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CARLOS ANTON10 AGUIRRE RIJAS

tradução
JURANDIR MALERBA

AMÉNCA LAnNA
HISTÕNA E PRESENTE

TEXTOSDO TEMPO

'textos do 'tempo trai. a público Hma secçãodos melhoresprodutos da


SBD-FFLCH-USP
Qistovioga$a pm$ssional brasileira, enQenbada em elucidar, mediante metodolo@ase
}émicainouadoras,
osmomentosdecisivos
denossahstõria.Conte?7Qlatambém
trabalhos
-dlexiuos sobre a aüúdade do historiador, sda como pesqt+isador, sda como docente. lllllllllll11111
256899
Dirige-se a pm$ssiottais de História e Ciência bHmatias e a todos os amantes da boa
w$exãoe leitura.

JHratidir Malerba
Coordenador da coleção PAPÁ RUS ED ITORA
têm-se voltado durante os últimos 200 anos para o hexágono francês,mais
do que para qualquer outra parte. Desse modo, é completamentelógico que
a recepçãodas obras e contribuições de Fernand Braudel tenha sido tão
rápida, profunda e decisiva em todas as historiograRías e em todas as ciências
sociais da América Latina.
Atualizando, dessemodo, uma clara sensibilidadecultural latina
transecular, compartilhada tanto pelos povos mediterrâneos como pelos países
latino-americanos, a cultura francesa pode implantar-se, florescer e prosperar,
persistentemente, em todo o "semicontinente'' latino-americano. t
Enquanto isso, a América dos Estados Unidos foi construída, desde
sua origem, pelas sucessivas migrações inglesas, irlandesas, polonesas etc.,
que Ihe deram uma distinta identidade civilizatória, muito mais impregnada
5
pelos modelos das nações da Europa do Norte, e, portanto, mais ascéticae t CHIAPAS, AMÊRICA LATINA E 0 SISTEMA-MUNDO CAPITALISTAl
produtivista, voltada ao desenvolvimentode uma rigorosa "moral do
rendimento" e da exaltaçãodo trabalho, e centrada, no plano cultural, numa
cultura muito mais técnicae menoshumanista.Essaidentidaderecebesem
conHtos as contribuiçõesprovenientesdessamatiz da Europa do Norte, {

porém, entende e assimilacom maior diâlculdadeos códigos culturais e os Os índios de Cbi®as qKeestãousandotáticm tão inteligentesem
sna !otiga !Hta çom o Gopemo Áeúcano...
produtos provenientes do espaço europeu mediterrâneo. Portanto, uma Immanuel Wallerstein, "Povos indígenas, coronéis
América onde a cultura francesa em geral terá de remover, se quiser implantas- populistas e globaHzação". Gameü/ü /amem.i.i, no izázdo
se, essa diâlculdade suplementar da profunda heterogeneidade de duas Fernand Braudel Center, le de fevereiro de 2000
sensibilidades culturais de longa duração claramente distintas. Em suma, uma
América onde a mensagembraudeliana seráassimiladamais lentamente, ou
Porém, hoje dizemos basta!
de maneira marginal e limitada, não obstante a enorme difusão quantitativa e
a bem-sucedida comercialização de suas principais obras.
Pouco mais de oito anos após sua aparição pública na cena mexicana,
Então, fazendo nossa essahipótese braudeliana, poderíamos propor
que essasdiferenças já assinaladasem torno da recepção da obra de Braudel latino-americana e mundial, o movimento indígena neozapatistade Chiapas
nos Estados Unidos e na América Latina derivam talvez dessasduas identidades pode ser considerado, claramente, como um moídn7e#za
íaóü/d? az,al#'o, tÍPico
culturais de longa duração,que ao longo dos últimos cinco séculos do que deverão ser os movimentos anti-sistêmicos de oposição ao sistema
capitalista que deverão surgir nos próximos anos.
diferenciarem a América Inglesa da jovem e vigorosa civilização da América
Latina, em sua história e nos seus respectivos destinos.
l
A diferente recepçãocultural diante do legado da obra do mais A inspiração inicial para a elaboração deste texto surgiu de três encontros. Em primeiro
lugar, da reunião com os colegas,estudantes e professores da Universidade Fedeml do Rio
importante historiador do século XX, que testemunha as profundas diferenças
Grande do Sul, coordenada pela professora Claudia Wasserman,em abril de 1999. na
da cultura latino-americanaem relaçãoà cultura dos EstadosUnidos e que cidade de POROAlegre. Em segundo lugar, das discussõescom os companheiros da
demonstra também, por meio dessa comum e compartilhada aceitação da Central Argentina de Trabalhadoresde Comodoro Rivadavia.em maio de 1999e
herança braudeliana, que o diálogo intercultural e multicultural não é apenas finalmente, da longa entrevista e das conversações com o professor Immanuel Whllerstein
desenvolvidasem novembro e dezembro de 1999 no Fernand Braudel Center da
possível e realizável, mas urgente, necessário e totalmente desejávelno mundo
Universidade Estadual de Nova York em Binghamton, pelos quais agradeçoaqui
cada vez mais desgarrado e difícil em que vivemos. publicamente.

148 PapirusEditora AméricaLatina:Históriae presente 149


Esse movimento surgiu em uma das zonas mais pobres e arrasadasdo Assim, tratando ao mesmo tempo de revisor algumasdas propostas
sul do México, embora potencialmentemuito rica em recursos naturus e teóricas centrais dessaperspectiva da #'ar#.gxXpma a4i# e de uühzá-las como
económicos, mas muito atrasadaem estrutura social e em formações políticas.' instrumento de explicação do fenómeno neozapatista recente, este texto tem
Por anunciar justamente o que no futuro serão os novos movimentos sociais como objetivo destacaralgumas "pistas novas", no sentido de continuar
anticapitalistas,essemovimento social de tipo novo logrou angariarum repensando e explicando o movimento social e a situação que anualmente existe
interesse e um eco praticamente planetários. e se desenrola no estado chiapaneco do sul do México, que constitui um ponto
Já desdesua primeira irrupção pública, em le de janeiro de 1994, o obrigatório da geografia essencial da possível rebelião anticapitalista mundial.
movimento neozapatistados indígenasmexicanosnão parou de estar cada Jogando, então, com a demonstração das evidentes "aíiúdades eletivas:
vez mais presente nos meios de comunicação mundiais, afirmando também que acreditamos perceber entre os sucessosrecentes de Chispas e a perspectiva
suainfluência nos imaginárioscoletivos de praticamentetodos os movimentos da análise do sistema-mundo, talvez possamos adiantar um passo no processo
de resistênciado mundo, e constituindo-se em uma referência obrigatória de de esclarecimento do caráter desse movimento indígena neozapatista e também
todos aqueles que se interessam pelos processos de uansfotmação social que na ilustração da possível fecundidade dessa mesmaperspectiva analítica.
atravessam o sistema capitalista em seu conjunto. l

O impacto e a presença mundiais do neozapatismo não foram ainda


suficientemente teorizados e analisadospelos cientistas sociaiscontemporâneos, PlanetaTerra, montanhas do sudeste mexicano
nem no Médico e na América Latina nem no mundo inteiro, talvez em razão
de sua própria novidade. Em nossa opinião, porém, tal exame e estudo Uma das idéias nas quais mais insiste a perspectiva do sistema-mundo,
provavelmente fornecerão chaves fundamentais para se compreender quais e que muitos consideramaté mesmo como sua contribuição mais or;@üa/
f
serão as vias concretas por onde deverão transitar as futuras lutas organizadas ePe #2ra, é a da necessidade imprescindível de transcender, sistemática e
contra o sistema capitalista. Por isso, é absolutamente necessário continuar permanentemente, o limitado ponto de vista "nacional" ou "estatal" no estudo
desenvolvendo esseesforço ainda em curso de investigaçãoe explicaçãodo e na explicaçãodos principais fenómenosque têm lugar doemdo sistema-
queconstitui essanovidade radical e a significaçãointernacional do fenómeno 3
mundo capitalista.
neozapatlsta.
Na opinião de Immanuel WãHerstein,uma falha recorrente da imensa
Animados pelo propósito de impulsionar a multiplicação dessas maioria dos cientistas sociais contemporâneos consiste em assumir am/ützme /p
necessárias análises, no presente ensaio, procuraremos analisar algumas das a suposta legitimidade do "marco nacional" como "unidade de análise
principais manifestações do neozapatismo da perspectiva de "análise do pertinente para o estudo dos acontecimentos sociais dos últimos cinco séculos.
sistema-mundo", perspectiva criada e desenvolvida principalmente por Afirmando que tal unidade de análise não é e não pode ser outra que o
Immanuel Wallerstein durante os últimos 25 anos, durante os quais se veio
levantando uma série de tesese interpretaçõesque, de maneira notável,
coincidem exMno/z#arüme#/pcom as teses neozapatistas, antecipando-as em
3 Essatese se encontra presente em vários textos escritos por Immanuel Wallerstein.A
décadas em alguns casos, e reforçando e permitindo redimensionar seu sentido título de exemplo,podemos remeter o leitor aosseguintesartigos: "Hold the killer firm:
e significaçãoprofunda, em outros. On method and the unit of analysis", Ca?;@,zra##e
C7&üZa#af Rr&&p,nn 30(primavera
de 1994); 'World-system". l#: .,4 délh z a# À4a?xüf /gaagó/. 2' ed., Oxford: Blackwell,
1991; "An agenda for world-system analysis". / : Ca /e é#ng@Pruaróer /a wa/úi#;/?/
a#a4íü. Beverly Hills: Saga,1983; 'World-system analysis". l#: E gíZg)edza
o#.pa#üca/
2 Sobre essa situação profundamente contraditória do estado de Chispas, ao mesmo efa#amW. Londres; Routledge, 1 999; ou os artigos "Desarrollo de la sociedad o desarrollo
tempo muito rico e muito pobre, vü os artigos de Armando Bartra,Ana Esthet Ceceãa, del sistema-mundo?", "Sistemas históricos como sistemas completos", e "Llamado a un
Juan González Esponda, Elizabeth Pólito Bardos e Antonio García de León, incluídos debate sobre el paradigma", estes três últimos incluídos em /l?Pe/fiarZu af#aaí ioíàz&r.
em CZ;@ai n' 1 (1995). México: Sigla XXI, 1998.

150 PapirusEditora América Latina: História e presente 151


ptóç)tl.o sistema-mntzdoçotzsideradoem sua totalidade, os átomo\ates dessa linha que reanrmatá, finalmente e apesar de nossas"independências", a situação
perspectiva do sistema-mundo vão defender, então, a necessidade dc historicamente crónica que se mantém até hoje, da condição da América Latina
reconsiderar, com base em uma visão mais .g/o&a/eenvolvente, o conjunto de como simples "periferia" do sistema-mundo.'
fatos, fenómenos e processos que ocuparam e ocupam ainda hoje os
Os processossociais e políticos do início do século XIX não podem,
especialistastanto da história como da situaçãoatual do moderno capitalismo.4
pois, ser adequadamentecompreendidos, de acordo com essaperspectiva de
Assim, a perspectiva de análise do sistema-mundo irá insistir no fato aná[ise, se não consideramos a dimensão essencial da dinâmica g]oba] da
de que existe realmente uma dinâmica gdo&a/
do iü/rma-mxmdo,
dinâmica que, sistema-mundonessemomento. Isso não apenasno sentido de ''atender aos
se for ignorada na análise, irá comprometer inevitavelmente a explicação dos assim chamados 'fatores externos"', que viriam a complementar e, por assim
problemas abordados. Tal perspectiva distancia-se criticamente dos conceitos dizer, arredondar ou enriquecer um pouco mais a explicação centrada nos
tradicionais de "Estado", "nação" e "sociedade" que propõem recuperar e "favoresinternos", mas,antes,no sentido muito mais profundo e radical de
redefinir com baseem noçõesmais complexasde sistemainterestatal a que tais "processos de independência'' latino-americanosteriam sido
economia-mundoe o sistema-mundo-- e prolonga,a suaprópria maneira,a simplesmente /m@oiiá'eüsem a existência dessa "conjuntura mundial" de
visão radicalmente globalizante herdada de Marx e de Braudel.S simultânea decadência espanhola e auge britânico, e sem a bússola histórica
Para dar apenas um exemplo possível dessa tese geral, Wallerstein irá que ela mesma cria. Por outro lado, somente a consideração dessa situação
mostrar como, nos chamados "movimentos de independência" da América ironicamente periférica dentro do sistema-mundo, de que padeceu a América
Latina, desde o início do século XIX, o que está em jogo no nível do sistema Latina durante toda a história da modernidade capitalista, como verdadeira
mundo em conjunto é o processode rearticulaçãodos mercadosde todo o estrutura profunda de /OHKa Z#/t2râo,permite entender tanto os limites como
planeta, num cenário onde Grã-Bretanha afirma-se como centro da economia- os resultados últimos de tais independências de nosso "semicontinente''.7
mundo e a Espanta chega ao ápice do processo de decadência iniciado no Ao reinserir, assim, a explicação desses processos locais latino-
século XVll, com seu papel cada vez menor no concerto dos países europeus americanos na dinâmica global da economia-mundo e do sistema-mundo,
Desse modo, seguindo o exemplo da "descolonização dos Estados Unidos' Wallerstein reafirma sua tese de que a chamada "globalização" não é um
e com base em uma situação na qual #z#g#ém
está interessado em que América fenómeno recente das últimas três décadas,nem tampouco um processo
Latina continue sendo dominada e controlada pela Espinha, vão se desenrolar característico do último século, mas, antes, um processo iniciado faz cinco
os vários movimentos de "independência" dos territórios latino-americanos. séculos e inscrito como característica essencial da natureza do próprio sistema-
Neles, os setores populares e mais radicais serão sistematicamente excluídos, mundo capitalista.
marginalizados ou repl:amidose o domínio colonial espanhol terminará por ser
substituído por um novo domínio económico mais pluralmente europeu, numa
6 Paraum desenvolvimento mais amplo do argumento aqui brevemente apresentado,ver
Immanuel Wallerstein. E/madama iü/?m m #íihZ México: Sigla XXI, 1998, tomo lll,
capítulo IV Uma perspectiva um pouco diferente, porém que insiste também nesse
4. Talvez os dois exemplos mais importantes dessaób%rz#/?
maneira de eneocar e analisar os
papel fundamental da situação geopolítica mundial como elemento explicativo de
fenómenos sociais tanto da história como da situaçãoatual do capitalismo sejam, em nossas independências, encontra-se em Fernand Braudel. otüZnóM ma/?/ü4 era amü
ptimeho [ugar, os trabalhosde ]mmanue]Wã]]ersteine, em segundolugar, a obra de J ízgo/íaáímo.
.fàZorXI,':XI q17.Madre:Alianza, 1984.
Giovanni Anighi. Algo evidente em suasobras mais importantes, no casode Immanuel 7 Não seria difícil exemplificar a importância e a presença fundamental dessa dimensão
Wãllerstein, E/macüma lü/ ma m óaZMéxico: Siglo XXI, tomo 1, 1979, tomo 11, 1984,
global para a explicaçãode certos fenómenos mais "nacionais" ou "locais", como, por
tomo 111,1998;e no casode Giovanni Arrighi, E/üga sÜÓXX. Made: Akal, 1999.
exemplo, a RevoluçãoMexicana ou a história e o movimento de 1968 na França ou nos
5 Sobre a importância dessavisão globalizante tanto da perspectiva de Marx como da de
Estados Unidos. Demonstrações que feitas, por exemplo, por Friederich Katz em seu
Braudel,cf CardosAntonio Aguirre Rolas."Between Maíx and Braudel:Making history, brilhante livro l.a.gwernuíemz/ae Àlúxüa. fvléxico: Era, 1982; ou também no artigo do
knowing histoiy", R/&ü#', vol. XM nn 2(1992); /dpm. gema Z Bnn de/ Z dzr madame
próprio Immanuel Wallerstein. "1968: Revolución en el sistema-mundo. Tesis y
.çaZüzáldcTe
icúa@?. Leipzig: Universidade de Leipzig 1999; e idem.L%ü/u&? fa#g#áa#/z. interrogantes", Eí/#dar .faaaZÜüoí,
na 20(1989); Wa1lerstein."1 968: Entrevista con
U ?gang
i#r/%ü/onDE/2@ó/e#n
face. Paus: L'Harmattan, 2000. Immanuel WaUerstein", .çaaaZÜüa, na 38(1998)

152 Papirus Editora Améríca Latina: História e presente 153


E por isso que, tal como ouros tantos processos relevantes do sistema- na América Latina e em todo o mundo, os neozapatistassouberamser
mundo atua], Chiapas apenasadquire seu verdadeiro sentido profundo quando realmente ía 2ü aí com os oprimidos de todo o mundo, fazendo causacomum
observado da dimensão global e universal do sistema-mundo em conjunto. contra todas as formas de opressão social existentes e pronunciando-se tanto
Ainda que certos processos locais e determinados contextos e histórias contra a política tímida e às vezes cúmplice da ONU como contra o manejo
nacionais8 sejam importantes, pode-se afirmar que é impossível captar governamental da tragédia das inundações mexicanas de 2000, quanto diante
adequadamente a verdadeira natureza e o significado internacional especínlco do massacre genocida de Kosovo ou das ridículas posturas dos sucessivos
da rebelião neozapatista sem a consideração dessadimensão mais universal e governadores recentesdo estado de Chispas.
planetária da dinâmica global do sistema-mundo atual. SÓessenível planetário Se do lado neozapadsta é clara a consciência do vínculo de seu
da dinâmica do capitalismo visto como sistema-mundopermite compreender movimento com a lógica global do sistema-mundo capitalista,do lado deste
o extraordinário eco internacional dessemovimento indígena mexicano,visto último, também ficou evidente a grande receptividade e atenção projetada
por todo lado como um dos vários "modelos" possíveisou a alternativa para essemovimento originalmente chiapaneco.Essa acolhida igualmente
concreta, que exemplifica tanto os desafios que enfrentam os novos ampla e difundida que permitiu, em parte, deter a repressãomilitar que
movimentos anta-sistêmicos como também as possíveis respostas a eles.' E podia ter sofrido o movimento, permitindo-lhe sobreviverem melhores
altamente signi6lcativo que os indígenas rebeldes de Chispas tenham tido condições -- explica-se pelo fato de que a insurgência neozapatista é vista, no
sempre uma aguda consciência desse caráter ü/er aíza#a/de sua proposta, o mundo inteiro, como uma das experiênciasmais importantes das quaispodem
que se mostra tanto no fato de que decidiram tornar público seu movimento aprender muito todos os novos movimentos anta-sistêmicos,tanto do ponto
no mesmo dia em que entrava em vigor o Tratado de livre Comércio da de vista organizativo e político como também do ponto de vista cultural.
América do Norte, como também no fato de que dois anos e meio depois
convocarame organizaramo Primeiro Encontro Intercontinental pela
Humanidade e contra o Neoliberalismoio em seus tenitórios.
':l<Somos produto de 500 anos de lutas
Desse modo, assumindo radicalmente seu movimento como um
movimento de resistência com implicações e significados.g/oóài, e proclamando
Outra idéia importante na qual insiste reiteradamenteo enfoque da
que sualuta é parte de uma luta que estátanto em Chispas como no México, "análise do sistema-mundo" é a da necessidade de introduzir sistematicamente
na análise uma perspectiva de /osgad#/zzFâo
óüMnca. Seguindo nesse ponto as

8
importantes lições de Fernand Braudel,it Tmmanuel Wallerstein irá repetir
Para a explicação dos elementos especificamente chiapanecos, e depois, num segundo
nível, dos elementos da história e da situação nacional mexicana que permitiriam que os fenómenos sociais não podem ser compreendidos se nos fecharmos,
compreender o movimiento neozapatista, pode ser útil a consulta à colação completa
da revista C»l@ai, publicada no México desde 1995. Também o brilhante livro de
Antonio García de Leon. Rfià/e a:zJ w/apü.Nléxico: Era, 1985; e Carlos Antonio 11 . Sobre a visão de longa duração, cf: Fernand Braudel. "História y ciências sociales.La larga
Aguirre Rolas. "Chispas en perspectiva histórica. Motor de ires tampos", (2/unnícu,
Qsz duración". l#: E; 71/oííaóm,8úáo/ü.México: Fondo de Cultura Económica.1991. Para
44 (1995). uma discussão do sentido dessa perspectiva, cf. Bernard Lepedt. "La larga duración en la
9 Hoje já é considerável a abundante bibliografia relativa a essarepercussão internacional actua[idad". ]z .ç g# ül Jam dm Bnn dela aí. México: ]nstituto Mora, 1995; e Car]os
do movimento neozapatista em todo o planeta. De tal bibliogra6la, mencionemos apenas, Antonio Aguirre Raias. "La largaduración; in iHo tempere et nuns", Rfm)Éad?}lzl/u/ü dur
como exemplo, a entrevista realizada por Ana Esther Cecefía com vários intelectuais ]zZ?ám,
vo1. 18(1996); e "Die 'longue durée' im Spiegel", Cai@#nn/Üano 6 na 1(1996).
europeus: "Cómo ve Europa a los zapatistas", CZzqom,nn 4 (1997) e também o artigo de Para ver a aplicação da visão da longa duração deita por Immanuel Wallerstein, que de
Javier Pérez SiHer."La révolte du Chiapas: Guérrilla ou transition démocratique?. Bilan Eito estápresenteem praticamente/odasuaprodução intelectual, vet, por exemplo, seus
historiographique", líü/a;n e/ .çorzó#dp/;4mé)@#eL7a#e, na 8(1998)- livros TZe i@?Zuü/i o/ü/+au amg. Cambridge: Maison des Sciences de I'Homme-Cambridge
10 Cf. a "Primera Declaración da Selva Lacandona". /#: EZLNI. l)af me#/oi.7 ram##ãzzdoí. University Press, 1991; TZe.paZz2ü
aÍ Z»e; a/Z&eraamg.Cambridge: Maison des Sciencesde
México: Era, 1994,tomo 1,e também CM üur / /Prga&r#cui.
EZLN. P/zme/ro
E r e aa I'Homme-Cambridge University Press, 1988 e Gea@aé21ax a íQ arwú»m.Cambridge: Nlaison
Intercontinental
porLa}lKmanidadJcontrael}qeoliberalisrtro.
'bl\êüco,\ 99G. des Sciences de I'Homme-Cambridge University Press, 1991

154 Papirus Editora América Latina: História e presente 155


para sua consideração,nas temporalidades da curta e/ou média duração, e 'morte do marxismo", é antes o momento da erosão deRJnitivadas.pamzkim
que, portanto, é necessário abrir sempre generosamente o leque, incorporando óáí/caique davam sustentaçãoà ideologia liberal. E o âím da vigência da
as visões de maior fôlego temporal a nossas explicações. possibilidade, antes ainda aberta, de obtenção de certas conquistas democráticas,
Essa atitude pode mudar totalmente nossa percepção dos fatos estudados. da luta pela extensão de certos direitos, do reconhecimento político de tais ou
Pma citar um único exemplo desenvolvido por Immanuel W:derstein, a profunda quais setores, grupos ou movimentos sociais -- possibilidades que se esgotaram
mutaçãosimbolizadapela quedado muro de Berlim em 1989 deixade se por completo durante 1968-1989, pelo menos d?##odos marcos do sistema-
apresentar, como na maior parte das visões ligeiras e superníciais, como a "morte mundo vigente.Trata-se,antes,do desmantelamentodo "consenso liberal" até
definitiva do socialismo" ou o "íim deânitivo do marxismo e do comunismo", então vigente, que colapso a força hegemónicado liberalismo e abre a anual
para revela-se, sob aluz da longa duraçãohistórica, como o momento conclusivo situação de franca disputa ideológica a que assistimos na última década.
e evidente do processo de "colapso global do liberalismo" iniciado em 1968. Da mesma forma que qualquer outro processo social fundamental,
Processo que deslegidmacompletamente o predomínio de tal liberalismo como também o movimento de Chispas só pode ser entendido adequadamentese
ideologia ou geocultura doma x/edo sistema-mundo moderno, para introduzi- o analisarmos dessa visão de longa duração em muitos sentidos importantes.
mosde cheio na situação de nova confrontação aberta das ideologias e da total Em primeiro lugar, porque o anual movimento indígena neozapatista
reestruturaçãoda geocultura, que vivemos faz 30 anos e que haverá de continuar não é mais que o á/2úmo
elo de uma longa cadeia de movimentos de resistência
ainda durante os próximos 30 ou 50 anos.iz indígenas, presentes no México e em toda uma zona importante da América
Essainterpretação completamente original e heterodoxa dos sucessos Latina, que percorre os últimos cinco séculosde história da civilização latino-
de 1989 e de sua significação histórica apenas é possível se atendermos tanto americana, marcando-a com a presença recorrente de movimentos análogos
à história do marxismo e do socialismodesdea segundametadedo século de rebelião das populações índias."
XIX até hoje, como à do liberalismo dos últimos dois séculos.Sob essaluz da E mesmo possívelpostular filndamentadamente que existiu, ao longo
história profunda, que sepro)eta no registro do tempo longo, bicaclaro que o da história da modernidade capitalista, acompanhando-a como verdadeira
marxismo "morreu" dezenasde vezespara renascersempre com nova força, eiü /anndp&#K dannFãa de nossacivilização latino-americana, o posicionamento
ao mesmo tempo em que se mostra também, claramente, que as estranhas social de fortes núcleos indígenas de nosso "semicontinente", em uma aá2 de
tentativas de sua aplicação nas diversas variantes do "socialismo real" do pema#e#/pde rebeldia, oposição ou confrontação diante das estruturas sociais
século XX podem encerrar seu ciclo de vida, sem comprometer por isso dominantes que se foram criando e a6trmandona América Latina nesses
nem o pensamento social crítico ncm os legítimos movimentos de oposição e cinco séculos.Isso significa que, desde a conquista espanholaaté hoje, e
luta contra o sistema capitalista. Portanto, sem abandonar o potencial e a diferentemente de outras zonas da América Latina onde predominam as
utilidade enorme dessereferente teórico do pensamento marxista. populações de origem "branca", "mestiça" ou "negra", existe todo um mapa
Somente da perspectiva da longa duração se pode constatar, no plano da América Latina ainda fortemente indígena, que resistiu com tenacidadee
das transformações e mutações culturais essenciais, a conexão profunda de consistência à imposição hierárquica, desigual e sempre discriminatória do
1989 tanto com 1968como com 1917,1848e 1789,ou seja,com os pontos pro)eto da "modernidade" latino-americana.
de inflexão realmente relevantes que marcam toda história do liberalismo, Assim, às vezes explodindo em sublevações abertas, e mantendo-se
quando o consideramos como a geocultura dominante do sistema-mundo outras vezes como resistência latente à aceitação de certos códigos culturais
moderno desde a Revolução Francesa. e de certas condutas e práticas sociais, essa América indígena fez de sua
Então, dessaótica, que explica 1989 na consideração histórica de todo o recusa às lógicas da conquista, da submissão, da exploração e de uma
período que se inicia em 1789, fica mais claro que 1989, mais que a pretendida

13. Para o caso da história das rebe]iões in(]ígenas no próprio estado de Chispas, ver
12. Cf Immanuel Wãllerstein. 'EI colapso del liberalismo' .çerwe#íü,
na 28 (1994). Antonio García de León. Rpíü/?#íza.7U/o@ü,oP.rü

156 Papirus Editora América Latina: História e presente 157


''assimilação" cultural arrasadora, impingidas pelo sistema-mundo capitalista, Apoiados nesse prometoescondido e marginal, porém vivo, de uma
uma verdadeira realidade cotidiana de longa duração, um verdadeiro traço modernidade alternativa, que recicla e refuncionaliza velhas práticas e visões
repetido de sua sobrevivência e de sua existência no mundo latino-americano. de mundo, ao mesmo tempo em que assumeos novos problemas e desafios
característicosda etapa social atual, os neozapatistaspuderam ra /nó /r
A atitude de orgulhosa e crónica rebeldia diante do prometoda
oferecendo ao mundo esseprocesso de "ressignificação das coisas", que inclui
modernidade periférica da América Latina14não se dá no sentido de uma
tanto a construção de novas linguagens para asmesmas realidades e a subscrição
inútil e impossível defesado mundo pré-capitalista,ou do passadopré-moderno,
ou dos "bons velhos tempos", como pretenderam muitos intelectuais de novos sentidos para fatos velhos, quanto a proposta de novas práticas e
novos comportamentos na política, na cultura e na sociedade.
apressadose superficiais, mas, sim, no sentido de gar-íe.zare//ar,radicalmente,
a lógica homogeneizanteda modernidade,lógica depredadora que assola Daqui derivam )ustamente, em nossa opinião, tanto a rara riqueza e beleza
culturas, tradições, visões de mundo e hábitos civiLzatórios ricos e diversos, de algumaspeçasescritaspelo subcomandanteMarcos, como também a força e
para substituí-los pelo "cálculo frio e egoísta", pela lógica desapiedadada contundência do discurso neozapatista, não desgastado-- como se encontra a
;valorização do valor" e pela estandardização completa da cultura consumista retórica política moderna -- nem rodeado do sentimento inevitável de suspeita
contemporânea. que provoca, espontaneamente,o discurso de todos os "políticos profissionais'
modernos,no México como na América Latina e em todo o mundo.
Então, com base nessaatitude de recusaatavaa tal lógica capitalista
depredadora, os indígenas chiapanecos e latino-americanos souberam, ao Essa novidade radical do discurso neozapatista talvez explique a fascinação
mesmo tempo, preservar e renovar uma cultura e comportamentos igualmente que ele exerce em todo mundo, como também o fato de que foi capaz, também,
;modernos",porém a#braüz,oi,'' em que os homens, a terra, o mundo, o de renovar e ressigniãcar velhos símbolos que se haviam esvaziado de conteúdo,
tempo e o espaço têm Duna íÜlz#czzfâo,
diferente da que têm na modernidade degradando-se nas mãos da política e da cultura o@ííak.como é o caso do hino
latino-americana dominante. e da bandeira nacionais do México, ou também do panteão de nossos "ilustres
Ao desenvolver,dessemodo, um imaginário coletivo construído com heróis nacionais", que agora voltam a ganhar força e vigência, quando são
outros referentes, que funciona com lógicas diversas da lógica dominante, os reivindicados e revalorizados pelos próprios neozapatistas.
indígenas neozapatistas -- expressão e parte, no fim das contas, dessemundo Em todas essasexpressõesde uma modernidade marginal e alternativa
indígena latino-americano mais amplo -- podem dotar de significados diferentes à modernidade capitalista dominante, existe um claro .Pa/e#óü/ rez,aZ#aa#.í/ü

os mesmos conceitos de dignidade, justiça, democracia ou poder que que os zapatistas de hoje souberam assumir, explicitar e mostrar ao mundo, e
co-h"'mos e manejamos. que, em seu profundo sentido anticapitalista e anel-sistêmico,lembra-nos
necessariamenteda postura de Kart Marx em relação aos horizontes de futuro
da antiga comunidade rural russa.:'
14 Sobre a modernidade periférica ou barroca da América Latina, cf. Bolívar Echeverría.
l.z mader /dad de/ óafrura. léxico: Era, 1998, livro que fornece chaves essenciais e
16 Marx, ao ser interrogado pelos socialistas russos sobre o problema de se a comuna russa
extremamenteoriginais para entender a especificidade bizarra de nossa modernidade
latino-americana. ou mzx,podia servir de ponto de partida para uma reconstrução rama#üáada sociedade
15 Para a discussão sobre a diferença entre modernidade e capitalismo e, portanto, para a russa,afirmou que era possível aproveitar muito dessacomuna russapata a construção
exploração das possíveis modernidades alternativas não-capitalistas, ver, por exemplo, de uma sociedadenão-capitalista na Rússia, embora tal revolução na Rússiativesse o
Baaxentnta de Sonsa Santos. Peh mão & -Alise. O social e a poiíãco na pás-modernidade. apoio e o concurso de uma revolução socialistaeuropeia(cf. os textos dos rascunhos
Porto: Afrontamento, 1994 e Tawand ez rampa íe#ie.Nova York: Routledge,1995; das cartas de Marx a Verá Zasulich, publicados em E/.Pa/ e /r de/a ram//#.zmnn/ alia.
Bolívar Echeverría. L2r /Zwí/ó er de /a modem/dad.México: Unam-EI Equihbíista, 1995; México: Panadoy Presente,1980). Também, a "modernidade alternativa" representada
]2pm. l,/azardé aía.7 wá@áz.
bléxico: Siglo XXI, 1998, e também a coletânea organizada pelos neozapaústas, e em geral pelos indígenas latino-americanos, poderia coadjuvar no
pelo próprio Bolívar Echeverría. À4adef /da(4 meiüBgk r ZZzrra4 f/»aí óamaro. México: futuro a reconstruçãoradicalmentedistinta das sociedadesda América Latina e de
Unam-EI Equilibrista, 1994; e CarlosAntonio Aguirre Rolas."La visión braudelienne outras partes do p[aneta, porém, apenas no quadro de uma transformação g]oba] do
du capitalisme anterieur à la Revoludon Industrielle", Rfzüu', vol. XXll, na 1 (1999). sistema-mundo capitalista em conjunto

158 Papirus.Editora América Latina: História e presente 159


Se o movimento neozapatista não pode ser compreendido gem essa Em nossa opinião, essetipo de pergunta e outras similares que hoje se
visão de longa duração e, portanto, como herdeiro e portador legítimo dessa debatem no seio do movimento dos indígenas chiapanecos apenas podem ser
história secular das rebeliões indígenas latino-americanas dos últimos cinco respondidasde uma visão de longa duração,que olhe para o futuro, visando
séculos,que preservam e constroem essapossível modernidade alternativa, descobrir os elementos concretos que conectam, de maneira quaseespontânea,
tampouco o entenderemos totalmente, em pleno sentido, se não o virmos a experiência dessesindígenas neozapatistas com toda a série de experiências
como o .P/ímezheZode uma nova cadeiaque se abre depois de 1989.Essa revolucionárias que abarcam desde a heróica tentativa da Comuna de Paria
corrente, junto com outros novos elos dos atuais novos movimentos sociais ou da Revolução Russa até a experiência dos conselhos operários italianos e
anui-sistêmicos, haverá seguramente de continuar ampliando-se e a revolução cultural chinesa de 1966 a 1976.
desenvolvendo-se durante os próximos 30 ou 50 anos, nos quais deve-se Essa conexão não se dá apenas no sentido assinalado por Walter
constituir, muito provavelmente,a fase terminal ou situaçãode bifurcação Benjamin,segundoo qual em cadanova rebelião dos oprimidos volta a
histórica do sistema-mundocapitalista.'' despertar e a renascer a fúria de todas as rebeliões passadas e vencidas,i8
Quando analisamosde perto as.perZ##/ar e os.praóZemi concretos que mas também no ressurgimento recorrente, em todos os exemplos citados, de
os neozapatistas enfrentam e discutem cotidianamente, ficam muito claros certas características das mais genuínas manifestações de rebeldia contra a
os dois pontos comuns da agenda compartilhada, em todo o mundo, pelos opressão, o domínio e a exploração capitalistas.
#oz'ormazúeem/ü.r
íoóüü a#ü-.rü/ãwãoí.Agenda de temas ainda em debate, que Característicascomo a de que o movimento funciona como uma
haverá de ser resolvida nas próximas décadas do século XXI. verdadeira "festa dos oprimidos", na qual eles tomam seu destino nas próprias
Não é, pois, de modo algum casualque o movimento indígena mãos, e na qual se abre espaçopara a livre manifestaçãoe defesade seus
chiapaneco se pergunte como enfrentar com êxito os embates do interesses,pontos de vista, inquietudes e proletos de mudançasocial.
neoliberalismo e da direita renascente no México e no mundo, sobre os modos Movimento em que os representantes são revogáveis a qualquer momento e
como se deve organizar um movimento novo, amplo e eâlcaz nas lutas sociais em que as decisões importantes são ínZ?üzmm.
Em suma, um movimento que é
atuais, movimento que transcendatanto a crise dos velhos partidos políticos a antítesedos partidos políticos tradicionais, com suas decisõesde cúpula e
de esquerda, já esclerosados,como a própria crise de credibilidade total do negociações secretas, com seus funcionários distantes das bases e enamorados
âmbito político das sociedades contemporâneas. e, muitas vezes, corrompidos pelo néctar do poder.
Assim, os neozapatistasapontam para um problema universal, presente Os traços aludidos dos movimentos anti-sistêmicos mais radicaisda
em todos os movimentos anti-sistêmicos do mundo inteiro, de duas maneiras. história dos últimos 130 anos reaparecem no neozapatismo e seguramente
Primeiro, buscando restabelecer a verdadeira participação e o compromisso deverão também ser recuperados pelos novos movimentos anta-sistêmicos
.pema#e#/e
dos oprimidos em seus movimentos e dos militantes em suas dos próximos anos.
organizações; segundo, procurando evitar os riscos do "substituísmo'' ainda
hoje crónico nos partidos -- onde a classeou o grupo social são substituídos
pelo partido, o partido por seusórgãos dirigentes e estesúltimos pelos líderes, Exército Zapatista de Libertação Nacional :
em um processo contínuo de "delegação''das decisões,da reflexão e das Com esse nome novo, são denominados os sem-nomes
responsabilidades das "massas" para seus dirigentes.

Outra teseimportante da análisedo sistema-mundoé a da estrutura


interna que compõe a unidade global do sistema-mundo. Essaestrutura tdpartite
17. Sobre esseproblema, ao qual voltaremos adiante,ver Immanuel Wãllerstein e Terence
üoçaüns qotg à. Tbe age # #nnsàtion.Tru#edaU q' tbe warH-gstem 1945-2a25. \qew ]etsey\
Zed Books, 1996. Os dois capítulos escritos por Immanuel WaUersteinpara esselivro
18. Cf. Wãlter Benjamin. "Sobre el concepto de historia". l#: l.z úçaáüme#iwâOe#io.
Hngme#/oi
foram traduzidos em espanhol: "La imagen global y las possibilidades alternativas de la
aón?b óz}/o/ü. Santiago do Chile: LOM/Universidade Aras, 1996.
evolución del sistema-mundo, 1945-2025", Rízú/aÀ4bxzía#ad#.faózaZZg&z,
nQ 2(1 999).

160 Papirus Editora América Latina: História e presente 161


Demonstrando, então,de acordo com a opinião de Immanuel Wderstein,
é composta por um centro, uma semiperiferia e uma vasta periferia, e consigna
que é impossível mudar apenas uma zona do sistema-mundo, se não se altera
e determina os papéis económicos, sociais,políticos e culturais que as diferentes
todo o sistema em conjunto, e partindo da condição de zona da periferia que a
nações e regiões devem cumprir no sistema-mundo, além de influenciar no
Rússia tinha antes de 1917 -- a qual mantém até hoje, em sua opinião --, toda a
tipo específicode movimentos anti-sistêmicosque pululam nas diferentes
história da União Soviética ilustra como a lógica global do sistema-mundo acaba
zonas do planeta, marcandotanto os limites de sua ação específicae suas
prevalecendo sobre as tentativas de mudança, por mais radicaisque estassejam,
possibilidadesde impacto global como também a significação social de suas
demandas especíâcas.
19 ao definir seuslimites geraise ao modificar também sua significaçãoproftlnda
no médio e no longo prazos.Estranho destino do prometosocialistana URSS,
Desse modo, essasituaçãoó%érre
óü/ dentro de tal ou qual zona do
que nos recorda tanto a condição já assinaladaque Marx propunha para o
sistema-mundo opera como um elementolw#dame#/a/
na definição tanto dos
uiunfo do socialismoe do comunismona Rússia,como tambéma explícita
limites como das possibilidades de ação dos "Estados", das "nações", das
dúvida de Lênin em relação ao futuro do socialismo na URSS, a despeito de
sociedades",mas também dos movimentos, das lutas e das transformações
uma revolução socialistauiunfante na Europa ocidental.20
de toda ordem que ah acontecem.
-- x7 Essa situação no sistema-mundo não é, então, apenas um elemento do
Tal geografia tripartite e diferencial do sistema-mundo permite explicar
'contexto externo'' à "nação", ou um fator adicional a considerar "ao lado'' dos
por que, por exemplo, na segunda metade do século XIX, toda a Europa
processos "internos" que seriam os mais importantes, mas uma dz/weíâo rf#Au/
conheceu a presença e o crescimento de fortes movimentos operários e
de todos os processose movimentos do sistema-mundo. Por isso, para entender
socialistas, ao passo que o socialismo apenas se encontra muito debilmente
Chiapas, é necessário partir do fato de que o México e a América Latina sempre
implantado em amplas zonas da Ária, da Ãfrica ou da América Latina. No
foram, por via de regra, parte da periferia do sistema-mundo e, portanto, países
outro extremo, explica também por que os movimentos nacionalistas,de
e regiões onde os estados nacionais são frequentemente débeis, onde as
libertaçãonacional ou antiimperialista,foram tão fortes e tão essenciaisem
burguesias são recentes e sempre inclinadas ao compromisso e à abdicação,
toda a história recente dessastrês zonas majoritmiamente periféricas acima
onde o desenvolvimento da democracia é sempre incompleto, disforme e parcial,
mencionadas,quando seu papel na Europa ocidental ou nos Estados Unidos
foi inexistente ou claramente menor. e onde o respeito aos direitos humanos, às condições de cidadania,ao estadode
direito ou à aplicação da justiça e à exigência de seu cumprimento acaba sendo
Do mesmo modo, é essadistinta inserçãono sistema-mundo que permite
realidade mais que imperfeita e apenas potencialmente vigente.
explicar por que, por exemplo, apesar da radicahdade do proletariado russo e
Assim, desde o conhecido "obedeça-se, mas não se cumpra'' do período
da enorme ]ucidez de a]gunsde seuslíderes,como Lênin ou SverdloX o pro)eto
colonial até o anuale ilegítimo descumprimento dos Acordos de San Andrés
do "socialismoem um só país" acabase tornando um prometoinviável
por parte do governo federalmexicano,ou também o triste espetáculorecente
historicamente, levando a que a revolução supostamente socialista se dedique,
do estabelecimento de diálogo com os estudantes em greve na Unam ao mesmo
na verdade, a cumprir tarefas próprias de uma revolução democrático-burguesa,
tempo em que ocupa o ín/?Pwle os recintos universitárioscom a polícia, a
e que a União Soviética termine por ser, por meio da Terceira Internacional, a
líder mundial dos movimentos de libertação nacional e antiimperiahstaantes
mencionados. 20 Cf. o texto de Man citado na nota 16, ou toda uma sériede ensaiosescritos depois do
triunfo da revolução bolchevique em outubro de 1917 por Lênin, incluídos em suas
19 Sobrea história dessesmovimentosanti-sistêmicos,cf. Giovanni Arrighi, SamirAmin, OónnfCa/l@/?üi,por exemplo: "La economia y la poética en la épocade la dictadura del
André Gunderfrank e Immanuel Wallerstein.Lf gnn#d/#mwae?
l.,ei ma me/l iaaax proletariado". Para a caracterização mais ampla dessaproblemática por parte do próprio
da#r/ka amü-mande.Paras:La Découverte, 1991; e, também, Giovanni Arrighi, Terence Immanuel Wãllerstein, cfl, por exemplo, "Semiperipheral countdes and the contemporary
Hopkins e Immanue]Wa]]erstein.Àfa&zm/e
/aí a /?llü/ó irai. N]adri:Aka], 1999. Sobre world crisis", TZf óa@zZaZzl/
warZU+raamg, aP. íü, "Socialist states: Mercantilist strategies
o futuro desses mesmos movimentos, cf. Immanuel Wãllerstein. ':A left politics for the and revolutionary objectives", TZe.pa#iüxog /úewa/ZU.úro#omg,
aP.íü e também "Marx,
21st century? or Theory and praxis once again", na seção "Papers" do n/edo Fernand mal:xism-leninism and socialist experiences in the modero world-system". /#: Geapo&ácx

Braudel Cenrer(http://wwwbinghamton.edu/fbc). aKd geoç!t w, oP. cit.

162 PapirusEditora América Latina: História e presente 163


condição periférica e semiperiféricade nosso país, e por extensãode todo pobres e até miseráveis, e, por conseguinte, como uma economia invertebrada,
nosso "semicontinente" latino-americano,se faz presentede maneiragritante. frágil e altamentevulnerável.':
Tal condição predominantementeperiférica explica por que as Estruturalmente dependente e internamente muito polarizada e desigual,
reivindicações principais dos indígenas chiapanecos.panPrem
ier, à primeira essa economia atravessae explica desde a Argentina rica dos anos 30 do
vista, pouco radicais e anta-sistêmicas.Porém, ao olha-las de uma perspectiva século XX até Argentina prostrada e em crise de hoje, ou da Nova Espinha
mais profunda, revelam que, ao inscrever as exigências de "liberdade, ou do Brasil colonial dos séculos XVI a XVlll, respectivamente, ao México
democracia, justiça e paz'' como parte de suas bandeiras centrais, os e ao Brasil de nossos dias.
neozapatistas estão defendendo uma série de demandas radicalmente Por isso, as demandas aparentemente elementaresde trabalho, terra,
/ ra/pa/üeü com as políticas neoliberais e de subordinação e entreguismo feto, alimentação, educaçãoe independência são revolucionárias na anualordem
total que hoje praticam os estados latino-americanos, e, em conseqüêncta, económica latino-americana e mexicana, pois seu cumprimento integral
nessecontexto de uma periferia de débil desenvolvimento de suasformações implicaria o abandono das atuais políticas privatistas e neoliberais, que
políticas, demandas que se tornam completa e absolutamente subversivase favorecem as zonas e os estratos ricos, enquanto abandonam à própria sorte
profundamente revolucionárias. e esquecem os grupos e as regiões mais pobres. Nelas, sobrevivem 60 milhões
Lutar para que a liberdadeimpere no México e na América Latina, de pessoasabaixo do limite da pobreza extrema no Médico, )unto com os 24
respeitar o exercício pleno e o desenvolvimento integral de uma vida democrática, mexicanos bilhardários incluídos na lista da revista Hor&eí,os quais seguem ao
fazer valer rigorosamente o estado de direito e a aplicação da justiça, ou, por pé da letra as políticas do FMI, ainda que isso implique o aumento do escândalo
último, eliminar as múltiplas guerras de baixa intensidade que se mantêm contra do desemprego, dos êxodos rurais, das crises de subsistênciapopular, da
os oprimidos de todas essasregiões são atitudes que implicariam enterrar de deterioração dos níveis de vida, da elitização e do desmantelamento das
vez e transformar estruturalmente o anual sistema político latino-americano. universidades públicas ou da subordinação desses países latino-americanos
Sistemaimpregnado de bizarros traços como a eterúzação no poder de um aos centros âlnanceiros e económicos dominantes.
único partido, a crescentesimbioseentre o domínio político e a corrupção, a Por elementares ou simples que pareçam à primeira vista, essas
cooptação sistemática e a domesticação das oposições que se tornam "leais" demandas económicas dos neozapatistas são irrealizáveis sem uma outra
quando chegam ao poder, ou também do cada vez mais frágil equiHbrio de revolução paralela do atual modelo económico que, há um quarto de século,
dominação dos distintos setores da classepolítica governante, que abre espaço foi imposto ao México e a toda América Latina.
para os presidentes de que grande parte da Amédca Latina padeceu nos últimos
15 ou 20 anos.Assim, as demandas"políticas" dos zapatistasatuaissão ü;aappü
sem uma revolução da ordem política vigente no México e na América Latina, Não nos atraem os cantos de sereia e de anjos que nos franqueiam
e por isso são demmdas claramente revolucionárias. acessoa um mundo que... oferecefama em troca de dignidade
Como o são também suas demandas "económicas", de exigência de
;trabalho, terra, teto, alimentação,saúde,educaçãoe independência", demandas Outra posição importante da perspectiva da "world-system analysis:
que também apontam para essacondição maioritariamente periférica da América refere-se a sua avaliaçãoe crítica da "estratégia global" que tem seguido
Latina e do México e para suas exacerbadas manifestações mais recentes. diversos movimentos anta-sistêmicos na luta pela conquista de seusobjetivos,
A América Latina é, sem dúvida, do ponto de vista económico, a durante o vasto período que vai desde 1880 até aproximadamente1968.

civilização mais í/@edp /? dp /adaa.p/a#e/a.Construída desde a origem como


prometocivMzatório, iniciado há cinco séculos,como uma economia que devia 21 . Cf a caracterização que Fernand Braudel fez da civilização latino-americana no capítulo
funcionar pane oí re#/m.ído sistema-mundo e em função deles, essa civilização XX de seulivro Lmaü#Zaab ei ar/#aér.Madri: Tecnos, 1978;e também Carlos Antonio
acabou connlgurando uma economia sempre desarticulada, fragmentada, com Aguirre Rolas. "Fernand Braudel y la historia de la civilización latino-americana
zonas de desenvolvimento económico muito alto junto a espaçosmarginais À4a#doNapa, na 78 (1997).

164 Papirus Editora AméricaLatina:Históriae presente 165


Ao examina em perspectiva temporal ampla os itinerários percorridos a conquista da ''verdadeira soberania nacional" ou simplesmente a construção
por essesmovimentos anta-sistêmicos,
Immanuel WMerstein acreditater detectado de um "socialismo francês" ou "espanhol", ou a superação da troca económica
neles um traço comum, e persistente, que se resume na definição de uma esüatégia desigual, a eliminação das zonas de influência e domínio geopolíticas e
concebida em duas etapas sucessivas.Ao ser elaborada, no marco de referência geoestratégicas desta ou daquela parte do planeta.
do "Estado-nação",essaestratégiacolocou como.P/íwe#p objetivo a cumprir, ou Em todos essescasos,a explicaçãoparaos giros ou "desvios"do
primeira etapada luta, a conquistado poder estatalou a "tomada do poder" no objetivo proposto deve ser construída de acordo com a análisedo sistema-
interior do marco nacional, etapa que, depois de realizada e apenas em uma mundo, com baseno reconhecimento de que, no médio e no longo prazos,e
segunda fase, poderia dar lugar ao tão andado objetivo geral de "mudar o mundo", para além das intenções, das vontades e até do heroísmo desses movimentos
de "trans6ormm radicalmente a sociedade'' em toda sua complexidade. e de seusparticipantes, acabou por impor-se 6lnalmente a á@lía.gZoóa/do
iú/ema-
Assim, tanto os movimentos socialistase comunistasquanto os mw#da,a qual, depois de "assimilar'' o impacto de todas essas revoluções nos
movimentos social-democratas,os movimentos nacionalistas, antiimperialistas diferentes países, volta a submetê-los e a reintegrá-los em suas engrenagens.
ou de libertação nacional, todos se impuseram comop/ú eznatarefa conquistar O que nos remete de novo à tese anteriormente mencionada: se não
o poder do Estado em suasrespectivasnações.Numa signinlcativamaioria se altera o sistema-mundo em conjunto, as mudanças de suasdiferentes "peças:
dos casos,todos triunfarão no logro dessaprimeira etapade sua estratégia ou "partes" constitutivas -- nesse caso, as diferentes nações que o integram --
geral. Mas, ao contrário, e praticamente sem exceção,todos fracassarãona permanecem estruturalmente limitadas quanto à possibilidade de avanço por
execução da segunda tarefa: a de modiâlcar de maneira radical e substantiva -- essalógica profunda do sistema todo, lógica que, nessecaso, é a da própria
até o ponto em que haviam projetado e proposto antes de sua chegada ao reprodução capitalista.
poder -- as sociedades ou as nações em questão. Então, e por radicais que sejam as tentativasde mudança,e ainda
Assim, de acordo com a interpretação do autor de O ;ü/?ma-mx#do quando as distintas revoluções triunfantes protagonizadaspor esses
madefea,
todos os movimentos anta-sistêmicos que chegaramao poder nos movimentos anti-sistêmicos -- sejam eles socialistas, social-democratas ou de
últimos cem anos, terminarão por mudar profundamente sua política e seus libertação nacional -- tenham efetivamente conseguido mudar.priZów#dame#/e
o
objetivos originais, retardando as transformaçõesprometidas, moderando as destino de suas respectivas sociedades ou nações, não obstante tudo isso, o
demandasmais radicais das massase restabelecendo,muito mais do que sistema-mundo global permanece capitalista, e continuam a existir as relações
qualquer um deles aceitaria admitir, muitas práticas e estruturas da velha de interdependência entre os estados e a desigualdade crescente entre centro,
ordem criticada e depois subvertidapor essesmesmos movimentos anta semiperiferia e periferia, as relações de dominação e avassalamentoentre
sistémicos." estados e nações, a hierarquia e desigualdade políticas, sociais, económicas e
Desde a própria URSS, seguindo-se a China, a Europa oriental, Cubo, culturais entre os paísese as zonas de todo o planeta e no interior deles.
o Vietnã ou a Nicarágua,até os casosdo México, do Peru, da Turquia, da Com essediagnóstico da história dos movimentos anti-sistêmicosno
Argentina, da Argélia, da índia, da França, da Espinha ou da Grécia, entre mundo, Wallerstein chega à conclusão de que o primeiro objetivo de tais
tantos outros, em todos eles, acabou desvirtuando-se e postergando-se para movimentos na situação anualjá não deve ser a "tomada do poder" estatal ou
um futuro indeRlnido a chamada "passagem ao comunismo'' ou a repetida nacional, mas, antes,potencializar e amparar a transformação global do
;aboliçãototal do capitalismo", a "independênciaeconómicae política total", sistema-mundo em sua totalidade. O que, ademais, não exclui que, em
determinadascircunstâncias,os novos movimentos anti-sistêmicospossam
tomar o poder neste ou naquelepaís, porém, sem considerar isso como um
22. Além dos nababos já mencionados na nota 19, ct ImmanuelWIJlerstein. "Eurocomunism:
objetivo em si mesmo, e sem al /Z#iàr anteriores das reais possibilidades de
Its roots in European working dass histoty", "Nadonabsm and the world transition to
socialism: is altere a crises?",e "Revolutionaq movements in the era of US hegemony and
mudança radical que tal conquista do poder encerra. Uma postura que,
after". ]k TZePa#ücx a# /ge iParúÉfroeomg,ap. ü; l&m. "EI CNA e Sudállica; Pesado y inevitavelmente, lembra as agudas reflexões de Marx em torno da necessidade
presente de los movimientos de libeíación en el sistema-mundo". CZá@m,nQ7(1999).

América Latina: História e presente 167


166 PapirusEditora
de que a revolução comunista não fosse limitada a um espaço local, nacional Assim os neozapatistasnos recordam, atualizando novamente para todos
ou até continental, mas de alcances ou dimensões antes.p&#eü/z a m z#aüa nós, a velha lição de Marx, segundo a qual o nível do político não é nem.Pzü?üía
A redefinição radical do objetivo primeiro da luta, e igualmente de sua jamais um nível auto-suficiente ou auto-explicativo, dado que esse"político", em
estratégiaglobal, irá implicar também, necessariamente,questionar as velhas geral, não é mais que uma forma "transfigurada" e "condensada"do próprio
formas de organizaçãopartidária e as antigasdemandas consagradaspor social.2SOs indígenas mexicanos apostam, então, mais que na criação de um
essespartidos, resgatando todos esseselementos desde as experiências vividas enésimopartido político ou na participaçãonasnegociatasde segmentosou espaços
entre 1880 e 1968.24 dessemesmo poder político, na promoção da criação de sólidos e potentes novos
movimentos sociais. Essas novas corças e movimentos sociais bem organizados e
Trata-se,portanto, de redefinir as prioridadese os objetivos dos
conscientes, dando expressão a essareüdade um pouco amorfa e desestruturada
movimentos anti-sistêmicos,assumindo que o objetivo geral é, como já
que é a "sociedade civil", devem ser capazes de pressiona por suas demandas
mencionado, promover e contribuir para a transformação, já em curso, do
especíâcas, impondo sua presença e força coletivas para a defesa de seus interesses,
sistema-mundo como um todo, recusando o caminho de sua substituição por
e oó/azedoassim os políticos e a política em geral a volta a "servi?' ao social, a
outl:o sistemaigualmente injusto e explorador, e contribuindo para o surgimento
vincular-se a ele diretamente e a leva-lo em conta, novamente, como fonte
de um novo sistema histórico igualitário, Justo e livre, onde não exü/a nenhuma
alimentadorapl:incipal e como marco geínl de sentido.
forma de exploração económica, de dominação política ou de discriminação
social de qualquer tipo. Invertendo, pois, a lógica perversada maior parte dos políticos
proâlssionais mexicanos e latino-americanos, que desejam subordinar o social
Esseconjunto de tesesfortemente polêmicas, porém também altamente
ao político, e transcendendo a ilusão doentia de buscar o poder pelo próprio
sugestivas,reencontramos de alguma maneira ao analisarmos mais de perto
poder, os indígenas rebeldes do sul de Chiapas reivindicam sua bandeira de
certas posturas dos neozapatistas chiapanecos.Estes últimos têm proclamado
"mandar obedecendo", ou seja,sua idéia totalmente incompreensívelpara os
que seu objetivo não / a tomada do poder, fazendo chacota ao dizer que o
"politicólogos" modernos do México e da América Latina de que os governos,
PalácioNacional do México, a sede simbólica do poder estatal, é demasiado
os poderes,os partidos e os representantespolíticos têm sempre de atuar
feio e insosso, e impondo um veto explícito a seus seguidores ou simpatizantes
ajustando suas ações às exigências das forças sociais que os elegeram ou
mais próximos quanto a ocupar postos políticos públicos.
levaram ao poder, respondendo aos interessese às demandas dos movimentos
...--D Ao desmitiRlcara busca do poder político pelo próprio poder, cada e grupos sociais aos quais pretendem "representar'
vez mais frequente, mesmo em amplos setoresdos partidos da esquerda
Os neozapatistas transformaram também as formas de organização e
mexicana e latino-americana, os neozapatistas defendem um ponto de vista
de luta, a estrutura de seu movimento, sua política para a sociedadee para
que, no fundo, caminha no sentido de reivindicar, mais uma vez, a "necessária
outras posições de esquerda, e também o caráter de suas demandas particulares.
reinserçãodo político no social" e, em conseqüência,a obrigatória subordinação
Fizeram isso ao mudar o objetivo primeiro, que já não é a tomada do poder,
da dimensão política à dimensão social.
mas a criação de um amplo, forte e organizado movimento social, capaz de
exigir e impor seus interesses e demandas específicas.
23. Ainda que Maíx tenha deixado em aberto esseproblema, sualinha de raciocínio parece
Assim, os rebeldes indígenas do Exército Zapatista de Libertação
apontar para a impossibilidade ou a enorme dificuldade de uma revolução comunista
que abarcasseapenas um ou poucos países, ainda que se tratasse de países mais Nacional(EZLN) têm lutado para criar um movimento social / óZadz,aePZ#xa4
desenvolvidos em termos capitalistas.Cf. Karl Marx e F. Engels. l.ú /apaZZgü
a&wa#a.
México: Findo de Cultura Popular, 1974
24. Para a crítica dessas formas de organização, dessas demandas e desses objetivos dos 25. Essaidéia brilhante exposta por Marx e que não perdeu nadade suaforça seencontra,
movimentos anta-sistêmicosanteriores, cf. Immanuel Wallerstein. "1 968: Revolución por exemplo, no livro Lz zHeaZ:gú a/?macia,oP.éü, e também em À4ã#/ü dz ü#Zoig#u.
en el sistema-mundo.Tesisy interrogantes", aP.óü. Parauma proposta positiva das México: Sigla XXI, 1978, livros que nossos especialistasem ciência política anual
possíveis#auufformas de organizaçãoe de luta etc., ainda em discussão,cf. ':A left deveriam ler ou reler, para poder compreender adequadamente algumas das
politics for the 21st ventury? or Theory and praxis once again", aP.óü reivindicações centrais do movimento neozapatista.

168 PapirusEditora América Latina: História e presente 169


um "mundo no qual caibam todos os mundos possíveis", e para onde possa Distanciando-se criticamente das fáceis e superficiais "teorias da
confluir todo o vasto espectrode grupos,classes,setorese membrosda globalização", atualmente em voga, as quais pretendem caracterizar os últimos
sociedadecivil oprimida politicamente, discriminada socialmente e explorada 30 anos como uma nova etapada "globalização",Wallersteinirá insistir, ao
economicamente. Um movimento que, em alguma medida, lembre as "coalizões contrário, que não se trata de mais uma etapa que se agrega linearmente às
arco-íris" dos Estados Unidos e de outros paísesou a "esquerda plural'' anteriores do percurso histórico do sistema capitalista, mas da etapa ePeíü4
francesa, e que se reflita claramente nas longas listas de categorias às quais se axexüno/z##'ína,
que se apresentaapenasuma única vez na vida dos sistemas
dirige o subcomandante Marcos em seuscomunicados, as quais incluem as históricos: sua etapade6ínitivamenteconclusiva ou terminal e, ao mesmo
donas de casae os intelectuais e operários, tanto quanto mulheres, estudantes, tempo, a fasede ingresso na tal situação de bifurcação ou de escolhahistórica.27
homossexuais e camponeses, entre muitos outros. SÓ assim é possível entender a excepcional de#idadoózlf/ancados
Esse movimento, com uma estrutura organizativa flexível e pouco processosque temos vivido desde 1968 até hoje, pois, nos 30 anos dessa
hierárquica, desburocratizadoe muito aberto à participação de todos os suposta etapa de bifurcação ou período da desestruturação progressiva da
membros, é, antes de mais nada, a antítese das velhas e rígidas estruturas economia-mundo capitalista, superpuseram-se manifestações de quatro
partidárias tradicionais, ainda hoje existentes.Um movimento que procura processos relevantes que, estando conectados e potencializando-se
avançar na criação de uma verdadeira "frente ampla" dos oprimidos intento mutuamente, explicam parcialmente o fenómeno do movimento rebelde em
ainda não concretizado -- e que, apesar de seu caráter inclusivo, aberto, tolerante Chispas, mas também a turbulência e a complexidade de diversos fatos
históricos que vimos presenciando nas últimas três décadas.
e plural, deverá manter de qualquer forma seu claro pernacrítico, contestatório,
anta-sistêmicoe revolucionado. Assim, essaetapa é marcada, em primeiro lugar, pela franca decadência
da hegemonia norte-americana, posta em ação no planeta entre 1945 e 1968
1973. Até o final dos anos 60, essahegemonia não teve rivais importantes
O EZLN é, agora e para sempre, uma esperança. nem no plano mihtm, nem no económico, nem no geopolítico ou internacional,
E a esperança,como o coração,está do lado esquerdodo peito mas começou a declinar irreversivelmente a partir da heróica vitória do povo
vietnamita. Essa perda de força na inumação hegemónica se faz evidente,
Outra proposta importante na qual Immanuel W:ülerstein tem insistido por exemplo, na guerra do Golfo Pérsico, na qual os Estados Unidos podem
repetidamente, e que pode colectar-se criativamente com a explicação do apenastentar impor ou manter sua posição dominante, mediante o apoio e o
fenómeno do movimento de insurgência indígena em Chispas, é a que se refere concurso de várias nações européias e do Japão, para acabar colhendo o
à caracterização da situação pela qual passou o sistema-mundo capitalista depois magro resultado de uma conquista apenas temporária e ainda não muito
das importantes crises de 1968 e de 1972-1973 até hoje. Ou seja, a tese que clara sobre as forças iraquianas.'
derme os últimos 30 anos, como a etapa em que o sistema-mundo entra numa Junto com o declínio da hegemonia mundial norte-americana,a etapa
nova fase de existência histórica. Fase que seria a fase#aa/ do longo percurso de bifurcação hoje vivida é também, em segundo lugar, a etapafinal do mais
perconido por tal sistema-mundo capitalista, e no qual haveria já começado
seu processo de desestruturação como sistema, processo de irreversível 27. Paraa crítica desseconceito inventadopelos meios de comunicaçãoe muito fácil e
esgotamento histórico, determinado por seu ingresso no que a perspectiva da acriticamente aceito por uma grande parte dos cientistas sociais anuais,cf. Immanuel
"world-system analysis" chama de uma clara izZxapâo de &gl%/l;é
râó ,8ü/órzcn.26 Whllerstein."Globalization or The age of transition? A long-term view of the trajectory
of the world-system", incluído na seção"Papers" do izZzdo Fernand Braudel Center,
antes referido.
28. Para a explicação de Immanuel Wãllerstein sobre o significado mais global da guerra do
26. Essa tese, importante nas propostas mais recentes de Immanuel Wallerstein, encontra-
Golfo Pérsico e da confrontação entre SaddamHussein e os Estados Unidos, ver seu
se desenvolvida e implícita em inúmeros ensaios e obras. Por exemplo, cf. Immanuel
artigo "EI colapso del liberalismo", aP.aA, e também os comentários número 4 e
Wallerstein. Deg)#á de//zóenailíma.
México: Siglo XXI, 1996; /dpm.TZeagf aÍ auaíllü#. número 6, incluídos na seção "Commentaries" do il/? do Fernand Braudel Center,
trayeçtoO oÍ tbe wertd-s)item 1945-2025, aP. ãt.
publicados em novembro e dezembro de 1998.

170 PapirusEditora América Latina: História e presente 171


recentemente no preocupante e escandaloso caso da escolha de um governo
longo ciclo global da economia-mundo,que se estendede aproximadamente
de ultradireita na Austria -- como também no novo pensamento de esquerda,
1870 até hoje. Entre 1870 e 1914/1929, a disputa entre Alemanha e Estados
mais autónomo e radical, e que se constrói conscientemente como alternativa
Unidos pela hegemonia no sistema-mundo acaba por ser decidida em favor
diversa a tal consenso liberal.
dos Estados Unidos, na longa guerramundial ou nova guerrados 30 anos,
que vai de 1914 até 1945, ou se)a,desde o início da chamada Primeira Guerra Finalmente, em quarto lugar, essaetapa é de bifurcação ou escolha
Mundial até o flm da Segunda, que, na opinião de Wallerstein, são apenas um histórica porque constitui também o final do longo ciclo histórico do sistema-
único processo estrutural. mundo, que começou no 6lnal do século XV e se prolongou até o momento
atua[.Ta] situação de bifilrcação ou de verdadeiraó7üeiü/âwícnda economia-
Assim, se a fase inicial desseciclo corresponde à disputa entre Estados
Unidos e Alemanha, sua fase terminal, iniciada em 1972-1973, é claramente mundo e do sistemamundo capitalistasnirá se expressar,então,em todo o
a da disputa entre Japão, de um lado, e, do outro, a Europa ocidental em vias tecido social, incluindo tanto a anualcrise económica provocada e aprofundada
de unificação, para ocupar o posto que os Estados Unidos foram perdendo. pelo 6lm da desruralização do mundo, pela irrupção do custo ecológico para a
sobrevivência e a reprodução do sistema e pela progressiva queda da taxa de
Esse processo complexo do âundo ciclo hegemónico norte-americano explica
a intensa e feroz batalha económica pela conquista dos mercados mundiais a lucro como também a já referida crise política, que fez surgir um Estado
que se assiste nas últimas três décadas. subjugado pela crise fiscal. Estado que, ao mesmo tempo em que executa cada
vez menos e privatiza cada vez mais suas tradicionais ftlnções e tarefasnos
Em terceiro lugar, e como já dissemos,essaetapa recenteda
campos da saúde, da segurança e da educação,'' aumenta impostos e exigências
equivocadamentedenominada "globalização'' corresponde também à etapa
à população, numa corrida sem sentido que, apesarde tudo, é estruturalmente
terminal do ciclo de vida do liberalismo como cultura dominante do sistema
incapaz de deter o progressivo aumento da radical democratização profunda
mundo. Essa fase, iniciada em 1789, desestrutura-sediante de nossos olhos
desde 1968. da vida pública em todas as nações desse sistema-mundo capitalista.
Tal crise económica e política do sistema-mundo é também uma crise
Tanto a partir do "neoliberalismo",que, para além de suaretórica, é
cultural e do sistema dos saberes,de longo alcance e de grande profundidade.
no fundo raivosamente antüiberal, quanto a partir da crítica e da denúncia
Em sintonia com essasituação de bifurcação histórica, e com base nos efeitos
realizadaspor todos os movimentos da nova esquerdapós-68, o liberalismo
da revolução cultural mundial de 1968, não apenaso liberalismo tem-se
será cada vez mais deslegitimado, substituindo a suposta harmonia da
deslegitimado como consenso cultural dominante, cedendo lugar a uma
competição económica do livre câmbio pela depredação económica do novo
situação de claro combate ideológico aberto e geral, mas também inicia-se
capitalismo selvagemneoliberal, e colocando no lugar do Estado garantidos
da ordem ou regulador e impulsionador dos equiHbrios gerais o Estado político uma reestruturação total dos principais mecanismos de reprodução cultural,
corrupto. Estado que foi penetradopor maniase grupos de interessesilegais
e convertido em simples máquina do uso indiscriminado e ilegítimo do 30 Sobre o uso rei»z/a do conceito de m)e, que Immanuel Wallerstein tem defendido
monopólio da violência contra os movimentos anti-sistêmicos e dos oprimidos contra a maior parte dos cientistas sociais,ver Immanuel Wallerstein."Crises: The
9
em geral. world-economy, the movements, and the ideologies". J#: Cdíei / /úf wa/ü/-gí/em.
Bever[y HiHs: Saga, 1983; idem. "La crisis como transición". /#: ])/#,ímicn de /a é7úe
Durante as últimas uês décadas,então, assistimosao sepultamento g/o&aZMéxico: Siglo XXI, 1987, e também a "Introdução" e o capítulo l de E/aodzma
das premissas reais da vigência do liberalismo como consenso geocultural íár/em,zm l& Z México: Sigla XXI, 1984, tomo ll.
dominante no sistema-mundo. Em seu lugar, emergem tanto um pensamento 31 No momento em que acabo de escrever esseensaio, o Estado mexicano decide ocupar

conservador na nova direita militante que voltou a manifestar-se a Universidade Nacional Autónoma do México com a polícia federal, em mais um ato
de autoritarismo e de conâssão involuntária de suaincapacidade de satisfazer asdemandas
legítimas da população; nesse caso, a necessáriagmtuidade total da educação pública supedoí.
Daí que não sejam nem um pouco casuaisnem o vasto apoio popular a essaslegítimas
29. Para uma aguda e interessante descrição da fenomenologia dessacrise generalizada dos
demandas do movimento estudante mexicano de 1999-2000, nem a solidariedade dos
Estados modernos, por todo o sistema-mundo,ver Immanuel Wallerstein. U2aPü#ca
o
&; aPa'a fr óü/ónaaJ de/ ;ÜÓ XX7. México: Siglo XXI, 1998. indígenas neozapatistascom essaluta estudantil e popular da vinda do milênio.

172 Papirus Editora Améríca Latina: História e presente 173


Tratado de livre Comércio, que foi imposto ao México pelos Estados Unidos,
que abarcam desde os modelos da vida cotidiana e familiar até o papel e o
caráter do aparato escolar, dos meios de comunicação e de todo o sistema de e cujos efeitos de desindustriahzação, desemprego, miséria e desmantelamento
económico têm levado ao padecimento de sua população nos últimos anos.
saberes, das ciências e das disciplinas vigente até antes de 1968.32
Por outro lado, é claro que a crise cultural, o âim do consensoliberal e l
Por último, como parte dessacrise social sistêmicado sistema-mundo,
também vão se reestruturar e renovar radicalmenteos movimentos anta a revolução cultural em curso explicam em parte a possibilidade do nascimento l
e da anlrmaçãode um movimento indígenade i2@a
#oz'o,que, ao mesmo
sistêmicos atuais, abandonando progressivamente, por exemplo, sua antiga
tempo em que questiona valores e códigos culturais da modernidade capitalista,
atitude sectária e seushorizontes limitadamente nacionais, para adotar posições
é capazde ensaiar e propor novas práticas, atitudes, linguagens e significações,
mais tolerantes e inclusivas, ainda que não menos radicais, e posições cada
tanto para a atividade cotidiana e para as relações sociais de suas próprias Y
vez mais solidárias e genuinamenteinternacionalistas."
comunidades como para as formas de organização e luta anta-sistêmicasem
Ao caracterizar assim, nessasquatro dimensões, a situação de bifurcação
curso. Não é por acaso que o forte movimento indígena neozapatista e o
aberta desde o período de 1968 a 1973, e que deve se prolongar por 30 ou 50
grupo originário fundador do quevirá a ser o Exército Zapatista de libertação
anos, Immanuel Wallerstein fornece uma série de pistas que auxiliam a Nacional sejam ambos frutos diretos da conjuntura que, no México, abre-se
compreendero caráter e a trajetória especí6lcado movimento chiapaneco com os trágicos acontecimentos do movimento estudantil de 1968.34
neozapatista.Sob essaluz, 6lcaclaro que tal movimento é também, entre muitas Pelo fato de inscrever-se na crise histórica, a situação de bifurcação
outras coisas, mais uma das muitas expressões do desa6loplanetário à declinante permite ao movimento indígena chiapaneco do EZLN -- assim como ao
hegemonia norte-americana, desa6lo que, com desfechos muito desiguais, inclui 'Movimento dos Sem-Terra" no Brasil e ao movimento indígena equatoriano
tanto a experiência do Chile socialista de Allende, a invasão iraquiana do Kuwait, e a outros movimentos anta-sistêmicosna América Latina e no mundo --
as revoluções vietnamita, portuguesa e nicaragüense, a resistência cubana ao constituir-seem um movimentosocialde novo tipo, e, portanto, em parte
injusto bloqueio económico norte-americano,como também as estranhas dessa família mundial da resistência planetária ao novo desastre neoliberal
experiências da oposição no Panamá, no Irã ou na Argélia, entre tantas outras. capitalista, cujas características vimos resumindo.
Essas variadas expressões de desato ao desenho autoritário da geopolítica Por isso, quando Wallerstein, seguindo llya Prigogine, lembra-nos de
mundial norte-americana, de todos os signosideológicos e de diversos enfoques que o singular das situações de bifurcação está no fato de que, nessesmomentos,
sociaise culturais,tomam em Chiapasa forma de protesto aberto contra o açõesmuito pequenas podem ter grandes efeitos sobre o sistema todo, pode-
se compreender como uma revolta indígena desenvolvidaem um estado
32. Sobre o caráter dessas mudanças culturais gerais referidas, e sobre seu efeito na marginal do sul pobre e esquecido do México, que havia sido massacrada,
historiogra6la, cf. Carlos Antonio Aguirre Raias. "Gli effetti del 1968 sulla storiogra6la reprimida, "enterrada" e silenciadapelo governo mexicano nos anos 50 e 60,
occidentale", .ç/ande/t#a, na 2(1998) e "Repensando las ciencias sociales actuales: EI
caso de los discursos históricos em la historia de la modernidad". l#: /ü#ennnaíde Za converte-se, em 1994, num movimento exemplar de ecos e repercussões
óü/onDE/2g}2z
de/ ;ÜZoXX. Havana: Centro de Investigación 'jluan Matinello", 1999.
planetários, que chama a atenção e a solidariedade mundial, e que se profeta
Sobre a reestruturação do sistemados saberes,que constitui uma importante linha de pelos continentes como referente simbólico da luta mundial contra a barbárie
investigação desenvolvida por [mmanue[ Wa[[erstein, cf], por exemp]o, ]mPe rar /aí capitalista e seus efeitos mais destrutivos.
d óür íoóüzZpí,
aP.aí.; ,4&nr /ar íü íü; íaaaZpí.
México: Siglo XXI, 1996; "The challenge Chiapas mostra ao mundo os efeitos mais perversos e descarnadosdo
of matudty. Whither social science?", Reüfw, vol. XM na 1, 1992; "Hay que 'impensar'
las ciências sociales del signo XIX?", Rrzúü / /zm.zófa#a/
dz C7e óür .faóü/ei, vol. XL nn
neoliberalismo capitalista e de sua crise terminal, mas também e, num mesmo
4(1988); "Social sciencein the twenty-nrst century", seção"Papers" do #/# do Fernand movimento, faz-sepresentecomo critica radical dessapolítica é dessaordem
Btaxldel Centet\ e, exnãmente, Tbe end «tbe wefid as we know it. Saáaisdençejo tbe MeBD- mundiais e como busca de saídasreais alternativas a elas.
#xl/ re#Mg. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.
33. Algo que se tornou evidente, por exemplo, nos protestos recentes veriâcados na cidade
de Seattle, no 6lnal de 1999. Sobre essesacontecimientos, cfl Immanuel Wallerstein. 34. O que foi muito bem explicado porAntonio García deLeón, por exemplo, em seu'Prólogo'
:Seatde,
or the limits of the globalizationdrive", Comentáriona 30, dezembrode ao livro EZI..rq. Doí me xure anmm/ízlül, tomo 1, @. íü, e também no algo ':A vuelta del
1999, na seção "Commentaries" do n/? do Fernand Braudel Conter. Katoom(Chiapas: A veinte açosdel Primeiro CongresoIndígena)", CZãPm,nQ1, @. aZ

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OUTROS TÍTULOS DA PAPIRUS
Se a situação de bifurcação é também uma situação de transição
histórica, ou seja,de trânsito do sistema-mundocapitalista para ox/}psistema
histórico novo, então, é claro que, como em toda transição,as características DA PALAVRAAO GESTO
agonizantes do velho sistema semisturem com os traços nascentes dos possíveis CLAUDINE HAROCHE
mundos ainda por construir. DioÁVicA E PRÁTICADE
E isso, en6un, o que o movimento neozapatista representa: a defesa e a ENSINO DE HISTÓRIA
atuahzação,hoje ainda incipiente, porém clara, dc uma lógica não-capitalista e SELVA GUIMARÁESFONSECA
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ESTADO E TEORIA POLÍTICA
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FAMÍLIAS ABANDONADAS: ASSISTÊNCIA
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À CRIANÇA DE CAMADAS POPULARES
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RENATO PINTO VENÂNCIO
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a um sistema que os deprecie, discrimina c exclui de toda participação política FRAGMENTOS DA HISTORIA
e social digna dentro de suaspróprias nações e territórios. INTELECTUAL
Como lembra Immanuel W:Jlerstein, o destino do sistema-mundo está HcLCNicc Ronnicuus DASirVA
longe de estar assegurado.Nada garante que, depois do nun do sistema-mundo NARRATIVA,SENTIDO, HISTÓRIA
capitalista, o novo sistema histórico que irá substituí-lo seja um sistema mais CIRO FLAMARION CARDOSO
Justo,livre, igualitário e melhor. Isso depende, de acordo com a perspectiva da
NOSSA GENTE BRASILEIRA
"world-system analysis", de nossa organização, de nossa consciência e de nossas
J U RAN DI R MALERBA
ações concretas a favor de um mundo onde desapareçam a exploração MAU RO BE RTON I
económica, a opressãopolítica e toda forma de discriminação social. Assim,
tampouco o destino do movimento rebelde em Chiapas está assegurado.Ele REPENSAR OS ESTADOS UNIDOS:
Pon UMA SOCIOLOGIA DO SUPERPODE
depende de nossa lucidez, de.nosso trabaho ativo e de nosso apoio e solidariedade.
DANIEL LINS
Porém, para além dos destinos de Chispas, do México, da América LOTE WACQUANT (aRaS.)
Latina e do sistema-mundo, o fato é que essa experiência protagonizada nas
VOLTAIRE HISTORIADOR
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Mancos ANTâNloLopcs
Chiapas já é uma conquista irrenunciável, uma lição e um canteiro importante
de futuros ensinamentosparatoda a família mundial dos movimentos anti-
sistêmicos que hoje, e no futuro, lutam e continuarão lutando por um sistema
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DATA : 16/03/05 PREGO: Rn