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A TEORIA DA AÇÃO DIALÓGICA

A teoria dialógica tem por objetivo, nesse contexto, auxiliar na busca pela ruptura com
o domínio da lógica capitalista, na perspectiva de ação transformadora do real. São
estas: co-laboração, união, organização e síntese cultural. Para tanto, Freire (1987, p.
96) apresenta as diferenças entre a ação antidialógica da ação dialógica que
“enquanto na teoria antidialógica, a conquista, como a primeira característica, implica
num sujeito que, conquistando o outro, o transforma em quase “coisa”, na teoria
dialógica, os sujeitos se encontram para a transformação do mundo em co-laboração.
Essa diferença mostra a importância de uma compreensão do sujeito como parte do
processo de decisão e transformação da realidade vivida. Nesta situação, mostra-se
relevante o professor/educador reconhecer e estimular o potencial de cada um no
processo dialógico, em promover a adesão da massa aos ideais revolucionários,
problematizando a realidade. Enquanto na teoria da ação antidialógica a elite
dominadora mitifica o mundo para melhor dominar, a teoria dialógica exige o
desvelamento do mundo. Se, na mistificação do mundo e dos homens há um sujeito
que mitifica e objetos que são mitificados, já não se dá o mesmo no desvelamento do
mundo, que é a sua desmistificação. (FREIRE, 1987, p. 97)
Porém, o autor adverte que, deve-se desconfiar do homem oprimido, não por ser
homem, mas pelo opressor hospedado nele. Segundo Scocuglia (2001, p. 67) “na
Pedagogia do Oprimido [o autor] postula um processo educativo para a „revolução da
realidade opressora‟, para a eliminação da „consciência do opressor introjetada no
oprimido‟, via ação político-dialógica”. Freire apud Scocuglia (2001, p. 68), infere que
O grande problema, diz Freire, está em como poderão os oprimidos, que hospedam o
opressor em si, participar da elaboração, como seres duplos, inautênticos, da
pedagogia da sua libertação. Somente na medida em que se descubram hospedeiros
do opressor poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora.
Assim, a busca pela desalienação e o rompimento com o opressor que hospedam, se faz
uma das possibilidades de auxiliar no despertar da capacidade de colaboração da massa,
mostrando esta característica como ponto relevante para a conquista da libertação. Na
ação profissional, o professor/educador pode contribuir com esta perspectiva através
de uma prática que priorize o diálogo, podendo ser compreendido como uma mediação
reflexiva que contribui à ruptura dos laços dominantes que prendem a massa às
ideologias manipulatórias. Esta ação, entretanto, não possui um prazo fixo para
começar, basta que os sujeitos sejam estimulados a iniciarem a leitura da sua existência
e história, unindo forças na luta libertadora. A ação antidialógica coloca a divisão para
manutenção do poder. A união, por outro lado, se faz um instrumento para a
transformação, e isso se dará somente através da práxis3 libertadora. Segundo Freire
(1987, p. 99) “enquanto a primeira [práxis opressora] conta com os instrumentos do
poder, a segunda [práxis libertadora] se encontra sob a força deste poder”. Por isso
Freire (1987, p. 100) enfatiza sobre a problematização do que parece normal e, tão logo,
costumeiro,
Se, para manter divididos os oprimidos se faz indispensável uma ideologia da
opressão, para a sua união é imprescindível uma forma de ação cultural através da
qual conheçam o por que e como de sua “aderência” à realidade que lhes dá um
conhecimento falso de si mesmos e dela. É necessário “desideologizar”.
No que se refere à organização como forma de luta pela libertação, Freire (1987, p. 104),
infere que “na teoria da ação dialógica, portanto, a organização, implicando em
autoridade, não pode ser autoritária, implicando em liberdade, não pode ser silenciosa”.
Pelo contrário, é o momento altamente pedagógico, em que a liderança e o povo
fazem juntos, o aprendizado da autoridade e da liberdade verdadeiras que ambos,
como um só corpo, buscam instaurar, com a transformação da realidade que os
mediatiza. FREIRE, 1987, p. 104.
Nessa organização, o professor/educador deve ter claro sua postura dialógica, porém,
não se utilizando de tal posição para manipular a situação, pois assim não haveria o
rompimento com o ciclo de opressão. Assim, Freire apud Scocuglia (2001, p. 73) afirma
que,
Se líderes revolucionários de todos os empos afirmam a necessidade do
convencimento das massas oprimidas para que aceitem a luta pela libertação (...)
reconhecem implicitamente o sentido pedagógico dessa luta. Muitos, porém, talvez
por preconceitos naturais e explicáveis contra a pedagogia, terminam usando, na sua
ação, métodos que são empregados na educação que serve ao opressor. Negam a ação
pedagógica no processo de libertação, mas usam a propaganda para convencer.
Nesse intento para conseguir o convencimento da massa, contribuindo para a
compreensão da necessidade de organização na luta contra a opressão, a ação dialógica
é a forma indicada pelo autor para a tomada do poder. A ação cultural, ou está a serviço
da dominação – consciente ou inconscientemente por parte de seus agentes - ou está a
serviço da libertação dos homens (Freire, 1987, p. 104). Segundo Scocuglia (2001) Freire
aponta que a ação cultural é um ato de conhecimento que contribui para que os
educandos assumam o papel de sujeitos cognoscentes, dialogando com o educador que
também é sujeito cognoscente. Assim, a postura ética do professor/educador mostra-
se como ponto principal neste ato que, muito mais que pedagógico, é um ato de
comprometimento com os sujeitos atendidos. No que tange à síntese cultural, Freire
(1987) discorre que na ação cultural há sempre uma forma sistematizada que atua na
estrutura social, ora visando mantê-la como está, ora querendo transformá-la. “Na
síntese cultural, não há, invasores, não há modelos impostos, os atores, fazendo da
realidade objeto de sua análise crítica, jamais dicotomizada da ação, se vão inserindo no
processo histórico, como sujeitos” (Freire, 1987, p. 106).
A síntese cultural no reconhecimento do diferente e sua contribuição na mudança se
fazem importante. Assim, de acordo com o discurso freireano o professor/educador na
sua prática diária deve reconhecer no antagônico e no diferente uma alternativa de
trabalhar numa perspectiva de superação da dominação.
Torna-se importante ponderar que essa discussão não esgota, de maneira alguma, toda
a construção totalitária em que Paulo Freire faz referente à ação antidialógica e dialógica
que se mantém, de certa forma, nas mãos dos professores/educadores como modo de
revolução.