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Historiografia

Contemporânea em
perspectiva crítica .

Jurandir Malerba
Carlos Aguirre Rojas
(organização)

EDUSC
Ss
ss.
EDUÚSC
Rua Irmã Arminda, 10-50
CEP 17011-160 - Bauru - SP
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Historiografia contemporânea em perspectiva crítica/ Organizadores


Jurandir Malerba e Carlos Aguirre Rojas -- Bauru, SP: EDUSC, 2007.
378 p.; 23 cm -- (Coleção História)

“ISBN 978-85-7460-335-3

1. Historiografia 2. História da historiografia 3. Historiografia


contemporânea 4. Macro — história S. Micro — história. I. Malerba,
Jurandir (org) II. Rojas, Carlos Aguirre (org) II. Série

Copyrighto EDUSC, 2007


CUMÁRIO

PREFÁCIO
Jurandir Malerba e Carlos António Aguirre Rojas

CAPÍTULO 1
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20: uma visão
numa perspectiva de longa duração
Carlos António Aguirre Rojas

CAPÍTULO 2
Novas tendências na historiografia russa e o problema da correla |
ção entre micro e macro-história
Lorina Repina

CAPÍTULO 3
Historiografia alemã no século 20: encontros e desencontros
Estevão de Resende Martins

CAPÍTULO 4
a 1) =] Bo.
Um certo número de idéias para uma história social ampla,
geral e irrestrita
Antonio Luigi Negro

CAPÍTULO 5
Convite a outra micro-história: a micro-história italiana
Carlos António Aguirre Rojas
Sumurio

— CarfTULO 6
121
Os historiadores espanhóis e a reflexão historiográfica (c. 1880-2000)
Gonzalo Pasamar Alzuria

CAPÍTULO 7
oºo$ 3 2.º db D,
A renovação historiográfica francesa após a “guinada crítica
Helenice Rodrigues da Silva

CAPÍTULO 2

Historiografia portuguesa contemporânea 3

Francisco J. C. Falcon e Marcus Alexandre Motta

CAPÍTULO 9

A historiografia latino-americana da questão nacional: nações


inacabadas; inimigos da nação e a ontologia da nacionalidade
Claúdia Wasserman

CAPÍTULO 10

História e Nação: trajetória da historiografia cubana no século 20


Oscar Zanetti Lecuona

CAPÍTULO 11

Us fundadores da historiografia marxista na América Latina


Sergio Guerra Vilaboy

CAPÍTULO 12.

distória, memória, historiografia: algumas considerações sobre


história normatiVa e cognitiva no Brasil
“Jurandir Malerba

SOBRE OS AUTORES
Capítulo 1

TESE SOBRE O ITINERÁRIO DA


HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO 20:
UMA VISÃO NUMA PERSPECTIVA

DE LONGA DURAÇÃO

Carlos Antonio Aguirre Rojas

Tentar explicar o enorme problema dos perfis assumidos pela história


da historiografia do século 20, numa perspectiva de longa duração implica
atender, como propôs Braudel;! às grandes curvas evolutivas e linhas que for-
mam o conjunto dos progressos que os estudos históricos foram realizando ao
longo deste século. Implica, também, a necessidade de concentrar a atenção,
sobretudo nas grandes transformações, nas modificações verdadeiramente
profundas que foram redefinindo de maneira radical a atividade historiográfi-
ca nesse período do século 20. |

Para compreendermos esse problema, é pertinente indagarmos o que


aconteceu com a historiografia mundial nos últimos 150 anos. Se falamos de
um período de 150 anos e não de 100, é porque admitimos como válida a
perspectiva da historiografia francesa, segundo a qual os séculos históricos
nunca coincidem com os simples séculos cronológicos.” Assim, a historiogra-
fia atual não começou, a nosso ver, a definir os seus perfis nem em 1968, nem
ém 1945, tampouco em 1900; mas sim naquela conjuntura crítica privilegia-
da da história européia, que é a de 1848 a 1870. E não se trata, como é eviden-
te, de datas inócuas: 1848 é a época das grandes revoluções européias,
“enquanto 1870 é a data fundamental da experiência da Comuna de Paris. Se
“nos perguntarmos seriamente, então, quando começou a se construir o que
a
“hoje constitui a historiografia contemporânea, a resposta mais pertinente
seria; a partir de 1848. Será justamente a partir dessa data que os elementos
Capítulo 1

hoje dominantes na paisagem historiográfica contemporânea começaram a se


definir.* Ao observarmos em detalhe a historiografia destes últimos 150 anos,
de 1848 até agora, podemos identificar quatro grandes momentos, quatro
grandes etapas que parecem definir esses elementos dominantes nos estudos
históricos contemporâneos.
Essas quatro etapas distintas, que marcam a trajetória da historiografia
no último século e meio, vistas em conjunto, permitem perceber o conjunto
das “heranças” ou das tradições historiográficas hoje presente nos diferentes
âmbitos nacionais de produção histórica por todo o planeta.
“À partir de uma visão panorâmica da historiografia contemporânea,
podemos propor uma periodização de seu itinerário. Seu percurso começou
com uma ruptura de caráter fundacional: a conjuntura que vai de 1848 a 1870.
Coincidindo com um quadrante muito importante da própria história geral
da Europa, essa conjuntura deu origem ao primeiro projeto ou tentativa siste-
mática de se fundar uma verdadeira ciência da história, materializadano pro-
Jeto crítico do marxismo original. A essa etapa de constituição da históriogra-
ha contemporânea, seguir-se-á um segundo momento, de 1870 até 1929 apro-
*imadamente, quando se assiste à efetivação de uma primeira hegemonia his-
toriografica. Essa pr imeira hegemonia no campo dos estudos históricos tem
“eU centro de irradiação fundamental no-espaço de fala alemã da Europa oci-
dental e servirá de “modelo” geral para o conjunto das demais historiografias
da Europa e do mundo daquele tempo.
Esse segundo período se encerra com a crise terrível desencadeada na
cultura alemã pela trágica ascensão do nazismo. Começa então uma terceira
“tapa, que se caracterizará pela emergência de uma segunda hegemonia histo-
o a
E=
Bráfica, situada agora, em termos gerais, na França. Essa terceira hegemonia
ou modelo geral foi a referência obrigatória para todos os circuitos historiográ-
ticos de meados do século 20. À vigência culminou da hegemonia historiogr á-
fica francesa, por sua vez, põe termo a profunda revolução cultural, de alcance
Planetário e de consegiiências civilizatórias globais, que foi a revolução de 1966.
Finalmente, coroando-todo esse complexo percurso dos estudos histó-
Cos contemporâneos, seguiu-se uma quarta e última etapa, filha direta das
Srandes e profundas transformações quê 1968 trouxe em todos os mecanismos
da reprodução cultural da vida social moderna e na qual já não existe nenhu-
Ma hegemonia historiográfica, mas, sim, pelo. contrário; uma nova e inédita
Situação de policentrismo na inovação e no descobrimento das novas linhas de
Progresso da historiografia e que se prolonga até os nossos dias. Teútemos,
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

pois, examinar, mas com o devido cuidado, esses quatro momentos funda-
mentais do itinerário contemporâneo da historiografia recente.'
Se definirmos muito brevemente os traços que caracterizam essas qua-
tro etapas principais, veremos que se trata ao mesmo tempo da definição
daqueles elementos fundamentais que permitem entender os diferentes tipos
de história que hoje compartilham o panorama historiográfico, os diferentes
tipos de história que atualmente se desenvolvem não apenas na Alemanha ou
na França, mas também, e claramente, em toda a Europa e no mundo inteiro
(e portanto, também, evidentemente, na América Latina e no México).
Diferentes modos de exercer o cada vez mais complexo, embora também cada
vez mais apaixonante, ofício de historiador, que em suas confrontações diver-
sas, mas também em suas complexas imbricações ou espaços de coincidência,
- disputam entre si de maneira permanente as preferências de todos os que nos
dedicamos à difícil empresa presidida pela musa Clio.
O ponto de partida da historiografia que genuinamente podemos cha-
“mar de contemporânea situa-se então nessa conjuntura de 1848 a 1870, que é
a conjuntura do nascimento e da primeira afirmação do marxismo. O mar-
xismo nasce entre 1848 e 1870 e se define, como disse certa feita um impor-
tante marxista francês da época do auge do estruturalismo, como o momen-
to do nascimento do continente “História” dentro do espectro das Ciências
Humanas, como o início do moderno projeto de fundação e abertura de uma .
verdadeira ciência da História, O que significa, no tocante ao problema aqui
abordado — o das origens dos perfis atuais dos estudos históricos do século 20
—, que o projeto crítico de Marx e Engels é, na verdade, o momento em que à
história dessa longa etapa em que havia vivido durante séculos e até milênios,
e na qual se confundia, sem demasiado conflito, com o mito, a lenda e 0
mundo da ficção e da literatura, passa, enfim, ao empenho de tentar consti-
. . px a o “e. o o cc TOA ATL asma n vwordádes
tuir-se em verdadeira “empresa raciocinada de análises? numa verdádeira
ciência cujo objeto de estudo é a reconstrução crítica das diferentes curvas
evolutivas percorridas pelas sociedades humanas dentro do vastíssimo arco
temporal em que elas se desdobraram. Momento de fundação de uma nova
ciência, ou de abertura de um novo espaço dentro do sistema dos saberes
científicos contemporâneos, que inaugura ao mesmo tempo essa história par-
ticular daquela, esse segundo momento da historiografia recente que é hoje a
historiografia contemporânea.”
E não há dúvida de que, sem o exame do marxismo, dificilmente pode-
ríamos compreender O que são os estudos históricos do século 20 e da atuall-
Capítulo |

dade. Porque, apesar das desencantadas visões pós-moderna, e sem embargo


da enorme, e em certas ocasiões maciça, reviravolta da sensibilidade d
nião pública, e ainda da reviravolta da sensibilidad
Jectualidade outrora crítica, em todo o mundo a reviravolta das posiçõe
esquerda que tiveram tanta força e arraigamento nos anos de 1960 e 1970 para
as posições mais conservadoras e de renúncia características dos anos 1980 e
1990, fica claro que é impossível entender os estudos históricos atuais se não
tevarmos Aem conta a influência e os ecos que tiveram o marxismo em todo
q1oe
desenvolvimento da historiografia de 1848 até esta data:
O que se torna evidente se pensarmos, por exemplo, em todas as corren-
tes nistoriográficas declaradamente marxistas que são hoje fundamentais nos
“estudos históricos, como a corrente da revista Past and Present, de Eric
Hobsbawm e todo o seu grupo de marxistas tradicionais, ou na obr à
| de É. É 1 hompson e de Perry Anderson e nas contribuições de sua revista New
e Review, o mesmo sucedendo na historiografia socialista e crítica de Raphael
e do Seu History Workshop. E o mesmo se dá com autores como Pierre
tar ou Immanuel Wallerstein, que são declaradamente marxistas embora ao
— tempo Sejamrtapazes de incorporar, em suas diferentes contribuições
e historiográficas, as mais interes antes contribuições e desenvolvi-
mentos de outras perspectivas ou horizontes Intelectuais. E há também o caso
complexo, mas muito interessante, de alguns historiadores que, na origem de
sua formação, tiveram uma forte m

historiográficas que algumas vez


es pretenderam desenvolver-se sob onome do
marxismo, como ocorreu com a historiografia soviética,
Ou polaca, ou húnga-
vd, OM romena, mas também com a chinesa, albanesa, vietnamita: vale dizer,
todo esse conjunto diverso e multifacetado
das diferentes historiografias de
todos os países do chamado mundo “socialis ta” e ao longo de todo o breve ou
pequeno século 20 que vai de 1914-1917 a 1989. E há que considerar, enfim,
também dentro deste vasto espectro de herdanças e presenças do marxismo-na
historiografia contemporânea,
Os resultados produzidos pelo enorme impacto
que a cosmovisão marxista teve na historiografia do México e da América
Latina nos anos 1970 e 1980 e que vem somar-
se a-todos os diferentes núcleos
que, através do mundo capitalista e durante todos os períodos que menciona-
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

mos anteriormente, manteve os diferentes projetos e esforços historiográficos


igualmente iluminados pela perspectiva de Marx e de seus diversos epígonos.
Porque, embora depois de 1989 esse impacto parecesse estar um pouco mais
distante, estâmos falando na verdade de uma aparência superficial e derivada
da mera experiência imediata, que além do mais se vê desmentida.se remon-
tarmos tão-somente a um período de dez ou quinze anos.
O marxismo impregnou então, de maneira igualmente profunda e radi-
cal, toda a historiografia latino-americana posterior a 1968, e é por Isso que,
sem uma consideração desse comportamento marxista e das múltiplas tradi-
ções e escolas que ele ajudou a criar, e que derivam todas desse momento fun-
dacional do moderno projeto de construção de uma ciência na História, não é
possível entender adequadamente a fisionomia complexa do panorama histo-
riográfico mais contemporâneo."
Quanto ao mais, é claro que a data dessa arrancada do moderno projeto
de constituição de uma ciência histórica — e, por conseguinte, dos perfis da his-
toriografia hoje vigentes, data associada às revoluções européias de 1848 e ao
nascimento do marxismo — não tem nada de casual. Porque 1848 é o ponto his-
tórico que mudou o sentido da curva global e secular da modernidade, o momen-
to em que se esgota a longa fase ascendente dessa modernidade, iniciada no-sécu-
lo 16, para dar lugar ao ramo descendente dessa mesma modernidade, que se
estende desde essa conjuntura de 1848-1870 até hoje. O que significa então que
toda a historiografia contemporânea se desenvolveu, nos seus diversos momen-
tos, dentro do horizonte desse ramo descendente da modernidade e, em conse-
quência, dentro de um espaço marcado pela possibilidade de avançar num Sefl-
tido crítico, numa direção oposta à concepção tradicional que prevaleceu duran-
te a fase ascendente dessa modernidade burguesa e capitalista.
E é precisamente essa reviravolta fundamental do longo ciclo vital da
modernidade — que alcança o seu clímax nessa conjuntura de 1848-1 8/0 — que
vai explicar duplamente tanto esse processo complexo do nascimento do mar-
xismo — a expressão negativo-crítica dessa mesmá modernidade — como tam-
bém o projeto de superação crítica das antigas formas de conceber a História
e a edificação inicial e simultânea desse projeto, vigente ainda hoje e ainda em
via de construção, de uma verdadeira perspectiva científica para os estudos nis-
tóricos. É nesse exato sentido que se deve entender a crítica sistemática das
principais variantes do antigo modo de abordagem da história; vale dizer,
tanto de toda possível filosofia da história, crítica que encontrou seu primeiro
expoente sistemático, e não casualmente, no próprio marxismo, como de
Capítulo |

SUN it ds quais À 2: e e º
Ores pDro-
mo, Desse ponto de vista, o marxismo lança as bases de todos os ulteriores
e
er. 12
Jetos modernos de construção de uma ciência da História.
ismo em geral — como cosmovisão do
e como Voo marxismo em geral
luminou diversos movimentos- como cosmovisão
políticos e
sociais, mas diferentes
Sociais, mas também também dice tendências
diversos
Mo TR e
correntes
“A Ç o
movimentos
intelectuais político
a a) e
em to O0 o

Vasto campo das ciências sociais — sofreu um complexo processo de plur aliza-
ção e readaptação às mais hetero geneas e diferentes experiências e circunstân-
Cias O ea 2. W 8 q e q e
que vão desde a sua conversão em ideologia dominante e sua reduçãao a
junto
o conjunto dede apotegmas
apotegmas simplificados
simplificados atéaté a sua
a sua verdadeira
verdadeira recuperação
recuperação Cccri.
storiografias
“ea € o seu aprofundamento criativo e inovador - também as historiogr
que se reivindicaram como “m
arxistas” ao longo desse périplo da historiogra-
da do século 20 cobriram igualmente um variado e dive
Abllidades que vão desde exercícios muito 'sofisticados e “intelectualmente
elaborados (como, por exemplo, no caso da Escola de Fran
de excelente nível que alimentam sempre as linhas e as pe espectivas
istoriografia (como nos trabalhos já mencionados de

“8 1870, vai representar,


de regressão com resp eito ao momento fundad “Mm certa medida, uma espécie
Or explicado anteriormente.
Com a derrota dá Comuna de Paris,
nária que dera nascimento ao ma
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

geradamente objetivista, ao mesmo tempo em que se volta para funções de


educação cívica e nacionalista e se esquece um pouco das contribuições prin-
cipais da conjuntura anterior.” E isso, junto ao fato de que o marxismo, duran-
te essas épocas, jamais penetrou na academia nem nos âmbitos universitários,
permanecendo antes vinculado aos movimentos sociais e políticos revolucio-
nários da Europa daqueles tempos.
Então, e nesse clima intelectual de signo inverso ao da conjuntura ante-
rior de 1848-1870, é que vai. prosperar esse segundo ciclo da historiografia
contemporânea, marcado agora pela emergência de um sistema em que uma
nação ou um espaço ou área intelectual funciona como centro principal da
inovação historiográfica e as demais historiografias o imitam ou o seguem
mais de perto ou mais de longe para constituírem-se como diferentes perife-
rias ou semiperiferias desse mesmo centro. Visto numa perspectiva mais
ampla, torna-se claro que, entre 1870 e 1930 aproximadamente, foi quase sem-
pre o mundo de fala alemã que desempenhou esse papel de domínio hegemô-
nico na historiografia européia e mundial. Pois quem gera as pesquisas, OS
temas, os debates e a historiografia de vanguarda em 1880, 1900 e 1920 é, sem
dúvida, nove em cada dez vezes, a cultura alemã ou austríaca dessas datas. Os
autores mais importantes da historiografia mundial, às vésperas da 1º Guerra
Mundial e logo depois dela, são novamente, em sua esmagadora maioria,
E. ” ale-
mães ou austriacos.
| Por isso é perfeitamente lógico que seja no interior dessa historiografia
de fala alemã, que vai deter a hegemonia ou o domínio historiográfico nos
estudos históricos entre 1870 e 1930, que se vai desenvolver a célebre polêmi-
ca em torno da Methodenstreit e em que se vai encenar igualmente toda a dis-
cussão acerca das diferenças entre as ciências naturais e as ciências do espírito.
E é também esse universo cultural de matriz alemã que vai prosperar O proje-
to da Kulturgeschichte e de outras diversas linhas da então inovadora história
social alemã e austríaca, mas também esse tipo de historiografia dominante
em certos âmbitos que chega aos nossos dias e que foi qualificado com o termo
“nositivista”. E, conquanto fique claro que o termo historiografia positivista
não seja o mais adequado, dado o abuso que dele se fez e dada a muito diver-
sa quantidade de significações heterogêneas que se fizeram passar sob a sua
“enunciação, é ceito, não obstante, que o termo historiografia positivista tem um
sentido importante que devemos conservar porque alude àquele-tipo de histo-
riografia originalmente alemã que foi dominante primeiro nas universidades
de fala alemã para depois se converter rapidamente, através do esquema já des-
Capítulo 1

crito da primeira hegemonia historiográfica, no modelo amplamente difundi-


o
do e também vigente, de maneira dominante, em todas as univ iversidades do
mundo europeu e ocidental.

ato dus ea SOR anos mais anteriormente, essa h


en e Penis de om positivista — reconhe e
cendo embora que o próprio Ranke, que formulou o seu lema
rar as coisas tais quais aconteceram” não se ajusta por inteiro em su a Obra ao
tre 1870
é 1929, era e o e de desenvolve, em
Gi

e 1929, era de algum modo o resultado condensado de certos processos


o
“Pois é
bem
dem sabidosabido
que foi em 1789que fios Francesa
que à Revolução 1769democratizou
Vo européia
p ent
idade d
meira vez, de maneira surpreendente, O acesso a uma quantidade de informa-
ção verdadeiramente enorme, que a partir dessa data vai constituir parte regu-
lar da matéria-
prima básica da historiografia contemporânea.
de antes de 1789 Os arquivos de todos os Estados europeus são segre dos
Ein

de. Estado, o a. “ 0. a
depois dessa mesma data os historiadores têm à sua disposiç
ICDOSICÃO -
absolutamente tudo o
departamentos, que se relaciona com esses Estados
benéficas conse até com às Paróquias. A revolução de 1789, entre muitas e
implicou a abertura imensa de uma torr em-
ni considerável de nova informação, agora acessível aos his-
foi orcs o € sobretudo ao Ca
1 foi precisamente no séc
trabalho do
ulo 19 que se desenvolveu, nesse mundo de cla alemã

cora ar Presa historiográfica


geo em que deum
na França prosperava Aug
pr
o
O

ços Importantes, por um

o do ne legitinha do trabalho históri >


que ela considera como a única e exclu-

que antes não era acessível ao um século de classificação e atualização da

virtudes importantes, vi
der o trabalho pacient
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

fonte literária, ensinando-nos também .os procedimentos habituais da crítica


externa e da crítica interna dos documentos e dos textos, e mostrando-nos
como distinguir um documento verdadeiro de um falso. Adestrando-nos, em
suma, em tudo o que se relaciona com a dimensão erudita da história, essa his-
tória positivista rankiana alimentou também, por vezes em excesso e com uma
força e tenacidade surpreendentes, o conjunto dos âmbitos historiográficos e
das historiografias nacionais das mais diversas partes do mundo.
Mas, como já sublinhamos antes, o limite dessa historiografia positivis-
ta dá História, que foi dominante em termos gerais no período de 1870-1930,
estriba-se no fato de ser uma historiografia baseada num único tipo de fonte.
E também no fato de que, no fundo, ela é mais uma expressão resumida dos
principais progressos que a história logrou conquistar durante-esse século 19
que foi chamado “o século da História” e, em consequência, que é mais um
tipo de historiografia estritamente oitocentista, que no entanto sobreviveu a si
mesma para se integrar como um componente ainda presente na historiogra-
fia do século 20. E, assim como o marxismo, desenvolvido no século 19 crono-
lógico, é na verdade uma antecipação clara de muitos dos traços mais profun- |
dos dessa historiografia do século 20, assim a história positivista vai funcionar
como uma espécie de “anacronismo” ainda vivo ao longo de teda essa última
centúria de vida dos estudos históricos contémporâneos. O que explica tam-
bém porque essa história positivista, em sua árdua busca de uma objetividade
muito estrita e só aparentemente possível diante dos fatos históricos, naja
desembocado finalmente numa clara renúncia a toda a dimensão interpretati-
va € explicativa da ciência histórica, dimensão que, por outro lado, havia sido
sublinhada como central pelo projeto marxista da conjuntura anterior, Já anta
lisada, para se converter « depois em um dos traços mais característicos de todas q

as diversas correntes historiggráficas do último século.


á na mesma etapa '*
E foram essas, entre muitas outras, as limitações que J
tivista da his-
de 1870-1930 suscitaram as críticas mais radicais a essa versão pos
tória, tanto no próprio universo de fal a alemã como fora dele. Pois é bem conhe-
en Febvre, e com ele todo o grupo dos
cida, por exemplo, a dura crítica que Luci
“brimeiros Annales”, vão dirigir a essa célebre afirmação que é possível encontrar" já

O tão difundido manual francês de Ch. Langlois e €. Seignobos, publicado em


1898 e intitulado Introdução aos Estudos Históricos, manual que 8, quanto ão
mais, apenas a variante francesa dessa mesma historiografia positivista ranki lana:
«A história se faz com textos, e um historiador sério jamais se atreveria a afirmar
algo que não possa respaldar com um documento escrito”. E essa sentença foi
Capítulo 1

tomada tão seriamente que se encontra na origem de uma distinção hoje clara-
mente obsoleta, mas que continua vigente e é aplicada em nossas concepções
habituais, e nos ensinos históricos: a distinção tradicional entre a História e a
pré-História. Pois é bem sabido que o fato que distingue a História da pré-
. História, e que'marca o início da primeira, é justamente a invenção da escrita,
Então, e seguindo essa mesma lógica, nenhum historiador sério iria estudar essas
sociedades em que não existia a escrita porque não haviam textos escritos e, por-
“tanto, não seria possível reconstruir solidamente a sua história.
E os autores admitem tão radicalmente o valor dessa afirmação que
propõem seriamente a questão de saber o que vai acontecer quando os histo-
Fiadores tiverem esgotado e interpretado todos os documentos escritos que
«em à mão, para responder enfaticamente e sem titubear que então s
o ofício de historiador, embora busquem tranqjilizar imediatamente
afirmando que, felizmente, ainda têm pela frente uns cem anos de
trabalho paciente e meticuloso.
Essa historiografia positivista é então a história que, baseando-se numa
única
fonte, também se vai concentrar, limitadamente, no estudo e n
Penas de certas dim ensões do tecido social, dos fatos biográficos, políticos,
diplomáticos e militares. E também vai ser, como observamos antes uma his
tória com uma função muito memorística, muito nacionalista
«+» Vinculando-se de perto aos interesses do Estado e
“798 daqueles tempos, de preparar “bons cidadãos” e reforçar
“+ DACional € até patriótica. E, finalmente, essa mesma histór
cnSino das Universidades européias e do mundo nas últimas d
12 € MO Primeiro quartel do século 20 foi também uma história muito
Cs º q o no
blemas sociais e históricos
Isso, entretanto, não
pede o fato de que, como já afirmamos, seria
impossível entender a paisa
gem dos estudos históricos atuais sem levar igual:
mente em conta a contribuição dessa historiografia positivista. É claro que não
pode haver história sem erudição, embora também seja evidente que a história
nunca .se reduz a uma condição apenas erudita e que, para chegar a ela, é
necessário transcender a simples condição de “antiquário” ou amante e cole-
cionador das “curiosidades do passado”, como no-lo assinalám os | historiado-
res mais avançados desde o princípio do século 20.º
É é evidente que, ao caracterizar essa história positivista, se aborda tão-
somente a linha dominante dessa historiografia de fala alemã. Pois é igualmen-
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

te bem conhecido o fato de que, entre 1870 e 1930, se desenvolveu também |


nesse mesmo universo de matriz cultural alemã todo um conjunto complexo
“e diverso de outras posturas historiográficas e de outras tradições intelectuais
na história, como se observa na historiografia marxista de autores como Karl
Kautsky, Heinrich Cunow, Otto Bauer, etc., ou em outra, vertente, como no
caso da historiografia acadêmica crítica de Max Weber, Alfred Weber ou Karl
Lamprecht, entre outros. E esse é também o caso daqueles interessantes deba-
tes e agudas polêmicas sobre questões tão cruciais como a da “compreensão”
da História (o tema da Verstehen), ou sobre a especificidade e o estatuto espe- .
cial das “ciências da cultura” de W. Dilthey, G. Simmel, Rickert, etc. E, embora
em todos esses casos se trate sempre de linhas marginais, face à tendência
dominante, hegemônica, dessa variante positivista de matriz justamente han-
kiana, fica claro que não é possível compreender adequadamente essa mesma
hegemonia de fala alemã sem considerar também as ricas e estimulantes con-
tribuições historiográficas provenientes dessas linhas marginais e críticas do
universo alemão e austríaco daquelas épocas."
Assim, após afirmar essa hegemonia historiográfica na Europa e nQ
Ocidente, é sabido que a Alemanha perdeu a guerra de 1914 para conhecer
depois a maior tragédia de sua história, que foi justamente a ascensão do nazis-
mo. Isso mostra, € não está muito longe de nós, o que as ditaduras são capazes
de fazer com a cultura. Essa historiografia hegemônica do mundo de fala
“alemã terminou com os golpes sucessivos da 1º Guerra Mundial e, em seguida,
com a ascensão do nazismo. Depois, com o fim da 2º Guerra Mundial, a cul-
tura alemã sofreu um golpe de que não se recobrou de todo até a atualidade.
Pois os alemães ainda não digerem por completo o que o nazismo foi dentro
de sua história, e a historiografia alemã ainda não se recuperou daquele golpe
terrível que foi o nazismo. o.

Aliás Creio que essa hegemonia não estava ligada apenas à atividade his-
toriográfica. Não me atreveria a postular, como hipótese, que esse domínio ou
hegemonia se dá em todo o campo das ciências sociais: cumpre assinalar que,
quando falamos dessa hegemonia na historiografia, estamos falando exata-
mente da época em que se desenvolve a psicanálise de Freud e da época do
Círculo de Viena e da obra de L. Wittgenstein, e estamos falando também, evi-
dentemente, da Escola de Frankfurt e de toda essa riqueza enorme da cultura
alemã e austríaca que ainda hoje nos surpreende. ARE

Passemos à terceira etapa, que decorre diretamente da mencionada crise


da segunda. Depois desses golpes sucessivos, val-se constituir uma segunda e
Capítulo 1

diferente hegemonia historiográfica européia e ocidental. É, se me perguntarem


de novo quem domina a paisagem historiográfica em 1950, a resposta será que
“nove em cada. dez vezes os autores mais inovadores e mais relevantes da histo-
riografia desses tempos são agora historiadores de fala francesa. Pois é justamen-
te o hexágono francês que agora se tornou hegemônico, mercê de um novo pro-
jeto dominante, que é o projeto conhecido como a corrente dos Annales. Porque
são os Annales franceses que vão dominar a paisagem historiográfica entre 1929
e 1968,? e isso a partir de um projeto que se constitui como contraponto perfei-
“to da historiografia positivista dominante atrás referida. E não só porque os
Annales vão criticar essa história rankiana direta e explicitamente, mas também
“porque, ante essa história concentrada somente no militar, no biográfico, no
político e no diplomático, a nova perspectiva dos Annales propõe uma história
do tecido social no seu conjunto. E, então, em vez de estudar apenas os grandes
homens e as grandes batalhas e tratados que constituem os fatos “ressonantes”
da História, os historiadores da corrente dos Annales vão começar a estudar as
civilizações, as estruturas e as classes sociais, as crenças coletivas populares ou O
moderno capitalismo numa nova perspectiva analítica e epistemológica.
Porque, diante da história positivista, para a qual o objeto de estudo dos.
cultores de Clio é apenas o passado, e além disso o passado registrado em fontes
escritas, os autores da corrente dos Annales vão reivindicar a célebre definição de
que o objeto do historiador é “toda marca humana existente em qualquer
tempo e, portanto, de que a história é uma história global, cujas dimensões
abarcam desde a mais distante pré-história até o presente mais atual, abrangen-.
“do também absolutamente todas as diferentes manifestações dos homens em
toda a complexa gama de realidades geográficas, territoriais, étnicas, antropoló-
gicas, tecnológicas, econômicas, sociais, políticas, culturais, religiosas, artísticas,
etc. Uma história, então, não pode limitar-se a uma única fonte para se construir,
a fonte escrita, mas deve propor necessariamente uma multiplicidade de fontes,
recuperando, por exemplo, a técnica da dendrocronologia e o uso da iconogra-
fia, a análise do pólen ou a técnica do Carbono 14, entre tantas outras.
E, em face da história predominantemente narrativa, monográfica e des-
critiva, com que está a se confrontar, o projeto dos Annales dºHistoire Économi-
que et Sociale vai propór uma história fundamentalmente interpretativa, pro-
blemática, comparativista e crítica. Ou seja, uma história que, jogando sistema-
ticamente com os benefícios da aplicação do método comparativo, seja capaz
“de estabelecer de forma permanente tanto a singularidade e especificidade dos
fenômenos que estuda como os seus elementos comuns e universais, entrete-.
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

cendo assim a dialética complexa do particular e do geral dentro das grandes


curvas evolutivas dos processos humanos analisados. E também uma história
que, empenhando-se conscientemente na construção de modelos gerais de
explicação e na formulação de conceitos, teorias e hipóteses gerais, renuncie ao
mesmo tempo à ingênua e impossível busca de uma objetividade “absoluta” do
historiador. Em vez dessa empresa ilusória, os Annales vão explicitar o paradig-
ma da história-problema, que, pelo contrário, afirma que toda investigação his-
tórica séria começa justamente pela delimitação do “questionário ou da pes-
quisa a empreender, que determina até certo ponto o próprio trabalho de eru-
dição. Pois, como “só se encontra o que se busca”, e como “os textos falam
segundo os interrogarnos”, toda verdade histórica é relativa, e todo resultado
historiográfico é sempre suscetível de aprofundamento, enriquecimento e até
mesmo, ocasionalmente, de uma revisão total e radical.”
Assim, o relevo da hegemonia historiográfica de fala alemã, entre 1925.
e 1968, foi constituído exatamente por esse projeto dos Annales d' Histoire Eco-
nomique et Sociale, de Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernand Braudel. Projeto
que, enquanto estabelecia e difundia a historiografia francesa como a historio-
grafia dominante na Europa e no Ocidente, abria os novos campos da história
quantitativa, da história das mentalidades, da história da vida ou civilização
material e das novas formas da história econômica e social.
Então, desenvolvendo esses novos paradigmas da história comparada,
slobal, problemática e de longa duração a que nos referimos brevemente, bem
como seus modelos originais de interpretação da sociedade feudal, do século
16, das Reformas ou do capitalismo, essa historiografia de matriz francesa e
mediterrânea pôde determinar, entre 1929 e 1968, as linhas principais da 1no-
vação historiográfica, assim como os grandes debates, temas, desenvolvimen-
tos e campos principais dos historiadores da Europa e do mundo ocidental.
se
E talvez não seja necessário insistir demasiado no fato evidente de que W

tampouco seria possível entender os perfis atuais dos estudos históricos con a

buições dos
temporâneos sem considerar todo esse vasto conjunto de contra
storiografia
Annales; contribuições que hoje são moeda corrente de toda hi
séria e à altura do nosso tempo.” ,

Enfim, a quarta etapa abrange o período que vai desde à revolução cul-
tural de 1968 até a atualidade. Depois de 1968 voltaremos à fechar o capítulo
da hegemonia historiográfica francesa para passar â situação quê domina a
historiográfica atual. O que acontece depois de 1968€ O ano de 1968
é efetivamente uma fratura definitiva em todas as formas de reprodução cul-
Capítulo 1

rural da vida moderna. Não é então um simples movimento estudantil, nem


um movimento de diferença geracional. É, antes, uma revolução cultural e
civilizatória das principais formas da reprodução cultural de toda a moderni-
dade atual. Isso foi muito bem estudado por Braudel e, sobretudo, por
Immanuel Wallerstein.”
Depois de 1968, passamos à outra situação: a página volta a virar e cria-
se então outra situação historiográfica radicalmente diversa. E, se em 1950 a
historiografia dominante é a historiografia francesa, qual é então a historiogra-
fia dominante em 1990? A resposta é tão original como, em princípio, descon-
certante: a resposta a essa pergunta é nenhuma. Pois em 1990 já não há uma his-
* toriografia hegemônica, e aí é tão importante a Escola” da micro-história ita-
liana — com suas diferentes variantes de história cultural, de um lado, e história
econômica e social; do outro — como a quarta geração dos Annales, o mesmo
sucedendo com a historiografia socialista britânica, a antropologia histórica
russa, a história regional latino-americana, a psico-história anglo-saxônica, etc.
Depois de 1968, algo importante se rompeu e terminou esse regime de longa
duração da hegemonia historiográfica de um espaço cultural ou de um espaço
nacional, criando-se então a nova modalidade de funcionamento da historio-
grafia a cujo desenvolvimento assistimos na situação atual. Ninguém é hegemô-
nico na historiografia contemporânea, o que nos convoca a todos por igual a par-
ticipar na inovação historiográfica. Porque hoje vivemos uma situação de poli- .
centrismo na inovação historiográfica. E de policentrismo na inovação cultural.
Termino com duas idéias conclusivas que me parecem muito importan-
tes. Quando dizemos que terminou.o regime da hegemonia historiográfica,
adentramos um problema muito mais profundo, que não estudamos o bastan-
te e que faz referência ao fato de que, depois de 1968, terminou também quase
todo tipo de centralidade na sociedade, e de maneira global. Pois antes de 1968
sabíamos bem que o sujeito social por excelência que devia operar a mudança
revolucionária era a classe operária, mas depois de 1968 já não sabemos ao
certo quem é esse sujeito social, ou se agora há vários sujeitos sociais, ou
mesmo se essa mudança não será antes o resultado de processos novos e iné-
ditos cujos protagonistas “centrais” sejam também diversos. eu

Antes de 1968, a base da economia predominava no protesto dos movi-


mentos sociais contestatórios, porémi agorá todos os níveis se politizaram e são
fundamentais nos movimentos sociais de contestação anti-sistêmica. Antes de -
1968, sabíamos que havia economias dominaites no seio da economia ociden-
tal e-no seio das economias-mundo, mas depois do “68” não existe nada disso
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

e estamos entrando numa situação policêntrica em todos os âmbitos. O


importante, para terminar esta primeira conclusão, que deixo aberta, está tal-
vez no fato de que a humanidade está talvez atravessando uma etapa de “bifur-
cação”* e de que estamos então na ante-sala de uma mudança tão monumen-
tal que estaria provocando a formação de um novo padrão de funcionamento,
evidentemente não só na historiografia nem tampouco em todo o espaço da
cultura, mas no funcionamento social em sua globalidade, e isso é mais ou
menos o que estou tentando expor. Db

A segunda idéia conclusiva me permite vincular mais explicitamente a


minha exposição ao tema, muito mais próximo de nós, da maneira como
essas etapas da historiografia geral do século 20 se refletiram na historiogra-
fia latino-americana.
Se analisarmos esta última em termos gerais, e para além das evidentes
defasagens “nacionais” que os ritmos de seu desenvolvimento apresentam,
veremos que ela assimilou e reproduziu essas linhas, correntes, autores e pers-
pectivas da historiografia do século 20 que em cada etapa eram dominantes
com um pequeno atraso temporal derivado obviamente dos tempos de tradu-
ção e publicação das obras principais dessas correntes e enfoques historiográ-
ficos, mas também do tempo de reprocessamento e assimilação críticas dessas
mesmas contribuições.” |
Ao mesmo tempo, e com um traço que chama prontamente a atenção,
é evidente que a recuperação crítica e a implantação dessas contribuições
externas nas diferentes historiografias da América Latina se deram sempre a
partir de uma postura excepcionalmente cosmopolita que integrava facilmente
e sem barreira alguma tanto as contribuições da historiografia alemã quanto
as lições dos Annales, mas também os diversos ensinamentos dos múltiplos
marxismos, da Europa e dos Estados Unidos, assim como Os p rOgressos decor-
rentes da micro-história italiana, da história socialista britânica ou da antro-
pologia russa, entre muitos outros.
Portanto, e assumindo radicalmente essa nova situação historiográfica
criada no panorama dos estudos históricos mundiais de pois da revolução cul-
ana comece agora
tural de 1968, esperamos que a historiografia latino-americ
no futuro próxi-
a produzir um conjunto de trabalhos que terão de constituir,
mo, a participação específica da América Latina no atual- processo de renova-
ção historiográfica mundial que, desde 1989, já está definin do os perfis do que
haverá de ser o “ofício de historiador” no complexo mas apaixonante século e
milênio que despontam no horizonte de todos nós.
Capítulo 1

NOTAS
Sobre essa
erspectiva da longa duração histórica, cf. Fernand Braude
o

Cultura Económica, 1991. Pode-se


E consu tar também, de Carlos An
Aguirre Rojas, “La Larga Duración: In To Tempore et Nune” no 7»
»

Debate. México: JGH, 1997, e o livro Fernand Braudel y las Ciencias Humanas.
Barcelona: Montesinos, 1996. cap. 2.

Brad go dois exemplos dessa postura dos historiadores france


vai falar de um. longo século 16%peque iria d
— por exemplo, no ensaio European Expansion and Capitalism. 145
Prece
r
no Chapters on Western Civilization. New York: Columbia U
nO SÊ)
1961 — enquanto Emmanuel Le Roy Ladurie fala de um “longo século 13
livro Montaillou, aldea occitana de 1 294 a 1324. Madrid: Taurus, 1988.

enorme estudos
enorme relevância do tema. Por isso,de conjunto
este ensaio dadehistoriografi
tem apenas o caráter uma p
meira abordagem do problema. Sobre essa historiografia, cf IGGERS, Georg G.
New D irections in European Historiography. Revised version. Hannover: Wesleyan
University Press,
1984, e Historiography in the Twentieth Century. Hannover:
Wesleyan University Press. 1997.
4
Trata-se evidentemente de uma
esquematização muito geral, que aten
Principais linhas de evolução dessa historiografia dos últimos 150 anos. co
da no seu conjunto e de maneira global.
? Sobre essa idéia, cf. ALTHUSSER, Louis, La revolución teórica de Marx. México
Siglo XXI, 1975.
6
Conforme a define
Marc
de historiador. BlochFondo
México: em seu
debelo livro Económica:
Cultura Apologia para la histor
Instituto N
Antropologia e Historia, 1996,
/
DO,
2º CÊEWALLERSTEIN,
WAS ncia doImmanuel.
marxismo El atualmente, e
marxismo despu
MO. La Jornada Semanal, México, n. 294, enero 1995, e ECHEVE
ilusiones de la modernidad. Mé
xico: UNAM: El Equilibrista, 1995.
20 bre essa importância do marxismo para a história, cf. AGUIRRE ROJAS, Carlos
Antonio. El problema de la histo
Ha en la concepción de Marx y Engels. Revista
Mexicana de Sociologia, México,
V. ALV, n. 4, 1983, e também, Economía, escasez y
“esBo productivista. Boletim de Antropologia Americana, México, n. 21, 199 L
? À esse respeito, é interessante a tese deoJean-Paul
que define marxismo Sartre á

como o horizonte insuperável de nossa própria época” no seu ensaio Cuestiones de


método , incluído em de la razón dialéctica. Buenos Aires: Losada. 1970.
(9 vale à pena insistir no fato de que várias das correntes historiográficas atuais m
importantes são ou declaradamente marxistas, como é o caso dos historiadores mar-
xistas — por exemplo, a micro-história italiana, ou a his tória radical norte-americana.

4 Desenvolvemos mais amplamente essa idéia em Carlos Antonio Aguirre Rojas;


“Convergencias y divergencias entre los Annales de 1929 à 1968 y el marxismo.
Tese sobre o itinerário da historiografia do século 20:
uma visão numa perspectiva de longa duração

Ensayo de balance global”? no livro Los Annales y la historiografia francesa. México:


Ed. Quinto Sol, 1996.
Sobre esses múltiplos marxismos do século 20, cf. WALLERSTEIN, Immanuel.
Braudel, los Annales y la historiografia contemporánea. Historias, México, n. 3,
1983, e AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. Marxismo, liberalismo y expansión de la
economia-mundo europea. Diário El Financiero, 15 y 29 de julio y 5 de agosto de
DE»
1991. (Série de três artigos.)
Uma síntese dos traços desse modelo alemão de historiografia pode ser visto em
VÁZQUEZ GARCIA, Francisco. Estudios de teoria y metodologia del saber histórico.
Cádiz: Ed. Universidad de Cádiz, 1989.
dobre esse ponto, cf. o artigo de OESTREICH, Gerhard. Le origini della storia socia-
le in Germania. Anali del Istituto Storico-tedesco di Trento, n. 1, 1977.
Como bem assinalou Lucien Febvre nos seus Combats pour [histoire. Paris:
Armand Colin, 1992.
O manual que vai condensar essás contribuições no horizonte francês será o livro
de LÂNGLOIS, C. V.; SEIGNOBOS, C. Introducción a los Estudios Históricos. Buenos
Aires: Ed. La Pleyade, 1972. Valeria a pena empreender uma investigação mais séria
e sistemática sobre as razões da sobrevivência desse tipo de história, peculiar ao
século 19, que é a história positivista, razões essas que se ligam em parte ao seu cará-
ter inócuo e acrítico em face dos poderes dominantes.
Essa é a história oficial, “gloriosa” e autocelebratória que também será criticada, no
momento próprio, por Michel Foucault, que a oporá à,“contra-história” e à con-
tramemória” críticas derivadas do seu enfoque arqueológico-genealógico. Cf., por
exemplo, o seu livro Genealogia del racismo. Madrid: Ediciones de La Piqueta, 1992.
Cf. PIRENNE, Henri. ;Que és lo que los historiadores estamos tratando de hacer
Revista Eslabones, México, n. 7, 1994, e também BERR, Henri. La Síntesis en
Historia. México: Uteha, 1961.
Pensemos, para mencionar só um exemplo possível, nos interessantes trabalhos de
Norbert Elias, El proceso de la civilización e la sociedad c
Carlos Antonio Agu irre Rojas, “Norbert Elias, Historiador y Crítico de la Mo
no livró Aproximaciones a la Modernidad. México: Ed. UAM Xochimilco, 1997.

Sobre essa corrente dos Annales, cf. DOSSE, François. La historia


Valencia: Edicions Alfons el Magnanim, 1988, e BURKE, Peter. La revolución
riográfica francesa. Barcelona: Gedisa, 1993.
Antonio Aguire Rojas,
Desenvolvemos mais amplamente esse argumento em Car los livro Los annales y la
Entre Marx y Braudel: hacer la historia, saber la historia, NO
historiografia francesa. México: Ed. Quinto Sol, 1996.
camento de Braudel, pode-se
Para constatar, por exemplo, a vigência atual do pen
México: Ed. Instituto Mora,
consultar os livros Primeras Jornadas Braudehanas. 1995 1]
1993, e Segundas Jornadas Braudelianas. México: Ed. Instituto Mora,

Sobre a profunda significação da revolução cultural de 1968, ch W


Immanuel. 1968: tesis e interrogantes. Estudios Sociológicos, México, n. 204 >

BRAUDEL, Fernand. Renacimiento, Reforma, 1968: revoluciones culturales de larga


duración. La Jornada Semanal, México, n. 226, oct. 1993; DOSSE, François. Mai 68:
arts mad. o inprêw dE O

Capítulo 1

les effets de sur Cahiers de PIHTP, Paris, n. 11, 1989; e


AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. 1968: La Gran Ruptura. La Jornada Semanal,
México, n. 225, oct. 1995.
No sentido desenvolvido por Immanuel Wallerstein em seu livro Después del Isberalis-
e
mo. México: Siglo XXI, 1996.
Desenvolvemos um exemplo particularmente instrutivo dessa assimilação e refun-
cionalização de tais influências em AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. La recepción
del metier d'historien. de Marc Bloch en América Latina. Revista Argumentos,
México, n. 26, 1997.