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MAIS DO QUE UMA VIDA, UMA OBRA: CAROLINA MARIA DE

JESUS, MULHER, ESCRITORA NEGRA, BRASILEIRA1.


Sheyla Almeida2
Juscélio Alves Arcanjo 3
AUTARQUIA DE ENSINO SUPERIOR DE ARCOVERDE – AESA
CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE ARCOVERDE – CESA
Sheyla_almeidas@hotmail.com

RESUMO

Conhecer Carolina Maria de Jesus é perceber um pouco mais de como o povo brasileiro
constrói-se cotidianamente. São estampas de sentimentos, opiniões e angústias do cotidiano
de uma favelada negra brasileira, que vive as margens de uma sociedade assentada de forma
desigual e hierarquizada. Do quarto de despejo que era a favela ela consegue nas letras do
lixo, mais uma vez, migrar, só que agora da favela para sua obra prima “Quarto de Despejo”.
Carolina acreditava que como escritora emergiria socialmente. No entanto, ainda não é
reconhecida em nossa literatura. Sempre foi reprimida por possuir um comportamento não
permitido socialmente para uma mulher de sua classe e de sua “cor”. Nos anos 60, com o
desenrolar dos movimentos feministas, surge o interesse em várias partes do mundo de
conhecer a história silenciada da mulher. Por período breve, Carolina torna-se uma
celebridade internacional como a autora do livro mais vendido na história da publicação
brasileira. Alegou ter sido rejeitada por seus vizinhos por causa de seus dons; alguém que
sabia ler e escrever.

Palavras chaves: Carolina Maria de Jesus; Escritora Negra; Quarto de despejo.

Introdução

1
Texto produzido para apresentação na “Caravana ANPUH 25 anos em Recife - Diálogos entre o ensino e a
pesquisa” – 04 de dezembro de 2015, promovido pela ANPUH- PERNAMBUCO.
2
Graduanda do 5º período do Curso de Licenciatura em História da AESA-CESA.
3
Orientador: Psicanalista, Professor contratado do Curso de História da AESA-CESA. Mestre em Estudos
Étnicos e Africanos pela UFBA.
A história de Carolina ilustra vários temas existentes na sociedade brasileira: o abismo
que separa os pobres e marginalizados socialmente, o mal-estar de contato entre os membros
das classes mais baixas e os demais, e o constrangimento de ter que lidar com uma mulher
negra que insistia em denunciar. Nesse ponto, as “linhas de classe” podem ter colocado mais
de um obstáculo para a interação das linhas étnicas, as formas em que a negritude de Carolina
foi tratada por muitos de seus críticos lança uma luz sobre a expectativa social no Brasil, que
para uma pessoa negra ser aceita, deve estar em conformidade com as normas dos “brancos”.
Carolina ou não soube como ou não desejou submeter-se às normas e, portanto, foi rejeitada.
Sem artificialismos, sem caricaturas, apenas as palavras “amareladas” da favela que
transformam a sua literatura em uma grande obra.
A mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus (1914-1977), descendente de
escravos, provavelmente trazidos para a região mineira após decadência do ciclo do açúcar no
nordeste. De filiação adulterina4. Quando a mãe conseguiu um emprego em uma fazenda fora
de Sacramento, Carolina teve que abandonar os estudos porque não havia nenhuma escola
nessa área. Aprendeu a ler e escrever continuando a estudar por conta própria, depois de
apenas dois anos na escola primária. Mulher de narrativa e personalidade forte. Migra para
São Paulo em 1937. Por esse tempo, seu avô tinha morrido (o destino de sua mãe não foi
registrado). Carolina realizou seis trabalhos subsequentes de domestica, e foi demitida de cada
um. Trabalhou por um curto período de tempo para um médico, Euricledes Zerbini, que lhe
deu acesso aos seus livros. Nos anos seguintes, ela alegou também ter trabalhado brevemente
para o General Góes Monteiro. Descreveu-o com sua franqueza marca como “fisicamente
repugnante, mas muito inteligente”5.
Carolina foi notavelmente consciente do peso do legado do racismo, o preconceito de
gênero e a negligência política dos marginalizados. Numa época em que as mulheres eram
silenciadas e confinadas a uma “figura” sem autonomia, incapacitadas aos olhos da sociedade
machista de terem pensamentos e produções inovadoras, Carolina rompe essas barreiras e
tabus: Por exemplo, ela alegou que nunca se casou porque se recusou a se tornar dependente
de um marido, mais tarde torna-se catadora de papel, onde parte desses separava para
escrever. Mãe de três filhos (cada um com um pai diferente). Em 1958, fragmento de seu

4
Filha de um homem casado. Foi criada por seu avô.
5
Penteado, Regina "Carolina, Vítima OU Louca?" Folha de São Paulo , 01 de dezembro de 1976, p. 31.
diário chamou a atenção de um jornalista empreendedor, Audálio Dantas, que a ajudou a
publicá-lo. Por um breve período, Carolina Maria de Jesus tornou-se uma celebridade
internacional como o autor do livro mais vendido na história da publicação brasileira.

Carolina Maria de Jesus, escritora

Sua famosa obra Quarto de Despejo, lançado em 1960, é um best-seller traduzido


para 15 idiomas, uma narrativa do cotidiano de Carolina, um diário. Por meio de sua obra é
possível realizar várias observações históricas: como o êxodo rural, populismo, surgimento
das favelas, preconceito, desigualdade social, politicas públicas, à experiência subsequente a
abolição - principalmente da mulher negra - e o retrato de um país que acaba de industrializar-
se, um Brasil capitalista e preconceituoso. Nas palavras Joel R. dos Santos (2009, p.24) “O
admirável é alguém ter escrito uma obra, cerca de cinco mil manuscritos, da anotação breve
ao romance, com domínio tão pequeno da norma culta”.
Carolina não teve seu lugar reconhecido na nossa literatura, e ainda não o tem. Torna-
se impossível falar da sua obra, sem relatar sua vida, já que grande parte é extraída de seus
diários. Desabafando suas dores no papel, como a luta diária de uma mulher “de cor”, pobre e
desprovida de favores estatais, de organismos sociais e de instituições. Audálio Dantas, seu
descobridor, diz em relação à obra Quarto de Despejo:
“A fome aparece no texto com uma frequência irritante. Personagem trágica,
inarredável. Tão grande e tão marcante que adquire cor na narrativa tragicamente
poética de Carolina. Em sua rotineira busca da sobrevive no lixo da cidade, ela
descobriu que as coisas do mundo- o céu, as árvores, as pessoas, os bichos- ficavam
amarelas quando a fome atingia o limite do suportável.” (JESUS, 2012, prefácio) 6

Carolina não participa de nenhum movimento, tais como: liga de trabalhadores,


associações de favelados, movimentos negros ou de mulheres. Porém, as causas que defendia
estavam escritas, sua arma de “libertação”, é a literatura. Ela sabia que a condição do negro
está automaticamente ligada à miséria, racismo, analfabetismo e outros “ismos”.

6
JESUS, Carolina Maria de “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, editora Ática, 9ª edição, 2012.
O Brasil foi o país que por mais tempo e em maior quantidade importou
trabalhadores africanos para mão de obra forçada, escravos. Se não houvesse escravidão
talvez não tivéssemos conhecidos às divisões por classe e outras separações sociais da
sociedade brasileira. É a partir da realidade histórica que se deve compreender a problemática
dos direitos negados ao negro e seus descendentes no Brasil, pois, a liberdade, a vida e a
educação não podem ser direito de poucos privilegiados. O livro Quarto de Despejo, entre
outros assuntos já citados, também delineia o surgimento da Favela do Canindé. Uma das
muitas tantas favelas que surgiram as margens das cidades mais desenvolvidas, graças à
migração do negro, que após a abolição, que não era qualificado para o trabalho, ou não
queria continuar a serviço do senhorzinho, do nordestino que enfrentava a seca, que partiam
em busca de emprego nas grandes cidades em desenvolvimento. O que se viu foi à constância
do trabalho doméstico, preconceito e do racismo que se edificava cada vez mais, criando
mecanismos para que nada fosse alterado, para que se criasse uma falsa ilusão de democracia
racial, onde todos teriam oportunidades iguais. Em 1935, São Paulo é uma cidade grande e em
seus arredores começam a surgir às favelas.

Carolina Maria de Jesus, negra

Como o racismo é sistemático, ela sofreu e manifestou preconceito. Declarou não


gostar de “baianos” - referencia aos nordestinos - e negros, até certo período não se
identificava como negra, não podemos julgar, mas compreender o que ocorre para essa não
identificação. Considerando as ideias negativas que vigoram socialmente a respeito dos
negros, para ela e outros tantos, se identificarem como negro significava se identificar com
alguma coisa que aprendeu ser negativa. Por outro lado, podemos compreender o que são os
danos psicológicos, como afirma as Diretrizes da Lei 10.639/03 7. Como podemos pensar na
sobrevivência da autoestima? É a negação “daquilo que é negativo/ruim em mim” ou do que
dizem de mim.
Mais tarde ela alcança uma identidade, que veio com: o reconhecimento de si: sou
negra, depois, a consciência do sistema em que sou negro: o mundo dos brancos. Carolina,

7
Em 2003, a Lei 10.639 alterou a LDB (lei 9.394/96) para incluir no currículo oficial da rede de ensino a
obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira. No ano de 2008, a Lei 11.645 alterou novamente
a LBD para incluir no currículo a obrigatoriedade do estudo da história e cultura dos povos indígenas. Por
questões de resistência o movimento negro continua a referir-se a Lei 10.639/03 nas suas lutas igualitárias.
não deseja pertencer ao mundo dos “brancos”, como é a realidade dos que se identificam
como mestiços, ela é ciente de sua negritude - construída pelo conhecimento do legado
africano, do passado histórico do ser escravo e pela cor - porém a cor da pele, sozinha nada
assegura, assim fosse os negros americanos não teriam perdido sua identidade. Não fazendo o
gênero submisso, as práticas de defesa ao “racismo brasileiro” acabam por adquirir postura
considerada agressiva. 8 Em Quarto de Despejo, ela desabafa:

“... Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circo. Eles respondia-me:


- É pena você ser preta.
Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho
o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto
onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça
ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar
sempre preta.” (JESUS, 2012)

Carolina é nas questões do feminino negro um destaque, ela não trabalha e nega-se a
trabalhar como as mulheres da sua vizinhança, nas casas de família. Como é por meio do
trabalho que a mulher negra enfrenta as formas tradicionais de exclusão, Carolina contraria o
esperado de sua condição - mulher negra, favelada, miserável - mostrando aí uma
“autonomia”. Quase meio século após a abolição, vemos que ainda são as genetrizes quem
passam a garantir o sustento da família. Sem qualificação profissional, trazem sua ligação
com a Casa Grande, nos trabalhos domésticos. O indivíduo feminino negro passa a realizar as
tarefas do lar; empregada doméstica, arrumadeiras e etc. única forma possível de ocupação
oferecida a essas mulheres, não a Carolina. Com o processo industrial, outros arranjos foram
desenvolvidos, caso dos catadores de papel, como é Carolina, que usa parte desse papel para
escrever, é uma negra contaminada pelo vírus literário, opondo-se mais uma vez, por não se
enquadrar no ofício de escritora, aliais escritora improvável, já que Carolina não passou do
curso primário. Por vezes é questionada a autenticidade e propriedade de seus escritos. Mais
tarde afirmou ter sido influenciada em sua juventude por seu avô, a quem ela chamou de "um
Sócrates Africano", por saber responder tudo que lhe perguntavam.
Uma sociedade hipócrita e machista, contexto de Carolina, onde se é educada para
fazer parte de uma estrutura social, em que a mulher irá manter seu papel “feminino” no
casamento como excelente mãe e esposa. Mas é possível ser mãe sem casamento, dentro da

8
Santos, Joel Rufino dos “Carolina Maria de Jesus: Uma escritora improvável, editora Garaond,2009, p. 129.
mais completa excelência, porém, a sociedade marginaliza a mulher que sai das normas. Toda
a estrutura educacional e social machista leva a mulher ao casamento, única forma de ser
socialmente honrada. É uma forma ideológica opressiva9. Carolina não tem essa visão, não se
encaixa nos moldes da sociedade branca burguesa machista. Todos os heróis nacionais são
homens, homens brancos, Carolina confessa que quando era menina o seu sonho era “ser
homem para defender o Brasil”.
Como escritora de sua autobiografia, ela não é Carolina Maria de Jesus, mas um
personagem criado por ela, ou seja, é um objetivo daquilo a ser alcançado ou imaginado.
Identifica-se como diferente dos demais, está ali forçadamente, não pertencente aquele
cenário. Carolina é exótica, essa é uma das explicações para o sucesso de venda do seu diário.
Lançado o ser exótico: a negra, favelada, catadora de papel, que sabe ler e escrever. As
pessoas a procuravam como uma pessoa de sucesso e a viam como um animal curioso 10.
Sempre determinada, Carolina via-se como uma escritora profissional que estava livre
de censura. No início dos anos 1960, dias de glória para a expressão política brasileira,
jornalistas investigativos foram pela primeira vez desafiando o sistema e exigindo direitos
mais amplos para os brasileiros, embora sempre dentro dos limites "seguros". Alguns dos
conselheiros de Carolina (incluindo Audálio Dantas) pediram que escrevesse mais sobre a
injustiça social, mas ela ignorava tais conselhos. Ela insistiu em escrever ficção, ensaios, e
qualquer coisa que lhe veio à mente. Carolina se recusou a ser "manipulada". Sonhava ser
rica, mas não sabia o valor do dinheiro, nem como gastá-lo, pois tudo que conseguia era para
sua sobrevivência. E quando já não era mais favelada, não pertencia à sociedade burguesa, por
ser negra, ficando outra vez as margens. Carolina não cedeu às vontades dos que queriam lhe
moldar, não foi assimilada, o que Foucault (2007) considera “perigoso”: “(...) tornar as coisas
idênticas umas às outras, de misturá-las, de fazê-las desaparecer em sua individualidade — de
torná-las, pois, estranhas ao que eram.” 11 Este perigo não correu, era consciente de quem e o
que desejava ser, não se reduziu a uma homogenialidade.

9
Folha de São Paulo , 29 de junho de 1975, p.18
10
Nacionalmente, Quarto de Despejo, dirigiu-se à preocupação atual sobre as questões da reforma urbana, a
pobreza, a migração de nordestinos para o “sul”, e assuntos relacionados. Para os leitores internacionais, o diário
oferecia a dramática evidência dos perigos do subdesenvolvimento.
11
FOUCAULT, Michel “As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas”, Editora Martins
Fontes – Martins, 9ª ed, 2007.
Carolina Maria de Jesus, exótica

Acima de tudo, Quarto do Despejo e livros subsequentes da Carolina desmascaram o


mito do Brasil, de uma harmonia racial. Este mito foi tão profundamente enraizado na
mentalidade nacional, quem não submeter-se às normas, especialmente uma mulher negra,
pobre, favelada, não poderia ser tolerada. As opiniões e comentários que foram impressos
evidenciam as questões que Carolina escreveu sobre: a pobreza, a fome, o destino dos negros
e das mulheres pobres. Um após outro, os críticos respeitáveis focavam em Carolina,
pintando-a como uma curiosidade na melhor das hipóteses, ou como uma raridade e um
incômodo na pior das hipóteses, mesmo relutante de seu significado e sua mensagem pelos
críticos de qualquer faixa ideológica. Era como se os acadêmicos brasileiros, jornalistas,
escritores e políticos cerraram fileiras para abafar suas verdades incisivas sobre a falta de
democracia racial no país e o desprezo sentido pela classe baixa, especialmente seus negros e
mulheres.
Casa de Alvenaria, sua obra pós-fama, permanece denunciadora, a narrativa é de um
deslumbramento com as coisas “da sala de visita”12 e o desprazer da elite de conviver com
uma negra alfabetizada. Agora escrevia não do barraco da favela, mas de uma casa de
alvenaria. Uma coisa não mudou, incomodava a vizinhança e disso era consciente; “não estou
tranquila com a idéia de escrever o meu diário da vida atual. Escrever contra os ricos. Êles são
poderosos e podem destruir-me”13. A fome desaparece de suas narrativas, mas não suas
angustias e desencantos. Relata:
“Um pretinho circulava e dizia em voz alta:
- Sabe, Carolina, peço-te para incluir no teu diário que há preconceito aqui no Sul.
Os brancos que estavam presentes entreolharam-se, achando incômodo as queixas do
pretinho. Parei para ouvi-lo. Creio que devo considerar os meus irmãos na cor.
- Está bem. Incluirei tua queixa no meu diário.
Quer dizer que há preconceito no Sul do Brasil? Será que os sulistas brasileiros estão
imitando os norte-americanos? O pretinho despediu-se e saiu contente como se tivesse
realizado uma proeza. Pensei: ele confia em mim e sabe que vou inclui-lo no meu
diário. Vou registrar a sua quixa.” (Jesus, 1961,p. 25)

12
Como Carolina chama o centro de São Paulo.
13
JESUS, Carolina Maria “Casa de Alvenaria”, São Paulo, Editora LFA,1961.
Por muitas razões, no entanto, Carolina caiu em desgraça: o surgimento de uma
ditadura militar, em 1964 14, o que levou a uma reação que acompanha contra a crítica social e,
especialmente, as formas em que ela lidou com sua fama e relacionados com a imprensa e a
elite literária. Sobre o fracasso de Carolina, diz Joel R. dos Santos (2009, p. 106):

“A esquerda que apresentou Carolina ao país, composta basicamente de estudantes,


jornalistas, líderes sindicatos e artistas, foi afastada de cena. Ocupada em se defender
e, depois de 1969, lutar pela redemocratização e o socialismo, esqueceu a escritora de
Canidé. Quando lembrava dela era por seu conservadorismo político. Sua visão da
favela era de dentro, a esquerda preferiu a de Sérgio Ricardo e Tom Jobim/ Vinícius
que cantavam a felicidade do pobre e sua redenção futura. A literatura de Carolina
seria de direita: preconceituosa, idealista, sem redenção. Não servia à ditadura, nem
aos seus inimigos.”

Dentro de alguns anos, ela foi forçada a se mudar de volta para a favela. Uma breve
enxurrada de publicidade em 1969 sobre sua condição caída provocou uma ligeira melhoria
na sua situação, mas ela logo foi esquecida novamente. Carolina morreu em 1977, à beira da
indigência, num pequeno sítio na periferia de São Paulo. Após sua morte, na França é lançado
o livro Journal de Bitita, (Diário de Bitita, 1986, fracasso literário de venda no Brasil), foi
sucesso lá. Sua história de vida completa começa a ser contada e estudada, mas, hoje a
maioria dos brasileiros não sabe que uma negra favelada na década de 1960 tornou-se o
símbolo (para os estrangeiros, pelo menos) da luta para elevar-se acima da miséria, do
racismo, preconceito e para ter assegurado o reconhecimento de mulher negra brasileira. A
maioria dos brasileiros não conhece seus livros, e nas academias, os que conhecem, em
grande maioria, não os consideram dignos de nota.

O fato de Carolina escrever não lhe permitiu criar um mundo fantasioso, diferente
daquele em que vive, soube transcrever sua realidade, Audálio Dantas disse “a fome é a
palavra mais repetida em seus escritos, a ponto de tornar-se irritante”. Carolina conhecia a
fome, seu dia a dia se caracteriza por uma luta constante pela sobrevivência, em função da
necessidade de conseguir sustento para si e para seus três filhos, e rua vida resumida em uma
frase: “morreu como viveu, pobre.” Na entrevista ao final do livro Quarto de Despejo,
Carolina Maria de Jesus diz por que começou a escrever. São essas as palavras da autora:
14
Carolina era considerada opositora da ordem. Nos anos de chumbo, a escrita dela não servia ao padrão dos
novos tempos, o modelo de um “país favelado” não era coerente com o suposto “país que vai pra frente”, tão
pouco poderiam aceitar: uma negra, migrante, sem qualificação profissional, mãe solteira, escritora. Teve seus
livros boicotados pela ditadura militar.
“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que,
quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário
”. Para ela, escrever era uma forma de desabafar. Mas a história de Quarto de Despejo,
Pedaços de Fome e Casa de Alvenaria, não é apenas desabafo, é vida;

No topo de uma colina


Construí uma cabana
De manhã surge a neblina
Que a natureza promana.
Quem reside nesta casinha
Que é um verdadeiro primor
Eu e a minha mãezinha a quem dedico o meu amor.

Quando o sol deixa o poente


Tudo encanta na colina
Surge a noite lentamente
Tudo é belo, e me fascina.
Minha mãe sempre cantando
È amável e carinhosa
Passa os dias cuidando
Dos seus canteiros de rosas.

Como é lindo o meu Viver!


Nesta cabana que eu fiz
Creio que ... eu posso dizer:
Graças a Deus, sou feliz!
(Jesus, Antologia Pessoal, 1996, p.30)15

Nos trechos que foram transcritos nesse texto foi respeitada a linguagem da autora,
que muitas vezes contraria a gramática, incluindo a grafia e a acentuação das palavras, mas
que por isso mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo.
A escravidão acabou, mas suas heranças estão presentes no cotidiano e nas experiências de
vida das mulheres negras e no centro dessas experiências temos o capitalismo que se
manifesta através da imensa capacidade que têm as classes dominantes, em todos os períodos
históricos, de incorporar, até onde forem possíveis, os privilégios que lhes são próprios. A
escravidão e o racismo se desenvolveram mutuamente na construção da sociedade brasileira,
isso explica a perspectiva social de cada individuo brasileiro de acordo com a classe social,
escolaridade, lugar que habita e cor da pele que possui. Nas questões de identidade ou
autoafirmação, é o sujeito o autor de sua “localização”, Carolina soube quem era; a voz dos
“despejados”. Nos seus escritos registra para a historiografia a luta dos favelados, onde os
15
JESUS, Carolina Maria, “Antoligia Pessoal”/ org. José Carlos Sebe Bom Meihy (revisão de) Armando Freitas
Filho, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1996.
erros gramaticais apenas servem para dar maior credibilidade. A publicação que trouxe
sucesso e tirou-a das margens do rio “lugar de corvos e de marginais” não a livrou do que era;
mulher, negra, brasileira e favelada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ESTANISLAU, Lídia Avelar, Brasil Afro-Brasileiro/ org. Maria Nazareth Soares Fonseca.
“Feminino Plural”, 2ªed,1ª reimp. Belo Horizonte, 2006.
FOUCAULT, Michel “As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas”, Editora
Martins Fontes – Martins, 9ª ed, 2007
Folha de São Paulo, 29 de junho de 1975, p.18
JESUS, Carolina Maria, “Antoligia Pessoal”/ org. José Carlos Sebe Bom Meihy (revisão de)
Armando Freitas Filho, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1996.
JESUS, Carolina Maria “Casa de Alvenaria”, São Paulo, Editora LFA,1961.
JESUS, Carolina Maria “Pedaços da Fome”, São Paulo, Editora Áquila Ltda,1963.
JESUS, Carolina Maria de “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, editora Ática, 9ª
edição, 2012.
O GLOBO (Rio de Janeiro), 11 de dezembro de 1969, Arquivo O Globo.
PENTEADO, Regina "Carolina, Vítima ou Louca?" Folha de São Paulo, 01 de
dezembro de 1976, p. 31.
SANTOS, Joel Rufino dos “Carolina Maria de Jesus: Uma escritora improvável, editora
Garaond,2009, p. 24.
TORRE, Carlos de la, Afro-A’sai nº 34-2006, “Os missionários Combonianos e a Criação de
Identidades Negras No Equador”.
UTÉZA, Francis, Brasil Afro-Brasileiro/ org. Maria Nazareth Soares Fonseca. “Viva o Povo
Brasileiro”, 2ªed,1ª reimp. Belo Horizonte, 2006.