedade do espectáculo e da erosão dos valores, da
^ovos movimentos sociais estud "jovens" irá se expressar nos falta de criatividade e de reais perspectivas de futuro.
Por trás das comunidades hippies, da revolução sexual e do ataque
con
•1 endIvoltado especialmenT namercado
aparição do segmento
consumo o coni^ que busca
a e da então nascente "culti ° ^ necessidades, valores e si
nais de
frontal ao aparato escolar, da crítica à velha esquerda e ao discurso do dia-
mat', críticas reivindicadas pelas inúmeras novas esquerdas posteriores a
68, tal como na denúncia da imprensa vendida e na defesa das liberdades
A™pçâodafi^,ado>::;~>\
con emporaneas explica não apenas o ^^Sinário social das sociedades democráticas elementares ou no combate contra o "caminho capitalista", por
e
l scentes e doso
j vens, mas se express^tb ^ nú
i scia e da moda dos ado- trás dessas atitudes, expressões e críticas, o que se procura colocar em xeque
é a caducidade absoluta das três instituições principais onde se produz e se
exemplo, na criação de setores representai'^ mencionar um único reproduz a cultura moderna; a família, a escola e os meios de comunicação.
partidos políticos em todo o mundo. ^ juventude" na maioria dos
Ao fazer valer sua especificidade como novo ator • i Dia-mat é uma expressão comum no meio da esquerda europeia, usada para designar a simpli
especial do mercado de consumo eportador
comode portador 1 segmento
uma cultura particular, ficação reducionista da perspectiva do materialismo dialético de Marx levada a cabo por Stalin,
simplificação que provocou a negação absoluta de todo desenvolvimento da ciência ocidental,
desqualifiacada como "burguesa" - e, portanto, algo inútil. N. T.
42 ( arlos Anionio Auuirre Rojas
Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração
Essas três instituições, conformadoras dos mecanismos essenciais de mente reprimidos pelas "forças da ordem": o massacre da praça de Tlatelolco,
reprodução da cultura nas sociedades contemporâneas, serão questionadas no México, em 2 de outubro de 1968; a "primavera de Praga" sob os tanques
em seus próprios fundamentos e de todas as maneiras pelos movimentos do soviéticos ou a ocupação da Universidade de Columbia em Nova York pela
68. O impacto desses questionamentos será de tal modo profundo que se pode polícia; a invasão do exército na cidade de Córdoba, na Argentina; a purga da
caracterizar 1968 como uma autêntica e radical revolução cultural e civi- chamada "banda dos quatro" depois da morte de Mao, na China; os efeitos da
lizatória de enormes conseqüências sociais e de longa duração. Revolução manifestação de apoio a Charles De Gaulle e a posterior votação a favor da
direita na França são todos exemplos da forte repressão que sofreram esses
cultural de longa duração apenas compáravel, segundo Femand Braudel, aos
movimentos de 1968.
movimentos do Renascimento e da Reforma europeus, que se verificam, não
Porém, como Femand Braudel lembrou inúmeras vezes, a história hu
por acaso, no momento final de \nna longa fase de trinta anos marcada no mana é muito complexa e se desenrola sempre, simultaneamente, em vários
mundo inteiro por uma sustentada prosperidade. níveis e registros do tempo histórico, em várias e muito diversas durações
Podemos afirmar, sem hesitar, que os movimentos do 68 foram filhos históricas. Nesses registros mais profundos, distintos do tempo imediato, é
não da crise econômica e da deterioração social, como vivemos atualmente, onde se pode encontrar o sucesso dos movimentos de 1968.
mas, ao contrário, produtos da história de sociedades que então atravessa- Tais movimentos e seus propósitos não eram simplesmente imedia
vam uma situação de relativo auge econômico e crescimento social. Esse fato tos, mas aludiam, igualmente, a processos conjunturais e a realidades mais
o 'u alguns estudiosos desses movimentos. A confusão se explica sim- propriamente estruturais, sobre as quais incidiram irreversivelmente. Em
p smente pelo fato de que foi justamente a culminação desta curva expansi- primeiro lugar, como já assinalado, incidiram no próprio funcionamento dos
^ ° Kondratiev em todo o mundo — marcada por uma industrialização principais mecanismos de reprodução da cultura nas sociedades do mundo
contemporâneo, sobre os quais a revolução cultural de 1968 desempenha o
mobilidade social ascendente, por um aumento real dos papel de um definitivo divisor de águas. As instituições culturais da escola,
da família e dos meios de comunicação são de uma forma antes de 1968 e
em geral^ crescimento constante da taxa de emprego e da economia radicalmente outros, distintos, depois dessa data.
da cidt^ permitu a esses movimentos se concentrarem nas dimensões Assim, a revolução cultural de 1968 triunfa quando observamos que
volucã iiicorporando as demandas de uma autêntica re-
mnvíTM ♦ à agenda tradicional de reivindicações sociais e políticas dos
há três décadas se extinguem, definitivamente e no mimdo inteiro, o papel
preponderantemente passivo dos estudantes e a hierarquia e autoridade in
movi^ntos contestatórios anteriores. questionável do saber-poder dos professores. Isso já transforma radicalmente
dn<? P'^ecisamente as sociedades filhas do "milagre mexicano", o aparato escolar em seu todo. Se antes de 1968 dominava o Magister Dixit
ou do «crrn u franceses, da "revolução científico-técnica" tcheca e o papel apenas receptivo dos estudantes, depois desse ano o problema será
ras Que ton/ ° democracia chinesa, sociedades próspe- como incorporar e canalizar mais ativamente a participação dos alunos no
ram então 1 ^ ^^^ente melhores condições econômicas e sociais, pude- processo de criação e reprodução do saber, sobre a base do livre exame e crí
tica das opiniões.
seusespaços
seus esnaoonacionais.
^ o com todo êxito uma genuína revolução cultural em
Algo similar ocorre com a família nos últimos trinta anos. Ali também
se extirpa definitivamente a autoridade inquestionada do pai e o domínio
seus resuítad^s°n^p^^^°"^^^' ^^ reflexão em tomo de 68 é o que alude a evidente dos membros do sexo masculino, para dar lugar a uma nova situa
anos sessent
a foforam
sessenta ram, enfi
m, derrotados
^ <l^estiona ou triunfmovimentos
se esses antes. A respost
dea,fins
pordos
pa- ção, na qual se valoriza o papel social e familiar da mulher e se reivindicam
os direitos tanto da mulher como das crianças no seio da célula familiar. Se
a revolução escolar se expressa no auge inusitado da pedagogia, posterior a
Visto apenas em sua imediatez, do prisma dos movimentos políticos 1968, a revolução familiar, outro dos êxitos da revolução cultural de 68, vai
concretos que representavam e com relação às demandas imediatas que pro se manifestar, por sua vez, em um paralelo e equivalente auge da psicologia
punham, praticamente todos os movimentos da segunda metade dos anos e da psiquiatria contemporâneas.
sessenta podem ser considerados derrotados em suas metas. Isso aconteceu Ao mesmo tempo, em sintonia com essas mudanças profundas da famí
porque, em grande parte dos casos, esses movimentos foram direta e brutal- lia e da escola, mudarão também os meios de comunicação, que passarão por

44 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 45
uma verdadeira revolução para superar a antiga situação na qual a informa encontra francamente em declínio, estando, sem dúvida alguma, com os dias
ção era privilégio de poucos e a verdade, mn simples atributo do poder. Em contados.
sua nova fionção e condição, os meios de comunicação, ao se democratizarem A crise, declínio ou morte das culturas criticadas pelos movimentos do
e facultarem o acesso à informação e à verdade, converter-se-ão num novo ve 68 testemunham o êxito evidente de tais movimentos durante as últimas três
ículo formador da opinião pública, num novo esquema, baseado na diversida
décadas passadas e, talvez, ainda durante algum tempo futuro.
de real de enfoques e na pluralidade crescente de pontos de vista, opiniões e
Os importantes êxitos ou conquistas dos movimentos de 68 igualmente
perspectivas. Essas pluralidade e diversidade devem ser também creditadas
como outras duas conquistas evidentes da revolução cultural de 68. se revelam na vigência e no continuado vigor que caracterizam os movimen
Desse modo, ao analisarmos seus efeitos no registro da conjuntura dos tos diretamente gerados pela mesma grande ruptura, pois 1968 deu origem
últimos trinta anos, 1968 aparece mais como vitorioso que como derrotado. ao nascimento de toda uma ampla família de movimentos antissistêmicos
Três décadas depois de sua deflagração, os "objetos da crítica" que esses mo ou a uma verdadeira reedição deles, os quais, ao confrontar e impugnar es
vimentos impugnaram já não existem, ou estão completamente em crise, ao sas dimensões, instituições e realidades culturais das sociedades modernas,
passo que as demandas gerais e os próprios descendentes desses movimentos constituíram outras tantas frentes da luta anticapitalista das últimas três
hoje gozam de inquestinável vigor e permanente atualidade. décadas.
Hoje, essa cultura consumista e alienada que foi posta na berlinda pelos Em todos os casos, esses filhos diretos da revolução cultural dos anos
estudantes do Maio francês se encontra em profunda crise, que, por sua vez,
expressa e acompanha a crise mais geral do neoliberalismo vigente nos pa sessenta continuam sendo até hoje protagonistas ativos e fundamentais da
íses capitalistas mais desenvolvidos. Assim, o problema para o capitalismo oposição e da contestação ao sistema capitalista dominante. Um exemplo po
esenvo vido de hoje já não é tanto estimular sem limite esse consumo vazio deria ser buscado no movimento feminista, que problematiza a relação entre
lenado, mas, antes, sobreviver à reestruturação produtiva, com a supres gêneros e que, embora existisse já antes de 1968, adquiriu após esta data
são os postos de trabalho — e com isso a capacidade de consumo social — e uma amplitude, força e permanência antes desconhecidas. Sua inédita pre
concentrar ainda mais a planta produtiva, ao mesmo tempo em que polariza sença e coesão sistemática derivam, em boa medida, tanto dessa mesma re
e segmenta cada vez mais os mercados existentes.
volução interna da família que acima mencionamos, como da mudança mais
Ao mesmo tempo, já não existem mais a "falsa cultura socialista" e o rí- geral dos papéis sociais e culturais da mulher a que se assiste nos últimos
^ oaga
monopól
e pelaiorevol
cultumção
ral do partidda
cultural o que foram
China. impugnados
Ambos perecerampel
a Priammorte
com averadas
de trinta anos.
Outro exemplo perfeito é o dos movimentos ecológicos, os quais repro-
socie ades do socialismo real" que os reproduzia, o que não implica que, com blematizaram o uso dos recursos naturais e os modos de aproximação e per
. essa
eo ogipseudocultura socialista
as doesoci
a oficial das burocraci doalis
marxismo vulgar
mo real, tenha convertido
morri
do também em
o cepção da natureza, assim reivindicando de maneira inovadora e por vias
originais as antigas demandas dos movimentos hippies dos anos sessenta,
pensamento marxista genuinamente crítico, que foi, ao contrário, reivindica- convertendo a demanda um pouco ingênua da "volta à natureza" numa abor
o por esses movimentos do 68 e que agora adquire uma nova possibilidade dagem sistemática das tecnologias alternativas, do papel do meio ambien
e esenvolvimento ao liberar-se de sua equívoca associação com essas estra te nos processos sociais, dos riscos e conseqüências de eventuais catástrofes
nhas experiências das sociedades do socialismo real. ecológicas e das possibilidades futuras de uma reorganização racional dos
Paralelamente à desaparição da falsa cultura socialista e à crise global ecossistemas e um melhor aproveitamento do meio geográfico.
da cultura consumista capitalista, também desandou a cultura antidemo Igualmente, a partir de 1968 ganham força os movimentos pacifistas e
crática e autoritária que foi fortemente criticada pelo movimento estudan antinucleares, que se opõem tanto à guerra de Vietnã como ao risco de uma
til mexicano. Hoje em dia ninguém defende mais essa cultura, exceto certos catástrofe nuclear. Com um papel de relevo em sua crítica à Guerra Fria e
regimes muito atrasados da América Latina e do Terceiro Mundo. Porém, ao precário equilíbrio das duas superpotências nucleares, tais movimentos
como demonstra claramente o movimento indígena neozapatista mexicano parece terem se eclipsado um pouco depois da queda do Muro de Berlim.
ou o Movimento dos Sem Terra no Brasil, entre tantos outros, esta cultura se Seguramente, muito em breve retornarão à atividade, em razão de que hoje

46 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 47
um certo grupo de países, denominados de "desenvolvimento intermediário", vigorosos e testemunham o êxito da revolução de 1968 no "prazo médio" dos
começa a ter mens e mais acesso ao domínio dessa tecnologia nuclear de des tempos conjunturais.
truição. Isso, certamente, dará novo fôlego, no futuro imediato, a esses mo Para além dos efeitos hoje registráveis sobre as conjimturas dos últi
vimentos que lutam pela paz, contra a guerra e pelo desarmamento nuclear mos trinta anos, a revolução cultural de 1968 abre-se para, num plano mais
da humanidade. profundo, correspondente ao registro da longa duração histórica, a uma série
Outros "fiutos" diretos do 68 são os distintos movimentos urbanos, que de conseqüências e de mudanças de ordem verdadeiramente estrutural que
também se tomaram populares em todas as sociedades contemporâneas nas apenas haverão de se manifestar efetivamente nas próximas décadas.
últimas três décadas. Dando espaço aos novos atores sociais que vivem e se Poderemos, então, dizer que 1968 foi uma revolução cultural de longa
desenvolvem nas cidades de todo o planeta e levantando toda uma enorme duração compáravel aos movimentos do Renascimento e da Reforma? Fer-
gama de demandas concretas, esses novos movimentos antissistêmicos se ca nand Braudel não tinha dúvidas em responder afirmativamente a esta per
racterizam por sua grande heterogeneidade quanto a sua composição interna gunta apenas três anos depois de 1968. A partir dos efeitos e conseqüências
e, logo, por uma vida mais acidentada e irregular que os demais movimentos perceptíveis nos tantos anos que nos separam de 1968, também estamos de
Emtissistêmicos pós-68. acordo com Braudel em apostar que no futuro, ainda durante várias décadas,
Por último, também nascidos do grande choque de 1968, ou de qualquer continuaremos vivendo sob a sombra e os benéficos ecos reiterados pela enor
modo alimentados e fortalecidos por ele, uma gama de distintos movimentos me revolução cultural de 68.
de reivindicação dos grupos e das minorias étnicas de todo o planeta ganhou Do mesmo modo que o Renascimento e a Reforma europeus antecipa
orça. Assim, cobrindo sob seu espectro tanto as distintas vertentes dos mo- ram as mudanças econômicas, sociais e políticas que estiveram no berço da
moderna sociedade burguesa capitalista, também a revolução cultural de
^m entos antirradesenvolvido
o capitalismo cistas, que sã—
o cnas
adaquais
vez moa is fortescresceu
racismo e ativossensivelmente
nas sociedadenas 1968 poderá chegar a ser, num futuro não muito distante, o sinal anunciador
u tima década —, como as variantes dos movimentos indígenas ou das mino de todo um novo sistema histórico, de uma nova ordem social, radicalmente
rias étnicas nos diferentes países, esses movimentos tiveram uma forte res distinta da atual, a qual, mediante outras novas revoluções econômicas, so
surreição durante os últimos anos, derivada, em parte, da desintegração das ciais e políticas, seja superada por uma nova sociedade não capitalista, onde
orgamzações estatais e dos esquemas nacionais, e, em outra parte, da crise a exploração econômica, a opressão política e a desigualdade e discriminação
c ur do esquema civilizatório da modernidade, que, ao evidenciar seus social sejam finalmente extirpadas. Posto que já conhecemos o esquema des
mutes, abre espaço para o renascimento da pluralidade e diversidade que tal sa sucessão de revoluções, deflagradas no plano da cultura para terminar
squema civilizatório havia procurado sublimar e homogeneizar. Não será gestando toda uma nova organização da sociedade, nosso dever é o de tentar,
sua , pois, o fato de que os movimentos étnicos ou indígenas desempenhem com paciência e dedicação, aplicá-lo seriamente mais uma vez.
oje um papel de vanguarda" dentro do conjunto dos movimentos antissistê Por isso, mais de três décadas depois, vale a pena continuar repensando
micos em certas sociedades, como é claramente o caso do movimento indígena de maneira crítica e criativa esse leque de movimentos sociais que a simbóli
neozapatista no México e em toda América Latina. ca data de 1968 sempre evoca em nossa mente.
Finalmente, acompanhando a todos esses importantes movimentos so
ciais antissistêmicos, filhos da revolução cultural do 68, minorias oprimidas
ou excluídas socialmente, tais como homossexuais, prisioneiros, os presos e
desaparecidos políticos e desempregados, entre tantos outros, iniciaram um
amplo e diversificado movimento de contestação e reivindicações particula
res. Todos esses diversos movimentos antissistêmicos, nascidos ou revigora
dos nas lutas do final dos anos sessenta, permanecem ainda vivos, ativos e

48 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 49
1989 em perspectiva histórica'

[...] O tempo das verdadeiras revoluções é também


o tempo em que florescem as rosas.
Femand Braudel
(Escritos sobre a história, 1958)

História imediato e perspectiva histórica


Há apenas duas décadas, quando o mundo ocidental começava a se
precipitar numa aguda crise econômica internacional e o marxismo emer-
gia como protagonista intelectual de primeira ordem dentro das atmosferas
culturais e das universidades da Europa, Estados Unidos e América Latina, l
ninguém poderia imaginar os cenários que, vinte anos depois, se abririam
em escala mundial, redefinindo de maneira tão radical como agora o fazem a
vida dos povos e países do mundo inteiro. i
Imersos então, como agora, na luz ofuscante dos acontecimentos ime-
diatos, a maioria de seus protagonistas tendia necessariamente a sobreva- /
lorizá-los, elaborando seus juízos e prognósticos muito "no calor da hora e, [
portanto, sem uma perspectiva histórica mais ampla e complexa. Com isso,
simplesmente repetiam uma espécie de "pecado" permanente e ineludíve ,
cometido por todas as gerações que lhes haviam precedido, pois a consciência
genuinamente crítica e a visão em perspectiva histórica ampla não são fa
culdades espontâneas do intelecto, mas verdadeiras conquistas de um certo
exercício e de uma certa disciplina do próprio pensamento dos homens. j

Publicado em La Jornada Semanal, n. 199, México, 04/04/1993, p. 35-40.


' Este texto resume, de modo mais pontual, as teses que desenvolvi mais amplamente em duas
conferências recentes: "Marxismo: perspectivas após a crise do leste europeu , proferida na
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil, e "Las ciências sociales y el
marxismo hoy", proferida na Universidade Nacional da Patagonia San Juan Rosco, Comodoro
Rivadavia, Argentina. Incorporei os comentários dos colegas brasileiros e argentinos, aos quais
agradeço aqui publicamente. O texto foi originalmente publicado em La Jornada Semanal,
México, n. 199, p. 35-40, 4/4/1993.
Da mesma maneira, confrontados com as enormes mudanças que hoje OS momentos de inflexão de vários "registros" históricos fundamentais a que
abalam a hvunanidade, os homens atuais voltam a "deixar-se tomar" pela antes aludimos.
única cena que têm diante dos olhos - ao modo do cinéfilo que se apaixona Assim, tal como explicaram os jornalistas e os analistas da conjimtura
pelo filme que assiste —, esquecendo que não é mais que um momento eva- imediata, 1989 foi uma espécie de ponto culminante dentro da curva de um
nescente de uma trama muito mais ampla e complexa, que se desenvolve há conjunto tumultuoso de acontecimentos importantes e espetaculares, que
muito tempo e cujo desenlace final está ainda muito distante. vão desde as vicissitudes do movimento Solidaridade na Polônia e a Peres-
Assim, se a geração de vinte anos atrás estava certa da iminente queda troika, até a desaparição da União Soviética e a desintegração de Iugoslávia,
do capitalismo e da capacidade explicativa de um certo tipo de marxismo, as passando pelas revoluções tcheca e romena e pelas jornadas históricas de 8 e
gerações atuais parecem estar convencidas, também com muita facilidade, do 9 de novembro em Berlim.
triunfo decisivo, senão definitivo, do capitalismo e do inevitável fim do pen- Ao condensar, então, em si mesmo uma súmula de importantes eventos,
SEunento e do projeto marxista. Prisioneiras ambas de uma visão embebida o grande giro do 9 de Novembro de 1989 se projeta no imaginário coletivo
do tempo curto, ou événementielle, estas gerações se esforçam por decifrar como o símbolo conspícuo da solução derradeira dos grandes problemas que
antecipadamente, e apenas com os dados da experiência direta, o possível então levantavam a situação imediata: a culminação da Perestroika, tanto
desenlace do drama histórico do qual participam. em nível interno como no plano das relações internacionais; a alternativa à
Porém, a história avança sem cessar, em vários registros simultâneos, crise política da maioria dos países "socialistas" da Europa Oriental, a libe
e, para além dos "acontecimentos vividos" por personagens e testemunhas, ração das economias planificadas e a aceitação dos mecanismos da economia
desenvolvem-se também "outras" histórias paralelas, de espessura e densi de mercado, a redefinição do mapa europeu com vistas à umficação projetada
dade diversas, histórias ritmadas com temporalidades diferentes e cujos efei em 1992, entre outros momentos decisivos.
tos podem apenas ser percebidos a partir de níveis mais profundos.
Porém, como já se podia vislumbrar nessas "questões candentes dos
Nessa perspectiva, a significação de 1989 — momento de ruptura im últimos anos, encerravam-se dentro dessas "soluções imediatas medidas que
portante que simboliza, tal como 1789, toda uma conjuntura mais ampla transcendiam em muito a própria situação vivida, para impactar diretamen
de transformações e de rearranjos fundamentais^ — se apresenta sob uma te nas realidades subjacentes de maior alcance e profundidade.
luz diferente daquela que foi considerada por grande parte dos analistas Se abrirmos um pouco o arco temporal de nossa análise, veremos que
contemporâneos. Dessa ótica, também se redimensiona a pergunta acerca esse ponto culminante dentro da cadeia dos grandes acontecimentos ocor
do destino presente e futuro do marxismo. Finalmente, todo o cenário da
ridos recentemente representa uma espécie de epílogo da importante con
história que vivemos hoje é iluminado com cores variadas. Procuraremos,
a segmr, esboçar esses novos contornos do problema que nos propõe o título juntura vivida nos últimos trinta e cinco anos, que havia se iniciado com a
deste ensaio. "revolução cultural" de alcance planetário de 1966-1969 e respaldada, pouco
depois, pelos efeitos da crise econômica internacional, cujo arranque po e
datar de 1972-1973.3
Os vários significados de 1989 Fase "conclusiva" da conjuntura iniciada em 1968-1973, o período e
1989" vai coroar vários processos iniciados vinte anos atrás, os quais, agora,
Todo o mundo percebeu, de uma maneira ou de outra, que 1989 repre são projetados sobre o chamado "mundo socialista" para adquirir, então,
sentava, em sua dimensão emblemática, o fim e, ao mesmo tempo, o começo verdadeira dimensão planetária. Em um jogo de semelhanças realmente c a
de realidades diversas e importantes. Estava claro que "algo" chegava ao
fim e que outra coisa nova e distinta se iniciava. Mas se todos pressentiam mativo, o ano de 1989 colocou "na ordem do dia", num contexto e num espaço
o ponto crítico a que se assistia, poucos tentaram decifrá-lo e reconstruí-lo
em todas as suas dimensões diversas, porque 1989, na verdade, constitui um
complexo nó no qual coincidiram, de maneira particularmente sincronizada. Sobre o significado de 1968 ver BRAUDEL, Fernand. Domina Ia parola cambiando Comere
delia Sera, 7 maio 1982; e sua entrevista publicada no LExpress em novembro de 1971. Ver
ainda o agudo ensaio de WALLERSTEIN, Immanuel. 1968, revolution in the world-^stem. In.
Vejam-se os textos de Bolívar Echeverría, 1989. Apresentação aos Cuadernos Políticos, México, Geopolities and geoculture. Cambridge/Paris: Maison des Sciences de 1 Homme e Camta^
n. 59-60, 1990, e La izquierda: reforma y revolución. Utopias, México, n. 6, 1990. University Press, 1991; ARRIGHI, G.; HOPKINS, T.; WALLERSTEIN, I. 1989, the continua
tion of 1968. Review, v. XV, n. 2, 1992.

Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 53
diferentes, toda uma série de problemas e demandas que 1968 havia também Essas características comuns em uma medida compartilhadas por 1968
colocado no centro das preocupações da geração precedente. e 1989 se explicam pelo pertencimento de ambas as datas a uma mesma con
Desse modo, é curioso comprovar que, junto às evidentes diferenças que juntura, a um mesmo pequeno ciclo histórico de 20-25 anos. Essa conjuntura
existem entre 1968 e 1989, em termos de contextos globais e de situações participa da curva depressiva do ciclo Kondratiev e explica, por sua vez, a
imediatas, coexistem profundos pontos de semelhança. Assim, a contradição vigência de certos processos e realidades ainda mais profundos.
entre as necessidades e as exigências da estrutura econômica e as velhas Para além dessa dimensão conjuntural, na qual 1989 é o epílogo lóg^i-
formas dos aparatos políticos e institucionais dentro das quais funciona essa co e necessário da revolução de 1968, subjazem realidades e estratos mais
economia se repete em ambos os extremos do ciclo conjuntural 1968-1989, profundos, que atribuem ao acontecimento simbólico do 9 de Novembro uma
pois, se no mundo ocidental no qual irrompe 68 um rápido desenvolvimento significação verdadeiramente estrutural.
produtivo e tecnológico havia deixado para trás formas da participação e do Avançando a fundo na dimensão temporal de nossa análise, acredita
mos que o ano de 1989 consiste num tipo de «fim de época", o final do breve e
jogo político das democracias, entrando em choque com elas, em 89 assisti acidentado século XX histórico que se inicia com a Primeira Guerra Mundial
mos, igualmente, ao conflito entre as figuras políticas derruídas das velhas e o nascimento do primeiro Estado socialista. Marca o fim dos processos his
urocracias dos países socialistas e as exigências de modernização de uma tóricos fundamentais que experimentou a humanidade até o final da década
economia que, constrangida nas redes de dominação dessas nomenclaturas, de 1980, entre os quais se destacam desde o projeto de construção de um
começa a entrar em crise de maneira cada vez mais inevitável. "mundo socialista" em sociedades pré-capitalistas, passando pela polariza
sse conflito (fireto entre economia e política, característico da conjun- ção geopolítica entre os mundos capitalista e socialista batizada de Guerra
l^rinta anos, é acompanhado, ademais, de outra dupla e se- Fria", até a marcante pluralização do marxismo, que originou as bizarras
figuras do marxismo vulgar e do marxismo institucional ou aca êmico, ou
Hip" "i contra os velhos movimentos e líderes da esquerda tra- o período de breve hegemonia dos Estados Unidos sobre a economia mun o
nart'H cunoso observar como a crítica levantada em 1968 aos velhos ocidental.
- se acusava de estarem divorciados das bases Para entendermos, então, o que é que entra em crise e que começa
íim o ^ ® populares, de viverem uma realidade esclerosada e sustentada afirmar em 1989, precisamos considerar com mais detalhes os traços carac
^ ultrapassados e de defenderem um marxismo vulgar terísticos desse "pequeno século XX" (1914/1917-1989).
V , mais capaz de explicar a realidade e de influir efetivamente
, ^ correlato na impugnação que 1989 vai desenvolver em
Traços essenciais do pequeno século XX
ci•vi,"1^ • s a os soci
internamente alistaszsovi
burocrati éticeos,
ados igualmentenum
chafurdados isola«marxi
dos dasmo"
sociesidade
mplifi Conforme ensina a historiografia francesa contemporânea os sécidos
cado e estreito, convertido em ideologia oficial. históricos não coincidem, em geral, com os séculos cronológicos. e
entre ao «esquerda"
^ ® oficial
^ e' ^os
ova esquerda, num caso, e a essa regra, o breve século XX histórico começa apenas com a e
novos «democratas" converge também de dife-
V/VJ.X V VxJL UCLXXXIL/^XXJ. V-XXXV^ Primeira Guerra Mundial e o triunfo do projeto revolucmnano o c
fnntpm ^ economicismo e ao produtivismo das sociedades na Rússia de 1917. Duas rupturas importantes, 1914 e 19 , cons i ne >
Z T «®^tído, as demandas da democracia, de «trans- mesmo tempo, o arranque do vigésimo século de nossa era e a propos
Íq«qT 'J® liberdade de expressão e até de livre-mercado que solução às grandes questões levantadas pela segunda meta e osecu o
parecem ser apenas um eco distante das Se insistirmos nessa «marcha para trás" na temporalidade histonca v^
reivindicações de 68, de uma revolução da vida cotidiana que, para além de remos que a grande pergunta levantada pela segunda me a e o secu
demandas econômicas, fosse capaz de mudar os costumes, a atitude e a rela foi em relação ao destino socialista da Europa ocidental capitalista, então
ção para com a natureza, as formas da família e da relação entre os sexos ou mais desenvolvida. Assumindo a inegável crise civilizatona que as revo u
OS modos mesmo da reprodução cultural.
ções européias de 1848 haviam revelado - ao atingir a cmlizaçao europeia,
em meados do século XK, o clímax da curva ascendente da modernidade ca-

54 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 5 5
Por um lado, um marxismo simplificado e institucional, por outro, um - sob a liderança alemã - e uma "Cuenca do Pacífico" que não resiste a se
marxismo filosófico apolítico, ambos não impediram, não obstante, a sobrevi consolidar diante da ainda colossal resistência da imensa nação chinesa. í
vência, sempre marginal e minoritária, de um marxismo genuinamente críti Ao mesmo tempo, conclui-se também essa história estranha dos muitos
co, o qual, de Lenin e Rosa Luxemburgo a Lukács e Mao-Tsé Tung, contra to marxismos, na medida em que a crise de 1989 veio eliminar uma grande
das as adversidades, manteve a tradição do espírito original de seu fundador.
parte deles. Se este momento que agora vivemos é, sem dúvida, o fim de
O claro movimento de "pluralização" do marxismo, característico do
muitos socialismos e marxismos, não parece, contudo, ter chegado ao fim
breve século XX, e as distintas empresas do "socialismo real" erguido sobre
sociedades pobres e com o declínio da hegemonia europeia sobre o planeta o ciclo dos movimentos anticapitalistas e revolucionários, nem, tampouco,
constituem várias das chaves essenciais® para a adequada compreensão da o florescimento de distintas variantes do pensamento crítico, presentes em
crise de 1989 e de seus possíveis significados. todo o planeta.
Vista mais uma vez para além do contexto imediato, a situação atual
das ciências sociais não parece ainda ter criado, nem será capaz de criar
As lições de 1989 durante um bom tempo, uma nova teoria crítica solidamente estruturada, de i,
O que entra em crise em 1989? O que acaba e o que termina nessa alcance global, alternativa àquela enorme matriz construída há mais de 150
data simbólica? Esse ano emblemático representa o fim do pequeno século anos na Europa revolucionária da época de Karl Marx. i
e, com ele, dos projetos de construção de mundos socialistas sob condições Por isso, é interessante perceber que uma grande parte dos desenvolvi
o jetivas completamente hostis para isso. Acabam-se os socialismos "reais", mentos intelectuais mais importantes produzidos no campo da reflexão social
eixando-se novamente livre o caminho rumo ao verdadeiro socialismo e co- durante o breve século XX acabou se aproximando e, amiúde, se associando,
mumsmo utopicamente prefigurados um dia por Marx. de várias maneiras e em momentos diversos, com a mesma matriz originada
No fim das contas, o breve século XX acabou confirmando, de modo trá- do pensamento crítico moderno que é a cosmovisão de Karl Marx. Assim,
pco, a própria tese marxista original com relação ao caráter necessariamente podemos lembrar tanto a derivação do projeto freudiano presente nos inte
imprescindível de um alto grau de desenvolvimento econômico, social, polí- ressantes trabalhos de Wilhelm Reich quanto a curiosa matriz de annalis-
ico e cultural como condição de viabilidade a qualquer projeto comunista.
essa ótica, a partir do acontecimento ou da conjuntura, aquilo que parece tas-marxistas" que hoje existem dispersos por todo o mundo, bem como as
uma errota — a derrota da luta pelo socialismo pelas sociedades pouco de- primeiras filiações de Lévi-Strauss com o pensamento de Marx, ou as esco
senvo vidas — passa a ser, numa perspectiva mais profunda e estrutural, uma las marxistas presentes em praticamente todo o leque das ciências humanas ^
enorme vitória: URSS, China, Cuba, Vietnã percorreram, no lapso de duas contemporâneas. (
ou tres gerações, o mesmo caminho que a Europa percorreu em dois ou três O ano de 1989 representa, então, entre outras coisas, o fim dos processos \
secu os com relação ao desenvolvimento econômico, social, político e cultural enunciados, assim como o início de uma situação que, guardadas as devi as ^
de suas respectivas sociedades. proporções, parece querer reeditar o contexto às vésperas de 1914, quase um
Termina, igualmente, a polaridade capitalismo/socialismo sobre a qual século depois, porém, com uma diferença sem dúvida fundamental, enquan o
se construiu o mapa do mundo contemporâneo. Com isso, também chega ao no limiar do século XX o encontro era entre a pequena Europa e um socia
fim a breve hegemonia dos Estados Unidos sobre o mundo ocidental,a qual lismo que vivia suas primeiras experiências importantes, agora os persona
agora busca novamente seu centro, vacilando entre a Europa unida pós-92 gens são, ao contrário, todo o hemisfério Norte do planeta, que, finalmente, |
alcançou, pela via das raras experiências "socialistas", um desenvolvimento 1
9 Várias chaves, mas não todas, pois ficam fora deste horizonte as sociedades náo desenvolvidas, social e econômico considerável, e um socialismo que já experimentou a dura
do chamado Terceiro Mundo , que náo conseguiram concretizar um movimento e um projeto prova de sua implantação e de sua pluralização, provas que, adequadamente
revolucionários importantes e exitosos. processadas, podem lhe conferir uma força e experiência também dignas de
Essa é a idéia que a respeito desenvolveu Marx, repetindo-a desde seu antigo texto A ideologia nota.
alemã até o já citado conjunto de rascunhos sobre o futuro da comuna rural russa.
" Como sustentou convincentemente Immanuel Wallerstein em sua conferência "El sistema-
Se os movimentos anticapitalistas e revolucionários dos distintos rin
mundo y el fin de Ia hegemonia estadounidense", proferida na Facultad Latinoamericana de
cões do planeta sabem transcender a atual situação imediata de confusão e
Ciências Sociales, FLACSO, sede México, em 6 de março de 1992. de retrocesso, olhando um pouco além, e se um socialismo renovado e mais

58 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 59
relativização racional das verdades históricas alcançadas pelos historiadores Modas acadêmicas e realidades historiográficas
e que parece ter um exemplo paradigmático nesta iniciativa dos espanhóis de
festejeir os quinhentos anos de 1492. Apesar da imprevisível e curiosa trajetória do projeto espanhol, a inicia
No momento de seu lançamento original - numa Europa cujo cenário tiva em tomo do quinto centenário lançou uma notável moda acadêmica, que
era totalmente distinto do atual, na Europa pré-novembro de 1989 - o que se gerou uma nova onda de estudos e publicações acerca da história, das reali
pretendia com a celebração do quinto centenário era relançar a imagem da dades e da situação atual da América Latina.® Todos os institutos, centros e
Espanha dentro da Europa, sublinhando aquilo que constitma, na visão da departamentos de estudos latino-americanos de boa parte das universidades
própria Espanha, sua maior conquista civilizatória: a construção do mundo dos mais diversos países se viram novamente lançados ao centro da cena
ibero-americEmo. Assim, tal como a França apresentou o Bicentenário da Re quando se franquearam fundos astronômicos e apoio institucionais os mais
volução Francesa como a celebração da herança francesa aos povos do mundo diversos para se pesquisar sobre o significado e as repercussões do aconteci
e como mecanismo de difusão da imagem francesa na Europa e no mundo,'* mento de 1492.
a Espanha projetava utilizar a comemoração de 1992 como mecanismo de Como toda moda acadêmica, também a do quinto centenário teve um
autopromoção junto à comunidade europeia e mundial. duplo efeito: por um lado, fez proliferar os livros e artigos - de qualidade,
Como tantas outras coisas, porém, esse esquema original da celebração seriedade e profundidade muito díspares, obvÍEimente - sobre temas correla
se rompeu depois do 9 de Novembro de 1989, da queda do Muro de Berlim. A tes à história da América Latina durante os últimos cinco séculos; por outro,
unificação alemã e a incorporação de todos os protagonistas de Europa orien tornou patente o desenvolvimento atual dos estudos históricos relativos à
tal ao processo da história imediata redefiniram de maneira drástica os ter
trajetória do subcontinente latino-americano.
mos da programada unificação europeia, franqueando cenários e correlações Num olhar de conjunto, as novas obras produzidas e os resultados de
de forças absolutamente novos para os distintos países de Europa ocidental. investigação provocados por essa moda dos quinhentos anos revelam, mais
Ao mesmo tempo, complementando esse marco de rivalidades internas uma vez, o caráter ainda quase virgem da história da civilização latino-ame
européias pré e pós-89, organizou-se a contraofensiva da iniciativa espanhola ricana, a mais jovem do planeta.' À luz do debate em tomo de 1992, pode-se
em frentes muito diversas e heterogêneas: da ressurreição em certos luga constatar a imensa quantidade de problemas ainda por serem abordados e
res dos estudos históricos que relançavam, sob novas modalidades, a "lenda desenvolvidos na história da América Latina, isso não apenas no que tange
ne^a da conquista espanhola, até a iniciativa institucional dos governos à explicação e à interpretação dos principais processos da história latino-
atino-americanos, que organizavam os cumes iberoamericanos,' no sentido americana, mas, inclusive, no simples plano da investigação documental e do
de fazer sentir sua presença no acontecimento, passando pelo movimento
trabalho emdito de reconstituição dos "fatos".
organizado dos "500 anos de resistência indígena, negra e popular", ou pelo Ainda em 1992 falava-se na América Latina na necessidade de se in
fónim de "Emancipação e Identidade da América Latina 1492-1992".®
ventariar, recuperar e classificar uma grande parte dos arquivos e fontes
Em apenas três anos, o projeto da celebração do quinto centenário mu dos mais distintos tipos, trabalho que em muitos dos casos se combina com a
dou totalmente de sentido e perspectivas, acabando por perder uma parte
investigação e interpretação históricas propriamente ditas. Assim, enquan
importante de seus "altos voos" iniciais, ao se "queimar" um pouco junto com to reconstituímos acervos e reclassificamos pacotes de velhos documentos,
a misteriosa destruição do pavilhão ("coincidentemente") latino-americano vamos incorporando os novos métodos da história comparada e da história
da exposição universal, um incêndio totalmente estratégico.
global, junto com a busca de realidades de longa duração e a recuperação das
novas técnicas da história serial ou da mais recente interpretação iconográ-
fi c a .
Sobre a reaçáo dos próprios franceses ao Bicentenário, consulte-se a pesquisa resumida no livro
de GARCIA, Patrick; LEVY, Jacques; MATTEI, Marie-Flore. Revolution, fin et suite. Espaces
Temps, 1991. Para mencionar apenets alguns "reflexos" desta situação na França, ver LEVI-STRAUSS, Clau
CuTubres iberoamericanos é o termo oficial que se deu às reuniões dos presidentes dos países de de. Histoire de Lynx. Plon, 1991; a compilação de relatos, com prólogo de TODOROV, T. Le nou-
língua espanhola. N.T. veau monde. Les belles lettres, 1992; o livro de ATTALI, Jacques. 1492. Fayard, 1991; o estudo
Sobre os últimos, ver as declarações dos encontros oficiais do movimento dos "500 anos de de GRUZINSKI, Serge; BERNARD, Carmen. Histoire du Nouveau Monde. Fayard, 1991.
resistência", assim como os livros publicados pelo fórum "Emancipación e identidad", 1492, Que nos seja permitido remeter o leitor a nosso artigo Los problemas y Ias tareas dei histo
1992. La interminable conquista. Joaquin Mortiz/Planeta, 19^0, eNuestra América contra ei V riador en América Latina. Estúdios, Universidad de San Carlos de Guatemala, terceira época,
Centenário. Bilbao: Txalaparta, 1989. n. 1, 1988.

62 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 63
Na ciência social e na historiografia contemporâneas são ainda escasas Esse longo século XVI é mais um século "europeu" que "americano" da
as histórias gerais do período moderno da América Latina, razão pela qual história latino-americana^" e apenas se conclui com o declínio da quantidade
os métodos e técnicas desenvolvidos pela historiografia europeia já há várias de ouro e prata produzidas na América e levadas para a Europa, em fun
décadas acabeim sendo, sem dúvida, inovadores — e não aplicados — em face ção do movimento depressivo da economia europeia na longa "crise do século
dos temas e períodos diversos da história de nossa joven civilização, neles XVII" (1630-50 a 1715-30), no qual os vínculos da Espanha com a América se
encontrando campos férteis para seu desenvolvimento.® afrouxam até o ponto de quase se abandonarem as colônias americanas do
Império espanhol "a sua própria sorte".
Temas novos do historiografia latino-americana Assim, nesses tempos, quando na Europa os preços são baixos e persis
tentes, com refluxo do comércio, indústria e agricultura, e há um retrocesso
social e civilizatório da Europa sobre si mesma, na América Latina vemos os
Ao procurarmos olhar um pouco para além de outubro de 1992 é interes
sante assinalar algumas novas áreas de investigação que se manifestaram primeiros mercados regionais sendo organizados de maneira mais autônoma,
nessa breve conjimtura intelectual provocada pelas celebrações do quinto o florescimento de uma cultura e um éthos barroco mais característicos de
centenário da chegada de Colombo ao território americano. nosso subcontinente e menos de suas matrizes européias originais: em suma,
Uma primeira linha de investigação se refere à própria periodização são épocas de um primeiro intento de reconstrução civilizatória e que esbo
desse corte histórico da civilização latino-americana. Para além dos tradicio- çam uma virtual protoeconomia-mundo latino-americana - ou até americana
nms cortes cronológicos de cem anos redondos, e transcendendo também a ge em conjunto."
nérica classificação de uma história "colonial" e uma história "independente", Depressivo na Europa e criativo e inventivo na América, o século XVII
os historiadores latino-americanos já assumem que os séculos históricos são alcança a terceira década do século XVIII para dar lugar ao "quase esquizo
sempre diversos dos séculos cronológicos e que correspondem a realidades frênico" século XVIII histórico. Neste, o comércio legal com a península con
e tei^oralidades diferentes, complexamente atreladas ao movimento geral vive com um equipáravel tráfico de mercadorias pelas vias do contrabando e
que es atribui sentido. Assim, os historiadores descobriram que o relógio da pirataria, enquanto que, junto aos fluxos e à presença da cultura metro
americano se encontra ritmado de um modo muito mais próximo — como já politana, começam a germinar os distintos elementos da cultura criolla - na
se acreditou uma vez — do movimento dos "tempos do mundo" e aos compas verdade, uma variante específica da cultura barroca acima mencionada. É o
sos específicos do mercado mimdial capitalista e da expansão da economia- século de uma tentativa fracassada da Espanha de recuperar as rendas do
mundo europeia. processo colonial, que coexiste com a cada vez mais patente realidade de que
ninguém na Europa ou na América - à exceção da própria Espanha - está
1oma
• isso, rompe-se
, sustituído pelocom o antigo conceito
reconhecimento de trêsde "período
claros e muitodaheterogêneos
história co- interessado em que os povos latino-americanos permaneçam sob domínio es
momentos da vida latino-americana. No imcio, um "longo século XVI",® que panhol.
na enca vai de 1492 até 1630-50, é caracterizado pelo fluxo cada vez mais O século XVIII é marcado, pois, por constantes desencontros, contra
in enso e metal americano em direção à Europa, pelo projeto "utópico" dos dições e instabilidades do mais diverso signo, que desembocam, quase na
conquistadores de levar a cabo a "refúndação" da Europa em América, pela turalmente, nos movimentos de independência e na posterior crise aguda e
ca as ro e emográfica e civilizatória das antigas populações indígenas e prolongada que abre, depois dos anos vinte do século XIX cronológico, a fase
pelo primeiro assentamento - mais de conquista do que de colonização nessa inicial do caótico e acidentado século XIX histórico. É o fim do que antes se
época - e reconhecimento sistemático e orgânico do espaço americano pelos conhecia genericamente como "etapa colonial", com a destruição radical do
espanhóis.
Procurei esboçar alguns traços específicos do papel da América Latina na história universal em
meu artigo Fernand Braudel y Ia "invención de América". Jornada Semanal, n. 72, out. 1990.
" Tal projeto de uma economia mundo-americana ou latino-americana fracassou não apenas por
8 Razão pela qual são tão inovadores e estimulantes os trabalhos de François Chevalier, Celso
falta de tempo para se afirmar e se constituir, mas também pela condição periférica da Amé
Furtado ou Enrique Florescano, entre outros. rica Latina em relação à economia mundo-europeia, então em processo de expansão. Sobre
8 Longo século XVI postulado por Femand Braudel em vários artigos e obras maiores. Por exem
a expressão desse esboço fracassado da protoeconomia mundo-americana do século XVII no
plo, em seu interessante ensaio European expansion and capitalism. 1450-1650. In: Chapters plano cultural, veja-se LEÓN, Antonio Garcia de. El caribe afroandeduz: permanências de una
in Western Civilization. Nova York: Columbia University Press, 1961. civilización popular. La Jornada Semanal, n. 135, jan. 1992.

64 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 65
domínio político e econômico legalmente exclusiva dos países ibéricos sobre ca, a historiografia latino-americana começa a se perguntar sobre a diversa
as colônias aimericanas. O movimento de independência abre o difícil século configuração étnica e racial do subcontinente, cruzando as diferentes curvas
XIX na América Latina, caracterizado, em parte, por uma intensa busca das evolutivas dos distintos grupos étnicos presentes no espaço americano com
novas e emergentes identidades protonacionais de seus distintos povos. os desenvolvimentos das hierarquias e desigualdades sociais e com a difusão
Nesse século de reconstrução da América Latina, a golpe de sucessivas e imbricação de diversos comportamentos e figuras econômicas, recuperan
revoluções, transformações econômicas e sociais profundas, permanentes e do, dessa maneira, o papel fundamental do ainda heterogêneo e multirracial
violentas fricções entre grupos, caudilhos e fações — de caráter tanto eco mapa latino-americano.^^
A abertura para a história demográfica corre paralela com a também
nômico quanto militar, social, político e ideológico —, vai se construindo o
importante aproximação para com as dimensões geográficas da realidade
bizarro perfil da modernidade capitalista latino-americana, na qual coexis latino-americana, o que provocou um verdadeiro florescimento inusitado da
tem o hacendado pré-capistalista e o moderno burguês fabril e industrial, o história regional. Os esquemas e explicações gerais foram questionados e re-
peão semiescravò das plantações que produzem diretamente para o mercado elaborados com o aporte desses universos mais restritos das ricas e variadas
mundial capitalista e o moderno empregado do banco regional ou do comércio regiões da América Latina. Resgatando e problematizando a complexa noção
local. O século XIX, complexo e mais dilatado que seu limite cronológico de dos distintos espaços dessa "individualidade histórica em movimento que é
1900, prolongando sua existência até 1918-40, acaba criando os cimentos da a região^^ — espaços econômicos, sem dúvida, mas também sociais, culturais,
atual América Latina (cujo horizonte volta, agora, a se confundir com o fim geohistóricos, políticos -, a historiografia da América Latina floresceu nes
o pequeno século XX, o qual se encerra em 1989, fazendo-nos entrar anteci sa via específica da perspectiva regional, multiplicando, assim, as peças do
padamente no terceiro milênio). quebra-cabeça que deve conformar as histórias macrorregionais e nacionais
A nova periodização da história latino-americana, ainda uma hipótese das distintas zonas do subcontinente.
Uma terceira linha nova de análise começa a se desenvolver no campo
para scusão, permitirá renovar os quadros de referência do processo civi- dos fenômenos da cultura. Procurando ir além do óbvio e patente processo de
izatório do subcontinente nos últimos cinco séculos, tornando possível redi- mestiçagem biológica ou racial, os investigadores latino-americanos começa
mensionar a análise dos fenômenos, ciclos e durações históricas desenvolvi ram a se perguntar acerca da evolução mais densa e complicada do processo
das dentro desse mesmo lapso temporal. de mestiçagem cultural.Logicamente, isso os levou a redefinir a própria
teoria da cultura em geral, reformulando, assim, as premissas do complicado
nna segunda linha de inovação dos estudos históricos latino-america- processo de interação das culturas indígenas e europeia, o que acabou geran
mpntn tomo do reequaciouamento
^ "^ovos interno
campos, da história e do
econômica dareenquadra-
América Latina do a peculiar cultura barroca, a qual afirma por meio da negação, e nega afir
mando, mediante um processo que dramatiza até o limite das formas, diante
histórias HíT ^ vida. Assim, nos últimos 25 anos começou-se a fazer da incapacidade real de transformar a fundo as substâncias.
nÍsa?ou nroCr^ « dos lucros das distintas em- A cultura barroca latino-americana se projetará, inclusive, de forma
Rpcunerandn a<? tó regionais ou nacionais da América Latina. mais global como um éthos barroco, um esquema de comportamento presente
latinn-amprirauns! ^ história quantitativa e serial, os investigadores nas variadas aculturações culinárias de indígenas e espanhóis, nas singula
tnra p rnmérrin velhas classificações de indústria, agricul- res estruturas políticas latino-americanas, nos seus códigos lingüísticos e na
nlntivac! dp nm nao estudo concreto e pormenorizado das séries simbologia e formas de consciência religiosas de nossos povos.
dní! sal
dos qalaános
rinqem
ptti ^cert
^oestratégi
s pontoscourbanos
da reprodução popul
que servem deaínr,didos
ce glmovi mentos
obal conf
iável,
ou das curvas de um ramo industrial no conjunto de uma economia específi-
Ver nosso ensaio La construcción étnica de América Latina, La Jornada Semanal, n. 143, mar.
Esse movimento historiográfico de reclassificação interna das áreas da 1992
Continua ainda aberta a polêmica em torno da definição e dos critérios de delimitação da
histona econômica tradicional é acompanhado também de uma redefinição região. Para a concepção desta última como "individualidade histórica , ver BLOCH, Marc.
desta mesma economia, a qual começa a se vincular estreitamente com novas L'Ile-de-France. (Les pays autour de Paris). In: Mélanges historiques, tomo 2. Serge Fleury/
áreas da investigação histórica. Aproximando, então, a análise dos processos EHESS, 1982.
Voltar ao livro de TODOROV Tzvetan. La conquista de América: el problema dei otro. México:
econômicos com, por exemplo, os resultados de uma nova demografia históri- Siglo XXI, 1989.

66 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 67
1492 em perspectiva histórica
Finalmente, ao nos perguntarmos o que representa 1492, devemos res
ponder recolocando este acontecimento fundamental dentro das coordenadas
estruturais mais profundas que lhe atribuem seu verdadeiro sentido: 1492,
considerado como acontecimento simbólico de processos essenciais, é muito
mais que simplesmente o emblema da incorporação de um novo continente Colocando o 11 de Setembro de 2001 em
ao diálogo com a civilização europeia, então em processo de expansão. Na
realidade, 1492 é a data emblemática do nascimento da verdadeira história
universal, chegada ao mundo ao mesmo tempo em que surge a modernidade
perspectivo histórica*
capitalista ainda hoje vigente na escala planetária.
Conforme explicou Femand Braudel, o "capítulo americano" da expan
são da economia-mimdo europeia não foi senão o primeiro episódio de um Redimensionando o acontecimento
processo mais amplo, a que Marx denomina com acerto da formação do mer
cado mundial capitalista, cujas redes e estrutura básica constituem o esque Como no caso de todo acontecimento histórico, que constitui um sucesso
leto ou suporte material da verdadeira universalização histórica. de grandes impactos e de repercussões importantes e profundas, é muito di
Seguindo essa lógica, poderíamos nos perguntar: Teríamos o que cele fícil avaliar a tragédia do 11 de Setembro de 2001 vivida nos Estados Unidos
brar nos quinhentos anos de existência da história universal? Ou festejar da América do Norte, em seus significados essenciais e em suas possíveis
talvez o quinto centenário da modernidade capitalista atual? Diante dessas
conseqüências, se quisermos examiná-la apenas segundo uma visão curta do
questões, responderíamos que, mais que celebrar os cinco séculos do nasci
mento da história iiniversal e da modernidade capitalista, gostaríamos, an- tempo e dos elementos também limitados de seus primeiros e tragicamente
espetaculares efeitos.
tes, de celebrar o fim desta mesma modernidade e o renascimento de uma Presos ao brilho intenso das imagens televisivas cotidianas e a certas
história universal fundada em sociedades livres, emancipadas da lógica de
exploração do trabalho assalariado. Ainda que para estes festejos tenhamos explicações jornalísticas construídas no calor dos próprios acontecimentos,
de esperar um pouco para além de 1992. corremos o risco de esquecer que todos os acontecimentos, sem exceção, ape
sar e para além desse brilho e impacto momentâneos, se inscrevem sempre
dentro de sucessivos registros temporais mais amplos, os quais, marcando-os
e sobredeterminando-os, redefinem sucessivamente tanto seu sentido e sig
nificação mais profundos como o real alcance de suas diferentes seqüelas e
conseqüências.
Por isso, e no afa de equacionar tanto a explicação desta tragédia como
a avaliação dos possíveis cenários futuros que se podem associar a suas prm-
cipais seqüelas, talvez seja útil tentar o exercício de repensá-la em vános
níveis: primeiro, em sua conexão com os acontecimentos que imediatamen
te a precederam e sucederam; depois, com os fatos históricos da conjuntura
mais recente, que desde pouco mais de uma década têm definido a situação
mundial atual e que, sem dúvida, a continuarão definindo por um om tem
po; e, finalmente, dentro das tendências um pouco mais globais do que foi a

■ Publicado no meu livro Corrientes, temas y autores de Ia historiografia dei siglo XX. Villaher-
mosa: Ed. Universidad Autonoma de Tabasco, 2002. p. 270-291.

68 Carlos Antonio Aguirre Rojas


evolução do mundo moderno desde o final da Segunda Guerra Mundial e das rio, a partir do 11 de Setembro, Bush conseguiu sem problemas incrementar
possíveis tendências de sua evolução no próximo meio século. consideravelmente os gastos e os ativos militares, obtendo rubricas especiais
Ao recolocarmos o trágico acontecimento do 11 de Setembro nas linhas para estes e começando a reativar a economia norte-americana pela via do re
temporais do passado imediato, do passado próximo e do passado um pouco lançamento, uma vez mais, das indústrias e ramos econômicos associados a seu
mais longo,^ talvez seja possível também jogar luz sobre os possíveis cenários complexo industrial-militar. Assim, delineando claramente para o orçamento
que viveremos em relação a este acontecimento no ano próximo, na década do ano seguinte um inevitável corte nos gastos internos com a área social e os
por vir e no meio século imediatamente futuro. fundos de apoio para a América Latina e o Terceiro Mundo em geral, somado
ao aumento de impostos extraordinários e ordinários para o contribuinte nor
2001-2002: o contexto imediato e os efeitos presentes te-americano, Bush conseguiu redefinir tranqüilamente esse gasto do Estado,
no sentido dos incrementos às rubricas militares que antes havia proposto.
Ao observarmos os efeitos imediatos do sucesso do 11 de Setembro, cha Igualmente, ainda em agosto de 2001, Bush reclamava o apoio europeu,
ma de imediato a atenção o fato de que, em função do mesmo, reverte-se subi tentando relançar a Otan e bloquear o projeto de formação de um exército
tamente toda uma série de situações e processos que caracterizavam tanto a europeu independente e autônomo da tutela norte-americana, enquanto ne
situação política interna dos Estados Unidos como a sua geopolítica mundial gociava com dificuldade os apoios de seus "aliados" europeus e os equilmrios
durante o primeiro semestre deste mesmo ano de 2001. Situações e processos complicados do Grupo dos 7/8. Tudo isso também muda radicalmente depois
que, em conseqüência da tragédia recente, alteraram-se diametralmente de de setembro, momento no qual os Estados Unidos obtêm o apoio incondicio
sentido e no breve lapso de apenas algumas horas ou dias nal da Inglaterra, um respaldo importante da Otan e um claro silêncio cúm
E interessante recordar que George W. Bush chegou ao poder como o plice, ou até aprovação, da maioria dos sócios e "aliados da Europa a en a
presidente norte-amencano mais questionado dos últimos cem anos, em uma e do Grupo dos 7/8. Com isso, pelo menos em termos imediatos, os Estados
eleição apertadisima, que polarizou ao máximo a oposição interna entre os Unidos forçam novamente a Europa Ocidental a se realiiAar a suas ire
votantes democratas e republicanos e cujos resultados finais estiveram mui- trizes, talvez pela última vez, o que se faz evidente no apoio mi i ar ar lo e
relutante de Alemanha, França, Itália, entre outros países, que so oi o ^
f01
• eci
j-mente
dida naconvincentes.
Suprema Corte,Basta
abalou lembrar que a
vigorosamente essa
credibeleição,
ilidade daque
de- à mercê das pressões de Tony Blair e do próprio Bush, não obstante a retonca
oficial dos atuais governantes alemães e franceses.
m^racia amencana. Tudo isso colocou George W. Bush como um presidente Outra situação que muda sensivelmente depois de setem ro ® '
fr«^i T limitada e com um consenso social bastante em termos imediatos, é a dos frágeis equilíbrios da zona o nen ®
Hp Çf Setembro, como resultado da cruzada contra mo e do Oriente Médio, que passa de um cenário no qua aumen ava
fp 1 Laden e do "terrorismo" mundial, George W. Bush se tensões entre israelenses e palestinos e se mantinham um pouco
rerrTp^n"'^'' alcançando níveis de popularidade muito altos e táveis os conflitos latentes entre índia e Paquistão, Irã e r^ue, e c.,
se novo consenso social amplo, no qual democratas e republicanos um novo quadro geral, no qual os Estados Unidos intervém ire °
natrinf ^ ®
patriotismo deivergências históricas
unidade em razão em torno
da tragédia de um ressuscitado
recém-vivida zona, marcando presença outra vez com todo seu poderio mi i ar, rom
frágil estabilidade antes existente - tanto internamente nos s ® ' .
Rn«í. n ® importante
Bush pugnava com aleclmbrar que,
íticaantes
asse pol do 1c1ana
norte-ameri de para
Setembro, George
ar o atW
increment ivo. entre os próprios - e forçando novos realinhamentos e lea a es,
militar e para impulsionar seu projeto de criar um escudo antimísseis, ao mes radicalizados por sua violenta irrupção. Se, de modo ime la o, o
mo tempo em que se preocupava com fazer frente à recessão econômica norte- Estados Unidos ao Afeganistão faz passar para segun o p ano
amencana, ja anunciada de vários modos ao longo do último ano.^ Ao contrá- equilíbrios difíceis entre Estados e no interior de cada naçao a '
gando cada um desses países a se "alinhar" aos desígnios no ® ® pota-
isso não constitui, numa perspectiva mais profunda, um rea
' Nesse sentido ver a perspectiva das diferentes temporalidades sociais e históricas defendida
bilização ou de melhoramento dos complicados balanços e equi i no an es
por Fernand Braudel em seu celebre ensaio La historia y ias ciências sociales. La larga dura- mencionados. , x i. j j
ción. In: Escritos sobre historia. México: Fondo de Cultura Econômica 1991
^ Alguns analistas classificam esta como a pior recessão dos Estados Unidos desde os anos trinta Outra mudança imediata que foi conseqüência direta dos atentados de
Cf. La economia global, rumbo a Ia mayor recesión desde los anos 30. La Jornada, 27 out. 2001. 11 de setembro se refere à situação global e às perspectivas de posicionamen-
70 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 71
to futuro da vasta rede de movimentos antiglobalização em todo o mundo. outro plano, o colapso total do que há alguns anos se chamou da doutrina da
Se antes daquela data fatídica esses movimentos se encontravam em claro "terceira via" e, também, os últimos restos de independência e neutralidade
processo de consolidação, ganhando cada vez mais presença mundial e desen que ainda conservava, a duras penas, a Organização das Nações Unidas.
volvendo novas e imaginativas formas de luta, de protesto e de organização, Pois depois de setembro de 2001, e em razão da posição adotada por
nos meses imediatamente posteriores àquela data, ao contrário, esses movi Tony Blair — um dos expoentes, faz muito pouco tempo, da chamada "terceira
mentos se detêm momentaneamente, oscilando entre a confusão provocada via" — e pela Inglaterra nesse conflito, essa proposta da "terceira via", de de
pelos complexos cenários mundiais atuais e a lenta incorporação, dentro de fender um capitalismo mais social e menos salvagem, perdeu completamente
sua nova agenda de luta, da oposição contra a guerra e contra o novo racismo legitimidade e credibilidade. O mesmo aconteceu com a ONU, que, embora
revigorado, tanto quanto da defesa e salvaguarda da paz mundial. condenando vigorosamente o terrorismo — de resto muito acertadadamente —,
Finalmente, outra inversão total que os Estados Unidos viveram duran mas, ao mesmo tempo, mantendo um silêncio cúmplice com relação à injusta
te os últimos dois meses é o da situação psicológica e emocional do povo norte- invasão do Afeganistão, aniquilou os últimos elementos de neutralidade e
americano. Até 10 de setembro deste mesmo ano, este povo, autossuficiente de independência crítica que ainda conservava, os quais lhe haviam rendido
e satisfeito com os níveis de segurança de sua vida cotidiana, apesar da vio
lência das grandes cidades norte-americanas e do uso crescente de armas por respeito e credibilidade mundiais durante os anos 1950 a 1970.
Porém, para além do recente prêmio Nobel recebido — o que, nessas cir
p^e do ciedexcepci
distante adão norte-ameri
cano
onal, como algocomum, percebi
confinado a essa
a certos violênciou
espaços a como algo
circunstân- cunstâncias concretas, do silêncio cúmplice referido, acaba sendo um erro es
cias bem delimitadas. Depois do 11 de Setembro, porém, essa tranqüilidade tratégico de grandes dimensões, ao deslegitimar o próprio Comitê do Nobel e
o próprio prêmio Nobel da Paz em si —, o que a ONU fez ao se alinhar subser-
cotidiana se desvaneceu, mergulhando os Estados Unidos em uma situação vientemente à resposta belicista do governo de George W. Bush foi catahsar o
de grande e difundido pânico social, numa verdadeira psicose coletiva de me
dos em grande parte infundados e irracionais, que se retroalimentam a cada processo de perda de independência e neutrsdidade avançado durante os anos
dia com novos escândalos sobre cartas supostamente carregadas de Antrax - oitenta e noventa do século passado, processo agora tristemente rematado
com a equivocada tomada de posição em favor da resposta norte-americana
ger^ment
no bairro,eno
alametrô
rmesoufalsos
no -,supermercado,
ou em cada "estrangei
nesta ro suspei
nação que,tohi"svi
stocamente,
tori na rua, do governo de George W. Bush.
constituiu-se como uma nação de imigrantes e "estrangeiros". Se esses foram alguns dos principais efeitos imediatos do 11 de Setem
Esse pâmco social difuso e medos irracionais fizeram aumentar em uma bro de 2001, que agora estão determinando os cenários internos dos Estados
escala médita o racismo e a xenofobia sempre presentes de forma latente nos Unidos e de parte do mundo, a pergunta que devemos nos fazer é: Quanto
estados Umdos, alimentando os conflitos contra todas as inúmeras minorias tempo podem ainda durar essa popularidade de George W. Bush e a aceita
e nicas que vivem na América do Norte e tomando mais difíceis e tensas a ção dos norte-americanos de maiores gastos militares, mais impostos e me
coexi jencia e a sobrevivência cotidiana de toda a população deste país. nos invstimento social? Quanto tempo pode dvurar esse fôlego da economia
norte-americana para conseguir postergar o inevitável estouro da recessão
A
deM do Y
Nova 11
orkde Setembro,
e uma parte doscaíram
edifícios não apenas as
do Pentágono; comTorres
eles vieGêmeas
ram abai econômica e da crise, pela via de sua promoção da indústria militar e o
xo, também, a estabilidade psicológica e o sentimento de segurança cotidiana lucrativo negócio da guerra? Quanto durarão ainda o silêncio cúmplice ou o
do povo norte-amencano.3 E não foram apenas estas as vítimas imediatas da apoio relutante dos países de Europa Ocidental, o apoio moderado de Rússm,
tragédia. Aos mais de três mil civis inocentes que estavam nessas torres, às Japão e de outros membros do Grupo dos 8, o avassalamento da Otan e a m-
centenas de cidadãos afegãos igualmente inocentes que morreram em função condicionalidade cega da Inglaterra para levar adiante essa empresa belica
dos bombardeios dos Estados Unidos no Afeganistão, somem-se ainda, em norte-americana? E quanto demorará para estourar o verdadeiro paio e
pólvora dos países do Próximo Oriente e do Oriente Médio, considerando-se
a agudização de suas contradições desatada pela invasão norte-americana no
Em outras palavras, a insegurança cotidiana própria de quase todas as grandes cidades do Afeganistão? Quanto tempo levará para que os movimentos antiglobalização
mundo agora "atingiu pela primeira vez o povo norte-americano", como assinala Immanuel se reorganizem e retomem sua luta contra o capitalismo mundial e, agora,
Wallerstein em seu artigo 11 de septiembre de 2001. éPor qué? Disponível lem: http //www também contra o projeto de um novo maccartismo planetário afirmado pela
basque-red.net/cas/iwc/72chtm. Para uma caracterização global das razões de fundo dessa in via da guerra e da intervenção aberta? Por fim, quanto tempo levará para
segurança generalizada ver WALLERSTEIN, Immanuel, Utopística. O Ias opciones históricas
dei siglo XXI. México; Siglo XXI, 1998. que o povo norte-americano supere essa situação de pânico e medo coletivo.
72 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 73
restabelecendo uma visão mais equilibrada, racional e serena da nova situa de dez ou mais possíveis culpáveis deste último atentado, voltaram a atribuir
ção interna dos Estados Unidos e da situação mundial? É provável que esses a culpa a Bin Laden, sem provas convincentes para tanto. Mais uma vez, volta
processos não se resolvam em meses e que continuem definindo ainda parte ram também a bombardear o Afeganistão, um dos países mais pobres do mun
dos cenários que viveremos durante os próximos anos. Mas é muito difícil que do, além de vítima de mais de duas décadas de guerras civis e externas pratica
s e p r o l o n g u e m i n d e fi n i d a m e n t e . mente ininterruptas.'' Assim, o que mudou depois do 11 de Setembro não
Para podermos avaliar o que sucederá adiante, é necessário abrir um foram os cenários nem os protagonistas do drama dos últimos dez ou quinze
pouco nosso arco temporal de consideração e reexaminar o 11 de Setembro anos, mas, antes, a medida ou magnitude do próprio drama. E com a magni
mais uma vez, agora dentro de um contexto conjuntural, do passado próximo tude, também os impactos imediatos do acontecimento, embora não os con
e do horizonte de futuro de cerca de uma década. textos e as tendências de mais longo prazo que se envolvem neste trágico
acontecimento recente.

1989-2013: o contexto recente e os primeiros futuros previsíveis Ainda hoje, não há certeza absoluta com relação à responsabilidade da
autoria do atentado. Mas se o responsável for mesmo Bin Laden, seria um
Se tentarmos situar o acontecimento do 11 de Setembro de 2001 dentro grande paradoxo que o autor dessa terrível tragédia tenha sido alguém que
do marco da conjvmtura que o envolve, o que começou com os simbólicos acon menos de duas décadas antes era aliado e sócio dos Estados Unidos, reconhe
tecimentos de novembro de 1989, nos daremos conta de ele não é tão surpre- cido como "herói na luta pela liberdade" e com fortes contatos com a CIA, ou
seja, uma pessoa que no passado recente recebeu dinheiro, armas, treina
ende^e
e ce a como
orma, aparenta
gestada, à
e pri
mantecipada",
até eira vista e que sua possi
durante, bilid
pelo ade vinos
menos, haúltimos
sendo, mento e apoio da própria potência norte-americana, que agora tudo indica ser
res ustros que o precederam. Porque os grupos terroristas não começam sua vítima. Além do mais. Bin Laden é também alguém cuja família manteve
a existir e atuar meses antes, mas há várias décadas, e suas ações suicidas obscuros negócios e vínculos econômicos, ainda não totalmente esclarecidos,
tomado os Estados Unidos como alvo de ataques há muitos anos. com o próprio George Bush e sua família nos últimos vinte anos.® E não será
um absurdo pensar que talvez os Estados Unidos não venham a capturar
torr- Torres
rronsta Gêmeas
oito anos já fevereiro
antes, em haviamdesido
1993.vítimas de um atentado Bin Laden jamais, da mesma maneira que há dez anos não foram capazes e
derrubar a Saddam Hussein.
^sde 1983 foram atacadas instalações dos "marineres" no Líbano; em Porém, de qualquer modo, venham ou não a capturar Bin Laden ou a
<?p<! ° seqüestro a um avião norte-americano e, poucos me- derrubar ou não o governo talibã, o que é seguro é que com as medidas que
na«? nrn •' a um barco dos Estados Unidos; em 1993, a explosão tomam os Estados Unidos jamais se irá eliminar o terrorismo, tampouco ira
tinto™"^® Torres Gêmeas de Nova York. Tudo isso foi realizado por dis- cessar o apoio dos Estados Unidos a grupos e indivíduos que hoje são seus
caso do atont algumas vezes identificados, outras não, mas já no
""''"'«o Osama Bin Laden, que aliados, mas amanhã podem vir a ser seus inimigos, como já ocorreu inú
agora perse^em os norte-americanos no Afeganistão. meras vezes na história. Porque, por trás das efêmeras e sempre perigosas
alianças e apoios estão a lógica do lucrativo negócio da guerra e os interesses
Quênia de 1998 houve um duplo ataque às embaixadas do geopolíticos norte-americanos em todo o mundo. O negócio da guerra, no qua
dnQ Ecítnrin ® duas semanas depois provocaria um bombardeio Estados Unidos vendem armas tanto para aliados quanto para inimigos,
justamentnt
e anO
^^^^Sani
sama Binstão,
Ladeporque
n.Assim,esses
todos oatentados
s elementosforam
e até oatri
s pbeuídos
rsona tanto para grupos terroristas como para Estados soberanos, acaba sempre
gens pnncipais do atual conflito - as Torres Gêmeas, Estados Unidos, Osama
Bin Laden e Meganistao -ja haviam se envolvido em acontecimentos muito ' O Afeganistão é um país predominantemente rural, com apenas 20% de população urbana,
similares aos do 11 de Setembro.^ uma mortalidade infantil muito elevada, esperança de vida de 45 anos e uma popu açao ciyo
analfabetismo atinge mais de 50% dos homens e 80% das mulheres. Ver El st o e un o
Isso explica a singular resposta americana: diante da ignorância total so 2000. Anuario econômico, geopolítico mundial. Madrid: Akal, 1999. Para uma visão ger e
bre quem haviam sido os autores intelectuais da tragédia e da confusa situação sua situação atual, ver La guerra santa. Processo, n. 1300, 30 set. 2001.
na qual, nas horas subsequentes aos acontecimentos, se manejavam por volta ® Como foi denunciado tanto pelos investigadores franceses da "Red Voltaire , como pela organi
zação não governamental Bush Watch. Sobre essas conexões ver MERGIER, Anne Marie. Una
^ Sobre os antecedentes do 11 de Setembro, ver CHOMSKY, Noam. La nueva guerra contra el sospechosa trama financiara precedió al ataque a Nueva York. Processo, n. 1303, 21 out. 2001;
e a nota Oscuros, los vínculos de George W. Bush con milionários sauditas y con la familia Bin
terror. Perfil de La Jornada, 7 nov. 2001. Laden. La Jornada, 27 out. 2001.

74 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 75
produzindo os paradoxos descritos. Quando lembramos, mais uma vez, que tas possíveis, a de pequenos grupos e indivíduos que, recusando-se a se cur
os americanos produzem metade de todas as armas que circulam no mercado var diante da força bruta, negando-se a renegar suas tradições e identidades,
mundial, jimto aos 20% da Inglaterra, e dado que a mercadoria não conhece
chegaram à resposta radical e enganadora do terrorismo.
ideologias nem oposições geopolíticas, mas apenas preços, lucros e acordos de
compra e venda, fica mais fácil entender que as próprias armas com as quais Porém, se a violência gera sempre mais violência, esse terrorismo do
Saddam Hussein lutou na Guerra do Golfo, ou a tecnologia militar que hoje débil desesperado engendrou o terrorismo de estado do poderoso, que também
usa Bin Laden para fugir de seus perseguidores, sejam, em ambos os casos, assustado e confuso devido à tática universal e milenar de atacar e fugir, do
armas e tecnologias de manufatura e fabricação norte-americanas. ataque-surpresa, não encontra outra saída senão voltar a exibir seu poder de
A lógica unplacável da geopolítica mundial faz essa mágica de converter destruição, aniquilando cidades inteiras sob toneladas de bombas e arrasan
o amigo de hoje no terrorista de amanhã, e o terrorista de ontem, no paladino do com a tecnologia mais moderna e com requintes de violência territórios
da liberdade da hora. O que garante aos Estados Unidos que a Aliança do ligados ao suposto "inimigo".
Norte afegã não se converterá, num breve lapso de tempo, no novo Talibã do Paralelamente a esses processos de modernização capitalista forçada,
amanhã? Por que um general paquistanês, que chegou ao poder mediante que parecem ter chegado a um primeiro ponto de condensação de suas con
um golpe de Estado ilegítimo, é hoje o maior ahado dos Estados Unidos na
tradições nos últimos vinte anos, propiciando a proliferação do terrorismo,
guerra?
Assim, não serão as oposições atuais nem a confrontação presente que desenvolveram-se, igualmente, vários processos de clara libertação de dife
vão deter o negócio da guerra, tampouco o jogo da geopolítica mundial terá rentes nações em relação à tutela mais ou menos direta dos Estados Unidos.
sucesso na elunmação do terrorismo. Isso porque as raízes mais profundas Tal processo deslancha nitidamente com a derrota do Xá no Irã, no final dos
o terrorismo, promovido por indivíduos ou pequenos grupos, não são ou anos setenta, violentamente evidenciada pela invasão do Iraque no Kuwait
tras que não a pobreza, a exploração econômica, o despotismo político e a no início dos anos noventa. Para além das formas estranhas, e às vezes até
scriminação social e cultural em todas as suas formas. A marginalização, destrutivas, em que se manifestaram, esses processos de defesa de uma
a scriminação e o avassalamento cultural afetam tanto os setores pobres maior autonomia e independência frente a Estados Unidos se fizeram pre
e majoritários, quanto os setores dominantes e educados das classes médias sentes recentemente, em maior ou menor medida, em todo o Oriente Oriente
as sociedades muçulmanas, os quais nos últimos quinze ou vinte anos che- Próximo e Médio, determinando em grande medida a resposta singular dos
norte-americanos aos fatos de setembro passado.
g^am a um posubmetidos
nto culminanhá
te emeio
m tod os osapauma
século íses do Oriente Próxim
modernização o e do
capitalista Com a campanha contra o Afeganistão e com a aberta ameaça no ho
ça a, que lhes impõe por todos os meios o modelo da civilização capitalista rizonte de atacar "outros países", supostos refúgios ou sedes dos terroristas
en a , em sua vertente mais recente áoAmericam way of life, sem qual- - países cuja lista inclui, curiosamente, a maioria daqueles que nas últimas è
r respeito pelas identidades culturais e civilizatórios previamente exis décadas manifestaram essa maior independência e autonomia frente às di- \ .
tentes nessas mesmas sociedades. retrizes americanas -, os Estados Unidos procuram debelar essas atitudes
epetindo, então, pela enésima vez um processo similar ao que levaram independentistas e realinhar, mais uma vez, todo o Oriente Oriente Próxi
o os espanhóis e portugueses contra os indígenas da América Latina, os mo e Médio a seus desígnios geopolíticos. Porém, a presença militar dire
ta norte-americana, longe de resolver os conflitos profundos das sociedades
4. de
bitantes comunidades
Indochina ouoriginais
de Argéliadae vári
índia, os franceses
as nações européiacontra
s contraosasha
tri muçulmanas, consegue apenas momentaneamente calá-los e embotá-los pela
os e to a Afhca, os norte-americanos dedicaram-se durante o último meio via da força, resultando em que tal realinhamento dessas nações e governos
século a tentar submeter os povos do Islã às mesmas formas arrasadoras, muçulmanos não pode ser mais que momentâneo, sem chances de se manter
quando os militares norte-americanos deixarem a zona de guerra, ou talvez
prepotentes e acachapantes da modernização capitalista. Ao custo de muito
mesmo antes disso. Ainda que George W. Bush ameace prolongar esta guerra
san^e
dos últie
msob fogo
os qui cerrado,
nhentos essaacabando
anos, modernização foi "tomando
por provocar, entreoas
mundo"
muitasao longo
respos- durante anos, falta ainda ver o quanto a essa intenção presidencial resistirão
o povo dos Estados Unidos e os governos, as forças armadas e os povos dos
países da região ocupada.
76 Carlos Antonio Aguirre Rojas
Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 77
Outro processo que deslancha em 1989, determinando os cenários atu inlcuídos nesta lista de "suspeitos", por exemplo, o Exército Zapatista de Li
ais concernentes aos fatos de setembro de 2001, é o do fim do álibe ideológico bertação Nacional, o movimento brasileiro dos sem-terra, ou qualquer outro
que a "Guerra Fria" representou para os Estados Unidos. Ao franquear-lhe movimento de resistência anticapitalista ou movimento antissistêmico, ou,
esgrimir o fantasma do perigo "comunista" mundial, essa "guerra" legitimou ainda, qualquer grupo, partido, organização ou mesmo indivíduo que critique
desde o armamentismo tradicional norte-americano até a falsa imagem idíli ou combata o capitalismo, o neoliberalismo ou a "globalização".
ca dos Estados Unidos como campeão da luta pela liberdade, a democracia e Felizmente, tal como o maccartismo original foi apenas um triste capí
os direitos individuais no mundo. Com a queda do Muro de Berlim e o colapso tulo superado da história norte-americana do século XX, é previsível que este
da URSS e de grande parte do chamado "mundo socialista", porém, a Améri projeto de um novo maccartismo planetário não venha a vingar nem durar
ca do Norte acabou sem o perigoso inimigo comunista e sem uma justificação muitos anos. Para isso é necessário que, tanto dentro como fora dos Estados
convincente para sua propaganda ideológica e para a prática militarista. Unidos, pessoas, grupos, movimentos e nações resistam a entrar nessa lógi
E é justamente esse vazio que George W. Bush procura agora preen ca de medo e de autocensura das opiniões críticas e dissidentes, que tantos
cher com a invenção do novo fantasma do "terrorismo internacional", que, estragos causou à cultura norte-americana dos tempos desse maccartismo
curiosamente, assume agora as propriedades que antes caracterizavam o an original, o que, evidentemente, deverá ser agora uma das novas tarefas e
tigo fantasma comimista, porque, tal como este, o terrorismo internacional exigências de todos os movimentos antissistêmicos do mimdo.
é também universal, ubícuo, clandestino e perigoso. Ao atentar igualmente, Também é claro que esse novo maccartismo visa abalar e reduzir a efeti
segundo essa construção puramente ideológica e propagandística, contra os vidade e a presença que vinham ganhando esses movimentos antissistêmicos
caros valores da liberdade e da democracia do Ocidente cristão, contra o livre surgidos depois de 1989. Novos movimentos, como o dos sem-terra no Brasil,
mercado e a globalização", o terrorismo justifica, mais uma vez, o militaris o movimento dos desempregados franceses, os indígenas do Peru, Bolívia e
mo norte-americano e seu suposto papel de paladino da paz e guardião de Equador, as novas lutas da Central dos Trabalhadores Argentinos ou o mo
todos esses valores, fenômenos e entidades mencionados. vimento neozapatista mexicano, entre outros, foram sempre profundamente
Com isso, George W. Bush alavanca seu projeto de pôr em prática um internacionalistas e antirracistas, lutando contra as políticas neoliberais do
novo maccanismoplanetário, no qual, como no maccartismo original, todos os capitalismo selvagem das últimas décadas e se opondo à "globalização e aos
ditames do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Ao contrá
n<^en es se tomam potencialmente suspeitos e os suspeitos tornam-se cul- rio, trata-se de movimentos que lutam pela inclusão social^ que lutam solida-
mni?K' ^ simples fabricação
° critérios muitode provas edaqueles
particulares até do uso
que,de falsos
sem teste-
consenso riamente pelos pobres, excluídos, marginalizados e vítimas da discriminação
algum, se autoproclamaram juizes, com mandatos para perseguir possíveis pelo mundo afora. Cabe a tais movimentos o papel de resistir contra a cru
zada mundial neomaccartista, defensora da globalização e dos organismos
nãopQtá^" decretando a absurda sentença de que quem internacionais pró-neoliberalismo, que tenta relançar o patriotismo, as po
temarininl^^'^ cionalmente com os Estados Unidos está com o terrorismo in-
ODosicãn a ri escala mundial uma monstruosa censura de toda sições pró-norte-americanas e as políticas de alinhamento acrítico e incondi
cional em apoio a essa nova guerra contra o amorfo fantasma do terrorismo
Que iá comarn O a cn íca, de toda dissensão ou resistência possível, censura internacional".
todo o miinrl Presente com as restrições, nos Estados Unidos e em Paralelamente a esses processos da última década assinalados, desen-
f de informação, manifestação, imprensa e de volveu-se uma crescente polarização social em escala mundial. A concentra
nromovirln
promoAuda p^elo
^sência
Estadoou
s Uopinião
nidos concrítica
tra o pofrente
vo doAàfeguerra
ganistão.questionável ção dos maiores níveis de riqueza nos países centrais do Norte e a prolifera
^ censura e a coação das liberdades básicas e ele- ção da pobreza e da miséria nas periferias do Sul desencadearam um fluxo de
entares modernas, avança também a restrição dos direitos individuais dos migração crescente das zonas mais pobres do Sul para as mais ricas do Norte.
acusados, enquanto se incrementam os poderes e as margens de ação e até a Uma verdadeira maré que, na última década, aumentou enormemente os
impunidade das policias, exércitos e serviços secretos de todo tipo, tal como se temores irracionais de vastos núcleos de população dos países ricos, fazendo
deu no maccartismo original. Se hoje já são acusados e explicitamente dados aumentar as atitudes racistas e xenofóbicas em relação aos imigrantes suli-
como os próximos objetivos desta cruzada neomaccartista os grupos das guer
rilhas colombianas e peruanas e certos grupos da chamada "tríplice frontera" Por isso, dentro do conjunto de respostas ao 11 de Setembro de 2001
entre Brasil, Argentina e Paraguai, nada impede que amanhã possam ser encontram-se laivos de racismo e xenofobia, que suspeitam de qualquer pes-

78 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXi - uma gramática de longa duração 79
soa que se assemelhe ao "árabe", ao "islâmico" ou ao "muçulmano". E nada econômica mundial de 1929 e, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial. A
assegura que amanhã o preconceito não se volte contra africanos, latino- partir de 1945, a hegemonia praticamente incontestada da América do Norte
americanos, habitemtes do Oriente Próximo, Médio ou Distante, ou contra os firma-se pelo planeta, criando o período da moderna "Fax americana", na
"negros", nessa indefinição e irracionalidade que já deu suas primeiras e trá qual os Estados Unidos aprisionaram governos, intervieram militarmente
gicas mostras. Como a tendência migratória tende a aumentar nas próximas em muitos países, jogaram economicamente com outros e redefiniram, em
décadas, consequentemente, veremos recrudecer e se agravar essa xenofobia parte, os contornos do desenho geopolítico do mundo.
e esse racismo, ao mesmo tempo em que deverão crescer e se fortalecer, por Essa hegemonia norte-americana é, em traços gerais, comparável ao
seu turno, as demandas, lutas e os movimentos antirracistas de resistência. domínio geopolítico que experimentaram a Inglaterra, durante os anos de
Porém, para além da sobrevivência do terrorismo e dos ataques aos Es 1815 a 1870, e a Holanda, entre 1649 a 1689. Porém, como em todo ciclo he
tados Umdos ou a outras nações; da prolongação do negócio da guerra e dos gemônico dentro da modernidade capitalista, também o ciclo da hegemonia
jogos e interesses geopolíticos; do fomento e posterior ruptura com aliados norte-americana teve seu período de auge entre 1945 e 1972-73, para come
que se tomam inimigos e com inimigos que se transformam em amigos; das çar a declinar irreversivelmente a partir daquela última data. A partir da
contra ições geradas pela modernização capitalista forçada do mundo muçul- crise econômica mundial de 1972-73 se inicia, lenta, mas inexoravelmente, o
° temporal de Estados e governos do Oriente Próximo período da decadência hegemônica norte-americana, no qual não apenas co
e e o, a cruzada contra o "terrorismo internacional" e do projeto do novo meça a declinar seu poder econômico, mas também a presença de seu Estado
nmccartismo planet^o; da reativação e recuperação dos novos movimentos para o desenho da geopolítica mundial.'
. emicos e do incremento do racismo e das lutas antirracistas, processos Esse é o significado profundo, real e simbólico, da guerra de Vietnã, na
tamhp^^ veremos crescer nos próximos anos, vale a pena nos perguntarmos qual um povo pobre e subdesenvolvido tecnológica, econômica e socialmente,
mas com uma convição ideológica enorme e com um heroísmo extraordinário,
em ? esenlace que aguardam vários desses processos e conflitos, derrotou em 1975 os Estados Unidos. Em termos reais e simbólicos, essa
docanitalitsm^ n Profimdas que hoje animam a evolução atual derrtoa inaugura a fase descendente do poder hegemônico norte-americano
perguntas ^ oferecermos alguns elementos de resposta a tais que marca o último quarto de século. Nesse período, os Estados Unidos já não
foco coloca n ri ^ abrirmos ainda mais o registro temporal de nosso são capazes de definir por contra própria a configuração geopolítica mundia ,
e denso do acn *+ coordenadas de um passado um pouco mais longo tendo de negociá-la com os países do Grupo dos 7/8 e com as principais potên
onaonte do futuro mais global queinvesHgamos,
hoje nos é possí
vel vicomo
asdm slumbrar
. de um
dentro
cias da Europa Ocidental.
Assim, tanto a sobrevivência heróica de Cuba como país independente
1945-2057:cone
txo
t geralecenáo
risprospecvitosgolbasi e soberano, quanto, em sua época, a revolução nicaraguense, tanto o cresci
mento e fortalecimento do papel mundial de China, quanto o papel cada vez
mais importante dos novos movimentos antissistêmicos em todo o mun o,
fatos de setembro de temporal mais amplo de meio século, os são todos processos que se explicam pelo declínio progressivo da hegemoma
proftJto^a b..? =''"1""';?® ° '"■■^ter de um sintoma das tendências
flmai
ms d
mundial dos Estados Unidos. Em sentido diverso, essa retração hegemomca
as' e^t Sande SLT ' ta explica também o curso e o desenlace da guerra do Golfo Pérsico, na qua os
Estados Unidos só conseguiram enfrentar Saddam Hussein ®
Setembro e línlioc a 4^ i! - ^ impactos imediatos do 11 de
da em 1989 aonpla f vigentes derivadas da conjuntura inicia- apoio da Europa Ocidental e do Grupo dos 7, para obter o resultado pi o e
futuro Smrnlisd d T' "«^^ivamente na construção do liberar o Kuwait, mas sem derrubar realmente a Hussein naquela ocasião.
Entnaot, sãeonos p
seT
rguntaormsos qT
ua"is"sã' o" n
essoas' -tem
ndê'ntce
ias maaisnge
orasis .que Ao mesmo tempo, os Estados Unidos também se evadem da nova com
petição econômica do mercado mundial, na qual o superam o Japão e a Euro
mJTZmT analisando, poderemos observar pa Ocidental, os dois novos polos da economia global. Por isso, já hoje em dia
ô começou
ncona, que ^ ka esegesboçar
e m timidamente
o n i a desde
n o finais
r t edo- século
a m XIX.
e-
Na disputa feroz contra aAlemanha, essa hegemonia acabou por se decidir a Immanuel Wallerstein vem desenvolvendo amplamente esta tese da decadência hegemônica
norte-americana. Por exemplo, em Geopolitics and geoculture. Paris/Cambridge: Maison des
favor dos Estados Unidos no contexto da Primeira Guerra Mundial, da crise Sciences de I'Homme/Cambridge University Press, 1991; Después del liberalismo. México: Sé
culo XXI, 1996.

80 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 81
OS Estados Unidos deixaram de estar na vanguarda da inovação tecnológica A singular resposta norte-americana se explica, ademais, em função de
em muitos ramos de ponta, ao mesmo tempo em que o peso de sua economia uma segunda linha de tendência geral, também deflagrada durante os últi-
diminui dentro da economia mundial e sua presença em nível comercial e mos cinqüenta anos, a qual se refere ao papel dos países do Oriente Próximo
financeiro em todo o planeta também se retrai. Em contrapartida, o papel e Médio durante o mesmo lapso temporal. Isso porque, como repetem em
do Japão e da Europa Ocidental vem crescendo em todos esses ramos de uníssono muitos analistas, uma das tramas profundas desta nova guerra é a
atuação: nas novas tecnologias de ponta, no setor produtivo e nos principais que se tece em torno desse recurso vital, tão cobiçado pelos Estados Unidos,
circuitos do mercado mundial de mercadorias e financeiro. Porém, como o que é o petróleo.® Assim, se durante séculos os países muçulmanos foram
poder militar de uma nação se apoia sempre em seu poderio econômico geral, esquecidos pelos países ocidentais, isso se devia em parte porque se tratava
o declínio econômico tende, mais cedo ou mais tarde, a estrangular o militar. de países muito pobres, que não apresentavam nenhuma perspectiva de ex-
Foi o que aconteceu com a Inglaterra no século XX e com a Holanda durante ploração econômica imediata para os países centrais e ricos do mundo,
o século XVII. Algo que seguramente veremos acontecer nos próximos cin- Desse modo, a civilização do Islã, que chegou a ser o verdadeiro centro
quenta anos. do Velho Mundo"^® durante os séculos VIII a XIII e que viveu então épocas
Aqui podemos encontrar outro sentido para o acontecimento de 11 de se- de esplendor econômico, social, político e cultural, foi bastante i^orada ao
tem ro. Esse evento dramaticamente deflagrou a necessidade de os Estados longo de toda a história da modernidade capitalista. Porém, depois de 1945,
ni os tomarem consciência do seu progressivo declínio como potência hege- essa "civilização dos desertos frios e quentes", como a chamou Femand Brau-
momca, processo que vem se desenrolando nos últimos trinta anos. A partir dei, começou a ser altamente atrativa para Europa e Estados Unidos, em
a^e
no a ata fatídica,
e americano quecomeça a serUnidos
os Estados cada vez
sãomai
tãosvulneráveis
claro para ocomo
próprio povo virmodernização
qualquer tude de ser uma zona extraordi
capitalista forçadanari
ea mente rica em
contraditória, quepetról
eo. O processo
mencionamos e
acima,
ou ra naç^ o planeta. Fica evidente também que já não é o grande poder começa justamente depois da Segunda Guerra Mundial, correndo para ®
mcon es a o capaz de tomar em suas próprias mãos as rédeas da geopolítica interesse econômico do mundo no petróleo da região e à cada vez mais a e a
^ tomou um assunto que deve, inevitavelmente, ser com- intervenção dos Estados Unidos como comprador permanente deste recurso
1 ^ ^ o e negociado entre os diferentes países ricos e as zonas centrais do mineral. Por isso, nada do que aconteceu no Oriente Próximo e Mé lo no u
timo meio século foi indiferente à riqueza das jazidas petrolíferas dos países
vinfo rf ® Estados Unidos puderam intervir em mais de mencionados.
sem n outros tautos países dos quatro continentes do planeta, Se o auge da Opep nos anos oitenta não é senão outro sinal da eca en
rnnfv/- contestaçãocomo
e deOS
acordo com sua
do Iraque e doprópria vontade,®
Afeganistão ousamagora, ao cia
desafiar da hegemonia
a desesperada denorte-americana
George W. Bushaludida acima,
à tragédia é-odeigualmente
de 11 Setembro.a respos a
dp 1Q7<1 maneira que seria impossível imaginar antes Bin Laden culpado, sobrevivam ou não os talibãs, o que os Esta os m os
imnlnpá ®®^^dos Unidos parecem estar seguindo a lógica envidam com a guerra contra o Afeganistão e a política de rea i
niiP py'cT ^ ° Poy todos os impérios conhecidos: se tudo o que a complementa é uma nova e desesperada estratégia para conserv ,
pom ^ merece perecer, todos os impérios lentamente construídos alcan- por quanto tempo for possível, o abastecimento regular do petro eo a
TTiPnf ° ^ c imax para, em seguida, declinar e depois tombar fatal- árabe e o controle dos mercados desta preciosa mercadoria. Assim, para a e
rj YTY ° ® ^ olanda no fim do século XVII e Inglaterra no final do projeto de um maccartismo planetário e da proclamada luta con ra o er
iK ^ Unidos declinam agora diante de nossos próprios rorismo internacional", impera na hora da tomada de decisões impor an es
A impossível conceber tanto a própria possibilidade do esta guerra latente pelo controle do petróleo produzido pelos países o nen
at^tado de 11 desenão
norte-amencana setembro como
dentro a siperspecti
dessa ngular resposta
va geraldesesperada
do declínio daehegemo-
belicista tequenta
Médioanos,
e Próxi
inm o. E isso continuará
dependentemente vigorando
do resul nosconfl
tado dos próxiitos
mos tnnta
atuais, ou cin-
nia dos Estados Unidos da América do Norte sobre o globo.

« KLARE, Michael T.La geopolítica de Ia guerra. La Jornada, 6 nov. 2001.


Sobre essas intervenções, ver a cronologia de BLUM, William. Breve historia de Ias interven- '» Essa é a idéia defendida por BRAUDEL, Fernand em seu livro Los civihzaciones actuates. Me-
ciones de Estados Unidos desde 1945. Chiapas, México, n. 10, 2000. xico: REI, 1991.

82 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 83
A terceira linha de força em tomo do 11 de Setembro é a da complexa Finalmente, ao se buscar chegar à explicação última e mais estrutural
relação estabelecida entre as distintas civilizações humanas do planeta ao das origens do trágico atentado de 11 de setembro, bem como da gfuerra en
longo da história. Embora seja claro que o atual conflito não é absolutamente cetada contra Afeganistão, ou seja, a explicação para o terrorismo moderno e
um choque de civiUzações" — visão simplista e maniqueísta, que faz abstra a moderna guerra de alta tecnologia que lhe sucede, observa-se claramente
ção de todos os elementos até aqui indicados —, estão em jogo, ao contrário, que ambas se alimentam e se sustentam mutuamente dentro do sistema so
as dificuldades até hoje não superadas para a realização do urgente diálogo cial e econômico da modernidade capitalista. Há cinco séculos esse sistema
intercultviral entre as diversas civilizações. Um dos grandes desafios para o se reproduz a partir de um esquema baseado na exploração econômica de
terceiro milênio que apenas se inicia é o de saber se a humanidade será capaz
de emplacar esse diálogo multicultural, respeitoso e realmente transforma indivíduos, grupos, classes e nações inteiras, bem como na desigualdade so
dor dos códigos culturais de todos os participantes, o qual contribua para o cial, no despotismo político, na discriminação recorrente que se manifesta em
múltiplas maneiras. Manifesta-se também no acesso assimétrico da produ
enriquecimento de nossas diferenciadas visões de mundo e faculte a abertura
de espaços comuns de intercâmbio, encontro e redefinição das diversas iden ção cultural das sociedades contemporâneas. Todos esses traços acabam por
tidades culturais e civüizatórias." engendrar as guerras, conflitos, soluções desesperadas e falsas saídas, como
Tal di^op multicultural deve ser, antes, a antítese do modo de contato o terrorismo individual ou de grupo, ou o prepotente terrorismo dos Estados
poderosos.
110 qual um fundamentalismo islâmi-
co ^atico e defo^ador da mensagem do Corão se opõe a outro fundamenta- A solução ao problema atual não parece de difícil equação, ao menos
hsmo cnstao do destmo mamfesto" e da pretensa supremacia do "Ocidente" teoricamente; apenas se evitarão novas tragédias como a do 11 de Setembro
em Nova York e Washington, e como as subsequentes no Afeganistão, quan
j abrir espaço para o necessário reconhecimento do conseguirmos enterrar definitivamente o sistema capitalista. Confiemos,
sentido'dp ^ ^ ^ relação dialógica, essa guerra ideológica sem então, que antes do ano 2057 já teremos alcançado a verdadeira solução para
1 todamentaUsmos igualmente limitados e estreitos transfor- esses problemas.

incompreensão e odio diante do diferente. alteridade, em medo,


Cidade do México, 7 de novembro de 2001
Sete JZ'Jr'onn? a resposta norte-americana ao 11 de
comum a toda ^ enfrentar o difícil desafio global
teSmb^ l7 = humanas, de serem capazes de se abrir a um
o ^ autocrítica e disposta a pôr
trdeinSdem??"^° Identidades mais fundamentais, o que a tragédia recen-
Íe raSítíld, afirmação irracional, absoluta e agressiva
ateSldòs em n1 • ■■aiva, primeiro cfntra os
pelo povo inocente do AfeganisL"®^"'agressões sofridas
álono^ece^í-T l>averá de se avançar na construção do di-
Ssma rr»rt^rifd ""'v"'^^'par o inexisLte fan-
^iríoTfeT
relaçao que estan-
s ultT'
unase.tive.ainda, a diftcil
^ durante sécul e apenas
os. E isso complicada
acontecerá
ao preço da superação dos todamentalismos atuais e da afirmação irracio-
nal e excludente das múltiplas identidades culturais em jogo.

Sobre as dificuldades enormes presentes no diálogo entre distintas culturas e civUizações ver
SAID, Edward. Orientalismo. Madrid: Libertárias, 1990; GINZBURG, Cario Oiazos de'Ma
dera. Barcelona: Pem'nsula, 2000; ECHEVERRÍA, BoUvar. Definición de Ia cultura México:
Unam - Itaca, 2001.

84 Carlos Antonio Aguirre Rojas


Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 85
B
As lições da invasão no Iraque'
É essencialmente verdadeiro que toda guerra, em
última análise, é um conflito de espaços, um drama
geopolítico.
Femand Braudel
("La faillite da paix. 1918-1939", conferência
proferida na Universidade de São Paulo, 1947)

O novo "maccortsimo pa
l netáro
i " dos Estados Und
i os
utilizando a tragédia de 11 de setembro de 2001 como justificativa de
um projeto geopolítico global muito mais amplo e ainbicioso, o atua governo
dos Estados Unidos montou, cuidadosa e sistematicainente, um programa
que bem poderíamos caracterizar como o da instauração de um novo mac
cartismo planetário. Esse programa neomaccartista parece se es
senvolver uma luta aberta em duas frentes de uma só vez. e um a o>
interior dos Estados Unidos, para calar, reprimir e desvalorizar qualquer tor-
ma de protesto interno contra a nova política internacional norte amencaim,
agitando o espantalho do "antipatriotismo" norte-americano e con e^n o
qualquer gesto de dissidência dentro dos Estados Unidos, de outro, na en e
exterior, o governo americano busca redefinir o conjunto globa as re ações
de poder no interior do sistema mundial com base numa nova e escara a o
gica prepotente e militarista que pretende recuperar a liderança os s ^
Unidos e a diversa hierarquia de cada nação, em função do assimétrico poüer
militar dos distintos países do mundo.
Posto simultaneamente em prática nessas duas frentes, o proje o mac
cartista global americano está na base tanto da absurda e injusta invasao
contra o Afeganistão quanto da verdadeira "cruzada interna de perseguição
e espionagem da população norte-americana nos últimos três anos, mas tam-

Publicado em 4/5/2003 no diário eletrônico La Insignia, na seção "Internacional". Disponível


em: http://www.lainsignia.org, p. 1-7.
bém do golpe de estado na Venezuela; da definição maniqueísta do suposto lamente a esse declínio tecnológico e produtivo, o papel dos Estados Unidos
"eixo do mal"; da verdadeira guerra midiática destinada a manipular ideo dentro dos fluxos do comércio mundial também encolheu a olhos vistos nas
logicamente a opinião pública, tanto a norte-americana como a mundial; do últimas três décadas, cedendo o lugar a uma presença cada vez maior para
itinerário criminoso do manejo da crise econômica argentina; das renovadas Europa Ocidental e Japão nessa rede do comércio internacional. Ao mesmo
pressões contra Cuba, Síria, Irã e Coréia do Norte e, ainda, da também imo
ral invasão recente no Iraque. tempo, a esse declínio do sistema produtivo acompanha uma paralela de
É apenas uma e a mesma lógica a governar a atitude que tiveram os terioração financeira, que diminui claramente o papel dos bancos e grupos
Estados Unidos diante de todos os acontecimentos mencionados, uma lógica financeiros da América do Norte, em beneficio de uma crescente presença de
que, ao reproduzir as posições historicamente mantidas pelos grupos de ul- Japão, França e Alemanha, entre outros países, dentro do sistema financeiro
tradireita de qualquer parte do planeta, volta a dividir o mundo em preto e internacional.
branco: "quem não está conosco está contra nós", "ou és pró-norte-americano Essa decadência norte-americana na economia mundial se deve ao fato
ou és suspeito de ser aliado do terrorismo ou terrorista mesmo", "tudo o que é de que, tal como aconteceu com a Holanda no final do século XVII e com
a Inglaterra no final do XIX, desde a crise econômica mundial de 1972-73
^ferentest
ade e de nós é peri
á sempre de g oso, elado",
nosso muit"vencemos
o provavelmenteas
com ruim e negat
armas, portaivnt
o",o,"a ver-
temos os Estados Unidos estão vivendo um processo de decadência histórica como
razao , é melhor instaurar a ordem pela força e pelo medo do que deixar potência hegemônica do sistema capitalista mundial. Tal decadência norte-
orescer a diferença e a dissidência, que levam seguramente ao caos e à de- americana explica não apenas o declínio econômico geral dos Estados Unidos,
em , etc. Essa lógica fundamentalista e irracional encontrou, em virtude mas também a deterioração que, nestes últimos trinta anos, afetou o papel da
a conjuntura, os meios técnicos e políticos para se apoderar da atual política América do Norte dentro do quadro geral da geopolítica global, como demons
m ema e internacional norte-americana, configurando esse projeto maccar- tram, por exemplo, o surgimento do chamado G-7 - hoje Grupo dos 8, com a
tista planetário que hoje ameaça o mundo inteiro.
incorporação da Rússia - e o fortalecimento do papel internacional da União
Como ganhou fôlego essa política maccartista recente? Em que grupos Européia, assim como do Japão, a que se assiste no mesmo lapso temporal.
econômico e geopolítico se apoiou? Em quais contextos, norte- Nesse contexto de um lento, porém irrefreável, declínio da hegemonia
oup? ^ global? Por que acabou desaguando na recente invasão no Ira- norte-americana se verá irromper o desesperado, agressivo e destrutivo pro
DodPnTV"^^^ arriscar para o futuro imediato? Que lições jeto do maccartismo planetário, promovido pela ultradireita política norte
EstadpQ numa análise um pouco mais detida dessa recente invasão dos americana - representada pelos chamados "falcões" hoje na Casa Branca e
de resDOíít"^ Iraque?
P sta a essas cmciNosso objetivoquestões.
ais e urgentes é apontar para alguns elementos capitaneado por George W. Bush.
Afirmamos, pois, que foi essa nítida tendência estrutural do declínio ge-
opolítico e econômico norte-americano, evidenciada durante os últimos tnnta
Ocone
txo
t econômcioegeopocitílodonivasãonorIaque anos, que levou à instauração do projeto belicista do maccartismo planetário.
De tal perspectiva, o neomaccartismo aparece como um último e esespe
É dfiíclicompreender a realsg
i nfciação dan
i vasão contra o povo do intento de reverter a tendência estrutural de decadência h^emomc ,
raque e o sentido geral do projeto maccartista hoje promovido pelo governo diante a suspeita transferência da batalha econômica e do co i o geopo
eorge W. Bush sem se considerar o fato de que há trinta anos os Esta para terreno exclusivo da confrontação militar. i. j- •.
dos Umdos vvi em um evd
i ente processo de detero
i ração de seu papel dentro Apartir do 11 de Setembro de 2001. o grupo dos falcões da ultradireita
da economia mundial. Essa crise se expressa tanto no fato de que, cada vez conservadora que hoje governa os Estados Unidos optou por transgredir e
mais 6 de maneira irreversível, as inovações tecnológicas e descobrimentos romper com a legalidade capitalista internacional, ignoran o ^ regras con
científico-produtivos já não se desenvolvem nos Estados Unidos, mas no Ja solidadas da competição econômica entre os Estados, como tam ém os meca
pão ou nos distintos países de Europa Ocidental. Ao mesmo tempo, parale- nismos tradicionais do sistema interestatal referentes ao jogo de forças e aos
equilíbrios geopolíticos mundiais.
88 Carlos Antonio Aguirre Roja Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 89
Assim, como um jogador ardiloso, que respeita as regras do jogo en Tal complexo da indústria militar que ora governa os Estados Unidos de
quanto ainda vislumbra a chance de ganhá-lo legalmente, mas que, quando maneira tão orgânica alia-se também com os grupos da indústria petrolífera
começa a perder, esquece as regras e se aproveita da vantagem de portar daquele país, os quais pugnam por eliminar todo sinal de independência dos
uma arma de fogo, com a qual se apodera das apostas à mesa, os Estados países produtores que vendem petróleo aos Estados Unidos, procurando, in
Unidos, durante os últimos dois ou três anos, vêm utilizando sua ainda real clusive, garantir-se, por vias múltiplas e complexas, o poder de fixar preços,
superioridade militar sobre qualquer outra nação do mundo para dar curso a ritmos de produção e políticas de distribução do petróleo internacional.
essa política maccartista, cujas principais etapas foram as imorais invasões Então, se este grupo da indústria militar e petrolífera dos Estados Uni
do Afeganistão e, depois, do Iraque. dos é quem aposta no novo maccartismo internacional, baseado na potência
Então, o que levou a América do Norte a invadir aqueles países não foi militar norte-americana, tal projeto não tem futuro a médio prazo. Isso por
sua força^, mas, antes, sua cada vez maior debilidade. A economia norte-ame que a potência militar de uma nação qualquer depende, em última instância,
ricana não apenas veio perdendo progressivamente a competição econômica de seu poderio econômico e, se este está em franco declínio, cedo ou tarde
contra Japão e Europa Ocidental ao longo das últimas três décadas. Além de acabará também entrando em colapso. Porém, ressalve-se, isso ocorre apenas
se converter na economia com a maior dívida nacional do planeta - atual no médio prazo, que ainda poderá demorar décadas para acontecer.
mente rondando os quinhentos bilhões de dólares -, os sintomas sinalizando
uma possível cnse compáravel à de 1929 tinham sido detectados já antes do Enquanto isso, no curto prazo, esse maccartismo global está causando
muito dano, em primeiro lugar à cidadania do próprio povo norte-americano;
11 de Setembro.
em segundo lugar, à própria paz mundial. Por isso, devemos lutar para freá-
lo. Uma via efetiva e concreta de fazê-lo seriam as próximas eleições dos Es
Osgruposden
iteressequegovernamosEstadosUnd
iosapós tados Unidos do ano de 2004, quando o povo norte-americano teve a respon
sabilidade e a oportunidade de fazê-lo, mas, infelizmente, o medo e o terror a
o 11/9/2001 que foi submetido pela propaganda bushista falaram mais alto.

cia cenário, de uma economia fragilizada e na eminên-


Geore-P catástrofe econômica de grandes dimensões, o governo "Oposíções" e cumpcild
i ades ao novo maccartsi mo go
l bal
anenf^ is desenhou a alternativa do maccartismo planetário, que em Outra lição importante que podemos extrair da invasão dos Estados
se calhar 'u, primeiro, o Afeganistão e, depois, o Iraque e que, Unidos no Iraque se refere à timorata e pouco coerente "oposição que, duran
dos nróvimnr momento programando a invasão militar te algum tempo, arremedaram manifestar a ONU e alguns governos, como os
Doder rpnro grupo político da ultradireita norte-americana hoje no de França, Rússia ou Alemanha, contra a decisão arbitrária norte-amencana
resses do^ori ' f Estados Unidos, os inte- de invadir o Iraque. Porém, como as reações posteriores a esta invasão torna
vive e nrosnera XV^ rial-mihtar norte-americano, complexo que apenas ram evidente, trata-se, no fundo, do mesmo conflito de interesses econômicos
relmais
vez ma^rn
o gasto ^a
militartdoí governo
"''f ®norte-americano.
conseguir avultar cada e geopolíticos entre as potências capitalistas mais desenvolvidas que mencio
namos antes. Para o caso da ONU, trata-se, simplesmente, da enésima prova
^gove
prntr?
oscR
om
eapgle
axnoeinB
dushtria
^pl-m
ai in
ltaãroqtu
ine
hajáain
tivdearaep
ncaopnetra
l do
eudm
esatacqounejunntuora
s de sua propalada crise e histórica incapacidade de ação diante daqueles mes
propicia para controlar o Estado norte-americano com a profundidade e am mos interesses econômicos e geopolíticos dos poderes capitalistas realmente
plitude com que conseguiu fazer nestes últimos dois ou três anos, ou seja, dominantes.
apoderar-se do Estado a ponto de não apenas impor a política neomaccartista Hoje fica muito claro que esses governos submetidos a uma direita mi
em escala internacional e a ofensiva interna de repressão a toda dissidência litante e belicosa, como os da França e da Rússia, ou o fraco governo social
contra sua própria população, mas até mesmo a ponto de tentar reorganizar democrata alemão, não se opuseram à invasão do Iraque por razões humani
integralmente o próprio aparato de Estado dos Estados Unidos, disciplinan tárias, nem por qualquer deferência a uma utópica paz mundial, tampouco
do-© e articulando-o de modo a torná-lo totalmente funcional a seus próprios por qualquer preocupação altruísta com relação do destino da população ira
desígnios. quiana, mas pura e simplesmente porque esses três países eram os principais
credores da dívida do governo de Saddam Hussein e os mais importantes só-

90 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 91
cios comerciais do Iraque. Ou seja, a queda de Hussein levava ao risco de que ce na verdade é que essa recente agressão dos Estados Unidos contra o povo
cerca de vinte bilhões de dólares que o Iraque devia para França, Alemanha iraquiano simplesmente veio reforçar a consolidada perda de legitimidade e
e Rússia evaporassem e nada garantiria que tal dívida fosse honrada pelo o esvaziamento da ONU nos últimos vinte anos.
futuro novo governo do Iraque. Diferentemente do papel progressista e crítico que a Organização das
De outra parte, raciocinando no médio prazo. França e Alemanha se Nações Unidas desempenhou até a década de 1970, nas últimas duas déca
opuseram à invasão do Iraque porque com isso se opunham ao possível do das a ONU limitou-se apenas a protestar de uma maneira formal contra as
mínio dos Estados Unidos sobre o petróleo iraquiano, que é a segunda maior guerras, invasões e diversas injustiças da ordem internacional perpretadas
reserva de petróleo do planeta, apenas superada pela Arábia Saudita. Com o pelas grandes potências do mundo, mas jamais sem levar a cabo medidas efe
controle dessa imensa reserva, os Estados Unidos terão uma margem muito tivas para resolver essas violações do direito internacional, que essa mesma
maior para manipular os preços do mercado petrolífero mundial, contra a entidade deve supostamente salvaguardar e defender.
Europa Ocidental, que não possui petróleo próprio, mas também contra a Isso ficou bastante evidente na invasão dos Estados Unidos no Afega
Rússia, que, embora produtora de petróleo, é um competidor importante den nistão. Ali, tanto a ONU como seu secretário-geral, Kofi Annan, guardaram
tro desse acirradíssimo mercado internacional de petróleo. um silêncio cúmplice e patético, imediatamente recompensado com a outorga
Portanto, se França, Alemanha e Rússia pareceram, num primeiro mo do prêmio Nobel da Paz (o que, evidentemente, implica um claro desprestígio
mento, opor-se energicamente aos Estados Unidos e a seu jogo fraudulento de do próprio prêmio Nobel). Esse silêncio cúmplice — o mesmo que Kofi Annan,
violentar a legalidade internacional, para impor pela via de sua supremacia então responsável da ONU na Somália, teve em face dos Estados Unidos
militar sua própria política e implementar seu projeto maccartista global, em 1993, quando da fracassada invasão norte-americana àquele país — re
logo após a imoral invasão contra o povo do Iraque esses mesmos governos petiu-se na invasão do Afeganistão, respaldando, jimto com muitos outros
envidaram todos os esforços no sentido de defender a tese de que aquela elementos, os falcões do governo George W. Bush em sua recente invasão no
invasão é já um fato do passado, efêmero e deplorável, mas que deveria ser Iraque. Essa atitude omissa da ONU, lamentavelmente, poderia animá-los
imediatamente esquecido e superado, em prol da reconstrução das velhas também a tentar uma nova agressão injusta e imoral contra outros países,
alianças entre as potências capitalistas mundiais. como Cuba, por exemplo.
Dissimulando que "nada aconteceu", como se a invasão do Iraque pelos Diante da invasão no Iraque, a ONU não teve coragem sequer para
Estados Umdos não representasse uma violação grotesca contra a ONU, a convocar uma assembléia geral na qual condenasse a invasão, nem seu secre-
uropa ocidental, a Rússia, a China e ao mundo inteiro, os governos de Fran tário-geral teve altivez para renunciar a seu cargo, em protesto pela burla e
ça, Alemanha e Rússia expressam agora uma muito anódina "oposição" aos desprezo com que o governo norte-americano tratou a ONU diante do mundo.
Estados Umdos, reclamando que a ONU deve ter um papel central na recons- Por isso, há cerca de uma década, ou um pouco mais, a ONU deixou de cum
ruçao o raque e negociando sobre a mesa tanto o reconhecimento da dívida prir a missão progressista que lhe cabe, convertendo-se numa estrutura pu
o Iraque para com eles mesmos, como uma porção da partilha do negócio da ramente formal, que tem cumprido o papel de "enfermeira e assistente sociaF
reconstrução econômica da nação iraquiana.
post factum de todas as guerras, invasões, injustiças e catástrofes.
Assim, demonstra-se que nem a Europa Ocidental nem a Rússia encon- Tais fatos demonstram a urgência de se criarem novos orgamsmos in
traram até agora a coragem, as forças, nem os mecanismos necessários para
fazer frente, de maneira realmente eficaz e vigorosa, a esse irracional projeto ternacionais realmente efetivos e plurais, baseados em mecamsmos mais de
do maccartismo planetário norte-americano. mocráticos nas tomadas de decisão do que a obsoleta estrutura do Conselho
Nesse cenário, acaba sendo patético o papel desempenhado pela Orga de Segurança da ONU; novos organismos mais autenticamente defensores de
um também renovado direito internacional mais equitativo e acorde com os
nização das Nações Unidas, em geral, e por seu chanceler, em particular,
patetismo que avulta quando recordamos que ambos foram premiados recen tempos e com as complexas circunstâncias que hoje vivemos.
temente com o prêmio Nobel da Paz. Longe da idéia sustentada por muitos Diante de tal cenário, é igualmente triste o papel desempenhado pelo
jornalistas e analistas de primeira hora, os quais afirmaram que a invasão no México, tanto como membro permanente do Conselho de Segurança, quanto
Iraque foi o que provocou a atual crise de legitimidade da ONU, o que aconte- como atual detentor da presidência rotatória de tal conselho, pois o que im-

92 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 93
peliu governos como os da Espanha e Itália a apoiarem abertamente a inva a 230 países em todo o planeta, poderemos ver que não existe praticamente
são no Iraque é, sem dúvida, a profunda afinidade ideológica de seus atuais um só país onde a firme oposição mundial contra o belicismo maccartista
norte-americano não tenha se manifestado.
governantes com a postura do próprio governo de George W. Bush. Trata-se,
como referimos acima, de governos da ultradireita conservadora, que, contra Ademais, em termos quantitativos, foi também um fenômeno extraor
a opinião da esmagadora maioria de seus próprios povos, estão convencidos dinário a marcha pela paz que se realizou no dia 15 de fevereiro de 2003 nas
de que a única maneira de "manter a ordem" é por meio da força, sendo igual principais cidades do mimdo, quando cerca de trinta milhões de pessoas se
uniram em tomo de uma única luta e sincronizadas em tomo de uma mes
mente temerosos de tudo o que se afigure "diferente" ou "distante", imediata ma ação mundial de protesto contra a então iminente e imoral invasão dos
mente identificado ao "perigoso" a seus próprios valores e identidades. Estados Unidos no Iraque. Praticamente uma de cada duzentas pessoas do
O governo de Vicente Fox, no México, é parte desta família de governos planeta participou nesta manifestação mundial contra o novo maccartismo
I de ultradireita, que inclui desde Bush e Jõrg Haider até José Maria Aznar, norte-americano.
Vladmir Putin e Sílvio Berlusconi. Assim, no caso de a proposta norte-ame
Assim, sob a voz universal de um rotimdo "Não à guerra, sim à paz",
ricana no Conselho de Segurança chegar à votação, é claro que o México a milhões de pessoas marcharam nos Estados Unidos, Inglaterra, Espanha,
teria respaldado, como o demonstra a inócua atitude deste país na atual pre México, Itália, França, Turquia, Brasil, Alemanha, China, Argentina, Rús
sidência do Conselho de Segurança, que fez eco ao vazio discurso de que "não sia, etc., conectando agora esta luta pela paz mundial e contra a invasão no
é momento para recriminações" e de que a única coisa que compete à ONU,
Iraque com o movimento mais global contra o neoliberalismo e a globalização
agora, é preocupar-se com a situação humanitária no Iraque" e "pensar em capitalista.
sua reconstrução".
Tudo isso evidencia que a "mudança" que o governo de Vicente Fox re Se, de maneira imediata, esse protesto mundial não foi ainda capaz de
parar a invasão dos Estados Unidos contra o povo do Iraque, fez eclodir, por
presentou no que à política exterior mexicana corresponde foi a passagem da outro lado, um movimento que certamente terá importantes efeitos positivos
prática de uma política exterior independente — talvez a única coisa de que a médio prazo.
os cormptos governos priístas podiam se orgulhar - a uma política exterior
su or ma a e totalmente alinhada, de maneira vergonhosa e servil, aos É provável que essa vasta mobilização contra a invasão no Iraque ter
in resses dos Estados Unidos e, em particular, ao projeto maccartista antes mine redundando num certo incremento da capacidade de organização dos
mencionado.
movimentos antissistêmicos e anticapitalistas em todo o mundo, pois muitas
pessoas que hoje se indignaram, e continuam a se indignar, e que protesta
ram contra esta imoral e injusta agressão contra as crianças e a população ci
Asaída do a
l brin
i to: os novos movm
i entos antsi ssi têmci os e vil iraquiana poderão vir a constituir amanhã os novos apoios sociais e novos
protagonistas ativos das lutas contra o neoliberalismo e contra o capitalismo
onticopitalistas mundiais mundial.
\

Igualmente, parece ser claro que a invasão no Iraque vem potenciando


j J uma maneira totalmente Involuntária, mas com um grau de eficácia e continuará incrementando o ressurgimento do antiamericanismo no mundo
^ resultados consideráveis, o grupo de George W. Bush e dos e, mais especificamente, a crítica e a oposição ativa ao imperialismo norte-
nn hoje govemantes nos Estados Unidos conseguiu criar americano. Crítica e oposição que, tendo sido um dos objetivos centrais das
victn movimento pacifista mundial de alcance planetário e jamais lutas sociais mundiais dos anos cinqüenta, sessenta e setenta, pareceu decli
mnn/^ Qi também vincular a esse movimento pacifista nar durante os anos oitenta e noventa. Porém, frente ao projeto maccartista
j 1 o a a vas a rede dos movimentos anticapitalistas e antissistêmicos
, que lutam atualmente contra o neoliberalismo em todo o mundo e contra o planetário referido, cujas conseqüências atrozes vimos padecendo nos últi
fenomeno impropriamente denominado de "globalização" mos meses, veremos ganhar força nos próximos anos uma forte contestação
Não deixa de ser impressionante, simbólica e qualitativamente, o fato ao imperialismo norte-americano, junto com a crítica radical à prepotência
de que mais de 85 mil pessoas, oriundas de 221 países, já tenham assinado o militarista de sua hegemonia.
! manifesto pela paz e contra a guerra, lançado por um grupo de importantes Outro efeito importante deste movimento mundial contra a guerra e
pela paz é o de fomentar uma conscientização cada vez maior mundo afora
personagens norte-americanos. Se lembrarmos que boje existem cerca de 225 de que nosso planeta é cada vez menor e de que cada vez mais toda a hu-

94 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 95
manidade se encontra unida em tomo de um destino comum. Nesse mundo
conscientizado, as agressões, invasões, guerras, decisões e ações unilaterais,
mas também os movimentos de resistência, lutas, mobilizações e protestos
sociais, impactam cada vez mais na dinâmica do sistema mundial capitalista
em sua totalidade. Por isso, fica cada vez mais claro que o desenho do destino
global da Terra não pode ficar nas mãos de pessoas como George W. Bush, dos
falcões da ultradireita norte-Eunericana, tampouco de seus discípulos, como
Vicente Fox, José Maria Aznar, Vladimir Putin, Jõrg Haider ou Silvio Ber
lusconi.
Marxismo, liberalismo e expansão do "economia
Igualmente, não podemos deixar esse destino nas mãos da venal oposi mundo" europeio'
ção, sempre aberta a toda sorte de negociações, representada por gente como
Jacques Chirac ou Gerard Schroeder, ou da própria ONU, porque o futuro da
humamdade pertence a cada um de nós, ao cidadão, às imensas populações [...] as revoluções proletárias... criticam-se constan
que habitam o planeta. temente a si mesmas, voltam àquilo que parecia
Quem poderá deter George W. Bush, a ultradireita norte-americana e o terminado, para começar de novo retrocedem cons
novo maccartismo planetário, a indústria militar e petrolífera norte-america tantemente aterradas ante a enormidade de seus
nas? Sem dúvida, não serão a França, Alemanha e a Rússia, com sua tímida próprios fins, até que se cria uma situação que não
e ambígua oposição sempre negociável, tampouco a União Européia, proftm- permite voltar atrás e as próprias circunstâncias
clamam: jHic Rhodus, hic salta!
amente dividida, nem a ONU, completamente em ruínas há décadas. Karl Marx
Para hoje deter a todos esses indivíduos e grupos de interesse, os pro (O dezoito Brumário de Luís Bonaparte)
motores da nova barbárie belicista do maccartismo global, só a união da pró
pria sociedade norte-americana com a opinião pública mundial, suportada TESE I. Hoje o mxmdo parece marchar sobre sua cabeça, não sobre seus
pe a ampla rede de movimentos sociais Emticapitalistas e antissistêmicos que pés. Países que durante décadas se esforçaram para se construir e se desenvol- h
cresce a cada dia em todo o mundo. Sendo tenazmente otimistas, e pensan- ver "sob a bandeira do marxismo" parecem hoje não ter outro desejo senão o de
o so retudo nesses vastos setores sociais mencionados, podemos continuar
a an o a idéia e o objetivo geral de que "outro mundo, muito distinto ao "recuperar" os valores e paradigmas da sociedade burguesa, à qual se supu-
nha haviam superado, e sobre cuja negação radical se haviam erigido. Tanto
atual, e ainda possível". os estudantes chineses do grande protesto na Praça de Tienanmen quanto
os operários poloneses, o povo berlinense, quanto as massas tchecoslovacas
parecem clamar por liberdade e democracia políticas, as quais, sem dúvida,
não se deixou de denunciar nos países supostamente livres como apenas belas
palavras, cujo conteúdo visa mitificar e encobrir uma realidade de exploração
econômica e de sujeição política evidentes.
Para além dos usos ideológicos do Bicentenário da Revolução Francesa,
a denúncia da injustiça característica das sociedades capitalistas ocidentais
autodenominadas "livres" permanece, em todas as perspectivas, com toda
sua força e vigência.
O que acontece hoje com o marxismo e o liberalismo? Haverá realmente
uma "crise do marxismo" e um "renascimento do liberalismo ? Não existi
rá realmente uma alternativa à atual miséria espiritual e social burguesas?

Publicado no jornal diário El Financiero, México, 15/7 e 29/7/1991.

96 Carlos Antonio Aguirre Rojas


Não haverá outro caminho para os países do chamado "socialismo real" que dade burguesa que sobre ele se levanta se expressa, no plano da história das
o simples "retomo" à "normalidade capitalista" - que hoje desanda por todo idéias e no horizonte do processo de universalização, com o profundo caráter
lado à qual há várias décadas acreditaram poder escapar "tomando ao céu dual e contraditório que singulariza esse "ponto de transição histórica", que
por assalto"? é o capitalismo.
Para responder a tais questões, cujo debate se apresenta como uma ta Para Marx, o capitalismo é um verdadeiro "ponto de transição pri
refa vital para os cientistas sociais na atualidade, acreditamos que será útil
ressituá-las dentro de uma perspectiva de longo prazo. Dado que marxismo e vilegiado" do processo histórico, na medida em que é o último período da
liberalismo são realidades que se enraízam fortemente na história moderna, pré-história da humanidade, dentro da qual ainda estamos imersos, mas é
torna-se imprescindível observá-los em sua diversa operatividade e presença, também o tempo da criação das premissas para a superação desta mesma
numa perspectiva da longa duração. pré-história. Assim, o capitalismo é a síntese de uma tendência universal e
universalizadora limitada ao desenvolvimento das forças produtivas objeti
TESE II. Para entender a evolução histórica, o desenvolvimento e a si vas, ao enriquecimento das capacidades subjetivas e das características pe
tuação atual dessas duas matrizes de interpretação da realidade (ambas com culiares da individualidade humana, à socialização crescente dos processos
expressões no teireno da história das idéias, mas também nos movimentos humanos no econômico, no político, no cultural e até na vida cotidiana, como
sociais e po íticos contemporâneos, nos projetos econômicos e nos diversos na cozinha, no gosto, na moda, no vestir, no habitar, etc. Ainda, o capitalis
ectuais e práticos das classes e grupos sociais que hoje se con- mo constitui-se numa configuração pré-histórica, escassa e limitada: pelos
Ti a i ^ j v i s õ e s d o m u n d o , é m i s t e r e n q u a d r á - l a s modos de valorizar o valor, de subsumir toda atividade à lógica do trabalho
• - ^ ^ história das civilizações no período da modernidade ou
assalariado, de mercantilizar o mundo objetivo e até subjetivo, de assalariar
mo na inscrever as linhas da evolução do liberalismo e do marxis- toda atividade ou manifestação humana, inclusive artística, científica ou des
rola dp<5rla diálogo das civilizações modernas, que se desen- portiva, e também de impor sua visão peculiar do mundo, seu estilo de vida
peculiare<? ° e até a atualidade. Sob esta luz, ficarão mais claros os em todos os planos. Enquanto síntese dessa desgarrada contradição imanen-
hoe
j vg
i oroskreVm dSputr^''"destn
i os" dessas duas cosmovsiões, an
i da te a seu próprio ser, o capitalismo teve também uma dupla e radicalmente
oposta expressão no plano de seus diversos "modos de ver o mundo , de sua
que constróidialética específica do jogo recíproco das civilizações, weltaunschaung: de um lado, sua expressão positiva, afirmativa na pré-his
primeira vez a h +' ^^hosamente o mapa do mundo moderno, criou pela tória humana, isto é, o liberalismo; de outro, sua expressão crítica, negativa,
tradicional oup^p no sentido estrito do termo. Contra a visão acorde com o movimento de sua própria superação, de seu trânsito rumo ao
meno intemnoral ^ ^ história universal é um fenô- ponto de partida da verdadeira história humana, ou seja, o marxismo. Esse
afirma justamenró existiu (desde que o homem é homem), Marx duplo caráter de ambas as matrizes do pensamento moderno explica tanto o
lização da histórí ^ ^®^dade radical desta história universal. A universa- momento de seu desenvolvimento (o liberalismo, acompanhando ao desen
dese^voMmenrdn ^ parte justamente do nascimento e volvimento capitalista desde o século XVII, florecendo amplamente durante
q^e une peTa^^^^ capitalista, processo econômico real o XVIII, para prolongar-se até os séculos XK e XX; o marxismo, nascendo no
ZLTs fraÍtmIZ 'f 1--®' P^-iais, separadas ou primeiro ponto de clímax da expansão planetária capitalista, em meados do
CO vinculadas, próprias do período pré-capitalista num úni-
çõe7ZZ nLl7 r" «®®- didlogo dás civiliza- século XIX, que encerra em seu ponto mais maduro o ciclo ascendente do de
e do maTisro atu^ ^l^dida, do liberalismo senvolvimento capitalista, para difundir-se, acidentada e progressivamente,
dessa dialética miP ri ^ ambem na concretude dessa universalização e até hoje) como sua presença específica no mundo atual.
TESE V. Mas essa diferença entre o liberalismo e o marxismo, clara
TESE IV. Assim, se capitalismo e universalização da história caminham no plano do discurso, nunca foi tão evidente na história do capitalismo e do
de mãos dadas, a peculiaridade" do modo de produção capitalista e da socie- período moderno e contemporâneo, nem linearmente progressiva em suas

98 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 99
diversas formas de manifestação. Apenas a partir da dinâmica concreta da outra parte, não conseguiu em momento algum aplicá-lo por conta própria,
dialética das civilizações a que nos referíamos acima se podem explicar os concretizá-lo como projeto global de reestruturação de sua própria civiliza
entrecruzamentos, os paradoxos, as defasagens e as complexas relações que ção. Assim, a Europa é, até a Segunda Guerra Mundial, a fonte principal e
estas duas cosmovisões têm mantido desde o século XIX até hoje. Apenas praticamente única — com notáveis exceções como Plekhanov, Lenin, Mao-Tse
essa dinanruca concreta permite compreender de fato o complicado traçado Tung, etc. — dos desenvolvimentos teóricos e aprofundamentos diversas do
do mundo atual e as distintas presenças nele tanto do marxismo como do marxismo. Não obstante, é a Europa também uma civilização que fracassa,
liberalismo. em termos globais, no ensaio de aplicação prática dessa mesma concepção
Como começou essa dinâmica concreta da dialética das civilizações? marxista. Tendo criado e depois desenvolvido o marxismo como um fruto ge
Quais as conseqüências desse processo para a relação que hoje mantêm mar nuíno de sua civilização, a Europa não soube "usar" o marxismo senão como
xismo e liber^ismo? Sabemos que essa dinâmica arranca como o despreen- artigo "de exportação" para o resto do mundo. Esse encontro jamais realiza
dimento e niaís veloz desenvolvimento do pequeno continente europeu sobre do entre a Europa e o marxismo não é casual, mas deriva de uma série de
as demais civilizações e, por conseqüência, como o processo de invasão, con derrotas históricas, nas quais se decide claramente o destino posterior deste
quista e reconstrução de todo o planeta por parte desta entidade civilizacio- continente-península. Tendo amadurecido lentamente, numa história de lon
na c amada Europa . Na "vantagem" do progresso histórico que a "grande ga duração, as condições econômicas necessárias para realizar tal ensaio de
pemnsula europeia" continental obtém sobre todas as outras civilizações du- aplicação prática, a Europa capitalista ocidental é, não obstante, impedida
r^te de "chegar ao encontro" com o marxismo no massacre radical da Comuna de
dmaiseu
mcaperíodo formati
da lustóna univversal
o (nose osécul
os específi
mapa V-XV) cse encontram
o do o segredo da
mundo moderno. Paris, no fracasso trágico da Comuna de Berlim e na recusa da Inglaterra em
fins do século XIX e imcio do XX em adotar o projeto marxista. Desse modo,
sa«van
na agem
não se(moti
levou
vosa geográfi
bom termo
cos,aciinvestigação acercacdos
vilizatórios, econômi motivos
ais edes-
os, soci até o mencionado encontro fracassado se constitui no ponto crítico que define o
c urais, que, como imenso problema dos historiadores atuais, têm diversos
es oços e respos a em Marx e em Braudel, entre outros), mas, ao menos, destino de Europa ocidental (e em certo sentido de toda Europa) durante o
século XX.

Znir?
' ° ^"vantagem":
dando-lhe sua a
f o r mEuropa
a a t u a l . Mrefaz
e s m o n oos Porém, junto com o destino de Europa, nessa época crucial se decidiu
também, em boa medida, o destino do resto do mundo, porque, para ox
a nrónria^^a^^resistem com êxito ao embate civilizatório europeu, mente, como que numa espécie de "compensação" no grande movimento g o
história invasão é um elemento central na definição de sua bal da história universal, será jimto aos povos e civilizações não eurcpeias
tário onde do papel que poderão jogar no concerto plane- que o marxismo será aceito e praticado e, mais ainda, no qual tri nr como
dessâ Euron^ a aceitação ou da recusa, se contaminam todos os povos ensaio prático de reconstrução da sociedade. ^
Assim à ^ ^ inundo , num sentido muito mais que metafórico, Como uma verdadeira "brincadeira" da história, será nas ci izaçoes
as outras acomnanh ® invasão da civilização europeia sobre menos maduras do ponto de vista capitalista (e, portanto, menos ma ura
A universalizarão d ^ ^ exportação e invasão de suas cosmovisões. para buscar a superação do capitalismo) que o marxismo chegou ao po er, se
cul^f^ histona comandada pela pequena Europa desde o sé- fez hegemônico e teve de cumprir sobre bases totalmente inadequa as seu
U^ç^o HWa^ f tempo, a universa- destino concreto durante o século XX. Assim, fora de Europa, com a missão
diversos destinos pdo munX^rl"^^™^ ^ °"Sem de seus histórica de levar a bom termo as tarefas que cabiam ao liberalismo, o m^
xismo padeceu de toda sorte de readaptações, ajustes e deformações,
obrigam a perguntar, em face de suas variadas versões atuais, so re o
xsimo e ob
il ^ab^^ qusiermos, então, nos concentrar na rea
l ção entre o mar- realmente restou dos perfis originais que marcaram seu nascimen o n
rr^dfrpn ' T' reconhecendo a mLr antigüidade gunda metade do século XIX.
marcoT^oraf Tf " TT' ^os últimos 150 anos Neste TESE VII. Mas a história não se deteve tampouco para o liberalismo,
SSLar^T
explicam omais delim
espectro itado,
atual poderemos
destas const
duas cosmovi atar vários paradoxos que
sões
Assim, é de se sublinhar o fato de que, enquanto a Europa, já no auge após a aparição e bizarra migração do marxismo. Se, na passagem o secu o
da ascensão capitalista em meados do século XIX, criou o marxismo, por XIX para o XX, a Europa faltou ao encontro com o marxismo, seu desenvol
vimento posterior a levou pela via de um desenvolvimento capitalista que
100 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 101
já não pode ser considerado parte da curva ascendente e afirmativa de sua de um exame crítico rigoroso, acabam muitas vezes mais marxistas que os
evolução. A Europa que não consegue chegar ao socialismo na Primeira Guer próprios marxistas, passando também por genuínos esforços de interpretar
ra Mundial é a mesma que perde o controle do processo de universalização de outro modo as realidades capitalistas atuais.
da história, à frente do qual se manteve desde o século XVI (controle esse
que passa para as mãos dessa "Europa fora da Europa", que são os Estados TESE IX. Por trás desta história paralela do liberalismo e do mar
Unidos da América). Europa que deixa de ser, a partir da Segunda Guerra xismo no século XX subjaz uma diferença essencial, que nos remete nova
Mundial, o ponto de referência cultural e ideológico mundial que havia sido mente ao fundamento originário de ambas as visões de mundo. Em nos
até esse momento. sa opinião, enquanto o marxismo sofreu esse conjunto de deformações,
Seguindo, de modo geral, essa mesma linha evolutiva, o liberalismo ge- simplificações e desenvolvimentos críticos e criativos apenas marginais,
rado na Europa desde a segunda metade do século XIX teve de se definir já como sintomas de sua juventude, o liberalismo, ao contrário, viveu simi
nao como negação revolucionária do passado pré-capitalista ou como simples lares readaptações e constrangimentos (que não invalidam suas contri
positmdade do auge da civilização europeia, mas como esforço de explicação buições específicas ainda durante o século XX) como sintomas de seu de
e compreensão desse peculiar destino fracassado da pequena Europa. Coagi clínio e senilidade. Obrigado a viver um tempo suplementar, que parece
do, de um modo ou outro, pelo rival marxista, o liberalismo dos últimos 150 ter excedido suas forças vitais, o liberalismo teve de continuar ocupando
anos teve de fazer frente também a problemáticas que lhe foram totalmente um espaço que o marxismo, ainda inacabado e titubeante, não consegue
estranhas em sua pnmeira fase de existência, dentro do ampliado espectro ocupar plenamente. É a típica justaposição de uma geração que termina seu
1 ícas e ^® j^distintas manifestações
o o em-estar do direito
social, os limites trabalhista,
do exercício as po-
da democracia ciclo de vida com aquela que deve substituí-la, na escala histórica da transi
ção da pré-história para a verdadeira história universal humana.
"popular"), as novas funções do Estado, a
Ltlrí- ^ ° .f hijona para além do esquema ilustrado e iluminista de TESE X. Como se pode aperceber, a situação do liberalismo e do mar
conta'iversos modos pelo quais o liberalismo procurou dar xismo boje, em 1991, quando os países que supostamente passaram por uma
do dentro H ^ se nega a se superar e que, ao continuar viven- experiência marxista, clamam abertamente por liberdade e democracia, e os
transformguração social já historicamente obsoleta, acaba se países que supostamente livres e democráticos vivem a denúncia permanen e
afirma cue a d ° paradigmático daquela famosa tese de Marx que da falsidade e mistificação - a percepção que tais elementos são ins icien es
para a construção de uma sociedade realmente justa e livre? Em nossa opi
nião, as sociedades do chamado "socialismo real" jamais viveram rea men e
"sob a bandeira do marxismo" - salvo um período inicial e muito e emero
em trajetórias específicas, que os situavam de suas distintas histórias nacionais, logo convertido em seu opos o ®
de se desenvolver adequados, liberalismo e marxismo tiveram da escassez do desenvolvimento econômico, social, político e c tur
paradoxal iT «'^^«iões sociedades. Tais sociedades experimentaram, sim, a ilusão e um supo
ldo
ectuara^ coexistindo próximos, disputando fSelidades inte- marxismo, que pouco tem a ver com a complexa e elaborada concepção
planeta Ao Inn^T^^H ^ economicos das sociedades e civilizações Marx. Por outro lado, as sociedades abertamente capitalistas viram se
dos tesaiull e O permanente disputa, nenhum tantemente obrigadas a acolher em seu próprio seio elemen os ® ^
de manifestacõet? n fragmentou-se em um espectro tão diverso que, para usar a metáfora de Marx sobre o capital por cons
ver2 críÍ7ZTr um marginal e uma fato distintas negações do capitalismo, ainda que dentro da propna estru
em "ideoloeia nfie' muito difundida, passando por sua conversão capitalista. , 4.- oa
Z \r '"n'" ferrenhamente apenas Porém, a história, como a concebia Hegel, avança pe o nega ij
TconlS a de "i- « liberalismo teve de assumir ciedades chamadas "marxistas", sob o híbrido esquema menciona o, co
mundo
undo, ooliblib
eralris^legaçao, o marxismo.
mo conta entre Em mai
suas criaturas suasgana porcom
recentes conquistar
autores eo guiram realizar uma autêntica proeza histórica, ou seja, a cançaram p rcor
rer em três gerações todo o caminho, grosso modo, que a pei^ena uropa
interpretações cegamente apologéticos, assim como com correntes que, à luz percorreu em três séculos. Encontram-se hoje, então, num um ra q^ue eqüi
vale, guardadas as devidas proporções, ao que a Europa viveu no início do
1 02 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 03
século XX. Já as sociedades não marxistas, por sua vez, ainda continuam
esperando sair do esquema de negação sem superação, própria para esta fase
descendente do período capitalista da pré-história humana, que clama cada
vez tenazmente por se libertar de sua costra capitalista. Nunca estivemos,
o que é tão óbvio quanto importante dizer, mais perto do fim da pré-história
humana do que hoje estamos.

TESE XI. Deixemos que os vivos enterrem em paz os seus mortos. O Atuais encruzilhadas do neozapatismo mexicano.
marxismo, para estar à altm-a das mudanças que hoje vivemos e para poder,
agora sim, comandar o trânsito do capitalismo ao comunismo, deve resgatar Há dez anos do 1° de Janeiro de 1994'
a rica contribydção de Marx, em toda sua riqueza e complexidade. A perspec
tiva global original de Marx apenas começou a ser reconhecida nas últimas
duas ou três décadas, a partir da publicação ou reedição de trabalhos como
os Grundrisse, o Capítulo VI Inédito, os Manuscritos de 1861-1863, a Ideo Há dez anos de sua primeira aparição pública e há vinte anos de
logia alemã, os escritos sobre a comuna rural russa, os Cadernos Etnológi sua existência, os verdadeiros perfis do que é e do que tem representado o
cos, as notas sobre história da tecnologia, os escritos sobre a Irlanda ou a Exército Zapatista de Libertação Nacional acabaram por se defimr de uma
publicação de sua correspondência completa. Todas essas peças, difundidas maneira muito mais clara, não apenas para o conjunto do povo mexicano,
realmente entre os marxistas apenas nas últimas três ou quatro décadas, mas também para toda a comunidade internacional, que segue com atenção
abonam atualmente o desenvolvimento de um marxismo muito mais afinado o decurso deste movimento.' Hoje é claro que o movimento neozapatista é,
com o espirito de Marx, o qual se mostra hoje muito mais capaz de resgatar, em essência, um amplo movimento social antissistêmico e anticapitalista, de
de modo critico e criativo, os diversos aportes desenvolvidos pelas ciências composição social majoritariamente indígena, que luta frontalmente contra
sociais ao longo do século XX - aportes que, como referimos acima, são íhi- os efeitos do neoliberalismo e da assim chamada "globalização , no México
to do propno liberalismo. Assim, nesta virada de milênio, o marxismo está e no mundo todo, ao mesmo tempo em que reivindica a real implementação
destóado a superar definitivamente uma adolescência que, pelas razões já de valores como liberdade, justiça social e democracia, ainda que entendidas
explicadas, prolongou-se para além do ponto inicialmente previsto por Marx. estas últimas não sob a limitada forma tradicional e formal ainda vigentes,
Se conseguir levar a bom termo essa transição, não apenas a Europa, que há mas dentro de um sentido muito mais radical e alternativo. ^
um semlo faltou ao encontro, haverá de pertencer-lhe. Também serão suas a Longe de ser uma "pequena guerrilha", com presença em meros qua ro
nova Europa dos Estados Unidos da América e as grandes potências sovié municípios" do estado de Chiapas e que teria "aproveitado" os recursos a m-
tica e cWsa. Tudo é questão de paciência, inteligência e organização. Uma temet e da comunicação moderna para "sobredimensionar" sua própria orça
vez apoderado o hemisfeno Norte do planeta, possivelmente todo o resto, in- e importância, (versão oficial durante algum tempo sustentada pe o 6°^®^
uindo a Lua, se acrescentará por inércia. Possivelmente. E se não for esse o no mexicano e por alguns de seus "intelectuais" orgâmeos), o movimen o o
caso, o 1 era ismo poderá, finalmente, dormir o sonho dos justos. Confiemos
em que assim seja. Publicado na revista Contrahistorias, México, n. 2, p. 71-80, 2004.
^ Para a maior clareza sobre a natureza do movimento do EZLN contn Aot
da recente celebração destes dez
ções, vídeos, compilações e declarações vindos à luz em tomo ^
e vinte anos, que os Zapatistas chamaram "20 y 10. El fuego y Ia p a ra . ««labra La
conjunto, mencionemos aqui RAMÍREZ, Gloria Munhoz. 20 y 10. El
Jornada-Rebeldia. México, 2003; o número especial da revista Procmo,
México, janeiro de 2004; e os dois CDs igualmente editados pelos n^zapa \s mnvi.
em janeiro de 2004, que reúnem parte da história documental e gr ca es
m e n t o .

Sobre a natureza anticapitalista do movimento


trevistas e os textos de WALLERSTEIN, Immanuel; ECHEVERR^ MONTEl^OR
Carlos; ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. Chiapas en perspectiva histonca. 2. ed. Barcelona; El
Viejo Topo, 2002.

1 04 Carlos Antonio Aguirre Rojas


EZLN está constituído, em sua ampla pirâmide de combatentes, milicianos e vimento, de profundas raízes históricas e com uma indubitável presença não
bases de apoio, por várias dezenas de milhares de pessoas, comunidades in apenas local ou nacional, mas mundial, enfrenta várias encruzilhadas im
teiras que estão presentes, fisicamente, em quase a metade dos territórios do
portantes, derivadas justamente de seu amplo espectro social. Vejamos em
estado mexicano de Chiapas. Sem contar as centenas de milhares e mesmo
maior detalhe tais desafios.
milhões de pessoas que, em graus muito diversos, mas de uma maneira clara
e inequívoca, simpatizam muito abertamente com este movimento social dos
rebeldes indígenas mexicanos pelo mundo afora.''
Distante das falsas promessas de mudança oferecidas pelos governos
O movimento neozapatista, além dos direitos indígenas e da defesa de
de Vicente Fox e Pablo Salazar, que efetivamente nada fizeram nos últimos
sua cultura e autonomia — expressas em seu famoso lema de que não querem três anos para resolver as causas do conflito chiapaneco, o movimento neoza
"nunca mais um México sem Nós", os indígenas -, desde seu surgimento,
vem combatendo por demandas sociais e direitos econômicos fundamentais patista firmou-se claramente, em primeiro lugar e nesse nível local das rea
em prol das classes populares de todo o planeta vitimadas pelos desastrosos lidades do estado de Chiapas, como um ator fundamental para o destino do
efeitos das políticas econômicas neoliberais: direito ao trabalho e ao pleno povo dessa região do México. Se essa relevância local do EZLN é algo óbvio,
talvez seja menos claro o fato de que, com sua recente iniciativa de funda
emprego, defesa da propiedade da terra para quem a trabalha, direito a mo
radia decente, saúde, educação adequadas. ção dos "Caracóis"' e das "Juntas de Bom Governo" que os acompanham, os
Junto a tais demandas de cunho social, o movimento neozapatista tam neozapatistas estão criando, no âmbito de suas realidades mais imediatas,
bém luta por certas demandas sociais e políticas universais, como a imple vários espaços que, pela via do exemplo, conseguem mostrar para a maioria
mentação de uma verdadeira democracia, entendida como prática social, não dos camponeses indígenas chiapanecos não Zapatistas tanto a justiça e legi
apenas política - ou seja, baseada no princípio de "mandar obedecendo", não timidade de sua luta como a verdadeira riqueza e possibilidades futuras da
na lógica da busca do poder por ele mesmo -, assim como pela conquista de proposta social do EZLN.
uma liberdade radical expressa em todos os âmbitos da vida social - o direito Essas células locais ou Caracóis Zapatistas baseiam-se no autogoyemo
à diversidade cultural, a uma completa liberdade de expressão e de direito à realmente democrático das comunidades. Nelas, o foco da atenção dirige-se
informação — e por uma justiça efetiva, livre de quaisquer interesses econô desde uma educação crítica e muito mais avançada de crianças e adultos até
micos e políticos escusos. projetos de inovação tecnológica voltados à produtividade da terra, junto com
Todas essas demandas por direitos sociais, econômicos e políticos, ina serviços de saúde decentes e adequados e uma justiça racional que busca diri
tingíveis em governos neoliberais e capitalistas como os do México, da Amé mir os conflitos por meio do diálogo. Ao criarem tais células de "bom governo
rica Latina e de todo o mundo, convertem o movimento indígena de Chiapas e autogoverno", os neozapatistas apostam em "predicar por meio do exem
num claro movimento antissistêmico e anticapitalista. Há dez anos de sua plo", mostrando aos outros camponeses chiapanecos, ao povo mexicano e às
conversão em um movimento predominantemente civil e pacífico,^ este mo- classes populares de todo o mundo a única via de fato para enfrentar os go
vernos capitalistas e neoliberais, ou seja, a via da coesão e auto-organização
amplitude dessa simpatia, ver, por exemplo, o ensaio de BELLINGHAU- das próprias massas, da construção e salvaguarda de novos espaços próprios
SEN, Hermann. Revuelta zapatista, ocho anos; Ias causas, vigentes. La Jornada, 31 dez. 2001; e autônomos de existência e de expressão dessas mesmas classes populares,
Idem. Actmstas de 130 cmdades dei mundo festejan aniversário 20/10 dei EZLN. La Jornada e de uma lógica na qual, frente ao "desgoverno" e à crise generalizada dos
Ibjan. 2004.
Estados e dos governos de todo tipo e à margem da política e dos políticos
.0 caracterizam, ficou muito evi- tradicionais de direita, centro ou de esquerda, os movimentos sociais de novo
tipo se organizam como forças sociais conscientes e autônomas, capazes de
Marcos chamou de ;;a guerrilha mais pacífica do mundoTaquIi: queTecrsamentrc™ impor na prática e cotidianamente seus interesses fundamentais a essa mes
fuzis na esperança de não ter que utilzá-los nunca mais" Nessl relonver^Trl^Zdfem ma classe política desgastada e em crise.
apenas ag
l uns da
i s, expressa-se e refe
l te-se de modo mutio ca
l ro outro traço essS dest™
movimento: sua enorme flexibilidade e extraordinária " aço ebsenciai aesie
Ho iHoio Ho oo.capacidade para se adaptar as novas cir- Caracoles é o nome dado pelos neozapatistas aos lugares onde trabalham e convivem e onde
agora também recebem as pessoas da sociedade civil que os visitam. N. T.
Idéia que subjaz de maneira muito consciente à criação destes Caracóis, tal como expresso em
mente assuinida, ver o texto de Marcos intitulado Nuestro siguiente programa: iOximoron! (La todos os discursos pronunciados pelos comandantes indígenas no momento de sua criaçao.
derecha intelectual y el fascismo liberal). EZLN - Documentos y comunicados. México: Era, Sobre este ponto, ver o folheto Autonomia Rebelde. La fiesta de los caracoles. San Cristóbal de
V. 4, p. 427-444, 2003.
Las Casas: Ediciones Pirata, ago. 2003.

1 06 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 07
É muito provável que hoje, no início do ano de 2004, o melhor lugar em Isso se fez duplamente evidente tanto na função impulsionadora e radi
Chiapas p£a*a se viver e trabalhar sejam precisamente estes "Caracóis" Za calmente revigorante do EZLN em relação ao movimento indígena nacional
patistas, onde não apenas se vive uma verdadeira democracia, uma enorme como nas reiteradas mobilizações sociais massivas dos liltimos dez anos, nas
liberdade e justiça, mas também onde se respiram os ares da iniciativa e da quais milhões de pessoas se organizaram para deter a guerra genocida do
criatividade populares, suportados pelo orgulho e pela dignidade de uma ati governo mexicano, para viabilizar as consultas do EZLN à sociedade civil,
tude profundamente rebelde e radicalmente autônoma. para receber aos Zapatistas na Cidade do México e em todo o país ou para
promover a apoteótica Marcha da Cor da Terra, em 2001.®
Porém, como é bem sabido, os novos Caracóis Zapatistas se inserem na
realidade local de um Estado que durante séculos se caracterizou não apenas Convertendo-se, assim, numa espécie de "polo de concentração" das
simpatias de amplos setores que, no México, resistem ao neoliberalismo e ao
pela existência de um forte racismo, mas pela persistência de divisões e fric capitalismo salvagem, ao mesmo tempo em que referência no debate sobre os
ções importantes de caráter religioso.® A isso se agregam, nos últimos anos, possíveis destinos nacionais, os neozapatistas se colocam, desejem ou não, na
os embates políticos artificialmente promovidos, a existência de grupos para- vanguarda dos movimentos sociais de resistência popular mexicana da últi
militares e os terríveis estragos de uma guerra de baixa intensidade, fatores ma década. Isso atribui sentido à afirmação de que "todo México é Chiapas",
todos tolerados e até promovidos pelos poderes federais e estatais durante a ou seja, independentemente da solução que venha a ter esse conflito chia-
última década. paneco a curto ou médio prazo, nele se joga também, e em grande medida, o
Podemos perguntar, então, se num cenário tão complexo como aque destino do próprio México.
le essa espécie de "pedagogia" neozapatista, posta em prática pela via do A recente imposição da "solução militar" em Chiapas, reivindicada por
setores muito conservadores da direita e do establishment mexicanos, leva
exemplo nos Caracóis, poderá se propagar e se difundir por todo espaço local
ao risco de que se percam num único golpe todas as conquistas políticas e
e regional do estado de Chiapas? Será capaz, por esta via, de, pelo menos,
sociais alcançadas pelos mexicanos nos últimos trinta e cinco anos posterio
atacar adequadeimente os problemas seculares do racismo e das divergências res ao grande movimento estudantil-popular de 1968. Porém, se esse con
religiosas, junto aos problemas conjunturais da política e da militarização flito for resolvido racionalmente, de maneira pacífica e dialogada, o México
local? Essa talvez seja a primeira encruzilhada essencial do movimento indí poderá avançar consideravelmente na mesma rota, ainda muito incipiente,
gena neozapatista. da prática desses direitos e liberdades democráticos mais elementares. Para
Uma segunda encruzilhada importante é a que se joga no âmbito nacio isso, o primeiro passo deve ser o respeito constitucional aos "Acuerdos de San
nal da complexa realidade mexicana. Apesar de suas reiteradas declarações Andrés" por parte do governo e a retomada do diálogo com os neozapatistas,
de que eles não são nem pretendem ser a vanguarda de nenhum grupo, classe suspenso após o "golpe de Estado parlamentar", que impôs a ridícula e limi
ou força social, no México e no mundo, é claro que, de fato, este movimento tada contrarreforma indígena hoje ainda vigente.®
dos rebeldes cbiapanecos é boje o movimento social mais avançado do Mé Mais uma vez, esse papel de vanguarda dentro dos movimentos popu
xico. Isso não apenas pela repercussão mundial que alcançou ao longo da lares do México desempenhado pelo movimento neozapatista não acontece
última década, nem pela enorme simpatia que angariou em todos os rincões
do México, mas porque há dez anos os indígenas das montanhas do sudeste ® Sobre o respaldo mencionado do Congresso Nacional Indígena durante a "Marcha da
mexicano estão lutando pelas demandas sociais mais universais e mais ur Terra" e também sobre a enorme mobilização nacional que a mesma suscitou, veja-se o
gentes do país.'' Una mirada a Ia marcha de Ia dignidad indígena, Cuemavaca: Sur, 2001.
® O fato de esta "Contrarreforma" indígena, que anulou todas as esperanças que a
® Sobre a complexa história de Chiapas citemos somente, a título de exemplo, RUZ, Mario Hum Color de Ia Tierra havia despertado, ter sido apoiada pelos três partidos poh cos pri
berto. Savia índia, floración ladina. México: Conaculta, 1992; BENJAMÍN, Thomas Luis. El México, incluído o suposto partido de "esquerda", demonstrou a profunda cnse ^r
camino al Leviatán. México: Conaculta, 1990; e o livro coletivo Chiapas. Los rumbos de otra chafurda toda a classe política mexicana, sem exceção. Uma crise que, ^outra
do México nem sequer da América Latina, mas atinge a todas sociedades o p •
' Éhistoria.
por isso México: Unam - Ciesas, 2002.
que os Zapati
stas cbiapanecos se pronunciaram, ao longo dos últimos dez anos, sobre parte, isso realça o valor universal da proposta neozapatista, que, com . mdirnJ.
os principais temas do debate nacional, c£u"acterizando em seus comunicados as mudanças da obedecendo", propõe uma forma de conceber e praticar a política e do propno p
situação política nacional. A última expressão desta postura é a radiografia crítica da situação mente nova e distinta^ tema que lamentavelmente não podemos desenvo ver aqm.
dos principais estados do México, contida nos textos de Marcos compilados no livro México crise estrutural do nível da política e do político em todo o mundo, ®
2003. Otro calendário, el de Ia resistência. México: Ediciones dei Frente Zapatista de Libera- zatória terminal do próprio sistema histórico capitalista, ver nosso livro, Carlos ^to-
ción Nacional, 2003. nio Aguirre. Immanuel Wallerstein. Critica dei sistema-mundo capitahsta. México: Era, 2003.
1 08 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 109
no vazio, mas no seio da complexa realidade social mexicana atual. Tal rea mexicano, radicado principalmente em Chiapas, é parte de uma família mais
lidade se caracteriza, por exemplo, por uma crise profunda da classe política ampla de avançados movimentos sociais que hoje se alastram com uma força
mexicana, deslegitimada a ponto de já não representar mais ninguém senão excepcional por todo o continente. Não será impróprio afirmar que hoje a
a si mesma ao ter perdido toda conexão possível com os movimentos sociais e vanguarda dos movimentos anticapitalistas do planeta se encontra dentro do
com as forças, grupos e classes sociais fundamentais da sociedade mexicana semicontinente latino-americano.
- tal como se fez evidente nas eleições de julho de 2003.
Assim como a União Soviética ocupava esse papel de vanguarda nos
Assim, mergulhada num processo em que os princípios políticos se su anos vinte e a China o ocupou até os anos sessenta do século passado, agora
bordinam às conveniências imediatas e imersa num processo irrefreável de
essa posição cabe à América Latina. O Movimento dos Sem Terra no Brasil,
homogeneização de práticas e discursos ~ no qual políticos de direita, de cen dos Piqueteros na Argentina, os movimentos indígenas do Equador, Bolívia e
tro e da suposta esquerda cada vez mais falam a mesma língua a classe po
lítica mexicana, e todos os partidos que a compõem, funciona hoje mais como Peru, os movimentos sociais de resistência popular no Chile, Colômbia e Ni
um obstáculo do que como ferramenta para a solução dos temas centrais da carágua, entre tanto outros, são manifestações que confirmam, nos últimos
agenda do país. 15 ou 20 anos, esse papel de destaque junto aos movimentos sociais em todo
Diante de tal crise estrutural da classe política, a "sociedade civif me o mundo.
xicana acaba não se organizando plenamente no cenário nacional de uma A eles se alinha o movimento neozapatista mexicano, o qual, em razão do
maneira mais permanente, contundente, sistemática e consciente. Então, papel histórico singular ocupado pelo México e pela cultura mexicana dentro
manifestando-se apenas de modo intermitente e cíclico, quando certas ca da América Latina durante décadas, como também do caráter mais universal
tástrofes como as da guerra, das privatizações ou subordinação aos Estados de suas demandas e da profunda legitimidade moral de suas principais rei
Unidos, ou dos massacres como os de Águas Blancas e Acteal parecem levar
o povo mexicano demasiado próximo ao precipício, a sociedade civil do México vindicações, tornou-se uma referência ineludível no conjunto das lutas contra
o neoliberalismo e o capitalismo levadas a cabo na América Latina.
parece que ainda não ousou assumir o papel histórico que agora lhe cabe, de
ser o úmco ator realmente capaz de construir uma saída viável para os gran Porém, se o neozapatismo mexicano já se converteu nesse ponto de re
es pro lemas econômicos, sociais, políticos e culturais que assolam a nação ferência a lutas populares latino-americanas — e mesmo mimdiais —, tal fato,
mexicana. estranhamente, não chegou a provocar o estabelecimento de um diálogo e
Será capaz, então, o movimento neozapatista de capitanear o movimen- de um intercâmbio mais regular entre todos esses movimentos de resistên
to C^ponês naco
i na,l que pouco a pouco se reorganzia em todo o país? Poderá cia anticapitalista latino-americanos. Diálogo que parece obrigatório, por
tam ém, por essa via e por outras, tecer uma rede de ação e de coordenação exemplo, entre os neozapatistas e os outros movimentos indígenas críticos e
outros movimentos sociais de resistência em atuação populares que ocorrem simultaneamente no Equador, Bolívia e Peru. O mes
no exico, dentre os quais podem ser lembrados o movimento operário in- mo é válido em relação ao Movimento dos Sem Terra, irmanado com o EZLN
em torno da luta pela terra, ou o movimento dos Piqueteros argentinos, que
«pf r" urbano-populares,
Jil Barzon" os radical,
e o movimento camponês movimentos
entre tantosestudantis, o
outros? Será ele lutam também, como os neozapatistas, por trabalho e moradia digna para os
capaz, a partir dessas alianças, de impulsionar igualmente essa oscilante grupos populares socialmente majoritários.
socie a e civil mexicana, para que assuma seu papel na construção do futuro Tal como nos dois níveis anteriores, este desafio que hoje enfrenta o
o povo do México? Aqui surgem as pontas de uma segunda encruzilhada EZLN do México se enquadra numa América Latina ameaçada por uma crise
importante para os neozapatistas chiapanecos. econômica, social, política e cultural de grandes dimensões. Uma América
Um terceiro nível dos desafios que o EZLN enfrenta alude a sua in Latina que parece se debater entre uma nova direita belicosa e sem escrúpu-
serção no âmbito particular da América Latina, pois este movimento social
Pensamos que a maneira particular em que se afirma o papel de frente de vangu^da dos mo
'» O que seria possível se assumirmos uma lógica na qual, longe de se conceber a "sociedade civil" vimentos antissistêmicos e anticapitalistas hoje desempenhado pela América Latina se liga ao
próprio caráter da América Latina como a civilização mais jovem do planeta. Sobre este ponto,
em oposição à "sociedade política", atentemos às suas relações. Sobre este ponto ver o ensaio ver nosso ensaio: América Latina hoy: una visión desde Ia larga duración. Theomai, n. 6, 2002.
de ECHEVERRÍA, Bolívar. Lo político y Ia política. Chiapas, n. 3, México, 1996. Disponível em: http://www.unq.edu.ar/revista-theomai

110 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 111
los, que conseguiu chegar ao poder com Carlos Menem na Argentina, Vicente Esse objetivo tem, naturalmente, conseqüências imediatas e também de
Fox no México, Sánchez de Losada na Bolívia e Álvaro Uribe na Colômbia, valor universal com relação à estratégia geral desses novos movimentos an
e uma estranha e oscüante "esquerda", que, quando chega ao poder, assu tissistêmicos, como, por exemplo, com relação a suas formas de organização,
táticas e métodos de luta, estratégias de vinculação com as sociedades civis
me uma postura mais neoliberal do que a dos próprios neoliberais, como é o
respectivas e, até, com os modos de seu discurso, de sua prática cotidiana e
caso de várias medidas tomadas por Lula no Brasil.'^ Se esses movimentos
de sua visão de mundo geral.
populares latino-americanos sào hoje fortes o suficiente para defenestrar um Se o objetivo não é meramente o de conquistar o poder político estatal,
presidente entreguista como o boliviano Sánchez de Losada ou para obri mas ajudar a criar um mundo novo, a atividade central desses movimentos
gar um conservador como Néstor Kirchner a tomar certas medidas sociais e
econômicas mais à esquerda, não são ainda suficientemente poderosos para anticapitalistas em todo o planeta deixa de ser a de criar partidos políticos,
conduzir a América Latina à via de uma transformação radical rumo à cons participar de eleições e mobilizar periodicamente suas "bases de apoio" para
tentar ganhar eleições; ao contrário, sua atividade principal deve consistir
trução de uma sociedade mais livre, justa, igualitária e democrática, capaz em organizar movimentos sociais fortes e coerentes, que sejam conscientes de
de prover de terra, trabalho, teto, educação e saúde adequadas a maioria de
suas próprias demandas e que trabalhem permanentemente para defender
seus habitantes.
seus interesses e reivindicações. Numa palavra, sua meta deve ser a promo
Assim, a terceira grande encruzilhada dos neozapatistas indígenas
mexicanos é o questionamento de sua capacidade de estabelecer, no futuro ção de uma auto-organização permanente das massas, que, recusando toda
imediato, esse intercâmbio e o diálogo regular com os demais movimentos delegação passiva de funções em favor dos "políticos", devolva às massas so-
lidamente organizadas seu lugar central.'®
populares latino-americanos.
Por último, uma quarta encruzilhada do neozapatismo é a que se apre Tudo isso requer uma nova e inédita forma da política, que se organize
senta no nível internacional, onde o movimento de Chiapas despertou, desde em tomo do oximoro do "mandar obedecendo". O personagem priracipaZ, ativo
sua aparição em 1994, um eco impressionante, angariando uma rede vastís e fundamental, dos novos movimentos são as massas e as classes populares,
sima de apoios e simpatias. Tal se deve a que, em razão de sua raiz popular e não seus "líderes" ou "políticos profissionais", nem seus "intelectuais". Desse
ambém do choque singular que se produziu no encontro dos saberes ociden modo, o papel destes últimos não deve ser senão o de "porta-vozes" ou repre
tais expressos em sua vertente crítica com os saberes populares indígenas, sentantes", sempre revogáveis, substituíveis, que não buscam esses postos
o movimento neozapatista pode se erguer como um tipo de "modelo" para os como posições de poder pessoal ou como instrumentos de autopromoção indi
emais movimentos antissistêmicos e anticapitalistas mundiais. vidual, mas que devem ser capazes de "mandar" apenas na medida em que
Assim, a crescente e constante atenção captada pelo neozapatismo em "obedecem" aos interesses e às demandas específicas dos setores sociais a que
0 0 0 mundo não se deve a sua suposta "inteligência" excepcional no uso dos representam.
recursos mediáticos mais modernos - versão, mais uma vez, banal e ridícula O princípio político de "mandar obedecendo" será totalmente incom-
prensível para os políticos tradicionais, de direita, centro ou esquerda, que so
^senti
o governo
mento de mexicano e dos
culpa" que "intelectuais"
as condi ções deque
vidalhe
dosfazem eco mexi
indígenas -, tampouco ao
canos des conseguem conceber o poder como instrumento do mando vertical e auton
pertaria nas sociedades mais ricas - como postulam algumas vozes da própria Não se deve interpretar isso como se, por princípio, os neozapatistas "se recusem a omar
esquerda -, mas, antes, ao caráter universal e exemplar das posturas, do dis poder". Entre centrar toda a estratégia da atividade cotidiana e os objetivos g o ms °
curso e da prática neozapatista, como, por exemplo, a de lembrar a todos esses vimento em torno do social, não do político, e, de outra parte, erigir em principio ngi o e
movimentos anticapitalistas do mundo que o objetivo final não é o de "tomar o inalterável a "impossibilidade" absoluta de tomar o poder ou de utilizá-lo caso es e po er
poder político para gostar dele e acabar sucumbindo à sua lógica corruptora, lhe caia nas mãos no meio da luta, entre uma coisa e outra existe um enorme a ismo. es
se modo, ao invés de se caracterizar erroneamente o projeto neozapatista como um proje o
mas simplesmente (!) trocar radicalmente este mundo injusto, explorador e que pretende "mudar o mundo sem tomar o poder", é mais correto c^actenz - o como um
repressivo, por um novo mundo, livre, igualitário, democrático e tolerante, ou projeto que se propõe "essencialmente em mudar o mundo, muito mais do que em om^ o
ssjs, por um mundo no qual caibam todos os mundos possíveis". poder". Porque, finalmente, não é possível "mudar o mundo" de maneira integral^ sem des
truir radicalmente o poder capitalista hoje vigente. De fato, uma clara demonstração sso ja
foi dada quando observamos que os Zapatistas já "tomaram o poder" em nível íoca/, uma vez
Para uma caracterização mais ampla da situação recente da América Latina ver nosso ensaio, que desde há muitos anos constituíram os municípios autônomos Zapatistas e o referendam
ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. América Latina después dei 11 de septiembre de 2001. El agora numa escala ainda maior ao constituir as "Juntas de Bom Governo , que são verdadei
macartismo planetário. La Jornada, n. 237, 7 jul. 2002. ros embriões de um real contrapoder prático e alternativo ao poder capitalista ainda vigente.

112 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 113
rio, conquista de uma posição que serve para autopromoção e autoproteção Puebla-Panamá? Poderão os indígenas rebeldes continuar alimentando, com
pessoais, e que não entendem por que haveriam de "obedecer" às bases so suas iniciativas, seu exemplo e seus projetos alternativos, o desejo mundial
ciais que, com seus votos ou com seu apoio, os levaram aos postos de mando, dos oprimidos de construir "outro mundo possível" e muito distinto do mundo
ao poder político tradicional. Esse princípio político neozapatista se conecta capitalista atual? Confiamos que sim.
de maneira direta e natural com toda uma longa tradição dos movimentos Essas são algumas encruzilhadas que hoje enfrentam os indígenas ne-
sociais e populares anticapitalistas anteriores, como o da Comuna de Paris, ozapatistas de Chiapas. O objetivo de todos nós, cidadãos comuns do mundo,
dos Soviets russos, dos Conselhos Operários Italianos ou da Revolução Cul deve ser justamente o de dar suporte ao movimento mexicano neozapatista e
tural China, os quais, em seu momento, também reivindicaram, de diversas a todos os demais movimentos de resistência popular em atuação na América
maneiras, esse papel central e ativo das massas, necessariamente derivado e Latina e pelo mundo afora, pois, se um "outro mundo é ainda possível , deve
apenas subordinado de seus representantes e líderes. rá ser gestado e construído sobre o atual, a partir de nossas ações, de nossa
Porém, se o neozapatismo mexicano boje suscita essa enorme atenção reflexão e de nossa resposta a essas complicadas situações que conspiram
mundial, derivada das lições universalmente válidas para todos os movimen ainda contra o outro mundo novo que desejamos, diferente e superior ao que
tos anticapitalistas do globo — lições que têm implicações organizativas, dis agora vivemos.
cursivas, táticas, estratégicas, práticas e epistemológicas que não é possível
desenvolver neste breve ensaio -, tal ocorre dentro de um cenário mundial
que, depois do 11 do Setembro de 2001, catalisou significativamente a po
lítica agressiva e belicosa da potência norte-americana, a qual acabou por
instaurar um verdadeiro maccartismo em escala planetária."
Assim, ao criar o inimigo espectral, indefinido e amorfo, do "terrorismo
intemacional , os Estados Unidos começaram a pôr em prática uma clara
ofensiva mundial, que, entre outras coisas, busca incriminar a dissidência e
protesto social, tanto nos Estados Unidos como na América Latina e no resto
do planeta. Fazem-no por meio da aplicação de uma estratégia de renovada
pressão especial sobre toda América Latina, mais uma vez concebida como
quintal do declinante poder econômico e geopolítico norte-americano. Isso
se expressa não apenas nas reiteradas tentativas de imposição da Alca às
nações da América Latina, mas também nas abertas ameaças contra Cuba
e Venezuela, no infame alinhamento do governo mexicano ou nas evidentes
pressões contra Brasil, Argentina, Bolívia e Chile.
Dentro desse complexo cenário mundial, conseguirá o neozapatismo se
integrar de maneira orgânica nessa rede mundial de movimentos antineo-
liberais e anticapitalistas para contribuir para a construção de um mundo
novo e de uma nova ordem social plural no planeta? Poderá o neozapatismo,
encrustrado nas montanhas do sudeste mexicano, deter em alguma medida
o novo desenho geopolítico maccartista, que se operacionaliza na América
Latina, entre tantas formas, pelos projetos de imposição da Alca e do Plano

Sobre a complexa situação mundial criada depois do 11 de Setembro de 2001, ver ROJAS,
Carlos Antonio Aguirre. El 11 de septiembre de 2001: una puesta en perspectiva histórica. La
Insignia, 20/11/2001. Disponível em: http://www.lainsignia.org, na seção "Diálogos"; o ensaio
Un balance provisional. Otra mirada sobre el 11 de septiembre. Le Monde Diplomatique (edi
ção Colombia), n. 5, Bogotá, set. 2002; ainda, o livro antes citado Immanuel Wallerstein. Crítica
dei sistema-mundo capitalista.

114 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 11 5
Parece claro que parte desse impacto profundo consistiu na acentuação ofensiva maccartista planetária, destinada a reconstruir o equilíbrio de forças
da alternativa militarista e maccartista norte-americana que já há vários da geopolítica mundial em benefício desse complexo industrial militar norte-
lustros vinha sendo alavancada, com êxito oscilante, por poderosos grupos americano que hoje tem domínio sobre o atual governo dos Estados Unidos.
econômicos norte-americanos, ligados, obviamente, aos interesses de seu pró Esse projeto maccartista global nos permite entender tanto o injusto
prio complexo industrial-militar. massacre das populações afegãs como a intensificação do conflito árabe-isra-
Já há três décadas os Estados Unidos entraram na fase de decadência de elense, a intervenção militar no Iraque e a pressão, por ora apenas verbal,
seu papel como potência hegemônica capitalista mundial, progressivamente contra quatro países denominados por esta retórica maccartista como perten
superada na guerra tecnológica, produtiva, comercial, financeira e econômica centes ao "eixo do mal". Mas esse mesmo reordenamento geopolítico mundial
em geral tanto por Japão como pela Europa Ocidental, num processo claro também se encontra na base dos recentes fenômenos ocorridos na América
que, como o tem explicado bem Immanuel Wallerstein, simplesmente repete Latina, que incluem tanto a terrível quebra da economia argentina ou as
para o caso norte-americano, tanto no padrão de decadência hegemônica que agressões injustas dos Estados Unidos e do México contra Cuba, quanto a
viveu já primeiro Holanda, nos finais do século XVII, como a Inglaterra, nos tentativa fracassada de golpe de estado na Venezuela, a ruptura dos pactos
últimos anos do século XIX.® de paz na Colômbia ou, ainda, a paralisia consciente do governo mexicano
Nessas circunstâncias de progressivo encolhimento econômico perante diante do latente problema de Chiapas.
a Europa e o Japão, a única supremacia ainda incontestada que resta aos Quando pensamos no modo pelo qual essa contraofensiva niaccartis a
Estados Unidos é sua liderança como primeira potência militar do planeta. planetária se concretizou nos últimos dois anos, nos damos conta de que sua
or ISSO, é lógico que alguns setores importantes de suas classes dominan deflagração não foi homogênea nem contínua, afirmando-se, ao contrario, e
tes, os mais retró^ados e conservadores, vêm tentando deter o irrefreável um modo claramente desigual e intermitente. Assim, ao resgatarmos o mo o
processo de decadência hegemônica, econômica, política e social, pela via das de implementação desta contraofensiva maccartista em todo o mun o, e aci
m ervenções militares em todo o mundo, da fabricação de inúmeras guerras observar que ela escolheu duas claras formas de intervenção ativa e ime la a
e da ostentação dessa liderança militar por todo o planeta. dentro do conjunto das zonas do planeta, que, na situação atua , sao apenas
. Porém, dado que esse complexo industrial militar norte-americano não é, p o s s i b i l i d a d e s f u t u r a s d e i n t e r v e n ç ã o . r, . j r i n í r l n Q
leiizmente, toda a economia dos Estados Unidos, seu diverso êxito foi muito osci- Assim, é claro, por exemplo, que no Extremo Oriente os Es a os
mnte, consepúndo se impor claramente durante os governos de Ronald Regan e não podem intervir muito por enquanto, apesar do crescente temor que
eorge us -pai e, agora, o de George W. Bush, para se retrair, ao contrário, inspira o rápido crescimento da economia chinesa e o papel ca^ vez mai
nos governos de James Carter e William Clinton. da China dentro da geopolítica mundial. Não pode fazê-lo em yi u e
Então, num cenário contraditório no qual os "falcões" da direita belicosa esta zona é controlada pelo Japão, um de seus rivais econômicos em
norte-americana promovern a perigosa estratégia militarista como alternati crescimento e, ao mesmo tempo, seu sócio geopolítico principal dentr
va ao processo de decadência hegemônica — estratégia viável apenas no curto mesma zona. Por isso, os Estados Unidos se limitam aqui a ameaçar p
prazo -, o 11 de Setembro veio oferecer à facção militarista do governo ameri futuro, hostilizando a Coréia do Norte e ameaçando apenas ve a
cano um contexto momentâneo particularmente propício para sua afirmação China, mantendo seu apoio incondicional a Taiwan e impedin o su
e para seu atual arranque, neste momento aparentemente incontestado e em cação com a China Popular. _ .
grande escala. No momento, também não parece factível uma intervenção ativa
Com isso, é claro que os acontecimentos vividos nos últimos meses após o Europa ou na Rússia após a brutal intervenção em Kosovo, em^ u
11 de Setembro de 2001 constituem, na verdade, a montagem de uma contra- a Europa é o segundo grande rival econômico dos Estados ni os e
' Sobre esse padrão cíclico da dera^^ hegemônica das potências que se sucederam na história ainda possui o segundo maior arsenal nuclear do planeta. Aqui, par
capitalista ver WALLERSTEIN Immanuel. The three instances of hegemony in the histoiy pressões constantes para revitalizar a Otan - ou seja, para man er o
of the capitdist world-economy In: The politics of the world-economy. Cambridge: Cambridge norte-americano sobre os exércitos da Europa Ocidental - e o apoio in
University Press-Editions da Maison des Sciences de I'Homme, 1984. Sobre o caso específico clonal que já possui por parte da Inglaterra, não parece tampouco p ausiw
da decadência dos Estados Unidos como potência hegemônica, que Immanuel Wallerstein vem
postulando desde princípios dos anos oitenta, ver o livro Después dei liberalismo. México: Siglo uma maior intervenção norte-americana, mas, antes, uma a i u e resigna a
XXI, 1996; Idem. Geopolitics andgeoculture. Cambridge: Cambridge University Press-Editions diante do inevitável processo por meio do qual a Europa oci en a con inuara
de la Maison des Sciences de I'Homme, 1991; La imagen global y las posibilidades alternativas expandindo sua presença econômica e seu limitado domínio geopolítico, tanto
de la evolución del sistema-mundo, 1945-2025. Revista Mexicana de Sociologia, México, n. 2
1999. Ver, ainda, HOPKINS, Terence K.; WALLERSTEIN, Immanuel. The age of transition. em direção à Europa Oriental como para a própria Rússia.
Trajectory of the world-system 1945-2025. Nova York: Zed Books, 1996.

118 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 119
Do mesmo modo, a África não parece interessar muito a esse complexo completamente a subordinação de toda América Latina ao novo desenho da
industrieil militar norte-americano hoje dominante, em virtude de sua terrí geopolítica mundial em construção.
vel pobreza e do fato de que, depois de décadas de guerras internas e entre Definindo a América Latina como sua segunda zona de intervenção ati
seus distintos países, parece ainda mais exausta. va, os Estados Unidos começaram a impulsionar energicamente a Área de
Diante dessas vastas zonas onde pratica uma intervenção apenas li Livre Comércio das Américas (Alca), cuja essência fundamental é estabelecer
mitada, pontual ou eventual, os Estados Unidos decidiram concentrar seus o novo mecanismo econômico para a regulação e controle por parte dos Esta
esforços de uma intervenção ativa e persistente maccartista em duas zo dos Unidos das novas formas de articulação da velha e crônica dependência
nas: no Oriente Próximo e Médio e na própria América Latina. A primei
ra zona, ocupada pelas grandes civilizações do Islã e pela índia, é uma econômica da América Latina aos centros hegemônicos do sistema capitalista
mundial.®
zona que, como muitos analistas já assinalaram, constitui um espaço vital
Essa simples redefinição das condições de dependência econômica da
para a declinante economia norte-americana em razão de sua enorme ri
queza petrolífera," o que explica o fato de os Estados Unidos terem apor América Latina constitui o aspecto econômico subterrâneo que subjaz à crise
tado tão brutalmente nesta região nos últimos meses, massacrando o Afe e à quebra da economia argentina, às agressões mexicanas e norte-ameri
ganistão, apoiando Israel contra a Palestina,® atiçando o conflito entre canas contra Cuba, assim como à intensificação do conflito colombiano, às
Paquistão e índia e ameaçando e depois efetivamente invadindo o Iraque. pressões contra o Brasil, ao fracassado golpe de estado na Venezuela, ao fim
Assim, rompendo totalmente os frágeis equilíbrios que existiam aqui proposital do diálogo com os rebeldes neozapatistas de Chiapas, à absmda
antes de setembro passado, os Estados Unidos configuraram no Oriente Mé- qualificação das Fare colombianas, do Sendero Luminoso do Peru, da tríplice
o e Próximo uma primeira zona de intervenção ativa. Embora tenham con fronteira ou das regiões do norte do Chile como pontos de apoio ou nichos
seguido no curto prazo se impor pela força, essa intervenção, esse desejo de de financiamento do espectral "terrorismo" supostamente combatido pelos
reorden^ento da ao
no me lo prazo, geopolítica mundial
contrário, por partebomba-relógio
uma autêntica dos americanos
deestá criando
proporções Estados Unidos.
O projeto da Alca foi concebido e implementado, como bem se sabe, para
ainda mcalculáveis, cuja magnitude só é possível imaginar a partir de seus domesticar o cenário econômico que referimos acima, no qual os Estados Uni
pnmeiros sintomas, que já começaram a se manifestar de maneira trágica dos já vêm há um quarto de século nvun claro processo de retração e de lenta,
nos recentes acontecimentos do conflito árabe-israelense.
mas irrefreável, decadência econômica, vendo diminuir seu poder de competi
~ ° mesmo tempo, jimto com essa primeira zona de intervenção ativa, o ção com o Japão e a Europa Ocidental na feroz concorrência tecnológica, pro
wT ?^accarti
tervenção staata,
imedi parece
que éterpreci
umsamente
segundo flanco, uma
o espaço segunda
de nossa Amériárea de
na.in
ca Lati dutiva, comercial e financeira atualmente em curso. Então, uma vez que os
Estados Unidos estão perdendo essa guerra econômica contra seus principais
adversários, resolveram garantir sua presença e controle econômico sobre a
AAmérciaLan
tianageopocítilamunda
ilcontemporânea América Latina, concebida a partir de agora como uma "zona de refugio e
espaço de dominação inconteste para a expansão de seus mercados, inversão
A revolução cubana continua sendo a fogueira acesa de capitais e como fonte segura de abastecimento de matérias-primas.
e a linha divisória dos destinos da América Latina.
Isso é a Área de Livre Comércio para todas as Américas, ou seja, a conso
Femand Braudel
{As civilizações atuais, 1966)
lidação de um espaço para o escoamento da enorme quantidade de memado-
rias que já não encontram saída no próprio mercado interno norte-americano,
Reatualizando mais uma vez a essência expressa pela primeira vez com nem nos antigos mercados europeus e asiáticos, cada vez mais dominados por
a Doutrina Monroe , depois do 11 de Setembro de 2001 os Estados Unidos seus rivais econômicos agora em ascensão. Assim, concebendo os mercados
decidiram pôr em prática uma nova ofensiva global no sentido de rearticular da América Latina como espaço seguro para venda das mercadorias produ
zidas nos Estados Unidos, o projeto da Alca ignora que as possibilidades de
A título de exemplo ver KLARE, Mchael T. La geopolítica de Ia Guerra. La Jornada, 6 nov.
2001; também a nota Intereses tíbios y mtrigas de E.U. en Ia Guerra dei Golfo se repken en
Afgamstan. La Jornada, 18 n o v. 2001. ^ Sobre a dependência secular da América Latina, ver ROJ.^, Carlos Antonio Aguirre. América
Sobre este apoio perm^ente dos Este^ P^ra além de qualquer retórica hi- Latina hoy: una visión desde Ia larga duración. In: América Latina. Historia y presente. Mo-
pocnta, ver o artigo de HARTUNG, William; BERRIGAM, Frida. Cómo armó E U a Israel La relia: Universidad Michoacana, 2002. (Versão brasileira: América Latina. História e presente.
Jornada, 22 maio 2002. Trad, de Jurandir Malerba. Campinas: Papirus, 2003).

120 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 121
absorção de mercadorias por parte destes mercados latino-americanos estão legumes, metais, madeiras, etc., como temos feito nos últimos quinhentos
determinadas pela pobreza e pela polarização crescente de nossas próprias anos aos sucessivos centros hegemônicos do capitalismo mundial.
economias e, por fim, pela fragilidade permanente de nossos próprios merca Por último, este projeto da Área de Livre Comércio das Américas visa
dos internos.^ também regular os fluxos cada vez maiores de força de trabalho latino-ame
O mesmo sucede com o fluxo de capital excedente norte-americano, que, ricana que migra para os Estados Unidos, ou seja, trata-se de impor quan
ao ser deslocado de seus antigos destinos na Ásia pelo capital japonês e de tidades, tempos, condições e modalidades a esse fluxo migratório crescente
seus possíveis destinos na Rússia e na própria Europa pelo capital europeu, e espontâneo, adequando-o às necessidades da agricultura e do assimétrico
começa então a se dirigir novamente rumo à América Latina, onde exige con mercado de trabalho norte-americanos. Dada a crescente polarização social e
dições de segurança, rentabilidade e ausência de conflito social, que lhe ga a pobreza presente na América Latina, essa pretensa regulação dificilmente
rantam a direção dessa mesma Alca. Isso significa que toda a recente política poderá ter êxito, vis-à-vis a forte tendência de alcance mundial de crescente
agressiva e intervencionista dos Estados Unidos na Venezuela, Colômbia, fluxo migratório dos países pobres do "Sul" para as regiões ricas e desenvol
Brasil, Argentina, Peru ou México tem, entre outros, o objetivo de criar as vidas do chamado "Norte".®
"condições ideais" para um imenso fluxo de capitais norte-americanos em Sobre esse pano de fundo fundamental do interesse econômico dos Esta
direção às diversas economias latino-americanas. dos Unidos pela América Latina, concebida neste esquema da Alca como área
Em terceiro lugar, a Alca pretende redefinir os novos termos do que de refúgio segura para a retomada econômica da potência norte-americana,
deverão vir a ser, no futuro imediato, as atividades econômicas prioritárias ganham maior sentido os principais acontecimentos recentes da história pos
da América Latina, concebidas claramente em função dos interesses norte- terior ao 11 de Setembro.
americanos. A tendência, muito plausível, de os Estados Unidos virem a
nos invadir com seus capitais para criar imensos corredores de indústrias
maquiladoras* por toda América Latina» e de sua indústria vir a alimentar As novas formas da imposição hegemônica norte-americana na
nossos mercados de bens intermediários e finais em escala massiva conduz,
inevitavelmente, a um cenário de marginalização e retração do parque in América Latina
dustrial da América Latina e, ao mesmo tempo, à priorização estratégica de
sua agroindústria e de seus setores produtores de matérias-primas. Nesse Nessa perspectiva, a recente crise argentina se revela claramente como
o intento norte-americano de sabotar, de maneira radical, as possibilidades
esquema desenhado para a Alca, a função da América Latina será, mais uma
vez, a de continuar produzindo matéria-prima barata para a economia norte- futuras do Mercosul para a América do Sul e, ao mesmo tempo, uma demons
americana, abastecendo-a com petróleo, minerais, carne, café, trigo, água, tração destrutiva do poder e das novas funções intervencionistas que estão
sendo outorgadas a organismos como o FMI e o Banco Mimdial.
' Uma contradição que enfrenta o projeto da Alca: se se quer vender cada vez mais mercadorias Tanto aqueles organismos financeiros como a própria nação americana
norte-amenc^as na America Latina, há que se incentivar a capacidade de compra dos latino- vêm permitindo e até mesmo promovendo a verdadeira falência da econoima
amencanos. Mas as políticas neoliberais que padecemos faz um quarto de século na América da Argentina,^® numa linha que, ao mesmo tempo em que desfere um go pe
Latina e no mundo, e que sao ativamente apoiadas e promovidas pelos próprios Estados Uni duríssimo ao mercado comum da América do Sul - projeto claramente alter-
dos, longe de increment^ esta capacidade de compra das populações de nosso continente, a
vem detenorando inexorável e selvagemente, ao desmantelar a pequena e média indústria, ao nativo ao da Alca -, em certa medida retira à economia argentina o acesso a /
depnimr brutdmente os salarios reais e ao reduzir drasticamente o gasto social. Mas nem os capitais europeus, preparando sua completa submissão às brutais con içoes i
atums economistas, nem os atuais governantes neoliberais latino-americanos, que, como na
cee
l bre fabua
l russa, p^a poder am
il entar o fogo daa
l reria, estão destrun
i do ê Juem
i ando as a que o Fundo Monetário Internacional quer submetê-la. ^
propnas paredes da i^a j madeira na qual todos habitamos; nem uns nem outros parecem O vácuo deixado pela fuga dos capitais espanhóis, canadenses e ance
entender
• Nome essa
dado àsliçao elementar
industri denorte-ameri
^ que os economia política
canos instalaram, inicialmente, na fronteira com o ses da Argentina será ocupado amanhã pelo capital americano via empres i
Mexico e, agora, por todo o pais intensivas no uso da força de trabalho; requerem muito pouco
uso de maquinas e infraestrutura material e muita força de trabalho, explorada de maneira
i n t e n s i v a . N . T. ° Sobre essa tendência planetária de migração massiva e irrefreável do chamado Sul
« É justamente esse o sentido do tão divulgado, mas também tão questionado. Plano Puebla- ao "Norte" rico, ver WALLERSTEIN, Immanuel. El colapso dei liberalismo. In: Despues dei
Panamá, que nao e senão a forma (^erativa de implementação do projeto da Alca, neste caso liberalismo - mencionado acima. , . .. , , - .
para México e para toda a América Central. Ver FAZIO, Carlos. Con el Plan Puebla-Panamá el Sobre a crise eirgentina e seus antecedentes ver ZIBECHI, Raúl. Arg^tma plebeya. La Jor^-
Istmo de Tebuantepec, imán para Ia superexplotación. La Jornada, 29 e 30 jul. 2001; Satélite da, 30 dez. 2001. Suplemento Masiosare. Ver também GILLY, Adolfo. El terminator imperial en
Mayor. La Jornada, 20 maio 2002. Argentina. La Jornada, 25 mar. 2002.

1 22 Carlos Antonio Aguirre Rojas Para compreender o século XXI - uma gramática de longa duração 1 23
mos do FMI, dando curso, nos dois casos, às tendências gerais antes assina e pela rearticulação de um novo projeto, apoiado na reconstrução verdadeira
ladas. Ao mesmo tempo, a situação dramática da economia argentina desde da economia popular? Uma tal saída é possível sem se declarar mais uma
finais de 2001 - como o desemprego crônico, a pobreza galopante, a paralisia radical moratória e sem eliminar o odiado "curralito", voltando a olhar para
a verdadeira riqueza de base e para os reais recursos da economia argentina,
completa do sistema bancário e financeiro, a catastrófica desvalorização da
moeda - está sendo claramente utilizada pelos Estados Unidos como a de sua agricultura, sua gente e suas próprias indústrias, nacionalizando o sis
tema financeiro hoje em ruínas; diversificando os fluxos de capital exterior;
monstração do enorme poder que, no imediato futuro, terá o Fundo Monetá
rio Internacional, que agora se dá o luxo de regatear e jogar com a liberação descentralizando as fontes de dependência estrangeira e aprofundando o in
tercâmbio e o comércio com Brasil e com toda América Latina, no sentido da
dos fundos à Argentina, que deles necessita com tanta urgência.
É interessante lembrar que, enquanto se negam à Argentina os fundos pavimentação de um futuro mercado comum latino-americano construído à
margem dos Estados Unidos?
(cifras em tomo de quinze milhões de dólares) de que necessita, deixando-a Esta intenção, que no caso de Argentina alcança níveis dramáticos, sub-
afundar cada vez mais e submetendo-a a duríssimas condições, para o Mé
jaz às constantes pressões que os Estados Unidos exercem também sobre o
xico, ao contrário, liberaram-se cinqüenta milhões de dólares há uns poucos Brasil, país que mais abertamente se opôs ao projeto da Alca, insistindo na
anos para atenuar uma crise parecida pela qual passava a economia me necessidade de negociar em maior detalhe suas distintas rubricas, regras e
xicana, que poderia ter desembocado num cenário similar ao que assola a implicações. Sendo o Brasil a maior, mais importante e avançada economia
Argentina ainda hoje. da América Latina - até o ponto de nos anos setenta alguns autores falarem
Por que se "salvou" o México, não a Argentina? Porque o México, em de um "subimperialismo brasileiro" sobre as economias da América do Sul
troca daquele volume de capital, penhorou por muitas décadas o seu petró é natural que seja também a mais afetada e devastada por esta impo
leo aos Estados Unidos, coisa que a Argentina não tem condições de fazer. sição unilateral da Alca, pondo em risco seu parque industrial, desmante
Também porque o México tem uma fironteira de 3.000 km com os Estados lando setores econômicos inteiros, alimentando o desemprego e ameaçan o
Unidos, a qual se tomaria inexistente no caso de uma crise mexicana similar acelerar ainda mais a polarização e a desigualdade econômica da econc^a
à atual crise argentina, desencadeando um fluxo migratório de proporções brasileira, que grassam já na América Latina e em outras partes do mun o.
incalculáveis do país para os Estados Unidos. Ainda, porque essa virtual cri Igualmente, essa busca de hegemonia norte-americana no omimo
se mexicana se apresentou antes do 11 de Setembro, portanto antes da de econômico e geopolítico sobre esta segunda zona de intervenção a iva que
flagração do projeto maccartista, belicoso e prepotente que hoje caracteriza é América Latina fez pressionar o governo colombiano para que rompa as
o intervencionismo norte-americano no mimdo. Ainda assim, é importante negociações de paz com a guerrilha, ameaçando-se o país com
insistir em que tal "salvamento" do México não foi mais do que momentâneo, tervenção militar liderada pelos Estados Unidos e com a inclusão as orç
pois, ao contrário da opinião de alguns economistas e politólogos apressados, Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Fare, na lista de supôs os grupos
a possibilidade de uma nova crise mexicana, similar à da Argentina, não é terroristas mundiais. u- » tt tn-
uma hipótese descartável para um futuro próximo, o que levou Immanuel Desse modo, ao injetar recursos no chamado "Plano Colõm la , ^ ®
Wallerstein a falar de uma verdadeira "bomba-relógio mexicana"." dos Unidos pretendem aumentar seu controle sobre o hiperlucra ivo g
FMI e Estados Unidos estão usando a Argentina como exemplo do risco do narcotráfico colombiano, ao mesmo tempo em que reconqmstam a zo
sul de Colômbia, porta privilegiada de entrada ao Amazonas e „ /
que correm os países latino-americanos que não se submetem a suas orienta
ções. Desse modo, a pergunta obrigatória é a seguinte: Existirá uma saída vi
riqueza biológica extraordinária, amplamente cobiçada pelas m "
ável no médio prazo para a Argentina que não passe pela ruptura com o FMI macêuticas norte-americanas. Esse projeto de ascensão tt-Ug \
lômbia deverá se fortalecer com o próximo governo direitista de Aivaro u ,
triunfante na última eleição presidencial colombiana. „„kío.7
" A respeito, é bastante interessante a declaração recente de Cuauhtémoc Cárdenas, registrada
na nota Amenaza crisis como en Argentina: Cárdenas. La Jornada, 8 jun. 2002. Esta mesma
A lógica global de reordenamento geopolítico da Amen^ a
idéia a expressamos em janeiro de 2002, como se pode constatar nas notas México viviría una
também à perpretação do fracassado golpe de estado contra o ugo
situación como Argentina; Investigador. Uno más Uno, 10 Jan. 2002; De continuar Ia actual Venezuela. Esse golpe de estado se explica como resposta ao cons an e a as e
política neoliberal, en 6 anos más viviremos una situación similar a Ia de Argentina: XIS de Ia
UNAM. Excelsior, 10 Jan. 2002; Habrá estallido social si sigue el neoliberalismo. El Dia, 10 Jan. " Sobre a forte oposição brasileira à Alca, a título de mero exemplo, ver SADER, Emir. AALCA
2002. Sobre a qualificação de Immanuel Wallerstein, ver seu Comentário n. 25, La Bomba de
tiempo mexicana. Commentaries, no site do Centro Femand Braudel: Disponível em: http://
e o Brasil. Sem Terra, ano 16, n. 177, mar. 1998; também Brasil fora da ALCA. La Jornada, 10
fbc.binghamton.edu. abr. 2001. |

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