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A Agroecologia vem sendo definida como um novo paradigma produtivo

organizado em torno de técnicas e práticas para uma produção ecologicamente


sustentável no campo do rural contemporâneo. Embasa se fortemente na recuperação
dos saberes tradicionais em um conjunto de práticas que respondem às condições
ecológicas, econômicas, técnicas e culturais de cada geografia e de cada população. As
condições históricas de sua produção estão articuladas em diferentes níveis de produção
teórica e de ação política. Como observa Leff (2002, p.37) 1, a agroecologia, como
reação aos modelos agrícolas depredadores, se configura através de um novo campo de
saberes práticos para uma agricultura mais sustentável e como uma ferramenta para a
autosubsistência e a segurança alimentar das comunidades rurais.
Ao mesmo tempo, introjeta princípios de Equidade na produção. Em suas
aplicações pontuais, a Agroecologia contribui para desmontar os modelos agroquímicos
tradicionais; mas sua ação transformadora implica a inserção de suas técnicas e suas
práticas em uma nova teoria da produção (Leff, 1994). Como Bandeira política, a
agroecologia pretende elaborar propostas de ação social coletiva que enfrentem o que
considera como lógica depredadora do modelo produtivo agroindustrial hegemônico, no
intuito de viabilizar a construção de uma agricultura socialmente justa, economicamente
viável e ecologicamente sustentável. Nesse sentido, como observa LEFF (2002, p. 40),
"a Agroecologia se encrava no contexto de uma economia política do ambiente", que
recupera princípios do pensamento fisiocrata, assim como recupero uma
reconceptualizam o sentido econômico da expressão "valor de uso". Todavia, mais do
que sua aplicabilidade Econômica, constitui-se num exemplo prático da emergência do
potencial ecotecnológico de uma racionalidade ambiental.

FAVARETO, Arílson. Prefácio à terceira edição. In:


Abramovay, Ricardo. Paradigmas do capitalismo
Agrário em questão. Terceira Edição. São Paulo:
Edusp, 2007.
Abramovay tomou a realidade dos países de Capitalismo avançado para
proceder a distinção conceitual entre o significado da agricultura de base familiar e
Agricultura camponesa.
A configuração da moderna agricultura capitalista se apoiou numa forma social
de trabalho e empresa específica, que é a empresa familiar, contrariando, assim, duas
tradições científicas e políticas muito fortes: a que sempre preconizou que o
desenvolvimento generalizaria as unidades produtivas baseadas no uso exclusivo ou
predominante de mão de obra assalariada, e que tem na obra clássica de Kaustsky, A
Questão Agrária, tal referência; E também a que, inversamente, via a agricultura
camponesa como modelo, como preconizado nas vertentes inspiradas em Alexander
Chayanov (página11).
Fora do campo científico, nas lutas sociais, ao longo dos anos 90, sindicatos de
trabalhadores estavam simplesmente substituindo suas bandeiras de luta (reforma
agrária direitos trabalhistas) pela reivindicação de um projeto alternativo de
desenvolvimento Rural baseado na agricultura familiar (página13).

1 LEFF, Enrique. Agroecologia e saber ambiental. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável,


Porto Alegre, v.3, n.1, jan./mar.2002.
Entre fim dos anos 90 e início dos anos 2000, o paradigma de estudos sobre a
ruralidade avançou para o entendimento de que as melhores configurações territoriais
encontradas eram aquelas que combinavam uma agricultura de base familiar forte com o
entorno sócio-econômico diversificado e dotado de infraestrutura (VEIGA 2001). O
projeto Rurbano (1999) focalizou a formação das rendas entre as famílias não urbanas
para constatar um movimento relativamente generalizado de substituição dos ingressos
provenientes das atividades primárias por rendas não agrícolas, especialmente em
virtude da crescente interpenetração entre os mercados de trabalho tradicionalmente
qualificados como urbanos e Rurais: daí por diante o rural não poderia mais ser
reduzido ao agrícola. Essa nova forma de diversificação da atividade econômica do
mundo Rural brasileiro, notada especialmente no âmbito da agricultura de produção
com base familiar despertou, de imediato, o interesse pela explicação das causas dessa
nova vitalidade do mundo Rural.
Esta nova forma de compreender o rural, explorando suas articulações
territoriais e interdependências com o urbano, passou a ser uma marca distintiva dos
principais estudos e programas de pesquisa que inauguraram a década seguinte. Como
observa Favaretto (2007), se, sob o ângulo empírico, o rural apresenta cada vez mais
injunções com o urbano, uma questão fundamental seria compreender de que maneira
isto ocorre e, do ponto de teórico, identificar qual seria seu poder explicativo. Nesse
sentido, duas questões sobressaem: qual é o novo lugar da agricultura e do rural nas
sociedades dos países de Capitalismo avançado? O que as novas relações entre o rural e
o urbano revelam sobre os processos de sociabilidade? Quais são os os traços
constitutivos e como se reestruturam as dimensões de conflito no mundo Rural
contemporâneo?

No pós-guerra estrutura-se um debate teórico e político em torno da questão agrária


brasileira, tendo por justificativa imediata a necessidade de uma Reforma Agrária
ampla. Esta questão é levantada, sob diferentes perspectivas, por atores políticos e
sociais com certa tradição nos conflitos agrários brasileiros, como o Partido Comunista
Brasileiro (PCB), setores reformistas da Igreja Católica e a Comissão Econômica para a
América Latina (CEPAL). De um lado temos o Partido Comunista Brasileiro, que pela
reflexão de várias tendências dos seus intelectuais orgânicos ou mesmo de fora de seus
quadros, como é o caso de Celso Furtado; formularam à época aquilo que se
interpretava como cerne da questão agrária: uma dificuldade grave para o
desenvolvimento industrial capitalista face ao atraso das forças produtivas e relações
sociais agrárias. Por seu turno, a Igreja Católica foi fundamental para abrir espaços às
lutas de organização do sindicalismo rural no Brasil e também manter a luta pela
Reforma Agrária na agenda política do Governo Goulart. À direita do movimento em
prol da Reforma Agrária, posicionava-se o grupo técnico-político que defendia a
modernização técnica da agropecuária brasileira, sem reforma agrária. Este grupo tinha
na figura do Prof. Delfim Neto, da USP, seu principal formulador e depois executor,
como Ministro de Fazenda no governo militar, de 1967 a 1973. Com o Golpe Militar de
1964 derrota-se o movimento pela Reforma Agrária e a Questão Agrária é remetida à
solução pela modernização técnica. Este projeto é assumido integralmente pelo grupo
paulista liderado pelo Prof. Delfim Neto.
O retorno da Questão Agrária à agenda política somente se dará com o fim do
Regime Militar e o subsequente processo da democratização. A Igreja e a esquerda
organizada em Partidos continuam a apoiar a Reforma Agrária, mas perderam
protagonismo. A força motriz em favor da reforma agrária hoje está nos movimentos
sociais.
No meio rural, evidências sobre a necessidade de “modernizar-se” apareciam
nos debates sobre a integração dos imigrantes (principalmente europeu) que, segundo
muitos intelectuais, deveriam ocupar os espaços vazios do território nacional. Isto
porque, o “elemento nacional” (caboclos, caipiras, moradores, etc) não preenchia as
“condições adequadas à plena realização do projeto nacional [...] e do progresso
econômico do Brasil”, por não terem disciplina e regularidade no trabalho, sendo
“necessário grandes investimentos para disciplinar e formar o nacional para o trabalho
produtivo pois ele não estava preparado para o trabalho extenuante de nossos cultivos”.

JANK, Marcos Sawaya. Agronegócio versus


agricultura familiar? O Estado De S. Paulo - Terça-
Feira, 5 de julho de 2005 - Pág. A-2 (Espaço Aberto).
Para Jank (2005)2, a falsa dicotomia entre "agronegócio" e "agricultura familiar" não
tem o menor fundamento. Para começar, é necessário rever o conceito de "agribusiness"
desenvolvido por Ray Goldberg, em 1957, nos EUA, e traduzido, no Brasil, como
"complexo agroindustrial" ou "agronegócio" por Ney Bittencourt, Ivan Wedekin e Luiz
A. Pinazza, nos anos 1980. A agricultura familiar é, portanto, apenas um segmento
central do agronegócio, na medida em que representa boa parte da produção
agropecuária. Daí que, segundo este autor, e subsídios talvez sejam, de fato, necessários
para manter a agricultura familiar brasileira, poucas coisas seriam mais nefastas para ela
do que a ampliação do protecionismo internacional travestida no conceito de "soberania
alimentar". Se a ideia da soberania alimentar se espalhar, traduzida, por exemplo, em
tarifas mais altas, produtos excluídos e novas salvaguardas no contexto da Rodada de
Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), mercados fundamentais para o
País poderão se fechar nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Para o autor,
abrir o mercado mundial é uma estratégia mais interessante para os produtores do que
fechar o mercado interno. Argumenta que o Brasil é um dos países que mais têm lutado
contra os subsídios e proteções internacionais à agricultura. O País não deveria ter
discurso ambíguo na matéria. Principalmente, não tem cabimento pleitearmos o direito
de aplicar em casa as piores práticas que estamos solenemente condenando nos outros
países. O comércio exterior teria tudo para ser uma das poucas áreas de convergência de
interesses das nossas antigas idiossincrasias agrícolas. Mas, infelizmente, somos
obrigados a constatar que mesmo esta área não está imune a opiniões díspares e
ambiguidades.

DELGADO, Guilherme Costa. A questão agrária no


Brasil, 1950-2003. Brasília: Ipea,. 2005.

2 JANK, Marcos Sawaya. Agronegócio versus agricultura familiar? O Estado De S. Paulo - Terça-Feira,
5 de julho de 2005 - Pág. A-2 (Espaço Aberto).
Distinção convencional: questão agrária (a dimensão social) e questão agrícola (a
dimensão técnica), para constatar que no Brasil o agrícola sempre foi priorizado, em
detrimento do social.

A apropriação das noções de agronegócio e agricultura familiar no Brasil é expressão de


uma disputa política resultante da situação fundiária do país.

Tríplice carência: desemprego, ociosidade das terras e insegurança alimentar


(DELGADO, 2005, p. 26)3

O livre funcionamento dos mercados rurais reproduz padrões de desproteção social e


insegurança alimentar, comumente identificados como “problema da fome”.

Os paradigmas da Questão Agrária e do Capitalismo Agrário disputam com suas interpretações


da geografia agrária nacional, os espaços políticos, lócus de decisões para o desenvolvimento da
agricultura.

O paradigma do Capitalismo agrário trouxe importante contribuição para a compreensão


da questão agrária ao destacar o peso da participação familiar na agricultura e romper
com a visão determinista do assalariamento total. Todavia, a visão da dicotomia
agricultura camponesa x agricultura familiar que tal paradigma sustenta representa a
criação de uma condição de integração subalterna à lógica do capital. O paradigma da
Questão Agrária, por sua vez, não tem conseguido teorizar a respeito do
desenvolvimento da economia camponesa frente ao mercado. Mas, tem sido
extremamente eficaz em compreender os processos de criação, recriação e reinvenção
do campesinato, demonstrando que há possibilidades de construir espaços políticos
diversos para resistir ao processo de territorialização do capital e desterritorialização do
campesinato (MANÇANO, 2008, p. 53)4. Se por um lado o paradigma do Capitalismo
Agrário não tenha considerado a conflitualidade em seu corpo teórico, como processo eficiente
e promotor de desenvolvimento, por outro, o paradigma da Questão Agrária não tem
considerado a importância das formas de relação com o mercado. Um paradigma ignora a
conflitualidade gerada a partir das relações mercantis, o outro ignora as relações mercantis
produtoras de conflitualidade.

A questão agrária sempre esteve relacionada com os conflitos por terra. Estando a
reflexão da “Questão Agrária” fortemente ligada ao debate da Reforma Agrária, de
territorialização, desterritorialização e reterritorialização do capital e do campesinato, e
da discussão da estrutura altamente desigual de posse e uso da terra.

VEIGA, José Eli da. O Brasil rural precisa de uma


estratégia de desenvolvimento. Brasília,
MDA/CNDRS/NEAD, 2001.

3 DELGADO, Guilherme Costa. A questão agrária no Brasil, 1950-2003. Brasília: Ipea,. 2005.
4 FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão Agrária: conflitualidade e desenvolvimento territorial. In:
Luta pela Terra, Reforma Agrária e Gestão de Conflitos no Brasil. Antônio Márcio Buainain (Editor).
Editora da Unicamp, 2008.
Pode ser divertido, além de instrutivo, consultar o novo Atlas Nacional do Brasil.
Comece pelo mapa “Grau de Urbanização”. Verá que a mais gritante mancha de
urbanização corresponde ao Pantanal Mato-Grossense, imediatamente seguida pela
Campanha Gaúcha. Nem o Estado de São Paulo, ou o do Rio de Janeiro, mostram tão
fortes borrões urbanos. Dá para entender? A resposta é afirmativa para quem já percebeu
o quanto é absurda concepção adotada pelo Brasil para delimitar seus espaços urbanos e
rurais. Se quiser formar uma idéia mais razoável da distribuição espacial do
povoamento, procure nas páginas anteriores o mapa “Densidade Demográfica”. Este
sim destaca as cerca de 50 aglomerações urbanas, das quais uma dúzia de
verdadeiros bunkers metropolitanos. Fora dessas 50 aglomerações só se vê imensas
regiões rurais que sempre contam em suas proximidades com uma ou duas cidades, seus
verdadeiros centros urbanos.

Dois projetos para o campo: O primeiro, de caráter setorial, visa maximizar a


competitividade do chamado agribusiness. A corrida tecnológica exigida por essa
necessária redução de custos impõe uma especialização das fazendas, que logo torna
redundante a maior parte da mão-de-obra não qualificada. Como os outros segmentos
do agribusiness só podem empregar minúscula parcela desse imenso excedente de força
de trabalho, sua absorção e inclusão ficam por conta dos outros setores da economia e
de outros grupos sociais. O outro projeto visa maximizar as oportunidades de
desenvolvimento humano em todas as mesorregiões rurais do imenso território
brasileiro, e no maior número possível de sua microrregiões rurais. Por isso, em vez da
especialização devoradora de postos de trabalho, pretende diversificar as economias
locais, a começar pela própria agropecuária.

O que os proponentes do segundo projeto mais valorizam é a dinâmica criada por


famílias que vão se tornando tanto mais pluriativas quanto mais aumenta a
produtividade do trabalho agropecuário. Muitos dos parentes que deixam o setor tendem
a se tornar empreendedores nas cercanias. E muitos dos que emigraram acabam
voltando para utilizar a propriedade agrícola paterna como retaguarda e trampolim na
montagem de novos negócios nas proximidades. Ao mesmo tempo em que reduz a
marcha da inevitável queda da população ativa no setor agropecuário, a pluriatividade
favorece a industrialização difusa e a descentralização de serviços sociais, de serviços
para empresas, e vários tipos de serviços pessoais. Como conseqüência, há absorção
local da sobra de braços.

Há uma forte crença no Brasil de que sua intensa urbanização transformará a população
rural em mera relíquia de um ultrapassado subdesenvolvimento. Por isso, nenhuma
discussão séria sobre o assunto pode começar se não for desfeita a dupla confusão –
estatística e histórica – que sustenta esse traiçoeiro fatalismo. A vigente definição de
“cidade” é obra do Estado Novo. Foi o Decreto-Lei 311, de 1938, que transformou em
cidades todas as sedes municipais existentes, independentemente de suas características
estruturais e funcionais.5 É verdade que a partir de 1991 o IBGE definiu três categorias

5 Até 1938 o Brasil não teve dispositivo legal que estabelecesse diferença entre cidade e vila. Era
costume elevar à condição de vila, ou mesmo diretamente à condição de cidade, rústicas sedes de
freguesia, a mais antiga unidade territorial brasileira. E vilas e cidades surgiam até sem a prévia existência
de freguesias. Tanto cidades, quanto vilas, podiam ser sedes de municípios. E os limites geográficos de
sua jurisdição eram demarcados pelos limites das freguesias, desde que se tratasse de espaço com
ocupação consolidada. Até havia regras para que as cidades e vilas pudessem exercer suas diferentes
funções, mas a decisão de criar ou elevar uma localidade à categoria de vila, ou de cidade, não respeitava
qualquer norma.
de áreas urbanas (urbanizadas, não-urbanizadas, e urbanas-isoladas) e quatro tipos de
aglomerados rurais (extensão urbana, povoado, núcleo e outros). Todavia, em vez de
abolida ou amenizada, acabou sendo fortalecida pela nova nomenclatura essa rígida e
vetusta convenção de que toda sede de município é necessariamente espaço urbano.
Enfim, o mínimo que se pode dizer a respeito da metodologia oficial de cálculo da “taxa
de urbanização” do Brasil é que ela é anacrônica e obsoleta. E a evolução das
abordagens de delimitação urbana no resto do mundo só confirma que o uso desse
indicador deveria exigir extrema cautela. Para que a configuração territorial brasileira
não permaneça tão obscura, é imprescindível construir tipologias alternativas, capazes
de captar a imensa diversidade dos municípios. Um desafio que começou a ser
enfrentado com muito sucesso no estudo Caracterização e Tendências da Rede Urbana
do Brasil(Ipea/Ibge/Nesur-IE/Unicamp, 1999). Atualizando-se os resultados desse
trabalho, percebe-se que só está efetivamente na rede urbana menos de 60% da
população brasileira (ver tabela 2.1). E não mais de 80%, como impõe a
linha estadonovista que baliza a metodologia oficial.

No capitalismo mais avançado, o desenvolvimento de uma região rural há muito tempo


deixou de depender do desempenho de sua agricultura. O fato de atividades primárias
estarem forçosamente muito mais presentes nas zonas rurais não significa que as
atividades secundária e terciária sejam necessariamente muito mais recorrentes nas
zonas urbanas.
Os espaços que permaneceram exclusivamente agrícolas foram os que menos
favoreceram o dinamismo regional, mesmo que possam exibir altíssimos níveis de
“eficiência” (no sentido convencional, isto é, no pior sentido da palavra). No limite,
deve-se até admitir o inverso do senso comum, pois a dominação exclusiva da
agricultura pode se transformar no maior vilão do desenvolvimento rural. No caso dos
EUA, por exemplo, os espaços rurais mais dinâmicos são os que atraem os aposentados
urbanos. Este é o melhor sinalizador de áreas rurais que criam muitos empregos, pois as
aposentadorias das classes médias agitam as atividades culturais de localidades que têm
razoável estrutura de serviços pessoais (com destaque para a saúde), além de disporem
de amenidades relacionadas à preservação da natureza: diversidade paisagística, água
limpa, ar puro e silêncio. Praticamente o avesso do que ocorre nas áreas dominadas por
alguma das grandes especializações agropecuárias.
É claro que o processo de desenvolvimento brasileiro está muito distante da situação
dos Estados Unidos. Aqui, a agropecuária ainda é a parte decisiva da economia rural,
tanto no que se refere à ocupação, como à geração de riquezas. Mas a comparação
impõe, por si só, duas conclusões fundamentais para a concepção de uma estratégia de
desenvolvimento. A primeira, é que a tendência histórica estrutural ao declínio relativo
do setor agropecuário teve repercussões espaciais que contrariam frontalmente a crença
brasileira em sua completa urbanização. A segunda é que uma região rural terá um
futuro tanto mais dinâmico quanto maior for a capacidade de diversificação da
economia local impulsionada pelas características de sua agricultura.
O processo de desenvolvimento tende a separar o surgimento de novos empregos do
grau de urbanização regional. As razões dessa mudança ainda não foram inteiramente
esclarecidas, mas já condenam qualquer fatalismo sobre o suposto declínio inexorável
das economias rurais. Esse é particularmente o caso dos estabelecimentos agrícolas nos
quais o núcleo familiar constitui uma pequena empresa, geralmente informal. Muitas
das pequenas empresas comerciais, artesanais, ou proto-industriais que mais
diversificam as economias locais germinam nesse tipo de organização. Além disso, uma
necessidade objetiva incita essas famílias a também exercerem atividades externas à
agropecuária, fazendo-as “pluriativas”, no jargão dos especialistas.
É claro que as economias rurais mais dinâmicas são as polivalentes, que
simultaneamente importam consumidores de seus atributos territoriais e exploram
economias de escala e de escopo na exportação de seus produtos. Só que é muito raro
que uma região disponha de condições naturais e humanas tão privilegiadas. Por isso,
acaba por prevalecer uma espécie de divisão espacial dessas vantagens competitivas, na
qual manchas dinâmicas de vários tipos, e com vários graus de diversificação, se
entrelaçam aos enclaves resultantes da especialização. O objetivo estratégico de uma
agenda de desenvolvimento rural só pode ser, portanto, o de maximizar as manchas de
dinamismo e minimizar os enclaves.
Gilberto Freyre chamou de “rurbana”: têm pequenas populações, mas suficientemente
concentradas para que não sejam situações inequivocamente urbanas ou rurais.
Nada disso seria grave se o dinamismo das economias rurais dependesse eternamente de
atividades agropecuárias, florestais, pesqueiras ou minerais. O problema é que o
processo de desenvolvimento tem mostrado exatamente o inverso. As economias rurais
dinâmicas são as que mais se diversificam, tornando o setor terciário muito mais
decisivo que o primário. Espaços dominados por atividades primárias muito
especializadas, que travam a diferenciação da economia, são justamente os que
permanecem subdesenvolvidos, mesmo quando fazem parte de nações das mais
avançadas do planeta. As economias rurais mais dinâmicas são as que simultaneamente
conseguem atrair consumidores de seus atributos territoriais e vender suas produções
em mercados diferenciados. Exatamente o avesso das economias especializadas em
commodities agrícolas. A economia rural já não pode mais ser confundida com seu setor
primário. E isso permite entender melhor os diferentes ritmos em que evoluem as
populações rurais.
Sobre os 90% de municípios brasileiros que não fazem parte de aglomerações, nem
constituem centros urbanos, o já mencionado estudo do IPEA/IBGE/NESUR só
apresenta uma conclusão bem genérica: “em praticamente todas as regiões brasileiras,
as pequenas cidades apresentam saldos migratórios negativos, retratados pelo
crescimento abaixo da média nacional, e muito próximo do crescimento vegetativo do
país” (p.24). Uma afirmação que não teria sido confirmada, caso a tipologia tivesse
abrangido também os municípios que abrigam essas “pequenas cidades”. Teria ficado
claro que: a) não houve êxodo em grande número de municípios rurais de todas as
regiões e estados; b) ocorreu até o inverso em um quarto desses municípios.
Veiga propõe, então, separar dois grandes tipos de municípios externos às aglomerações
e centros urbanos. O primeiro tipo, mais próximo daquilo que se pode chamar de
“cidade” é formado pelos municípios cujo tamanho se situa entre 50 e 100 mil
habitantes e o segundo, por todos os que tenham densidades superiores a 80 hab/km2,
mesmo que suas populações sejam inferiores a 50 mil habitantes. Enfim, de maneira
geral, pode-se dizer que o chamado “êxodo rural” foi bem menos significativo nos anos
1991-2000 do que sugeriu a excelente caracterização da rede urbana, concluída em
1999, pelo IPEA/IBGE/NESUR.
A grande maioria dos que têm menos de 100 hectares dificilmente se especializa. E os
poucos que se arriscam sempre evitam perder a flexibilidade que lhes permite alterar a
estratégia de sobrevivência. Além disso, a renda dessas famílias não depende apenas da
produção de seus pequenos sítios. Sempre buscaram trabalho fora. Sempre exerceram
outras atividades que, em grande parte, não pertencem ao setor agropecuário. Por isso, é
um engano supor que a renda familiar desse tipo de agricultor coincida com a renda
agrícola de seu estabelecimento. Equívoco que se torna ainda mais grave quando
diversas transferências públicas reforçam sua capacidade de resistência. Principalmente
a aposentadoria garantida desde 1988 pela Constituição, mas também salário-
maternidade e bolsa-escola, sem falar de dezenas de programas de combate à pobreza
rural ou de micro-crédito subvencionado.
Um indicador do caráter multisetorial da renda dos agricultores é o local de residência.
O Censo Agropecuário de 1995/6 mostrou a enorme freqüência com que os agricultores
não moram no estabelecimento em sim em “zona urbana”. Não se trata aqui, todavia, de
chamar mais uma vez a atenção para a anacrônica e aberrante fronteira inframunicipal
entre rural e urbano. O que mais interessa é entender o quanto é absurdo supor que o
acelerado aumento do “grau de urbanização” aferido pelo IBGE possa ser evidência de
que os agricultores estão saindo do campo para enfrentar o desemprego e a violência das
cidades. Sem esquecer, é claro, que os perímetros urbanos de 4/5 dos municípios
brasileiros podem ser quase tudo o que se quiser, menos “cidades”. A não ser que esse
vocábulo tenha se tornado sinônimo de vila, povoado, vilarejo ou aldeia. Todavia, o que
o IBGE considera “urbano” pouco tem a ver com as “cidades”. Se há alguma coisa que
o critério infra-municipal de separação justamente impede que se conclua é que o
aumento do chamado “grau de urbanização” resulte de migração de agricultores para
centros urbanos. A única coisa que ele permite concluir é que o número de domicílios
situados nos perímetros urbanos dos municípios aumentou mais que o número de
domicílios situados em suas zonas rurais. E isso pode ocorrer mesmo em situações nas
quais o número de agricultores aumenta, em vez de diminuir!
A baixa densidade ocupacional da agropecuária brasileira resulta da predominância dos
sistemas de produção extensivos em trabalho – os mais freqüentes nas fazendas
patronais - sobre os sistemas de produção intensivos em trabalho - os mais recorrentes
nos sítios familiares. Uma agricultura bem diversificada tende a resultar, grosso modo,
numa densidade ocupacional cinco vezes maior que a agricultura especializada que
predomina nas fazendas patronais.

TABELA XX: Características organizacionais dos empreendimentos patronal e familiar


Patronal Familiar
Completa separação entre gestão e trabalho. Trabalho e gestão intimamente relacionados.
Direção do processo produtivo diretamente assegurada pelos
Organização centralizada. proprietários ou arrendatários.
Ênfase na especialização. Ênfase na diversificação.
Ênfase nas práticas padronizáveis. Ênfase na durabilidade dos recursos e na qualidade de vida.
Predomínio do trabalho assalariado. Trabalho assalariado complementar.
Tecnologias dirigidas à eliminação das decisões “de Decisões imediatas, adequadas ao alto grau de
terreno” e “de momento”. imprevisibilidade do processo produtivo.
Fonte: Veiga 20016.

O que é importante frisar é que a viabilidade econômica de unidades produtivas de


pequeno porte é menos determinada pela área disponível do que pelas possibilidades de
acesso à educação e a convenientes inovações tecnológicas, pela localização, pelo
entorno institucional, pela qualidade do solo, etc. A obsessão pela área do
estabelecimento costuma ofuscar as relações sociais que correspondem às formas
econômicas. Isto é, a constante oposição e coexistência entre os arranjos familiares e
patronais que estiveram no centro de todos os tipos de agropecuária comercial que o
mundo conheceu nos últimos duzentos anos.
Todavia, a consciência desse caráter cada vez menos “agrário” e cada vez mais
multisetorial da economia rural está longe de produzir entre os pesquisadores algum tipo

6 VEIGA, José Eli da. O Brasil rural precisa de uma estratégia de desenvolvimento. Brasília,
MDA/CNDRS/NEAD, 2001.
de consenso sobre suas implicações. E o principal foco do debate refere-se à
importância relativa que ainda tem, e ainda terá, a própria agropecuária no processo de
desenvolvimento, e particularmente para a solução das questões de emprego e de
pobreza rural. Mas não é difícil identificar as duas teses que polarizarão esse debate.
Graziano da Silva (1999:29-30) está convencido de que “a única estratégia capaz de
reter a população rural pobre nos seus atuais locais de moradia e, ao mesmo tempo,
elevar sua renda” é “a criação de empregos não-agrícolas nas zonas rurais”. Já para
Romeiro (2001), “mais do que nunca, é necessário ampliar o apoio fundiário e
agrícola, aos produtores familiares de modo que suas famílias não sejam obrigadas a
buscar formas alternativas precárias de sobrevivência.
O que interessa é saber se atividades rurais dos setores secundário e terciário que
certamente geram maiores rendas per capita que as do setor primário têm mais chance
de brotar no entorno de grandes fazendas especializadas em pecuária de corte, grãos ou
cana-de-açúcar, ou no entorno de concentrações de sítios familiares poli produtivos.
Em síntese, o estudo de Veiga mostrou o que não só o Brasil Rural é muito maior do que
se calcula, como boa parte desse significativo espaço vinha apresentando indícios de
dinamismo demográfico que nada deixam a desejar às áreas urbanas mais prósperas.

SILVA, José Graziano. O que é questão agrária?. Col.


Primeiros Passos.
O Desenvolvimento Recente da Agricultura Brasileira

Por ser a terra um meio de produção relativamente não reprodutível (ou pelo menos,
mais complicado de ser multiplicado) que a forma de sua apropriação histórica ganha
uma importância fundamental. Em alguns países, como no caso do Brasil, o proprietário
de terra tem até mesmo o direito de não utilizá-la produtivamente, isto é, deixá-la
abandonada, e de impedir que outro a utilize. Por isso é que a estrutura agrária - ou seja,
a forma como a terra está distribuída - torna-se assim o ''pano de fundo" sobre o qual se
desenrola o processo produtivo na agricultura e é um aspecto fundamental para se
compreenderem os padrões civilizatórios de um povo.

A Herança Histórica

a) O regime de sesmarias e os latifúndios improdutivos (1530-1822)


O início da colonização do território brasileiro se fez com a doação de grandes
extensões de terras particulares, denominadas de sesmarias. Daí surgiram os latifúndios
escravistas, aos quais, geralmente, se agregavam pequenos agricultores, que pagavam
uma renda ao proprietário pelo uso da terra. Estes latifúndios eram relativamente
autossuficientes, especialmente na produção de alimentos. Todavia, sempre que o preço
do açúcar variava positivamente, a produção de alimentos diminuía para que se
maximizassem os lucros, ocasionando fome.

b) A extinção das sesmarias (1822) e a lei de Terras de 1850


Em 1822, a extinção do regime de sesmarias, aliada à ausência de outra
legislação regulando a posse das terras devolutas, provoca uma rápida expansão dos
sítios desses pequenos produtores. Em meados desse mesmo século começou a declinar
o regime escravocrata. Em 1850 surge uma nova legislação definindo o acesso à
propriedade - a Lei de Terras de 1850 – que rezava que todas as terras devolutas só
poderiam ser apropriadas mediante a compra e venda, e que o governo destinaria os
rendimentos obtidos nessas transações para financiar a vinda de colonos da Europa.
Matavam-se, assim, dois coelhos com uma só cajadada: de um lado, restringia-se o
acesso às terras apenas àqueles que tivessem dinheiro para comprá-las; de outro,
criavam-se as bases para a organização de um mercado de trabalho livre para substituir
o sistema escravista.

c) A substituição da mão de obra escrava pela livre no campo


A partir do fim do século XIX consolida-se a produção mercantil de alimentos
fora das grandes fazendas de café: Além da produção de alimentos, os pequenos
agricultores têm também a possibilidade de produzir matérias primas para as indústrias
crescentes (como por exemplo, o algodão, o tabaco, etc.) uma vez que o latifúndio
continua a monopolizar a produção destinada à exportação (agora com o café). As
alterações de preços dessa cultura provocam crises periódicas durante o início do século
XX, culminando em 1932, ano em que se dá o auge dos reflexos da crise de 29 sobre o
setor cafeeiro.

d) A industrialização e os sinais do êxodo rural


O período que se estende de 1933 a 1955 marca uma nova fase de transição da
economia brasileira. Nesse período, o setor industrial vai-se consolidando
paulatinamente e o centro das atividades econômicas começa vagarosamente a se
deslocar do setor cafeeiro. A indústria gradativamente vai assumindo o comando do
processo de acumulação de capital. Inicia-se um primeiro movimento de migração do
campo para a cidade, alimentando o processo de concentração agrária no país.

e) Os anos 1960 e a industrialização da agricultura e a diferenciação do mundo


rural
A estrutura agrária continuou concentrada e até mesmo aumentou, mas houve uma
transformação interna ao nível das relações de produção no campo que permitiu que a
agricultura respondesse às necessidades da industrialização por meio de:
- um aumento da oferta de matérias-primas e alimentos para o mercado interno sem
comprometer o setor exportador que gerava divisas para o processo de industrialização,
via substituição das importações;
- da conexão ao circuito global da economia não apenas como compradora de bens de
consumo industriais, mas também pela industrialização da agricultura;
A agricultura brasileira depois de 1960 mostrou um claro processo de diferenciação em
três grandes regiões:
a) o Centro-Sul: onde a agricultura se moderniza rapidamente pela incorporação de
insumos industriais (fertilizantes e defensivos químicos, máquinas e equipamentos
agrícolas, etc.);
b) o Nordeste, que após a incorporação da fronteira do Maranhão (em meados dos anos
sessenta) e, mais recentemente, a da Bahia, permanece sem grandes transformações
fundamentais no conjunto de sua agropecuária;
c) A Amazônia Legal, incluindo aí boa parte da região Centro-Oeste (Mato Grosso e
Goiás) que, desde o início dos anos 1960 registrou uma forte expansão da fronteira
agrícola, sobretudo com pequenas propriedades, embora haja também um crescimento
ainda maior das grandes, especialmente as ligadas às empresas multinacionais.
Ao fim dos anos 1960, a manutenção do padrão de elevada concentração da
propriedade da terra no Brasil, aliado a uma rápida expansão da fronteira agrícola
significou que milhares de pequenos posseiros, parceiros, arrendatários e mesmo
pequenos proprietários que iam perdendo as terras não tivessem nova oportunidade na
agricultura, tendo que se mudar para as cidades. Assim a manutenção de um elevado
grau de concentração da terra no país funcionou como um acelerador do processo de
urbanização, ampliando o mercado interno para a indústria ao mesmo tempo que, a fim
de atender à demanda urbana por alimentos, abandonou aquela vocação monocultora
de exportação e promoveu um processo de especialização produtiva de alimentos. Ao
mesmo tempo, a própria concepção da produção agrícola se especializou, originando
uma divisão social do trabalho e o surgimento de indústrias fornecedoras de insumos.
Em outras palavras, a própria agricultura se industrializou. Do ponto de vista da
concentração da terra, a dinâmica da recriação/destruição da pequena propriedade na
década dos sessenta/setenta no Brasil, é mais ou menos a seguinte: na fase de subida
do ciclo econômico, as pequenas propriedades não engolidas naquelas regiões de
maior desenvolvimento capitalista no campo e empurradas para a fronteira, na maioria
das vezes na forma de pequenos posseiros. Na fase de queda do ciclo, as pequenas
propriedades se expandem.

f) Os anos 1970
Nos anos 1970, três grandes modificações ocorreram:
- o fechamento das fronteiras agrárias, envolvendo as questões de colonização da
Amazônia e da participação da grande empresa pecuária, deslocando a pequena
produção agrícola;
- o Progresso acelerado de modernização da agricultura no Centro-Sul do país;
- a crescente presença do capitalismo monopolista no campo ou seja, de grandes
empresas industriais que passaram a atuar tanto diretamente na produção agropecuária
propriamente dita, como fortaleceram sua presença no setor de comercialização e de
fornecimento de insumos para a agricultura.

g) Os anos 1980, a redemocratização e a sonhada Reforma Agrária

A reforma agrária é para os trabalhadores rurais uma estratégia para romper o


monopólio da terra e permitir que possam se apropriar um dia dos frutos do seu próprio
trabalho. A reforma agrária que o país requer não é a da pulverização antieconômica
das terras (a mera distribuição de pequenos lotes, o que apenas habilitaria a
continuarem sendo uma forma de barateamento da mão de obra para as grandes
propriedades) mas sim uma redistribuição da renda, de poder e de direitos sobre a qual
se constituiu historicamente o poder dos grandes proprietários de terra, uma reforma que
evidencie as formas multifamiliares e cooperativas como alternativas viáveis para o não
fracionamento da propriedade. A resistência dos posseiros contra os grileiros (que
muitas vezes são as empresas sofisticadas multinacionais) é uma luta contra a utilização
da terra para fins não produtivos, seja como uma forma de reserva de valor contra a
corrosão inflacionária da moeda, seja como meio de acesso a outras formas de riqueza
(minérios, madeiras de lei, incentivos fiscais e crédito farto e barato, etc.).