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The Song of David/ Amy Harmon

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The Song of David/ Amy Harmon

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The Song of David/ Amy Harmon

SINOPSE

Você me esquecerá para sempre?

Por quanto tempo você esconderá seu rosto de mim?

Por quanto tempo devo lutar contra meus pensamentos e dia


após dia ter sofrimento em meu coração?

Por quanto tempo o meu inimigo vai triunfar sobre mim?

Olhe para mim e responda.

Ilumine meus olhos

Ou eu vou dormir na morte

E meu inimigo dirá “Eu o derrotei.”.

Salmo 13 – A canção de David.

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PRÓLOGO

MOSES

MILLIE ME LIGOU ontem de manhã. Tag sumiu. Ele sumiu e Millie não
sabe onde procurá-lo, mesmo que isso fosse possível. Ele sabe que ela não
conseguiria ir atrás dele e isso não se parece com algo que Tag faria. Ele não
é cruel. Nunca foi.

Na primeira vez que eu vi Millie eu sabia que Tag tinha encontrado


alguém que o manteria firme, que o manteria desenrolado. Ela alegremente
desataria seus nós e o forçaria a se acalmar e em retorno ele a amaria do
jeito que somente Tag sabe. Parecia destino, apesar de que eu não acredito
nessas merdas. Você pensou que eu iria acreditar, vendo o que eu vejo,
sabendo do que eu sei, mas saber que há muito mais que nós não
entendemos me fez relutante em entrar em predestinação, destino ou coisas
que as pessoas dizem que “era para ser.” Dizer que algo “era pra ser” é uma
desculpa. É uma forma das pessoas lidarem com as coisas quando elas
estragam tudo ou quando a vida os entrega uma tigela de guisado de merda.
As coisas que eram pra ser são coisas que não podemos controlar, coisas
que não causamos ou coisas que acontecem independentemente de quem
ou o que somos. Como o pôr do sol, o cair da neve e desastres naturais. Eu
nunca acreditei que dificuldades ou sofrimentos “eram pra ser”. Eu nunca
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acreditei que relacionamentos “eram pra ser.” Nós escolhemos. Na grande


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maioria, nós escolhemos. Nós criamos, nós cometemos erros, nós


queimamos pontes, nós construímos outras novas.

Mas Tag é diferente. Tag era pra ser. Ele apenas era. Ele é um
redemoinho de vento, um tornado que você não pode controlar. Ele
simplesmente te suga, mas ao contrário de um desastre natural, ele não
cessa. Ele nunca te solta. E então de repente, sem avisar, ele faz isso. Ele te
solta.

Três anos atrás Tag e eu voltamos para a cidade de Salt Lake e


ficamos. No começo eu me preocupei que Tag não seria capaz de se instalar
e que eu teria que deixa-lo ir. Ele sempre foi inquieto, impulsivo e ficava
facilmente entediado. Quando você passa quase seis anos viajando ao redor
do mundo isso entra no seu sangue. O movimento, a rapidez, a liberdade.
Acaba ficando difícil ficar em um lugar por muito tempo. Mas ele ficou. Nós
dois ficamos. Tínhamos corrido por aí como garotos perdidos em busca da
Terra Do Nunca e de alguma forma conseguir completar a volta como
homens.

Tag cavou fundo e desenvolveu um quarteirão inteiro de uma cidade,


um mundo que providenciava um lar para todas as pessoas que ele atraiu e
adotou ao longo do caminho. Eu construí minha reputação, aumentei minha
clientela, quase me matei, eventualmente me reconectei com Georgia e
consegui convencê-la a se casar comigo. A nossa filha Kathleen nasceu há
seis meses. Tag chorou quando a segurou pela primeira vez, completamente
despreocupado com o fato de que ele deveria ser o durão. Ele parecia tão
feliz. Tão pleno.
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E agora, inexplicavelmente, ele sumiu.


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Ele deixou Millie para trás. Ele deixou o Time Tag, seus negócios, seus
planos para um título na luta, tudo para trás. Ele me deixou para trás. E nada
disso fazia nenhum sentido. Se houve sinais, eu não os vi. E eu sou o cara
que deveria ver o que os outros não veem. Eu sou Moses Wright, médium,
artista, melhor amigo, e eu não vi os sinais.

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CAPÍTULO UM

MOSES

TAG NÃO DEIXOU um bilhete e sua casa estava limpa. Mais do que
limpa.

Encaixotada, esvaziada, uma placa de imobiliária na janela. Tag não é


uma pessoa especialmente organizada, algo que ele teria que mudar se
Millie fosse morar com ele. Obviamente sua faxineira tinha vindo e ido
embora, mas quando eu liguei para ela, ela não sabia de nada. Ninguém
sabia de nada. Tag não disse a ninguém que ele iria embora. Sua casa está à
venda, sua caminhonete sumiu. Ele sumiu. E não deixou nenhum futuro
endereço.

Ele deixou um envelope na academia com o nome de Millie escrito


nele. Dentro estava um molho de chaves, uma para a porta da frente, uma
para o centro de treinamento, uma para o bar, uma para um gabinete de
arquivos em seu escritório na academia. Levou um tempo para
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encontrarmos as fechaduras respectivas de cada chave, mas encontramos.


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Não parece que Tag estava nos fazendo jogar caça ao tesouro. Isso não era o
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estilo dele tampouco. Ele apenas não queria que o encontrássemos. E isso
me assustava pra cacete.

Na primeira gaveta do gabinete de arquivos tinha uma caixa de sapato


repleta de fitas cassetes. Elas estavam etiquetadas com o nome de Tag, um
número e adesivos irregularmente colados. Um pequeno gravador de fita, do
tipo com botões em baixo e o alto-falante ao longo da parte superior, do tipo
que se parece um pouco com um grande piano estava na caixa também.

Quando perguntei para Millie se ela sabia alguma coisa sobre as fitas,
ela passou os dedos ao redor delas, surpresa, e então assentiu.

— O meu irmão Henry deve ter dado para ele. Ele tinha esse gravador
de fitas cassete no quarto dele desde sempre. Henry usava para fingir que
era um narrador de esportes e criar suas próprias partidas imaginarias. Ele
assistia aos jogos do meu pai e falava no gravador como se fosse Bob Costas
ou alguém do tipo. Antes de a minha mãe morrer ela comprou um gravador
digital para ele. Mas Henry guarda tudo. Ele deve ter dado isso para o Tag.

Tag gosta das coisas que ele pode tocar. Ele e Millie tinham isso em
comum. Ela precisava tocar para ver. Ele precisa tocar para se sentir
conectado. Eu podia o ver colocando as fitas no gravador e falando, levando
uma eternidade para chegar ao ponto. Contar estórias e rir desse jeito era
simplesmente uma grande piada. Eu tentei me sentir com raiva, mas eu sei
que a verdadeira razão para ele ter deixado as fitas foi por que era o único
jeito que ele tinha de deixar uma mensagem para Millie. O único jeito de
permiti-la a privacidade de ouvir o que quer que seja que ele tinha a dizer
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sem uma audiência.


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— Você sabe como usar isso, certo? – eu perguntei.

Ela assentiu.

— Eu acho que são pra você Millie. – eu disse.

— Ele etiquetou as fitas. – ela sussurrou. — Ele as etiquetou para que


eu soubesse qual ouvir primeiro.

— Os adesivos?

Ela assentiu novamente.

— Sim. Eu os tenho em todas as minhas roupas e eu mantenho uma


pequena caixa cheia deles no meu quarto. Números, letras, palavras. Acho
que ele estava prestando atenção quando eu mostrei para ele.

— Tag sempre presta atenção. Você acha que não porque ele é
desleixado. Ele é inquieto. Mas ele não deixa nada passar.

A boca de Millie começou a tremer e lágrimas caíram por entre seus


cílios. Desviei o olhar, embora não precisasse fazer isso.

Eu a ouvi pegar desajeitadamente a fita, ouvi-a colocar no aparelho e


apertar o play. Escutei até a voz de Tag preencher o silêncio, fazendo-me
recuar e sorrir simultaneamente, incapaz de decidir se eu estava bravo ou
com medo por ele. Independentemente de qual, eu não acho que Tag queria
que eu escutasse o que ele tinha a dizer para Millie, então eu abri a porta do
escritório, preparando-me para deixa-la sozinha. A fita parou
imediatamente, interrompendo Tag enquanto ele falava para Millie sobre
seu bar. Eu sabia tudo sobre seus negócios e eu não queria mais ouvir. Mas
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Millie tinha outras ideias.


The Song of David/ Amy Harmon

— Moses? Por favor, não me deixe. Eu quero que você as escute


comigo. Você também o ama. Eu preciso que você as escute comigo, para
que eu não deixe nada passar. E então eu preciso que você me ajude a
encontrá-lo.

CONHECI DAVID Taggert em um centro psiquiátrico quando eu tinha


dezoito anos de idade. Hospital Psiquiátrico de Montlake. Encontrei seu
olhar pela primeira vez através no circulo de conselhos, vendo sua irmã
morta pairando sobre seu ombro e perguntei para ele se ele conhecia Molly.
Era esse seu nome. Molly. Sua irmã morta. Ele foi tomado pela raiva, voando
através do espaço entre nós e me derrubando no chão. Ele tinha as mãos
envoltas na minha garganta, exigindo respostas antes que os psiquiatras
técnicos pudessem tirá-lo de cima de mim.

Não foi um começo de amizade promissor.

Estávamos lá por motivos diferentes. Eu tinha sido mandado para lá


por pessoas que tinham medo de mim e Tag tinha sido enviado por pessoas
que os amavam. Eu via pessoas mortas e ele queria morrer. Éramos jovens,
éramos sozinhos, estávamos perdidos e eu não queria ser encontrado. Eu
queria correr até o fim da Terra e fazer com que a morte me caçasse.
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Tag só queria descobrir o mundo.


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Talvez fosse a nossa juventude. Talvez fosse o fato de que ambos


estivemos numa clínica de psiquiatria e nenhum de nós especialmente
queria ir embora. Ou talvez fosse apenas que Tag com sua voz anasalada
exagerada e sua personalidade cowboy, não era nada parecido comigo.
Qualquer que seja a razão, nós entramos em um tipo de relacionamento.
Talvez fosse porque ele acreditava em mim. Sem hesitar. Sem reservas. Sem
julgamento. Ele acreditava em mim. E nunca parou.

Tag e eu tínhamos sidos colocados em isolamento por três dias devido


a nossa luta livre na sessão de conselhos e nenhum de nós estávamos
autorizados a sair de nossos quartos. No terceiro dia de isolamento, Tag
entrou correndo no meu quarto e fechou a porta. Encarei-o malignamente.
Eu tinha meio que a impressão de que a porta tinha sido trancada. Eu não
tinha nem mesmo checado para confirmar e me senti estúpido por ficar
sentado em um quarto por três dias atrás de uma porta destrancada.

— Eles aparecem no corredor a cada poucos minutos. Mas é tudo. Foi


ridiculamente fácil. Eu deveria ter vindo mais cedo. – ele disse e se sentou
na minha cama. — Eu sou David Taggert, aliás. Mas você pode me chamar de
Tag.

Ele não se desculpou por ter me atingido e ele não parecia querer
fazer aquilo de novo, o que era decepcionante.

Se ele não queria brigar então eu queria que ele fosse embora. Eu
imediatamente voltei a minha atenção para o desenho que estava
trabalhando. Eu sentia que a irmã dele estava aqui, bem além da minha
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vista, sua imagem oscilando através das minhas barreiras e eu suspirei


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pesadamente. Eu estava cansado de Molly e não gostava de seu irmão.


Ambos eram incrívelmente teimosos e desagradáveis.

— Você é um filho da puta louco. – ele afirmou preâmbulo.

Eu nem mesmo levantei a cabeça da imagem que eu estava


desenhando com um pedaço de giz de cera. Eu estava tentando fazer meus
suprimentos durarem. Eu estava acabando com eles rápido demais.

— É isso que as pessoas dizem, não é? Elas dizem que você é louco.
Mas eu não acredito nisso, cara. Não mais. Você não é louco. Você tem
habilidades. Habilidades malucas.

— Maluco. Louco. Não significam a mesma coisa? – murmurei.


Loucura e habilidades eram, de perto, relacionadas. Eu me perguntei sobre
quais habilidades que ele estava falando. Ele não tinha me visto pintar.

— Não, cara. – ele disse. — Não significam a mesma coisa. Pessoas


loucas precisam ficar em lugares como esse. Você não pertence a esse lugar.

— Eu acho que provavelmente pertenço.

Ele riu claramente surpreso.

— Você acha que é louco?

— Eu acho que estou rachado.

Tag inclinou a cabeça de uma forma engraçada, mas quando eu não


continuei, ele assentiu.

— Ok. Talvez nós todos estejamos rachados. Ou retorcidos. Eu com


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certeza estou.
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— Porque você está retorcido? – me vi perguntando. Molly estava


rondando-me e eu desenhei rápido, sem conseguir evitar, preenchendo o
papel com seu rosto.

— A minha irmã se foi. E a culpa é minha. E até eu saber o que


aconteceu com ela, eu nunca vou ser capaz de me endireitar. Estarei
retorcido para sempre. – sua voz estava tão suave que eu não tenho certeza
se a última parte fora dita para mim.

— Essa é a sua irmã? – eu perguntei relutantemente. Estendi meu


bloco de desenhos.

Tag encarou. Então ficou em pé. E então se sentou de novo. E assentiu


com a cabeça.

— É. – ele engasgou. — Essa é a minha irmã.

E ele me contou tudo.

O pai de David Taggert era um homem do óleo do Texas que sempre


quis ser um fazendeiro. Quando Tag começou a se meter em confusão
ficando bêbado todo fim de semana, o pai de Tag comprou um rancho de
cinquenta acres em Sanpete County em Utah e se mudou com a família para
lá. Ele tinha certeza que se conseguisse manter Tag e sua irmã mais velha,
Molly, longe de onde estavam acostumados, ele seria capaz de endireitá-los.

Mas as crianças não mudaram. Eles se rebelaram. Molly fugiu e nunca


mais foi vista. Tag lutava para ficar sóbrio, mas quando ele não estava
bebendo, estava se afogando em culpa e eventualmente tentou se matar.
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Várias vezes. O que o trouxe para a clínica psiquiátrica comigo.


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Eu o escutei, deixando-o falar. Eu não sabia como sua irmã tinha


morrido mais do que ele sabia. Não era isso que os mortos queriam
compartilhar. Eles queriam mostrar suas vidas. Não suas mortes. Nunca.
Quando Tag terminou de falar ele me olhou com os olhos cheios de tristeza.

— Ela está morta, não está? Você pode vê-la, então isso significa que
ela morreu.

Eu assenti com a cabeça e ele fez o mesmo, aceitando a minha


resposta sem argumentar, sua cabeça abaixando, a minha estima por ele
aumentando. Então eu mostrei para ele as coisas que Molly tinha me
mostrado, desenhando as imagens que passavam rapidamente na minha
cabeça toda vez que ela estava por perto.

Então Tag falou de mim para seu pai. E por alguma razão, desespero,
desânimo ou talvez apenas um desejo de aplacar seu filho inflexível, O
senhor de David Taggert contratou um homem e seus cachorros para
inspecionar a área que eu havia descrito. Os cães captaram o cheiro dela
rapidamente e eles encontraram seus restos. Bem desse jeito. Em uma cova
rasa amontoada com pedras e detritos, a um pouco mais de 45 metros de
onde eu havia pintado seu rosto sorridente em um viaduto, os restos de
Molly Taggert foram descobertos.

Tag chorou quando me contou. Grandes e profundos soluços que fazia


com que seus ombros chacoalhassem e meu estômago se apertasse
dolorosamente.

Essa foi a primeira vez que eu tinha feito alguma coisa desse tipo.
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Ajudado alguém. Encontrando alguém. Foi a primeira vez que minhas


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habilidades, se é isso o que elas eram, tiveram um sentido. Mas Tag tinha
mais perguntas.

Uma noite depois das luzes se apagarem, ele veio e me encontrou, se


rastejando pelo corredor, indetectável, do jeito que ele sempre fazia,
buscando respostas que nenhum dos funcionários poderia dar para ele,
perguntas que ele achava que eu tinha. Tag era geralmente rápido em sorrir,
rápido em ficar irritado, rápido em perdoar, rápido para apertar o gatilho.
Ele nunca fazia nada pela metade e eu me perguntava às vezes se o centro
psiquiátrico não era o melhor lugar para ele, apenas para mantê-lo contido.
Mas ele tinha um lado sentimental também.

— Se eu morrer, o que acontecerá comigo? – ele me perguntou.

— Porque você acha que vai morrer? – eu respondi soando como um


dos nossos médicos.

— Eu estou aqui porque eu tentei me matar várias vezes, Moses. – ele


confessou.

— É. Eu sei. – apontei para a longa cicatriz em seu braço. Não foi uma
dedução difícil. — E eu estou aqui porque faço pinturas de pessoas mortas e
assusto pra caralho todos os vivos com quem eu entro em contato.

Ele sorriu.

— É. Eu sei. – ele tinha me descoberto também. Mas seu sorriso sumiu


imediatamente. — Quando não estou bebendo, a vida me tritura até que eu
não sou capaz de enxergar com clareza. Não foi sempre assim. Mas agora é.
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A vida é uma tremenda droga Moses.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Você ainda quer morrer? – eu perguntei mudando de assunto.

— Depende. O que vem depois?

— Mais. – eu respondi simplesmente. — Há mais. Isso é tudo que eu


posso te dizer. Não acaba.

— E você consegue ver o quem vem depois?

— O que você quer dizer? – eu não conseguia ver o futuro se era isso o
que ele queria dizer.

— Você consegue ver o outro lado?

— Não. Eu só vejo o que eles querem que eu veja. – eu disse.

— Eles? Eles quem?

— Qualquer um que vier até mim. – eu dei de ombros.

— Eles sussurram pra você? Eles falam? – Tag estava sussurrando


também, como se o assunto fosse sagrado.

— Não. Eles não dizem nada mesmo. Eles apenas me mostram coisas.

Tag estremeceu e esfregou sua nuca, como se ele estivesse tentado se


livrar do arrepio que se espalhou pelas suas costas.

— Você vê tudo? Suas vidas inteiras?

— As vezes parece isso. Pode ser uma inundação de cor e


pensamentos e eu só consigo pegar coisas aleatórias porque elas passam na
minha cabeça muito rápido. E eu só consigo realmente ver o que eu entendo.
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Tenho certeza que eles gostariam que eu visse mais. Mas não é fácil assim. É
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subjetivo. Eu normalmente vejo pedaços e partes. Nunca a imagem inteira.


The Song of David/ Amy Harmon

Mas eu tenho melhorado em filtrar e desde que eu comecei a melhorar, tudo


parece muito mais como uma lembrança e menos como uma possessão. – eu
sorrio, apesar de mim mesmo, e Tag balança a cabeça em admiração.

— Moses? – Tag me tirou de meus pensamentos.

— Sim?

— Não leve a mal... Mas se, você sabe, se houver mais e se não for
ruim, assustador e se não for o apocalipse zumbi. Se não for fogo e enxofre...
Pelo menos, não tanto quanto você pode dizer, então porque você fica? – sua
voz estava tão silenciosa e cheia de emoções que eu não tinha certeza se
alguma coisa que eu dissesse poderia ajuda-lo. Eu não tinha certeza se sabia
a resposta. Levou-me um minuto pensando, mas eu finalmente tinha a
resposta que era verdadeira.

— Porque eu ainda serei eu mesmo. – eu respondi. — E você ainda


será você mesmo.

— O que você quer dizer?

— Nós não podemos fugir de quem somos Tag. Aqui, lá, na metade do
caminho através do mundo ou em uma clínica de psiquiatria na cidade de
Salt Lake. Eu sou o Moses e você é o Tag. E essa parte nunca muda. Então
nós descobrimos isso aqui ou descobrimos isso lá. Mas ainda teremos que
enfrentar. E a morte não vai mudar isso.

Ele assentiu com a cabeça lentamente, encarando minhas mãos, visto


que elas criavam imagem que nenhum de nós dois realmente entediamos.
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— Essa parte nunca muda. – ele sussurrou como um eco. — Você é o


Moses e eu sou o Tag.

Assenti.

— É. Mesmo que isso às vezes seja uma droga, é reconfortante


também. Pelo menos sabemos quem somos.

Ele nunca mais perguntou sobre sua mortalidade novamente e nas


semanas que se seguiram ele estava com uma confiança que eu suspeitava
que uma vez ele a tinha sobre espadas. Ele parecia estar fazendo planos para
o que viria a seguir. Eu ainda não tinha nenhuma dica.

— Quando você sair, para onde você vai? – Tag me perguntou uma
noite no jantar, seus olhos na comida, seus braços na mesa.

Ele conseguia comer quase tanto quanto eu. E eu tinha certeza que os
funcionários da cozinha de Montlake desfrutariam de um descanso quando
fossemos embora.

Eu não queria conversar sobre isso com Tag. Eu na verdade não


queria conversar sobre isso com ninguém. Então eu fixei meu olhar além da
cabeça de Tag, para fora da janela, para que ele soubesse que eu estava
pronto para que a conversa acabasse. Mas Tag persistiu.

— Você tem quase dezenove anos. Você está oficialmente fora do


sistema. Então para onde você vai Mo? – eu não sei por que ele pensou que
poderia me chamar de Mo. Eu não tinha dado permissão. Mas ele era assim.
Rastejando-se pra o meu espaço.
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The Song of David/ Amy Harmon

Meus olhos se voltaram brevemente para Tag e então eu dei de


ombros como se isso não fosse importante.

Eu estive aqui por meses. Passei o Natal, o Ano Novo e fevereiro. Três
meses em uma instituição mental. E eu queria poder ficar.

— Venha comigo. – Tag disse, jogando seu guardanapo na mesa e


empurrando sua bandeja para longe.

Eu me recuei, aturdido. Eu me lembrei do som de Tag chorando, os


lamentos que ecoavam pelo corredor quando ele foi trazido para o centro
psiquiátrico na noite em que foi admitido. Ele havia chegado quase um mês
depois que eu cheguei. Eu tinha me deitado na cama e escutado as tentativas
de contê-lo. Naquele momento eu não tinha percebido que era ele. Eu só
liguei os pontos depois quando ele me disse o que o tinha trazido para
Montlake. Pensei na forma que ele tinha vindo até mim com seu punho
voando, ira em seus olhos, quase fora de si por causa da dor na sessão em
que nos conhecemos. Tag interrompeu a minha linha de pensamento
quando continuou a falar.

— A minha família tem dinheiro. Não temos muito mais coisas, mas
temos toneladas de dinheiro. E você não tem merda nenhuma.

Segurei-me com firmeza, esperando. Era verdade. Eu não tinha merda


nenhuma. Tag era meu amigo, o primeiro amigo de verdade, além de
Georgia, que eu jamais tive. Mas eu não queria as merdas do Tag. O bom e o
mau e Tag tinha os dois em abundância.
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— Eu preciso de alguém que se certifique que eu não me mate. Eu


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preciso de alguém que seja grande o suficiente para me dominar se eu


The Song of David/ Amy Harmon

decidir que preciso ser esmagado. Vou contratar você para passar cada
minuto de vigília até que eu descubra como ficar sóbrio sem querer cortar
meus pulsos.

Inclinei minha cabeça para o lado, confuso.

— Você quer que eu o contenha?

Tag riu.

— É. Soque a minha cara, me jogue no chão. Acabe comigo. Apenas se


certifique de que estou sóbrio e vivo.

Ponderei por um instante se eu conseguiria fazer isso com Tag. Socá-


lo. Jogá-lo no chão. Segurá-lo no chão até que a necessidade da bebida ou da
morte passasse. Eu era grande. Forte. Mas Tag não era exatamente pequeno,
não muito. A minha dúvida devia estar estampada no rosto, porque Tag
estava falando de novo.

— Você precisa de alguém que acredite em você. Eu acredito. Vai ficar


cansativo de sempre ter as pessoas pensando que você é psicótico. Eu sei
que você não é. Você precisa de um lugar para ir e eu preciso de alguém que
venha comigo. Não é um mau negócio. Você queria viajar. E eu não tenho
nada melhor para fazer. A única coisa no qual eu sou bom é em lutar e eu
posso lutar em qualquer lugar. – ele sorriu e deu de ombros. —
Honestamente eu não confio em mim mesmo para ficar sozinho ainda. E se
eu voltar para casa em Dallas eu vou beber. Ou morrer. Então eu preciso de
você.
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Ele tinha dito aquilo tão facilmente “Eu preciso de você. ” Eu me


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perguntava como era possível uma criança difícil como Tag, uma pessoa que
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lutava para se divertir, conseguia admitir aquilo para alguém. Ou acreditar


naquilo. Eu nunca precisei de ninguém. Não realmente. E eu nunca disse
aquelas palavras para ninguém. “Eu preciso de você” parecia um “Eu amo
você” e isso me assustava. Parecia que isso quebrava uma de minhas leis.
Mas naquele momento, com nossa libertação iminentemente extensa, com a
liberdade na ponta dos dedos, eu admiti a mim mesmo. Eu precisava de Tag
também.

Fazíamos um par estranho. Um mestiço delinquente que não


conseguia parar de pintar e um grande texano cheio de atitude e um cabelo
desgrenhado. Mas Tag estava certo. Estávamos ambos presos. Perdidos.
Com nada para nos impedir e sem direção. Eu apenas queria a minha
liberdade e Tag não queria ficar sozinho. Eu precisava do dinheiro dele e ele
precisava da minha companhia, triste como normalmente era. Então nós
fomos. Corremos. Não olhamos para trás.

— Nós vamos continuar correndo Moses. É como você disse. Aqui, lá,
do outro lado no mundo? Não podemos escapar de quem somos. Então
ficaremos juntos até nos encontrarmos, tudo bem? Até descobrirmos como
lidar com isso. – foi isso o que ele disse. Foi isso o que fizemos. E Tag Taggert
se tornou o meu melhor amigo. Quando eu mais precisei dele, ele me
segurou e não me soltou.

Então agora eu preciso encontrá-lo.

A coisa que mais me assustava é que talvez ele tenha encontrado suas
respostas. Talvez ele saiba exatamente o que está fazendo. Exatamente
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quem ele é. Talvez ele tenha descoberto o mundo. Mas fizemos um acordo
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The Song of David/ Amy Harmon

quando tínhamos dezoito anos. E até onde eu me importo, um acordo é um


acordo.

“Eu preciso de alguém que se certifique que eu não me mate. Eu


preciso de alguém que seja grande o suficiente para me dominar se eu
decidir que tenho que ir a merda. Soque a minha cara, me jogue no chão.
Acabe comigo. Apenas se certifique de que estou sóbrio e vivo.” Ele disse.
Ele queria que eu o mantivesse vivo.

Eu apenas esperava que não fosse tarde demais.

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The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO DOIS

Meu bar se chama Tag porque é meu. Simples assim. Quando eu o


comprei, eu pensei sobre o nome durante algumas semanas, tentando
pensar em algo atrativo, algo inteligente, mas no final, eu só coloquei meu
nome nele. Faz sentido, não faz? Quando algo é seu, você dá-lhe seu nome.

Como um alcoólatra em recuperação, ser dono de um bar poderia ser


considerado masoquista, mas eu não sou dono dele pela bebida. Eu sou
dono dele porque cada vez que eu entro, olho ao redor, vou até o bar ou
sirvo uma bebida, eu me sinto poderoso. Sinto como se tivesse dominando
meus demônios, ou pelo menos controlo-os. Além disso, eu sou um homem,
e o bar é uma caverna de homem1 para superar todas as cavernas de
homem. TVs de tela plana penduradas nas paredes e funcionando ao mesmo
tempo, de modo que os clientes podem manter um olho em vários jogos ao
mesmo tempo, com seções do bar dedicados a esportes diferentes. Se você
vem para assistir uma luta em particular ou um jogo de futebol, há uma tela
sintonizada apenas para você. Isto cheira como charutos caros e couro,
como agulhas de pinheiro e pilhas de dinheiro, todos os aromas que fazem
um homem grato pela sua testosterona. A decoração consiste em paredes de
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Caverna de homem é o termo que os americanos costumam usar para identificar um cômodo que seja
tipicamente masculino onde os homens podem assistir TV, jogar, beber, sem se preocupar com bagunça ou com as
mulheres.
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pedra, madeira escura, uma iluminação acolhedora e garçonetes bonitas. E


eu estou extremamente orgulhoso disso.

Mas eu não sou dono apenas do bar. O quarteirão inteiro é meu. O bar
na esquina, a pequena arena fechada onde lutas locais ocorrem todas as
noites de terça e uma vez por mês aos sábados, a academia ao lado da arena,
e no final do quarteirão, uma loja de artigos esportivos, cheio de
equipamentos e roupas do Tag Team com a minha etiqueta estampada em
cada superfície. Meu próprio apartamento e dois outros, ocupados por
pessoas de minha escolha, localizados em cima do ginásio de treinamento. O
quarteirão é meu mundo inteiro, um mundo de minha criação. E tudo está
conectado, cada negócio jogando para os outros.

Até mesmo o bar e a arena de luta estão ligadas, e nas noites quando
não há lutas, os assentos da arena são isolados por uma parede de metal
com portas sanfonadas, e o espaço torna-se um palco para uma sala secreta,
uma alcova privada preenchida com uma dúzia de pequenas mesas e
cabines, o bar facilmente acessível apenas ao virar da esquina, e garçonetes
mantendo-o confortável em seus assentos. Quatro noites por semana, a
pequena Arena é o lar de um tipo totalmente diferente de show, um tipo
completamente diferente de evento esportivo. Um pole é erguido no centro
do octógono e lutadores não são permitidos dentro, apenas uma mulher
após outra, girando e se contorcendo no pole no ritmo da música pulsante
que é silenciado de todo o resto do estabelecimento. Eu mantenho-o
elegante, tão elegante quanto um pole com strippers seminuas pode ser. As
meninas dançam, elas não ficam nuas e elas não se misturam além do palco.
24

Mas é quente o suficiente, obsceno o suficiente, que eu mantenho isso


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The Song of David/ Amy Harmon

separado do resto do estabelecimento. É a sala reservada para as


negociações, eu faço mais negócios lá do que em qualquer outro lugar, e a
cereja no topo de um estabelecimento que atende a homens que trabalham
duro que se sentem apropriadamente envergonhados e gratos apenas por
estar lá.

O Tag foi inaugurado há dois anos, junto com o lançamento da linha de


roupas e minha primeira grande luta, a luta onde eu bati em alguém que eu
não tinha nenhum negócio. Eu o nocauteei friamente e tornou-se um
negócio quente. Eu planejei tudo, aproveitando o sucesso de um para lançar
outro. Eu era um garoto rico que se tornou um homem de negócios, um
cowboy mais adequado para cavalgar uma onda de adoração do que um
cavalo, e mais interessado em assumir o mundo do ultimate fight e do MMA
do que em assumir as empresas do pai. Eu poderia ter. Era um caminho de
ouro que se estendia diante de mim, uma estrada de privilégios e sem
percalços. Mas era uma estrada que eu não tinha construído, e estou
convencido de que você não pode nunca ser completamente feliz andando
na estrada de outra pessoa. O caminho de outra pessoa. O caminho para a
verdadeira felicidade é trilhar o seu próprio caminho, mesmo que o seu
caminho não seja em linha reta. Mesmo se existem pontes para construir e
túneis nas montanhas para atravessar. Nada parece tão bom quanto
pavimentar seu próprio caminho.

Eu tinha chegado a Salt Lake City pronto para iniciar a construção de


estradas, três anos atrás. Eu tinha dinheiro, o pouco do meu próprio
dinheiro, dinheiro que ganhei com Moses, e um pouco de dinheiro que eu
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não tinha ganhado. Eu era um garoto rico, mas eu não era uma criança
Página
The Song of David/ Amy Harmon

estúpida. Eu sabia que precisava de capital para construir um império. Às


vezes é preciso dinheiro para fazer dinheiro. Então eu peguei o dinheiro que
meu pai me deu e prometi a mim mesmo que iria devolvê-lo antes de eu
morrer ou antes de eu completar trinta anos. O que viesse primeiro.

Aos vinte e seis anos, eu não tinha muito tempo ou espaço para errar.
Mas eu estava no caminho certo e o bar estava indo muito bem. A prova
disso estava ao meu redor quando eu entrei pela porta da frente naquela
segunda-feira à noite, a noite tipicamente mais lenta da semana, e encontrei
todos os bancos e mesas ocupados, para o feliz som de clientes relaxados. O
lugar cantarolava e meu coração aquecido com a música. Duas das minhas
garçonetes passaram por mim, vestidas como ring girls com shorts curtos e
top frente única do Tag Team, entregando bebidas em vez de anunciar
rounds. Elas me deram sorrisos idênticos e jogaram seus cabelos, quase
como se fosse parte da descrição do trabalho. Talvez devesse ser... ou talvez
fosse apenas senso comum. Você sempre sorri para o chefe.

Eu não estava lá para paquerar, embora eu sorri automaticamente. Em


vez disso, eu calculei o humor da sala, o número de homens se
embebedando no bar, o número de mesas cheias, o fluxo do álcool e a
eficiência da equipe de garçons. Quando eu me aproximei do bar para falar
com Morgan, meu gerente, uma batida forte começou a latejar do fundo do
corredor, ao virar do canto escuro onde as meninas dançavam e a música
era mais alta.

— Quem está dançando esta noite? - Perguntei, sem realmente me


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importar, mas perguntei de qualquer maneira.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Justine. Lori. E a nova garota. - Morgan sorriu como se tivesse um


segredo, e eu estava imediatamente curioso. Ele deslizou uma Coca-Cola na
minha frente quando me sentei e eu tomei um longo gole antes de lhe dar
uma resposta.

— Oh sim? A julgar pelo seu sorriso de merda, eu estou supondo que


há algo que você precisa me dizer sobre a nova garota.

— Não. Nada. Ela é linda. Ótima dançarina. Grande corpo. Ela esteve
na programação nas últimas duas semanas, embora você perdeu todas suas
apresentações. Ela está sempre no horário, nunca diz duas palavras. Ela
dança, não bebe, não flerta. Apenas como você gosta delas. - Mais uma vez
com o sorriso.

— Huh. - Empurrei minha Coca-Cola e me levantei, sabendo que eu


poderia muito bem ir ver o que ele estava fazendo. Deixe isso para a Morgan
vestir um dos meus lutadores do Tag Team e colocá-lo na gaiola em um
biquíni. Ele amava uma brincadeira. Mas ele era um bartender muito bom...
mesmo que ele me deixasse louco com as brincadeiras.

Eu liguei para alguns clientes, apertei algumas mãos, beijei a bochecha


de Stormy quando como ela entregou garrafas de cerveja gelada, e acenei
para Malcolm Short, que, obviamente, não tinha tido tempo para trocar de
roupa depois do trabalho e parecia um pouco ridículo em seu terno de três
peças e seu boné do Utah Jazz. Mas os Jazz estavam jogando, e ele estava
entrando no espírito, feliz como um molusco sentado em seu banquinho,
olhos fixos na tela. Ele foi um dos patrocinadores do Tag Team e era bom vê-
27

lo feliz.
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The Song of David/ Amy Harmon

Eu era quase tão bom em trabalhar no bar quanto eu era no octógono,


embora eu prefira estar lutando todo o dia. Mas meus pensamentos estavam
nos negócios quando eu caminhei em toda a sala e através do arco que
separava as meninas dançando do sports bar. Meus olhos foram direto para
o palco, esperando o pior. Mas era Justine no pole, terminando o seu número
com um giro de seus quadris e uma volta final em torno do palco. Justine se
afastou, quadris balançando, os braços acenando, como se ela tivesse
acabado de anunciar o próximo round e as luzes apagaram.

Quando elas acenderam de novo, a nova menina estava no centro do


octógono, mãos no pole, de cabeça para baixo. Quando a música começou a
tocar, ela imediatamente começou sua coreografia, e eu fiz uma carranca em
consternação. A menina era magra e ágil, músculos lisos que se deslocam
abaixo da pele esticada. Seus cabelos castanhos escuros e lisos, eram
sedosos sob as luzes, seus membros brilhando por causa do óleo, e seu short
minúsculo e top de biquíni não é diferente da garota que dançou antes dela.
Eu a observei por um momento, à espera da piada. Tinha que haver uma.

Ela era linda, com características delicadas, um pequeno nariz, uma


boca rosada e um rosto em forma de coração, e eu senti um súbito lampejo
de medo que ela tivesse apenas quinze anos ou algo igualmente alarmante.
Eu descartei o pensamento imediatamente. Morgan era um brincalhão, não
um idiota. Algo como isso iria arruinar o bar. Algo como isso custaria a
Morgan seu trabalho. E Morgan adorava o trabalho dele, mesmo que ele
nem sempre gostasse de mim, mesmo que eu nem sempre apreciasse seu
senso de humor.
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The Song of David/ Amy Harmon

Não. Ela tinha, pelo menos, vinte e um. Essa era a minha regra. Apertei
os lábios e inclinei a cabeça, estudando-a. Ela trabalhou o pole, bem como
qualquer uma das outras meninas, talvez até melhor, mas a dança ela era
mais acrobática, mais atlética do que abertamente sexy. Os olhos dela
estavam fechados e ela tinha um suave sorriso nos lábios, que poderia ser
interpretado como sensual, especialmente considerando que ela estava
dançando para uma plateia majoritariamente de homens. Risque isso. Um
público todo de homens. Mas seu sorriso não era sensual. Era... sonhador,
como se ela estivesse imaginando que estava em outro lugar, uma pequena
bailarina girando no lugar dentro do globo de neve de uma criança,
dançando sozinha sem parar. Seu pequeno sorriso não se alterou, e seus
olhos permaneceram fechados, a curva pesada de seus cílios escuros
criando semicírculos de sombra em suas bochechas de porcelana.

A iluminação era estratégica, escondendo os espectadores e exibindo a


dançarina. Talvez as luzes machucassem seus olhos. Ou talvez ela estava um
pouco tímida. Eu ri. Hum... não. Uma dançarina de pole dance tímida era tão
contraditório quanto um lutador tímido. Mas alguém provavelmente deveria
dizer algo. Os homens na plateia adoravam acreditar que as dançarinas
estavam olhando direto para eles, e apesar de as dançarinas não se
misturarem com os homens, pelo menos não no bar, contato visual e uma
sutil paquera eram parte do trabalho. Eu me perguntei se isso era a piada de
Morgan. Se assim fosse, Morgan estava perdendo seu toque.

Eu me virei quando a música terminou e as luzes no octógono se


apagaram, indicando o final do número. Três meninas dançavam 15 minutos
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a cada hora, com outros quinze minutos de intervalo entre elas, de nove à
Página
The Song of David/ Amy Harmon

meia-noite. Afinal, era Utah e não Vegas. As dançarinas tinham folga duas, às
vezes três noites por semana, nas noites de luta e nas noites de clube,
quando o octógono era necessário para as lutas ou desmontado para criar
uma pista de dança. Com quatro dançarinas, agora, cinco, na minha folha de
pagamento, isso não era um trabalho em tempo integral de qualquer jeito. A
maioria das meninas tinham trabalhos do dia e agarravam as horas extras e
a boa remuneração anunciando os rounds e as lutas.

— Então, o que achou, chefe? – Morgan sorriu e deslizou um copo de


patron como eu me inclinei no bar e me sentei no mesmo banco, meus olhos
olhando para cima para verificar a pontuação, não dando a Morgan a
atenção que ele queria.

— Do quê?

— Da nova garota.

— Bonita. - Ele não precisava de todos os outros adjetivos que tinham


atravessado minha mente enquanto eu a via dançar.

— Sim? - Morgan levantou as sobrancelhas, como se a minha avaliação


de uma só palavra fosse surpreendente.

— Sim, Morg. - Eu suspirei. — Você conseguiu algo que você quer me


dizer? Porque eu não estou pegando isso.

— Não. Não, senhor. Nada.

Eu balancei a cabeça e gemi. Morgan estava definitivamente tramando


algo.
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Página

— Então, quantas semanas, chefe?


The Song of David/ Amy Harmon

— Oito. – Oito semanas até que eu lutasse contra Bruno Santos. A luta
que me daria uma vaga para a luta do título em Vegas. A luta que iria
catapultar a marca Tag Team em salas de todos os EUA. Oito semanas de
foco, nada de distrações, e nenhuma decisão além da luta. Depois que eu
ganhasse a luta, eu iria enfrentar o que viesse a seguir. Depois que eu
ganhasse essa luta o mundo poderia acabar, por tudo o que importava.
Depois que ganhasse.

— Ei, chefe. Lou ligou avisando que estava doente hoje à noite. Ele
geralmente garante que as meninas cheguem aos seus carros. Você quer
fazer isso? Já que você está aqui?

Todas as mulheres da minha equipe são escoltadas para seus veículos


no final de seus turnos. Sempre. Esta parte da cidade está mudando, mas
ainda não melhorou completamente. Tag está situado perto da antiga
estação central de trem em um bairro remodelado que ainda está preso em
algum lugar entre a restauração e a dilapidação. Dois quarteirões ao norte
há uma fileira de mansões construídas no início de 1900, duas quadras ao
sul há um shopping center completo com grades em todas as janelas. Um
spa ocupa a esquina do quarteirão à esquerda e um abrigo fica a dois
quarteirões para baixo à direita. A área é um conglomerado de tudo, e lá
estão alguns elementos que não são seguros. Eu me sinto responsável por
meus empregados, especialmente as meninas. Então eu imponho algumas
regras, mesmo que isso signifique ser às vezes acusado de ser
superprotetor, sexista, e à moda antiga.
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— Sim. Posso fazer isso.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Bom. Essa foi a última apresentação delas. Eu faria isso, mas as


bebidas não vão ser servidas sozinhas. O namorado de Kelli entrou e a
pegou dez minutos atrás, e Marci e Stormy estão fechando comigo, então eu
vou levá-las para fora. Você apenas tem Justine e Lori e Amelie.

— Ah-muh-lee? - Eu repeti, as sobrancelhas arqueadas.

— Sim. A nova dançarina. Amelie. Eu não disse?

— Não. Você não disse. O que ela é, francesa?

— Algo parecido com isso; - disse Morg, e eu pude ver que ele estava
tentando não rir. — Ela mora perto e ela vai andando, no entanto. Lou
reclama sobre isso, mas é realmente apenas um quarteirão. Eu digo a ele
que vai fazer algum bem a sua bunda gorda.

— Huh. - Então essa era a parte engraçada. Eu teria que ir andando


com a nova garota até a casa dela, e estava começando a neve. A menina
francesa. Por mim, tudo bem. Eu estava muito impaciente para dormir de
qualquer maneira. Eu estava pensando em bater o saco de velocidade até
que eu pudesse me cansar o suficiente para dormir por algumas horas.

Na sugestão, Justine e Lori apareceram na porta de entrada entre a


sala e o bar, vestidas com sobretudos e com suas malas na mão.

— Onde está Amelie? - Perguntou Morgan, olhando para além delas.

— Ela disse que iria esperar Lou lá fora. - Justine respondeu.

— Lou não está esta noite. Tag irá acompanha-las até lá fora. Certo,
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chefe?
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The Song of David/ Amy Harmon

— Certo, Morg. – Eu segurei minha irritação quando Morgan riu de


novo e piscou para as meninas.

Acompanhei Justine e Lori até seus veículos no estacionamento na


parte de trás, observei quando elas se afastaram, e então caminhei até a
frente do edifício, optando por não ir pelo bar, ansioso para evitar Morg pelo
resto da noite. Quando eu dei a volta no edifício, eu podia ver a nova garota
esperando na calçada, rosto inclinado para cima, deixando os flocos
pousarem em suas bochechas como se ela gostasse da sensação. Ela esperou
por mim, como se ela não tivesse qualquer pressa para sair do frio, as mãos
dela envolvidas em torno de uma vara longa que, no diante da luz suave do
bar e da neve caindo em torno dela, a fez parecer como uma pastora em uma
peça de Natal.

— Olá? - Havia uma pergunta na sua voz quando me aproximei, e ela


deslizou seu bastão um pouco para frente e cutucou meu pé quando eu
parei.

— Lou?

— Lou está doente, então eu vou andar com você até sua casa. - Eu
respondi lentamente, inundada com a realização chocante quando ela se
virou de frente para mim. Seus olhos estavam arregalados e fixos, e eu senti
uma pontada surpreendente em algum lugar atrás do meu coração. Ela tinha
olhos bonitos. Eles eram grandes e luminosos, cercados por cílios negros
que varreram seu rosto quando ela fechou os olhos. Mas eles estavam vagos,
e olhando para eles me fez inexplicavelmente triste. Então eu olhei para
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baixo, estudando sua boca e seu cabelo liso escuro que emoldurava seu
Página
The Song of David/ Amy Harmon

rosto e caía sobre os ombros. Então ela sorriu, e a pontada no meu coração
cortou através do meu peito mais uma vez e roubou a minha respiração.

— Ah, a longa pausa. Eu sempre consigo isso. Minha mãe sempre disse
que eu era bonita. - disse ela secamente. — Mas apenas no caso eu não sou,
você vai prometer mentir para mim? Exijo detalhadas mentiras sobre minha
aparência. - Ela disse tudo isso naturalmente. Sem amargura. Somente
aceitação. — Então você ganhou o dever de levar a menina cega, hein? Você
não tem que me levar em casa. Eu cheguei aqui sozinha. Mas Morgan me
disse que é a regra com todas as meninas. Ele disse que o chefe insiste.

— Ele tem razão. É um grande bairro, mas você e eu sabemos que


ainda é bastante violento. – Eu respondi, recusando-me a me sentir
envergonhado, recusando-me a pedir desculpas por olhar.

Ela estendeu a mão e esperou para eu pegá-la.

— Bem, então, eu vou me apresentar. Eu sou Amelie. E eu sou cega. -


Seus lábios arquearam, deixando-me saber que ela estava rindo tanto de si
mesma quanto de mim. Eu estendi a mão e envolvi sua mão sem luva na
minha. Seus dedos estavam gelados, e eu não queria liberá-los
imediatamente. Então ela não era francesa, ela era cega, e de alguma forma
Morg pensou que era histericamente engraçado.

— Olá, Amelie. Eu sou David. E eu não sou cego.

Ela sorriu novamente, e eu me peguei sorrindo também, a pontada de


simpatia que eu senti por ela facilitando consideravelmente. Eu não sei por
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que eu disse a ela que meu nome era David. Ninguém mais me chama de
Página

David. O nome David sempre fez eu me sentir como se eu tivesse falhado,


The Song of David/ Amy Harmon

sem nem mesmo ter tentando. Era o nome do meu pai. E o nome do pai dele.
E seu pai antes dele. David Taggert era um nome que carregava peso. E eu
senti esse peso ainda muito jovem. Então meus amigos tinham começado a
me chamar de Tag. Tag me libertou. Isto me permitiu ser jovem, de espírito
livre. Apenas a palavra em si trouxe à mente imagens de fugir. "Sou Tag...
você não pode me pegar”.

— Suas mãos são calejadas, David.

Era uma coisa estranha para comentar quando aperta as mãos de


alguém pela primeira vez, mas Amelie enrolou seus dedos contra a palma da
minha mão, sentindo os cumes ásperos que ladeavam a base dos meus
dedos como se ela estivesse lendo em braile.

— Exercício? - Ela adivinhou.

— Uh, sim. Eu sou um lutador.

Uma sobrancelha levantou-se em questionamento, mas seus dedos


continuaram a traçar minha mão intimamente. Senti-me bem. E estranho. O
céu da minha boca começou a formigar e meus dedos curvaram-se em
minhas botas.

— Os calos são dos pesos. Barras. Esse tipo de coisa. - Eu soava como
um idiota. Como um idiota, aspirante a Rocky. Eu poderia muito bem gritar:
"Eu, Adrian!”

— Você gosta disso?


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The Song of David/ Amy Harmon

— Lutar? - Perguntei, tentando me segurar. Ela não conversava como


as meninas que eu conhecia. Ela era tão direta. Tão brusca. Mas talvez ela
tinha que ser. Ela não tinha o luxo da aprendizagem através da observância.

— Sim. Lutar. Você gosta? – Ela esclareceu.

— Sim. Eu gosto.

— Por quê? – perguntou.

— Eu sou grande, forte e raivoso. - Eu disse sinceramente, sorrindo.

Ela riu, e eu soltei todo o ar que eu estava segurando desde que ela
estendeu a mão em saudação. Seu riso não era juvenil e alto, tilintando e
doce. Era robusto, saudável, o tipo de riso que veio de sua barriga e não
tinha nada a esconder.

— Você cheira bem, David.

Eu meio que engasguei, meio ri, surpreendido mais uma vez. Mas ela
se manteve falando.

— Então, eu sei que você é grande, forte, raivoso e cheira bem. Você é
alto também, porque sua voz está vindo de cima. Você também é do Texas e
você ainda é jovem.

— Como você sabe que eu sou jovem?

— Homens velhos não lutam. E a sua voz. Você estava cantando Blake
Shelton sob a sua respiração quando você se aproximou. Se você fosse mais
velho que você poderia cantar Conway Twitty ou Waylon Jennings.
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— Eu canto eles também.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Excelente. Você pode cantar enquanto nós andamos. - Ela lançou


seu bastão com praticidade e ela se dobrou ordenadamente em três partes.
Então ela colocou debaixo de seu braço esquerdo quanto me alcançava com
o braço direito. Em seguida, ela colocou a mão em torno de meu bíceps
como se fosse a coisa mais natural do mundo. E nós estávamos saindo,
caminhando lentamente, mas firmemente através das ruas silenciosas, a
neve caindo, a umidade penetrando em nossos sapatos. Eu sou um cara que
pode conversar com o melhor deles, mas eu me encontrei completamente
perdido.

Amelie parecia completamente confortável e não puxou conversa


enquanto nós caminhamos, braço com braço, como dois amantes em um
filme antigo. Homens e mulheres não andam mais dessa maneira. A não ser
que um pai esteja levando sua filha até o altar ou um menino escoteiro
esteja ajudando uma senhora idosa a atravessar a estrada. Mas eu descobri
que eu gostei. Eu me senti como um homem de uma época passada, numa
altura em que homens acompanham as mulheres, não porque as mulheres
não podiam andar sozinhas, mas porque os homens as respeitavam mais,
porque uma mulher é algo para ser cuidada, para ter cuidado.

— Houve um tempo em que tudo no mundo era mais bonito. – As


palavras saíram da minha boca, me surpreendendo. Eu não tinha a intenção
de pensar em voz alta.

— O que você quer dizer? - Ela parecia satisfeita com a minha


declaração. Então eu fui com isto.
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— Bem, se você olhar para fotos antigas... - Minha voz falhou sem jeito,
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percebendo que ela não conseguia realmente olhar para fotos antigas.
The Song of David/ Amy Harmon

Ela me salvou, graciosamente.

— Se eu pudesse olhar fotos antigas, o que eu veria?

— Eles tinham menos. Mas eles tiveram mais. Parece que as pessoas
tomavam mais cuidado com suas propriedades e suas aparências. As
mulheres usavam vestidos e os homens usavam ternos. As pessoas usavam
chapéus e luvas e estavam bem vestidos. A maneira como eles falavam era
diferente, mais cuidada, mais culta. Mesma língua, mas totalmente diferente.
Mesmo os edifícios e os móveis eram lindos, bem trabalhados, com atenção
aos detalhes. Eu não sei... O mundo tinha mais classe. Talvez fosse isso.

— Ah, os dias em que os homens não lutavam para ganhar a vida e as


mulheres não faziam pole dance. - Ela disse, com um sorriso em sua voz.

— Os homens sempre lutaram. Mulheres sempre dançaram. Somos


tão antigos quanto possível. - eu respondi. — Somos clássicos.

— Boa saída. - Ela riu, e eu ri baixinho.

Nós andamos em silêncio sociável por vários minutos quando


ocorreu-me que eu não tinha ideia para onde estávamos indo.

— Onde você mora?

— Não se preocupe grandão. Eu sei onde estamos. Vire à direita na


próxima esquina. Eu moro na casa antiga a trinta passos.

— Você vive em uma das mansões antigas?

— Sim. Eu moro. Meu tataravô a construiu, falando de um tempo


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quando o mundo era mais bonito. Se eu fosse adivinhar, a minha casa não é
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The Song of David/ Amy Harmon

tão adorável como era antes. Mas tudo parece incrível na minha cabeça.
Vantagens de ser uma garota cega.

— Você disse que trinta passos. O quê? Você conta passos? - Eu podia
ouvir a surpresa na minha voz e me perguntei se ela poderia também.

— Geralmente. Mas eu estou menos atenta quando alguém está


andando comigo. Eu sei onde termina a calçada, onde as árvores estão, os
buracos também.

— Isso é incrível.

— Bem, eu cresci aqui e eu pude ver, uma vez. Eu ainda posso vê-lo
em minha mente. Seria mais difícil se eu tivesse que começar de novo em
um lugar totalmente novo.

— Então, o que aconteceu?

— Uma doença rara com um nome que você provavelmente iria


esquecer tão logo eu dissesse isso. Nós não percebemos o que estava
acontecendo até que fosse tarde demais. E até mesmo se tivéssemos sabido
mais cedo, provavelmente não haveria nada que ninguém pudesse fazer.

— Quantos anos você tinha?

— Onze.

Engoli em seco. Minha vida tinha mudado aos onze anos também. Mas
de um modo totalmente diferente. Antes que eu pudesse comentar, Amelie
parou.
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— É aqui. É isso. - Ela pegou seu bastão de volta e o abriu na frente


Página

dela, se virou para um portão de ferro e parou quando seu bastão bateu
The Song of David/ Amy Harmon

contra ela. Ela soltou meu braço e afastou-se, sentindo o trinco do portão e
abrindo-o facilmente. A casa era velha, quase um século de idade, se não
mais velha, e ainda era imponente, embora o punhado de neve e a escuridão
escondessem o jardim e a fachada, o alpendre que rodeava a casa já tinha
visto dias melhores. Luz brilhou das janelas no andar de cima, e o barulho de
passos eram claros. Amelie parecia confortável percorrendo-os, então eu
fiquei perto do portão, esperando até que ela estava em segurança no
interior. Ela parou no meio do caminho e virou-se ligeiramente.

— David? - Ela perguntou, erguendo a voz como se ela não tivesse


certeza se eu ainda estava lá.

— Sim?

— Obrigada por me trazer em casa.

— Não há de quê.

Esperei até a porta da frente se fechar atrás dela antes de me virar. A


neve tinha parado e o mundo estava tão calmo que eu cantava para me fazer
companhia, fechando os olhos de vez em quando e contando os meus
passos, perguntando como seria não ver nada, e perguntando como uma
garota cega tinha terminado dançando no meu clube.

***
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The Song of David/ Amy Harmon

Moses
Millie pegou a fita do gravador, deslizando os dedos ao longo dos
botões até que ela alcançou o que ela procurava. Então ela apertou-o para
baixo e a voz de Tag cessou. Ela sentou-se agarrando o aparelho, como se
estivesse segurando a memória. A sala estava cheia de expectativa, com
antecipação. Eu tinha ouvido isso na voz de Tag, senti nos cuidados com que
ele se lembrava dos detalhes, e sentiu sua maravilha quando ele refez seus
passos. Ele me puxou para dentro, e por um momento eu tinha esquecido
onde eu estava. Mas agora eu me sentia estranho, intruso, e eu queria
colocar minhas mãos sobre meus ouvidos.

— Eu não conseguia parar de pensar nele, e eu não conseguia tirar


aquela música de Blake Shelton da minha cabeça. - disse Millie suavemente.
— Ele era bom. E forte. Eu podia sentir sua força enquanto caminhava ao
meu lado. Naquela noite, eu realmente sonhava com a maneira que seu
braço parecia contra a minha mão. Logo depois que eu perdi minha visão eu
ainda sonhava com imagens. Eu adorei, porque eu poderia ver quando eu ia
dormir. Mas conforme os anos se passaram, meus sonhos começaram a
parecer mais com a minha realidade. Eu ainda sonho em imagens, às vezes,
mas não é mais tão frequente, eu sonho com cheiros e sentimentos, sons e
sensações.

A voz de Millie ficou abafada enquanto ela estava pensando em voz


alta, como se ela tivesse esquecido que eu estava lá. Eu pensei que talvez eu
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The Song of David/ Amy Harmon

deveria falar, antes que ela me dissesse algo que ela preferisse manter em
particular, mas ela continuou de repente.

— Eu tenho ido em alguns encontros às cegas. - Ela sorriu na minha


direção, deixando-me saber que ela estava ciente de mim depois de tudo, e
eu ri, o que provavelmente é o que ela pretendia.

— Cego, quis dizer encontro às cegas. E eu tenho ido em alguns


encontros com caras cegos que eu realmente conhecia de antemão. Um cara
que eu encontrei insistia em ser chamado de "visualmente prejudicado”. -
Amelie fez aspas no ar com o dedo. — Eu realmente não entendo isso. Para
mim é como chamar alguém de “com deficiência de melanina” em vez de
chamá-los de branco. As pessoas são tão estranhas. Eu sou uma garota
branca, cega. Eu sou uma menina branca cega de vinte e dois anos. Podemos
chamar isso como realmente é?

Eu ri novamente, imaginando onde ela estava indo com isso, mas feliz
em deixá-la fazer sua palestra. Perguntei-me brevemente se ela sabia que eu
era negro. Era meio que um sentimento incrível saber que, por uma vez, isso
realmente não importa.

— Eu saí com caras que podiam enxergar também, você sabe, os


“visualmente não prejudicados”. – Ela sorriu para o rótulo. — Não muitos
deles. Mas alguns. Minha prima Robin geralmente arruma pra mim. E eu
tenho certeza que cada um deles era extremamente não atraente. Feio,
estranho, verruguento, e, geralmente, rejeitado por outras mulheres. Mas
está tudo bem. Eu posso fingir que todos eles se parecem com um milhão
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dólares, e eu nunca vou saber nada diferente. A imagem na minha cabeça é a


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única que conta, certo? Mas uma vez que Robin tentou me arrumar um
The Song of David/ Amy Harmon

encontro com um cara surdo, eu coloquei meu pé no chão. Não era por ele
ser surdo, exatamente, mas como ela pensava que nós iríamos nos
comunicar? Robin às vezes pensa que porque eu sou deficiente, só posso ter
encontros com caras com deficiência. Porque, claro, ninguém mais poderia
me querer, certo? – A voz de Millie ficou presa, e ela sorriu imediatamente,
rindo de si mesma. — Uh oh. Atingiu um nervo lá.

— Isso não é verdade. - Eu desafiei.

— É verdade, às vezes. - ela sussurrou, e eu poderia dizer que ela


estava se perguntando se a verdade tinha chegado a ser demais para Tag.

— Eu me encontrei esperando que David não fosse um cara de boa


aparência. Eu esperava que ele não fosse boa aparência, porque não importa
para mim, e isso iria torná-lo menos desejável para todos os outros. Eu
pensei que se ele fosse mais normal, isso faria dele mais aberto para alguém
como eu. - Ela soltou um suspiro lentamente, quase com tristeza.

— Mas eu sabia que ele era bonito. Era pela forma como ele se
portava, a sua confiança, sua bondade. Eu pensei em perguntar às meninas
do trabalho sobre ele. Mas eu me acovardei. Eu não queria que elas rissem
de mim ou sentissem pena de mim. Eu disse a mim mesma que talvez
pudéssemos ser amigos. Ele parecia aberto a isso.

Eu não sabia o que dizer. Eu estava fascinado. Mas eu não sabia o que
dizer. Millie estava apenas sentada, segurando o gravador entre seus braços.
Então, sem mais comentários, ela colocou para tocar mais uma vez.
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The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO TRÊS

TAG
O palco tornava-se um octógono na terça-feira para a noite da luta, e
na quarta-feira Amelie não estava na programação para dançar, o que
Morgan me informou logo que entrei, sorrindo como se tivesse realmente
escondendo algo de mim.

— O que há com você, Morgan? - Perguntei, espantado e apenas um


pouco chateado. — Você age como se fosse uma maldita grande piada. O
quê? Você contrata a menina cega como uma brincadeira? Isso é uma coisa
idiota para fazer.

Morgan ergueu as mãos e protestou, o tempo todo rindo, exatamente


como fez o tempo inteiro:

— Ela chegou aqui com sua bengala, parecendo mais Helen Keller que
Heidi Klum. Sem maquiagem, o cabelo num rabo de cavalo bagunçado,
vestindo um grande casaco e botas de neve. Meio desmazelada, sabe? Ela
disse que queria candidatar-se para o trabalho. Vince estava cuidando do
bar naquele dia, ele e eu pensamos que talvez você quisesse colocá-la na
vaga. Como você estava sendo um bundão com a gente, então nós dissemos,
44

com certeza! Você me conhece. Estou sempre pronto para uma boa risada.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Ela esperou por sua audição com todas as outras meninas, e


surpreendentemente, todas foram muito boas para ela. As meninas tipo a
tomaram sob as asas. A próxima coisa que sabemos é que ela está na gaiola,
usando um minúsculo par de shorts e um top apertado, cabelos soltos,
trabalhando esse poste como uma profissional.

Ouvindo Morgan descrever o teste de Amelie me faz sentir um pouco


mal do meu estômago. Ele não deveria ter feito isso. Se ele estivesse falando
sobre Justine ou Lori, ou qualquer uma das outras garotas, eu não teria
pensado duas vezes. Mas não gosto de pensar sobre Vince e Morg olhando
para Amelie, rindo e olhando de soslaio enquanto ela não pode nem mesmo
vê-los fazendo isso. Morgan continuou, completamente inconsciente do meu
desconforto.

— Ela foi boa o suficiente para que soubéssemos que você não estava
brincando com a gente. E ela parecia malditamente determinada. Animada
até. E, admito, pensei que seria engraçado.

— Hilariante!

— Você vai demiti-la, chefe?

— Agora, por que eu faria isso?

Morgan estava realmente me dando nos nervos.

— Ela não é tão popular quanto algumas das meninas. Um par de


caras reclamou que não olha para eles quando está dançando.

— Não é o suficiente que eles possam olhar para ela? - Respondi


45

irritado.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Hey! - Morg levantou as mãos em rendição novamente. — Não atire


no mensageiro, chefe. Ela não pode segurar os anúncios das rodadas na
noite de luta, por isso estamos um pouco apertados lá.

— Nós não estamos apertados, Morg. Nós temos outras quatro


meninas totalmente capazes de trabalhar nas noites de luta. - Respondi.

As meninas que dançavam no Tag’s também têm de desfilar em torno


do octógono, anunciando os rounds.

— OK. Se você quiser mantê-la, isso é legal. Ela vai estar de volta na
quinta-feira, apenas caso você queira ter uma conversa com ela sobre ser
um pouco mais sexy. Você sabe, talvez dançar com os olhos abertos.

Morgan estava rindo novamente.

— Morg?

— Sim, chefe?

— Vá para casa.

— O quê? - A risadinha de Morgan se interrompeu.

— Vou ajudar Vince a terminar a noite. Vá para casa.

Morgan puxou a toalha de mão que sempre mantém sobre um ombro


e esfregou as mãos nervosamente:

— Mas... - Morg tentou argumentar.

— Você acha que é engraçado rir de uma menina cega. Esse tipo de
46

coisa me preocupa, Morg. Faz-me pensar sobre que tipo de homem tenho
Página

para gerenciar o meu bar. Veja, há duas coisas que eu odeio. - Segurei meu
The Song of David/ Amy Harmon

polegar e meu dedo indicador e enumerei — Os valentões e as cadelas. Eu


nunca soube que você era um valentão, Morg. Agora, não seja uma cadela ou
vou ter dois motivos para demiti-lo. Vá para casa. E se quiser voltar, você vai
repensar o seu senso de humor. Você me entendeu?

Minha voz estava leve, minha postura relaxada, mas não quebrei o
contato visual com o meu bartender, e vi como Morgan baixou os olhos e se
moveu desconfortavelmente, como se esperando por mim para mudar de
idéia. Quando fiquei em silêncio, ele jogou sua toalha e estendeu a mão para
pegar a carteira e as chaves que ele mantinha escondido abaixo do balcão.

— Sou velho o bastante para ser seu pai, Tag. Seu pai era um dos meus
melhores amigos. Você precisa me mostrar um pouco mais de respeito. —
Morgan bufou, levando tudo claramente na brincadeira.

— Você vai ter que ganhá-lo, Morg. Concluindo, você não é meu pai,
você não é o meu melhor amigo, e eu não lhe devo merda nenhuma. Você
pode voltar amanhã, se for homem o suficiente para fazer alguns ajustes. Se
eu não o vir amanhã, vou entender, e vou estar à procura de seu substituto.

Morgan começou a discutir mais uma vez, pensou melhor, e fechou a


boca. Com seus lábios presos em uma linha dura, sua mandíbula apertada, e
os punhos fechados, ele saiu de trás do balcão e atravessou o bar,
empurrando seu caminho para fora da porta da frente, praticamente
derrubando Amelie, que tinha acabado de entrar. Morg amaldiçoou e
lançou-me um olhar por cima do ombro antes de desaparecer na escuridão.

— Com licença. - Amelie engasgou, sua bengala caindo no chão


47

enquanto curiosos clientes se viraram para olhar. Hesitou brevemente e, em


Página
The Song of David/ Amy Harmon

seguida, agachou-se, procurando a bengala, quando a encontrou, se levantou


graciosamente. Suas bochechas estavam ligeiramente rosas, e me perguntei
se ela podia sentir os olhares de quem está observando.

Ela avançou lentamente permitindo que a bengala a guiasse para o


bar. Lembrei tardiamente que eu estava de plantão e corri ao redor do
balcão, tirando meu casaco e arregaçando as mangas. Amelie tinha subido
em um banquinho e estava esperando pacientemente para ser atendida.
Perguntei-me o que ela faz quando as pessoas a ignoram.

— Amelie, o que posso fazer por você?

— David? - Ela perguntou, sua cabeça se inclinando em surpresa.

— Impressionante. Você tem um bom ouvido para vozes.

— Obrigada. Uh, onde está Morgan? Você está trabalhando? - Ela se


manteve ereta em seu banquinho, não relaxando ou girando em seu assento
como a maioria das pessoas fazem.

Ela nem sequer se apoiou no bar, como se estivesse com medo de


alguma coisa ou de invadir o espaço de alguém. Ela não podia saber que as
únicas outras pessoas no bar sentaram-se na extremidade, tomando cerveja
e olhando para o jogo dos Spurs acima deles.

— Sim. Eu estou cobrindo esta noite. - Não expliquei muito. — Posso


pegar algo para você beber?

Amelie mordeu o lábio e balançou a cabeça.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Não. Eu não bebo. Já sou cega e beber entorpece os sentidos, os


sentidos que me restam. Em vez de me relaxar, isso me assusta até a morte. -
Ela encolheu os ombros. — Provavelmente soei como uma criança.

— Não

---Não. Compreendo. Eu também não bebo.

Suas sobrancelhas subiram em dúvida:

— Mas você trabalha em um bar!

— Não bebo porque nunca fui capaz de descobrir como fazer as coisas
com moderação. Veja, eu não bebo. Eu fico bêbado. Sou tudo ou nada, o
tempo todo. Não posso fazer tudo, então não tenho que fazer nada, - Disse
em tom de conversa, perguntando pela minha necessidade em tranquilizá-
la. — Você quer outra coisa? Um refrigerante, água, algo não alcoólico? -
Mudei o assunto sem problemas.

— Adoraria uma Coca-Cola Diet.

Dei um salto e rapidamente pus a bebida na frente dela.

— Diet Coke às doze horas2.

Ela sorriu para as minhas instruções e agradeceu-me, então


direcionou sua mão para a frente com cuidado, deixando que seus dedos
tocassem o copo, desde a base em torno dele até que ela pode agarrá-lo e
puxá-lo em sua direção. Ela se inclinou sobre ele, quase como se fosse
cheirá-lo, e eu assisti enquanto segurava seu rosto, estranhamente
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Página

2
Significando que a bebida está logo à frente, em linha reta.
The Song of David/ Amy Harmon

suspenso, sobre a bebida, seu nariz tão perto do líquido efervescente que
afundaria se ele se movesse uma polegada.

— Há algum problema? - Perguntei.

Ela sentou-se e esfregou o nariz com sua mão direita, ainda segurando
a bebida sua esquerda:

— Não! Eu, hum, gosto do jeito como a bebida soa e a forma como meu
rosto se sente contra as bolhas. Não sabia que você ainda estava me
observando. - Houve um pouco de aço em sua voz, deixando-me saber que
meu olhar fixo não foi apreciado.

— Vou me mover para longe, então. - Eu sorri, gostando do bocado de


ousadia que ela jogou de volta para mim.

— Hum, David - Ela levantou a voz — Eu na verdade só vim pegar meu


cheque. Você pode pegá-lo para mim?

— Claro. Dê-me um minuto e volto logo. Não vou ficar observando se


você quiser desfrutar das bolhas um pouco mais.

Os cheques estavam em um cofre sob o bar, levou alguns minutos para


localizar a chave extra do escritório de Morg. Morgan tinha levado seu
conjunto de chaves quando saiu. Eu praguejei, pensando nas complicações
de recodificar todo o maldito lugar, caso Morg decidisse que seu orgulho era
mais importante que seu trabalho. Eu realmente esperava que o homem
voltasse arrependido pela manhã. Realmente não queria ter que procurar
um novo gerente, e Morg faz um bom trabalho quando não estava sendo um
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idiota.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Quando deslizei o envelope rotulado com seu nome do outro lado do


balcão, tocando na mão que não segurava sua bebida, então ela soube que
estava lá, agarrou-o e em seguida, devolveu-o.

— Você poderia abri-lo, por favor, e ler o total para mim? Vou ser
capaz de depositá-lo no caixa eletrônico na esquina se souber o valor.

Quando abri o envelope e olhei a quantia fiquei surpreso. Eu informei


os números de volta para ela quase timidamente, e ela suspirou.

— Morgan me disse que receberia o salário-mínimo até que meu


período de experiência terminasse. Você sabe quando termina?

Senti o calor da indignação torcer meu estômago, mas fiquei quieto


por causa dela. Tive jogar junto, não para proteger Morg, mas para proteger
seus sentimentos. Não havia período de experiência. Morgan estava
brincando com ela. Amelie tinha sido contratada como uma piada, e uma
piada de mal gosto. Mas eu não podia dizer isso a ela.

— Já terminou. Você estará recebendo o mesmo que todas as outras


dançarinas, e receberá o valor total referente às duas primeiras semanas,
menos essa quantia de hoje.

— Sério? Isso é ótimo! Morgan não me disse essa parte.

Fiz uma careta. Morgan era o único que estaria em experiência!

Ela repetiu o total do cheque, uma ligeira pergunta em sua voz, e


repeti os números mais uma vez.
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— Entendi. Vou depositá-lo. Quanto devo a você pela bebida?


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The Song of David/ Amy Harmon

— É benefício de funcionário. Sem custos para Coca Diet. Ou bolhas. -


Ela sorriu largamente e eu sorri de volta, o prazer dela tornando impossível
não sorrir, mesmo que ela não podia ver minha resposta.

Ela deslizou cuidadosamente do banco e manejou sua bengala para


fora, em direção à porta, seu cheque dobrado no bolso de seu amplo casaco.

— Você precisa de alguma ajuda? Quer que eu envie alguém com


você?

Ela balançou a cabeça sem se voltar:

— As telas de toque são ruins. Não posso sentir a tela com o toque.
Mas o ATM na esquina tem um teclado em braile, graças a Deus! Se o mundo
fosse muito plano, pessoas como eu deslizariam para fora. - Ela disse isso
alegremente, com humor, e eu sacudi a cabeça com espanto, enquanto ela se
empurrou para fora, na escuridão, balançando a porta fechada atrás dela.

Lutei contra a vontade de segui-la, para ter certeza que ela não seria
assaltada no ATM, seu cheque insignificante sendo roubado, e sua bengala
usada contra ela. O mundo era assustador para a maioria das pessoas. Para
Amelie era francamente letal. Ela era completamente vulnerável. “Se o
mundo for muito plano, pessoas como eu deslizarão para fora”.

E ainda assim ela não hesitou em tudo. Respeitei-a por isso, admirei-a,
então fiquei atrás do bar por vários longos segundos, mostrando calma
silenciosa, embora meu coração estivesse agitado e as palmas de minhas
mãos estivessem suando. O rosto da minha irmã passou pela minha mente.
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Ela desapareceu para a noite uma vez também. E eu nunca a vi novamente.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Vince? - Chamei o jovem bartender que trocava histórias com um


par de clientes regulares na extremidade do balcão, completamente
inconsciente do drama que se desenrolava nos últimos dez minutos.

— Hey, Tag.

— Você vai ficar sozinho aqui por cerca de meia hora. Estarei de volta
para terminar a noite e ajudá-lo. Morgan teve que ir embora. Você vai ficar
bem?

— Sim, patrão. Nada demais. Tem sido meio lento durante toda a
noite.

Agarrei meu casaco e saí pela porta da frente sem dizer mais nada,
descendo a rua, correndo em direção ao caixa eletrônico na esquina.
Alcançando Amelie antes que ela tivesse atravessado meio quarteirão. Ela
ficou surpresa quando me aproximei dela, mas deu de ombros facilmente
quando citei novamente as regras.

— Mas eu não queria mesmo trabalhar hoje à noite. - Protestou.

— Faça a minha vontade, ok?

Ela encolheu os ombros de novo, e me virei pacientemente, dando-lhe


privacidade para fazer seu depósito, algo que fazia facilmente, seus dedos
deslizando sobre o teclado com confiança.

Quando ela terminou, fui para o seu lado e ela ligou nossos braços do
mesmo jeito como tinha feito na noite anterior. Nós andamos em fácil
companheirismo, eu cantarolando suavemente, Amelie acompanhando
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Página
The Song of David/ Amy Harmon

meus passos, confiando que eu a levasse. Estávamos quase na porta quando


ela parou, puxando minha mão contra a sua mão com urgência.

— Ouça!

Procurei na escuridão com meus olhos apertados, de repente nervoso


que não estivéssemos tão sozinhos quanto parecia.

— Aí está. - Disse ela.

E então ouvi o apito distante de um trem e o barulho de rodas nos


trilhos.

— Vinte e duas Horas. Na hora certa. - Amelie sussurrou.

O som encorpado e profundo do apito veio de novo, mais alto,


ressoando através da noite com um tom que parecia mais como uma canção.
Sempre amei o som de um trem, mas já faz um tempo desde que eu tinha
parado apenas para ouvir.

— Os trens são como máquinas do tempo. E se você fechar os olhos,


não que eu tenha que fazê-lo, é fácil imaginar que o mundo não mudou
muito em cem anos. Você ouve esse som, e poderia ser 1914 ao invés de
2014.

— Ou nós poderíamos estar nos preparando para ingressar em


Hogwarts para o novo ano. - Provoquei.

Ela riu de novo, e gostei que ela não se conteve:

— Você não é um fã de Harry Potter. De jeito nenhum. - Ela cutucou o


54

meu lado.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Na verdade, não. Mas sei o básico.

— Eu amo Harry Potter. E amo o som de um trem. - Suspirou. — É um


dos meus favoritos.

— Você tem sons favoritos?

— Sim. Muitos deles. Você não?

— Acho que nunca pensei sobre isso. - Confessou.

— Eu os coleciono. - Disse ela despreocupadamente.

— Como você coleciona sons?

— Da mesma maneira que você coleciona memórias. - Ela bateu um


dedo em sua têmpora.

Eu não tinha resposta para isso, mas ela parecia não precisar de uma.

— Falando de coleções, você se importaria em dizer olá para o meu


irmão mais novo? Ele é um grande fã de esportes. Ele adoraria conhecer um
lutador de verdade. É um pouco desajeitado, mas ficaria encantado.

— Claro. - Dei de ombros. Estava curioso para ver o interior da casa,


curioso para ver como ela vivia, curioso sobre os pais que deixavam sua
filha cega vaguear ao redor da cidade e dançar seminua num poste.

Ela pescou uma chave do bolso de seu casaco e dirigiu para a


fechadura. Não demorou muito e ela não pediu ajuda, então estava em
silêncio ao seu lado.
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A porta rangeu quando ela empurrou e abriu em um hall de entrada


Página

que estava escuro. A casa cheirava um pouco a mofo e a verniz de polimento


The Song of David/ Amy Harmon

de móveis, que era, provavelmente, devido à sua idade mais do que


qualquer coisa.

— Henry? - Amelie chamou, se pondo de lado e puxando o casaco para


pendurá-lo num cabideiro à moda antiga e pregado na parede à esquerda da
porta.

— Henry? - Chamou um pouco mais alto.

Ouvi uma porta basculante ser aberta, o som de comentários sobre


esportes se derramando e depois ser cortado outra vez quando a porta foi
fechada. Soaram passos acima e uma lâmpada se acendeu, regando luz a
partir do topo da escadaria ornamentada construída na casa.

Um menino no início da adolescência apareceu, seu cabelo uma massa


rebelde de cachos vermelhos. Ele poderia tanto estar dormindo ou pentear
seu cabelo não era uma prioridade. Usava calças de pijama de flanela e um
agasalho preto do Chicago Bulls. Ele cruzou os braços finos em seu peito
quando seus olhos encontraram os meus, mudando de um pé para o outro,
claramente desconfortável com a visita inesperada.

— Henry? - Amelie tinha, obviamente, escutado sua chegada e parada


subsequente. — Henry, este é David... hum, David, esqueci-me de perguntar
seu sobrenome. - Ela não esperou por mim para fornecê-lo antes de
acrescentar com entusiasmo, da forma como uma mãe faz com uma criança.
— Ele é um verdadeiro lutador, Henry! Pensei que você poderia gostar de
dizer oi.
56

Henry ficou congelado na parte superior da escada. Acenei:


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Oi, Henry. Sou David Taggert. Mas você pode me chamar de Tag. -
Ofereci. O garoto parecia mais nervoso que impressionado.

— Tag? - Amelie guinchou em alarme, virando-se para mim um


pouco. — Oh, meu Deus! Não percebi... Quero dizer, você é Tag Taggert. Você
disse que seu nome era David! Apenas pensei que fosse um segurança no
bar e que lutava em seu tempo livre! Como Lou! Caramba. Você é meu chefe!
- Amelie levantou as mãos para suas bochechas e tentei não rir quando ela
respirou para dentro e para fora, de claramente um pouco envergonhada
por sua informalidade anteriormente.

— O boxe se tornou um esporte legal em 1901! - Henry desabafou.

— Ele não é um boxeador, Henry. - Amelie recuperou-se rapidamente.


— Ele é um lutador de MMA, certo, senhor Taggert?

Então agora eu era o senhor Taggert. Comecei a rir. Não poderia


disfarçar.

— É kickboxing, wrestling, judô, grappling. É um pouco de tudo. -


Concordei, ainda rindo.

— Flutuar como uma borboleta, picar como uma abelha. - Disse


Henry, e cruzou os braços ainda mais apertados.

— Você gosta de Mohammed Ali, hein? - Perguntei.

— O Maior, o Campeão do povo, A Boca de Louisville3. - Diz Henry,


antes de virar e fugir para o fim do corredor. A porta bateu fechada,
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Página

3
Apelido de Mohammad Ali, que sempre aludia à sua grande boca e à cidade em que nasceu.
The Song of David/ Amy Harmon

silenciando o rádio, deixando Amelie e eu sozinhos no hall de entrada, mais


uma vez.

— A próxima vez que vir você, ele vai saber tudo sobre você, seu
registro, e tudo sobre artes marciais mistas. Henry tem um cérebro
fenomenal, mas ele não é muito de conversa fiada. - Disse Amelie
suavemente. Ela mordeu o lábio inferior como se quisesse dizer algo mais e,
em seguida, endureceu como se estivesse decidindo ser melhor ficar quieta.

Acho que era um pouco mais profundo do que não gostar de


conversa fiada, mas eu não disse nada.

— Não sabia quem você era. Sinto-me estúpida agora. - Ela falou
timidamente.

— Por quê?

— Tratei você do jeito que trato Lou.

— O quê? Como um amigo?

— Eu flertei com você.

— Bem, isso já aconteceu comigo antes. Acho que posso lidar.

Seu nariz enrugou e as sobrancelhas subiram:

— Você está sorrindo?

— Sim, estou.

— OK. Bem, isso é bom. Vou tentar ser mais profissional no futuro.
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-Então ela estendeu a mão na minha direção, obviamente querendo


Página

cumprimentar de forma "profissional". Apertei-a brevemente, lutando


The Song of David/ Amy Harmon

contra a vontade de rir de novo. Ela era engraçada, especialmente porque


ela não estava tentando ser.

— Se você acha que Henry gostaria, traga-o para o ginásio. Fica


duas portas ao sul do bar, mesmo lado da rua. Tenho toda uma equipe de
lutadores. Lou trabalha com a gente às vezes também. Nós treinamos cerca
de três horas e meia na maioria dos dias. Posso mostrar-lhe algumas coisas,
apresentá-lo para os caras.

— Sério? - Ela chiou, e apertou minha mão com força, trazendo


minha mão entre as suas duas menores. — Vou perguntar a ele. Na verdade,
acho que ele pode gostar disso. Ele é muito tímido, e não gosta quando as
pessoas o tocam, mas talvez ele pudesse apenas assistir.

— Não estaria pedindo para ele entrar no octógono. - Eu disse


ironicamente.

— Você está sorrindo de novo?

Foi uma sensação estranha pensar que eu poderia ter qualquer


expressão que quisesse, e ela ficaria totalmente inconsciente. Poderia tirar
sarro dela, rolar meus olhos, fazer careta, dar-lhe a minha língua. E ela
nunca saberia.

— Sim. Acho que estou.

— Eu pensei assim. - Amelie sorriu também, mas seu rosto estava


inclinado para longe de mim, os olhos fixos no nada, quase me excluindo.
Seus dentes eram brancos e retos atrás dos lábios cor de rosa, livres do
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batom vermelho que ela tinha desgastado na gaiola na noite anterior. De


Página

fato, seu rosto estava completamente desprovido de maquiagem, e aqui sob


The Song of David/ Amy Harmon

as luzes brilhantes do candelabro, onde eu poderia realmente vê-la, ela era


jovem e adorável com seu cabelo escuro escondido atrás de suas orelhas.
Parecia que ela não estava fazendo contato visual, sendo estranhamente
tímida, como se estivesse se fazendo de difícil, embora eu soubesse que não
era assim. Ela não estava jogando esse jogo. Ela só não podia.

Soltei sua mão e dei um passo para trás, minha mão alcançando a
porta. Ela inclinou a cabeça na direção do som que fiz ao me afastar. Eu
sabia que ela era a pessoa tecnicamente em desvantagem, mas dane-se se eu
não me sentia como o alvo de uma piada particular, pela forma como os seus
olhos nunca me observariam.

— Obrigado por me trazer em casa, Sr. Taggert.

— Você é bem-vinda4, Srta. . .

— Anderson. - Disse, embora eu já soubesse seu sobrenome.

— Boa noite, Amelie Anderson.

Saí, fechando a porta fechou atrás de mim.

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Página

4
Nessa situação, em nosso idioma, dizemos “não há de quê” ou “de nada”. Preferimos manter o original.
The Song of David/ Amy Harmon

Moses
A primeira fita terminou com o alto clique do botão play se
liberando, e exalei profundamente, como se tivesse sido liberado também.
Estava segurando a minha respiração por toda parte, com medo de relaxar,
eu me preocupei se iria perder as pistas, e não pegar o que Tag não estava
nos dizendo.

O problema era que ele parecia estar desnudando sua alma, não
deixando nada para fora de seus primeiros encontros, até mesmo os
detalhes que seria melhor não dizer.

— Não assisto filmes, eu os ouço. Sou parcial para grandes


diálogos e trilhas sonoras incríveis e romance é obrigatório. - Millie falou,
como se sentisse obrigada a fornecer detalhes não compartilhados por trás
das cenas. — Há um tempo atrás, minha prima Robin e eu tivemos uma
maratona completa de filmes dos anos 80, com Dirty Dancing e Flashdance, e
fiz o meu melhor para acompanhar tudo, enquanto Robin preenchia os
espaços em branco. Coloco Flashdance novamente quando Robin passa em
casa. Eu o ouço mais e mais, e imagino como seria a sensação de dançar
diante de uma plateia, dançar na frente de pessoas que não saibam que sou
cega. É aí que tive a ideia. Fiz um pouco de pesquisa, contratei um servente,
e dentro de duas semanas um poste de pole dance foi instalado em nosso
porão. O caseiro me convidou para sair, também. Eu não aceitei.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Menina esperta. - Eu disse. Estava impressionado. Ela era cheia


de vida, e senti um breve lampejo de felicidade pelo meu amigo antes de me
lembrar que ele foi embora.

— Fiz aulas de dança e ginástica quando era mais jovem, e


competia em todo o tempo, até a hora que minha visão começou a falhar.
Mas ficar cega não tirou a minha capacidade de fazer piruetas, ou balançar
numa barra ou mesmo me equilibrar num poste. Com a ajuda de minha mãe
e alguns treinadores pacientes, fui capaz de continuar com minha ginástica
até poucos anos atrás. Ainda treino algumas vezes, mas estou insistindo
demais nisso. Tenho superado o meu apelo patético, e me sinto como um
fardo mais frequentemente do que não, sempre tendo que ter alguém por
perto, mantendo um olho sobre mim. Mas no porão com o poste, com a
música batendo tão alto quanto eu quero, posso colocar a minha dança e
minha formação em ginástica para uma boa utilização. E ninguém tem que
me ajudar. Ninguém tem que ter certeza que não vou cair ou me machucar.
Quando danço, posso fingir que sou normal, posso mostrar o que a dança me
faz sentir. Tive coragem suficiente para mostrar a Robin. Ela me disse que
eu parecia incrível. Ela ficou tão animada por mim. Então comecei a criar
sequências, sabe, como sonhei desde pequena. Eu mesma coreografei uma
sequência para o "Perfeitamente Cego" no dia 26. É uma música sexy e isso é
engraçado, admito. Imaginei que, se eu pudesse rir de mim mesma, então
não me incomodaria se outras pessoas rissem também. Eu queria dançar.
Sonhava com isso. Mas posso apenas imaginar a onda de novo material
disponível para comédias. Gostaria de iniciar um movimento. Em vez de
62

piadas sobre loura ou sobre sua mãe, seriam piadas sobre uma stripper
Página

cega.
The Song of David/ Amy Harmon

— Posso pensar em algumas. - Eu estava brincando com ela, que


deu uma risadinha.

— Sim, eu também. Tenho um milhão delas.

Não pedi-lhe para compartilhar, mas estava curioso. Sua risada


desapareceu rapidamente, e ela alisou o cabelo autoconsciente.

— Faço piadas, mas realmente me importo sobre o modo como me


veem. Tenho um monte de trabalho para cuidar da minha aparência. Robin é
uma esteticista e isso ajuda. Tenho dito com bastante frequência que sou
suficiente, e não há nenhum reflexo no espelho para disputar comigo. Então,
escolho acreditar. Mas dançar na frente das pessoas? Isso é uma história
totalmente diferente. Há alguns meses atrás, Robin me disse que estavam
contratando dançarinos num clube na esquina da Broadway com a Rio
Grande. Ela pensou que deveria tentar. Eu queria, realmente, realmente
queria. Poderia rir de mim mesma com Henry e Robin, e poderia dançar em
torno de um poste no meu porão, mas poderia realmente dançar em outro
lugar? Poderia realmente ser paga para dançar?

— Tag aparentemente pensava assim. - Interrompi.

Millie concordou, mas continuou sua narrativa.

— Robin disse que iria me ajudar. E ela teria. Ela teria me dado
uma aparência como um milhão de dólares. Mas no final, entrei na audição
parecendo uma mendiga. Uma mendiga cega. Ou pelo menos o que eu
imaginava ser uma mendiga cega. Caminhei pela rua, preparada para ser
63

dispensada, minhas roupas que pouco lisonjeiras, meu cabelo uma bagunça.
Página

Fiz isso de propósito. Queria dar-lhes todos os motivos para me dispensar.


The Song of David/ Amy Harmon

Queria proporcionar-lhes um caminho mais fácil. Mas eles não me


dispensaram.

Millie fez uma pausa:

— Acho que agora nós sabemos o porquê.

Eu não tinha ideia por que Tag incluiu essa parte da história nas
fitas. Vi como o rosto de Millie caiu como um castelo de cartas quando
ouvimos Tag contar a cena com Morgan. Queria lançar o gravador pela
janela e caçar meu melhor amigo, para que pudesse dar um soco e fazer
algum sentido para ele. Mas então, como Tag continuou falando, a expressão
de Millie se tornou pensativa e sua postura rígida relaxou, e de repente
percebi por que Tag compartilhou a história desconfortável. Tag confessou
os detalhes da contratação de Millie porque não queria que ela ouvisse de
outra pessoa e pensasse que ele brincou com ela. Tag claramente queria que
Millie soubesse que a primeira vez que ele a viu dançando, não tinha ideia
que ela era cega. Ele achava que ela era bonita.

— Você ouviu o que ele disse, Millie. Ele não sabia. Você o
convenceu que era normal. Ele achava que você era ainda melhor do que as
outras dançarinas. - Meu intestino se torceu novamente. Se Tag fosse
retornar, ele não teria sentido a necessidade de deixar isso claro ou livrar
Millie das fofocas.

— Eu sei. - Sussurrou e, em seguida, levantou-se. — Preciso fazer


uma pausa, Moses. Preciso ir para casa e verificar se Henry está bem.
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Eu me ofereci para dar-lhe uma carona, mas ela recusou, alegando


Página

que precisava esticar suas pernas. Ela teria que dançar no clube em algumas
The Song of David/ Amy Harmon

horas também, e eu estava feliz por ouvir isso, mesmo que ela só estivesse
seguindo a rotina. Seguir a rotina significa que você não desistiu ainda.
Desistir é o que te mata. E até agora, todo mundo estava mantendo as
aparências para Tag, todo mundo estava aparecendo para o trabalho,
fazendo o trabalho em seu ginásio, em seu bar, e em sua loja na esquina. Tag
pode ter abandonado seu mundo, mas se todos nós seguirmos a rotina,
talvez pudéssemos manter seu mundo até que ele voltasse. Eu não me
permitiria pensar algo diferente disso.

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Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO QUATRO

TAG
MORGAN não voltou para o trabalho. Me certifiquei de estar no bar às
duas da tarde seguinte, pronto para me entender com ele ou substituí-lo, o
que tiver que ser será. Quando deram cinco e meia e ainda nenhum sinal do
meu gerente, eu o amaldiçoei e comecei a avaliar as opções na minha
cabeça. Eu tinha uma grande luta para me preparar, e eu não queria
trabalhar em turnos até tarde no bar a cada noite.

Foi por isso que eu contratei Morg. Eu queria entrar, fazer minha
rotina, bater em algumas peles, e voltar para o trabalho. Eu não queria
trabalhar quarenta horas por semana atrás do bar gerenciando no Place. Eu
já tinha muito no meu trabalho. Mas eu não queria constranger ou ferir o
orgulho de Morgan. Fiquei surpreso que ele não tinha aparecido.

Passei a noite preparando as bebidas, conversando com meus clientes


regulares, e olhando para a porta. Eu tinha certeza Morgan iria aparecer
eventualmente. Ele não tinha muitas opções. Amelie atravessou a porta às
sete, utilizando a entrada da frente em vez da parte de trás, que era habitual
para os funcionários. Henry estava com ela, seu cabelo bagunçado coberto
por um boné de baseball dos Giants*, seus olhos indo de um lado do bar
66

para o outro.. Era interessante ver os irmãos juntos, um tão composto, tão
Página

desconfortável. Acenei uma saudação para os dois, e Amelie sorriu incerta,


The Song of David/ Amy Harmon

movendo em direção ao bar com Henry no reboque. Ela estava no


cronograma para dançar, e eu me pergunto o que ela estava pensando,
trazendo seu irmão para trabalho. Henry não agia como se tivesse me visto
em tudo. Seus olhos foram direto para a televisão sobre minha cabeça e
parou cerca de três pés a partir das fezes, enfiando as mãos nos bolsos,
fechando para fora tudo ao seu redor. Seus lábios estavam inchados e com
um hematoma em seu rosto. Eu me perguntou se Amelie saberia o porquê.

— Uh, oi David. . . Senhor Taggert, - Amelie disse, indo para a borda da


Barra.

— Amelie - interrompi. — Por favor, por amor a Pete, pare de me


chamar Sr.Taggert.

— OK. Certo. - Ela sorriu timidamente, mas continuou o desconforto


evidente em sua voz. — Henry poderia sentar-se aqui e assistir ao jogo dos
Laker** ? Minha vizinha geralmente vai para minha casa enquanto eu
trabalho, apenas para que Henry tenha alguém lá à noite, mas ela não está se
sentindo bem. Ele é velho o suficiente para ficar sozinho, obviamente, quero
dizer, eu já o deixei em casa a noite antes mas, nunca por muito tempo e ele
teve um dia difícil. Robin virá busca-lo, mas ele so virá daqui a cerca de vinte
minutos. . . - A voz dela estava desconfortável.

Me perguntei onde estaria seus pais mas em seguida, decidi que não
era da minha conta.

— Ele gosta de bolhas também? - Eu o provoquei.


67
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Se Henry poderia sentar-se calmamente em um banquinho e assistir


ao jogo até que Robin chegasse, eu poderia lhe oferecer uma bebida e
pretzels.

Ele não tinha idade suficiente para estar no bar, mas desde que ele não
estivesse bebendo, coisa que eu ficaria de olho e contando que ele não
ficasse por muito tempo, eu não estava muito preocupado com isso.

— Sprite. Ele ama Sprite. – Ela parecia tão aliviada que pensei que ela
fosse começar a chorar, mas em vez disso ela virou-se para Henry, segurou
seu braço e instruindo-o suavemente.

— Henry, você ouviu isso? Sr. Tag, hum, Tag disse que você pode
assistir ao jogo com ele. - Henry deslizou sobre um tamborete, seus olhos
não deixavam a tela.

— Ele pode ficar sentado aqui, David? - Ela não parecia se sentir
confortável com meu nome e eu me perguntava o porquê.

— Ele está bem ai, pode ficar. Vou ficar de olho nele.

— Obrigada! Obrigada, eu. . . – Ela parou, endireitou os ombros, tomou


um respiração profunda, e sorriu.

— Obrigada! Eu aprecio isso -, disse ela com firmeza. Com sua bengala
na mão, ela fez seu caminho dando a volta no bar e desapareceu no longo
corredor que levava para os banheiros e o vestiário dos funcionários. Eu
coloquei uma tigela de amendoins na frente de Henry, juntamente com uma
Sprite, mas pensei melhor, e substitui os amendoins por pretzels. Henry
68

poderia ser o tipo de garoto com alérgia a amendoins. Isso era tudo que eu
Página

não precisava para hoje à noite.


The Song of David/ Amy Harmon

— Kobe Bryant* lidera a liga em lances livres. - Eu não tinha idéia se


isso era

verdade disse apenas para ver se Henry iria debater.

Henry olhou nos meus olhos e sacudiu a cabeça, indicando que isso
não era verdade.

— Ele é o homem mais alto na NBA? – Eu sabia que isso não era
verdade.

Henry começou a sorrir. — Ele tem os maiores pés? - Henry balançou


a cabeça.

— Seu melhor amigo é chamado Shaq**? - Eu perguntei. Henry


balançanva a cabeça tão vigorosamente que eu cheguei a pensar que ele iria
cair do seu banco.

— Kobe Bryant é o jogador mais jovem na história da liga a atingir


30.000 pontos em sua carreira - Henry me informou. Eu me dei um high five
*** mental quando vi que ele estava falando em tudo.

— Ah, é? - Perguntei, indiferente.

— Ele também foi o jogador mais jovem a entrar na NBA -


acrescentou.

— Grande coisa. - Eu acenei com minha mão.

— Todo mundo sabe disso. - Eu pisquei, deixando-o saber que eu não


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tinha a menor idéia.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Você sabia que o nome dele foi inspirado em uma carne japonesa? -
Henry se vangloriou, puxando sua Sprite para ele e tomando um longo gole.

— Não está brincando! - Eu comecei a rir. Eu me afastei dele para


cuidar de

alguns clientes a alguns bancos abaixo, e cumprimentei Axel, meu


parceiro de luta sueco, que deslizou sobre um tamborete perto de Henry e
disse: "tack".

Obrigado em sueco-beberrões disse ele antes de para voltar sua


cerveja que eu tinha colocado na frente dele.

— Shaquille O'Neal e Kobe Bryant não são amigos - disse Henry a


sério,

e colocou um pretzel cuidadosamente em sua boca.

— Não? Por que não? - Perguntei, recarregando sua Sprite.

— Os Giants não fazem bons amigos. - Ele deu uma olhar desanimado
para seu copo.

— Você está falando sobre Shaq ou Kobe? Eles são ambos muito
grandes. - Eu tentei não rir, porque Henry não estava rindo.

— Giants* não gostam quando alguém é maior do que eles.

— Eu não sei nada sobre isso. Olhe para mim e Axel. Nós dois somos
muito grandes.

— Quem é o maior? - Perguntou Henry.


70
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu sou, - eu disse com firmeza, e, ao mesmo tempo Axel bateu no


peito.

Henry olhou para mim como uma coruja, como se eu tivesse acabado
de confirmar o seu ponto. Axel começou a rir, e eu ri com ele, mas Henry

não riu em tudo. Ele apenas colocou seus lábios inchados em torno de
seu canudo e bebeu sua Sprite como se estivesse morrendo de sede. Eu
esperei até que Axel voltasse sua atenção para Stormy, que tinha parado de
flertar enquanto ela esperava nas mesas.

— Henry? Você está tendo problemas com um gigante? - Eu toquei


meus lábios e olhou diretamente para a boca.

— Os Giants venceu a World Series em 2012, - ele disse suavemente.


— Em 2010 também. Eles são muito populares agora.

Eu não tinha certeza se havia um sentido oculto na mensagem de


popularidade dos Giants ou se Henry só queria mudar a direção do assunto.
Eu tentei novamente, usando uma abordagem diferente.

— Você conhece a história de Davi e Goliath, certo? Davi era apenas


um indivíduo pequeno, e Golias é um grande guerreiro. David acabou
matando-o com apenas um tiro de estilingue e a espada de Golias. -

— Seu nome é David - disse Henry, seus olhos sobre o jogo.

— Isto é. Você precisa de mim para matar um gigante para você?


71

— Banco dos Giants é profundo.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Eu estreitei os olhos para Henry. Ele não desviou o olhar da televisão.


Era como conversar com o Yoda. Ou o R2D2**.

Suspirei e recarreguei sua bebida novamente.

— Quando toda essa Sprite encher você, os banheiros são no corredor


a direita.

Eu não queria chatear Amelie, mas quando ela chegou para se


certificar de que Robin tinha vindo e buscado Henry, cobrindo seu uniforme
de dança com uma camiseta do Time Tag e calças legging, eu puxei-a de lado
e salientou mais uma vez que ela deve trazer Henry pelo ginásio. Não faria
mal para a criança a aprender a derrubar um valentão, ou um gigante, se é
isso o que estava acontecendo.

***

AMELIE e Henry não apareceram pelo ginásio no dia seguinte. No


sábado, pensei em ter visto ele uma vez, pelas janelas ao longo da frente da
academia, mas quando eu olhei novamente não vi. Dei de ombros, decidi que
Henry não deve ter ficado tão animado com idéia quanto Amelie, pensei que
ele tinha ficado.

Poucos minutos depois, eu olhei para cima para vê-los pairando perto
dos sacos de velocidade, Amelie segurando firmemente o braço de Henry,
Henry olhando como se ele estivesse prestes a fugir como um cão-guia
fugitivo e arrastando sua pobre irmã com ele. Eles estavam recebendo
72

alguns olhares estranhos. Henry com sua cabeceira louca, seu olhar de fulga
Página
The Song of David/ Amy Harmon

e suas mãos nervosas, já Amelie porque estava tão quieta, com os olhos fixos
à frente.

Eu pedi uma pausa rápida da minha luta, escapando de Axel, que


estava tentando surrar-me na próxima semana, e deslizei entre as cordas
que isolam o ringue de luta.

— Amelie! Henry! - Eu chamei, notando como o rosto de Amelie se


envolveu imediatamente em um sorriso de alívio, um sorriso tão amplo que
se espalhou para os olhos, dando a ilusão de brilho e vida. Mas Henry
começou a fazer retorno, puxando sua irmã com ele. — Ei, Henry. Mantenha-
se, homem. - Eu parei vários pés deles e abaixei minha voz. — Você sabia
que Jack Dempsey contra Jess Willard foi a primeira luta a ser transmitida
ao longo do rádio? - Henry parou de se mover e as mãos acalmou.

— Você sabe que ano que foi, Henry?

— 1919, - disse Henry em um sussurro.

— A primeira luta foi televisionado em 1931. Benny Leonard versos


Mickey Walker.

— Eu não sabia disso. - Na verdade, eu só tinha conhecimento apenas


sobre a Dempsey, Willard lutar, porque eu tinha visto uma biografia sobre
Dempsey no Netflix na noite anterior.

Deus abençoe a Netflix. A menção do rádio me fez pensar em Henry e


nas narrações de esporte saindo de seu quarto.

— Você quer me dizer mais?


73
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The Song of David/ Amy Harmon

— 'Tag' David Taggert, categoria peso pesado com um registro


profissional de dezoito vitórias, duas derrotas, dez nocautes.

— Você me verificou também, hein? - A boca de Henry contraiu, e ele


desviou o olhar timidamente.

— Você fez! O que mais você descobriu? Que todas as mulhers me


amam, que eu sou o lutador mais bonito, de um lado ao outro, no universo?

Henry pareceu confuso por um segundo, e eu percebi que ele estava


procurando sua mente rápido. Eu ri. – Brincadeira amigo

— Six-pé três, soca 215 muitas vezes mais comparado a Forrest Griffin
e Michael Bisping? - A voz de Henry levantou - no final, visando claramente
aprovação.

— Eu sou mais encantador do que Bisping, e eu tenho ouvidos


melhores do que Forrest. Mas eles poderiam, provavelmente, chutar a
minha bunda.

— Ele disse bunda, Amelie! - Henry sussurrou, metade chocado.

— Sim, ele fez, Henry. Está tudo bem. Isso é como lutadores falam, -
Amelie acalmou-o.

— Posso dizer bunda? - Henry sussurrou novamente, curiosamente.

— Você pode - Eu cortei — depois que você aprender como lutar.

— Eu não gosto de lutar. - Henry começou recuando.

— Tudo bem, Henry. Há muitas maneiras diferentes de lutar. Eu posso


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te mostrar algumas coisas quando você estiver pronto. Alguns movimentos


Página
The Song of David/ Amy Harmon

são apenas sobre como se proteger. Mas agora, eu vou apresentá-lo a minha
equipe.

— Tag Team? - A voz de Henry levantou com entusiasmo.

— Está certo. Estão faltando algumas pessoas, mas um grupo de meus


rapazes estão aqui.

Henry já havia encontrado Axel, meu parceiro sueco, no bar, mas


Amelie sacudiu a mão educadamente e Axel me lançou um olhar aguçado
sobre a parte superior sua cabeça. Ele tinha visto ela dançar, obviamente.
Mikey, com seu poderoso antebraços e sem sua perna esquerda,
cumprimentou Henry e Amelie com um sorriso e um aperto de mão. Mikey é
sempre um cavalheiro na frente das senhoras, mas se torna um fuzileiro
naval desbocado na frente dos caras. Ele perdeu uma perna no Iraque e
trabalha fora seus demônios nas instalações da Tag Team. Ele me ensinou
algumas coisas sobre o combate corpo-a-corpo, coisas que você só pode
aprender com alguém que tem, de verdade, lutado por sua vida mais vezes
do que ele poderia contar.

Eu mudei para Paulo, um brasileiro, e um combatente melhor do que


todos nós, e, em seguida, a Cory, o mais jovem na equipe. Cory Mangum foi
um lutador, na NCAA campeão dos pesos pesados em seu primeiro ano.

Mas ele jogou tudo fora em seu último ano e terminou no Hospital
psiquiátrico depois de ter pulado de uma ponte drogado. Meu velho amigo,
Dr. Andelin, o tinha enviado para mim. Até agora, ele conseguiu ficar limpo e
me fixar diariamente. Eu estava aprendendo uma tonelada de coisas com
75

ele.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Além de Axel, Mikey, Paulo e Cory, que fornecia os treinamentos, mas


não

competiam, eu tinha um punhado de lutadores de MMA em muitas


divisões e todos lutaram sob o rótulo Tag Team, e eles cumprimentaram
Henry e Amelie educadamente, Henry com partes de e seu cabelo maluco
longo e o sorriso deslumbrante de Amelie. Eu me perguntava se Amelie
sabia como ela era atraente. Provavelmente não. Ja tivemos muitas
mulheres dentro de nossa instalação. Algumas vieram por mim ou para ver
um dos caras, outras vieram para trabalhar conosco.

Eu tinha duas mulheres combatentes na Tag Team que foram


classificadas na UFC. Amelie era uma novidade, porém, e eu tinha certeza
que todos os caras tinham notado sua doce figura, seu cabelo brilhante e sua
boca bonita. Esse pensamento me incomodava. Bastou Axel falar que ela
dançava em torno de um pólo várias vezes por semana no bar a noite. Esse
pensamento realmente me incomodou.

— Esta parte do ginásio é para a luta e treinamento. O resto da sala-de


peso, o equipamento de exercício, e as classes é para os membros de fitness
Time Tag. Pagando quinze dólares por mês você tem acesso a todo esse lado
do estabelecimento. Nós temos aulas aqui algumas noites por semana
também, as classes que necessitam das esteiras como judô e algumas das
nossas aulas de autodefesa, mas essas coisas são extras.

— Talvez você gostasse de experimentar uma aula de judô ou de uma


de auto-defesa, Henry, - Amelie falou. — Tive aulas de judô por um tempo.
76

Há uma divisão para cegos atletas. Muito legal. Mas meu coração não estava
Página
The Song of David/ Amy Harmon

nelas, a menos que estivessem tocando músicas e eu pudesse fazer chutes


em rotações, o que não se faz no judô.

— Sim. Não ao menos que você esteja jogando com alguém enquanto
você está girando.

— Eu teria que socar um cara mau? - Henry perguntou em dúvida.

— Nah. Judô é tudo sobre arremessos. Um lutador de MMA usa um


monte de arremessos e submissões, portanto judô é um negócio muito
grande por aqui - eu disse. Henry parecia excessivamente preocupado por
ter que socar alguém. O que significava que eu provavelmente precisaria
ensiná-lo.

— Você não tem que socar qualquer coisa. Exceto, talvez, um saco.
Você acha que você gostaria de dar um soco naquele saco ali?

Henry parou e olhou desconfiado para a o saco de esmurrar a um par


de pés para a esquerda de onde nós estavamos de pé.

— Você poderia esmurrar o saco com velocidade também. É divertido.


E ele não revida.

Amelie ainda estava segurando o braço de Henry, e sua bengala não


estava à vista.

Estendi a mão e agarrei delicadamente seu cotovelo, puxando-a para


meu lado para que Henry não a machucasse se tentasse um soco. Eu tinha
minhas dúvidas se Henry nunca tinha socado nada em sua vida. Ele era um
garoto magro pequeno, claramente tinha problemas em seu
77

desenvolvimento. Ele parecia um pouco robótico quando falou, e eu


Página
The Song of David/ Amy Harmon

perguntei se ele era um autista. Por mais que ele possa cuspir trivia sobre
esportes ele parecia um livro de registro. Por outro lado, o garoto pediu
permissão para dizer bunda. Não é o que um adolescente faria.

Henry caminhou em direção ao saco de esmurrar, olhando para ele


como se ele poderia se transformar em algo mortal. Sua mão esquerda
disparou para fora e bateu o saco, e ele pulou um pé no ar.

Amelie aplaudiu. — Foi você, Henry? Eu ouvi isso!

— Tente de novo, Henry. Você pode chutá-lo também - eu o instruí.

A perna de Henry atirou para fora, como se fosse chutar uma porta
aberta, e balançou o saco para trás e bateu na perna levantada, derrubando
ele — Ele me pegou, Tag - ele gemeu, e Amelie engasgou. Eu acho que eu
estava errado.

Aparentemente, o saco de pancadas poderia bater nas costas.

— Levante-se amigo. Você chutou com força. Você tem que ver para
onde vai balançar e recuar um pouco, em tempo de chutes e socos.

Henry levantou-se como se o saco fosse arrancar suas pernas para


fora dele a qualquer minuto. Ele apontou para ele, esperou um pouco mais,
chutou uma ou duas vezes sem cair, e em seguida, mudou-se para o saco de
velocidade enquanto eu o instruía.

Amelie ficou quieta, ouvindo atentamente, percebi que mantive a


minha mão em seu cotovelo o tempo todo, segurando ao meu lado
enaquanto treinava Henry. Quando Henry pegou um pouco de rítmo com o
78

saco de velocidade, começou a rir feliz para si mesmo, ela falou.


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The Song of David/ Amy Harmon

— David?

Eu quase olhei em volta para ver com quem ela estava falando e, em
seguida, lembrei que era meu próprio nome. Parecia diferente em seus
lábios.

— Sim?

— Você é tão legal. Eu não esperava que você fosse ser tão bom.

— Por quê?

— Porque todas as meninas no bar são tão apaixonadas por você, elas
querem dormir com você, ou elas te odeiam, e mesmo assim elas ainda
querem dormir com você. Eu pensei que você fosse um daqueles tipos bad
boy.

— Oh, eu sou muito ruim. Eu apenas tento não ser um idiota para as
pessoas que não merecem. Eu acho que você poderia dizer que eu sou um
cara com um lado legal.

— Eu não acho que isso funcione dessa maneira - ela disse


suavemente.

— Confie em mim. - Ele disse. — Eu sou bom com as pessoas se elas


não atravessam o meu caminho ou das pessoas de quem gosto. A não ser
que queiram ver o meu lado mau.

— Vou me lembrar disso - disse Amelie séria, acenando com a cabeça,


como se um pensamento tivesse passado apenas alguns segundos antes.
79

O pensamento de uma meiga morena cega com a pele perolada e o


Página

sorriso doce me enroscando foi cômico.


The Song of David/ Amy Harmon

— Você está tramando alguma coisa? - Perguntei, tentando não rir.

— Eu estava, mas eu pensei melhor. - Ela estremeceu dramaticamente.


— Não quero ver Tag mau.

— Tag mau e Millie boba.

— Millie?

— Será que ninguém nunca a chamou de Millie?

— Não - ela respondeu com franqueza.

— Henry e Amelie não são nomes que vocês ouve todos os dias. Eles
soam tipo como nomes antiquados.

— Isso é porque nós na verdade nascemos no final de 1800, quando


os nossos nomes eram mais populares. Os vampiros não envelhecem, você
sabe. E a minha cegueira é apenas um armadilha para fazer as pessoas se
sentirem seguras. - Seus lábios estavam torcidos em um sorriso.

— É mesmo? - Eu disse lentamente: — Bem, que se dane. Então, você e


Henry vão sempre ter, o que, treze anos e vinte e dois?

— Quinze. Henry tem quinze anos.

— Mas você tem realmente cento e vinte e dois anos?

— Está certo. Nós ainda vamos parecer desse jeito por mais outros
cem anos. – Isso era um pensamento triste para Henry, mas para Amelie,
nem tanto.
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— Você vai sobreviver a todos nós.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

O rosto de Amelie caiu um pouco e seu sorriso escorregou. Se eu não


tivesse olhando diretamente em seu rosto eu não teria visto. Mas eu olhei, e
eu percebi que Amelie já havia perdido a alguém com que ela se preocupava.

— Seus pais estão entre os mortos-vivos também? - Eu perguntei


levemente, perguntando se iria abandonar as brincadeiras.

— Não. Meu pai não está no quadro. Não falo com ele há anos. Minha
mãe morreu há um tempo. - Ela encolheu os ombros, a diversão
completamente arruinada pela realidade.

— Sinto muito, querida. - Foi um carinho que eu usava facilmente. Eu


tinha chamado mais mulheres de querida em minha vida do que eu poderia
contar, mas as bochechas de Amelie rosadas e seu queixo baixou quase
timidamente. Pessoas não deve chama-la de querida com muita frequência.

— Meu pai não lidou com isso muito bem, quando eu fiquei cega. Duas
crianças com problemas foi demasiados para ele, aparentemente.

— Então você cuida de Henry. . . e de si mesma? - Eu estava atordoado


e tentava não demostrar, mas ela percebeu isso de qualquer maneira, seu
queixo enrigesseu.

— Você realmente quer saber, ou você duvida disso? - Ela virou o


rosto para mim, como se quisse me confrontar com essa pergunta na cabeça,
e quando eu olhava para ela, eu senti um tremor no meu peito que já era
instantaneamente familiar. Foi um sentimento como saltar de um penhasco,
como se meu coração tivesse inchado. Uma sensação no peito como se
81

estivesse estourando, eu já tinha deparado com esse sentimento algumas


Página

vezes na minha vida.


The Song of David/ Amy Harmon

Eu sentia isso quando via Moses segurar seu novo bebê pela primeira
vez. Ele e Geórgia eram tão felizes, tão merecedores de toda aquela alegria
em seus rostos que eu tinha transbordado e enchido o meu coração de
perguntas. Eu senti isso há dois anos atrás, quando tinha voltado na quinta
rodada para ganhar a minha primeira grande luta e eu realmente senti isso
uma grande quantidade de vezes ao longo dos últimos anos, vendo Moses
trabalhando, vendo as pessoas chorarem com seu dom. Mas a primeira vez
que esse sentimento tomou conta da minha respiraçao eu estava em Veneza.
Isso foi um ano depois de eu ter saído da Montlake, oito meses desde que
Moses e eu tinhamos virado o mundo. Eu estava tão triste e tão perdido por
tanto tempo que eu tinha me acostumado a não sentir mais nada.

Mas ali, em um pequeno barco em Veneza, observandos o sol ardente,


infernal, bola vermelha girando a água e o céu em tons de celeste meus
olhos tinham enchido de lágrimas pela beleza violenta de tudo.

Naquele momento, percebi que eu queria viver novamente. Pela


primeira vez em um longo tempo, eu estava feliz por estar vivo.

Olhando para baixo para ver Amelie, seu rosto em forma de coração
Anderson, sua boca definia uma linha teimosa, eu tive esse sentimento
novamente. Ele correu através de mim, e pegando minha respiração com
ele.

— Eu realmente quero saber - eu disse, e isso saiu em um sussurro


rouco.

— Nós cuidamos um do outro - ela disse simplesmente. — Ele me


82

ajuda com o material, eu tenho dificuldades. Ele até mesmo cozinha às


Página
The Song of David/ Amy Harmon

vezes. Quero dizer, não é nenhum gourmet, mas é para nós dois, e nós
sobrevivemos eu posso verdadeiramente nunca saber se minha roupa esta
rasgada, ou se a casa está realmente limpa, ou se há uma mosca em minha
sopa, mas Henry cuida tão bem de mim como eu tenho cuidado dele.

Certo, era bastante óbvio quem jogava de mãe e quem jogava de filho.
Esta menina foi uma surpresa um minuto.

— Henry e eu somos uma equipe. Você tem Tag Team, certo? Você
entende.

Todo mundo contribui com algo diferente.

— Oh sim?

— Ele são os olhos. Eu sou o coração. Ele são as mãos, e eu sou o chefe.
Isso é o que minha mãe costumava dizer.

Ficamos em silêncio, então, minha mente dobar, Henry volta para


lutar contra enorme saco de pancadas numa épica batalha, e Amelie estava
em linha reta ainda a escuta, era como se ela pudesse realmente ver a
tentativa de seu irmão a tentar derrubar um adversário impossível. O que
ela não sabia, o que ela não poderia ver, era que ela me derrubava, eu podia
estar em pé ao lado dela, mas eu ja estava caindo.

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The Song of David/ Amy Harmon

Moses

Ele são os OLHOS e eu sou o coração. Ele são as mãos, e eu sou o chefe.
As palavras se repetiam em meus ouvidos. Millie parecia ser como Tag tinha
me descrito. Eu era os olhos e as mãos de um artista que podia ver o que os
outros não podiam, o que Tag não poderia. Mas ele era o líder, o cabeça e o
coração, e sua cabeça e seu coração tinha fornecido para os meus olhos e as
mãos e tempo outra vez. Tag era todo coração, e às vezes ele se colocava em
apuros, ele entra em apuros com muita frequência, mas ele nos tinha levado
na direção certa. Ele tinha tomado conta de mim. Eu não sabia se eu tinha
cuidado dele no entanto. Eu não pensava que precisava.

— Por que ele deixou, Moses? Onde ele foi? Ninguém o viu por duas
semanas. Ninguém sabe nada. Se ele estava caído por mim, como ele diz,
então por que ele me deixou assim? - Millie foi à beira das lágrimas e eu
tinha recorrido aos desenhos, meus dedos voando sobre um esboço no
papel, isso era louco eu não queria ouvir o meu melhor amigo dizendo
adeus.

Eu tinha chamado o pai de Tag, que chamou a sua mãe, que por sua
vez chamou suas duas irmãs mais jovens que estavam fora da escola. Millie
estava certa. Ninguém sabia nada.

Ninguém tinha visto ou ouvido falar dele desde que ele partiu.

— Será que ele disse ou fez qualquer coisa que mostrasse que ele
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estava indo? Qualquer coisa que você possa pensar que possa nos dar uma
Página

pista de onde ele foi? - perguntei, impotente.


The Song of David/ Amy Harmon

Ouvir Tag tinha me enchido de desesperança. Ele estava claramente


contando uma história de amor. E minha experiência com o amor me levou a
acreditar esta história não ia acabar bem. Amor em histórias tendem a ser
trágico.

— Não. Quero dizer, ele parecia cansado, o que era o contrário do que
é , Millie - Respondeu, interrompendo minha deprimente linha de raciocínio.
— Tag nunca parece cansado. Você já reparou que ele tem mais energia do
que qualquer um que eu já conheci? Mas ele estava cansado. Ele tinha
treinado tão duro para a luta de Santos. Um par de noites ele adormeceu no
sofá assistindo TV com Henry. Uma vez, eu o acordei a meia-noite, porque o
nosso sofá é pequeno e ele estava desconfortável. Ele estava desorientado e
tão fora de si que ele estava pronunciando poucas palavras. Se eu não o
conhecesse, eu teria pensado que ele estava bêbado. Mas ele não bebia. Ele
nunca esteve com uma cerveja o tempo todo eu o conheço. E ele estava
dormindo no sofá por três horas.

— Eu não queria que ele dirigisse, eu disse que ele estava com muito
sono para estar dirigindo. Mesmo que fosse apenas alguns quarteirões, mas
ele disse que estava bem. Acompanhei-o para fora para um cego guiando
outro cego. - Sua voz quebrou.

— Isso foi a última vez que você viu ele?

— Não. A última noite que o vi. . . ele e eu. . . - A voz de Millie sumiu

e suas bochechas ficaram suspeitosamente rosas.


85
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Filho da puta. Eu não precisava mais de explicações. Mais uma vez, eu


estava em uma perda completa. Desculpei-me para chamar Georgia, e ela
respondeu ao primeiro chamado, sua voz afiada com esperança e medo.

— Qual é a notícia? – Ela disse, sem nehuma outra saudação.

Essa é Georgia, pegava o touro pelos chifres. Era umas das coisas que
eu mais amava nela, uma das coisas que tinham nos salvado quando a nossa
própria história de amor teve algumas voltas trágicas.

A frase despertou uma memória em mim e em vez de responder, eu


disse — Você sabe que Tag realmente pegou um touro pelos chifres uma
vez? Eu vi ele fazer isso.

Georgia ficou em silêncio por um instante antes que ela me


pressionasse novamente.

— Moses? Do que você está falando, baby? O que está acontecendo


com Tag?

— Nós estávamos na Espanha, em San Sebastian. É país Basco, você


sabe. Você sabe que há loiros espanhóis? Eu não sabia. Eu ficava vendo
mulheres loiras e todas elas me lembram você. Eu estava em um humor
horrível e Tag teve essa idéia brilhante de que devíamos ir a Pamplona para
o Correndo dos touros. Ele disse que um tiro de adrenalina era exatamente o
que eu precisava para me animar. Pamplona não é tão longe de San
Sebastian, é apenas uma hora ao sul de ônibus. Eu sabia que Tag tinha um
desejo pela morte. Ao menos ele tinha em Montlake. E eu sabia que ele era
86

um pouco louco. Ele realmente esperou para que o touro perseguisse ele e
Página

então ele perseguiu o touro e quando o touro chegou nele, ele agarrou-o
The Song of David/ Amy Harmon

pelos chifres e fez uma daquelas torções e rolamentos que cowboys fazem
em rodeios.

— Steer Wrestling? - Georgia ainda parecia confusa, mas ela estava


ouvindo.

— Sim. Steer wrestling. Tag tentou lutou com um touro. O touro


venceu, mas Tag foi embora sem um arranhão. Eu ainda não sei direito. Eu
estava gritando tão alto que eu fiquei rouco por uma semana, o que foi bom
porque eu não falei com Tag por nós dois. Aquele filho da puta. Eu pensei
que ele ia morrer. - Eu parei de falar, a emoção estava sufocando a minha
capacidade de falar. Mas Georgia ouviu o que eu não poderia dizer.

— O que está acontecendo, Moses? Onde está o Tag?

— Eu não sei, Georgia, mas você pode vir? Eu preciso de você. E eu


tenho um sentimento de que, antes de tudo isso acabar, Millie vai precisar
de você. Há certas coisas que você não pode falar com um homem. Mesmo
que ele seja o melhor amigo de seu amante. Especialmente se ele é o melhor
amigo do seu amante.

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The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO CINCO

EU ESTAVA ESTACIONADO na frente da casa de Amelie na segunda-


feira de manhã esperando o Henry ir à escola. Eu havia persuadido Robin
pela informação quando ela tinha ido buscar o Henry no bar determinado a
descobrir quem tinha machucado o rosto dele. Henry tinha ido ao banheiro
se aliviar de uma bexiga repleta de Sprite e eu a pressionei. Eu não havia
dito nada para Millie naquela noite e nem na academia no sábado, mas não
estava tudo bem em ignorar isso e o pensamento de alguém fazendo a vida
de Henry um inferno, de alguém colocando as mãos nele me deu a coceira de
machucar pessoas. Valentões e vadias. Eu os odiava. Então eu mesmo tomei
frente para intervir além de apenas ensiná-lo alguns movimentos na
academia.

Robin disse que Henry ia e voltava a pé da escola na maioria dos dias.


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Era apenas a alguns quarteirões e às vezes Millie andava com ele. Ele
Página

frequentava regularmente as aulas em uma escola regular do ensino médio


The Song of David/ Amy Harmon

e, segundo Robin, ele tirava notas decentes. Aparentemente Millie estava em


frequente contato com seus professores e estava em primeiro lugar no
pedestal com a administração. Eu me perguntei o quanto ele era
participativo em suas aulas e em quão bem ele lidava com as outras
crianças.

Robin disse que ele não tinha nenhum amigo que ela conhecesse.
Julgando pelos seus lábios, ele tinha chamado atenção de alguém. Eu disse
para Robin que tomaria conta disso. Ela pareceu um pouco surpresa e então
deu de ombros.

Henry saiu de casa as sete e meia e eu estava em marcha lenta no


meio-fio, minha caminhonete quente, dois copos de café no porta-copos. Eu
não sabia se Henry gostava de café, mas eu gostava. Senti-me um esquisitão,
esperando no meio-fio por uma criança, mas abaixei minha janela e o saudei
facilmente perguntando se eu podia falar com ele por um minuto.

— E eu vou te levar para a escola, então você não chegará atrasado. –


eu acrescentei quando Henry olhou o relógio.

Ele sorriu abertamente, como se a minha presença fosse bem vinda e


andou até a porta do passageiro sem protestar. Fiz uma nota para conversar
com Henry sobre algum perigo estranho e esquisitões. Ele jogou sua mochila
no chão do carro e pegou o café que eu entreguei a ele com um gemido
gratificante. Eu ri por entre os dentes e nós nos ajeitamos, degustando nossa
bebida por alguns minutos antes de pular para o assunto que precisava ser
discutido.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Henry? Você precisa me falar o que aconteceu com você. Porque os


seus lábios estavam cortados? E quem colocou aquele hematoma na sua
bochecha?

Henry enrubesceu, ficando vermelho, e engasgou um pouco com seu


café. Ele o colocou no porta-copos e passou as costas de sua mão nos lábios
desconfortavelmente. Senti minha temperatura subir um grau.

— Você sabe, a razão pela qual eu queria que Millie te levasse na


academia era para que eu pudesse te ensinar a se defender. Mas isso vai
levar um tempo. E até lá eu quero saber se alguém está te enchendo o saco
na escola.

Henry não olhou pra mim.

— Henry? A bunda de quem que eu preciso chutar?

— Você não pode.

— Eu não posso o que? Chutar a bunda gorda de um gigante? – eu


disse suavemente, lembrando de sua críptica conversa sobre gigantes.

— Não é um gigante. É uma garota. – Henry sussurrou.

— Uma garota? – eu não estaria mais surpreso do que se ele me disse


que Millie tinha dado um soco na cara dele.

— Minha amiga.

Balancei a cabeça.

— Não. Não é uma amiga. Amigos não te socam por aí.


90
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The Song of David/ Amy Harmon

Henry olhou para mim e levantou as sobrancelhas em dúvida. Touché.

— Bem eles não te socam por aí a menos que você peça para que eles
façam isso. – eu adicionei pensando em todos os meus amigos na academia
que regularmente me davam tapas por aí.

— O que você fez? – eu perguntei tentando entender. — Você fez


alguma coisa que a deixou chateada? Ou ela é apenas uma valentona?

— Eu disse pra ela que ela parecia um lutador de sumô. – Henry disse
suavemente.

— Você disse isso pra ela? – eu gritei. — Ah Henry. Não me diga que
você disse isso pra ela. – era tudo o que eu podia fazer para não rir.

Cobri minha boca para Henry não ver meus lábios tremendo.

O olhar de Henry se quebrou.

— Lutadores de Sumô são heróis no Japão, – ele insistiu.

— Henry, – eu gemi — Você gosta dessa garota?

Henry assentiu.

— Legal. Por quê?

— Lutadores de sumô são poderosos. – Henry disse.

— Henry, por favor, cara. Você não gosta dela porque ela é poderosa. –
eu insisti.

Henry pareceu confuso.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Espera. É isso mesmo? – agora eu estava confuso.

— O peso médio para um lutador de sumô é de 181 quilos e meio. Eles


são enormes.

— Mas ela não é enorme, é?

— Não. Não é enorme.

— Ela se parece com um lutador de sumô? – eu perguntei. Henry


balançou a cabeça. — Não. Mas ela é grande... Talvez maior que as outras
garotas?

Henry assentiu. Ok agora estávamos chegando a algum lugar.

— Então ela socou você quando você disse que ela parecia um lutador
de sumô.

De novo ele assentiu.

— Ela deixou sua mandíbula preta e cortou seus lábios.

Henry assentiu novamente e sorriu levemente quase como se


estivesse orgulhoso dela.

— Porque você disse isso Henry? Ela obviamente não gostou. – eu não
conseguia pensar em uma garota que gostaria.

Henry trincou a mandíbula e agarrou seus cabelos, obviamente


frustrado.

— Lutadores de sumô são incríveis! – ele lamentou.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Ei cara eu entendi. Conversar com as garotas é difícil. Eu disse


todos os tipos de coisas estúpidas na primeira vez que eu levei Millie pra
casa. Por sorte ela não me socou.

— Amelie não é uma lutadora! – Henry disse e riu um pouco, soltando


o ar e tomando um profundo fôlego.

— Você está errado quanto a isso amigão. Ela é uma lutadora. Ela só é
um tipo diferente de lutadora.

Ficamos ambos quietos por um minuto, absorvendo isso.

— Eu g-g-gosto dela. – Henry gaguejou tristemente como se uma


simples afirmação fosse mais difícil do que cuspir trivialidades. E talvez
fosse mesmo.

— Porque ela é poderosa. – eu repeti, esperando que ele me dissesse


mais.

— Sim.

— E ela tem sido legal com você? Antes de te dar um soco na cara eu
digo.

— Sim. – ele assentiu vigorosamente. – Como um guarda-costas.

— Ela cuidava de você?

Henry assentiu novamente.

Eu senti minha cabeça mais leve em alívio e comecei a rir.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Para que nenhum gigante, jóqueis, ninguém estivesse te batendo


por aí.

Henry balançou a cabeça lentamente.

— Desculpe. – ele sussurrou. — Eu estraguei tudo.

— E eu vou te ajudar a concertar isso cara. – eu disse de repente,


acelerando a minha caminhonete e afastando do meio-fio. Henry colocou
seu cinto de segurança como se estivesse pronto para uma corrida.

Parei no estacionamento em frente à escola, tirei a chave da ignição e


saí do carro. Henry estava me encarando, seus olhos arregalados.

— Vamos lá Henry. Eu vou te ajudar a apaziguar as coisas com a sua


amiga. Vamos lá!

Henry andou do meu lado, segurando as alças da mochila como se


estivesse prestes a pular de paraquedas de um avião. Seu rosto estava sério.

— Você consegue fazer isso Henry. – eu o encorajei. Ele assentiu uma


vez, mas seus olhos continuavam olhando para frente. Algumas pessoas
encararam, mas os corredores estavam repletos de crianças e na maior
parte das vezes as cabeças que se viravam para encaram eram do gênero
feminino. Eu me sentiria lisonjeado, exceto pelo fato de que todos pareciam
ter catorze anos, especialmente os caras. Era estranho. Eu pensava que era
um valentão no colégio. Eu pensava que era um homem.

Essas crianças pareciam que ainda chupavam o dedo em segredo.


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The Song of David/ Amy Harmon

Henry parou de repente e eu coloquei uma mão em seu ombro. Ele


tremia tanto que chegava a vibrar. Ele apontou para uma garota parada
sozinha próxima a algumas portas de armário vermelhas.

— É ela? – eu perguntei.

Henry assentiu ainda encarando. Eu prendi a respiração, engolindo a


risada. Ela não era enorme mesmo. Mas ela era Japonesa.

Ela era pequena e levemente redonda, talvez um pouco gordinha, mas


a maior parte de seu peso estava em seus seios o que explicou para onde a
atenção de Henry tinha ido. Henry continuou a andar e então parou próximo
a ela, seus olhos voando entre os cadeados atrás da cabeça dela e seu rosto.
Ele parecia desesperado.

A garota japonesa me encarou e levantou uma sobrancelha


expectante. Ela tinha uma fileira de argolas na sobrancelha, um pequeno
diamante no nariz e duas outras argolas no lábio inferior. Suas orelhas
estavam praticamente repletas de brincos.

— Eu sou Tag Taggert. – estendi minha mão e dei um sincero sorriso


com covinhas. Era o meu charme.

— Ayumi Nagahara. – ela respondeu, estendendo a pequena mão. Eu


quase ri. Sua voz era impossivelmente doce e alta.

Apertei sua mão rapidamente e a soltei. Então cruzei os braços e fiquei


sério.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Henry gosta de você. Ele te acha incrível. Ele me contou tudo sobre
você. – ambas as sobrancelhas se ergueram e eu tinha um pressentimento
de que era mais por Henry ter me contado do que o fato de que ele gostava
dela.

Ela olhou para Henry por um minuto, então sua expressão suavizou e
ela voltou a olhar para mim. Henry encostou a testa nos armários como se
toda essa conversa o deixasse tonto.

— Ele sente muito Ayumi. Ele não estava tentando inferir que você
parecia com um lutador de sumô. Ele estava tentado dizer pra você que ele
te admira do mesmo jeito que os japoneses admiram seus lutadores.

Henry começou a assentir, sua cabeça batendo na porta do armário.


Coloquei meu braço ao redor dele e o puxei para trás apenas um pouco para
que ele não se machucasse.

— De qualquer forma, ele acha que você é forte. Você obviamente sabe
como dar um soco. – apontei com o olhar para o rosto de Henry e Ayumi
enrubesceu em um profundo vermelho escarlate. Eu percebi que não
precisava dizer mais nada sobre esse assunto. Eu apenas esperava que ela
iria pensar antes de bater no pobre Henry de novo. Porque sendo menina ou
não, ela não podia simplesmente sair por aí socando as pessoas.

Especialmente pessoas como Henry.

— E sempre que você quiser passear conosco, o Tag Team, eu e Henry,


você pode. Um amigo de Henry é um amigo meu.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Ok. – ela guinchou e eu tentei imaginá-la com raiva o suficiente


para cerrar os punhos e mandar ver. Henry deve ter realmente a chateado.

O sinal tocou e Henry deu um pulo.

As portas dos armários bateram e as crianças começaram a se


dispersar.

— Vejo você na academia depois da escola Henry, ok?

Henry assentiu, seu rosto relaxando em um sorriso. Sua cor estava


voltando ao normal e o aperto na mochila tinha afrouxado.

Baguncei a cabeça de Henry, dando-o um abraço de camaradas e


enquanto eu me afastava pude ouvi-lo recitar o meu recorde para sua
pequena amiga.

— David ‘Tag’ Taggert, peso-pesado com um registro profissional de


dezoito vitórias, duas derrotas, dez nocautes.

— DE FORMA ALGUMA você pode bancar Henry com um salário de


dançarina. – eu disse. Mesmo o dinheiro que eu tinha transferido para ela.
Eu estava levando Millie para casa novamente, como eu fazia todas as noites
que ela trabalhou nas últimas duas semanas. Eu ainda não tinha encontrado
97

um substituto para Morgan e eu ainda estava trabalhando muitas horas no


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The Song of David/ Amy Harmon

bar. Mas eu não me importava mesmo com isso e a razão andava ao meu
lado.

— Não. Eu não posso. Mas para a nossa sorte a minha mãe planejou
bem. Ela tinha uma apólice de seguro de vida, uma boa apólice e a casa era
dela, disponível e limpa. Esteve na família dela desde sempre. E o meu pai
deu uma bolada de dinheiro para ela, talvez você tenha ouvido falar sobre
ele. André Anderson? Ele jogava no time Gigantes de São Francisco. Ele era a
primeira base. Eu não sei o que ele está fazendo agora.

— Caramba! – eu disse surpreso. — Eu me lembro dele.

Amelie assentiu.

— Nós achamos que é por isso que Henry se tornou tão fissurado em
esportes. Ele tinha apenas cinco anos quando os meus pais se separaram.
Você sabe como os jogadores estudam um vídeo de uma partida? Bem, o
Henry sabe. A minha mãe tinha discos com tudo, todas as gravações dos
jogos do meu pai, tudo o que ela conseguiu pegar. Henry sentava e assistia
incansavelmente. Ele ainda assiste. Ele consegue narrar partidas inteiras. É
muita loucura!

— Então porque você dança? – eu não queria perguntar. Apenas saiu,


do jeito que a maioria das coisas saíram. Se eu sentia algo, eventualmente
essa coisa fazia o trajeto pela minha garganta até sair pelos meus lábios.

— Porque você bate nas pessoas? – ela perguntou.


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The Song of David/ Amy Harmon

Eu não me importava em defender o esporte. Eu batia nas pessoas.


Essa era a maior parte disso e era besteira discutir.

— Eu passei a minha vida inteira lutando.

— Sua vida inteira? – Amelie perguntou duvidosamente.

— Desde que eu tinha onze anos. – eu acrescentei. — Eu era a criança


gordinha e despreocupada no parquinho que era motivo de chacotas e que
era fácil de bater. A criança que as outras crianças provocavam. Eu deixava
pra lá até que um dia eu cansei de ser despreocupado e me tornei bem
ocupado.

Amelie riu baixinho e eu continuei.

— Naquele dia eu usei meus punhos e a raiva que havia se acumulado


em mim pelos últimos cinco anos desde que Lyle Coulson disse que eu era
gordo demais para sentar na carteira do jardim de infância. Não importava
que ele tinha razão. Eu era gordo demais para caber nas pequenas carteiras,
mas isso apenas me fez ficar com mais raiva. A briga não foi bonita. Eu só
ganhei porque eu pulei em cima de Lyle e o derrubei no chão, segurando
seus braços magrelos sob mim e gritando em sua cara vermelha. Eu fui
mandado para a sala do diretor pela primeira vez e então fui suspenso por
brigar. Mas Lyle Coulson nunca mais me encheu o saco. Eu aprendi a lutar. E
sou bom nisso.

— Bem, ai vamos nós. – ela deu de ombros. — Não somos tão


diferentes. Eu gosto de dançar. E sou boa nisso.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Eu não gosto de você dançando no bar.

Ela riu, uma erupção repentina, brilhante que criou uma pluma branca
no ar frígido e que me deixou encarando seu rosto jogado pra trás,
maravilhado, ainda que eu soubesse que eu iria tomar alguma coisa para me
esquentar. Era o meu bar, afinal de contas. Eu era seu empregador. Era a
porcaria do meu pole, pelo amor.

— Do que você gosta afinal? David Taggert é um hipócrita? Não, você


não é. Eu sei que você não é. – ela estava sorrindo, mas não da forma que as
garotas normalmente sorriam pra mim, me olhando nos olhos. Ela estava
sorrindo e olhando para frente, para nada nem ninguém e eu senti uma dor
no peito, um alarme. Ela nunca sorriria para mim como as outras mulheres.
Eu estava ok com isso? Porque se eu não estivesse eu precisava me afastar.
Estava ficando pessoal.

— Nah. Você entendeu o que eu disse. Porque você dança em um


barzinho, girando em volta de um pole, vestindo o mais próximo de nada
por um dinheiro que nem é tão bom? Você é uma garota de classe Amelie e
pole dance não tem muita classe. – me afastar não era o meu estilo.

Seu sorriso tinha desaparecido, mas ela não parecia brava. Ela parou
de andar, sua bengala longa esticada como se ela estivesse levando um
animal de estimação imaginário. Então ela levantou a bengala longa e bateu
fortemente na calçada.

— Estava vendo essa bengala longa?


100

Assenti e então me lembrei de que ela não conseguia me ver.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Sim.

Ela a levou até mim, no ar, e bateu no meu ombro.

— Ser cega vem com uma bengala longa. Não com um Golden
Retriever fofo. Uma bengala longa. E essa bengala significa que eu posso
andar na rua sozinha. Encontrar o caminho até o mercado. Isso significa que
eu posso ir para a escola, para o trabalho, ir ao cinema, sair para comer.
Tudo sozinha. Essa bengala longa significa a liberdade para mim. – ela
respirou profundamente e eu segurei a minha respiração. — Eu acho que
simplesmente substituí a bengala por um pole, e quando eu danço, por
algumas horas, várias noites na semana, eu estou vivendo o meu sonho.
Mesmo que não pareça desse jeito pra você. A minha mãe não teria gostado
disso. Você tem razão nisso. Mas ela não está aqui. E eu tenho que fazer as
minhas próprias escolhas.

Amelie parou de falar e esperou, possivelmente para ver se eu iria


discutir. Quando eu não disse nada, ela continuou.

– Eu costumava dançar e fazer ginástica artística. Eu pulava e girava.


Eu conseguia fazer tudo isso. E eu não precisava de um pole. Assim como eu
costumava correr pela rua atrás dos meus amigos e viver a minha vida sem
a minha bengala. Mas isso não é mais uma opção. Aquele pole significa que
eu ainda posso dançar. Eu não preciso ver para dançar naquela gaiola. Se
isso significa que eu não sou uma garota de classe, então que seja. É um
pequeno pedaço de um sonho que eu tive que abandonar. E eu prefiro ter
esse pequeno pedaço a não ter absolutamente nada do meu sonho.
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The Song of David/ Amy Harmon

Bem, merda. Isso fazia perfeitamente sentido. Encontrei-me


assentindo com a cabeça novamente, mas pontuei isso com palavras.

– Ok. Ok Millie. Eu com certeza não posso discutir com isso.

– Então agora eu sou Millie?

– Bem nós acabamos de estabelecer que você não é uma garota de


classe. – eu a provoquei e sua risada saiu novamente, ecoando na rua
silenciosa como um sino de igreja. – Amelie soa como uma aristocrata. Mille
está em um nível mais inferior. Uma garota chamada Millie pode ser amiga
de um cara chamado Tag.

– David?

– Sim?

– Eu tenho um novo som favorito.

– E qual é?

– A forma que você fala Millie. Foi diretamente para o topo da minha
lista. Prometa-me que você nunca vai me chamar de Amelie de novo.

Droga, meu coração estava martelando no peito. Ela estava flertando


não estava? Eu não soube dizer. Tudo o que eu sabia é que eu queria chama-
la de Millie novamente. E de novo. E de novo. Só porque ela tinha me pedido.

– Eu prometo... Com uma condição.

Ela esperou para que eu dissesse o meu preço, um pequeno sorriso


102

nasceu em sua boca.


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The Song of David/ Amy Harmon

– Eu vou te chamar de Millie se você me chamar de Tag. – eu disse. –


Você me chamando de David me faz sentir como se você espera que eu seja
alguém que eu não sou. As pessoas com quem eu mais me importo me
chamam de Tag. É isso que combina.

– Eu gosto de te chamar de David. Eu acho que você tem mais classe


do que se dá ao credito em ter. E todos chamam você de Tag. Eu quero ser...
Diferente. – ela admitiu suavemente.

Senti uma pontada de dor e prazer que me manteve parado e me fez


inclinar para frente simultaneamente, mas eu afastei a sensação com uma
piada, do jeito que eu sempre faço.

— Ah eu tenho muita classe. – ela riu comigo da maneira que eu


queria que fizesse. — Mas você ser especial e diferente não tem nada a ver
em como você me chama, Millie. Mas você pode me chamar de qualquer
porcaria que quiser.

— Qualquer porcaria não tem o mesmo som que David, mas tudo bem.
– ela brincou.

— Você é uma sabichona, você sabe disso né?

Ela assentiu, rindo baixinho e dando uma chance para o meu apelido.

— Então Tag.

— Sim Millie?

— Amanhã é domingo. Você vai à igreja?


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The Song of David/ Amy Harmon

— Não. E você? – eu achava que ela ia. Amelie era cheia de


contradições. Eu não me surpreenderia se ela fosse uma dançarina de pole-
dance e devota à igreja.

— No modo de falar. A igreja é difícil para Henry. Eu posso ir sozinha.


Ele fica bem em casa sozinho por um tempo, obvio. Mas quando eu era mais
jovem a minha mãe tentava levar a gente e quando o Henry começava a ficar
agitado ou começava a fazer muito barulho ela nos levava para o lado de
fora. E foi ai que eu descobri um dos meus sons favoritos. Você quer ouvi-lo?

— Agora?

— Não. Amanhã. Às onze da manhã.

— Na igreja?

— Na igreja.

Bem, droga. Talvez eu devesse ir à igreja. Trabalhar na salvação da


minha alma.

— Ok.

— Ok? – seu sorriso me derrubou e eu mentalmente me dei um chute.


Eu estava passando muito tempo com ela e quanto mais tempo eu passava,
mais difícil ficava de manter a minha mente pensando direito. Antes de
pensar melhor nisso eu disse.

— Nós somos apenas amigos, eu e você, certo Millie?


104
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The Song of David/ Amy Harmon

Seu sorriso vacilou e Millie segurou em seu portão, procurando a


fechadura, como se ela precisasse de algo para se apoiar enquanto eu a
chutava no estomago.

— Sim. Porque eu presumiria algo mais? – ela disse sua voz baixa.

O portão abriu e sem se virar novamente para mim, ela entrou pela
porta, quase sem usar sua bengala.

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The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO SEIS

AMIGOS OU NÃO eu me encontrei na frente da porta da casa de Amelie


faltando vinte minutos para as onze. Bati na porta e esperei me perguntando
se Millie tinha mudado de ide ia. O comentário sobre a amizade tinha sido
como um insulto, eu soube disso no momento que as palavras saíram da
minha boca, mas eu tinha que ter certeza de que não estava levando-a
adiante até que eu soubesse onde eu estava indo. Estava vestido com a
minha jaqueta azul marinho e uma camisa branca engomada, mas eu deixei
a gravata em casa e vesti minha calça jeans country ao invés de calças
normais. Eu sabia me vestir quando precisava, mas eu esperava que minhas
calças apertadas da Wranglers e botas brilhantes fossem boas o suficiente.
Penteei meu cabelo desgrenhado para trás e disse a mim mesmo que não
precisava de um corte de cabelo. Eu nunca fui muito ligado ao meu cabelo,
eu simplesmente nunca ligava em arrumá-lo. Mas fazia-me parecer um
106

pouco descabelado, então eu molhei o cabelo, passei um pouco de gel e o


Página

arrumei para trás. Eu parecia um daqueles caras sem camisa vestindo um


The Song of David/ Amy Harmon

kilt na capa de um livro de romance, do tipo que a minha mãe costumava ler
e colecionar. Isso não importava. Millie não podia ver o meu cabelo longo ou
mesmo a forma com ele forma cachos na altura do meu colarinho. Ela não
podia ver o meu jeans pelo mesmo motivo, então eu não sabia por que me
importava.

A porta da frente se abriu e Henry ficou parado ali com olhos


arregalados e um taco de baseball.

— Oi Henry.

Henry encarou.

— Você está estranho Tag.

Disse o cara com um taco na mão e um cabeço que mais parecia uma
bucha queimada.

— Estou vestido Henry.

— O que você fez com o seu cabelo?

Henry não deu um passo para me deixar entrar.

— Eu penteei. O que você fez com o seu? – eu perguntei sorrindo


tolamente.

Henry passou a mão no cabelo.

— Eu não o penteei.

— É. Posso ver. Parece uma vassoura Henry.


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Encaramo-nos por alguns longos segundos.


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— Eles usam vassouras no esporte de ondulação. – Henry disse.


The Song of David/ Amy Harmon

Mordi o lábio para controlar a bolha de risadas na minha garganta.

— Verdade. Mas eu estou achando que você se pareceria mais com um


jogador de baseball com menos cabelo. Esse é o seu esporte favorito, certo?

Henry segurou o bastão para cima com as mãos como se aquilo


respondesse.

— Eu estava pensando... Eu estava pensando que você eu devêssemos


ir até o meu amigo Leroy e aparar a juba amanhã. O Leroy tem uma
barbearia. “Que que cê” me diz? Leroy é legal e tem um lugar que vende
smoothies do lado. Vai ser um encontro de caras. Um encontro para os caras.
– eu poderia matar dois coelhos com uma cajadada só.

— Um mandato? – Henry falou as palavras todas juntas.

— Sim. Estou te falando um mandato que determina que você deva


cortar o cabelo. Iremos até a academia depois e eu vou te mostrar alguns
movimentos.

— Sem a Amelie?

— Você quer que a Amelie venha?

— Ela não é um cara. É um encontro de caras.

Amelie escolheu aquele momento para gentilmente puxar Henry para


o lado.

— Eu definitivamente não sou um cara, mas Henry você realmente


deveria ter convidado o Tag a entrar.
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The Song of David/ Amy Harmon

Amelie estava usando botas marrons e uma saia justa na cor caqui que
ia até os joelhos, um suéter vermelho justo e um cachecol peludo com listras
vermelhas, pretas e douradas. Eu me perguntei como nesse mundo ela tinha
conseguido combinar tudo isso. Julgando pelo cabelo de Henry, ele não seria
de muita ajuda.

— No dia seis de fevereiro de 1971, Alan Shepard jogou uma bola de


baseball na lua. – Henry disse inexplicavelmente e deu um passo para o lado.

— E hoje é dia seis de fevereiro não é? – Millie disse claramente


entendendo a linha de raciocínio de Henry muito melhor do que eu.

— Isso mesmo. – eu disse. — Então no dia seis de fevereiro uma bola


de baseball foi arremessada até a lua e no dia sete de fevereiro de 2014, Tag
Taggert e Henry Anderson irão cortar o cabelo, certo Henry?

— Ok Tag. – Henry abaixou a cabeça e subiu as escadas.

— Me liga se precisar de mim Henry. – Millie disse do pé da escada.


Ela esperou até ouvir sua porta se fechar para se virar para mim. — Henry
tem um transtorno de apego. Ele não gosta nem mesmo se eu cortar o meu
cabelo. Se a minha mãe deixasse ele seria o maior colecionador de coisas do
mundo. Mas acumulação de objetos e ser cega não combinam. Tudo tem que
estar em seus devidos lugares ou a casa se transforma em um campo
minado. Então ele veste as mesmas roupas até que elas estejam velhas e
surradas, não corta o cabelo, ainda dorme em seu lençol do Dragon Ball X
que ele ganhou no aniversário de oito anos e tem todos os brinquedos que
109

ele já teve nessa vida estocados em caixas de plásticos no porão. Eu não


acho que ele irá mesmo cortar o cabelo. Ele só deixou o Robin fazer isso
Página
The Song of David/ Amy Harmon

duas vezes desde que a minha mãe faleceu e em ambas as vezes ele chorou o
tempo todo, então ela teve que colocar os cabelos cortados em um saquinho
plástico para que ele guardasse, apenas para que ele se acalmasse.

Eu estava levemente enojado e fiquei feliz por Millie não poder ver a
minha expressão.

— Então ele tem sacos de cabelos no quarto dele?

— Presumo que sim, embora ele não me diga onde eles estão. Eu pago
a minha vizinha para vir limpar a casa uma vez por semana e ela também
não os encontrou.

— Bem, Henry disse que sim. Então vou seguir com isso. Mas não
iremos voltar com nenhum saco de cabelo pra casa.

A testa de Millie franziu e parecia que ela queria discutir, mas ao invés
disso andou na minha direção sem sua bengala longa que estava encostado
na parede e mudou de assunto.

— Você veio dirigindo? Porque eu estou pensando que devíamos ir


andando. A igreja é logo na esquina.

Olhei a minha brilhante caminhonete vermelha melancolicamente e


então me esqueci de tudo quando Amelie enganchou seu braço no meu.

Não mais do que alguns flocos de neve dispersos que caíam nas
montanhas e congelava os vales, a cidade de Salt Lake aproveitava o mais
suave inverno que já tivemos em anos e embora as temperaturas
110

despencavam aqui e ali, em comparação com as temperaturas normais de


Fevereiro, estava praticamente ameno.
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The Song of David/ Amy Harmon

Andamos para o leste em direção às montanhas que cercavam o vale.


As montanhas foram a primeira coisa que eu notei em Utah quando a minha
família se mudou de Dallas no meus primeiros anos do ensino médio.

Dallas não tinha montanhas. A cidade de Salt Lake tinha montanhas


vertiginosas e cobertas de neve. Eu passei mais do que algumas semanas
esquiando nelas, embora eu fosse cuidadoso em quantas vezes eu esquiava
quando estava treinando. Infelizmente eu sempre pareci estar treinando.

Amelie levantou o rosto como se para absorver o sol.

— Você não consegue ver nada mesmo? – me perguntei se a pergunta


a ofenderia.

— Luz. Eu consigo diferenciar a luz da escuridão. É isso. Eu posso


dizer quantas janelas tem na casa, quando a porta está aberta, esse tipo de
coisa. A luz natural é mais fácil pra mim do que luz artificial. E a luz não
ilumina nada de mais então só é realmente bom para que eu me oriente em
um lugar fechado que tenha janelas.

— Então se eu dançar na frente de um refletor você não seria capaz de


ver a minha silhueta?

— Não. Por quê? Você está pensando em fazer pole-dance no bar? –


ela disse ironicamente.

— Sim. Caramba! Como você sabia? – eu exclamei e ela jogou a cabeça


para trás e riu. Eu admirei o comprimento de sua garganta e sua boca
risonha antes de me dar conta e desviar o olhar. Eu a encarava com muita
111

frequência.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Você é muito bonita Millie. – eu disse embaraçosamente e me senti


um idiota pela atenuação.

— Obrigada. Eu diria a mesma coisa, mas, bem, você sabe. Você tem
um cheiro bom, embora.

— A é? Eu tenho cheiro de que? – eu perguntei.

— Chiclete de menta refrescante.

— É o meu favorito.

— Você também tem cheiro de loção pós-barba de pinha e sabão

— Nova colônia chamada Sap. – eu brinquei.

— Com um toque de gasolina.

— Eu parei para abastecer no caminho. Acho que não precisava visto


que estamos andando.

— Estamos andando porque já estamos praticamente lá. – uma velha


igreja que parecia ter sido construída na mesma época que a casa de Millie,
ergueu-se do meio de um círculo de árvores no final do quarteirão.

— Há rumores de que vão demolir a igreja. Então terei que encontrar


outro lugar para ir.

Enquanto chegávamos mais perto eu podia ver que a igreja era feita
de tijolinhos claros com uma torre branca pontuda e amplas janelas no topo.
Um riacho corria ao norte da igreja e Amelie e eu atravessamos uma ponte
112

robusta que corria adjacente à estrada.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Não tem água no riacho? – ela perguntou como se já soubesse a


resposta.

— Não.

— Em breve. Somente alguns meses e eu serei capaz de ouvir os meus


dois sons preferidos de uma só vez.

— Você gosta do som do riacho?

— Gosto. Quando a primavera chega eu fico parada nessa ponte e


apenas escuto. Eu venho fazendo isso por anos.

Quando eu comecei a me afastar da grama do outro lado da ponte,


indo em direção às grandes portas duplas que eram claramente a entrada da
igreja, ela me puxou pelo braço.

— Nós não vamos entrar? – eu perguntei.

— Não. Tem uma parede de pedra. Você consegue ver?

Em frente havia uma pilha de pedras em ruínas cimentadas em um


divisor de seis metros que beirava o lado da igreja, separando-a do declive
gramado que ia até ao leito do riacho seco. Eu levei Millie até lá e ela soltou
o meu braço e fez seu caminho até o muro e sentou, acariciando o lugar
próximo a ela.

— As janelas estão abertas? – ela perguntou.

— Parece que uma está, mas bem pouco.


113

— O Sr. Sheldon sempre se lembra. Ele a deixa entreaberta para mim


quando o tempo está bom.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Você escuta daqui de fora? – eu estava incrédulo. Eu conseguia


ouvir vozes baixas de homens e então risadas como se estivesse tendo uma
reunião de sortes acontecendo por detrás da janela.

— Não. Não exatamente. – ela escutou por um segundo. — Eles


começaram mais cedo hoje. Varia. Às vezes é às onze e quinze, às vezes às
onze e meia. Eles gostam de visitar e são vagarosos para começar às vezes.
Mas eu não me importo em esperar. Esse é um ótimo lugar e quando não
está muito frio eu fico feliz de simplesmente sentar nessa parede e pensar.
Quando está quente o Henry vem comigo e nós fazemos um piquenique. Mas
ele fica entediado e eu não consigo apreciar tanto assim quando ele está
aqui. Talvez porque eu não consigo relaxar.

O piano começou a ser tocado e Millie se sentou corretamente,


inclinando a cabeça na direção da música.

— Oh eu amo essa!

Eu poderia simplesmente ficar olhando pra ela. Esse era um de seus


sons preferidos? Então as vozes aumentaram e o som saiu pela pequena
abertura e flutuou até o lugar onde estávamos sentados e eu me esqueci do
fato de que o meu paletó estava um pouco apertado nos ombros e de que
minhas juntas estavam doloridas da sessão de treinamento de ontem. Eu
esqueci de tudo isso porque o rosto de Amelie estava iluminado pelo som da
voz dos homens cantando em adoração, aveludada e suavemente, erguendo
e abaixando a voz através das notas. Não eram profissionais. Não era um
quarteto Barbershop ou os BeeGees. Havia mais vozes do que isso,
114

provavelmente vinte ou trinta vozes masculinas cantando preces.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

E enquanto eu ouvia, sentia aquilo profundamente nas minhas


entranhas.

“Não há fim para a glória;

Não há fim para o amor;

Não há fim para ser;

Não há morte acima;

Não há fim para a glória.

Não há fim para o amor;

Não há fim para ser;

Não há morte acima;”

Quando eles terminaram, Amelie recostou-se de volta e suspirou.

— Eu sou toda poder feminino, mas não há nada como a voz


masculina. Eles me acertam em cheio toda a vez. O som faz o meu coração
doer e meus ossos ficarem moles.

— São essas as palavras que você ama? É uma canção bonita. – eu


estava ainda pensando na letra.

— Eu amo essa em particular. Mas não. Não importa se eu não


pudesse entender uma palavra do que eles estão cantando e tem dias que o
Sr. Sheldon não vem ou esquece de abrir a janela e a música fica abafada,
ainda mais do que estava hoje. E eu ainda amo. Eu não consigo explicar. Mas
115

o amor é assim, não é?


Página

— É. É sim.
The Song of David/ Amy Harmon

— Você gostou? Agora você ouviu dois dos meus sons preferidos.

— Eu gostei muito. Eu queria ter colocado o meu suéter ao invés desse


paletó do caramba. Mas ei, pelo menos eu não tive que realmente entrar na
igreja.

Amelie esticou a mão na minha direção, sentindo o meu paletó até o


meu colarinho.

— Sim. Eu peguei você. Eu não posso acreditar que você aceitou vir.

— Você está vestindo uma saia!

— É. Se eu tivesse colocado calças você provavelmente saberia que


tinha algo estranho.

Fiquei em pé e a puxei comigo.

— Você é uma espertinha provocadora. Eu não sei se gosto de você


Millie Boba. – eu estava sorrindo enquanto dizia e ela riu baixinho comigo
antes de alcançar o meu paletó novamente como que dizendo para eu
esperar.

— Eu quero sentir o seu sorriso. Eu posso ouvir quando você sorri. Eu


amo o jeito que isso soa. Mas eu quero sentir. Posso? – ela perguntou
docemente.

Eu trouxe suas mãos para as minhas bochechas e as deixei ali,


deixando a as minhas mãos caírem ao lado do meu corpo.

— Você está sorrindo? – ela perguntou.


116
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Eu percebi que não estava não mais. Mas ela estava, seus lábios rosas
levemente entreabertos sobre dentes brancos, seus olhos em uma distância
que ela nunca veria. Eu sorri para ela, acomodando-a e suas mãos
imediatamente deslizaram para os meus lábios e seus dedos traçaram as
covinhas na minha bochecha. Eu sempre usei as covinhas como o meu
charme total. Quando seu dedo esquerdo deslizou para o entalhe do meu
queixo, seu sorriso cresceu ainda mais.

— Você tem covinhas nas bochechas e um furinho no queixo.

— A minha mãe me deixou cair de cara quando eu era criança. Eu sou


severamente desdentado. O que posso dizer?

— Ah. Entendi. – uma mão subiu e traçou o meu nariz. — É isso o que
aconteceu aqui também? – ela perguntou, traçando o inchaço que eu
adquiria varias vezes.

— Nah. A minha mãe não é a culpada disso. Isso é o resultado do meu


passatempo favorito.

Suas mãos se moveram para segurar meu rosto, moldando o formato


do meu maxilar e minha mandíbula. Enquanto ela descia sua mão, a ponta
de seus dedos tocaram o cabelo que cobria cada lado do meu pescoço e ela
parou de explorar. Ela passou os dedos nos cachos, pensativamente e uma
ruga apareceu entre suas sobrancelhas escuras.

— Cortes de cabelo com o Henry amanhã, né? Isso é muito fofo da sua
parte. Mas não corte tudo ok?
117

— Você gosta do look de Guerreiro Escocês? – tentei arriscar um


Página

sotaque escocês, mas não consegui muito. O meu coração estava martelando
The Song of David/ Amy Harmon

e eu queria fechar os olhos e me inclinar em suas mãos. Suas exploradas


eram eróticas sem querer ser, sensuais sem intenção sexual, mas o meu
corpo não conseguia diferenciar uma coisa da outra.

— Eu não sei. Talvez? Eu não sei como um Guerreiro Escocês se


parece. Mas eu gosto do seu rosto. É forte... cheio de caráter. E o cabelo cai
bem em você. – ela estava encarando meu rosto, descrevendo-me, embora
não conseguia me ver. Eu encarei sua boca e me perguntei o que ela faria se
eu encostasse os meus lábios nos dela. Será que isso a assustaria ou ela
reconheceria a sensação imediatamente? Ela já fora beijada alguma vez? Ela
não era tímida e era bonita. Nos seus vinte e dois anos ela deveria ter tido
sua parcela de namorados e beijos. Mas ela era cega, tinha um irmão
dependente e passava seu tempo livre ouvindo um coral de homens e o som
de um riacho.

De alguma forma eu suspeitava que ela não tinha tanta experiência


assim com homens. Ela deixou suas mãos caírem para o lado e deu um passo
para longe de mim, quase como se pudesse ouvir meus pensamentos.

— Vamos tomar um sorvete. – ela disse e eu chacoalhei minha cabeça,


acordando do devaneio, empurrando os pensamentos de beijos e
enganchando seu braço de volta no meu.

(Fim da fita cassete) 118


Página
The Song of David/ Amy Harmon

MOSES

— EU QUERIA QUE ELE me beijasse. Mas ele não beijou. E eu estava


convencida de que ele não gostava de mim daquela maneira. – Millie disse
timidamente, seu rosto corado. Eu estava esperando ela desligar o tocador
de fitas e pedir para que fossemos embora. Ouvir os pensamentos íntimos
de Tag e seus sentimentos era certamente embaraçoso e quando eu o visse
novamente eu daria um soco nele por me fazer passar por isso.

Estávamos na casa de Millie agora, parados na sala de estar para que


então ela estivesse ali quando Henry chegasse da escola. Já faziam quarenta
e oito horas desde que o meu mundo se direcionou para uma prioridade,
todo o resto foi colocado de lado ou adiado.

— O Tag foi para a igreja com você?

A voz de Georgia soava incrédula. Millie e eu colocamos Georgia a par


de tudo e sua presença me acalmava, me fazia lembrar que
independentemente de minha prioridade, independentemente do meu
medo, ela estava comigo.

Ela era minha. A parte do meu mundo que estava intacto. Ela tinha
chegado na noite anterior com a bebê Kathleen e nós tínhamos reservado
um quarto de hotel, sem querer ficar no apartamento de Tag, embora eu
119

tivesse uma chave. Havia uma placa aterrorizante de “À Venda” na janela e


Página
The Song of David/ Amy Harmon

eu não queria dormir na cama de Tag apenas para fazer uma média como
corretor de imóveis para os compradores da cidade.

O pensamento me deixou com raiva, mesmo embora a pergunta de


Georgia tivesse me feito rir. Tag e igreja não combinavam muito. O
pensamento dele sentado com um paletó, seu cabelo lambido pra trás,
ouvindo hinos com a Millie era quase impossível de se imaginar.

— Moses? – os lábios de Georgia tremeram, a seriedade da situação a


fazendo hesitante.

— Eu tive que puxar a bunda dele para dentro de dezenas de igrejas


na Europa. Eu não acho que ele alguma vez foi de bom grado, nós ficávamos
apenas olhando para os tetos e esculturas, sem corais envolvidos.

— Ele amava música. Você alguma vez o ouviu cantar? Eu amava ouvi-
lo cantar.

Millie sorriu e então seu sorriso desapareceu imediatamente como se


a realidade tivesse lhe dado um tapa e levado toda sua alegria.

— Eu ainda estou presa ao fato de que ele se voluntariou para cortar o


cabelo. – Georgia brincou, rindo baixinho, apesar de suas tentativas de ser
apropriada.

— Bem... – Millie falou. — Isso não ocorreu muito como o planejado.


120
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO SETE

TAG

Henry subiu para dentro da minha caminhonete e afivelou o cinto de


segurança com a expressão mais sinistra que eu já tinha visto. Seu cabelo
apontava para todas as direções e sua mão tremia.

— Você está okay, cara? - Perguntei tentando ser gentil.

— Quer ver Robin ao invés disso? Ela ficaria feliz com isso, Henry. -
Millie o seguiu para fora, fazendo seu caminho na calçada com um franzido
entre suas sobrancelhas escuras. Ela agora segurava a porta do lado de
passageiro. Pude perceber que ela queira ir junto, mas Henry parecia não
querer.

— Isso é uma noite dos caras, certo Henry? Homens vão ao barbeiro.
Não num salão de beleza.

Henry batia as pontas de seus dedos, nervoso, não olhando para a


direita ou esquerda.

— Soltar pipa é um esporte oficial na Tailândia! - Henry soltou.

Amelie mordeu o lábio, mas se afastou da porta.

— Tchau, Millie. Trago ele de volta. Não se preocupe. - Eu disse.


121
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The Song of David/ Amy Harmon

Ela acenou e tentou sorrir, e me afastei da calçada. As batidas de


Henry se tornaram uma cadência. Clack, clack, click, click. Soou como o
ritmo que Millie fazia com sua bengala quando entrou.

— Henry?

Sem resposta. Apenas batendo, durante todo o caminho até a


barbearia.

Fui até a loja de Leroy e coloquei a caminhonete no estacionamento.


Pulei para fora e dei a volta até a porta de Henry. Ele não fez nenhum
movimento para sair.

— Henry, você quer fazer isso?

Olhou diretamente para meu cabelo desgrenhado e bateu os dedos.

— Preciso cortar o cabelo, Henry. Você também. Somos homens.


Podemos fazer isso.

— Ben Askren, Roger Federer, Shaun White, Troy Polamalu, David


Beckham, Triple H.

— Triple H? - Comecei a rir. Henry estava listando todos os atletas de


cabelo longo. - Você está ficando desesperado, Henry.

— Larry Fitzgerald? Tim Lincecum?

— Tim Lincecum, huh? Ele joga no Giants, não é? Seu time favorito,
certo?
122

Henry não respondeu.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ah merda. Diabos. Nem queria cortar o cabelo de qualquer


maneira. Meio que acho que sua irmã gosta assim.

As batidas desaceleraram.

— Quer ir comprar uma pipa? Ouvi dizer que é um esporte oficial na


Tailândia. - Eu disse.

Henry deu um pequeno sorriso e acenou com a cabeça uma vez.

***

Fomos na Toys “R” Us5 comprar as pipas. Eles têm a melhor seleção de
coisas para diversão, e nós não queríamos perder tempo. Henry levou uns
minutos escolhendo e ficou com a pipa de LeBron James6. Eu comprei a
única vermelha que achei, que era do Elmo kite7, um monstro feliz e
vermelho me encarando, com seu rosto peludo em forma de diamante.
Henry achou isso engraçado, o que tornou isso ainda melhor.

— Eu gosto de vermelho! - Eu disse, achando graça dele rindo. —


Vamos arranjar uma para Millie também. Qual você acha que ela escolheria?

5
Rede de lojas de brinquedos.
6
Jogador de basquete norte-americano que joga pelo Cleveland Cavaliers da NBA.
123
Página

7
The Song of David/ Amy Harmon

- Me senti estúpido imediatamente. Constantemente esquecia que ela não


poderia ver e que nem eu me importava sobre o que isso parecia ser.

Mas Henry pareceu não achar que era uma pergunta estúpida e voltou
para as pipas de novo. Ele puxou uma rosa brilhante e cintilante de uma
prateleira e me entregou.

— Os árbitros da National Rugby League8 usam camisas rosa. - Disse


sério.

— Okay. Não sei o que os árbitros da National Rugby League têm a ver
com Millie. Mas boa escolha.

Quando chegamos em casa, uma hora depois de partimos, Henry


pegou todas as pipas e já estava fora da minha caminhonete antes mesmo de
eu estacionar. Ele foi correndo como se tivesse cinco ao invés de quinze
anos, quase batendo na porta, enquanto eu o seguia andando mais devagar.
Quando entrei na cozinha, Millie estava correndo suas mãos pela cabeça de
Henry com a testa franzida. Levantei uma de suas mãos e coloquei na minha
nunca, onde meu cabelo caia sobre o colarinho.

— Você estava certa. - Disse simplesmente. — Estamos muito


apegados aos nossos cabelos.

Franziu a testa, mas não deixou a mão cair. Ela enrolou seus dedos
contra meu couro cabeludo e puxou um pouco, testando o comprimento, e
fiz meu melhor para não começar a ronronar. Henry não. Deixou sua cabeça
cair no ombro dela e fechou os olhos, completamente domesticado.
124
Página

8
Campeonato do esporte Rugby League, também chamado de rugby de 13, que parece de certa forma com o
futebol americano (NFL).
The Song of David/ Amy Harmon

— Não caia no sono, Henry. Temos algumas pipas para voar.

Millie jogou a cabeça para trás e riu, suas mãos caíram para o lado do
corpo.

— Oh, você não perdeu essa sugestão-não-tão-sutil, heim?

— Nope. Entendi alto e claro. Temos para você uma rosa. Henry
escolheu.

— Ele me conhece bem. Rosa é minha cor favorita.

— Oh, sim. Por quê?

— Porque tem um cheiro. Um sabor. Toda vez que provo algo rosa me
lembro da cor. Inunda minha memória por um segundo antes de perder isso
de novo.

— Huh. Achei que você ia dizer porque adora rugby.

— Ah da camiseta rosa? - Millie perguntou.

— Henry precisa sair mais. - Respondi rindo.

— Vamos! - Henry gritou, correndo para a porta, como se isso fosse


um sério conselho.

A rua era toda arborizada, jardins pequenos, e o tráfego um pouco


lento, nos dando espaço aberto para empinar nossas pipas no ar. Voltamos
para dentro da caminhonete, Millie no meio, ficando entre o câmbio, e Henry
sentado perto da porta, praticamente pulando com entusiasmo. Moses odeia
125

meus bancos. Diz que é irritante não ter um descanso de braço. Mas Moses
não é um cara muito inteligente, na maioria das vezes. Eu nunca fui mais
Página
The Song of David/ Amy Harmon

grato por meu banco do que nesse momento, com Millie pressionada do
meu lado, com meu tríceps direito encostando contra seus seios cada vez
que eu me mexia. Ele cheirava como frutas. Morango ou melância.
Cheirando como... a cor rosa. O pensamento me fez sorrir. Ela parece como
rosa também. Rosa e suave e doce. Droga. Decidi agora então que rosa
também era minha cor favorita.

Dirigi para Liberty Park, no sul da cidade, e depois de pouco minutos


Henry teve sua pipa para fora, impulsionado LeBron James no ar.

— Ele já fez isso antes. - Eu disse em surpresa.

— Não em muito tempo. Nem consigo me lembrar a última vez na


verdade. - Respondeu. — O que ele está fazendo?

— Ouça. - Eu disse. — Consegue ouvir isso? - Escutei com ela, me


esforçando para conectar o som que ela percebeu para o visual. Então a pipa
mergulhou, capturou o vendo de novo e levantou, fazendo uma suave
cambalhota, como as lavadeiras entregando as roupas, agitando com a brisa.

— Estou ouvindo!

— É a pipa de Henry. Ele é tão natural.

— Vai me ajudar a empinar a pipa? Posso pegar o impulso correndo,


mas isso pode ser perigoso. Não quero cair de cabeça dentro da lagoa. Tem
um lago ali, não?

— Só fique longe dos sons dos patos.


126
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Em pouco tempo tínhamos nossas pipas no ar, a de LeBron James, do


Elmo e a de triângulo rosa brilhante de Millie, mergulhando e disparando,
no pálido céu da tarde.

— Afrouxe em pouco, Millie! - Gritei quando sua pipa desviou para


baixo, muito perto do chão. — A deixe voar!

Millie deu um gritinho, em pânico, mas imediatamente seguiu minhas


instruções, e sua pipa pegou impulso, se projetando e subindo mais alto.

— Posso sentir ela subindo! - Gritou, entusiasmada. Henry não era o


único natural no manejo das pipas. Ele corria para frente e para trás, com a
pipa junto, cabelo caído nos olhos e suas bochechas coradas sob o sol morno
de fevereiro.

— Se você pudesse ir a qualquer lugar, segurando a corda da pipa,


para onde iria? - Perguntei a Millie, com meus olhos no céu, pensando sobre
todos os lugares que já estive. — Ou viajar é um tipo de pensamento
assustador?

— Não. Não é assustador. Apenas irrealista. Tem vários lugares que


gostaria de ir, mesmo eu não sendo capaz de vê-los. Eu posso pressionar
minhas mãos contra paredes e me infiltrar nelas. Edifícios estão
encharcados de histórias, você sabe. Rochas também. Qualquer coisa que
esteja sujeita ao tempo. - Amelie parou, como se estivesse esperando que
achasse graça ou discordasse. Mas meu melhor amigo podia ver pessoas
mortas. Não tenho nenhuma dúvida que há muitas coisas que não
127

compreendemos. E posso aceitar isso. É mais fácil que tentar entender tudo.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— É sério! - Millie acrescentou, mesmo comigo não discutindo. —


Minha mãe levou eu e Henry para Álamo em San Antonio quando eu tinha
trezes anos. Aparentemente tinha placas por todo Álamo que dizia “Não
toque no edifício”, além de ser isolado por uma corda para você não ser
capaz de fazer nada, só olhar. O que era muito injusto se você me perguntar.
Eu olho com minhas mãos! Então minha mãe conseguiu uma permissão
especial. Ela sempre encontrou uma maneira de me ajudar a experimentar
tudo que eu podia, mesmo que isso significasse ter que achar alguém para
nos deixar quebrar as regras. Eu estava bem do lado de Álamo e encostei
minhas mãos e escutei.

— E o que ouviu? - Perguntei.

— Não ouvi nada. Mas senti alguma coisa. É difícil de descrever. Mas
senti algo como uma vibração. A maneira como suas pernas sentem quando
você está esperando o trem passar. Aquela sensação... sabe o que eu quero
dizer?

— Sei exatamente. - Eu disse.

— Sempre que viajávamos, minha mãe sempre se certificava que nós


ficássemos em hotéis com um pouco de história. Em San Antonio, tinha um
hotel chamado Fairmount. Construído em 1906. Quando andamos pelo
lugar, me senti como se tivesse no Titanic. Me senti assim por todo o hotel.
Lembra quando você disse que o mundo era mais bonito, um tempo atrás?

— Yeah. - Me senti estúpido quando disse isso, mas agora fiquei feliz
128

que eu tenha dito.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Isso é tão verdadeiro. A mobília ainda era original no Fairmount, o


lugar inteiro me fez sentir mais... madura. - Ela riu com a escolha das
palavras. — Madura é a única palavra que se encaixa. Como se tudo
estivesse cheio com história e tempo e energia. Há tanta coisa abaixo da
superfície, mas ninguém consegue ver. Ninguém a não ser eu. Ninguém mais.
E porque ninguém consegue ver, me sinto privilegiada de que pelo menos
consigo sentir isso.

— Conheço esse hotel. Foi relocado em 1985. Na verdade, escolheram


um lugar e foi movido para perto da minha rua. Minha vó era uma daquelas
senhoras ricas que era a favor da preservação de sítios históricos. Tinha um
monte de famílias ricas. Ela estava no comitê para salvar isso. Foi bem antes
de eu nascer, mas teve uma grande festa de gala em Fairmount para
celebrar o aniversário de cem anos que todos participaram. É um lugar
bonito.

— Amei isso. - Millie suspirou. — Onde mais você esteve?

— Eu já estive por todo o mundo. Vi mais nos meus vinte e seis anos
que muita gente vê na vida toda. Muito mais.

— Seus pais te levaram? - Ela perguntou.

— Não.

Ela esperou para eu elaborar, e pensei que eu deveria compartilhar.


Não era uma história feliz. Mas percebi, para meu espanto, que queria
contar para ela.
129

— Nunca pensei muito sobre viajar. Não era nem mesmo um sonho.
Página

Na verdade, eu não tinha nenhum sonho. Aos dezoitos anos, eu estava


The Song of David/ Amy Harmon

perdido, um garoto rico, que não tinha a mínima idéia de quem era ou de
que fazer com o resto da minha vida.

Millie não respondeu. Considerando que ela não podia manter contato
visual, ela era a melhor ouvinte que já encontrei. Ela me lembrou um pouco
Moses, como absorvia tudo e não perdia nada. Millie fazia isso. E eu não
tinha certeza como me senti sobre isso. Não queria ela pendurada pelas
coisas erradas, pendurando suas esperanças em algo que eu não quis dizer,
e me sentindo responsável por tudo que saia da minha boca. Eu falava a
verdade com uma camada de besteiras, atiradas só para diversão. Era o
Texas em mim, parte do meu charme. Mas eu não podia ser dessa maneira
com Millie. Eu tinha que falar exatamente o que eu queria dizer, sempre. E
nem sei como eu sabia que isso seria o certo. Mas era. E senti essa
responsabilidade nas minhas entranhas.

— Quando eu tinha dezesseis anos, minha irmã, Molly, desapareceu.


Ela era tipo a garota festa. Assim como eu. Nós dois éramos selvagens. Mas
muito próximos. Sempre cuidávamos um do outro. Ela era alguns anos mais
velha que eu, mas eu era homem, sabe, né? Ela desapareceu num quatro de
julho, e não sabíamos o que tenha acontecido com ela. Não por dois anos. E
eu me culpava. Eu cuidava dela, mas não pude a encontrar. Então afoguei
minha frustração no álcool. Pai mantinha o bar abastecido em casa, e me
aproveitei disso muitas vezes. Mas lá pelos dezoito anos, o álcool não podia
mais tocar a coceira debaixo da minha pele ou a inquietação no meu sangue.
Perdi minha irmã e estava estranhamente desconfiado que ela não podia ser
130

encontrada. - Considerei o quão longe estava indo, e acabei deixando um


monte de coisas de fora, não por vergonha, mas porque era muito puta
Página
The Song of David/ Amy Harmon

pesado para combinar com pipas. — E então conheci Moses. Moses não
tinha nada, mas Moses sabia de tudo. Ele pintava expulsando sua dor. Era
assim que ele lidava. E me deixou ficar por perto. Me deixou entrar. E me
ajudou a ver. Nenhum de nós dois tinha para onde ir. Mas eu tinha dinheiro.
Meus pais ficaram aliviados em me ver sair de cena. Já estavam cansados. De
luto. Entregaram seus cartões de créditos e lavaram as mãos.

— E apenas foi para a Europa? - Sua voz era tingida de um temor


deslumbrado.

— Fomos para toda parte. Éramos quase crianças. Crianças mesmo.


Mas ele podia pintar. Eu fazia minhas besteiras pelo caminho e nos safava,
então ele pintou seu caminho pelo mundo e por isso as pessoas compraram
suas coisas em vez de nos jogar na cadeia por vandalismo. Ele queria ver
todas as obras de arte famosas. O Louvre, a Capela Sistina, a arquitetura, a
Muralha da China. Esse era seu sonho. Então foi isso que fizemos. E quando
não podíamos conversar e botar para fora nossos problemas, brigávamos
para colocar para fora nossos problemas. Esse era o meu objetivo, sim. Eu
queria entrar na briga com alguém de cada país. Tive minha bunda chutada
por um sueco enorme, e fiz disso minha missão, chutar bundas todos os dias.

A risada descarada de Millie era como uma canção, e examinei minha


palavra me certificando que falei a verdade em cada parte. Convencido que
fiz tudo perfeito, relaxei e ri com ela.

— Axel? - Ela arriscou um palpite sobre a identidade do sueco.


131
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The Song of David/ Amy Harmon

— Axel. - Confirmei. — Encontrei Andy na Irlanda e Paulo no Brasil.


Quando abri a academia rastreei todos eles e pedi para virem trabalhar
comigo.

— Então coleciou pessoas e Moses arte?

— Algo como isso.

— Por quando tempo viajaram?

— Viajamos até encontrarmos nós mesmos.

— O que isso quer dizer?

— Moses me disse uma vez que não podemos escapar de nós mesmos.
Você pode fugir, se esconder ou morrer. Mas aonde quer que você vá, isso
vai junto. Eu era vazio por dentro durante um longo tempo. E demorou para
descobrir o que me preenchia.

— Eu entendo isso. A escuridão é muito vazia. E sempre fiquei sozinha


no escuro.

Sem pensar, estendi minha mão e peguei a sua que estava livre, o
gesto foi tão instintivo que segurei a mão dela antes mesmo de perceber o
que eu estava fazendo. Me esqueci de Elmo, a pipa e do carda. E ela também.
Por um minuto nós estávamos envoltos em lugares do passado e memórias
dolorosas. Agarrou minha mão, mas não continuou a falar, obviamente me
esperando terminar minha história.

— Ficamos viajando por mais uns cinco anos. Apenas nos movendo de
132

um lugar para o outro. E terminamos aqui uns anos atrás e finalmente senti
Página
The Song of David/ Amy Harmon

que era hora de ficar parado. Assim nossa jornada começou. E assim foi
onde terminou.

— E você se encontrou?

— Estou sempre procurando. Mas isso não é muito para mim. Sou do
tipo cara superficial.

Ela deu uma risadinha e deslizei minha mão sobre a sua, preocupado
de ter dado a impressão errada. Ela me deixou ir facilmente, mas algo
cintilou pelo seu lindo rosto, e me perguntei se eu estava sendo
completamente honesto depois de tudo.

Henry veio berrando pela grama, tentando me avisar, mas já era tarde
demais. Millie deve ter sentido falta da tensão em sua corda, pois guinchou e
tentou recuperar, se afastando de mim, enrolando e desenrolando,
esperando ter sorte e salvar a situação.

— Mayday9! - Henry gritou. Segundo depois as pipas caíram em uma


pilha emaranhada na terra.

Minha desatenção com a tarefa me pegou, e o monstrinho vermelho


acima de nossas cabeça se enroscou com a cauda da pipa de Millie no ar,
mergulhando como um cisne para baixo, levando a pipa rosa junto. Cheguei
perto demais, fui descuidado, afetando nós dois.

(Fim da fita cassete)


133
Página

9
Palavra-código para emergência, usada em todo o mundo nas comunicações emitidas por tripulantes de
aeronaves ou de navios, quando estão em situação de risco.
The Song of David/ Amy Harmon

Moses
— Nós estávamos na Irlanda. - Eu disse quando Millie não fez nenhum
movimento para mudar a fita cassete. — Tag pode farejar uma luta. Esse é
seu poder secreto. - Isso e sua capacidade de ir para cama. Mas guardei isso
para mim mesmo. Ela não apreciaria essa habilidade, embora eu tivesse a
sensação que Millie sabia exatamente quem Tag era, com os defeitos e tudo.
Mas talvez porque ela não estava distraída pela maneira como outras
mulheres olhavam para ele, ela podia ver realmente quem era Tag, e me
pareceu interessante dela insistir em chama-lo pelo seu nome, invés do
apelido que ele usava para fazer charme por todo lado.

— Nessa época teve um combate de boxe entre dois lutadores que Tag
tinha ouvido falar e queria ver a luta. Andy Gorman e Tommy Boyle. Tag já
tinha encontrado com Andy, acredite ou não, quando pintei um retrato para
a mãe de Andy. Seu pai tinha falecido no ano anterior, e sua mãe estava
muito desesperada para fazer uma conexão. Andy pensou que eu era um
charlatão, foi disso que me chamou, e nos botou para correr. Tag falou me
defendendo, como sempre, e Andy quebrou seu nariz. Então quando Tag me
disse que ele queria presenciar tudo, não fiquei muito animado com a idéia.
Enfim. Andy ganhou a luta, no entanto. E foi uma grande vitória. Ele bateu
Boyle no primeiro round. Aparentemente as pessoas não ficaram muito
felizes com isso. Andy supostamente deveria ganhar, mas devia prolongar
um pouco a luta, esconder isso. Ele devia dinheiro para algumas pessoas. E
quando não fez o que foi dito, o encurralaram num beco atrás do local e
134

espancaram ele. Advinha quem foi correndo se meter no meio da luta?


Página

Millie sorriu, mas vacilou em pouco.


The Song of David/ Amy Harmon

— Ele sempre colocava o nariz nisso. Alguém estava lutando, e Tag


sempre se metia no meio disso. Tag foi correndo para lá como se Andy fosse
seu melhor amigo e não o cara que quebrou seu nariz algumas semanas
atrás. Tivemos de deixar a Irlanda. Como isso foi estúpido. Como eram
perigosas as pessoas que Tag irritou. Mas Tag não pensa nessas coisas. Não
era importante para ele. Ele só viu cinco contra um e partiu, com punhos no
ar. Ele e Andy Gorman lutavam costas contra costas, e eu tive que entrar no
meio também. Estava com medo de Tag acabar matando a si mesmo.

— Encurtando a história? Andy Gorman e qualquer um dos caras do


ginásio devem a Tag. Todos são leais a ele, mas só porque ele foi leal
primeiro, porque ele enfiou seu pescoço por eles. Não porque pediram, mas
porque precisavam de ajuda. Esse é o tipo de propósito que se tornou para
Tag. Eu vi ele mudar, vi ele decidir viver, para lutar, para abraçar a vida. Eu
assisti ele encontrar a si mesmo.

— E agora ele se perdeu de novo. - Millie sussurrou.

— Alguma coisa aconteceu. - Argumentei.

— Ele está se despedindo, Moses. Parece que ele está escrevendo suas
memórias ou algo assim.

Millie estava certa. Isso parecia como uma nota de suicídio.


135
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO OITO

EU ENCONTREI ALGUÉM para trabalhar meio-período no bar e


comecei a treinar o Vince para gerência. Eu ainda mantive um olho em Morg,
mas talvez ele tenha encontrado uma situação melhor. Ele me deixou
perplexo. Mas a escolha era dele. Eu enviei seu cheque para o endereço que
eu tinha no arquivo e continuei fazendo malabarismo. Eu treinava para a
minha luta quatro ou cinco horas por dia e estava no bar quase todas as
noites. E eu continuava levando Millie pra casa.

Ela nunca queria ir de carro. Nem eu. As noites eram frias, mas não
muito frias, e eu mal podia esperar para que ela segurasse meu braço,
andasse ao meu lado e conversasse comigo. Eu a fazia rir e ela me fazia rir.
Ela me impressionava e eu não precisava tentar para impressionar ela.
136

Eu gostava muito dela.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Era um sentimento estranho, genuíno, gostar tanto assim de uma


garota sem tentar leva-la pra cama. Eu sei que isso é bruto, mas há uma
razão pela qual nós homens estamos sempre estimulados. Há uma razão
pela qual as mulheres tiram vantagens do jeito delas. É apenas biologia.
Biologia básica. Mas eu não estava tentando levar Millie pra cama. Eu não
tinha nenhuma intenção com a Millie. Eu apenas gostava dela. E eu deixava o
resto de lado. Eu ignorei firmemente a biologia pela primeira vez na minha
vida.

Eu me sentia relaxado com ela. E me vi continuamente falando coisas


para ela que eu não me sentia confortável em compartilhar com alguém.
Uma noite eu coloquei um casaco ao invés da minha jaqueta para leva-la
para casa e minhas mangas brancas estavam enroladas até o cotovelo, do
jeito que eu ficava sempre que estava no bar. Pela primeira vez o meus
antebraços estavam nus ao toque para a caminhada para casa e quando
Millie enganchou o braço no meu, ela sentiu a minha cicatriz.

— O que é isso David? – as pontas de seus dedos traçaram a longa


linha em alto relevo do meu antebraço direto que se estendia do meu pulso
até meu cotovelo.

— Houve uma época que eu não queria muito viver. – eu confessei


sem problemas. — Foi há muito tempo atrás. Eu me amo agora. Não se
preocupe. – eu esperei que ela risse, mas ela não riu.
137

— Você se cortou? – sua voz soou triste. Não em tom de acusação.


Apenas triste.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Sim. Eu me cortei.

— Foi muito difícil?

Sua pergunta me surpreendeu. A maioria das pessoas perguntava o


por que. Elas não perguntavam se cortar a si mesmo era difícil.

— Viver era mais difícil. – eu disse.

Ela não preencheu o silêncio com palavras e eu me encontrei na


necessidade de me explicar. Não impressionar. Apenas explicar.

— Na primeira vez que eu tentei me matar, eu segurei uma arma


apontada pra minha cabeça e contei regressivamente de dezessete até zero;
um segundo para cada ano da minha vida. A minha mãe chegou quando eu
cheguei ao número cinco. As armas foram trancadas e a combinação do
cofre mudou. Então eu recorri a um canivete. Era afiado e brilhante. Limpo.
E eu não estava com medo. Pela primeira vez em muito tempo eu não estava
com medo de nada.

Seus dedos traçaram a linha enquanto andávamos, suavemente, como


se ela pudesse esfregar a cicatriz até desaparecer. Então eu a contei o resto.

— Mas o destino interveio de novo e eles me encontraram antes de


ser tarde demais. Eles continuavam me encontrando, me salvando. Mas eu
não pude salvar a minha irmã, entende. E eu me senti desamparado. Depois
de uma semana no hospital normal eu fui transferido para uma ala
138

psiquiátrica. A minha mãe chorou o meu pai tinha uma expressão de pedra.
Eles perderam uma filha e lá estava eu tentando morrer também. Eles me
Página
The Song of David/ Amy Harmon

disseram que eu era egoísta. E eu era. Mas eu não sabia como ser diferente.
Eles me deram tudo e tudo não era nunca o suficiente. E isso era
aterrorizante. O vazio é aterrorizante.

— Foi lá que você conheceu o Moses. – ela se lembrou da conversa no


parque.

— Aham. Você precisa conhecer ele qualquer hora. Sua esposa Georgia
também. Eles são minhas pessoas preferidas do mundo inteiro.

— Eu adoraria.

— Eles têm cavalos. A Georgia na verdade trabalha com crianças meio


que como Henry. Equoterapia que se chama. Henry provavelmente ia gostar.
– me encontrei pensando na idéia. Henry fazia tudo ficar mais fácil. Henry
não se importava em passar o tempo com a Millie além de andar com ela
para casa. Ele era um amortecedor perfeito entre biologia e amizade.

Antes mesmo de me dar conta eu já estava marcando uma data para


levar Millie para conhecer o meu melhor amigo. E Henry também. Não se
pode esquecer Henry.

MOSES E GEORGIA tinham nivelado a velha casa da avó dele e em seus


pés construído uma luxuosa casa de dois andares com um enorme cercado
139

ao redor da varanda e uma entrada privada ao lado para que Moses pudesse
pintar e conduzir seus negócios sem expor sua família e clientes um para o
Página

outro. Não se parecia em nada com a pequena e triste casa que levava um
The Song of David/ Amy Harmon

passado trágico que tinha visto dezoito meses antes quando Moses e eu
andamos pela cidade em busca de respostas e arrastando fantasmas. Muitos
fantasmas. Não levou muito tempo para que eu percebesse que não queria
ficar em Levan. Não levou muito tempo para Moses decidir que ele não iria
embora. Eu não teria ficado se fosse ele. Eu teria pegado Georgia e
encontrado um novo lugar para recomeçar. Mas às vezes a historia pode ser
magnética e Moses e Georgia, a história deles, a história deles era naquela
cidade.

E Moses não era o único que tinha um trabalho para manter. Georgia
não tinha dinheiro, treinou seus cavalos e era equino-terapeuta, usando
seus animais para se conectarem com as crianças e adultos de uma forma
que ajudava seus corpos e espíritos. A terra em que ela havia crescido se
misturou com a terra da avó de Moses, a terra que ela havia deixado para ele
e eu suponho que fazia muito sentido fazer com que isso funcionasse. Moses
sempre me dizia que você não pode escapar de si mesmo. Eu acho. Eu
apenas me sentia protetor do meu amigo. Eu queria que ele ficasse seguro,
feliz e que fosse aceito e eu me preocupava que as pessoas daquela pequena
cidade de Utah já haviam o apagado de lá. Mas o que eu sabia? Os meus
amigos estavam felizes. Então eu mantive meus medos para mim mesmo.

O dia não podia ter estado melhor. Utah estava despreocupadamente


envolvente com a primavera e estavam fazendo dezesseis graus lá fora,
mesmo que não tivesse motivo para estar tão quente assim. Eu tinha dito
para Moses e Georgia que estávamos indo e Georgia estava nos esperando.
140

Em pouco tempo estávamos no curral com Millie e Henry acariciando o


Palomino de Georgia, Sackett e um cavalo chamado Lucky que era tão preto
Página
The Song of David/ Amy Harmon

quanto Georgia era justa e que a seguia com os olhos aonde quer que ela
fosse. Ela me disse uma vez que o tinha domado direito ao lado de Moses,
embora nenhum dos dois soubesse que ela estava ativamente os
dominando.

Moses ainda não se sentia confortável ao redor da maioria dos


animais. Ele tinha avançado muito, mas uma vida inteira de energia nervosa
era difícil de lidar com animais, especialmente cavalos, tendiam a refletir
inquietação. Ele e eu ficamos fora do caminho, apoiados na cerca, vendo
Georgia fazer sua mágica. Eu estava segurando a pequena Kathleen, que eu
insistia em chamar de Taglee apenas para irritar seu pai, e fazendo caretas
para ela, tentando fazê-la sorrir. Quando ela começou a bocejar Moses a
pegou de volta e a apoiou no ombro onde ela cochilou prontamente.
Ficamos escutando seus suspiros de bebê em um silêncio sociável até Moses
olhar pra mim por cima da cabeça cheia de cabelo dela, seus olhos
semicerrados, suas mãos acariciando as pequenas costas de Kathleen.

— Fala aí Mo. – eu disse sabendo que algo estava por vir.

Quando Georgia cumprimentou Millie com um aperto de mãe e um


doce olá ela sorriu para mim como se ela realmente quisesse me provocar
sobre a minha nova “amiga”, mas ela se conteve. Moses não queria provocar.
Ele aparentemente queria respostas.

— O que está rolando cara? – Moses não media as palavras. Ele nunca
media. Se você quisesse conhecer o Moses você tinha que prestar atenção,
porque ele não te dava muito. Você tinha que se forçar a entrar no espaço
141

dele e se recusar a sair quando ele tentasse te empurrar para fora. Foi isso o
Página

que eu tinha feito. Esse era o meu dom. Empurrar, lutar, apegar-se, agarrar,
The Song of David/ Amy Harmon

desgastar. Foi o que Georgia tinha feito também e ela pagou um preço. O
preço pelo amor de Moses e sua devoção era um bem alto. Mas ela pagou. E
em troca Moses a admirou e respeitou.

— O que você quer dizer? – eu fiz uma carranca para o meu melhor
amigo.

— Millie não é o tipo das garotas com quem você... Sai. – Moses
terminou a frase com uma palavra muito mais suave do que a que ambos de
nós dissemos mentalmente em sua longa pausa.

— É porque eu não estou... Saindo... Com ela.

— Não?

— Nah. Ela é uma funcionária. Uma amiga. Ela é engraçada.


Interessante. E difícil. Eu gosto disso. Eu gosto de Henry também. Ela tem
trazido ele na academia. Eu venho trabalhando nele há um tempo. Seu pai se
separou quando ele era pequeno e ele apenas absorveu isso demais.

— Você está resgatando pessoas de novo Tag?

— Eu não resgato pessoas.

— Besteira. Você coleciona causas perdidas e caridades como uma


velha mulher branca coleciona gatos. Você me resgatou. Você resgatou Axel
e Cory e até aquele pedaço de merda do Morgan que acha que está te
fazendo um favor em gerenciar seu bar. Você chama isso de Tag Team, mas
você deveria chamar de time da etiqueta de pano. Você salva todo mundo.
142

Você tem uma capa invisível. Você tem vestido ela a sua vida inteira.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu nunca te resgatei. – eu não podia discutir com o resto daquilo,


embora eu nunca tivesse pensado por esse lado.

— Sim Tag. Você resgatou.

— Nós nos resgatamos.

— Não. Eu teria te deixado se afogar cara. Essa é a diferença entre


você e eu. Pelo menos o Moses que eu costumava ser. Eu teria te deixado se
afogar para que a minha cabeça ficasse fora da água. Era tudo questão de
sobrevivência. Mas você não. Você provavelmente morreria antes de deixar
eu me afogar. Talvez isso tenha funcionado para ambos de nós afinal. Mas
você nos salvou Tag. Eu não.

— E todas as pessoas que você ajuda com a sua arte?

— Eu sou apenas um mensageiro. Você? Você é um salvador. É por


isso que você luta tanto. Você não sabe como fazer nenhuma outra coisa.
Mas essa garota não quer um salvador. Ela quer um amor. Duas coisas
completamente diferentes. A Georgia é mais como você. É por isso que eu e
ela damos certo. Mas Millie? Eu estou achando que ela é mais como eu. Ela
apenas observa. Absorve.

— Observa? – eu perguntei, meus lábios se torcendo ironicamente.

— Observa. Você não precisa ver para observar. Eu garanto que


aquela garota já sabe o tipo de cara que você é. E ela gosta do que observa.
Mas ela não quer ser salva. Eu não queria também, não pela Georgia. Eu
queria submissão.
143
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Os olhos de Moses se prolongaram em sua esposa, que estava guiando


Millie e Henry nos cavalos que ela tinha dominado e treinado com as
próprias mãos. Suas costas estavam eretas, sua voz estável. Ela era uma
jovem mulher alta com uma forma forte e magra e cabelos loiros queimados
do sol que balançavam em uma grande trança quase até sua cintura.
Submissa não estava em seu vocabulário. Mas então ela ergueu a cabeça e eu
observei seus olhos se desviarem de mim e repousarem nos de Moses,
segurando a criança adormecida deles e eu entendi o que Moses quis dizer.
Às vezes submissão significa abrir mão do orgulho, deixar que alguém tome
as rédeas, confiar o seu amor e sua vida a alguém, mesmo embora esse
alguém não os mereça. Ela tinha feito isso.

— Você quer a Millie? Você vai ter que tirar a sua capa em algum
ponto e se entregar baby. – Moses disse novamente, sua voz suave, seus
olhos suaves. — Submissão.

— Quem disse que eu a quero? – eu resisti.

— Dá um tempo cara. Você está falando com um observador. Eu te


conheço melhor do que você conhece a si mesmo. Não tenta jogar essa
merda em mim.

— Então eu tenho um melhor amigo que vê tudo isso em uma garota -


Eu não podia dizer namorada — uma garota que não vê absolutamente
nada.
144
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ela vê muitas coisas. Você que é o cego. Você é cego porque você
tem medo. E você tem medo porque já sabe que é tarde demais. E você
deveria ter medo cara. Ela não vai ser alguém fácil de amar. Ela é um pacote
de acordos. Ela e Henry. Mas que seja Tag. Você nunca foi de amar o amável.
Eu sempre fui menos amável cada vez mais e você praticamente se jogava
em mim. Eu não conseguia te sacudir pra fora. Você gosta de um desafio.
Inferno, você vive por isso.

— Eu não estou lá ainda Moses. – eu disse firmemente. — Não me


pressione.

— Disse o homem que me incentivou a ir rápido e com determinação


com a Geórgia.

— E acabou que eu estava certo, não estava? – eu ri, adorando o fato


de que eu estava certo.

— Você estava. Assim como eu estou. Você não está pronto? Justo. Mas
não a machuque.

— Agora, porque eu faria isso Mo? – ele me irritava as vezes.

— Porque você pode ser estúpido. – ele sorriu ironicamente para mim
por cima da pequena cabeça de sua filha e eu pensei onde eu poderia soca-lo
sem fazer com que ele a derrubasse.

— A mãe dela está morta. – era uma afirmação, não uma pergunta.
Moses nunca perguntava. Ele não precisava. Seu sorriso tinha sumido e seus
olhos tinham aquela expressão de quando ele estava vendo coisas.
145
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— É. – assenti. — Há um tempo. Câncer de pulmão. O pai deles foi


embora quase um ano depois que Millie perdeu a visão. Millie parece achar
que é porque ele não podia lidar em ter um filho autista e uma filha cega. Eu
não sei qual é a verdade. Mas eles não tiveram mais nenhum contato com
ele, além do dinheiro. Pelo menos ele manda dinheiro.

— Ela está preocupada com os filhos. Ela fica me mostrando a bengala


de Amelie e um livro, um livro infantil. Algo sobre um gigante.

— Eles estão bem. Eles cuidam um do outro. – eu insisti.

— Humm, – Moses murmurou e algo oleoso e obscuro travou a minha


garganta.

— Ela não está esperando nenhum deles, né Moses? – Moses disse que
os espíritos começavam a pairar sobre seus entes queridos quando estes
estavam prestes a morrer, como se esperando por eles para leva-los para
casa.

– Nah. Não se parece com isso.

Moses não ofereceu nada mais e eu deixei pra lá, acostumado com as
particularidades de Moses, com suas habilidades, acostumado com sua
relutância em expor.

(Fim da fita Cassete)


146
Página
The Song of David/ Amy Harmon

MOSES

— VOCÊ VIU A MINHA mãe Moses? – Millie me perguntou.

Eu assenti com a cabeça até me dar conta e disse em voz alta.

— Sim.

— Como ela era? – Millie perguntou e eu pude notar um tom mais de


ansiedade e saudade do que de dúvida.

— Você. Ela se parece com você. Cabelos escuros, olhos azuis, uma boa
estrutura óssea. Eu sabia quem ela era no momento em que a vi. Mas você e
Henry estavam bem ali na minha frente. Não foi difícil fazer a ligação.

Millie balançou a cabeça energicamente, como se precisasse


reorganizar seus pensamentos, reorganizar tudo que achava que já sabia.
Era sempre assim. Levava um pouco de tempo para as pessoas processar o
improvável.

— O livro, o livro sobre os gigantes. O que é? – eu perguntei, dando


algo tangível para ela se focar enquanto sua cabeça e coração buscavam
147

harmonização.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu não sei... – ela gaguejou. Suas mãos nas bochechas em


nervosismo.

— Gigantes brincando de esconde-esconde? – eu cutuquei. A imagem


na minha cabeça era um grande par de pés saindo debaixo de uma cama.

— Onde os gigantes se escondem quando brincam de esconde-


esconde? Eu não consigo pensar em nenhum lugar onde caibam seus pés. –
Millie sussurrou.

— É isso. – eu disse.

— Eles não podem se mexer debaixo da cama ou se encolher em um


armário. Eles não podem se esconder atrás de uma árvore ou deslizar para
dentro de um bolso. – dessa vez fora Georgia quem recitara as linhas e eu
olhei para a minha esposa, surpreso. — Se chama Quando os Gigantes se
Escondem. Eu costumava ler para o Eli. Ele amava. Líamos isso quase com a
mesma frequência que líamos Cálico o Cavalo Maravilhoso.

Eu senti o mesmo golpe no estômago que sempre sentia quando


pensava no meu filho. E então eu senti a paz responder, o conhecimento em
que o amor vive.

— Eu me esqueci completamente desse livro! O Henry costumava


amar ele, minha mãe e eu líamos para ele várias e várias vezes. Eu o
memorizei, na verdade, e mesmo quando a minha visão começou a falhar e
me deixou de uma vez, Henry virava as páginas e eu fingia ler.
148
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Eles podiam se esconder atrás de uma montanha, mas escalar


levava um dia inteiro. Eles podiam se esconder atrás do oceano, mas eles
podiam sair boiando. – Georgia recitou.

— Eles podiam esticar os braços e pegar a lua - Millie disse.

— E se esconder atrás das nuvens - Georgia completou a frase.

— Eles podiam andar nas pontas dos pés atrás de você, mas os
gigantes são muito barulhentos. – Millie terminou, sorrindo. — Na estória os
gigantes se escondem onde se podia ver. Eles estão em todos os lugares que
você olha, mas estão camuflados nas árvores e prédios. Em uma imagem
você achava que estava olhando para um ancoradouro e então percebia que
tinha um gigante deitado na areia. Em outra imagem o gigante tinha formato
de um avião, deitado de costas, seus braços esticados para imitarem as asas,
seus pés virados para cima para simular a cauda. É um livro de encontrar as
figuras. Você sabe, tipo Onde está o Waldo, mas ao invés de minúsculas
figuras em camisetas listradas em vermelho e branco, os gigantes eram
enormes. Mas o artista os desenhou de tal forma que eles simplesmente se
misturam nas imagens.

— Há um lugar onde os gigantes se escondem, mas eu não vou te falar.


Se quiser encontrar eles, você terá que procurar. – Georgia acrescentou. Ela
estava sorrindo, mas seu sorriso era doloroso e eu segurei sua mão.

— Quando eu fiquei cega e comecei a usar a bengala, Henry só tinha


quatro anos. Ele achava que eu estava procurando os gigantes. Ele achava
149

que a minha bengala era um rastreador de gigantes. Ele andava por aí com
aquilo com os olhos fechados, derrubando e batendo nas coisas.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Então porque você acha que a sua mãe queria que eu visse esse
livro? – eu perguntei, lembrando-me de sua insistência. — Ela ficava me
mostrando as páginas, as imagens. Ela queria me dizer algo.

— Meu pai foi embora. – Millie ponderou como se não estivesse certa
em como me responder, mas estava disposta a explorar a questão em voz
alta. — Nós paramos de ler aquele livro quando o meu pai foi embora. Ele
jogava para o time de São Francisco, então ele era um “Gigante”. – ela deu de
ombros como que para se convencer de que não tinha sido tão importante.
— Nós sabíamos onde todos os gigantes estavam escondidos no livro. Nós
os havíamos encontrado centenas de vezes. Mas nós não sabíamos onde um
gigante estava. Esse gigante desapareceu de repente. Eu me lembro de ouvir
a minha mãe ler isso para o Henry uma vez pouco depois de ele ter ido
embora. E ela começou a chorar.

Eu queria voltar atrás. Eu não queria mais falar sobre isso. Mas Millie
continuou.

— Então o Henry começou a ter pesadelos e os gigantes escondidos


não eram mais fantásticos e inofensivos. Eles eram assustadores. Ele tinha
certeza que nossas camas eram gigantes reais escondidos e que eles nos
levariam embora enquanto dormíamos. Ele achava que a porta da geladeira
era a boca de um gigante, que o caminhão de lixo era um gigante barulhento
e faminto que comia tudo pela frente. Começou a ficar ridículo até a minha
mãe banir o livro e ficou por isso. Os gigantes lentamente voltaram a ser
aparelhos domésticos e sua cama era apenas uma cama. Ele ainda não
150

gostava dos caminhões de lixo. – ela sorriu com isso e eu ri por entre os
Página

dentes. Mas não era muito engraçado. Nada disso era.


The Song of David/ Amy Harmon

— É estranho. – Millie adicionou. — Henry me perguntou há mais ou


menos um mês atrás se eu conhecia a historia de Davi e Golias. E mesmo
quando eu falei que conhecia ele achou importante me dizer que o Davi
tinha matado o Golias. Ele parecia especialmente feliz que nós tínhamos o
nosso próprio gigante assassino.

Gigante assassino ou não eu me perguntava pela primeira vez se a


mãe de Millie estava tentando comunicar a sua desconfiança em Tag. Talvez
ela já soubesse que ele iria fugir, assim como seu marido tinha fugido.
Talvez ela soubesse que seus filhos mereciam coisa melhor.

151
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO NOVE

HENRY ADORMECEU no ombro de Millie cinco minutos no caminho de


casa e conseguiu empurrá-la para o meu lado, engolindo mais do que seu
quinhão de espaço no banco para os noventa minutos que levava para voltar
para Salt Lake. Eu gostei muito. Eu gostei da sua coxa pressionar contra a
minha, meu braço descansando entre seus joelhos cada vez que eu toquei a
alavanca de câmbio, o cheiro de seu cabelo cada vez que eu olhei para seu
rosto. A conversa com Moses zombava de mim, e eu senti um lampejo de
raiva que ele tinha apelado para afastar minha amizade com ela, que ele
havia me obrigado a examinar o relacionamento. Eu não queria examinar
isto. Eu queria aproveitar.

Havíamos passado uma tarde em uma conversa agradável e um tempo


com os animais. Henry pegou os cavalos com um pouco de medo, e eu tinha
um sensação de que estávamos indo para estar recebendo um monte de
estatísticas e interessantes fatos sobre jóqueis e corridas hípicas nos dias
que virão. Georgia disse que Henry era exatamente do tamanho da maioria
dos cavaleiros profissionais, isso o fez estufar o peito para fora e andar um
152

pouco mais alto. Ele já estava perguntando quando podíamos voltar. Eu


prometi-lhe que logo e fiz uma careta para Georgia e Moses, quando eles
Página

ergueram as sobrancelhas e sorriram. Eles não foram muito sutis sobre seu
The Song of David/ Amy Harmon

fascínio com Millie, mas era impossível não ficar fascinado. Ela não havia
mostrado qualquer medo, e eu passei a maior parte do dia tentando não
olhar para ela, tentando não alimentar a curiosidade dos meus amigos.

— Como você se sentiu, sobre um cavalo? – perguntei a Millie, meus


olhos oscilando da estrada ao seu rosto e de volta.

— Como ter olhos. O cavalo sabia para onde ir e eu estava apenas para
o passeio, mas me senti bem.

— Você não estava com medo, nem mesmo um pouco?

— Claro que estava. Eu tenho medo o tempo todo. Eu estava com tanto
medo quanto na primeira vez quando perdi minha visão que por um tempo
eu sentei no meu quarto e toquei meu violão. Mas depois de um tempo, eu
percebi que se eu me permitisse estar com muito medo de fazer qualquer
coisa, que eu não seria apenas cega, assim como eu poderia estar morta. Isso
me assustou mais. A única coisa que eu posso ver sou eu, sabe? As coisas
acontecendo dentro de mim. Meus pensamentos, meus sentimentos, meus
medos, minhas falhas. Estas são as únicas coisas que eu vejo claramente. O
resto é um jogo de adivinhação. Ser cega força você chegar a um acordo com
você mesmo, eu acho.

— Vantagens de ser uma garota cega. – eu disse, e ela riu.

— Eu digo isso muito, não é?

— Você diz. E é muito legal que você diga.


153

— Bem, eu poderia listar as merdas de ser uma garota cega, mas isso
levaria o dia todo.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— As merdas?

— Sim. Todas as muitas coisas ruins sobre não ser capaz de ver – ela
disse naturalmente.

— Diga-me uma. A primeira coisa que vem à sua cabeça – eu insisti.

Ela começou a falar e, em seguida, balançou a cabeça, mordendo o


lábio. — Não.

Eu atingi-a com meu ombro, fazendo sua cabeça acenar um pouco. —


Vamos lá. Chore, baby. Chore.

Suas bochechas enrubesceram. — Não.

— Você ia dizer alguma coisa e você mudou de idéia. Eu vi isso!

— Certo. Isso. Isso é péssimo.

— O quê?

— Eu não posso ver o que VOCÊ está pensando. Eu não posso olhar
para o seu rosto e conseguir uma pista sobre o que está acontecendo em sua
cabeça. Isto é tão injusto. Eu realmente gostaria de ver o seu rosto. Apenas
só uma vez.

Nós dois estávamos em silêncio por meio segundo antes de eu


quebrar a tensão.

— Droga. Isso realmente é ruim. Eu tenho um rosto bonito – eu


provoquei, mas meu peito estava apertado e minha garganta doía um pouco.
154

Engoli em seco e ri quando ela cavou seu pequeno cotovelo afiado em


minhas costelas.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Você sabe o que é pior? – ela atirou de volta, encorajada por minha
aparente falta de empatia.

— Eu disse para você, você só podia dizer um. Nós não queremos abrir
as comportas, Millie.

Ela rosnou e continuou como se eu estivesse deixando-a louca.

— Eu não posso dirigir. Eu não posso fugir. Eu posso andar, mas isso
não é a mesma coisa que apenas ficar atrás do volante e pegá-lo. Em vez
disso, eu tenho que confiar em malvados como você para me levar a lugares.
Eu odeio isso mais do que qualquer coisa – ela bufou.

Sem aviso, eu mudo de pista e tomo a saída mais próxima a uma


velocidade bastante agressiva. Era uma saída apenas após uma pequena
cidade chamada Mona, e acelerei sob o viaduto e virei para a primeira faixa
da estrada e puxei para o lado da estrada, com um guincho de pneus. Henry
balançou em seu cinto de segurança e trocou de posição, sem acordar,
convenientemente liberando o ombro de Millie.

— Whoa! – Millie gritou, agarrando a minha coxa. — O que você está


fazendo? Nós temos um caminho a percorrer, não temos?

— Eu vou deixar você dirigir.

— O q-que? – ela engasgou, agarrando-se ao painel.

Eu ajustei o volante para criar um pouco mais de espaço, empurrei o


banco de trás, tanto quanto ele iria, o que não foi muito mais longe,
155

considerando o meu tamanho, e puxei Millie para meu colo, ignorando a luz
Página
The Song of David/ Amy Harmon

de aviso apitando em minha cabeça. Muito perto. Volte. Mulher quente no


colo. Afaste-se! Quebra de zona amiga!

— David! – ela foi pressionada de volta contra mim, com as mãos


agarrando-se, como se o que eu disse para ela fosse pular de um penhasco.

— Pare de mexer! – eu ri, e eu não pude gemer, e ela imediatamente


congelou.

— Eu peguei você, Millie. Eu tenho você. Isso vai ser divertido. Assim
como montar um cavalo com a Georgia segurando as rédeas.

— Ok, – ela guinchou, balançando a cabeça vigorosamente, sua cabeça


batendo contra meu queixo, e eu ri, impressionado mais uma vez por sua
coragem e sua confiança.

Eu coloquei suas mãos onde eu queria sobre o volante e ela passou as


mãos para baixo e para cima, como se ela nunca tivesse tocado nada
parecido. Talvez ela não tenha. Ela virou o volante para um lado e riu
nervosamente antes de ela pô-los de volta eu coloquei-os.

— Está bem?

— Sim. Ok. Bem.

— Agora, eu vou estar aqui para dizer-lhe o que fazer, e irei ajudá-la a
dirigir, se você começar a nos colocar para fora da estrada.

Eu pressionei o pedal do acelerador e, em seguida, coloquei seu pé


sobre ele e deixei-a fazer o mesmo. Eu poderia dizer que ela estava tentando
156

não sair do meu colo, seu corpo estava praticamente vibrando


Página

nervosamente, mas ela não o fez. Ela ficou ouvindo atentamente. Dei-lhe
The Song of David/ Amy Harmon

instruções básicas, e então eu a ajudei facilmente pela estrada, indo por


cerca de cinco quilômetros por hora. Ela não se moveu suas mãos, e eu tive
que puxar o volante ligeiramente para endireitar-nos para fora. E, então,
pegamos velocidade, apenas um pouco.

— Como se sente?

— Como caindo. – ela sussurrou, seu corpo rígido, os braços travados


no volante.

— Relaxe. Cair é mais fácil se você não lutar contra isso.

— E dirigindo?

— Isso também. Tudo é mais fácil se você não lutar contra isso.

— E se alguém nos vê?

— Então eu vou dizer-lhe quando acenar.

Ela riu e relaxou um pouco contra mim. Eu a beijei na testa onde ela
descansou contra a minha bochecha, e ela ficou imediatamente dura como
uma tábua mais uma vez.

Merda. Eu não tinha pensado. Eu apenas reagi.

— Eu teria dado um tapinha em suas costas, mas sua testa estava mais
perto. – eu disse lentamente. — Você está fazendo isso. Você está dirigindo.

— O quão rápido estamos indo? – ela disse sem fôlego. Eu esperava


que fosse o medo e não aquele beijo.
157

— Oh você está voando, baby. Oito quilômetros por hora. Neste ritmo,
Página

vamos chegar em Salt Lake em dois dias, minhas pernas estarão dormentes,
The Song of David/ Amy Harmon

e Henry vai querer uma volta. Dê-lhe um pouco de gás. Vamos ver se
podemos empurrá-lo para dez.

Ela apertou o pé de repente e nós atiramos para frente com um


solavanco.

— Whoa! – gritei, meus braços atirando-se para reforça-la sobre o


volante. Eu vi Henry agitar com o canto do meu olho.

— Danika Patrick foi a primeira pilota feminina da NASCAR a ganhar


uma pole position10 na NASCAR. – disse ele secamente, antes de cair de volta
para baixo em seu assento. Poupei-lhe uma rápida olhada, só para ver seus
olhos estavam fechados mais uma vez.

Millie, obviamente, ouviu-o e ela gargalhou e pressionou o pedal do


acelerador para baixo um pouco mais difícil.

— Henry só comparou você com Danika Patrick. E ele obviamente não


está alarmado que você está dirigindo porque ele já está dormindo de novo.

— Isso é porque Henry sabe que eu sou foda.

— Oh sim. Foda, Boba Millie. ‘Goin’s ninety miles and hour down a
dead-end street,’ – eu cantei um pouco de Bob Dylan, me divertindo
completamente.

— E Henry confia em você – acrescentou Millie, mais para si do que


para mim, e eu lutei contra a vontade para não beijá-la na testa novamente.
De repente eu não sentia vontade de rir ou cantar mais. Eu meio que senti
158

vontade de chorar.
Página

10Pole position é a posição de largada numa corrida automobilística. Danika Patrick, em 2013 foi a
primeira mulher a ganhar esta posição na Copa Nascar de automobilismo.
The Song of David/ Amy Harmon

***

Moses

HAVIA ALGO sobre o cheiro da academia. Tag adorava-o. Ele disse que
cheirava melhor do que o feno fresco, seios de uma mulher, e filé
combinados. E aquelas eram suas coisas favoritas. A academia de Tag
cheirava a suor, água sanitária, e uma pitada de amaciante. Eu não tinha
decidido porque o cheiro amaciante era tão proeminente até que eu percebi
que o calor e suor fez a ascensão do cheiro da roupa. Cheirava saudável,
transpirando sabão e boas intenções misturadas com uma boa dose de
testosterona e excesso de confiança. Cheirava como Tag.

Tag manteve música tocando o tempo todo, mas suas escolhas eram
interessantes, um pouco de Merle Haggard, um pouco mais de Metallica,
intercaladas com canções de Michael Jackson, Neil Diamond e The Killers,
apenas para animar as coisas. Ele tinha gostos ecléticos. Isso, e ele teve um
curto espaço de atenção.
159

Antes de Georgia ter pisado naquele elevador dezoito meses antes e


passar para dentro da minha vida, eu morava num apartamento sobre a
Página

academia e trabalhava fora, com Tag quase todos os dias. Isto foi confortável
The Song of David/ Amy Harmon

para mim, as pessoas, a atmosfera, tudo isso e quando eu entrei nas portas
dianteiras, fui recebido por todos os lados com entusiasmo e curiosidade
óbvia, o que era bastante normal para mim.

Avistei Axel trabalhar com um grupo de lutadores e vi que Andy


estava espalhado, levando socos no octógono. Enquanto me debatia qual eu
deveria interromper primeiro, meu nome percorreu a academia, e ambos
estavam desculpando-se e se aproximando de mim sem me ter fazendo uma
jogada. Mikey seguindo nos calcanhares de Axel, agarrando-se a muleta e
caindo em cima de mim como se ele procurasse respostas também. Mikey
raramente trabalhava com sua prótese, e ele era uma maravilha de uma
perna só em mais maneiras de um. Um garoto chamado Cory que era novo
para a equipe quando eu tinha casado com Georgia não estava muito longe
atrás deles.

A pergunta em seus olhos e a preocupação em suas expressões tinha a


tensão que eu estava tentando conter queimar mais uma vez. Eu não tenho
nenhuma resposta. É por isso que eu estava aqui.

— Qualquer notícia? – perguntou Mikey, antecedendo completamente


um cumprimento. Notei as pessoas ao nosso redor estavam esperando para
ouvir o que eu tinha a dizer, e eu não queria falar sobre Millie e Tag no meio
da academia. Axel pegou meus olhares laterais desconfiados e abriu
caminho para o pequeno escritório que tinha saqueado dois dias antes, na
tentativa de encontrar Tag. Mikey, Cory, e Andy não pediram permissão
para vir junto, e eu não neguei. Talvez juntos podemos descobrir alguma
160

coisa. Axel não esperou por mim para começar a reunião improvisada. Ele
Página
The Song of David/ Amy Harmon

apontou para a parede, para uma agenda para o próximo mês, que foi toda
preenchida.

— Essa é a escrita de Tag. Ele deve ter vindo aqui em algum momento
na semana passada e escreveu nela. Ninguém o viu, e eu não achei nada
disso quando falamos pela primeira vez, Moses. A programação está sempre
atualizada, sempre escrita com um mês de antecedência. Não me ocorreu
que ele poderia entrar. – Axel deu de ombros. — Isso me fez sentir um
pouco melhor. Pelo menos ele não está deitado sobre o lado da estrada em
algum lugar, entende?

Aquiesço.

— Diga a ele sobre os papéis, Axel – Andy insistiu.

Axel foi para o armário, o armário onde Millie e eu tínhamos


encontrado as fitas. Ele puxou um maço de papéis e entregou-os para mim.

— Eu tenho estes esta manhã. Certificado. Eles são do advogado de


Tag.

Examinei-os o mais rápido que pude, e então olhei para a equipe do


Tag em horror.

— Todos tem uma cópia? – perguntei.

— Eu tenho uma cópia. – Cory disse.

— Eu também. – Mikey e Andy oferecem.

Os papéis eram documentos legais detalhando a transferência de


161

propriedade da academia para Axel Karlsson, com Andrew Gorman, Michael


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Slade e Cory Mangum listado como Equipe Tag coproprietários e acionistas


com propaganda e licenciamento de direitos.

— Será que isso já entrou em vigor? – engoli em seco, procurando o


jargão jurídico para datas e detalhes.

— Não. É um processo. E eu tenho que concordar com os termos.


Todos nós temos. Mas a base está feita. – Axel respondeu, e sua expressão
dizia tudo. Ele não estava eufórico sobre sua sorte inesperada, se isso é o
que era. Ele estava arrasado.

— Que droga11 está acontecendo? – Andy grunhiu, seu irlandês tão


grosso que mudou as palavras, mas não o sentimento.

— Ninguém viu ou ouviu falar de Tag? – eu tive que tirar isso do


caminho novamente.

— Leo viu-o pela última vez, mas isso foi há quase três semanas atrás
agora. – disse Axel. Ele já me disse muito, mas uma recapitulação não faria
mal.

— Leo levou-o para o hospital para obter alguns pontos depois de ter
derrubado um bagunceiro no bar – eu resumi. — Leo também o levou de
volta para casa. Millie o viu depois disso. Ele passou a noite lá.

Os rapazes trocaram olhares.

— O quê? – perguntei.

— Nada. – disse Andy. — Nós só gostamos de Millie. Estamos felizes


162

por ele.
Página

11No original a personagem falou feck em vez de fuck, assim mesmo não se expressando corretamente
o Moses entendeu o que ele queria dizer.
The Song of David/ Amy Harmon

Aquiesço. Eu gostava dela também. Eu estava feliz por ele também. Eu


mordi de volta uma maldição e mergulhou de volta.

— Ele passou a noite seguinte lá também, de acordo com a Millie. Ela


disse que ele estava de bom humor e parecia se sentir bem. Ele não estava
excessivamente preocupado com a pancada na cabeça, aparentemente.

— Não surpreende. Ninguém leva um soco como Tag. – Cory falou,


admirando. Melancólico.

— Ele se foi antes de ela acordar. – eu continuei. — Havia uma


mensagem esperando por ela. Disse-lhe para não se preocupar sobre ele,
que ele estava saindo da cidade para ver sua família. Disse que tinha muito
tempo.

— Você ligou para a sua família? – perguntou Mikey.

— Liguei. Ele nunca apareceu lá, e ele nunca disse a eles que ele estava
vindo em primeiro lugar, então eles não estavam esperando-o.

— Ele estava indo de carro para Dallas? Isso é uma longa viagem. Dois
dias de viagem, em cada sentido. Finalmente. Muitos quilômetros para
cobrir. Você chamou a polícia rodoviária? – perguntou Mikey.

Eu balancei minha cabeça. — Sim. Mas eu acho que ele nunca teve a
intenção de ir a Dallas. Acho que ele estava apenas comprando o próprio
tempo. Esta papelada está datada seis dias atrás.

— Comprar algum tempo para fazer o que? – Axel perguntou para


163

ninguém em particular.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Comprar algum tempo para ter sua merda organizada. Para


garantir que as coisas estavam cobertas – eu disse severamente.

— Tag fez Vince de gerente cerca de três semanas atrás, e Leo foi
promovido também. Mas Vince disse que o nome de Tag não está em
qualquer lugar na agenda de exercícios mais. Ele pensou que era apenas
porque Tag estava cansado de trabalhar tantas horas. Ele estava colocando
em um grupo com Morgan fora. – acrescentou Axel.

Cory soltou uma série de palavrões que tiveram os outros que


apontam em um jarro de água já cheia de moedas de vinte e cinco centavos
marcada com HENRY na mesa de Tag. Era uma jarra de palavrões,
obviamente.

— Todo o seu salário está indo nessa coisa, Mangum. – Mikey


suspirou, embora eu tivesse a sensação de que ninguém estava indo fazer-
lhe pagar.

— Então, ninguém tem realmente falado com ele ou o visto por pelo
menos duas semanas, e Millie o viu pela última vez? – Axel reiterou,
passando as mãos pelos cabelos. Seu cabelo louro cortado não se moveu.

— Parece-me que seu advogado o viu pela última vez, – eu disse, ainda
enrolando os papéis agarrei em minhas mãos.

— Como está Millie? – perguntou Mikey. — O que ela diz sobre tudo
isso?

— Ela é uma bagunça muito composta, – eu respondi honestamente.


164

— Ela não está dizendo isso, mas eu tenho certeza que ela pensa que ela é a
Página

razão pela qual ele partiu.


The Song of David/ Amy Harmon

Cory repetiu a mesma sequência de palavrões que ele disse um


minuto antes.

— Não. – Axel balançou a cabeça. — Não. Isso não faz nenhum sentido.
Eu vi seu rosto quando Henry entrou no bar naquela noite. Foi perto de
fechar, e eu estava permanecendo na companhia de Tag um pouco. Henry
veio voando pela porta, os pés descalços, não vestindo um casaco. Ele tinha
corrido todo o caminho lá, e ele estava pirando.

— Por quê? – perguntei. Eu não tinha ouvido essa história ainda.

— Nós não sabemos. Você conhece Henry. Ele fala de esportes sem
importância. É muito duro para se comunicar com ele. Mas ele não parava
de dizer algo sobre Millie, e algo tinha, obviamente, colocado fora. Eu nunca
vi Tag parecer assim. Ele deixou Henry comigo e estava fora da porta em
cerca de dez segundos. Você não deixa uma menina que inspira esse tipo de
reação. Todos nós demos a Tag um momento ruim sobre suas mulheres.
Mas Millie é diferente.

— Millie é diferente. – Mikey concordou, aquiescendo.

Cory apenas jurou e puxou seu cabelo.

— Que droga está acontecendo? – perguntou Andy novamente. Mas


desta vez ele não parecia zangado. Ele só parecia tão perdido quanto Tag
estava.
165
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO DEZ

— MILLIE! – A CASA estava um breu. Nenhuma luz no portão,


nenhuma iluminação vindo das janelas. Eu não conseguia destravar o
portão, embora eu já tivesse conseguido fazer isso sem problemas antes. Eu
o derrubei e estava na entrada em três passos enormes, subindo as escadas
com outro passo, voando como um raio através da porta destrancada, o meu
coração tocando bateria e o som de pratos batendo na minha cabeça.

Estava tão escuro lá dentro que a escuridão me convenceu de que


quando eu encontrasse a luz eu veria algo que não queria ver.

— Millie!

Eu procurei a luz e a minha mão bateu em sua bengala, fazendo-a cair.


Se a bengala de Millie estava aqui, então ela estava aqui também. Eu
encontrei o interruptor e luz preencheu o lugar, iluminando as gotas de
166

sangue que iam da porta até o andar de cima pelas escadas, um degrau
Página

limpo e o próximo com gotas maiores.


The Song of David/ Amy Harmon

Eu estava no andar de cima, correndo pelo corredor sem saber onde


eu estava indo. Eu nunca tinha estado nessa parte da casa. Eu abri as portas,
acedendo as luzes até eu encontrar um quarto que tinha que ser o de Millie.
As paredes não tinham nada, o chão de madeira limpo, nada espalhado pelo
chão ou roupas jogadas que podiam fazer Millie tropeçar. Havia gotas de
sangue que iam até uma porta fechada do outro lado de sua cama
caprichosamente arrumada.

— Millie? – eu disse, mas saiu mais como um sussurro. Eu não podia


falar mais alto. Eu estava com muito medo. Atravessei o quarto e abri a
porta com tudo, me preparando para o pior, apenas para encontrar o
banheiro escuro, assim como todo o resto da casa. A luz do banheiro
iluminou um pequeno espaço e eu me encontrei encarando Millie
empoleirada no canto da banheira, vestindo regatas e shorts, seus cabelos
amontoados em sua cabeça como se ela estivesse se preparando para tomar
banho e não quisesse molhá-lo. Tinha sangue espalhado por toda pia e
respingos nos azulejos como uma pintura a dedo macabra. Deslizei a minha
mão pela parede ao lado da porta e liguei a luz que transformou o sangue de
tom escuro em um vermelho vivo.

Millie tinha fones de ouvido nas orelhas e sua cabeça balançava como
se ela estivesse apenas descansando ao invés de estar sangrando. Ela tinha
envolvido alguns dedos em uma toalhinha maltrapilha e estava apertando-
os bem forte. Seus olhos estavam abertos, encarando cegamente o nada e ela
167

estava completamente sem consciência de que eu estava ali.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Eu tirei os fones de ouvido de suas orelhas e ela gritou um pouco,


obviamente assustada.

— Amelie. – eu rosnei.

— David? – ela chorou, mas sua voz carregava mais surpresa do que
dor.

— Que diabos você está fazendo?

— Que diabos VOCÊ está fazendo? – ela atirou em volta,


imediatamente igualando o meu tom nervoso.

— A casa está um breu, há uma trilha de sangue por toda a escada até
aqui, esse banheiro faz parecer que você tentou se suicidar e você sentada
aqui tranquila ouvindo o seu iPod.

— Eu cortei o dedo. Eu não acho que está tão ruim assim. Está
latejando um pouco, mas é só isso. Estava sangrando muito então eu estou
apenas esperando parar um pouco para colocar um band-aid.

— Deixe-me ver. – ajoelhei-me em frente dela e tirei a toalhinha que


envolvia seus dedos. O sangue imediatamente começou a escorrer, mas não
antes que eu desse uma boa olhada na ferida na parte carnuda da ponta de
seu dedo indicador. — Foi bem fundo, mas você pode colocar um band-aid
se não tiver medo de ficar com uma pequena cicatriz. – eu envolvi seus
dedos novamente com força e a instrui a deixa-los levantados. — Onde estão
os curativos?
168
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu acho que tem alguns no armário acima da pia. Eu não consegui


encontrar nenhum. Mas eu não procurei muito. Estava sangrando muito e eu
queria que parasse antes que eu fizesse uma grande meleca. Henry odeia
sangue e eu não queria acordá-lo.

— Tarde demais.

— O quê?

— Você o assustou pra valer Millie. Henry foi até o bar de pijamas,
balbuciando alguma coisa sobre sangue e o número de pontos em uma bola
de baseball. Ele estava completamente apavorado. Eu achei que algo terrível
tinha acontecido com você. Eu não sabia o que iria encontrar. – De repente
eu senti o banheiro girar e sentei no vaso sanitário antes de desmaiar e criar
um outro tipo de emergência.

— O Henry? – ela perguntou estupefata. — Eu pensei que ele estava


dormindo! Eu não o escutei. Eu estava...

— Ouvindo música? – eu lati.

— Sim! Não é um crime Tag. Eu estou na minha própria casa! Eu não


tenho que me explicar para você! E a minha casa está sempre um breu
quando o Henry está dormindo! Eu sou cega, esqueceu? Eu não preciso das
luzes acesas! – seu lábio inferior tremeu e eu gemi.

— Droga Amelie. Não chore coração. Eu estava assustado. Ok?

Assustado era o mínimo para se dizer. Fiquei em pé e abri o armário


169

de espelho acima da pia. Eu podia ver onde Amelie tinha procurado pelas
digitais de sangue e os respingos nos itens que estavam derrubados nas
Página
The Song of David/ Amy Harmon

pequenas prateleiras. Havia três band-aids soltos na prateleira superior e eu


os puxei agradecido, fechando o armário com uma promessa mental de lavá-
lo quando eu tivesse terminado o curativo de Millie.

— Onde está o Henry agora? – ela perguntou silenciosamente.

— O Axel estava no bar. Ele gosta de Axel então eu o deixei com ele até
que eu pudesse ver o que tinha acontecido. Você me assustou pra caramba
Amelie. – digitei uma mensagem no meu celular, um breve texto para Axel
dizendo que Millie estava bem e que eu iria voltar para buscar Henry em
breve.

— Você está me chamando de Amelie porque está bravo? Você não é a


minha mãe Tag. Eu sei que pareço estar mal, mas eu sou completamente
capaz de lidar com essa situação. Eu já me cortei antes e eu tenho certeza de
que irei me cortar novamente.

— Shh Millie. Eu não estou bravo. Eu não estou bravo. Apenas... vem
aqui. – eu a peguei no colo e a posicionei em frente à pia, fazendo um
curativo em seu dedo. Havia sangue escorrido pelos seus braços e um pouco
em suas pernas também. Eu molhei a toalhinha que ela tinha usado para
estancar o fluxo de sangue, torcendo-o até que a água quente escorresse
limpa. Então a usei para gentilmente limpar o sangue de suas mãos,
tentando não notar a forma com que sua pele se arrepiava, eu continuei em
seus antebraços e então subi limpando um respingo em seu ombro
esquerdo e uma mancha em seu queixo. O banheiro era pequeno, o ato,
íntimo e a frustração e medo eu senti desaparecer junto com as manchas de
170

sangue. Eu continuava molhando a toalhinha para que ficasse quente sobre


Página

a pele dela e quando eu ajoelhei para limpar seu pé, ela colocou as mãos nos
The Song of David/ Amy Harmon

meus ombros para se equilibrar enquanto eu levantava um pé e o lavava e


então fazia o mesmo com o outro. Eu parei para limpar e aquecer o tecido
antes de subir pela perna dela e descer pela outra, senti seus dedos
agarrarem a minha camiseta, fazendo o meu estomago se apertar. Eu
continuei até que cada centímetro de sua pele estivesse rosada com o calor
da toalha e levemente úmida e quando eu terminei, desejei que não tivesse
terminado. Eu não podia fazer nada sobre o sangue em sua regata preta ou
em seus shorts rosa choque que combinavam com as unhas de seu pé.
Toquei uma unha com o meu polegar.

— Como você faz isso?

— O quê? Pintar as unhas?

— Sim.

— Prática.

— Então você combinou os shorts com as unhas de propósito? – olhei


de volta para ela para ver sua resposta.

— Mas é claro. – ela sorri, mas sua voz era quase como um sussurro,
quase como se ela também estivesse com medo de dissipar o ar carregado
que zunia ao nosso redor. Fiquei em pé deixando apenas alguns centímetros
de distância entre nossos corpos.

— Por quê? – isso parecia tão sem importância, tão insignificante


fazer algo que devia cobrar muito esforço. E ela nem mesmo podia ver o
resultado.
171
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— É sobre as pequenas coisas... Você não aprendeu sobre isso,


garotão? – ela disse garotão da mesma forma que eu tinha dito coração.

— Quando a sua mãe morreu Millie?

A minha voz era suave, até mesmo mais suave do que as minhas mãos
tinham sido ao limpar o sangue do corpo dela.

— Quando eu tinha dezoito anos. Ela já estava doente havia dois anos.
Mas ela sabia que tinha que ser forte até o fim. Eu tive que ser emancipada
para poder ser a guardiã legal de Henry.

— Então quem toma conta de Millie? – eu sussurrei.

— Eu não preciso que ninguém tome conta de mim Tag. – ela


sussurrou de volta — Eu venho tentando te dizer isso.

— Precisar e querer são duas coisas diferentes. – eu engoli uma vez,


tentando me convencer que eu não queria o que eu queria muito, muito
mesmo. Quando eu permaneci imóvel, Millie deu um pequeno passo para
frente e cuidadosamente envolveu seus braços ao redor da minha cintura. O
meu coração estava martelando no peito e ela apoiou sua bochecha contra
ele, escutando. Eu não podia esconder dela. Ela era cega e ainda enxergava
todas as drogas das coisas. Quase quanto cuidadoso eu envolvi os meus
braços ao redor dela também, espontaneamente, gentilmente, as minhas
grandes mãos apoiando suas costas.

— Eu posso te perguntar uma coisa Tag? – sua voz estava lamentosa e


pequena, como se ela estivesse falando para o meu coração que estava
172

diretamente na altura de seus lábios. Ele martelou em resposta e talvez


Página
The Song of David/ Amy Harmon

tenha sido o suficiente. Talvez tenha sido mesmo porque ela não esperou
para que os meus lábios respondessem.

— Você tem medo de me beijar?

— Porque eu deveria ter medo? – eu estava apavorado.

— Porque beijar uma garota cega é quase como roubar de um


mendigo ou mentir para um padre, você não sabia? Como bater em uma
criança ou afogar um gatinho? É um desses pecados imperdoáveis. – eu
praguejei sob minha respiração, meio com vontade de rir da sua audácia,
meio com raiva dela ser tão astuta. — Ou talvez você ache que é como puxar
aquela pequena linha solta e acabar desfazendo o suéter inteiro. Uma dessas
coisas que é inocente, mas que tem sérias consequências.

— Não é isso Millie. – eu menti.

— É isso sim Tag. E não me insulte, assumindo que eu deva precisar de


alguma garantia só porque não posso ver. Se eu fosse qualquer outra garota,
você teria arrancado e jogado minhas roupas no chão a essa altura. É um
beijo Tag. Não uma promessa assinada com sangue. Um beijo.

Quando eu gentilmente a afastei de mim, forçando-a a erguer sua


cabeça de meu peito, eu pude ver a dor passar pelo seu rosto e suas
pálpebras se fecharam como se para proteger algo que já estava perdido.
Mas ela entendeu errado. Eu estava criando espaço para me mover, não me
distanciar. Deslizei meus dedos ao longo dos lados de seu rosto, segurando-
o em minhas mãos e encostei meus lábios nos dela. Ela segurou meus
173

pulsos, um pequeno o se formando em sua boca antes de eu o engolir,


Página

adicionando isso ao medo que ainda cantarolava em meu peito.


The Song of David/ Amy Harmon

Seus lábios eram suaves, sua boca era levemente doce e por alguns
segundos eu estava consciente de todos os pequenos detalhes, o raspar do
meu queixo com a barba por fazer em sua bochecha macia enquanto a
minha boca sussurrava sobre a dela, o sedoso calor de sua respiração
engatando em antecipação, uma mexa do cabelo dela fazendo cócegas no
meu rosto enquanto eu aplicava uma gentil pressão em seus lábios. E então
ela se inclinou para mim voraz, pedindo mais e os detalhes ficaram turvos
com a inebriante experiência de desejar e ser desejado.

Meu estômago se apertou e minhas mãos deslizaram do rosto para a


cintura dela antes que os meus braços abraçassem sua forma esguia,
apertando-a firmemente, tentando desesperadamente não perder o
controle, tentando valentemente me manter indiferenças emocionais
enquanto o meu corpo acenava a bandeira branca. E então os meus
pensamentos foram vencidos pela sensação e eu não pensei com clareza em
mais nada.

Millie não tinha apenas me beijado, ela me traçou, segurando o meu


rosto em sua boca como se as pontas de seus dedos entrassem na minha
pele, o esfregar de seus dedos e sua boca mandando embora a minha
resistência, penetrando na minha pele até que eu estava arquejando sobre
seus lábios, a minha língua se emaranhando com a dela, seus pés deixando o
chão conforme eu a pegava no colo. E eu desejei com urgência suas pernas
em volta de mim na tentativa de ficar mais perto dela do que já estava, e ela
aquiesceu, suas pernas se envolvendo ao meu redor tão firmemente quando
174

meus braços a seguravam. E então eu estava tropeçando para fora do


banheiro, segurando-a em meu colo, em mim, levando-a como uma criança a
Página
The Song of David/ Amy Harmon

quem eu estava desesperada em proteger, beijando-a como uma mulher que


eu de repente estava obcecado em ter e caindo sobre a cama dela como se as
minhas pernas tivessem sido atiradas abaixo de mim.

Minhas mãos deslizaram por debaixo da regata dela, apalpando a pele


acetina de seu abdômen antes de tirar sua regata suja de sangue pela
protuberância de seus seios e pela sua cabeça, tirando minha boca da sua
para que isso fosse possível, tirando os grampos de seu cabelo que caiu em
ondas escuras sobre seus ombros e ao redor de seu rosto, uma piscina
escura contra o branco reconfortante. E a minha respiração ficou presa no
peito. Minhas mãos se acalmaram e meu coração disparou batendo
fortemente contra minhas costelas.

Levantei-me e sai de cima dela, apoiando-me com as mãos ao seu lado


para que eu pudesse olhar a garota embaixo de mim. Cabelos escuros, pele
suave, seios fartos. Eu engoli com dificuldade, a garganta fechando com uma
emoção que mais parecia amor do que luxúria. Seus olhos estavam fechados,
seus lábios partidos, esperando que eu voltasse. Ela não se cobriu ou me
tocou. Ela apenas esperou.

Uma porta se abriu com um estrondo no andar de baixo.

— Tag! – Axel berrou. Millie deu um pulo e eu já estava do outro lado


do quarto abrindo as gavetas, procurando uma camisa limpa para cobrir o
que eu acabara de deixar nu. De repente ela estava ao meu lado, gentilmente
me empurrando de lado e pegando o que eu estava procurando sem se
atrapalhar.
175
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Tag! – Axel soava desesperado e eu me perguntei se ele estava


tentando segurar um Henry em pânico. — Henry precisa ver se você está
bem Millie.

Mas ela já estava passando pela porta do quarto, se movendo com


tanta precisão e propósito que eu fiquei maravilhado por um instante antes
de chacoalhar a minha cabeça e a seguir para fora do quarto.

Axel e Henry estavam em pé na base da escada, Axel segurando Henry,


tentando confortá-lo e contê-lo. Quando eles viram a mim e a Millie acima
dos degraus, Axel soltou Henry praguejando em escocês, aliviado. Henry
subiu as escadas correndo em direção a irmã, que ouviu seus passos e se
preparou, abrindo os braços para envolvê-lo em um abraço quando ele se
arremessou contra ela.

— Eu estou bem Henry. Eu estou bem. Eu apenas cortei o dedo. Você


deveria ter falado comigo Henry, antes de sair correndo de casa a essa hora
da noite! Eu nem mesmo sabia que você estava acordado. Você deveria ter
esperado eu me explicar.

— Uma bola de baseball tem exatamente 108 pontos. – Henry


sussurrou e enterrou o rosto no ombro da irmã.

— Eu não preciso de pontos Henry. Eu estou bem. Prometo. – ela


passou a mão em seu cabelo emaranhado e o segurou forte.

— Então está tudo bem? – Axel apoiou o peso na outra perna e


colocou a mão na maçaneta da porta como se a aflição de Henry o tivesse
176

desgastado. Eu desci as escadas e estendi a mão para o meu amigo.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Sim Axel. Obrigado. Eu te devo uma cara.

Axel assentiu e apertou a minha mão, o alivio ainda evidente em seu


rápido sorriso.

— Eu não consegui convence-lo de que estava tudo bem.

— Tudo bem. Ele tem passado por maus bocados. Ele não tem
nenhuma razão para esperar boas notícias, pobre criança. – eu disse com a
voz baixa para que somente ele ouvisse. Axel assentiu novamente e,
soltando a minha mão, saiu pela porta se despedindo de Henry que levantou
a mão, mas não moveu a cabeça do ombro de Millie.

Deixei Henry no consolo de Millie e saí para buscar panos e


desinfetante, determinado a limpar a casa de manchas de sangue e
memorias ruins. Me joguei na limpeza da cozinha, esvaziando e
preenchendo a maquina de lavar louça enquanto estava lá. Então segui a
trilha de sangue pela escada, pelo quarto de Millie e pelo banheiro, tentando
não pensar no que teria acontecido se Axel não tivesse chegado com Henry.
Eu conseguia ouvir os sons da voz de Millie misturado com comentários da
ESPN saindo de dentro da porta do quarto do Henry e chegando até minhas
emoções confusas enquanto eu esfregava a pia e pegava uma escova de
dente do chão do banheiro. Removi os conteúdos do armarinho espelhado
acima da pia, tomando cuidado para lembrar a disposição exata em que
estavam organizados para que eu pudesse coloca-los no mesmo lugar,
permitindo que Millie localizasse tudo quando eu tivesse terminado.
Terminei por limpar pra valer o vaso sanitário e chuveiro.
177
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Está cheirando a pinho sol e seiva aqui. – Millie estava parada na


porta, sorrindo suavemente.

— Ah. A minha fragrância assinada. – brinquei, embora parecesse sem


graça. Eu tinha deixado o meu humor lá no bar, o abandonado quando
Henry entrou cambaleando pela porta de pijama e eu não tive a chance de
recupera-lo de volta. Fiquei em pé lavando as mãos, mas não me virei.
Minhas mãos estavam vermelhas da faxina, mas meus nervos estavam a flor
da pele e eu não confiava mais em mim mesmo próximo a Millie nesse
momento.

— Henry está bem? – eu perguntei.

— Sim. Henry está bem. E você? – sua voz estava tímida. Eu não
respondi de imediato e ela me esperou, escutando eu lavar as mãos e
desligar a água antes de finalmente responder.

— Quando a minha irmã desapareceu eu ficava pensando que um dia


eu voltaria para casa e ela estaria lá. Apenas um mal entendido. Um
pesadelo. – encontrei seu reflexo no pequeno espelho oval, meus olhos
segurando seu rosto antes de eu me forçar a desviar o olhar. Hoje eu tinha
me sentido como o velho Tag. O Tag de dezesseis anos de idade que perdeu
a irmã e não pôde salvá-la. — Estou feliz por Henry estar bem. – eu estava
feliz que a irmã de Henry estava bem também. Ridiculamente,
dolorosamente, gratamente feliz.
178
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Senti a mão de Millie tocar minhas costas, tentativamente,


procurando-me e então ela deslizou os braços ao redor da minha cintura e
apoiou sua cabeça contra mim.

— Obrigada David. Eu não sei por que você é tão bom pra gente. Mas
você é. E eu não vou questionar isso. Eu vou ser apenas grata. – senti a
pressão de seu corpo contra minhas costas enquanto seus braços se
apertaram ao meu redor brevemente. Então ela deu um passo para trás,
soltando-me e eu me entreguei ao desejo que me incendiou como um
maçarico, apenas para praguejar pelo calor, virando-me para ela, fechando a
porta e a empurrando contra ela.

— Droga Millie! – eu rosnei em seu cabelo. — Porque você tem que ser
tão doce droga? – meus lábios estavam em sua testa, em sua bochecha,
esfregando o nariz em seu pescoço antes de encontrar sua boca e eu me
esquecer de ser gentil.

Ela se igualou ao meu fervor, mordendo meu lábio inferior antes que
eu lambesse o interior de sua boca e senti um tremor percorrer seu corpo.
Eu queria sentir sua pele nua na minha, deitá-la no chão e jogar nossas
roupas pro lado, mas eu contive minhas mãos acima da sua cabeça ao invés
disso, segurando a porta para que eu não a tocasse, para que eu não
começasse algo que eu não me importava em terminar. E eu terminaria se
eu começasse. Se eu a visse deitada em baixo de mim outra vez, seus cabelos
espalhados ao redor de sua cabeça e corpo, suas mãos me puxando para ela,
eu terminaria. E eu não podia chegar lá. Ainda não. Talvez nunca. Porque,
179

nem preciso dizer, insulto ou não, Amelie Anderson, linda, corajosa, e


Página

fodidamente CEGA, não era o tipo de garota com quem você cedia por
The Song of David/ Amy Harmon

diversão. Ela não era o tipo de garota que você brincava. Eu tinha flertado.
Eu tinha. Mas eu não tinha prejudicado. Ela disse que não precisava de
garantias, mas com toda a certeza do inferno ela precisava. Com toda a
certeza do inferno ela merecia isso. E eu não tinha chegado lá ainda. O meu
corpo sim. O meu corpo tinha chegado lá inúmeras vezes. O meu corpo
estava correndo em círculos em volta do meu coração, furioso comigo,
zombando de mim, suplicando para que eu seguisse com o programa.

Mas tão ridiculamente, gratamente e dolorosamente feliz quanto eu


estava por ela estar bem, eu não tinha chegado lá ainda.

Afastei minha boca e enterrei meu rosto em seu cabelo.

— Você é virgem Millie? – eu perguntei, minha voz rouca, minhas


mãos ainda apoiadas acima da cabeça dela.

Ela congelou, as mãos que estavam aninhadas no meu peito de


repente caindo de volta aos seus lados.

— Você é? – ela perguntou formalmente.

Eu meio ri, meio rosnei pela sua insolência e beijei o topo de sua
cabeça. A risada fez a bola de tensão no meu estomago explodir e eu exalei
aquilo em um longo suspiro.

— Não Millie. Eu não sou virgem. Não sou há muito tempo. Você é? –
eu repeti a pergunta.

— Não.
180

— Você está mentindo. Você tem uma pequena ruga entre as


Página

sobrancelhas e está mordendo o lábio. Esses sinais te entregam.


The Song of David/ Amy Harmon

— Me entregam?

— Sim. Nunca jogue pôquer coração. – dei um passo para trás, meus
braços pendendo para o lado, imitando a postura dela. Eu puxei Millie para
frente para que eu pudesse abrir a porta em que ela ainda estava apoiada.

— É quase duas horas da manhã. Eu preciso ir antes de ficar


desatento. Eu vou dar boa noite para o Henry e vou pra casa.

As costas de Millie se enrijeceram e seu queixo se ergueu levemente,


outro sinal, mas ela me seguiu sem nenhuma outra palavra. Eu a tinha
constrangido, mas eu não podia fazer nada sobre isso, então segurei minha
língua e mantive minhas mãos contidas. Enfiei a cabeça no quarto de Henry
apenas para encontra-lo adormecido, espalhado pela sua cama estreita, em
seu rosto o reflexo das luzes da TV que estava na parede oposta.

— Os Gigantes de São Francisco ganharam a Liga Mundial de


Campeonatos de 2012! Os Gigantes levaram todas! – o narrador berrava e
eu me dei conta de que estava vendo uma reprise. As ligas de baseball
tinham acabado há tempos. Eu me perguntei se Henry esperava olhar um
relance de seu pai, aluno dos Gigantes, uma das luzes mais brilhantes do
baseball. Muito triste ele ser um cuzão. Muito triste que Henry ainda se
importava.

Fechei a porta suavemente e fiz o meu caminho pelas escadas,


repentinamente cansado, meus músculos doloridos, meu pescoço rígido,
minha mente cheia.
181
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ele nunca, jamais contatou vocês? Nem mesmo depois que a mãe de
vocês faleceu?

Millie sabia sobre quem eu estava me referindo, embora eu tivesse


feito a pergunta sem me especificar. Ela deu de ombros como se isso não
importasse muito para ela.

— Não. O advogado dele ligou uma vez verificando se eu e Henry


ainda estávamos aqui. Verificando se eu era a guardiã legal de Henry. Depois
disso o dinheiro dobrou. Ele envia apenas dinheiro. Mês após mês nós
recebemos um cheque. Eu tenho certeza que isso o faz se sentir melhor com
ele mesmo. Algumas pessoas não conseguem lidar com isso, você sabe. A
decepção, a bagagem, a responsabilidade que vem em ter filhos com
deficiências. Ele não conseguiu. – a voz de Millie estava fria e sua postura
estava reta como uma tábua.

— Hum. – Inclinei-me e beijei sua testa. — Boa noite Millie. – eu saí da


casa e estava no meio da rua quando me dei conta de que Millie
provavelmente pensava que eu era uma dessas pessoas, das pessoas que
não conseguem lidar com isso.

182
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO 11

MOSES

Eu nunca conheci meu pai. Nunca conheci minha mãe, se for falar a
verdade. Eu sabia quem ela era embora. Sabia seu nome, sua vida, família,
pontos fracos. Seu nome era Jennifer Wright, cabelos loiros, olhos azuis,
garota branca com vício em crack. Ela me teve, ela me deixou, e ela morreu.
Tivemos um relacionamento de três dias que não incluíram troca de
informações importantes, e ela era a única que sabia quem meu pai era. Ele
tinha pele escura, que herdei bastante, e isso era tudo que eu tinha.

Às vezes me perguntava sobre ele. Onde estava, quem era, e como


estava. E me perguntava se ele tinha alguma pista sobre ter um filho. Me
perguntava se ele gostaria de ser avô. Se gostava de pintar. Se é parecido
comigo. Eu me perguntava. Acho que isso é apenas da natureza humana.

Millie sabia quem seu pai era. Ele sabia quem ela era. Sabia onde
estava. Mas ele escolheu se distanciar dela e de seu filho, e me perguntei se
isso não seria pior. O mais provável é que meu pai nem tinha a menor idéia.
Mais provável que não tinha escolhido me abandonar. Eu poderia dar a ele
pelo menos o benefício da dúvida. Henry e Millie não tinham esse luxo.

Pisei para fora da sala quando Tag desceu correndo pela casa,
183

seguindo um rastro de sangue. Isso fez minhas mãos coçarem e minha nuca
quente, suas descrições e sentimentos me lembraram do tempo que
Página

caminhei pela minha própria casa para encontrar a tragédia que se atingira.
The Song of David/ Amy Harmon

Além disso, eu tinha notado o calor na pele de Millie e a maneira como seu
dedo pairou sobre os botões do gravador, como se estivesse se preparando
dar stop quando as coisas ficassem pessoais demais. Georgia me seguiu do
quarto, embora Millie deve ter nos escutado, e não parou. Até Henry
desocupou a sala com a gente, nos arrastando para a cozinha. Ele não disse
nada sobre a ausência de Tag, sem questionamentos, e me perguntei o
quanto Millie disse a ele. E não estava ouvindo as fitas de Tag. Quando não
estava na escola, se sentava com fones de ouvido na cabeça, ouvindo
podcasts12, assistindo vídeos do youtube, ou no seu quarto jogando Xbox, se
encasulando em suas próprias atividades.

— Os pesquisadores descobriram que a ingestão de comida saturada


aumenta dezesseis por cento entre fãs de esporte após seu time perder um
jogo importante. - Henry disse com naturalidade assim que abriu o freezer e
olhou para o grande pote de sorvete. Não tinha certeza se ele estava apenas
puxando conversa, fazendo uma declaração sobre perda, ou se estava
apenas com fome.

— Você precisa jantar? Poderíamos pedir uma pizza ou algo assim. -


Me voluntariei.

Henry inclinou a cabeça para a panela de barro em cima do balcão, e


notei tardiamente que a cozinha cheirava a tempero apimentado.

— Amelie fez Chili. Com vários pimentões. Fãs da Liga Principal de


Beisebol consomem aproximadamente dez milhões de Chili dogs por ano.
184

12
Página

É uma forma de transmissão de arquivos multimídia na Internet criados pelos próprios usuários. Onde
disponibilizam listas e seleções de músicas ou simplesmente conversam. Pense no podcast como um blog, só que
ao invés de escrever, as pessoas falam.
The Song of David/ Amy Harmon

— Bem, Kathleen está com fome e chili dogs não estão no seu menu. -
Georgia replicou, colocando Kathleen no assento sobre o balcão e cavocando
um saco transbordando por todos os lados, procurando algo para alimentá-
la. Kathleen soltou um berro de impaciência.

Henry fechou a geladeira na frente da tentação de sorvete e pegou


uma pilha de tigelas do armário. Fomos claramente convidados para o
jantar. Ele pegou bolachas e creme de leite da geladeira, e foi organizando as
coisas, roubando olhares de Kathleen enquanto ela se queixava e ganhou
impulso.

— Kathleen não se parece com você. - Henry disse de repente, me


encarando.

— Uhh não. Não parece. Não mesmo. - Gaguejei, não sabendo mais o
que falar.

Sem outra palavra Henry se virou e saiu da cozinha. O ouvi subir


correndo as escadas e virei para olhar Georgia, que encontrou meu olhar
com perplexidade.

— Ouviu isso, mulher? - Perguntei a Georgia. — Henry não acha que


Kathleen se parece comigo. Você tem algo a me dizer?

Kathleen gritou novamente. Georgia não estava se movendo o


suficiente com seu pote com bananas que fez. Georgia deu um sorrisinho e
me mostrou a língua, e Kathleen berrou. Georgia rapidamente mergulhou
uma pequena colher na gosma amarela e começou a alimentar a sua
185

pequena besta, que choramingou assim que começou a devorar.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ela pode até não se parecer com você. Mas definitivamente tem sua
disposição ensolarada. - Georgia zombou, mas se inclinou para mim quanto
deixei cair um beijo em seus lábios. Não machucou nada meus sentimentos
que minha garota bebê de covinhas se parecia mais com a mãe.

Ouvi Henry trovejando de volta pelas escadas e puxei meus lábios da


boca macia da minha esposa quando ele entrou na cozinha segundos depois.
Ele parou do meu lado.

— Vê? - Ele segurava uma foto em sua mão, e acenou para meu rosto.
— Não me pareço com meu pai também.

Peguei a foto de sua mão e estudei. Estava desgastada nas bordas e


tinha perdido o brilho, como se Henry tivesse a manuseado várias vezes. O
homem da foto era familiar para mim da maneira como figuras de esportes
são familiares para muitos. André Anderson era bastante conhecido e
admirado. Estava parado sorrindo para a câmera com um pequeno Henry,
talvez com três anos, apertado em seus braços. Ele parecia feliz e relaxado, e
ele e Henry usavam camiseta e bonés dos Giants combinando.

— Você está certo. Você e Millie se parecem mais com sua mãe. - Disse,
entregando a foto de volta. Eu não gostava de fotos. Fotos raramente dizem
a verdade. Elas eram como lascas de ouro no isopor, fazendo as coisas
parecerem brilhantes e luminosas, disfarçando a fragilidade por baixo. Uma
foto pode valer mais que mil palavras, mas ainda assim não valiam porra
nenhuma.
186

— Isso porque passamos mais tempo com ela. - Henry disse sério,
como se fosse um conhecimento comum, como se as semelhanças fossem
Página
The Song of David/ Amy Harmon

baseadas na criação ao invés da natureza. Era verdade, até certo ponto.


Manias, gestos, estilo. Todas essas coisas podiam ser copiadas e aprendidas.

— Então se eu passar mais tempo com Kathleen, você acha que ela vai
começar a se parecer comigo? - O perguntei, tirando o foco para longe da
foto do pai.

Henry olhou desconfiado para mim pelo meu grunhido.

— Espero que sim. - Disse.

Georgia riu e vaiou e segurou minha mão no ar para Henry poder


bater na minha mão, num gesto de comemoração.

— Ouviu isso, Georgia? Henry espera que sim. - Cantei. — Acho que
isso significa que o pai do bebê é um homem lindo.

Henry, obviamente, não teve a intenção de ser engraçado e deixou


minha mão totalmente no vácuo. Mas Georgia estendeu a sua e bateu na
minha e piscou para mim.

— Se ela se parecer com você, todos saberão que você é o pai dela. -
Henry disse perfeitamente com a voz no mesmo tom, e olhos solenes. — E
isso vai fazê-la feliz.

Eu concordei, já sem sorrir.

— É por isso que vou para a academia. Quero parecer que nem Tag. -
Acrescentou para ninguém em particular. Largou a foto e colocou chilli nos
quatro pratos, entregando um para mim e colocando o de Georgia longe do
187

alcance de Kathleen. Antes dele comer, levou o quarto prato para a sala de
Página

estar, e nós ouvimos a pausa na fita e Millie e agradecendo seu irmão. Henry
The Song of David/ Amy Harmon

voltou para dentro da cozinha sem o chilli, sem nenhuma palavra, e partiu
para seu jantar. Ficamos todos em silêncio assim que a voz de Tag retomou
seu conto.

***

TAG

As pessoas que veem constantemente mexem suas cabeças. Nunca


tinha notado isso antes, não até passar um tempo com Millie. Mas o
movimento está diretamente ligado à vista, e para onde todos lançam e
viram suas cabeças, seus corpos seguem onde os olhos vão, Millie movia
cautelosamente, coluna reta, queixo no nível certo, ombros para trás, pronto
para mergulhar em todas as pistas disponíveis. Ela não apontava a cabeça
na direção dos pés quando amarrava cadarços ou inclinava para cima
quando o sino de uma loja tocava.

Mover sua cabeça não lhe dava quaisquer informações, e como


resultado, ela era perfeitamente contida, e estranhamente impenetrável. A
fazendo parecer suntuosa, como uma gueixa japonesa. Mas isso era
intimidante também. Eu sou inquieto, sempre fui, e sua imobilidade me
chamou atenção enquanto sua concentração nas pequenas coisas me fez
mais consciente de mim mesmo, do meu tamanho e tendência a quebrar
188

coisas. Sempre fui mais físico, mas inclinado a abraçar do que segurar, mais
a tocar do que falar, embora eu faça ambos.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Eu me perguntava se Millie seria assim tão controlada se pudesse ver,


ou se seu equilíbrio e paciência eram um subproduto de perda de sua visão.
As únicas vezes que ela se movia com abandono era quando dançava, mãos
coladas no poli, movendo a cabeça com a música, corpo pulsando no ritmo.
Assisti ela dançar cada chance que tive. Não pela roupa curta e colada ou por
suas pernas graciosas, estômago liso, e cabelos brilhantes, embora eu como
homem já tenho notado todas essas coisas imediatamente. Mas todas as
garotas tinham bonitos, fortes, magros corpos. Todas as garotas que
dançavam bem. Mas eu assistia Millie. Assistia porque ela me fascinava. Ela
era uma nova espécie, uma intoxicante mistura de garota e enigma, familiar
mais ainda assim completamente exótica.

Nunca conheci alguém como ela, mas sentia como se sempre a tivesse
conhecido. E desde o momento que olhei para seu rosto e senti um choque
de ode-à-alegria13 e puta-merda, fiquei caindo, caindo, caindo, incapaz de
me parar, incapaz de desviar o olhar, impotente de fazer a coisa mais
inteligente. E a coisa mais inteligente, era tipo ficar longe. Mas ninguém
nunca me acusou de ser particularmente inteligente. Ela estava parada,
perfeitamente imóvel no centro da sala lotada, pessoas pulando e balançado
ao seu entorno, seus olhos abertos e cegos. Mas abertos. Sua calma chamou
meu olhar. Sua postura de bailarina, reta e inflexível, queixo alto, mãos
soltas do seu lado. Ela estava esperando alguma coisa. Ou apenas
absorvendo tudo. Eu não sabia, mas não pude desviar o olhar. Todo mundo
agitado ao seu redor e quase ninguém parecia vê-la, exceto poucos que
189

atiraram um exasperado olhar para seu rosto sério assim que passavam
13
Página

Ode à Alegria ou Hino à Alegria é o nome de um poema de Friedrich Schiller e cantado no quarto movimento da
9.ª sinfonia de Beethoven. O poema faz uma verdadeira exaltação à fraternidade humana e nos faz vislumbrar no
futuro um mundo onde seremos um só povo.
The Song of David/ Amy Harmon

espremido por ela, e depois percebiam que ela não era “normal” e saiam
rapidamente. Por que ninguém a viu, mas ela foi a primeira coisa que vi? Seu
vestido azul. Um pálido azul bebê que fez seus olhos da mesma cor. Seu
cabelo brilhando, lábios vermelhos, segurando sua bengala como uma
stripper segurando seu poli, balançando ao som da música como se quisesse
dançar. Ela nunca deve ter ido nesse bar antes. Eu teria notado ela.

Já fazia quase uma semana desde nosso beijo. Millie tinha trabalhado
seus turnos, como de costume, e foi ela mesma sorrindo, calma e serena,
modesta e independente. Achei que com certeza eu devia dar explicações.
Alguma tranquilização. Mas Millie parecia inalterada. Ou talvez ela tenha
apenas entendido. Eu não sabia, mas fiquei simultaneamente grato e
ofendido que não fez nenhuma tentativa de me rebaixar. Em vez disso,
caminhei para sua casa, como fiz uma dúzia de vezes antes, e conversamos
como velhos amigos, embora me encontrei olhando por mais tempo para
ela, olhando sua boca, pensando nela quando não estávamos juntos. Estar
com Millie me estragou um pouco. Eu nunca tive que guardar meus
sentimentos ou controlar minha expressão. Eu podia olhar para ela como
um homem olha uma amante, e ela não tinha idéia. Não tinha idéia que
estava a observado agora, embora esperasse como o inferno que ela viesse
para mim.

Me despedi do cara que tinha acabado de molhar a mão e me


aproximei dela. Do jeito como seu queixo se levantou e suas narinas se
alargaram um pouco, ela me ouviu chegando, mesmo não virando a cabeça.
190

Peguei sua bengala e coloquei de lado. Então coloquei minha mão na sua
cintura, e coloquei sua mão na minha. Eu era um garoto rico, não era? Minha
Página
The Song of David/ Amy Harmon

mãe me fez aprender todas as coisas de garotos ricos. Dançar, boas


maneiras, todas as coisas que me fizeram ser o mais agradável possível.
Todas essas coisas que fizeram as pessoas confiarem em mim e me fizeram
um pouco enjoado. Mas Millie queria dançar, isso era fácil de ver, e ninguém
estava pedindo. Graças a Deus. Eu não sabia se podia lidar observar ela com
outra pessoa.

A puxei apertado e senti sua pequena ingestão de ar e nem eu podia


me ajudar pegando a minha. Estava tão composta, mas sentia alguma coisa.
Ela sentia a ode. Eu não ia levá-la ao redor da pista como um parvo. Eu sabia
dançar e dançar iríamos.

— Sabe valsa, querida?

Ela levantou uma sobrancelha em desdém.

— Quem é o dançarino aqui, David?

— Só queria saber se você pode me acompanhar, querida. - Rachei. Eu


estava fazendo de tudo para não rir e ela bufou, colocando sua mão
esquerda graciosamente no meu ombro, sinalizando que estava pronta.

— Vamos dançar logo ou você só quer me agarrar? - Me contorci


impaciente.

— Absolutamente, vamos dançar. - Com isso, comecei a me mover,


puxando-a tanto para perto que ela ficou na ponta dos pés, seus seios
pressionados contra mim, pernas entrelaçando nas minhas. Deslizou um
movimento sem esforço, combinado meu gingado, meus passos, e voamos
191

ao redor da sala. Um-dois-três, um-dois-três, um-dois-três, valsamos e todo


Página
The Song of David/ Amy Harmon

mundo assistia. Ninguém se juntou. Só nós. Os olhos de Millie fechados,


lábios entreabertos, bochechas levemente coradas.

Ray LaMontagne cantava sobre ser salvo por uma mulher.

E eu acreditei nele.

— Ela não vai me deixar ir. - Cantei. — Ela não vai me deixar ir14.

Cantei com ela, meus lábios contra os cabelos de Millie. Ela inclinou o
rosto para cima, ouvindo enquanto nos movemos. Em seguida a canção se
transformou em outra, depois outra, três, quatro e então outra. Tinha que
fazer uma nota pelas dicas do meu DJ. Ele sabia o que estava fazendo. E eu
sabia cada palavra de cada canção.

Nós atraímos bastante audiência, embora Millie não soubesse disso.


Um grande grupo de mulheres se amontoaram no canto da pista, com
cabeças juntas, olhos em nós, e percebi que já tinha dormido com todas, e
nunca tinha dançando com qualquer uma delas. Kara, Brittney, Emma e
Lauren. Bom Deus. Elas eram amigas? Nem sabia que eram todas amigas.
Vinham para o bar e iam para a academia. Pisquei quando chamei atenção
de Brittney. Nós terminamos em bons termos, e não via razão para não ser
amigável. De fato, nada foi especialmente sério com nenhuma delas. E vendo
seus semblantes carregados, talvez eu tenha lembrado errado.

Brittney se separou das outras e cruzou a pista como se estivesse


numa passarela ou fazendo fotografias de moda. Eu devia ter tirado Millie
do caminho, mas a pista era pequena e Brittney determinada.
192
Página

14
Música “Trouble” do cantor Ray LaMontagne.
The Song of David/ Amy Harmon

— Tag! Quero minha vez! Quem diria que você sabe dançar, baby? -
Balbuciou, toda pegajosa e perfume de baunilha. Ela se aconchegou do meu
lado e abraçou meus bíceps, como se eu já não estivesse dançando com
outra mulher.

Millie endureceu e deu um passo para trás. Agarrei seu braço.

— Estou dançando com a Millie. Próxima música. Okay?

Brittney fez um beicinho daquele jeito que algumas mulheres fazem


quando querem ficar feias e tentar ficar bonitas, e ela não soltou meu braço.

— Vamos, Tag. Você está me envergonhando. Não diga não.

Millie puxou para fora dos meus braços.

— Me direcione onde está a bengala e me diga quão longe está. Dois


pés? Vinte? Vou ficar bem. Não se preocupe comigo. - Sua expressão estava
em branco, com ombros jogados para trás.

— Ela vai ficar bem, Tag. - Brittney cantarolou. Ela estava obviamente
bem ciente que Millie era cega.

— Estou dançando com Millie agora, Britt. - Disse firmemente, e eu


podia ouvir o gelo na minha voz. Lancei um olhar para a borda da pista de
dança, para as mulheres amontoadas, que observavam o pequeno drama se
desenrolar. Estavam com sorrisinhos para mim como se tudo fosse uma
grande piada.

— Que seja. - Brittney largou meu braço casualmente. Se virou para


193

longe, com seu beicinho ainda no lugar e saiu.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

A música terminou e durante um batimento cardíaco, houve um


relativo silêncio. Depois sua voz soou alta e clara.

— Você é um maldito mulherengo, Tag. É quase embaraçoso. - Ela


falou por cima do ombro e algumas pessoas riram. — Qual vai ser a próxima
a dormir com você?

— Eu nunca fingi ser outra coisa. - Falei atrás dela, sorrindo


largamente para as mulheres além dela. As risadas cresceram e um cara
perto ergueu a mão para mim bater. Mas Millie não estava rindo. Merda.

A sua mão ainda estava na minha, mas nossos corpos não estavam
mais alinhados pela dança. Eu não queria sair da pista. Não queria ter agido
como se a interrupção de Brittney fosse nada. O DJ fez o que podia, me
dando três músicas sensuais na sequência. Talvez pensando que estava me
ajudando de novo colocando Justin Timberlake a toda, Sexy Black fazendo
meus dentes vibrarem e incitando as pessoas a irem até o chão, criando uma
barreira entre Millie e eu do resto da audiência, embora não tanto. Eu
precisava de uma desculpa para puxar Millie para perto novamente, e não
tinha certeza se ela estaria disposta a entrar na dança se esfregando e
moendo como JT exigia. Dei um passo para ela para nossos corpos se
tocarem, e coloquei meus lábios nos seus ouvidos para que pudesse me
ouvir por cima da música.

— Está interessada em dançar com o mulherengo?

— Isso depende. As pessoas estão assistindo? - Sua boca roçou minha


194

bochecha enquanto falava.


Página

Olhei para o entorno de nós para os curiosos.


The Song of David/ Amy Harmon

— Yeah. Estão.

— Bom. Vamos dançar. - Ela enrolou os braços cuidadosamente em


volta do meu pescoço e levantou o rosto para mim sorrindo.

E senti a onda de novo, tão forte que minhas pernas enfraqueceram.

Lancei a cabeça para trás e gargalhei, fazendo barulho. Mais pessoas


olharam na nossa direção. Que olhassem.

— Eu realmente gosto de você, Millie.

— Isso só porque você é mulherengo. - Me provocou.

E então me esqueci do falar enquanto tentava prolongar o tempo com


Millie na pista de dança. Santo inferno, a garota podia dançar. Manteve pelo
menos uma mão em mim todos os momentos, centrada, ancorada e foi a
coisa mais quente que já vi em toda minha vida. O fato dela não poder me
ver dançando era libertador e esqueci sobre todos os outros. Até esqueci de
mim mesmo.

Nós não paramos de dançar até ficarmos ofegantes, e os fios de cabelo


escuro de Millie grudavam na testa úmida e nas bochechas macias. Sua pele
brilhava e seu sorriso faiscava, e não consegui recuperar o fôlego, embora
tivesse menos a ver com seu esforço do que com Millie em si. Millie era
insaciável, e eu fiquei cativado, e de repente a queria toda só para mim.

Agarrei duas garrafas de água de trás do bar, tomando nota


rapidamente que as coisas estavam funcionando sem problemas e meu novo
195

bartender parecia ter tudo na mão. Millie ficou parada esperando por mim,
segurando sua bengala, e agarrei seu casaco e nós saímos pela porta dos
Página
The Song of David/ Amy Harmon

fundos, respirando o ar fresco, enfiou sua mão ao redor do meu braço, o


ouvi som abafado, do golpear baixo imitando meu coração batendo.

Nós bebemos em silêncio até que Millie suspirou, tampando sua


garrafa e colando-a de lado para que pudesse levantar o cabelo de seu
pescoço úmido. Ela recusou seu casaco, dizendo que o ar estava bom em sua
pele. Segurou o cabelo no alto da cabeça, braços magros erguidos, cabeça
inclinada para frente e assisti sua adorável exibição, grato mais uma vez que
eu não tenha que esconder meu olhar de admiração.

— Sinto muito. — Eu disse.

— Pelo que?

— Ser um bocado mulherengo.

— Eu sei.

— E isso te incomoda?

— Isso não se aplica a mim.

Engoli em seco.

— Oh yeah? O que te faz pensar que não se aplica?

— Eu me lembro de ter te implorado para me beijar? - Millie deixou


seu cabelo cair para trás, ao redor dos ombros e cruzou os braços no peito.
Se fosse outra garota eu poderia pensar que a ação foi feita para chamar
minha atenção para a elevação de seus seios, o que fiz, mas ela não poderia
saber o quão perfeitamente eles foram enquadrados ou como a lua fez sua
196

pele brilhar.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— E me lembro de alegremente ser receptivo a você. - Arrastei as


palavras.

Ela não respondeu, não sorriu, não argumentou comigo, e eu estava


intrigado.

— Sinto muito. - Disse de novo.

— Pelo que? - Ela repetiu.

— Brittney foi rude. E ela foi rude por causa de quem eu sou, não por
causa de quem você é. Entende isso, certo?

— Todos devem estar muito confusos.

— Todos quem?

— Todas as garotas em sua vida.

Eu ri disso.

— Por quê?

— Por você gastar seu tempo comigo. Dançando comigo. Indo embora
comigo. Você me acompanha para casa todas as noites.

Esperei.

— Admito. Sou um pouco confusa, David. - Sua voz era suave, mas não
tímida. Millie não era tímida, e eu adorava isso nela.

— Você sempre me chama de David, por quê? - Pulei a questão. Eu


estava tão confuso quanto ela e não estava pronto para lhe dar a resposta.
197

— Por que David se encaixa tão perfeitamente. - Disse facilmente. Me


Página

deixando mudar de assunto.


The Song of David/ Amy Harmon

— O que isso quer dizer?

— Nomes significam algo. Muitos pais escolhem um pelo o que o nome


soa ou como é escrito. Me pergunto as vezes quanto tempo levam para
descobrir o que o nome significa, ou pelo menos, o que significa para eles? É
um nome de um membro da família amado? É um nome de um lugar que
traz de volta memórias? O quê? Ou apenas pela forma como A-S-C-H-L-E-I-
G-H é soletrado em uma tentativa de ser único? Utahans15, tão religiosa
como sua população é, são ótimos em dar nomes fracos, sem sentido com
grafia absurda.

— Então é por isso que Moses e Georgia não queriam o nome Kathleen
Taglee? Fiquei tão magoado.

Ela deu uma risadinha e suspirou, o que era meu objetivo.

— Okay. Você disse que David se encaixa perfeitamente. O que David


significa?

— Querido. Amado.

— Querido? Amado? Você só pode estar de brincadeira comigo! —


Minha voz era irônica, deturpando as palavras para zombar enquanto eu
falava.

— Você é querido por todos. Todo mundo gosta de você.

— Humm. Por que você não? - Puta merda. Eu tinha de parar de fazer
isso.
198

— Por que o meu significa trabalho. — Respondeu atrevidamente.


Página

15
Nativos ou residentes do estado de Utah dos EUA.
The Song of David/ Amy Harmon

— Trabalho?

— Sim. Esse é o significado de Amelie.

— Oh, essa é boa. - Falei devagar.

— Sim. O de Henry significa “governante da casa”. O que ele adora e


leva muito a sério.

— Ele leva. - Ri.

— Falando de Henry, preciso ir. - Amelie suspirou.

— Te levo.

— Nah. Você pode entrar. Quero caminhar.

— Amelie. - Protestei, pois eu não tinha tempo de ir com ela e voltar


todo o caminho. Eu precisava voltar para dentro, precisa ver e ser visto.
Tinha mãos a apertar e pessoas a conhecer, e eu já completamente ignorei
os meus deveres de anfitrião demais.

— Não é seguro, Amelie. - Pressionei.

— Você não é responsável por mim, David. - Disse gentilmente. —


Quero caminhar. Gosto de caminhar. Já fui andando para casa antes de te
conhecer, e irei caminhado depois que você ir.

Mordi de volta uma maldição.

— Você pode me ligar ou Henry, só me deixe saber que chegou em


casa bem. Por favor? - Estalei.
199

— Claro. - Balançou a cabeça concordando. Deslizou seus braços no


Página

casaco e puxou seu cabelo da gola, e observei, com meu intestino agitado.
The Song of David/ Amy Harmon

Não gostava dela caminhado sozinha para casa as onze da noite. Ela ajeitou
sua bengala e segurou a garrafa de água vazia na sua frente, obviamente
querendo que eu pegasse. Assim que fiz, minha mão roçou a sua e nós dois
pulamos como se não estivéssemos passado a última hora dançando, com
nossos corpos pressionados juntos.

— Sabe, David. Você estava errado.

— Sobre o quê?

— Sobre ser virgem.

— Ser virgem? - Fiquei perdido.

— Houve alguém uma vez.

Encarei ela fixamente antes da compreensão me atingir num duro


golpe. A noite que a beijei. A noite que perguntei se ela era virgem e eu disse
que ela mentiu quando disse que não era.

Millie caminhou para longe, batendo sua bengala, se despedindo por


cima do ombro.

A vi andar pela rua, o balanço de seu andar, como se ainda estivesse


ouvindo Ray LaMontagne. Xinguei de novo e fui rapidamente para a minha
caminhonete. Ela poderia andar se quisesse. Mas eu estava indo ter certeza
que chegasse em casa. A segui à distância, assisti assim que virou a esquina
de sua rua, seguindo até chegar na sua porta, e depois engatei a ré e levei a
caminhonete de volta para o bar. Eu era tão patético.
200

Henry me mandou uma mensagem segundos depois, me avisando que


Página

chegou, assim como Millie prometeu.


The Song of David/ Amy Harmon

Henry: Amelie está em casa. Seu rosto está triste. Mohammed Ali
praticava abstinência seis meses antes de suas lutas.

Gargalhei e xinguei simultaneamente. Aparentemente todo mundo


pensava que eu era um mulherengo.

201
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO DOZE

TAG

Sábado à tarde, Henry apareceu no ginásio sem Millie. Isso me


surpreendeu um pouco, ela sempre vinha com ele antes, mas dei de ombros,
sentindo uma pontada de desapontamento no meu estômago e ignorei. Suas
palavras disparavam pela minha mente. Teve um alguém uma vez. E me
deparei preocupado se havia alguém novo, alguém da escola que ela
trabalhava às terças, ou talvez Robin tenha agido de novo. Millie afirmou
que odiava isso, mas sempre havia uma exceção.

Talvez tenha sido o desapontamento ou até o hábito, mas eu demorei


um pouco mais numa conversa com uma das minhas lutadoras femininas,
aceitei um abraço e um sorriso de Deanna, uma ruiva atraente que eu tinha
levado para sair uma ou duas vezes, e observei um par de clientes mulheres
no supino horizontal, como qualquer bom dono de um clube atlético faria.
Henry me encarou emburrado de um dos tatames no canto, onde Cory
estava mostrando a ele como executar um duck-under16.

Me perguntei se ele estava se sentindo apenas negligenciado, e pegou


o lugar de Cory, que estava atirando instruções a Henry e criticando sua
202
Página

16
Manobra comum do wrestling (estilo de luta livre) realizada em pé. A ideia é ganhar uma posição vantajosa sobre
o oponente ao colocar a sua cabeça embaixo do cotovelo/tríceps e se mover para o lado ou para trás.
The Song of David/ Amy Harmon

forma, que era terrível, toda vez que ele tentava executar um movimento.
Sua mandíbula estava tensa, seus movimentos desengonçados, e parecia que
estava à beira de lágrimas.

— Henry. Qual é cara? Estamos aqui para aprender algumas coisas e


ficar bem para as meninas. Se solte. - Provoquei ele gentilmente,
despenteando seu cabelo.

Henry empurrou minha mão e virou para mim do nada,


violentamente, e um punho se conectou no meu estômago e outro raspou
minha mandíbula.

— Whoa! - Eu meio que ri, lançando um double-leg17, o pegando pelos


meus ombros, estilo WWE. Ele se levantou e rugiu, como se eu fosse Hulk
Hogan ou The Undertaker, me virei girei Henry em círculos exagerados até
que percebi que ele estava me batendo e chutando furiosamente, e não de
uma maneira que indicasse que estava brincando ou se divertindo. O
coloquei para baixo imediatamente, com meus braços estabilizando seus
ombros no caso dele estar tonto. Eu em senti um pouco tonto, e tentei
clarear minha cabeça. Henry não desistiu, entretanto.

Seu rosto estava corado e seus braços balançando nervosamente.


Coloquei minha mão na sua testa, da mesma maneira que meu pai
costumava fazer quando eu era pequeno, minha mãe espalmando sua
cabeça como uma bola de basquete, o mantendo da distância do meu braço.

— Henry! Amigão, estamos apenas brincando. Relaxa.


203
Página

17
Também conhecido como baiana, é uma das derrubadas mais populares do wrestling (estilo de luta livre).
The Song of David/ Amy Harmon

E de novo, dobrou seus esforços para me tirar com seus braços


magros e joelhos pontudos.

— Henry, supero você uns quarenta e cinco quilos. Você não pode
lutar comigo, garoto!

— Manute Bol tinha 2,31m. - Ele gritou. As pessoas já estavam


começando a olhar. Axel e Mike pararam a luta no tatame perto de nós e
começaram a assistir, ambos respirando com dificuldade. Axel ficou de pé e
caminhou na nossa direção.

— Foda-se... - Cortei imediatamente. Cada vez que eu xingava, Henry


parecia um pouco mais ferido. Eu tinha que falar com os caras sobre todas-
as-outras-palavras-com-F que falávamos sem pensar. Já tínhamos um jarro
cheio de moedas no escritório por nossos deslizes.

— Você vai ter que me explicar qual é o problema, Henry. -Tirei a mão
de sua cabeça e deixei ele vir de volta para mim. Quando começou a
esmurrar meu peito, envolvi os braços em torno dele, prendendo os seus.
Imediatamente começou a me dar cabeçadas, embora o topo de sua cabeça
mal alcançasse meu queixo. Joguei minha cabeça para baixo, prendendo a
sua entre meu rosto e ombro, da maneira como os pugilistas faziam quando
estavam tentando enrolar, e tentando recuperar seu fôlego, e eu estava
tentando os dois enquanto me esforçava para descobrir o porquê de Henry
estar com tanta raiva de um jogador de basquete 2,31m de altura.

— Henry! - Falei contra seu cabelo desgrenhado. — Henry, não sei o


204

que está tentando me dizer!


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— O avô de Manute Bol tinha quarenta esposas. - Sua voz caiu um


pouco, mas o fervor ainda estava lá, e atrás desse fervor, as lágrimas
ameaçaram, e ele ainda estava tenso contra mim.

— Sério? - Eu ri tentando o acalmar. — Cara de sorte.

Henry empurrou violentamente, puxando sua cabeça do aperto,


pregando minha boca. Deixei ele ir, cuspindo sangue e palavras proibidas.
Acho que agora eu devia um jarro com dez dólares em moedas.

— Não é sorte! - Ele berrou. Se virou para longe e saiu do tatame.


Pegando sua mochila e moletom e foi na direção da porta. Só fiquei ali
assistindo, completamente pasmo.

— Ele está chateado com você. - Axel comentou, como se eu não


tivesse entendido o suficiente.

— Yeah. Ele está. Você sabia que o avô do Manute Bol tinha quarenta
esposas? - Quase comecei a rir. A forma como Henry se comunicava era
frustrante.

— Quem é Manute Bol? - Axel franziu a testa.

— Jogador de basquete, e um dos mais altos que jogaram pela NBA.


Era do Sudão, acho.

— Humm. Talvez Henry não goste que você tenha quarenta


namoradas, garotão. - Axel usou o apelido que Millie me chamava e parei.

— O quê? Eu não...
205

— Sim, Tag. Você tem. - Axel sorriu na minha direção como se


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estivesse orgulhoso de mim.


The Song of David/ Amy Harmon

— Henry! - Arranquei pelo ginásio, tentando pegar Henry assim que


ele empurrou a porta da frente. Ele não esperou por mim, demorei metade
de um quarteirão antes de alcança-lo.

— Henry, as garotas da academia e as garotas do bar não são minhas


namoradas. - Bem, elas eram. Mas não do jeito que Axel pensava. Eu gostava
de garotas. E elas gostavam de mim. Mas nada disso era sério ou
compromisso. Elas eram minhas amigas. E eram garotas.

— Amelie? - Ele perguntou, ainda caminhando.

— Millie não é minha namorada também. - Eu disse suavemente.

— Vai se ferrar, Tag. - Henry disse, muito claro, tão simples, que quase
aplaudi sua resposta direta sem complicações. Mas a celebração morreu na
minha garganta assim que eu registrei o que ele disse e a finalidade com que
ele disse isso. Henry continuou caminhando na direção de sua casa, e só
assisti ele ir embora.

***

Bati na porta dos Anderson um pouco depois das sete num domingo
ao anoitecer, mas tive que ter persistência até alguém atender. Eu quase
tinha desistido, quando Henry abriu a porta e hesitou, como se não tivesse
certeza se me recebia ou não.

— Ei amigão, tudo bem?


206

Ele deu de ombros.


Página

— Posso entrar?
The Song of David/ Amy Harmon

Henry se mexeu e me deixou passar, com seus olhos no chão. Fechou a


porta atrás de mim, mas não fez contato visual, então eu poderia dizer que
ele ainda estava chateado.

— Henry? - O empurrei suavemente com meu punho, o soco mais


macio que já dei. Seus punhos de fecharam imediatamente. Sim. Ainda
bravo.

— Antes de 1900, as lutas duravam até cem rounds. - Henry disse


secamente.

— Em que round nós estamos então, cara? Não acho que posso ir a
cem rounds com você. Desisto. Você venceu.

— Sem bater18. - Henry disse, com a mandíbula apertada, repetindo o


que eu disse uma vez no ginásio.

— Sem bater. Exceto quando você está errado. E eu estava errado. Me


desculpe, Henry.

— Amelie? - Perguntou. Eu queria abraça-lo. Ele não queria desculpas,


ele queria respostas, e eu respeito isso.

— Amelie é especial. Ela não é como as outras garotas. Ela não é como
qualquer uma das garotas que já gostei. E eu gosto dela, Henry. Gosto muito
dela. Mas tem uma responsabilidade extra que vem ao amar alguém que vai
precisar de você de diferentes maneiras, quem você vai confiar de diferentes
maneiras. Eu tenho que ter certeza se estou pronto para ter essa
responsabilidade. Você entende?
207

18
Página

O personagem usa originalmente a expressão “tap-outs”, que no mundo da luta aqui no brasil quer dizer “bater”,
gíria essa que significa desistir de uma luta quando se entende por demasiado o dano físico prestes a ser imposto.
A maneira mais comum de fazê-lo é bater três vezes com a palma da mão no chão ou no corpo do adversário.
The Song of David/ Amy Harmon

— Bexigas de porcos foram usadas uma vez como bolas de rugby. -


Henry disse suavemente.

— Está me chamando de porco, Henry?

Henry começou a sorrir, seus olhos foram para mim antes ceder,
fazendo sons de porcos.

— Você que é! - Ri com ele. — Acho que essa é a primeira vez que ouvi
você fazer uma piada! - Fui na sua direção arremessando meu braço ao
redor de seu pescoço, mas ele executou um duck-under e foi para as minhas
pernas, assim como Cory tinha o ensinado. Gritei me inclinando sobre ele e
envolvendo meus braços ao redor de seu magro traseiro, levantando suas
pernas do chão, com seus braços ainda enrolados na minha coxa, o deixando
pendurado de cabeça para baixo.

— Pound for pound19, o melhor lutador do universo! Diga Henry, Diga!


Tag, você é o maior lutador do universo! - Exigi, rindo.

— Georges St. Pierre é o melhor lutador no universo! - Berrou,


liberando o aperto das minhas coxas.

— St. Pierre! - Rugi, balançando ele mais para alto. — Diga Tag é o
melhor lutador no universo.

— Chuck Liddell é o melhor lutador no universo! - Gritou, ofegando.

— O quê? Ele já é notícia velha! - Protestei, embora eu fizesse


qualquer coisa para ter Liddell na minha academia.
208
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19
Termo usado no UFC (Ultimate Fighting Championship) para elencar os melhores lutadores, independente da
categoria de peso, do mundo. Atualmente quem está em primeiro lugar é o brasileiro José Aldo.
The Song of David/ Amy Harmon

— Tag Taggert é o pior lutador do universo! - Disse Henry


gargalhando, com o rosto tão vermelho quanto o cabelo. O virei de pé, com
seus pés ainda balançando e ainda rindo. Firmei ele e lhe dei um olhar falso.

— O melhor. O melhor lutador no universo. Ouviu?

— Ronda Rousey é a melhor lutadora do universo. - Ele engasgou,


ainda rindo, não cedendo.

Quase piei, vomitando nas minhas mãos.

— Não me leve para esse caminho, garoto. Falando de lindas,


briguentas mulheres, onde está Milly?

Henry congelou, ouvindo e depois apontando para o chão. Agora que


eu não estava fazendo mais nenhum barulho, pude ouvir as batidas baixas e
graves do porão.

— Lá embaixo? Me mostre o caminho.

Henry se virou e foi na direção do vestíbulo, passando pela cozinha e


sala de estar e entrou dentro de uma grande sala de lavanderia. Tudo era
limpo e organizado, como o resto da casa, e eu vi vários bilhetes adesivos em
braile de Millie nos cestos de roupa suja, um grande branco e outro maior
ainda vermelho. Nunca estive antes nesta parte da casa e quando Henry
apontou para uma porta e imediatamente se retirou, e percebi que ele não
estava interessado em qualquer que seja o que Millie esteja fazendo lá
embaixo.
209

A porta abriu e um estreito lance de escadas apareceu, me deixando


nervoso e tonto. Não gostei da ideia de Millie andando por ali, e imagens
Página
The Song of David/ Amy Harmon

dela caindo queimou meu cérebro antes de me forçar a voltar a realidade.


Millie cresceu nessa casa, ela provavelmente já foi para cima e para baixo
dessas escadas um milhão de vezes, e ela não apreciaria eu dando uma de
homem das cavernas sobre isso. Ainda assim me agarrei no corrimão
enquanto descia cautelosamente, estranhando minhas súbitas tonturas. A
música estava tão alta que Millie não iria me ouvir vindo, mas assim que
cheguei no fim da escada, a música cessou abruptamente, e alguém começou
a bater palmas e assoviar. Me detive, surpreendido, ainda escondido num
canto.

— Eu pareço ridícula? - Ouvi Millie perguntar. — Me sai bem?

— Do que você está falando Amelie? - Uma voz feminina respondeu, e


reconheci a voz de Robin daquela noite no bar. Ela tinha aquela entonação
de patricinha presente entre tantas mulheres americanas. Meio que
totalmente odiava isso. Mas em Robin parecia legal o suficiente.

— Você vai conseguir! Como, várias noites por semana, na verdade!

— Mas nunca tentei esse movimento. Não consigo dizer como eu


pareço, como meu corpo fica, quando faço isso. Sinto que estou fazendo
certo, mas... - A voz de Millie sumiu.

Espiei do canto, extremamente curioso. Amelie estava de frente para


mim, se inclinado contra um pole. Estava usando um pequeno e preto short
“Tag Team” e um top, cabelo puxado para o alto da cabeça, e pés descalços.
Robin estava de costas para mim, ainda bem, e observei quando ela pegou
210

Millie pelos pulsos e a puxou para frente. Robin moveu as mãos de Millie
para cima e para baixo sobre seu corpo, com naturalidade, a permitindo
Página
The Song of David/ Amy Harmon

sentir a suavidade de sua cintura e o arredondamento dos quadris e sua


barriga.

— Isso foi o máximo de ação que eu tive em meses. Tão patético. -


Robin disse ironicamente, liberando as mãos de Millie e sorri, gostando dela
um pouco mais. — Agora sinta seu próprio corpo, Amelie. - Robin insistiu,
dando um passo para trás, e Amelie obedeceu, passando suas mãos por seu
peito, sobre a elevação de seus seios, por sua barriga plana até seus quadris
ligeiramente largos. Depois segurou sua bunda entre as mãos e riu.

— Não quero agarrar sua bunda, Robin. Vem aqui.

— Ha ha. Mantenha suas mãos para si mesma, Grabby. - Robin riu. —


Eu tenho que estabelecer uma linha em algum lugar. Mas você pode sentir a
diferença, não pode? Eu sou cheia de curvas. Você também. Eu sou macia e
você elegante. Você é exatamente da maneira que você sentiu, Amelie. Você
tem um corpo incrível. E quando você dança, não importa que movimento
você faça, fica muito bem e posso garantir que você faz isso certo, também.

Robin ganhou mais um ponto na minha avaliação.

— Sério? - Millie perguntou.

— Sério. - Robin respondeu.

Millie girou em torno do poli algumas vezes, quase que


distraidamente, com seu rabo de cavalo balançando enquanto ela se içou
211
Página
The Song of David/ Amy Harmon

para cima, executando uma perfeita espargarta20 antes de colocar ambas as


pernas no pole e caiu de cabeça para baixo. Ela lidou melhor em ficar de
cabeça para baixo do que Henry. Em seguida trilhou os braços sobre sua
cabeça, como se tivesse concreto sob suas mãos e soltou o poli, descruzando
suas pernas e voltando a ficar de pé, como se pudesse fazer isso até
enquanto dormia.

— Eu desejaria poder tocar Tag assim. Desejaria que fosse okay pedir
coisas como isso. Quero dizer, já senti ele sorrir... mas eu queria sentir o
resto do seu corpo. - Millie deixou escapar, como se essa confissão estivesse
transbordando.

Mordi minha língua para me impedir de ofegar e me perguntei como


diabos ia sair dessa situação sem embaraçar todos os envolvidos.

— Amelie! Você garota safada! - Robin gritou.

— Estou tentando não ser, Robin. Sei que ele tem braços fortes. Sei
que tem covinhas nas bochechas e uma covinha no queixo. Sei que ele tem
um nariz um pouco torto. Sei que seu corpo é duro e seus lábios macios. E eu
sei que tem mãos grandes e calejadas.

— Pare! Estou ficando excitada e deprimida! - Robin gemeu. —


Amelie... eu acho que Tag Taggert pode ser o tipo de cara que gosta de
mulheres. Ponto final. Sabe? E você é linda... então obviamente ele vai gostar
de você. Mas... não é o tipo de cara que vai te fazer feliz por muito tempo.
212
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20
The Song of David/ Amy Harmon

— Não. - Amelie balançou a cabeça, rejeitando a opinião de Robin de


mim, como se tivesse certeza. — Não. Há muito mais nele do que isso. Ele é
especial e me faz sentir especial. Às vezes acho que há algo entre nós.
Consigo sentir isso no meu peito, a maneira como que eu nunca posso
recuperar meu fôlego quando ele está por perto. Sinto isso no meu
estômago também, na maneira como ele pula quando Tag diz meu nome. E
principalmente sinto isso quando ele conversa com Henry. Ele é tão gentil.
Tão doce. - Robin deu de ombros. — Mas outras vezes, acho que ele é tipo de
cara realmente bom em cuidar de pessoas, e Henry e eu somos... carentes.

Nós estávamos frente a frente, vinte passos de distância, e Millie não


tinha idéia de que eu estava lá, parado na frente das escadas, no final do
longo porão, a ouvindo confessar seus sentimentos por mim. Considerei me
esgueirar de volta para as escadas, mas os degraus eram velhos, e apostaria
que rangeriam com as juntas de um idoso. Fiquei congelado entre querer
ouvir os segredos de Millie e querer se esconder deles.

— Me pergunto se ele gostaria de me tocar tanto quanto eu o quero. -


Meditou. — O quero me tocando e quero tocar nele. Mas eu queria que
realmente gostasse de mim, da maneira que gosto dele, e não apenas das
bonitas partes de mim. Tudo de mim. Meus olhos cegos, joelhos pontudos,
orelhas grandes, queixo afiado. Tudo de mim. E então quando me tocar, e eu
tocá-lo, isso será maravilhoso e não estranho.

Desejei mais do que qualquer coisa que Robin não esteja entre nós
nesse momento. Desejei poder andar até lá, colocar meus braços ao redor de
213

Millie e beijar aquele queixo afiado e sussurrar garantias em suas orelhas


Página
The Song of David/ Amy Harmon

um pouco grandes, agora que ela mencionou. Deslizei para o canto e me


sentei num degrau, descansando minha cabeça entre as mãos.

Ela confessou. E eu tive sorte o suficiente, ou azar o suficiente, de ouvi-


la. Estava com sorte, pois Amelie Anderson se apaixonou por mim. E eu
estava com azar porque não poderia fingir que não ouvi. Me recusei a ouvir
Moses quando me ligou no sábado. Me recusei a examinar o beijo no
banheiro ou a linha que eu já tinha passado quando me deitei com Millie ao
longo do edredom branco, um edredom que eu via toda vez que fechava os
olhos.

Mas ali, ouvindo confessando, eu não podia ignorar isso mais. Não
podia. Não podia fingir que eu tinha mais tempo para decidir. O tempo
esgotou, e eu tinha que escolher.

Não questionei mais sentimentos. Eles estavam lá desde o primeiro


dia. Desde o primeiro dia. Eu tinha visto sua posição como pastora na noite,
cabeça inclinada para trás, sua língua capturando flocos de neve, e senti algo
mudar. Em três dias, me encontrei dizendo coisas, sentindo coisas, fazendo
coisas que eu nunca tinha feito antes. Millie tinha se tornado minha vista
favorita, meu cheiro favorito, meu sabor favorito, meu som favorito. O meu
favorito. Mas nunca foi sobre isso.

Era sobre mim.

Millie me chamou naquela noite e limpei todo o sangue de sua pele dei
um beijo inocente. Inocente Millie. Mas não era inocente em tudo. Ela sabia o
214

placar. E ela estava me esperando para decidir se eu era homem o suficiente


para amar uma garota cega. Beijar uma garota cega é um pecado
Página
The Song of David/ Amy Harmon

imperdoável, ela tinha dito, me provocando. Beijar uma garota cega não era
imperdoável. Ama-la não era imperdoável também. Mas ama-la e
desaponta-la... isso era imperdoável para mim. Isso foi imperdoável. Essa foi
a parte com que lutei.

A música retornou, mas dessa vez a melodia era mais lenta, mais
triste, uma música para ouvir ao invés de dançar. Era a música de Damien
Rice chamada “The Blower’s Daughter”, e me agradou que Millie soubesse
disso também, a descoberta me fez sentir esperança em um “se-nós-
amavámos-a-mesma-música-nossos-corações-devem-se-corresponder” de
alguma maneira. Me levantei, grato pelo barulho da música encobrir minha
subida, mas Robin virou a esquina antes que eu pudesse dar o primeiro
passo.

Quando me viu deu um gritinho e parou um pé no ar. Segurei um dos


dedos nos lábios, balançando minha cabeça vigorosamente. Millie não
precisava saber o que eu tinha ouvido. Me virei e subi as escadas, esperando
que Robin de seguisse, esperando que não fosse Millie.

Caminhei pela lavanderia com Robin no meu calcanhar. Fechei a porta


cuidadosamente atrás dela e empurrei minhas mãos nos bolsos,
encontrando seus olhos arregalados.

— Quero que você grite nas escadas. Diga a ela que estou aqui. Diga
que estou descendo. - Mandei.

— Mas... você... quanto tempo estava ali? - Ela gaguejou.


215

Esperei, sem responder, com o rosto de Robin torcido numa carranca.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Você está certa sobre mim, sabe. - Disse, dando uma resposta
indireta. — Eu gosto de mulheres. Gosto muito. Especialmente mulheres
bonitas. E nunca estive interessado em ter somente uma. Nunca tive uma
namorada. Nunca houve uma garota que manteve minha atenção. Até agora.

A carranca de Robin evaporou instantaneamente, e seus lábios


franzidos deslizaram para um sorriso. Sem outra palavra, ela se virou, abriu
a porta e gritou para baixo das escadas.

— Amelie! Você tem companhia.

Passei por Robin, descendo as escadas num piscar de olhos, do mesmo


jeito que tinha acabado de subir.

— Não estrague tudo! - Silvou. — Ela já teve muita merda na vida, e


ela não precisa de mais, Tag Taggert. Sol. Rosas. Beijos. Adoração. Esse é o
seu trabalho! Nenhuma merda permitida!

Eu não podia prometer um futuro sem merdas. Não podia nem mesmo
prometer que não ia causar alguma. Não consigo alterar meu DNA, e eu
tinha certeza que havias fitas embebecidas disso. Mas eu estava
determinado a proteger Millie o máximo que podia. Lancei um olhar por
cima do ombro e assenti com a cabeça uma vez para a protetora prima de
Millie, uma confirmação de que eu já tinha sido avisado por ela, e Robin
fechou a porta, nos dando a privacidade de que eu não tinha oferecido a elas.

Millie estava esperando, obviamente não tendo certeza de quem sua


companhia era. Desfez seu rabo de cavalo, e seu cabelo caia em torno de
216

seus ombros em desordem. Mas ela não alisou para baixo ou puxou suas
Página

roupas. Ela estava magnífica e composta em sua tranquilidade, confiante o


The Song of David/ Amy Harmon

suficiente em si, mesmo não conseguindo ouvir me aproximando e não


poderia se fixar. Damien Rice estava cantando sobre não ser capaz “tirar os
olhos de você” e eu só podia concordar assim que me aproximei dela.

— David? - Arriscou suavemente. O fato de que ela sabia que era eu,
me fez ficar de novo tonto.

— Sou o único cara que faz tanto barulho quando vem descendo os
degraus? - Eu propositalmente fiz barulho da segunda vez.

— Nah. Você devia ouvir Henry. Você é apenas... o único cara. -


Admitiu docemente. Em seguida suas bochechas ficaram rosas e meu peito
esquentou. Senti uma enorme inundação de alívio. Eu era o único cara.
Graças a Deus.

Fiquei a um passo dela e estendi a mão, tomando umas das suas nas
minhas.

— Gosta dessa música? - Perguntei. Obviamente ela gostava e


obviamente eu era estúpido.

— Eu amo essa música.

— Eu também. - Sussurrei. Estendi minha outra mão para ela.

— Accidental Babies.

— O quê? - Puxei suas mãos gentilmente, e deu um passo para frente.


Eu estava tão perto dela agora que o topo de sua cabeça ficou abaixo do meu
queixo, e a canção de Damien foi sendo abafada pelo som do meu coração.
217

— É outra música de Damien ... e acho que gosto dela ainda mais. - Ela
Página

sussurrou de volta.
The Song of David/ Amy Harmon

— Mas essa música é tão triste. - Respirei, e encostei minha bochecha


contra seu cabelo.

— Isso é o que faz dela bonita. É devastadora. E amo quando a música


me devasta. - Sua voz era tão fraca, como se estivesse lutando para respirar.

— Ah, o doce tipo de sofrimento. - Desci minhas mãos e passei meus


braços ao redor dela.

— O melhor tipo. - Sua voz engatou assim que nossos corpos se


alinharam.

— Estivesse sofrendo por tanto tempo agora, Millie.

— Você tem? - Perguntou. Claramente espantada.

— Desde o momento que vi você. Isso me devastou. E amo quando


uma garota me devasta. - Eu estava usando sua definição da palavra, mas a
verdade era que minha irmã foi a única que tinha me devastado, e não tinha
sido uma doce agonia.

— Nunca fui devastada por alguém antes. - Millie disse fracamente,


choque e prazer colorindo suas palavras. Ela ainda estava de pé ao redor
dos meus braços, quase como se não pudesse acreditar no que estava
acontecendo. Seus lábios pairaram perto da minha mandíbula, como se
estivesse gostando da tensão do quase. — Estou supondo que você deixou
um rastro de destruição. - Sussurrou. — Só você não sabe.

— Não vejo através da minha própria bagunça.


218
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Vantagens de ser uma garota cega. - Eu podia ver o sorriso em sua


voz. Mas eu não podia rir agora. Eu estava em chamas e as chamas estavam
crescendo desconfortáveis.

Finalmente, como se ela não pudesse resistir mais, levantou suas mãos
da minha cintura. Dedos trêmulos e mãos espalmadas deslizaram pelo meu
abdômen, subindo para meu peito, passando pelos ombros, progredindo
lentamente, como se ela memorizasse cada movimento. Então tocou meu
rosto e seus polegares encontraram a fenda no meu queixo, da mesma
maneira quando eles traçaram pela primeira vez meu sorriso. Hesitante,
puxou meu rosto para baixo, na sua direção. Um batimento cardíaco antes
que nossas bocas se tocaram, suaves palavras vibraram contra meus lábios.

— Você vai me devastar, David? - Perguntou.

— Deus, espero que não. - Rezei em voz alta.

Antecipação dissipou o espaço que ainda havia entre nós, e pressionei


meus lábios carentes a sua boca sedenta. E então se fundiram juntas, mãos
agarrando, corpos oscilando, música de gemidos, dançando em meios aos
destroços. Doce, doce devastação.

— Tarde demais. - A ouvi sussurrar.

219
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO TREZE
Moses
Sentei na varanda da casa de Millie com Kathleen num balanço de
ferro forjado que provavelmente estava lá desde que a casa foi construída
há mais de um século. Eu tinha abandonado a audição dos cassetes
completamente. Tag não estava segurando nada. Cada detalhe, cada
pensamento, cada sentimento era colocado para fora.

Nu. E eu não gostava de homens nus. Então, estava deixando Georgia


ouvir com Millie e Kathleen e eu estávamos em nosso momento na varanda,
Kathleen empacotada com um chapéu e um cobertor felpudo, dormindo no
meu peito, uma barreira contra o ar frio da primavera, absorvendo algum
tempo do papai para crescer e se parecer comigo e saber que ela era minha,
assim como Henry disse.

Henry tinha recuado para o seu quarto. Já era tarde e estávamos todos
cansados. Mas Millie não conseguia parar de ouvir, e eu não poderia culpá-
la. O barulho da fita rolando era vivificador, e eu queria apenas saltar à
frente, e me ater a última fita, mas não tinha esse direito. E conhecendo Tag,
sabia que não seria tão fácil.

Em seguida, Georgia abriu uma janela, a mais próxima da minha


cabeça, como se a emoções na sala tivesse se tornado sufocante, e de
220

repente sentado na varanda da frente, podia ouvir cada palavra mais uma
Página
The Song of David/ Amy Harmon

vez, e ouvia como meu amigo se esforçou para colocar em palavras o que eu
só poderia descrever com tinta.

Uma vez eu disse a Georgia que se eu pudesse pintá-la, usaria todas as


cores. Azuis, dourados e brancos e vermelhos. Pêssego e creme, bronze e
preto. Negro para mim, porque eu queria deixar a minha marca. Meu selo
sobre ela. E fiz isso, embora não como pretendia. Minha mente vagou até o
meu filho, que se parecia muito comigo, embora não diria isso a Henry. Eu
não tinha passado um único dia de sua vida com ele. E ainda assim, ele se
parecia comigo.

— Hey, homenzinho. - Sussurrei, perguntando-me se ele podia me


ouvir. — Sinto sua falta. - Provei o mesmo sabor agridoce em minha língua
que sempre vinha quando dizia seu nome, mas eu sempre repetia. —
Mantenha-se atento para Tag, Eli. Ele age duro, mas suponho que ele esteja
com medo.

— Eu não quero sair. - A voz de Tag soou atrás de mim.

Empurrei e amaldiçoei em voz alta, fazendo Kathleen gemer em meus


braços.

Então percebi que Millie tinha mudado a cassete. Era apenas a voz de
Tag que vinha através da janela, nada mais, e amaldiçoei mais uma vez.

TAG
221

— Eu não quero sair. - Eu gemi.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Estávamos de pé na varanda da frente e estava frio, mas eu não estava


pronto para ir pra casa. Não sabia se ficaria pronto.

— Então não saia. - Disse Millie com firmeza.

Estávamos envoltos um no outro toda a noite, e isso estava mexendo


com a minha força de vontade. A luta com Santos seria em dez dias, e lutar
era a última coisa em minha mente. Eu precisava ir para casa. Precisava
dormir. Precisava acordar cedo e ir à academia. Mas eu não queria sair.

— Tenho medo do escuro, então acho que vou ter que esperar até de
manhã. - Sussurrei. Estava tentando fazê-la rir, mas de alguma forma as
palavras soaram verdadeiras e eu estremeci, grato que ela não podia ver-me
fazê-lo. Mas ela estava muito em sintonia com as nuances da voz de uma
pessoa para perder isto. Ela endureceu um pouco. Senti apenas um tremor
que percorreu seus braços, até as mãos descansando em meu peito.

— Você está realmente com medo do escuro? - Ela perguntou, e me


permiti desviar mais uma vez.

— Não, não realmente. É mais de espaços apertados. Espaços


apertados escuros. Eu tinha asma quando era criança. Eu acho que é o
sentimento de não ser capaz de respirar, sensação de estar desamparado.
Estar preso.

— Entendo. Não vou fazer você dormir comigo no meu caixão então.

— Está certo... você é uma vampira. Eu esqueci. - Eu sorri, e ela ouviu o


sorriso na minha voz porque ela sorriu comigo.
222
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— A escuridão é enorme, no entanto. Você não precisa ter medo do


escuro. Sempre que você começar a se sentir preso ou indefeso, apenas
feche seus olhos, e você terá mais espaço do que você realmente precisa.

Concordei com a cabeça e beijei sua testa porque ela era tão séria e
doce.

— Feche os olhos. Vamos lá, feche seus olhos. - Ela comandou.

Eu fechei, mas imediatamente me senti tonto, desorientado, e estendi


a mão para ela. Meu equilíbrio tinha ido embora ultimamente, e eu culpei a
luxúria.

— Não tenha medo. - Eu podia ouvir o sorriso em sua voz. — Estou


bem aqui. Vou tocar em você e estará seguro. — Ela estava apreciando este
jogo.

— Mais embaixo.

— O quê? - Ela perguntou.

— Suas mãos estão no meu peito. - Eu disse.

— Sim, elas estão.

— Mantenha movendo-as para baixo. Vou dizer quando deve parar. -


Pedi.

Ela começou a rir, compreendendo. — Você não tem idéia de quantas


vezes usei minha cegueira para "acidentalmente" sentir alguém.
223

— Sério? - Minha voz se levantou em surpresa.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Não. Na verdade, não. Agora shhh! - Ela ordenou. — Preciso olhar


para você um pouco.

Engoli em seco quando suas mãos deslizaram pelo meu peito e meu
peito e abdômen, seus dedos roçando as ondas e vales dos meus músculos.
Se fosse possível, eu me sentia mais nu, mais vulnerável do que já me senti
com uma mulher, mesmo que não estivesse nu. O fato de que não podia me
ver me fez mais consciente da atenção que ela dava a cada detalhe. Ela
deslizou suas mãos sob minha camisa, e sorri em seu cabelo. Eu estava ao
mesmo tempo com cócegas e excitado.

— Sua pele é lisa. Mas há ondulações também. Eu adoro ondulações


você sabe.

Eu ri, pensando em todo o braille, as "ondulações” em sua casa que a


ajudam a ordenar seu mundo, e eu tentei não gemer quando ela correu os
dedos até a ondulação em minhas costas e descansou a cabeça contra o meu
peito, me puxando para perto. Inclinei-me e beijei o topo de sua cabeça, a
maciez de seu cabelo era agradável contra os meus lábios.

— Vou te tocar muito. - Ela disse sinceramente.

— Estou bem com isso. - Eu disse magnanimamente.

— Mas as coisas que não puder tocar, você vai ter que descrever.

— OK.

— Seus olhos... Que cor são? - Ela perguntou.


224

— Verdes.
Página

— Como a grama?
The Song of David/ Amy Harmon

— Sim, talvez um pouco mais pálida.

— E o seu cabelo?

— Escuro e claro. Uma mistura de ambos. O seu é chocolate, o meu é...


- Pensei por um momento, tentando chegar a uma descrição. — Realmente
tenho que descrevê-lo? Você pode sentir isso. - Ela passou os dedos por ele,
e eu tentei não ronronar.

Ela pegou as minhas mãos e trouxe para o rosto dela:

— Agora, olhe para mim do jeito que eu olhei para você.

Corri meus dedos sobre os ossos de sua bochecha, fechando meus


olhos para que pudesse ver da maneira que Millie via:

— Suas maçãs do rosto são altas e pronunciadas, e seu rosto é


ligeiramente em forma de coração. - Declarei, apesar de seu rosto estar em
minha mente enquanto minhas mãos traçaram as características que eu
descrevi.

— Tenho uma grande testa. - Ela interrompeu.

— E um queixo pontudo. - Acrescentei.

Senti a maciez de seu cabelo quando ela o empurrou para atrás das
orelhas:

— E orelhas grandes. - Disse ela.

Eu as percorri com meus dedos:


225
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Você tem orelhas bonitas. - Eu disse. E elas eram. Entre meus dedos
pareciam pequenas espirais delicadas e detalhadas, de pele suave na forma
de um ponto de interrogação, sempre à espera de respostas.

— Qual é sua parte favorita do meu rosto? - Millie disse depois de eu


ter explorado um pouco mais.

Toquei sua boca, pressionando meus polegares contra seu lábio


inferior e, em seguida, deslizando-os para cima para descansar no vinco
para que pudesse separá-los um pouco.

— Esta. Esta é a minha parte favorita.

— Porque você pode me beijar? - Ah, minha menina sabia como


flertar. Eu gostava disso.

— Sim. - Disse. E eu fiz. Eu a beijei suavemente e depois docemente. E


então a beijei novamente. E novamente, mais e sobre, por vários minutos,
até que nossos lábios estavam doloridos e eu sabia que devia parar, mas
encontrei-me afundando novamente, lambendo entre seus dentes e
deslizando minha língua contra a dela, pois o atrito me fazia sentir tão bem,
e seu sabor acendeu um fogo na boca do meu estômago.

— Não quero ir embora. - Disse de novo. Acho que nunca estaria


pronto para ir.

***
226

MILLIE tentou me levar para a igreja novamente, mas eu tinha uma


Página

surpresa para ela. Nós vivemos em uma cidade que se vangloriava de ter um
The Song of David/ Amy Harmon

dos coros mais famosos do mundo, e nós iríamos ouvi-los cantar. Torci
alguns braços e fiz algumas chamadas e obtive permissão para assistir um
ensaio. Não queria compartilhar a experiência com uma multidão, e Millie
ficaria completamente surpresa se eu apenas a levasse direto para a frente
do altar e me sentasse com ela. Ela estaria esperando uma multidão. Não
haveria nenhuma multidão e a surpresa seria completa.

Ela estava animada, com as bochechas cor de rosa e seu sorriso largo,
e segurou-me, apertando o meu braço como uma criança ansiosa;

— Estamos em uma igreja? - Ela sussurrou teatralmente.

— Mais ou menos.

— Não parece que há muitas pessoas aqui. Há outras pessoas aqui?

— Mais ou menos.

Suas sobrancelhas se ergueram e ela beliscou meu braço:

— Como pode ser mais ou menos? Ou há ou não há.

— Há outras pessoas aqui... Mas eles não estão frequentando a igreja.

— Okaaaay. - Disse Millie, em dúvida, mas eu poderia dizer que ela


estava dançando em sua pele. Toda a parede do fundo abrigava um grande
órgão, algo que eu nunca tinha visto antes, e quando o organista começou a
tocar, senti as vibrações em meus dentes de trás e o cabelo se levantou em
meu pescoço. Millie engasgou ao meu lado, segurei sua mão e fechei meus
olhos para que pudesse experimentar do jeito dela. Em seguida, o coro
227

começou a cantar. Uma parede de som tomou conta de nós, surpreendendo


Página
The Song of David/ Amy Harmon

com o poder e a precisão penetrando em nossos poros e derramando para


baixo de nossas espinhas, até chegar às solas dos nossos pés.

Esqueci meu objetivo de manter meus olhos fechados e me encontrei


olhando para Millie em vez disso, que ergueu o queixo e foi aquecendo-se
com o som como se fosse luz do sol aquecendo sua pele. Os olhos dela
estavam fechados e seus lábios estavam entreabertos, e ela olhou como se
ela estivesse esperando para um beijo. Era um hino de Páscoa, o coro
proclamando com alegria que Ele tinha ressuscitado, seguido de aleluias
jubilosas em harmonia triunfante.

— Isso é o que o céu parece. Você não acha? - Millie respirava, mas eu
permaneci em silêncio, não querendo estragar o momento com minhas
próprias opiniões sobre o que o céu parecia. Na minha limitada experiência,
o céu era o silêncio, um silêncio tão penetrante e completo que tinha massa.
Ele tinha peso. E no silêncio não havia tristeza e culpa, arrependimento e
remorso e perda. Perda quanto ao que poderia ter sido, a perda do que
nunca seria, perda de amor, perda de vida, perda de escolha. Senti todas
essas coisas quando tinha engolido aquela garrafa de aspirina e cortado os
pulsos. Eu perdi a consciência só para tornar-me mais consciente, mais
alerta.

E o silêncio foi ensurdecedor. Não era escuridão. Ele foi luminoso. Tão
leve que você não tinha escolha, só podia ver a si mesmo, você inteiro. Eu
não tinha gostado. Embora eu gemesse e protestasse sendo arrancado de
volta para o chão, arrancado do céu ou do inferno, qualquer que fosse, senti-
228

me grato também. E minha gratidão me encheu de culpa. Até que conheci


Página

Moses e o céu se tornou algo diferente. Moses viu as pessoas, as pessoas que
The Song of David/ Amy Harmon

tinham morrido e ido embora. O céu não ficou em silêncio por Moses. Ele
era cheio de memórias e momentos, cheio de cor. Ele trouxe os mortos de
volta à vida. Pintou-os. Moses não queria ver nada disso, mas ele não tinha
escolha. Teve que entrar em acordo com ele. E eu fui junto com ele,
persistente em minha devoção, porque Moses viu a irmã que eu nunca veria
outra vez, e ele trouxe respostas que mais ninguém trouxe. Mesmo aquelas
respostas que às vezes fazem a morte mais sedutora. Pelo menos a morte
não foi o fim. Disso, eu tinha certeza.

Talvez para Millie o céu era um lugar que soava como coros angélicos
e órgãos de tubos, porque era onde ela se sentia viva. Era tudo sobre o som
para Millie, não a visão. Nem cores, como era para Moses. Mas para mim, o
céu seria algo mais. Soaria como o sino no início de um round, seria o gosto
de adrenalina, queimaria como suor nos meus olhos e fogo na minha
barriga. Pareceria com o grito de multidões e um adversário que queria o
meu sangue. Para mim, o céu era o octógono.

— Você sabe que a minha luta contra Santos é terça à noite, certo? -
Falando sobre isso agora, enquanto ainda estava sentado no templo, não era
provavelmente, a melhor hora. Os cabelos no meu braço tinha se arrepiado
na última meia hora enquanto nós escutávamos uma música após a outra. O
coro cantava "Beautiful Savior," e eu estava olhando para o rosto de Millie,
pensando que bela salvadora ela acabou sendo. Se o céu era o octógono, em
seguida, Millie era o meu anjo no centro de tudo. A menina com o poder para
me derrubar e me levantar de novo.
229

A garota por quem eu queria lutar, a garota que eu quis reivindicar.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Sim? - Seus lábios se aproximaram do meu ouvido para a nossa


conversa não interromper o ensaio. Não respondi de imediato, esperando a
música chegar ao fim. O diretor acenou para o órgão e o coro em silêncio, e
eu agarrei a mão de Millie e saí pela caminho de onde viemos, murmurando
um agradecimento para o amigo do coro que fez isso acontecer. Ele me deu
uma piscadela e um polegar para cima, e Millie se agarrou ao meu braço até
que estávamos fora no sol aberto. Ela soltou seu aperto e inclinou o rosto
para cima, em busca do calor e me dando uma vista perfeita de sua adorável
garganta.

— Não quero você na plateia na terça-feira, Millie. - Disse


abruptamente.

— Você não quer? - O queixo dela caiu, o sol esquecido.

— Não, baby. - Eu disse suavemente.

— Por quê? - Seu tom era melancólico.

— Não vou ser capaz de me concentrar no que tenho que fazer. Vou
estar preocupado com você.

Ela suspirou, um suspiro tempestuoso que levantou os fios escuros de


seu cabelo mais próximos à boca.

— Assim que ganhar, eu venho para você. - Prometi.

— Você vai ganhar?

— Sim. Vou ganhar, vou levantar os braços acima da minha cabeça, e


230

vou dizer: Yo Millie, nós ganhamos!


Página

— Quão Rocky Balboa é você! - Ela sorriu.


The Song of David/ Amy Harmon

— Está certo. E então vou correndo através da multidão, para fora


das portas, três quarteirões para baixo, duas quadras, e vou bater na sua
porta, e você pode felicitar-me de qualquer maneira que quiser. Certifique-
se quanto ao Henry com o Robin.

Ela riu, mas eu poderia dizer que não queria rir. O silêncio se
estabeleceu entre nós, e começamos a caminhar, serpenteando na direção
de onde eu tinha estacionado. A região ao redor do templo estava
perfeitamente cuidada e ideal para caminhadas, mesmo que Millie não
pudesse desfrutar da paisagem.

Não sou feita de vidro, David. - Ela disse suavemente.

— Eu sei.

— Realmente? Porque estou supondo que se eu pudesse ver, você me


quereria em sua luta.

— Talvez. - Admiti, acenando para mim mesmo. — Mas você não pode
ver. E ter você lá fora, no meio da multidão, sendo batida e empurrada,
ouvindo a luta indo para baixo, e não sabendo se vou ganhar ou perder,
parece desnecessariamente cruel. E não quero isso. Você vai ter medo por
mim, e eu vou ter medo por você, e se eu estiver preocupado com você,
minha mente não está onde ela precisa estar.

— Mas Tag, isso é como deve funcionar. Eu me importo com você,


você se preocupa a mim. É chamado de relacionamento. - Havia frustração
em sua voz, e notei que ela me chamava de Tag sempre que estava um pouco
231

irritada comigo.
Página

— Eu protejo você, você me protege. - Insistiu.


The Song of David/ Amy Harmon

— Isso é como funciona. Você me protege estando segura e protegida


enquanto eu lutar, então eu não ficarei distraído. E eu a protejo insistindo
nisso.

Ela suspirou de novo, e eu parei de caminhar e virei seu o rosto para


mim. Gentilmente, com as pontas dos meus dedos, alisei sua testa, tracei a
carranca entre os olhos, e, em seguida, toquei-lhe os cantos dos lábios,
empurrando as bordas para cima, forçando-a sorrir.

— Ela pegou minhas mãos e beliscou na ponta dos dedos, mordendo


um pouco mais duro que de brincadeira, mostrando-me sua frustração.

— O combate vai ser transmitido na FightNet. A FOX Esportes vai


estar lá também, mas não acho que vai ao ar até mais tarde. Mas na FightNet
você pode ver em tempo real. Você pode logar e assistir em casa. Mikey faz o
play-by-play para a Tag Team Lutas. Ele é bom no que faz, Millie, e vou ter
certeza que ele sabe que você está ouvindo então ele será um pouco mais
detalhista o habitual. Desse modo, você vai saber exatamente o que está
acontecendo quando acontecer.

Ela balançou a cabeça como se não concordasse em tudo.

— Por favor, Millie? - Sussurrei.

— Não quero que você se sinta sozinho. Parece errado não estar lá. -
Ela protestou.

— Toda a gente luta sozinho, Millie. Isso não é algo que você pode me
ajudar a fazer.
232

— Ok. - Ela sussurrou.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Tudo bem? - Perguntei.

— Ok. - Ela concordou.

Beijei-a com gratidão, quase desesperadamente, e ela me beijou de


volta. Mas senti a dor e saboreei as reservas.

Quando a deixei em casa, não entrei e ela não estava emburrada ou de


mau humor. Eu estava zumbindo com energia reprimida, nervoso e
antecipação. Tinha 48 horas para me preparar mentalmente para a luta, e
precisava de uma cabeça clara e sem distrações. Mesmo aquelas que são
bonitas.

— Você vai vir aqui na terça à noite, não importa que horas sejam? -
Perguntou, sua mão na maçaneta da porta, sua bengala pronta.

— Eu vou. - Prometi. Sangrando, machucado, batido, eu estaria lá.

— Vou estar ouvindo, vou estar torcendo, e estarei esperando. - Ela


disse simplesmente. Ela empurrou a porta aberta, deslizou a bengala pelo
chão, e observei enquanto ela entrou e cuidadosamente fechou a porta.

Moses
233

MILLIE não tinha ido à luta. Percebi agora. Na época, estava muito
empolgado com a energia da multidão e a promoção do grande evento para
Página

notar uma falta do sexo feminino, especialmente quando ela não era minha
The Song of David/ Amy Harmon

mulher. Georgia não tinha ido. Ela beijou-me e disse-me que bebês e brigas
não se misturavam, então eu deveria ir sem ela. Ela disse que ela e Kathleen
ficariam em casa e fariam coisas de meninas. Eu sabia que "coisas de
meninas” basicamente significava que Georgia iria alimentar e dar banho em
Kathleen, balançá-la para dormir, e ir para a cama cedo com ela mesma, mas
eu a deixei me convencer a isso. Então, estava sozinho, sentado no Front
Row com alguns membros da equipe de Tag, quando Tag desfilou na arena
com uma música de Waylon Jennings sobre cowboys serem difíceis de amar
e mais difíceis de segurar. A multidão aplaudiu e se juntou em no refrão, e
Tag os encorajou. Isso me fez rir. Eu estava tão nervoso que estava
praticamente vendo em dobro, e ele estava agindo como um gorila grande,
macaqueando para a casa lotada, seu sorriso largo, seus músculos
protuberantes. Ele não parecia nervoso em tudo, e quando ele me chamou a
atenção, ele sorriu e bateu seu peito.

Bruno Santos, por outro lado, entrou na arena envolta em uma túnica
branca com uma capa tão profunda que a única coisa visível era a ponta de
seu queixo. Sua canção escolhida foi algo tão grave e pesado que eu não
conseguia distinguir as letras, embora peguei as palavras "destruição" e
"aniquilação." Ele estava pulando em círculos, encolhendo os ombros e
lançando seu pescoço, e de repente desejei ter ficado em casa com Georgia.
Preocupar-me com as pessoas era um dor na minha bunda. Assistindo a luta
de Tag luta foi uma dor maior na minha bunda. Meu estômago virou, e olhei
para o meu amigo, desejando que ele me colocasse para fora da minha
234

miséria O mais breve possível.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Claro que ele não fez. Mas ele lutou. Ele lutou duro e feio, tomando
tantos golpes quando os que distribuiu, e como de costume, ele parecia lutar
melhor depois de ter tomado um par de socos no rosto. Como a canção
disse, ele era difícil de segurar. Mas ele definitivamente não era difícil de
amar. A multidão estava solidamente ao seu lado, e quando ele voltou na
quarta rodada, escapando arm-bar21 que tinha feito o meu estômago torcer
e meu olhos encherem de água, a multidão estava em um frenesi.

E então, quando parecia que acabaria em uma decisão, uma decisão


que não favoreceria o desafiante, raramente favoreciam, Tag atingiu Santos
na testa com um roundhouse22 que empolgou a multidão e abalou seu
adversário. Santos tropeçou, e Tag foi em cima dele, seus punhos de voando,
Santos cobrindo a cabeça, não retornando os golpes. E então tudo estava
acabado. TKO23 para Taggert. Eu estava fora do meu assento, gritando e
saltando com o resto da equipe, delirante com alívio e radiante com a virada.
Engraçado, nunca me ocorreu que Millie não estava lá, mas eu
definitivamente notei que Tag não estava em torno quando tudo acabou. Ele
era todo negócio no final, entrevistas e parabéns, cumprimentos e tudo o
mais. Mas ele deixou tudo quando o acompanhei até seu caminhão e a festa
continuou sem nós. Fui para casa para minha esposa, e claramente, ele foi
para casa de Millie.
235

21
Página

Golpe de luta, o chamado chave de braço.


22
Outro golpe de luta, um chute ou soco circular.
23
Fim da luta. Sigla para The knockout.
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO QUATORZE
TAG

Levei cerca de duas horas depois da luta para manter minha


promessa. Eu tinha uma entrevista, uma chuveirada, um músculo
pressionado e friccionado, e outra série de entrevistas antes que pudesse
me separar da atmosfera de celebração e ir para Millie. Eu estava dolorido,
tomei alguns ibuprofenos, mas a adrenalina ainda estava bombeando e
queria ver minha garota.

Eles devem ter me visto, pois Henry disparou pela porta da frente,
zumbindo em torno de mim antes mesmo de eu fazer todo o caminho para
fora da caminhonete. Millie tinha sua bengala e estava na varanda,
esperando por mim, assim como havia prometido.

— Tag! - Henry estalando seus dedos de novo, obviamente


emocionado em me ver. — Quarenta por cento das lutas da categoria Peso
Meio-Pesado terminam em TKO24 ou KO25. - Ele recitou. Foi legal vê-lo
usando jargões de luta. Coloquei meus braços ao redor de seus ombros e o
puxei de volta para a direção da casa.

— Amelie gritou durante toda a luta. Quando eu disse a ela então que
seu nariz estava sangrando, ela tapou as orelhas.
236

24
TKO quer dizer nocaute técnico, ou seja, quando o juiz encerra a luta para impedir golpes desnecessários,
Página

preservando assim a integridade física do lutador perdedor.


25
KO é uma sigla para nocaute, que acontece quando o lutador encerra a luta, deixando o adversário inconsciente
por um golpe certeiro.
The Song of David/ Amy Harmon

— Henry. - Amelie suspirou, o repreendendo. Mas ela levantou uma


mão para mim, e aceitei, liberando Henry e puxando-a para mim, colocando
seu corpo contra o meu, sob meu braço direito, enquanto entramos na casa
e fechamos a porta atrás de nós.

— O juiz parou a luta! Ele parou a luta porque você ia matar Santos?
Ficou com raiva quando ele fez seu nariz sangrar? - A sombra de Henry
boxeava pelo vestíbulo.

— Nah. Isso só me fez lutar mais duro. - Ri com os olhos arregalados


de Henry recapitulando.

— Todo mundo gritava Tag Team! Daí comecei a gritar também! Toda
a multidão usava camisetas Tag Team! - Henry estava tão animado que
praticamente levitava. Me lembrei da camisa que ainda estava apertada na
minha mão direita.

— Isso me lembrou disso! Aqui, tenho uma para você. - Joguei para
Henry e ele a pegou e colocou em cima da camiseta de Kobe Bryant que já
estava vestindo. A camisa o silenciou momentaneamente, e ficou se
admirando no espelho pendurado do lado da escadaria.

— Trouxe uma para você também, Millie. - Murmurei. — Mas deixei


na caminhonete. É da sua cor favorita.

— Será que ela diz “Meu namorado lutou com Santos, mas tudo que
consegui foi uma camiseta feia?” - Disse secamente, com um sorriso
brincando em torno de seus lábios.
237
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The Song of David/ Amy Harmon

— Oh cara! Essa doeu! - Falei devagar, mas me inclinei e toquei minha


boca na dela, envolvendo meus braços ao seu redor. Ela retribuiu e me
apertou, enterrando o rosto no meu peito.

— Eu te perdoo. - Sussurrou. — Mas nunca mais vou ficar em casa de


novo. Essa foi uma das experiências mais angustiantes da minha vida.

— Eu te disse que ia ganhar. E depois viria aqui. E aqui estou eu. -


Disse, acariciando seus cabelos.

— Você vai casar com a gente, Tag? - Henry perguntou atentamente,


se inserindo de volta na conversa.

— O quê? - Eu não tinha certeza se ouvi direito.

— Vai casar com Millie e ser meu irmão? - Repetiu, com uma
expressão completamente séria. Ele não estava brincando. — Nós queremos
fazer parte do Tag Team.

Dei uma risada e olhei para Millie. Seu rosto estava congelado. Suas
costas tinham ficado rígidas assim que as palavras saíram da boca de Henry,
e se libertou dos meus braços. Pegou a bengala que tinha posto de lado,
como se precisasse de algo, sem ser eu, para se agarrar.

— Estatisticamente, atletas com sólidas unidades familiares tem


melhor resistência, mais objetivo, melhor saúde mental e melhor
desempenho global que atletas que são divorciados ou solteiros. - Henry
divagou roboticamente, e arranquei meu olhar chocado de Millie.
238

— Inventou isso, Henry? - Sorri.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Henry pareceu confuso, como se inventar curiosidade esportivas para


embasar seus argumentos fosse impossível. Talvez fosse. Talvez no mundo
de Henry, onde as linhas e fatos eram totalmente desenhadas, mentir nem
sequer era viável.

— Você já faz parte do Tag Team, Henry. - Eu disse gentilmente. —


Tem a camisa para provar isso. E vou arranjar quantas desejar, de todas as
cores, e você pode ficar do meu lado a qualquer hora.

Henry inclinou a cabeça para o lado, considerando minha oferta, mas a


decepção era evidente na sua expressão. Millie se virou, apalpou a porta da
frente, e saiu de casa numa corrida.

— Millie! - Chamei atrás dela, mas não hesitou, e eu podia ouvir o


barulho de sua bengala batendo na calçada na frente da casa.

— Ah Henry. Você sai e sai agora. - Ri, e meu riso me surpreendeu.


Então fiz minha aparente não-reação a palavra com “C”. Quando as garotas
começavam a soltar dicas sobre qualquer tipo de compromisso, era sempre
a última vez que perguntavam isso. Sempre. Eu era bom nesse esconde-
esconde. Ninguém nunca me pegou.

Acho que sempre pensei que iria me casar um dia. Com oitentas anos.
Mas Henry estava me propondo, e isso não me alarmou nem um pouco. De
fato, a idéia de casar com Millie fez meu pulso acelerar. Fez a palma das
minhas mãos formigarem. Fez meu coração dar um sorriso tão grande que
eu poderia sentir as bordas desse sorriso cutucando minha costela. Isso ou
239

eu estava já começando a sentir as dores da luta com Santos.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Por ambos perderam tantos jogadores para o serviço militar da


segunda guerra mundial, a Pittsburgh Steelers26 e a Philadelphia Eagles27
combinaram se tornar o Steagles durante a temporada de 1943. - Henry
recitou.

— O quê? Os Steagles? - Meus olhos estavam em Henry, mas eu


precisava perseguir Millie.

Henry concordou, completamente sério.

— Nós poderíamos fazer isso. Se juntar. Poderíamos ser os


Taggersons.

— Essa é uma idéia muito interessante, Henry. - Balancei a cabeça,


mordendo meus lábios para não rir. — Mas eu preciso convencer Millie. Não
tenho certeza se ela quer ser os Taggersons ainda.

— Andert? - Henry ofereceu outra combinação, franzindo o nariz, e


depois balançando a cabeça, como se isso não soasse atraente.

— Só me dê um minuto para ver o que Millie pensa. Okay?

Henry fez um sinal com o polegar para cima e se sentou num degrau
para esperar o veredito.

Corri para longe da porta e fui até a rua, olhando para a direita e para
esquerda na calçada, esperando que Millie não tenha ido muito longe para
eu facilmente encontrá-la. A vejo a meio quarteirão de distância.
240

26
Página

Pittsburgh Steelers é um time de futebol americano da cidade de Pittsburgh, Pensilvânia, que disputa a NFL
desde 1933. Steelers significa, em português, "metalúrgicos", aludindo a uma das indústrias mais fortes da cidade.
27
Philadelphia Eagles é um time de futebol americano da cidade de Filadélfia, Pensilvânia que disputa a NFL.
The Song of David/ Amy Harmon

— Millie! - Parecia que estava indo na direção da igreja, e eu galopava


para a alcançar, chamando, sentindo cada golpe que levei nessa noite
enquanto a perseguia. — Millie! Espere, amor. Você está me matando. - Ela
parou, mas não se virou. Ficou rígida, segurando sua bengala, da mesma
maneira que segurou quando a vi pela primeira vez do lado de fora do bar,
como uma pastora silenciosa mais uma vez. — Millie! - Diminuí o ritmo e me
aproximei, envolvendo minhas mãos em torno dela, de modo que nós dois
segurávamos a bengala, como duas pessoas num metrô, compartilhando o
mesmo poste. Então puxei suavemente, tirando a vara de suas mãos, para
que ela me agarrasse ao invés disso. — Por que está fugindo?

— A questão é, por que você não está? - Ela perguntou, mordendo o


lábio.

— Você quer ser uma Taggerson, Millie? - Sussurrei, liberando seus


lábios dos dentes para beijá-la melhor.

— Uma o quê? - Exalou.

— Ou talvez uma Andert? - Escovei minha boca sobre a dela de novo,


abrindo seus lábios ligeiramente, me esperando aplicar um pouco mais de
pressão.

— Henry parece achar que nós devemos mesclar nossos nomes. -


Expliquei.

Millie gemeu, e eu podia sentir o constrangimento vindo como ondas.

— Henry realmente precisa parar de pedir para homens crescidos se


241

casarem com ele. - Reclamou.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Yeah... ele ainda é um pouco jovem para esse tipo de compromisso.


- Pressionei outro beijo no seu lábio superior, então no inferior, a
acalmando, assegurando que por alguns minutos não houvesse conversa.

— David? - Ela sussurrou quando eu finalmente a deixei respirar.

— Yeah? - Caí de volta nela, nem sendo capaz de me ajudar. Ela tinha
gosto de água fria e quentes desejos, eu estava me afogando e me
aquecendo, com minha luta já esquecida, o inchaço na minha bochecha e a
brandura nas minhas costelas completamente inexistentes.

— Estou apaixonada por você. - Millie confessou baixinho. Senti suas


palavras nos meus lábios e o formato delas na minha cabeça, e ficamos
completamente parados, deixando isso girar em torno de nós. O ar de
repente floresceu, vivo, numa explosão desenfreada de cor e som. O mundo
era mágico, e eu era o rei.

— Estou apaixonado por você também. - Eu disse, sem qualquer


hesitação. As palavras deslizaram para fora da minha boca numa total
veracidade.

Puta merda.

Eu estava apaixonado por Amelie Anderson. Eu estava apaixonado por


uma garota cega, e tudo ao redor ficou num foco nítido.

Millie recuou e sorriu, um grande e deslumbrante que me fez sorrir


também.
242

— Isso quer dizer que vai usar minha camiseta? - Perguntei.


Página

— Orgulhosamente. - Respondeu.
The Song of David/ Amy Harmon

Parado no meio da calçada, com a iluminação da rua criando um halo


branco em torno de nós, eu beijei Millie com toda a intenção de jamais
deixar ela ir. Nunca.

A levei de volta para casa e não houve mais conversas sobre


Taggersons ou Anderts nessa noite. Millie severamente informou a Henry
que ele era muito jovem para casar, e que ia ter que se contentar com a
camiseta. Ele pareceu um pouco irritado com isso, e dei de ombros, como se
não fosse minha decisão. Eu ia ter certeza de ele ter as camisetas para cada
dia da semana, e uma para Ayumi também, isso pareceu acalma-lo um
pouco.

Mas a semente já havia sido plantada.

Conheci Millie há dois meses, mais eu estava mais seguro disso do que
qualquer coisa na minha vida. Eu estava no meio do caminho do altar e
apenas estava esperando ela me alcançar.

***

Nos dias seguintes a luta de Santos, as coisas ficaram um pouco mais


agitadas, e não menos, o frenesi me esvaziou. Eu estava cansado pela
primeira vez na minha vida. Era uma sensação estranha. Descobri que só
queria estar com Millie e Henry, e passei mais tempo na casa deles que na
minha. De fato, comecei a me sentir como em casa. Tanto que caí no sono no
sofá uma noite assistindo um jogo com Henry, e acordei com uma música.
243

Millie estava sentada no chão, no meio da sala de estar, de costas para


Página

mim, com sua guitarra embalada bem no meio das pernas. O jogo
The Song of David/ Amy Harmon

claramente tinha acabado, e Henry obviamente tinha desistido de mim e ido


para a cama. Eu ia ter que compensá-lo, mas não me importei em perder o
jogo. Nunca fui um grande espectador de qualquer maneira. Eu preferia
jogar.

Assisti Millie escolher seu caminho por um par de canções, sua cabeça
inclinada para a guitarra como se gostasse da maneira como as cordas
rangiam. Segurou a guitarra em pé, pescoço quase na vertical, e escutei, sem
comentar, deixando ela ainda pensar que eu estava dormindo. Ela sempre
me surpreendia. Eu sabia que ela tocava, mas não que era tão malditamente
boa.

— Por que nunca tocou para mim antes? - Perguntei baixinho, com
minha voz sonolenta e satisfeita.

— Você está acordado. - Disse e pude ouvir o sorriso em sua voz.

— Acordei, você é linda, e precisei estar aqui.

Ela me ignorou, com seus dedos encontrando seu caminho através das
cordas.

— Se você fosse um acorde, David, que acorde seria? - Meditou,


tocando uma nota atrás da outra.

Escutei enquanto ela experimentava.

— Oh, aqui tem uma boa, mas triste. - Disse, dedilhando suavemente.

— Acha que sou triste? - Perguntei.


244

— Nah. Definitivamente não. Esse não é seu acorde. Nenhum acorde


Página

menor para você.


The Song of David/ Amy Harmon

— Absolutamente não. Sou acorde maior por toda parte. Um maior


acorde e um maior garanhão. - Ela riu e suspirei. Não sabia que horas eram,
mas o brilho dourado das lâmpadas perto e os acordes quentes fizeram
meus olhos pesados e meu coração aceso.

— Esse é o acorde de Henry. - Millie tocou algo dissonante e curioso, e


soltei uma risada alta, porque isso fazia total sentido. — Mas para você seria
algo mais profundo. - Acrescentou.

— Porque sou um homem sexy. - Arrastei as palavras.

— Sim. Porque você é um homem sexy. E nós vamos querer algo com
um pouco mais de sotaque nele.

— Porque sou um texano sexy.

— Um sexy texano de Utah. - Ela tentou mais algumas notas, rindo e


franzindo o nariz enquanto tentava encontrar o acorde certo. — E
precisamos de algo mais doce.

— Doce e violento? - Perguntei.

— Sexy, com sotaque, doce e violento. Isso pode ser mais difícil que
pensei. - Disse, ainda rindo.

Ela dedilhou algo forte e gutural, escolhendo cada sequência de


cordas, e depois, dedilhando-as juntas. — Aqui está, ouviu isso? Isso que é
Tag.

— Eu gostei. - Eu disse, satisfeito.


245
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Ela estendeu a mão, seu dedo mindinho pressionado a corda inferior e


o acorde mudou instantaneamente, um outro tom, uma sonoridade um
pouco mais diferente, como se a corda não tivesse se resolvido.

— E isso é David.

Sentei no chão atrás dela e agarrei suas coxas dobradas, puxando-as


para mim, para que eu me aninhasse a ela da mesma maneira que ela
embalou a guitarra. E se inclinou para trás contra meu peito, abrigou sua
cabeça de um lado do meu queixo, e continuou a dedilhar os acordes que
nomeou para mim.

— Me deixe ouvir a sua música, Millie.

— Você quer dizer meu acorde?

— Nah. Sua música. Você é uma mulher. Mulheres nunca são só um


acorde.

Ela riu suavemente.

— Fico feliz que sabe disso, mas eu meio que desejava que você não
soubesse tanto sobre as mulheres. Faz-me perguntar como você ganhou
todo esse conhecimento. E fico um pouco ciumenta.

— Eu cresci com três irmãs e uma cheia de opinião e briguenta mãe.


Aprendi cedo.

— Boa resposta, garotão.

— É a verdade, amor. Então toque. Toque sua música.


246

— Não a compus ainda.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Vai colocar meu acorde na sua música?

— Porque isso me soa tão sugestivo? - Ela disse sorrindo, mas havia
algo de melancólico em sua voz.

— Porque sou um homem sexy.

— Vou colocar seu acorde na minha música. De ambos, Tag e David. E


vou o colocar o de Henry também.

— E sua mãe? Ela tem um acorde?

Millie moveu sua mão imediatamente e tocou algo quente e macio,


algo feliz, ainda que melancólico.

— Esse é da minha mãe, aquele acorde. Você reconhece?

Pensei por um minuto.

— É parte da sua música?

— É parte de uma antiga canção country. É o primeiro acorde de “Blue


Eyes Crying in the Rain.”28

Eu cantei ela algumas vezes em bares. A conhecia muito bem.

— E é isso. Amo essa música. Minha mãe tinha olhos azuis, assim
como o meu e de Henry. E ela não passava muito tempo chorando, graças a
Deus. Ela gastou seu tempo sendo amorosa. Mas havia ânsia nela também.
Ela queria nos proteger da dor. Queria de volta todas as coisas que tinham
sido tomadas de nós ou negadas. Ela ansiava por isso. E ela não podia
247

28
Página

Música do cantor country Willie Nelson, o nome da canção traduzida é “Olhos Azuis Chorando na Chuva”, fala
sobre um amor impossível e a promessa de um reencontro numa terra que não conheça despedidas.
The Song of David/ Amy Harmon

conseguir isso. Não importando o quanto nos amasse, ela não podia
conseguir.

— Acho que nenhum de nós pode.

— Não. Nenhum de nós pode. Ela me disse algo antes de morrer, e eu


penso sobre isso algumas vezes quando tenho um momento difícil. Disse
que durante toda a sua vida quis nos salvar do sofrimento. Esse foi seu
trabalho como mãe, nos salvar do sofrimento, mas nós sofremos de
qualquer maneira. - Millie pausou, como se tivesse relembrando da
conversa, e eu quis beijar sua boca, beijar aquele lábio inferior que tremia
um pouco com a memória emocional. Pressionei meus lábios na curva de
sua bochecha ao invés disso, com medo que se beijasse sua boca, nunca ia
ouvir o final da sua história.

— E então ela disse, ‘eu queria salvar você e Henry do sofrimento, mas
só agora percebi que o sofrimento torna as pessoas melhores’. Ela estava
morrendo, e estava nos mostrando os termos com o fato que nós iriamos
perde-la.

— E o que você acha? O sofrimento nos faz pessoas melhores? -


Perguntei.

— Tudo depende da pessoa, eu suponho. - Meditou.

— Talvez isso dependa da quantidade de sofrimento também. -


Adicionei, acariciando seu cabelo.

— E se você tem pessoas segurando sua mão ao longo do caminho,


248

compartilhando os fardos, arcando com um pouco de dor. - Ela se inclinou


Página

para minha mão.


The Song of David/ Amy Harmon

— Você tem isso, Millie? - Perguntei em voz baixa.

— Tenho. Minha mãe pode não ter sido capaz de manter longe o
sofrimento, e eu certamente não podia manter ela longe, ou Henry, de
qualquer maneira. Mas nós amamos uns aos outros, e isso fez o sofrimento
suportável.

— Eu quero ser assim para você, Millie. Eu quero te carregar. E quero


que você dê tudo isso para mim. - Eu disse, então cantando um pouco de
Rolling Stones em seu ouvido, mudando a letra um pouco.

— Me deixe ser seu animal de carga, minhas costas são largas para
aliviar sua dor29. - Cantei, beijando o lóbulo de sua orelha. Eu ia amá-la e
mantê-la segura, e juro por mim mesmo, que eu faria o impossível. Não
haveria mais sofrimento para Amelie Anderson. Eu ia ser o único a assumir
toda a merda.

Ela me deixou acariciar o seu pescoço por um minuto, cantarolando


alegremente.

— Tem algumas outras palavras nessa canção, David. Ele pergunta se


isso é suficiente. Se ele é suficiente para ela. Então estou perguntando a
você, Tag. Eu sou suficiente? Porque não sou tão cega para não ver.

A ponte para a música que ela citou deu cambalhotas na minha mente
e balancei a cabeça, espantado. Eu tinha esquecido a parte sobre ser muito
cego.

— Sou resistente o suficiente? Sou forte o suficiente? - Cantei, mais do


249

que um pouco excitado.


Página

29
A música que ele fala é “Beast Of Burder”, Rolling Stones.
The Song of David/ Amy Harmon

— Então você vai dar tudo de si para mim, garotão? O bom, o mau, e o
feio? Porque eu quero tudo isso. - Sorri com sua séria entrega, sua
declaração sincera, e tentei não rir da insinuação sexual. Ela não tinha idéia.
Então eu não iria me rachar de rir.

Puxei a guitarra de suas mãos e a coloquei no chão.

— Você é mais do que suficiente, inocente Millie.

Ela se virou para meus braços e achei seu rosto com minhas mãos
antes dela deixar seus lábios tocarem os meus. A beijei como Mick Jagger
cantava a estrofe sobre abrir as cortinas e fazer amor gostoso em algum
lugar no fundo da minha mente.

Moses

— Olá Doutor? É Moses Wright.

— Moses! É tão bom ouvir você! - A voz do Dr. Andelin estava


profunda e quente como manteiga, do jeito que sempre foi, e fiquei
maravilhado com sua capacidade de fazer as pessoas se sentirem seguras
instantaneamente, melhor, ouvi. Ele tinha sito um novo psicólogo estridente
250

quando o conheci em Montlake, talvez com vinte e seis ou vinte sete anos de
idade, mas tinha uma coisa sobre ele que faz sentir como sua alma tivesse
Página

vivido um milhão de vidas. Era sábio e bondoso, e tanto Tag como eu


The Song of David/ Amy Harmon

gostávamos muito dele. Mas eu pressionei através de sutilezas no que Tag


era tão bom, interrompendo Noah Andelin mesmo sabendo que ia ser rude e
ele pensaria que eu tinha perdido todo o território que consegui desde
quando eu era um ranzinza de dezoito anos aos seus cuidados em Montlake.

— Doutor Andelin, sei que você viu que Tag tem uma base
razoavelmente regular desde que voltamos de Utah. E sei que você não pode
me dizer o que conversaram. Eu entendo. Sigilo médico-paciente e todas
essas coisas. Não quero saber o que Tag disse ou o que você disse para ele.
Mas ele se foi, Doutor. Apenas partiu de repente. Ele se apaixonou por uma
ótima garota que o ama de volta, mas continuo vendo sua irmã, Doutor, e
não preciso te dizer que isso me assusta até a morte.

Eu não estava conectando meus pensamentos muito bem, mas a


ingestão rápida de ar na linha confirmou que Noah Andelin estava ainda
comigo.

— Na sua opinião profissional, ele mesmo vai se machucar? Quero


dizer. Ele não é suicida. - Parei de repente, porque percebi que eu não sabia
se isso era verdade. Ouvindo Tag, eu não tinha ideia se ele estava
emocionalmente de volta aos corredores de Montlake, querendo fugir de si
mesmo. Mudei minha afirmação. — Ele não está suicida como era. Em
alguns aspectos, Tag é um cara saudável que conheço. Mas ele tem uma raia
louca e é ótimo em salvar todo mundo e nem sempre muito bom em cuida
de si mesmo. Ele só decolou tão repentinamente. Para onde você acha que
ele foi? Você tem algum conselho que poderia me ajudar a encontrá-lo?
251

Dr. Andelin não respondeu imediatamente, e eu poderia o imaginar


Página

com a mão contra o rosto, com a cabeça inclinada, só pensando.


The Song of David/ Amy Harmon

— Como você não sabe se ele está apenas... fazendo uma pausa? -
Terminou de modo vazio, como se estivesse tentando chegar a uma
alternativa viável.

— Ele nos deixou algumas fitas cassetes. A garota que ele está vendo é
cega. Então ele gravou a si mesmo, conversando com ela, basicamente.

— Amelie. - Dr. Andelin forneceu, e percebi que Tag havia consultado


com ele alguma coisa.

— Então você sabe sobre ela.

— Sim. Vi ele há um mês. Ele estava... - Dr. Andelin parou, como se


estivesse tentando negociar cuidadosamente o sigilo. — Ele estava mais feliz
do que já vi. E isto foi... inesperado.

— Te ajudaria ouvir as fitas? - Eu estava desesperado. E esperava que


Millie não se opusesse.

— Será que ele te deu alguma razão para acreditar que há alguma
coisa que você pode fazer? - Dr. Andelin perguntou calmamente.

— O quê? - Senti a onda de raiva nas minhas veias, e eu queria jogar o


telefone na parede.

— Quanto tempo desde que alguém viu ele? - Sua voz era
insuportavelmente gentil.

— Mais de duas Semanas. - Sussurrei.


252
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO QUINZE
TAG

— Tag! - Lisa parecia um pouco aflita, com olhos arregalados, e suas


mãos tremendo. — Uh, eu acho que temos um problema. Morgan... Morgan
está no lounge. Ele ficou bebendo pelas últimas horas, e está começando a
ficar agressivo. Eu não queria colocar ele em apuros. Morg é meu amigo. E
não sei o que aconteceu com seu trabalho, mas, bem - Eu estava no bar,
dando instruções para Vince e fui indo pelo corredor para o lounge com Lisa
trotando atrás de mim, dando todos os tipos de desculpas para Morgan.

A música tocava alta, era alguma coisa que soava gutural e mundana, e
Amelie estava no octógono, girando e balançando em torno do pole, com um
determinado sorriso preso em seu rosto. Mas ao contrário da primeira vez
que a vi dançando, e de cada vez que a assisti depois, seus olhos estavam
abertos e os movimentos pareciam rígidos. Ela claramente não estava se
divertindo.

— Não estou gostando do que eu vejo! - Uma voz rugiu. — Você está
gostando do que está vendo, princesa? - Ria. — Traga Daniele de volta!

Os outros fregueses tinham parado para assistir Amelie e espiavam,


com as mãos sobre os olhos na direção da cabine no canto. A iluminação
fraca tornou difícil ver ele muito bem, e o som barulhento camuflou seus
253

insultos, mas Morgan estava fazendo seu melhor para ser ouvido, e a
Página

atmosfera carregada não tinha nada a ver com a tensão sexual ou com
The Song of David/ Amy Harmon

dançarinas seminuas fazendo uma performance sedutora sob o holofote. Ele


estava tão atento em Amelie, que não me viu chegando. E quando cheguei
por trás da cabine o agarrei pelas orelhas e puxei-o para cima, ele ficou em
pé com um grito de dor e surpresa.

Lady Gaga cantava sobre fazer uma poker face30 e Amelia estava
tomando seu conselho, dançando como uma boneca de dar corda, incapaz
de ver o drama que se desenrolava na sua frente. E eu estava extremamente
grato por isso. Lisa gritou e Morgan rugiu assim que o arrastei pela mesa,
quebrando garrafas vazias e derrubando mais outras duas cadeiras,
felizmente a mesa estava desocupada.

Alguns clientes aplaudiram e assobiaram assim que travei meu braço


ao redor da cabeça de Morgan e fui na direção da saída de emergência.
Empurrei a porta no momento em que acabava a performance de Amelie. Eu
não ia voltar para ver os holofotes sobre a gaiola escureceram e as luzes do
salão suavemente subirem, o que era o costume quando uma nova
dançarina tomava seu lugar na gaiola. Eu queria Morgan fora da minha vista
e até não conseguir mais ouvi-lo antes de eu bater o inferno fora dele. Mas
assim que passamos pela porta para o frio da noite, nós dois respirando com
dificuldade, ambos irritados, Morgan, todo tonto, agarrou meu antebraço
que estava ao redor de seu pescoço com uma mão e tentou me acertar com a
outra. O que foi como uma Ave Maria, uma jogada de desespero, mas
aconteceu de ele ter uma garrafa de cerveja na sua mão, e a garrafa se
conectou na minha testa num estalo alto.
254

30
Página

Poker Face significa “cara de poker”, e designa a expressão que os jogadores de poker devem ter para poderem
blefar no jogo. A poker face é uma expressão vazia, que não demonstra nenhum sentimento, dificultando assim
para os adversários entenderem o que o indivíduo está prestes a fazer.
The Song of David/ Amy Harmon

O golpe me surpreendeu, e cai ficando num joelho, puxando Morgan


comigo. O sangue encheu meus olhos, e a raiva encheu minha cabeça.

— Você vai me dizer do que isso se trata, Morg? Por que decidiu
voltar?

Limpei o sangue da testa com um braço e empurrava a cabeça de


Morgan na terra com o outro.

— Eu quero meu emprego... quero meu emprego de volta. - Se


lamentou, empurrando minha mão. — Apenas pensei em tomar uma ou
duas bebidas, para ter coragem de pedir para voltar. Assisti Danielle e Crysti
dançar. Então bebi um pouco mais. E daí ela saiu. Me deixou puto dela ter
ainda o emprego e eu não. Onde está a sua lealdade, Tag? Não saquei essa,
cara.

Minha visão estava começando a turvar e minha cabeça a bater como


de Morgan tivesse pegado o martelo de Thor, em vez de uma garrafa de
cerveja. Alguém irrompeu pelas portas e parei, liberando Morgan e
balançando sob meus pés. Eu não ia para baixo. Perder a consciência
significa concussão no mundo da luta. Concussão significa obrigatoriamente
um tempo inativo e testes. Eu não tinha tempo para isso. Vince e Leo
estavam de repente do meu lado, olhando para Morgan, que ainda estava no
chão na minha frente, como se não soubesse o que fazer com ele mesmo.
Seus olhos ficaram arregalados quando percebeu o sangue escorrendo do
ferimento que ele tinha infligido.
255
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Tirei minha camiseta preta, limpei o sangue dos olhos, e pressionei-a


contra o corte na minha cabeça. Senti como se o Gran Canyon estivesse sob
meus dedos e meu estômago rolou e mexeu.

— Não volte, Morg. Sou totalmente a favor de segundas chances. Mas


aquilo? Lá dentro? Aquela foi a sua segunda chance, e você repetiu todos os
seus erros. Mostrou as suas cores, e não gostei da maneira como você parece
nelas. Não te quero por perto.

Uma viagem para a emergência era justamente onde eu queria passar


a noite. Eles tiveram que cavar fragmentos de vidro da minha testa, que
feriam mais do que o golpe. E uma dose de novocaína não era nenhum
piquenique também. Mas mantive meus olhos abertos e minha boca se
movendo enquanto o médico me costurava.

— Você vai se parecer um pouco como Frankenstein. - O médico disse,


bem-humorado. — Você tem trinta pontos mantendo tua testa junta. Pelo
menos o cabelo tapa, então acho que a cicatriz ficará muito bem escondida.
Estou um pouco mais preocupado com a concussão. Sua cabeça está
inchada, suas pupilas ainda não voltaram ao normal, e eu sei que você está
pensando em me enganar, mas seu discurso é lento e vacilante, assim como
seus joelhos. Acho que vou pedir uma ressonância só por segurança. De fato,
vou insistir nisso.

— Isso é só o meu sotaque, doutor. É apenas como falo, e estou


cansado. Estou acordado há dezesseis horas e a ressonância não vai ser
rápida, certo? - Eu fiz uma ressonância magnética na escola quando tentei
256

ficar num touro por oito segundos, um touro chamado Ginger, que me
Página

mandou cambaleando dentro de uma cerca segundos depois da minha


The Song of David/ Amy Harmon

bunda monta-lo. Menos de oito segundos garantido um teste que tinha


demorado muito. E eu tinha aprendido que era claustrofóbico e que não
queria especialmente mais montar touros.

Além disso, eu estava me sentindo bem, e queria ver Amelie. Ela devia
estar se perguntando aonde eu ando. Leo correu comigo para o hospital, e
Vince tinha voltado para dentro, enquanto o cara novo, Chuck, se certificou
que Morgan foi para casa. Todos tinham sido firmemente instruídos a
manter a boca fechada. Millie não precisava se preocupar comigo tendo a
cabeça golpeada. Para todo caso, ela teve um desordeiro e ele tinha sido
removido. Foi o que contei para os empregados. Eu contaria para ela uma
versão abreviada dos eventos e deixaria o nome de Morgan fora. Mas seu
turno acabou horas atrás, e eu não tinha a levado para casa pela primeira
vez desde que nos conhecemos. Mandei uma mensagem e disse que viria
quando pudesse, ela tinha um aplicativo em seu celular que anunciava as
mensagens e lia em voz alta quando tocava na tela. E eu propositalmente
fazia os textos ridículos, pois era muito engraçado ouvir a voz mecânica
transmitir minhas mensagens. Ela respondeu com uma letra de música
sobre tê-la acordado, e respondi pedindo para ela dormir.

— Deixo você ir para casa assim que fizermos o exame. Isso vai nos
dar mais uma hora de observação. Por favor, Tag. Em sua linha de trabalho,
dia após dia de treino, você não pode brincar com um ferimento na cabeça.

Resmunguei e resisti, mas o médico estava inflexível, e finalmente


decidi que seria mais fácil dar o que ele pedia do quer ficar discutindo. O
257

médico me puxou para fora da emergência, com um técnico me levando


Página

numa maca, e passei extenuantes quarenta e cinco minutos tentando manter


The Song of David/ Amy Harmon

a calma dentro da máquina, enquanto fotos eram tiradas do meu cérebro. Já


eram três horas quando saí do hospital, com o técnico prometendo que um
radiologista analisaria os resultados, conversaria com o médico que
solicitou o teste, e alguém me chamaria. Fui dispensado depois de tudo. Se
não fosse a dor maçante na minha testa e a necessidade desesperada de um
banho, eu me sentia absolutamente bem. A enfermeira que cuidou da minha
alta perguntou se eu tinha alguém que pudesse ficar comigo e me acordar de
vez em quando, só por segurança.

Leo tinha caído no sono na sala de espera, e eu não ia exigir mais dele
do que já tinha. Além do mais, Millie foi a única interessada em passar a
noite comigo, mesmo restando poucas horas na madrugada. Leo me deixou
em casa e tomei um banho, lavei cuidadosamente o sangue do cabelo, e fui
para Millie lá pelas quatro horas da manhã. Talvez eu não devesse ter ido
dirigindo, mas me sentia bem e não queria ficar longe por mais tempo. Eu
sabia que a chave reserva da porta da frente ficava escondida, a chave que
Henry me mostrou com toda seriedade de um homem com um segredo
altamente importante. Ele mantinha escondida dentro da treliça do
arabesco31, bem na frente da porta, e a achei na escuridão, encontrando
facilmente e mentalmente agradeci a Henry por me confiar as chaves da
casa.

Abri a porta e coloquei a chave de volta no lugar de Henry, antes de


entrar no hall escuro e na ponta dos pés subir a escada. Acendi a luz do
258
Página

31
The Song of David/ Amy Harmon

quarto, o que era uma vantagem clara de amar com garota cega, e a
encontrei esparramada na cama, celular na cabeça, e braços em torno do
travesseiro como se não quisesse ficar sozinha. Apaguei a luz de volta, tirei
os sapatos, e fui para o seu lado na escuridão. Me deitei, puxei o travesseiro
extra de seus braços e larguei minha cabeça nele, e trouxe ela para mim,
colocando meu peito para compensar o roubo do travesseiro.

— Hey. - Disse sonolenta, mas o prazer em sua voz me aqueceu.

— Hey. Volte a dormir. Não queria te acordar. Só queria ver você.

— Eu quero ver você também. - Murmurou. E imediatamente suas


mãos começaram a explorar, me fazendo sentir imediatamente menos
sonolento. Esta foi a primeira vez para nós, dormindo lado a lado, e isso era
o mais longe que eu ia, apesar de seus suspiros sonolentos e mãos errantes
me fazendo reconsiderar as opções. Eu deveria saber que ela descobriria
meu curativo rápido.

— O que é isso? - Perguntou, com seus dedos segurando minha


cabeça.

— É só alguns pontos que levei depois que um bêbado desordeiro


decidiu bater na minha testa com uma garrafa de cerveja.

Ela se sentou imediatamente.

— Um bêbado desordeiro? - Perguntou, incrédula.

Eu não respondi.
259

— Então era onde você estava? No hospital? Por que ninguém me


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contou? Por que você não me contou?


The Song of David/ Amy Harmon

— Eu não queria que você se preocupasse.

— Mas... mas... eu sou sua garota, certo? Então esse é meu trabalho.
Isso é o que as pessoas fazem quando se preocupam uma com as outras. Elas
se preocupam! - Sua voz se elevou, e a silenciei, alisando seu cabelo. Já
tivemos essa discussão antes.

— Pessoas que se importam umas com a outras não causam


preocupação desnecessária. Estou bem. Estou aqui. E vou ter uma cicatriz
impressionante para você traçar quando curar.

Millie empurrou minha mão e levantou da cama, se retirando para o


banheiro sem dizer uma palavra. E bateu a porta um pouco mais forte que o
necessário, e tentei não rir. Millie era uma típica mulher quando vem para
mostrar seu descontentamento. Ela não estava feliz em ser mantida no
escuro. A ouvi dar descarga e escutei andando em círculos por vários
minutos. Quando finalmente pisou para fora do banheiro e se deitou do meu
lado de novo, eu fingi dormir só para ver o que ela iria fazer. E ficou deitada
rigidamente ao meu lado por alguns minutos, e depois se virou para mim,
envolvendo o braço em torno da minha cintura.

— Eu sei que você não está dormindo. - Sussurrou.

— Como você sabia?

— Ficou parado demais e ouvia muito.

— Você pode me escutar ouvindo?


260

— As pessoas tomam respirações fracas ou não respiram muito


quando estão realmente ouvindo.
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The Song of David/ Amy Harmon

— Eu estava tentando ouvir seus pensamentos.

— Estou brava.

— Você não deve estar muito brava. Escovou os dentes mesmo não
precisando. O que significa que quer me beijar. O que significa que está
planejando me perdoar.

— Estou brava porque realmente gosto de você. E quero te beijar


porque realmente gosto de você.

— Ficou brava por que gosta de mim?

— Fiquei brava porque eu te amo. - Confessou com um suspiro. — E


você não me deixou saber que estava ferido.

— Bem, Millie, eu te amo também. E vou sempre proteger você. É


como eu sou. Isso é o que faço. Se você soubesse que eu iria levar alguns
pontos na cabeça, você não estaria aqui dormindo, tão doce e tão suave que
eu poderia te comer. Você teria mastigado esse lábio, se preocupando, invés
de sonhar comigo. - Me inclinei e puxei seu lábio inferior com meus dentes,
gentilmente imitando a sua tendência a morder o lábio quando ficava
preocupada. Beijei sua boca, que estava fazendo beicinho, e senti sua raiva
fugir assim que deslizei minha língua entre seus lábios.

Nossas respirações curtas aumentaram e nossos corpos ficaram


inquietos, e foi Millie que se afastou primeiro, claramente não estando
pronta para estender a noite de estreias. Fechei os olhos e ela ainda
acariciava minha cabeça, seus dedos deslizando pelo cabelo aliviando a dor
261

maçante que espreitava atrás dos olhos.


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The Song of David/ Amy Harmon

— David? - Sussurrou.

— Yeah?

— Me cante uma canção.

— Que tipo de canção, baby?

— Uma canção de amor.

— Millie, Millie. Você é tão boba32. Estou feliz do seu nome não ser
Willy. - Cantei no meu melhor sotaque country. — Me deixe reformular.
Millie, Millie, você é tão boba, eu tenho certeza que você não tem um Willy33.

— Isso não é uma canção de amor. - Ela riu.

— Okay. Que tal isso? Amo suas pernas. Amo seu peito, mas este ponto
aqui, amo mais34. - Eu fazia cócegas em sua barriga lisa e ela se contorcia
contra mim.

— Fique cantando! - Exigiu, golpeando minha mão.

— Eu amo seu queixo e seu sorriso35 engraçado, amo seu cabelo e esse
ponto aqui. - Fiz cócegas na sua costela e ela agarrou meus dedos rindo.

— Eu amei. Segundo verso, por favor.

— Amo o jeito como você balança seu bunda, amo o jeito como você
cheira tão frutado36. Amo o jeito como me chama de David, e... lá, lá, lá, nada
rima com David.
262

32
Em inglês era silly, pois o personagem escolheu essa palavra para rimar com Millie e Willy, como numa canção.
33
Gíria para pênis.
34
Página

Em inglês “pernas” rimava com “peito”, que rimava com “mais”, ou seja, legs, chest, best.
35
No original sorriso rima com a palavra queixo, no caso, grin com chin.
36
Em inglês bunda rima com frutado, no caso, booty com fruity.
The Song of David/ Amy Harmon

— Isso foi bonito. - Ela riu. — E como vai se chamar?

— Vai se chamar “Nada Rima com David”.

— Nada rima com David? - Sua voz era incrédula, e ficou em silêncio
por alguns segundos, como se estivesse tentando achar uma palavra que
rimava, provando que eu estava errado. Então, acariciou meu rosto, seus
dedos traçando meu queixo, e quando falou, sua voz era tão séria quando
seu toque.

— Isso me faz sentir tão perto de você, te ouvindo.

— Então é por isso que sempre quer que eu cante? Pensei que era pelo
meu tom meloso. - Brinquei, mas minha garganta bruscamente se apertou,
muito apertada para cantar.

— É mais do que isso. Você não pode ver uma canção. Você sente a
música, ouve a música, se move com ela. Assim como não posso te ver, mas
sinto você, e me movo na sua direção. Quando você está comigo, eu sinto um
vislumbre de David que ninguém sabe que existe. É a “Canção de David”, e
ninguém mais pode ouvir fora eu.

Meu coração estremeceu e depois cresceu o dobro do seu tamanho,


como um Hulk destruindo e a sensação brotando enchendo meu peito, e
envolvi meus braços e enterrei o rosto em seu pescoço.

— Nah. Isso não sou eu. É a ode, Millie. Sinto isso também, cada vez
que você está perto de mim.
263

— A ode, huh? É assim como chama?


Página

— É como chamo isso.


The Song of David/ Amy Harmon

— Acho que vou continuar com “ A Canção de David”. Meu favorito. -


Ela disse, falando as palavras contra minha bochecha.

— Se eu canto, você tem que dançar. - Sussurrei, e minha boca


encontrou a sua, e a música entre nós virou um zumbido urgente, uma
rítmica pulsação, e dançamos ao redor do fogo entre nós até o sono
abrandar nossos passos, silenciar nossa música e suavemente nos puxar
para longe.

MOSES

Millie se levantou e sem nenhum aviso, levantou o gravador acima de


sua cabeça e o atirou no chão, como se não pudesse suportar ouvir mais
nenhuma palavra. A parte de trás do gravador saltou para fora e bateu no
chão, as pilhas gordas rolaram para fora como soldados feridos, com seu
tanque desativado, e suas armas esgotadas.

Georgia e eu ficamos parados assistindo, incapaz de formar qualquer


resposta coerente. Millie estava tremendo de fúria, e seus olhos cheios de
lágrimas.

— Eu não sei mais o que pensar. Não sei mais o que fazer! Nós ficamos
264

sentados aqui, ouvindo ele contar nossa história que eu de coração


Página

acreditava duas a semanas atrás. Mas ele se foi. E estou tão... envergonhada.
The Song of David/ Amy Harmon

Chamou vocês, interrompi suas vidas, e fiz uma confusão sobre o fato dele
ter ido. Mas ele obviamente optou por sair! - Millie tomou várias respirações
irregulares, e abaixou a cabeça, e a raiva pareceu deixa-la tão rapidamente
como tinha chegado.

— A pior parte é que... na verdade espero que seja apenas porque não
soube como me contar que mudou de idéia. Espero que ele tenha acordado e
percebeu que não estava mais apaixonado por mim depois de tudo. Espero
que seja isso. Porque não consigo pensar em uma alternativa que não seja
mil vezes pior. E prefiro perdê-lo do que perdê-lo para sempre.

Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

Meu telefone vibrou felizmente, e Georgia se ajoelhou para colocar as


pilhas de volta no gravador assim que pedi licença para atender a chamada.

— Mikey. - Cumprimentei, saindo pela porta da frente.

— Moses. - Disse. — Tenho notícias.

Meu coração deu um salto de barriga.

— Tag vai lutar amanhã em Vegas. No MGM37. Cory viu a pesagem na


ESPN de manhã. Aparentemente ele foi uma substituição de última hora. É
uma grande luta, Moses. Uma puta luta. Era Terry Shaw versus Jordan Jones.
Mas agora é Terry Shaw versus Tag Taggert.

Minha boca se abriu e puxei o celular da minha orelha e o encarei,


como se Mikey não fosse realmente Mikey e meu celular não fosse
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realmente meu celular.


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37
O MGM Grand Hotel & Casino é um hotel 5 estrelas, de luxo, em Las Vegas.
The Song of David/ Amy Harmon

— Filho-da-puta. - Assoviei, e pressionei o celular contra meu ouvido


de novo.

— Foi o que eu disse. Ficamos todos em choque. Nem sabíamos o que


pensar, cara. Ele lutando e nenhum de nós sabia. Nós somos sua equipe. O
que diabos ele está fazendo, Moses?

— Não tenho a mínima idéia, Mikey. - Respirei. Me senti tonto com o


alívio, e doente de medo sobre o que estava por vir.

— Devemos ir? Devemos dirigir para Vegas e confrontarmos ele?

Eu poderia dizer que Mikey estava chateado. E confuso.

— Quão difícil é chegar perto de um lutador no MGM se você não tem


passe, se você não tem permissão? - Me perguntei.

Mikey xingou, e assenti comigo mesmo. Isso não ia dar certo. Se Tag
não queria sua equipe lá, não iam chegar nem perto.

— Está tudo mundo aí, Mikey, todos os caras? - Perguntei.

— Sim, todo mundo fora Paulo. Mas o resto está aqui, Moses.

— Aguente firme. Estarei aí em cinco minutos.

Liguei para dentro da casa, deixando Georgia saber que sairia por um
minuto. Eu não estava pronto para contar para Millie o que tinha acabado de
saber. Eu precisava de mais. E julgando pela sua tentativa de esmagar o
gravador, ela tinha atingido seu pico emocional. Mesmo assim, o gravador
estava de volta, claramente nada pior além de seu desgaste. Eu podia ouvir
266

Tag falando como se nunca tivesse parado, e minha raiva disparando de


Página

novo.
The Song of David/ Amy Harmon

Assisti Tag sem seu sorriso habitual. Seu rosto estava duro e sério.
Sem suas covinhas aparecendo, sem bater no peito, ou agindo insolente. Ele
pisou na balança com nada além de um boné Tag Team e shorts de nylon
com Tag Team estampado em amarelo atrás. Ficou parado quando seu peso
era anunciado e depois flexionou seus braços para as fotos. Parecia magro e
seu cabelo curto, embora isso podia ser de cortar seu peso e bater os 93 kg
requeridos.

— Parece magro. - Axel confirmou o que pensei, embora uma magreza


relativa. Tag estava grande e musculoso, mas havia algo de magro e fundo
nas bochechas e nos ossos do quadril.

— Ele pesa facilmente 100 e está com 92. O que ele está pensando
lutando só com um quilo extra!

— Tag não esteve no ginásio por três semanas, é por isso! - Cory
exclamou.

— Ele vai lutar com o fodido Terry Shaw. Isso pode ser um banho de
sangue. - Mikey gemeu enquanto assistimos Shotgun Terry Shaw pisar na
balança e dar um olhar rude e azedo e arrogante como o inferno. Atirou para
Tag em olhar de desdém. Tag apenas o ignorou completamente.

— Não. - Andy balançou a cabeça teimosamente. — Tag sabe o que


está fazendo. - Fechou os braços e encarou todos nós. — Apenas não
sabemos o que ele está fazendo. Mas de uma coisa eu sei. Estou indo para
Vegas.
267

— Eu também. - Cory disse.


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— Conte comigo. - Mikey concordou.


The Song of David/ Amy Harmon

— Eu vou dirigir. - Axel pegou seu telefone como se a decisões foram


tomadas e as reservas em ordem.

— Tenho que contar para Millie. - Suspirei.

— O que vai contar para ela, Moses? - Andy perguntou.

— Talvez devemos ir, ver o que está acontecendo, antes de dizer


qualquer coisa. - Axel sugeriu. Seu rosto vincado de preocupação e seus
grandes braços cruzados no peito. Eu tinha notado que Axel era
consideravelmente protetor com Millie, e Henry também, e tinha a maldita
certeza que os caras estavam pensando o que eu estava pensando. Tag
deixou Millie. Por alguma razão, fez isso, e agora eu tinha de dizer para ela.

Balancei a cabeça lentamente.

— Não, não posso fazer isso. Tenho que dizer para ela que o
encontramos.
Axel mexeu a cabeça com firmeza, como se não pudesse acreditar em
nada disso, e o resto dos caras mantinha o olhar treinado no chão.
Meu celular tocou, indicando uma mensagem, e olhei para ele.
Georgia: Me ligue.
— Me deem uns minutos caras. - Disse, saindo.
Georgia atendeu no primeiro toque.
— Moses? - A voz de Georgia soou apertada.
— Yeah?
— Acho que sabemos porque ele foi embora. Volte. Você precisa ouvir
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isso por si mesmo.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO DEZESSEIS
TAG

Acordei com uma dor de cabeça assassina e uma sensação de bem-


estar que desmentia completamente a dor. Millie tinha me deixado dormir,
mesmo ela tendo se levantado com Henry para a escola e tivesse acordada
há horas, apenas esperando que eu rolasse para fora da cama. Eu gostei da
maneira que senti, acordando na cama de Millie, ouvindo-a pela casa. Pensei
no anel em meu porta-luvas e me perguntei se hoje não era um bom um dia
como qualquer outro para fazer um pedido oficial para participar do Tag
Team.

Eu cambaleei para o banheiro, pensando como eu iria tocar no


assunto. Uma olhada no meu reflexo - ambos os olhos pretos, minha cabeça
inchada e feia, os pontos em minha testa chamando atenção e os cabelos
espetados - e eu decidi que podia esperar até eu me sentir um pouco
melhor.

Depois de alguns beijos, um remédio para dor de cabeça e um pouco


269

de ovos mexidos que Millie tinha habilmente preparado, eu estava


finalmente pronto para começar meu dia de trabalho, embora fosse quase
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meio-dia. Millie tinha um dia cheio também, e nos separamos em sua porta
The Song of David/ Amy Harmon

da frente, Millie indo para um lado e eu para o outro. Ela não queria que eu
levasse para o centro de cegos. Ela queria caminhar. Surpresa, surpresa.
Então, eu a observei indo embora, apreciando a vista enormemente.

Millie não arrastava a vara de um lado para o outro enquanto ela


andava. Ela batia a vara contra o concreto, pé esquerdo para a frente,
colocava a vara para a direita. Pé direito para a frente, vara para a esquerda.
Click, clack, click, clack. Talvez fosse a dançarina que existia dentro dela,
mas ela gostava de criar um ritmo quando andava. Às vezes, ela balançava a
cabeça, e mexia os quadris, mesmo quem olhasse, provavelmente iria
admirar a menina cega balançando a bunda ao ritmo de sua bengala. Mas ela
disse que não podia vê-los olhando, ela não podia vê-los rir, então ela não se
importava. Vantagens de ser uma garota cega.

— Ei, Millie Boba! – eu chamei atrás dela.

Ela parou e virou-se.

— Sim, grandão?

— Que música você está dançando?

— É uma nova. Talvez você já tenha ouvido. Chama-se “Nothing


Rhymes with David38”.

Eu joguei minha cabeça para trás, rindo de sua rápida sagacidade e


rápida e berrando a música que eu tinha composto na noite anterior
enquanto ela continuava o seu caminho.
270
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38
Seria algo como “Nada rima com David”
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu amo o seu cheiro doce, eu amo o jeito que você mexe seu
traseiro.39

— Essa é a música! - Ela gritou e mexeu um pouco mais quando ela


acenou e continuou a descer a calçada. Meu telefone vibrou no bolso de trás,
e eu respondi, ainda rindo da minha menina.

— Sr. Taggert, aqui é o Dr. Stein do hospital LDS. Eu tive a


oportunidade de dar uma olhada no resultado da ressonância magnética e
da radiologia.

— Não me diga. Meu cérebro é anormalmente pequeno. - Eu


provoquei, minha mente realmente não prestando atenção na conversa, mas
na forma de Millie à distância. Ela torna difícil para mim me concentrar em
qualquer outra coisa.

O médico não riu. Esta deveria ter sido a minha primeira pista. Isso e o
fato de que eu tinha deixado o hospital a menos de oito horas e ele estava
me ligando ele mesmo. Mas, naquele momento, o momento antes que a
notícia deixasse os lábios do médico e meus olhos deixassem Millie, eu
estava completamente, perfeitamente feliz. A vida não é perfeita, as pessoas
não são perfeitas, mas há momentos que são. E esse foi um deles. Aquele
momento foi um balão vermelho vibrante, cheio de expectativas do que a
vida traria, de Millie e eu e um milhão de amanhãs. E depois que terminou.
Isto estourou com um estalo alto e o restos de borracha do meu momento
perfeito caíram aos meus pés.
271
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39
Aqui é um versinho rimado que ele canta, não teria como manter a rima depois de traduzir. O verso original é: “I
love the way you smell so fruity, I love the way you shake your booty!”
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu gostaria que você voltasse. Eu gostaria de fazer um outro exame,


com foco na área de preocupação. Há algumas anomalias, uma sombra que
precisa de uma investigação aprofundada. Esta não é a minha área de
especialização, então eu consultei um especialista, e ele está realmente
disponível essa tarde. Você poderia vir em uma hora?

***

Eu sabia que era um pouco claustrofóbico. Eu era claustrofóbico pelo


mesmo motivo que eu tinha medo do escuro. Eu sempre atribui isso à asma
que eu tinha quando criança. Acordar no meio da noite ofegando por ar, a
sensação de estar enclausurado, de não ser capaz de dar uma respiração
profunda. De saber que você tinha que respirar ou você iria morrer, e não
ser capaz disso. Claustrofobia era apenas mais uma palavra para impotência.
Eu odiava me sentir desamparado.

Eles me disseram para não me mover e eu não me movi, mas eu


também não respirei, e eles abortaram a primeira tentativa até que eu
controlasse minha merda.

— Existe alguém que poderíamos chamar, Sr. Taggert? Alguém que


você gostaria que estivesse aqui?

Eu balancei minha cabeça. Não. Eu não queria nenhuma alma sabendo


que eu estava aqui. Todos eles pensavam que eu estava bem. Eu tinha
insistido que eu estava OK. O que Millie disse sobre sua cegueira? A imagem
272

na minha cabeça é a única que importa? Eu estava adotando essa atitude. Eu


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estava bem. E a minha opinião era a única que importava.


The Song of David/ Amy Harmon

— Não. Está bom. Estou bem. Vamos apenas fazer isso. - Eu me


encontrei piscando para a enfermeira bonita, fazendo um show do jeito que
eu sempre fiz. Distraindo-me. Ela piscou de volta. Eu sabia que ela gostava
de mim. Eu poderia sempre dizer quando uma garota me achava atraente. A
forma como seus lábios franziram, a maneira que suas sobrancelhas
levantaram, a forma como seus olhos arregalaram. Todas as pequenas pistas
e sinais que eu nunca tinha obtido de Millie. E Millie me amava. Millie me
amava, e eu a amava.

“Sempre que você começar a se sentir preso ou impotente, basta fechar


seus olhos, e você terá mais espaço do que você vai precisar ".

Isso foi o que Millie tinha me dito. Eu tentei seguir o seu conselho,
fechando os olhos e permitindo que a enorme escuridão me ajudasse a
respirar. Eu tinha que ficar bem, porque se eu não ficasse, Millie ia se
machucar. E eu tinha tentado tanto ir devagar, para não a apressar, para não
nos apressar. Estar absolutamente certo que eu sabia o que eu estava
fazendo. Eu tinha tido o cuidado pela primeira vez na minha vida. Eu tinha
sido tão cuidadoso. Tão cauteloso. E eu ainda estava indo machucá-la. Eu
senti o pânico crescer no meu peito e ouviu uma voz me dizendo para
respirar, para me acalmar.

— Você está indo muito bem, senhor Taggert. Você está quase lá. Você
está quase acabando, senhor Taggert.

— Deus? Oh Deus. - eu orava. — Eu não quero estar pronto. Por favor,


não me deixe estar pronto. Por favor, não me deixe estar pronto. – Eu orei
273

assim o tempo todo. Era a minha educação. Conversando com Deus senti um
Página

pouco como tendo uma conversa comigo mesmo, meu eu interior. Eu


The Song of David/ Amy Harmon

sempre acreditei que Deus criou meu eu interior, de modo que falar com ele
era um pouco como ter um coração para coração comigo mesmo. Não, eu
não tenho um Deus complexo. Eu só acho que a maioria das pessoas fazem
um negócio muito grande a respeito de Deus, guerras para defendê-lo ou
protestos para negá-lo. Ele apenas parece ser um cara legal para mim. Gosto
de falar com ele.

Eu não costumo me ajoelhar quando eu rezo, embora eu tenha feito


isso quando Moses quase morreu. Eu tinha feito todos os tipos de
promessas também. E eu não faço promessas para Deus, eu me conheço
muito bem. Eu só o peço coisas e agradeço-o por coisas, sem amarras, sem
promessas em troca, então eu não tenho uma grande conta para pagar em
algum momento. Acho que se Ele me ajuda, me dá o que eu preciso, é porque
Ele pensa que eu merecia ou queria dar isso para mim. Então eu não lhe
devo nada. Mas eu tinha quebrado a minha regra por Moses. Eu acho que
isso é o que você faz para as pessoas que você ama. Você quebra as regras.
Moses tinha feito isso com a Georgia. Ele quebrou todas as suas leis
estúpidas. E eu tinha quebrado as minhas. Não apenas com Moses, mas com
Millie. Eu tinha finalmente me resolvido com uma mulher, e eu estava
quebrando minhas regras novamente agora, implorando a Deus para
perdoar a promessa. Eu tinha feito uma promessa por Moses, e eu não tinha
cumprido minha parte no trato. Talvez Deus estava me chamando.

***
274

— Há uma massa gigante no seu lobo frontal.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

O médico não fez rodeios. Ele apenas apontou para as fotos do meu
cérebro e falou, com muita naturalidade. Eu podia ver a massa negra que ele
estava descrevendo claro como o dia. Ele se virou para olhar para mim.

— Você não teve problemas com a sua escrita, problemas com a fala...
talvez fraqueza em seu lado direito. Está do lado esquerdo do seu cérebro,
que irá sempre afetar o lado oposto do corpo. Você não teve qualquer
sintoma?

Eu queria dizer não, mas os sintomas estavam lá. Eu sempre os


descartei.

— Eu tenho visto manchas quando eu estou cansado, e tenho notado


mais fadiga muscular no lado direito. Minha mão esquerda sempre foi a
minha mão dominante, então talvez seja por isso que não me afetou tanto.
Venho treinando duro. Eu pensei que era a desidratação. Pensei que fosse o
estresse.

— Você levou uma pancada na cabeça em uma luta?

— Sim, na testa. Nem sequer machucou, mas me surpreendeu um


pouco. Foi uma coisa boa porque ele parou de se mover porque eu não podia
ver nenhuma maldita coisa por cerca de dez segundos. Eu só fiquei lá
enquanto ele deitou no chão, cobrindo a cabeça. Minha visão clareou quando
eu limpei o sangue do meu rosto, e eu pude ver de novo. Eu acho que foi
uma boa coisa que o cara era bêbado e estúpido.

— Acho que sim. - Seus lábios se curvaram, e eu estava feliz que ele
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não ia me repreender sobre a gravidade do momento. Eu percebi - a


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gravidade da situação não tinha me escapado.


The Song of David/ Amy Harmon

— Então o que precisamos fazer? – perguntei.

— Nós temos que chegar lá, ver o que a massa é, e retirar tanto quanto
pudermos. - Ele não chamou de tumor. Ele chamou de massa. Mas eu não
era estúpido.

— Chegar lá?

— Craniotomia. Nós te apagamos, fazemos um buraco na sua cabeça,


removemos o máximo que pudermos do tumor, pegamos um pedaço para
biópsia, e costuramos você. Soa meio Frankenstein, mas você pode
realmente ir para casa em um dia ou dois. Não é algo que requer uma
grande quantidade de tempo de recuperação.

— Então não é uma grande coisa?

— Eu não iria tão longe. Afinal de contas, estamos falando do seu


cérebro.

— E quais são os riscos? E se eu não quiser que você perfure minha


cabeça?

— O risco de deixá-lo lá, de não determinar se é câncer ou não,


poderia ser fatal. Se for câncer e você não o tratar, será fatal. E depois
existem os riscos que vêm com qualquer tipo de cirurgia que envolve o
cérebro. Perda de motoras, da visão, da memória... Nós estamos falando do
cérebro. – ele repetiu.

Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que fazer.
276

Eu não sei o que fazer eu não sei o que fazer. As palavras tornaram-se
Página

turvas e misturadas, e ainda assim eu não conseguia tirá-las do meu


The Song of David/ Amy Harmon

cérebro. O médico me pediu para agir rapidamente. Ele disse que o tempo
era "de extrema importância”. Ele disse que é necessário agir... E tudo que
eu podia fazer era balançar minha cabeça.

— Não. – eu disse. — Não.

— David. É a única maneira que podemos seguir em frente. Temos que


operar assim que possível.

Millie era a única que me chamava de David.

— Tag. Me chame de Tag. – insisti, entorpecido.

— Tag. - ele balançou a cabeça concordando. — Fale com seus entes


queridos. Diga-lhes o que está acontecendo. Você precisa de algum apoio. E
então precisamos ver com o que estamos lidando.

— Quais são as hipóteses?

— O que você quer dizer?

— Esse tipo de massa, é um tumor, não é?

— Sim. É. Não sabemos se é um tumor canceroso, mas, mesmo um


tumor benigno precisa ser removido.

— Qual a chance?

— De ser câncer?

— Sim.

— Eu estaria mentindo se eu dissesse que eu acredito que seja


277

benigno.
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— Você já viu um tumor no cérebro que não fosse câncer?


The Song of David/ Amy Harmon

— Não pessoalmente. Não.

Não. Não. Não. Não. Havia um estranho ecoando em meus ouvidos e eu


não podia ficar parado ainda.

Eu me levantei e segui em direção à porta.

— Tag?

— Preciso pensar, doutor.

— Por favor. Por favor, não demore demais, Senhor Taggert. Você tem
meu número.

Balancei minha cabeça no que era para ser um aceno e segui para fora
do escritório dele para um corredor longo, estéril.

Eu não me lembro de sair do hospital. Não me lembro de andar pelo


chão ou se o sol estava brilhando ou se a chuva caiu. Eu me lembro de puxar
meu cinto de segurança e olhar para a fivela na minha mão e atá-lo para ir
para casa com cuidado, como se fosse me proteger da notícia que eu tinha
acabado de receber. Enfiei a chave na ignição e saí do estacionamento
quando o meu telefone tocou. Eu não podia falar. Não seria capaz de
esconder minha agitação, mas eu apertei no viva-voz de qualquer maneira,
quase desesperado para evitar a mim mesmo. Eu não olhei para a tela, não
sabia quem estava ligando, mas isso retardou o que vinha a seguir.

— Aqui é Tag. – gritei, e, em seguida, estremei com o volume da minha


voz. O eco permaneceu e eu esfreguei a minha cabeça como se eu pudesse
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ajustar o reverbera nela.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Tag. É Moses. - Com a voz dele no alto-falante parecia que ele


estava sentado ao meu lado no meu caminhão. Eu desejava que ele estivesse
e estava grato por ele não estar.

— E aí, cara? - falei de volta e estremeci mais uma vez, desta vez,
porque eu estava parecendo uma farsa.

— Você está bem? - Foi uma pergunta do tipo “eu preciso saber” e não
uma “como você está”, e isso me balançou. Isso me deixou na defensiva
também. Como diabos ele sabia que eu não estava bem?

— Sim. Sim. Por que você está perguntando? – Devolvi.

— Eu vi Molly. - Moses puxou uma conversa educada.

Minha mente viajou novamente.

— O quê?

— Eu não vi Molly em anos... não desde Montlake. Ontem à noite eu


acabei de pintar um mural de David e Golias, uma história de uma Escola
Dominical, em vez da pintura que eu tinha sido contratado para pintar.
Agora eu estou atrasado. E eu culpo você.

— Eu? - Eu estava apenas meio que ouvindo quando sai do


estacionamento e comecei a dirigir. Eu não sabia onde eu estava indo.

— Sim. Você. O David no meu mural, suspeitosamente, parecia com


você. Portanto, a sua irmã morta está, obviamente, tentando me dizer algo.
Isso, ou ela não gosta da profissão que você escolheu.
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— Davi chutou a bunda de Golias, lembra? Nada com que se


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preocupar. – Eu estava conduzindo a conversa de forma muito mecânica,


The Song of David/ Amy Harmon

sem pensar, e eu observei-me falar com Moses mesmo quando meus


pensamentos estavam saltando em milhões de direções diferentes.

— Eu não acho que o traseiro de Golias estava envolvido. - Moses


rosnou. — Se eu lembro bem, era a cabeça. Golias levou um golpe entre os
olhos.

— Sim... certo. Deve ser isso. Rachei uma garrafa de cerveja entre os
olhos na noite passada. - Foi ontem à noite? — Um cara abriu minha cabeça.
Eu tenho alguns pontos. Estou impressionado, Mo. Então agora você é um
psíquico também?

— Você está bem? - Lá estava novamente. A exigência para contar-lhe


tudo.

— Sim. Tudo costurado. Nem sequer doeu. - Eu não estava mentindo.


Não doeu. Mas eu estava contornando a verdade. Eu não estava bem. Não de
todo.

— Bem, isso não é surpreendente. Você tem a cabeça mais dura que
qualquer um que eu conheço. O que aconteceu?

— Apenas alguém importunando Millie enquanto ela estava


dançando. Agarrei-o para afastá-lo e ele me acertou na cabeça. – Eu não
queria Mo dizendo “eu te disse”. Ele nunca tinha gostado de Morgan. Então
eu deixei o nome de Morgan fora disso.

— Millie? – perguntou.
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— Millie. – respondi.
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The Song of David/ Amy Harmon

Ele ficou em silêncio por um instante, e eu esperei, perguntando o que


ele estava pensando.

— Você ainda está lá, Tag? – perguntou.

— Onde?

Um enorme suspiro atravessou o alto-falante do telefone.

— Você ainda está lá? - Disse ele de novo, mais alto, mais lento, tão
malditamente agressivo.

— Sim. Eu estou lá. Eu a amo. Isso é o que você quer que eu diga? -
Minhas mãos começaram a tremer, e de repente eu não podia ver a estrada.
Uma buzina soou atrás de mim, e eu percebi que eu tinha ido para fora da
minha faixa.

Eu desviei e bati em meus olhos, tentando não me matar, pelo menos


não ainda.

— Eu não me importo o que você diz. Eu já sabia. Estou feliz por você,
cara. Ela é um tipo de milagre.

— Sim. Ela é. - As lágrimas estavam escorrendo pelo meu rosto, e eu


segurei o volante com as duas mãos.

— Eu não tinha certeza de que iria conseguir... ou mesmo que você


precisava. Mas você fez. Nós dois fizemos. Como diabos isso aconteceu? - Ele
tinha relaxado com a minha confissão eu podia ouvir o sorriso em sua voz.

— Você acredita em milagres, Mo? – Eu não estava sorrindo. Eu estava


281

procurando.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu não tenho escolha. Eu já muitos.

— Você acha que eu conseguiria mais de um? – Isso era tudo que
podia falar com palavras.

— Mais de um milagre? Por quê? Millie não é o suficiente. – Ele riu


para mim, mas eu ouvi a surpresa também.

Millie era mais que suficiente. Eu não era ganancioso. Eu só queria


estar por perto para desfrutar o meu milagre.

282
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO DEZESSETE
MOSES

Tag tinha terminado aquele telefonema muito rapidamente. Eu


deveria ter percebido que algo estava errado. Mas poderia dizer que ele
estava dirigindo e tinha que deixá-lo ir sem protestar. Eu tinha pensado que
ele parecia aéreo, mas ele me tinha no alto-falante e tudo soa um pouco
distorcido quando você está ouvindo alguém dessa forma. Pensei que isso
era tudo. Disse a mim mesmo que isso era isso. Não sei quando comecei a
acreditar em minhas próprias mentiras.

Eu tinha crescido condescendente com os mortos. Pintei-os em


imagens bonitas, e eles já não me perseguiam como fizeram uma vez. Não
era presságio de destruição. Não se pareciam com zumbis ou assombravam
os corredores da minha casa. Haviam se tornado gerenciáveis. A vida tinha
se tornado doce e suave. Georgia fez isso por mim. Ela havia me resolvido e
alisou minhas extremidades, e com a perda dessas bordas acho que eu não
era tão afiado como costumava ser.

Então, quando vi Molly Taggert, uma delicada miragem no canto


do meu olho, eu recusei a ser desconfiado. Oito anos, quase nove? Tinha sido
um longo tempo desde que ela exigiu minha atenção. Eu estava em no meio
de algo, comungando com os mortos de um cliente rico. Os mortos dele não
283

estavam particularmente interessados em manter em contato, e eu estava


empurrando, me abrindo de forma mais ampla, tentando encontrar
Página
The Song of David/ Amy Harmon

inspiração, algo digno de usar pincel, algo em que eu pudesse trabalhar.


Assim, agora, eles estavam me dando o dedo do meio, e não acho que
agradaria meu cliente.

Disse a mim mesmo que ver Molly foi nada mais que coincidência,
que eu tinha simplesmente me aberto demais e atrai um velho fantasma que
soube escorregar em torno de minhas paredes. Ela tinha inundado minha
mente com a cor, traços de medo vermelho e tiros de desespero azul com
arroxeada paixão e pesar verde, todos lavados em branco e mergulhados em
preto. Antes que eu percebesse, estava pintando algo completamente
irracional, completamente em desacordo com a garota que tínhamos
colocado para descansar anos antes.

Duas horas mais tarde, afastei a tela e olhei, estupefato, a imagem


que eu tinha criado. Parecia algo de um dos livros de minha avó Kathleen, os
que ela tinha tomado a partir da biblioteca da igreja, porque eles eram um
pouco demasiadamente eróticos e perturbadores para as pessoas nos
bancos. Era Davi e Golias num detalhe violento, e os detalhes incomodavam,
os detalhes eram específicos, e eu deixei-os fazer sentido.

Então liguei para ele. E o deixaria me dizer o que eu queria ouvir. O


que eu precisava ouvir. Ele disse que tinha tomado um golpe na cabeça. Uma
verdade simples e clara que deixou todos os detalhes pertinentes. Todos os
detalhes violentos. Os detalhes eram preocupantes, os detalhes eram
específicos, e deixei-os fazer sentido.

Como Geórgia pediu, vim para casa direto do ginásio, entrei e sem
284

dizer uma palavra, minha esposa tinha recomeçado a fita cassete. Então,
Página

ouvi minha conversa com meu amigo, escutei todas as coisas que ele não
The Song of David/ Amy Harmon

tinha me dito. Agora, o medo era uma torção no meu intestino, e eu estava
inquieto.

Millie estava de pé quando eu cheguei, como se a revelação de Tag


tivesse levantando-a de seu assento. Seu rosto estava petrificado, com
camadas de choque estampadas em sua expressão. No momento em que a
fita atingiu seu fim e a voz de Tag parou, Millie se quebrou, e ela baixou a
cabeça, se atrapalhou com a cadeira e caiu. Henry estava sentado próximo e
pela primeira vez ele parecia estar ciente de que algo estava muito, muito
errado.

— Ele veio procurando por você naquela noite, Moses, lembra-se?


Você não estava em casa, e ele não ficou muito tempo. - A voz de Georgia
tremeu, e ela segurou Kathleen no peito, balançando e balançando, algo que
ela faz, mesmo quando não está segurando o bebê. Tornou-se um hábito
pelo qual eu brincava com ela. Mantenha-se em movimento e o bebê não vai
chorar. Mantenha-se se movendo e o bebê não vai acordar. Queria que ela
me mantivesse assim também. Queria que ela se mexesse comigo em seus
braços para que eu não acordasse, então eu não iria chorar. Se eu estivesse
dormindo, então nada disso seria real. Mas havia mais. E era tudo muito
real.

TAG
Continuei dirigindo. O clima era claro, o sol brilhando, o céu azul, o ar
285

fresco e legal, então dirigi e pensei. Dirigi-me para a casa de Moses e entrei
Página

na vaga de garagem de Georgia no final da tarde, e o céu estava tão radiante


The Song of David/ Amy Harmon

sobre as colinas a oeste da cidade que parei por um minuto enquanto descia
da minha caminhonete e deixei a vista se estabelecer em mim. Mas a beleza
só me fez doer. O que eu vou fazer? O que eu vou fazer? O que eu vou fazer? O
coro começou a subir na minha cabeça novamente.

Ninguém atendeu a porta, e decidi caminhar em volta para ver se


alguém estava no pasto além. Moses foi se tornando mais e mais confortável
em torno de animais, embora Georgia fosse a amazona. Ela estava
trabalhando em seu homem, e tinha persuadido Moses a subir na sela
suficiente vezes que ele tinha realmente começado a apreciar, embora
resmungou e fez uma careta quando perguntei a ele sobre isso. Georgia
estava no centro de curral, correndo em círculos com um brilhante alazão. O
alazão parecia estar cooperando, e a atenção de Georgia estava fixo sobre o
animal, falando, reconfortando, aplicando pressão exata, em seguida,
liberando-o para trazê-lo para ela. Ela não era nada como Moses. E ela era
perfeita para ele. Eu sabia disso no momento em que ela abriu a boca, o
momento em que ela olhou nos meus olhos e estendeu a mão.

— Hey, George. - Apelidei-a de George porque Moses odiava.

— Hey, Tag! O que está acontecendo, bonito? - O rosto de Georgia


iluminado em um sorriso tão grande, que a dor em meu peito se propagou
ao meu intestino e fez o meu interior se retorcer. Eu já sentia falta dela. Eu
não queria perdê-la. O que eu vou fazer? Que diabos eu vou fazer? Ela
caminhou até a cerca, firmou-se no primeiro degrau e estendeu a mão para
mim, me puxando para um feroz abraço.
286

Eu precisava desse abraço. Eu precisava dele tanto! Mas eu sabia que


Página

se eu cedesse à necessidade de me apegar a ela mais do que eu


The Song of David/ Amy Harmon

normalmente fazia, ela iria sentir meu tumulto, e ela saberia que algo estava
acontecendo. Então, apertei-a com força e deixei-a ir, e coloquei um sorriso
nos lábios, sentindo-me como uma mentira e chamado minha habilidade
dada por Deus para besteira. Era um talento que tinha me servido bem na
minha vida.

— Olá, baby. Onde está Mo? - Yep. Eu ainda tinha esse talento. Minha
voz era suave e minhas mãos estavam firmes quando eu puxei-lhe o chapéu
da cabeça e pousei na minha. Sempre flertando, mesmo sendo a esposa do
meu melhor amigo, mesmo quando eu estava pendurado por um fio
emocional. Era apenas o meu jeito. E a Geórgia sabia disso. Agarrou o
chapéu para trás e passou por baixo da cerca para se juntar a mim no outro
lado. O cavalo relinchou por que perdeu a atenção dela e Georgia olhou para
trás e riu.

— Oh, agora você me quer por perto, Sis? Você estava fugindo de mim
um minuto atrás!

— Ah, mas a perseguição é a melhor parte, George. Você sabe disso. -


Eu disse, rindo com ela, meus olhos no decepcionado alazão. — No
momento em que você se afasta é o momento em que ela vai implorar-lhe
para vir atrás.

— Isso não é verdade. - Georgia riu. — Mas é a minha vez de jogar


duro para conseguir. Falando de conseguir duramente, você só perdeu
Moses. Ele tinha uma sessão hoje à noite em Salt Lake. Acho que ele estava
indo ver você depois. Mas você está aqui. Portanto, isso não vai funcionar.
287

Você não trouxe Millie?


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Estremeci. Não queria. Mas eu não conseguia pensar em Millie. Não


era certo agora.

— Tag? - Georgia não tinha perdido o estremecer, e ela me estudou,


um conturbado sulco entre os olhos.

— Nah. Não a trouxe. Era uma viagem rápida. Moses chamou-me,


disse que tinha me pintado numa imagem ontem à noite, e eu estava
curioso. Isso é tudo. Além disso, eu sinto falta da minha deusa-baby. Quero
segurar ela. Onde está o pequeno Novelo?

— Minha mãe a levou. - Georgia franziu os lábios e estreitou os olhos.


— Moses não me disse sobre a pintura. Vamos lá bisbilhotar, não é?

Eu realmente não me preocupava com a pintura, foi apenas a primeira


coisa que surgiu em minha mente, mas eu parei depois que Georgia
concordou e mantive um firme fluxo de besteira para que ela não chegasse
muito perto.

Era Davi e Golias, mas vigoroso e exuberante, com cores fortes e


corpos mal cobertos, como se o confronto bíblica entre um pastor e um
soldado tivesse ocorrido no Jardim do Éden, em vez de num campo de
batalha.

O Davi de Moses era pequeno e jovem.

Um menino realmente, dez ou onze anos, mais jovem do que eu


imaginei que ele tinha sido realmente. E em o rosto de menino, eu vi meu
próprio. O cabelo desgrenhado, os olhos verdes, a forte postura. Não parecia
288

como eu aos onze. Eu tinha sido mais redondo, mais macio. E eu tinha sido
Página
The Song of David/ Amy Harmon

grande para a minha idade. Meu tamanho fizera-me um alvo, a diferença


física no caminho sempre faz.

Golias era enorme, elevando-se sobre o garoto como eles pertenciam a


duas diferentes espécies. Seus bíceps e coxas abauladas, seus bezerros eram
anormalmente grandes, e os ombros eram tão largos quanto o menino era
alto. Sua cabeça foi jogada para trás, e sua boca estava aberta, como se ele
rugisse como a besta que ele se assemelhava. Os punhos cerrados ao lado do
corpo foram maiores do que os meninos cabeça, e o jovem Davi ficou
estoicamente olhando para Golias, sua funda pendente da mão dele, os olhos
solenes. Eu me inclinei mais perto, observando o detalhe, o falta de medo no
rosto do rapaz. Olhei Golias novamente, comparando e contrastando, e
então minha respiração ficou presa na minha garganta. Eu não apenas via o
meu rosto refletido em Davi. Eu me vi em Golias também.

Davi era eu. E Golias era eu. Ambos tinham a minha cara. Eu era o
menino, e eu era o gigante. Dei um passo para trás, distanciando-me
rapidamente da imagem perturbadora.

— Georgia? Estou vendo coisas, Moses colocou meu rosto em Davi e


Golias?

— Uau, caramba!40 - Ela ficou surpresa. Mas viu também. Não era
apenas eu.

— O que você acha que isso significa? - Perguntei.

— O inferno se eu sei, Tag. Não entendo metade do que Moses pinta.


289

Ele não entende isso. É intuitivo. Você sabe disso.


Página

40 No original: Well I’ll be damned. Literalmente “Bem, eu vou ser condenada”, expressão idiomática significando surpresa.
The Song of David/ Amy Harmon

— Mas sempre significa alguma coisa.

E ele tinha visto Molly. Molly tinha inspirado uma pintura.

— Talvez isso signifique que você é o seu próprio pior inimigo. - Disse
alegremente Georgia e piscou para mim. Engoli em seco e olhou para a
imagem.

— Então, qual é você? Davi ou Golias?

— Nenhum. - Eu disse calmamente, uma memória ressurgindo tão


rápida e tão afiada que me varreu:

— Briga, briga, briga, briga!

O canto levantou-se em torno de minha cabeça, a verdade é que não


importava se o som rugindo não eram as vozes maçantes das crianças ou de
provocações intimidantes. Não aliviava eu sentir a pressão para balançar meu
punho ou dar para a curiosidade de ver como ele se sentiria. Eu nunca quis
tanto acertar alguém.

— Briga, briga, briga, briga!

— Ele é uma galinha! Ele é um bebê. Você é um bebê, não é, Cammie?

Cameron Keller estava inclinado como uma bola, joelhos dobrados


contra o peito. Cameron e eu éramos amigos. Cameron era pequeno e
adoentado, enquanto eu era alto e corpulento. Cameron era tranquilo, e eu era
o palhaço da turma. Mas nós dois éramos párias, oscilando nas bordas
distantes do normal e aceitável, que estavam em algum lugar entre nós.
290

Empurrei-me para o círculo, meu tamanho tornando mais fácil do que teria
Página
The Song of David/ Amy Harmon

sido de outra forma. E as pessoas se separaram, mais de surpresa do que


qualquer coisa. Nunca tinha chegado fisicamente em ninguém antes.

Lyle Coulson inclinou-se sacudindo Cameron e juntando cuspe na boca,


mexendo os lábios, tomando impulso e jogando no cabelo de Cameron. Com
um rugido, empurrei Lyle Coulson para o chão e apertei sua cara zombeteira
na sujeira. Alguém empurrou minhas costas, derrubando-me para o lado,
antes de Lyle se levantar balançando e xingando. Alguém agarrou meus
braços, tentando me impedir de desviar antes que Lyle pudesse me dar um
soco. Havia um rugido em meus ouvidos. Talvez fosse meu coração tentando
trabalhar horas extras, talvez fosse a adrenalina entorpecendo os sentidos,
mas fosse o que fosse, eu gostei. O rugido em meus ouvidos ecoou minha raiva
na barriga. Era o som de finalmente alguém revidando. Levei um soco forte na
parte de trás, ou foi um pontapé? Desequilibrei-me, balançando
descontroladamente, braços bombeando como pistões, atingindo alguns, uns
mais que outros, até que de repente as crianças correram para longe,
espalhando-se como gnus na savana africana, exatamente como o programa
no canal National Geographic que eu tinha visto com Molly num domingo.
Desta vez, eu era o leão. Era o predador. Mas Cameron não foi executado.

Cameron ficou encolhido como o bezerro ferido que ele sempre foi.

— Cameron? - Ajoelhei-me ao lado do meu amigo. — Você está bem,


amigo?

Cameron espiou por baixo do braço que lhe cobria a cabeça:


291

— Tag? Eles foram embora?


Página

— Sim, amigo. Todos eles fugiram.


The Song of David/ Amy Harmon

Meu peito se encheu de orgulho. Olhei minhas mãos com espanto. Eu


tinha usado meus punhos. Uma junta estava ensanguentada e ferida e a dor
era doce.

— Você os fez correr, Tag?

Cameron estava tão surpreso quanto eu estava. Eu nunca tinha lutado


antes. Eu era um garoto gordo que tentava fazer todo mundo rir. Eu não
lutava.

— Sim, Cam. Eu fiz. Eu bati a merda fora deles.

Minha primeira luta de punho. Provavelmente parecia mais uma luta


entre filhotes gordos se contorcendo, mas eu tinha saído vencedor pela
primeira vez. Tinha sido Davi então. E tinha sido Golias também, eu
supunha. O garoto que lutou, e o gigante que fez com que todos corressem
com medo. Agora? Agora não sei se Davi ainda existia ou se Golias existiu
alguma vez, e a imagem me perturbou. Ela tinha obviamente perturbado
Moses também, ou ele não teria me chamado.

— Está tudo bem, Tag? - Georgia perguntou baixinho. Afastei-me do


quadro e encontrei o olhar dela grave.

Balancei a cabeça uma vez, apenas um breve movimento e Georgia


pressionou com mais força:

— Você vai me falar sobre Millie? Moses parece pensar que ela é
especial. Ela é?
292

— Ela é especial.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ela é especial o suficiente para domar um homem selvagem? -


Georgia estava me provocando, tentando me sacudir para fora do estado de
espírito que ela obviamente sentiu que eu estava. Ou talvez ela fosse apenas
uma garota atrás de uma fofoca romântica. Minhas irmãs eram assim
também, ou costumavam ser, até onde eu sabia.

Pendurei meu braço em volta de seus ombros e nos afastei da imagem


bíblica.

— Algumas coisas nasceram para ser selvagens. Alguns cavalos não


podem ser domados. - Eu disse no meu melhor tipo de Clint Eastwood.

— Tudo certo. Bem, então acho que a pergunta deveria ser, você é
especial o suficiente para deixar uma garota cega quebrá-lo?

— Isso já aconteceu. Eu simplesmente não quero quebrá-la. — Minha


voz ficou presa, e puxei meu braço dos ombros de Geórgia e empurrei as
mãos em meus bolsos, caminhando longe para que ela não visse o tremor
em torno de minha boca e o pânico que eu podia sentir escorrendo para fora
dos meus poros. Eu estava tão feliz que Moses não estava aqui. Não sei o que
eu tinha pensando tentando encontrá-lo. Não estava pronto para Moses
ainda.

— Tenho que ir, Georgia. Dê em Kathleen um beijo por mim. Dê um


beijo em Moses também. Ele ama meus beijos. - Georgia riu, mas o riso não
disfarçou a preocupação da voz dela. Eu estava agindo um pouco estranho, e
sabia que ela estava se perguntando o que o diabo estava acontecendo.
293

— Não seja um estranho, Tag. Sentimos sua falta. - Georgia disse atrás
Página

de mim enquanto eu caminhava para a minha caminhonete.


The Song of David/ Amy Harmon

— Eu vou sentir sua falta também, Georgia. Cada maldito dia.

***

Talvez fosse o fato de Moses ter falado sobre Molly, mas encontrei-me
dirigindo-me para fora da autoestrada quinze minutos depois que deixei
Levan, parei em Nephi, perto do local onde eles encontraram os restos
mortais de minha irmã. Os cães encontraram o corpo de minha irmã. Os cães
encontraram-na quando eu não pude. Eu aguardei. Aguardei tão duramente
que era tão desesperadamente que quase me convenci que ela não poderia
ser encontrada.

Se ela não pudesse ser encontrada, então não tinha falhado. Não
exatamente. Seu túmulo era apenas um buraco na terra, marcado por uma
planta e rodeada de Artemísia. Depois de quase dois anos que tínhamos nos
encontrado e ela estava esperando num campo coberto de lixo, perto de um
obscuro viaduto fora de uma pequena cidade com nome impronunciável.
Uma cidade que não significava nada para a menina que foi forçada a torná-
lo seu lugar de descanso final. Nephi. Nee Figh. Quando ouvi pela primeira
vez a pronúncia do que eu pensava ser o gigante de João e o Pé de Feijão, ele
gritava em seu castelo no céu, “Fe, Fi, Fo, Fum, eu cheiro o sangue de um
inglês." Fe Fi rima com Nephi.

Ne Phi Fo Fum, sinto o cheiro do sangue de seus entes desaparecidos.


Os cães podiam sentir o cheiro dela. Mas lá havia sangue. Não agora. Quando
294

eles encontraram apenas seus ossos e pedaços de tecido, vários cabelos


loiros longos permaneceram. Alguma parafernália de drogas foi enterrada
Página
The Song of David/ Amy Harmon

junto com ela, rotulando-a como uma viciada, merecedora de seu destino.
De repente, ela não estava ausente. E de repente sumiu. E há anos que não
sabia quem a levou.

Ne Phi Fo Fum, sinto o cheiro do sangue de seus entes desaparecidos.


Eles dizem que a maioria dos assassinatos são cometidos por membros da
família. Dos entes queridos. Mas o homem que matou minha irmã não a
conhecia. E ele não a amava. Descobriu-se que ele tinha matado muitas
meninas. Tantas garotas ao longo de tantos anos. Todas elas desaparecidas.
Todas elas se foram.

Ne Phi Fo Fum, pronto ou não, aqui vou eu. E vi que ele tinha. Eu ia
colocar uma bala na cabeça do homem, vingando o sangue dos
desaparecidos, de todos os ausentes.

Ne Phi Fo Fum, eu puxaria o gatilho.

Ne Phi Fo Fum, puxaria o gatilho. Oh, Deus! Eu não queria fazer isso.
Sentei em minha caminhonete e pensei em Molly, olhando para o campo
onde eles encontraram seu corpo. E falei com ela por um tempo. Perguntei-
lhe o que diabos eu deveria fazer. E me perguntava se ela veio por meio de
Moses, porque o meu tempo acabou, se ela estava de repente em volta,
porque ela estava esperando por mim. Se o meu tempo acabou, eu poderia
lidar com isso.

A verdade se instalou em mim. Isto me surpreendeu. Mas eu poderia


lidar. Eu poderia lidar com isso. Moses me disse uma vez que você não pode
295

escapar de si mesmo. Eu quis uma vez. Não mais. Eu tinha chegado a um


Página
The Song of David/ Amy Harmon

acordo comigo. Eu gostava de mim mesmo. Eu gostava de minha vida.


Inferno, eu amava a minha vida.

Mas eu não ia gastar meu tempo ficando doente.

Eu nunca tinha sido bom em meio-termo. Tudo ou nada. Isso é quem


eu era. Tudo ou nada, vivo ou morto. Não morrendo. Não doente. Vivo ou
morto, tudo ou nada. Tendo feito a minha decisão, liguei para o médico. Na
verdade, ouvi alívio em sua voz quando lhe disse que estava pronto para ir
em frente com o que viria a seguir, e seu alívio me aterrorizava. Ele limpou a
agenda e, dessa forma, a craniotômia foi definida para dia o seguinte.

Eu me afastei pela a estrada e deixei a sombra da minha irmã no


retrovisor. Voltei para casa, voltei para Millie, de repente desesperado para
vê-la.

296
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPÍTULO DEZOITO

MILLIE ABRIU A porta para me receber, com um sorriso nos lábios,


meu nome em sua língua, mas eu não esperei por ela para liberá-la. Eu a
queria para segurá-la, cheirá-la, e nunca deixá-la ir. Eu precisava do meu
nome para ficar dentro dela então eu não flutuaria para longe como uma
palavra que já foi falada. Então eu pressionei meus lábios nos dela e a girei
em meus braços como um homem em um filme, e meu nome tornou-se um
grito que apenas eu ouvi.

Eu me sentia um pouco louco, e meu beijo era frenético enquanto eu


subia a escada com Millie em meus braços. Minhas pernas não tremiam e
minha mente estava clara, era como se a saúde do meu corpo estava se
rebelando também. Eu queria rugir e bater no meu peito. Eu queria agitar os
punhos para o céu, mas mais do que qualquer coisa, eu queria Millie. Eu não
queria desperdiçar mais um segundo com Millie.

Então nós estávamos em seu quarto, o edredom branco puro e suave,


como a pele de Millie ao luar, e eu a deitei através dele, caindo ao lado dela.
Eu estava ansioso. Carente. Eu queria a segurança de sua pele, a absolvição
297

de sua carne, e a promessa que vinha com ela. Eu queria pegar. Eu queria me
Página

fixar em sua memória e deixar a minha marca. Eu precisava disso. Eu


The Song of David/ Amy Harmon

precisava dela. Ela combinava com meu ímpeto como se entendesse. Ela não
entendia. Ela não podia. Mas ela não me abrandou ou implorar-me para
reafirmar.

Minhas mãos estavam em seu cabelo e traçando seus olhos, tocando


sua boca, parando no oco de sua garganta. Eu queria tocar cada parte dela.
Mas assim como eu me perdi na seda de sua pele e o balanço de seus
movimentos contra mim, senti o horror se levantar dentro de mim e
tremeluzir sob minha pele. Não seria o suficiente. Não seria o suficiente, e eu
sabia disso, mesmo enquanto fechava meus olhos e tentava fazê-lo
suficiente. Eu não conseguia respirar e meu coração corria, e por um
momento eu pensei que eu iria dizer-lhe tudo.

Ela deve ter confundido o meu medo por hesitação, a cessação da


minha respiração por outra coisa, porque ela embalou meu rosto nas mãos e
apertou sua testa na minha. E então ela sussurrou meu nome.

— David, David, David. – Parecia como uma canção quando ela disse
isso. E ela beijou meus lábios suavemente.

— David, David, David. – Ela entoou meu nome, como se não pudesse
acreditar que era verdade, como ela gostava do jeito que isso parecia em sua
boca.

— Eu amo o jeito que você me chama David, – eu disse, e me lembrei


da linha da minha canção boba, a linha que não teve rima.

— Eu amo que você é meu, – ela respirava, e o medo me deixou por


298

um tempo. É na ponta dos pés para longe e o amor tomou o seu lugar, amor
Página

e pertencer, e o tempo que não pode ser roubado. Millie disse que ela tinha
The Song of David/ Amy Harmon

que sentir para ver, e ela viu tudo de mim. Seus dedos traçaram os
contornos de minhas costas como se ela estivesse lendo um mapa, na
sequência de um rio para o mar através de uma longa extensão, ao longo dos
vales e colinas. Ela era meticulosa e atenta, lábios e bochechas seguindo seus
dedos, sua língua testando a textura que necessitava mais atenção. Quando
Millie faz amor, ela na verdade faz amor. Ela criava, desenhava, seduzia para
ser. Eu sempre odiei esse termo e preferia uma pequena básica descrição,
talvez porque isso parecia mais honesto. Mas com Millie, nada mais digno. E
ela não apenas faz amor, ela me ama. Ela me faz ouvir. Ela me faz sentir. Ela
me faz prestar atenção. Eu não tenho pressa ou levo. Eu não corro ou
empurro. Fecho meus olhos e amo do mesmo jeito que ela faz, com as
pontas dos meus dedos e as palmas das minhas mãos, e eu a vi tão
claramente que os meus olhos ardiam atrás de minhas pálpebras fechadas.

Ela estava confiante de uma maneira que não deveria ter sido,
confiante de uma forma como nascer sabendo que você é amado, e eu me
alegrava com isso. Ela não era a garota em lingerie sexy, perguntando-se se
deveria representar seu corpo desta ou daquela maneira. Ela era uma
mulher profundamente apaixonada e completamente perdida na
experiência. Ela não me perguntou o que eu gostava ou o que eu queria. Ela
não hesitou ou segurou. Ela não invocou por palavras bonitas ou conforto.

Mas eu dei-lhes de qualquer maneira.

Eu dei-lhes porque elas caíram de minha boca, e eu pressionei-as em


seus ouvidos, precisando que ela soubesse o quanto eu a amava, como
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perfeito eu a achava, como precioso o momento era. E ela sussurrou de


Página

volta, combinando cada expressão com carinho, palavras presenteadas com


The Song of David/ Amy Harmon

carícias, até que o esforço para falar tornou-se demasiado grande e as


palavras pareciam inadequadas. Quando ela chegou ao pico ela me puxou
sobre a borda com ela, e eu desejei que nós pudéssemos apenas continuar a
cair e nunca parar. Cair como voar se você nunca batesse no chão. Mas o
pouso foi suave e nossa respiração desacelerou, e eu a puxei apertado como
se o mundo se endireitasse. Ou me prejudicasse. Eu não tinha certeza qual.
Millie estava dócil e sonolenta em meus braços, e eu a sentia a deriva.

— Eu amo você, Millie. Você sabe disso? – Eu disse.

— Sim. – Ela disse a palavra em um longo suspiro de satisfação, como


se o conhecimento fosse maravilhoso.

— Você tem seu som favorito, e agora, eu também. Eu adoro isso


quando é minha vez de voltar, e ouvi-lo vindo. Eu amo o soar do seu
empurrar. Quando eu ouço isso, isto me faz sorrir. Eu amo a sua voz e a
maneira como você ri de seu peito. Isto foi uma das primeiras coisas que
notei sobre você. Aquela risada. – Eu senti seu sorriso, seus lábios se
movendo suavemente contra a minha garganta.

— Eu amo essa curta respiração, o pequeno ofegar em sua garganta


quando eu toco em você aqui. – Eu pressionei minha mão em suas costas e
puxei-a com força contra mim. Sua respiração engatou na sugestão. — É isso
aí. Esse é o som.

Millie beijou meu peito, mas não falou. Contei até sessenta lentamente
e, em seguida eu continuei sussurrando tão baixinho e assim sem, e tive a
300

certeza que ela adormeceu.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— E você cantarola. Você cantarola quando está feliz. Você cantarola


quando você corre seus dedos pelo meu cabelo e quando você está
adormecendo. Você está quase cantarolando agora.

Houve silêncio no quarto, e eu soube que ela deslizou sob o cobertor


felpudo de sono. Era o que eu pretendia. Eu tinha esperado até que ela se foi.

— Eu quero ouvir este som a cada noite da minha vida. – Eu senti o


pânico crescer em minha garganta, sem saber quantas noites eu teria e não
querendo pensar sobre isso enquanto eu estava segurando ela. Com o
pânico veio lágrimas, e elas vazaram pelos cantos dos meus olhos e
pingaram em minhas orelhas.

— Eu amo você, Millie. E é o sentimento mais maravilhoso, a coisa


mais incrível que eu já senti. Eu não posso segurá-lo no meu peito, esse
sentimento. Então ele derrama para fora de mim sempre que você está por
perto. Ele derrama para fora de minha boca e meus olhos e meus ouvidos.
Isto derrama para fora dos meus dedos e me faz andar mais rápido e falar
mais alto e me sentir mais vivo. Você se sente assim, Millie? Eu faço você se
sentir mais viva?

Sua respiração profunda e suave eram minha única resposta, e eu


beijei o topo de sua cabeça.

— Como eu posso possivelmente estar morrendo quando eu me sinto


mais vivo do que eu já me senti antes?

***
301

EU RASTEJEI PARA o quarto de Henry perto de amanhecer. Eu queria


Página

vê-lo, apenas no caso. Apenas no caso de a notícia ser ruim e eu não voltar.
The Song of David/ Amy Harmon

Eu queria me despedir, mesmo que fosse temporário, mesmo se ele não


pudesse me ouvir. Ele parecia grande na pequena cama, com os pés longos e
joelhos manchados fora da cobertura. Ele precisava de uma cama nova. Eu
fiz uma nota para dizer a Millie e depois dar uma passada eu mesmo. O que
Millie diria? Ela cuidava de si mesma antes de conhecer, e ela estaria
cuidando de si mesma, e Henry, depois que eu fosse embora. Eles cuidariam
um do outro.

Eu não queria acordá-lo, e eu me movi, meus olhos deslizando sobre


sua mesa, sobre o livro sobre gigantes que tinham uma vez o assustado.
Moses tinha mencionado sobre a mãe falecida de Millie e este livro, e ele
tinha me atormentado por uma semana e eu tentava descobrir como
abordar o assunto sem perturbar ninguém. Eu tinha compartilhado as
habilidades de Moses com Millie em amplas palavras, mas saber que alguém
pode ver os mortos e ter alguém vendo os seus mortos eram duas coisas
diferentes. Eu sabia disso em primeira mão. Mas isso me incomodou
bastante que eu finalmente perguntei ao Henry sobre isso.

— Você não teria um livro sobre gigantes, não é Henry? – Perguntei


hesitante. Não foi muito sutil, mas aparentemente, Henry não precisa de
sutileza. Ele soube imediatamente qual livro eu estava me referindo. Ele
também sabia onde encontrá-lo. Ele fez uma algazarra descendo as escadas
para as caixas de armazenamento que foram ordenadamente empilhadas e
rotuladas, e dentro de alguns minutos, voltou com um punhado de velhos
tesouros, incluindo um livro que estava bem surrado e obviamente muito
302

lido. Ele era chamado Quando Gigantes se Escondem. Henry tinha me


Página
The Song of David/ Amy Harmon

mostrado as fotos e me fez encontrar cada gigante antes de virar para a


próxima página.

— O nome do meu pai é André. – ele disse abruptamente.

— Sim. Eu sei.

— Como André o Gigante41. – acrescentou.

Eu acenei. Um André era um gigante, um André joga com Gigantes.


Interessante. Eu não tinha feito à conexão, mas obviamente Henry tinha.

— André o Gigante tinha 2,24m de altura e pesava 230kg, – Henry


continuou enquanto nós viramos a página, nossos olhos descansando em
um gigante que se misturava com as árvores, com o cabelo enorme, afro
frondoso, sua pele desgastada e castanha.

— Ele era um lutador profissional. Eu costumava assistir vídeos


antigos de destaque dele lutando com Hulk Hogan, – eu disse.

— Quem ganhou? – Ele perguntou, olhando para cima a partir do livro.

Eu ri. — Você sabe o que? Eu não me lembro. Eu só me lembro de


pensar como André foi grande, e quanto eu queria cabelos longos e um cinto
de ouro grande como Hulk Hogan.

— Este livro costumava me assustar.

— Não mais?

Henry balançou a cabeça. — Não. Mas eu ainda procuro por gigantes


303

às vezes.
Página

41 André René Roussimoff, mais conhecido pelo seu nome no ringue André the Giant, foi pugilista
(wrestler) profissional e ator francês.
The Song of David/ Amy Harmon

— Gigantes... ou apenas um gigante? – Eu perguntei em voz baixa. Eu


pensei que talvez eu descobrisse por que a mãe de Millie mostrou o livro ao
Moses.

— André o Gigante morreu – disse ele sobriamente. — Eu não estou


procurando por ele mais.

Eu percebi que Henry sabia exatamente a que eu estava me referindo,


mas deixei o assunto cair.

Agora, olhando para o livro sobre mesa de Henry, as palavras do


médico tocaram na minha cabeça.

— Você tem uma massa gigante no seu lobo frontal.

Um gigante escondido que ninguém tinha visto. Até agora.

— Gigantes não fazem bons amigos.

Henry estava certo. Gigantes era algo a temer.

— Quando Gigantes se Escondem. – Eu li o título novamente, e Henry


arremessou, murmurando em seu sono. Eu coloquei o livro de volta para
baixo e notei um velho gravador de fitas que Henry tinha desenterrado
juntamente com o livro. Havia uma caixa de sapatos com fitas também,
algumas usadas, algumas novas. Aparentemente, Henry usou uma vez para
gravar suas próprias lutas. Ele tinha uma câmera digital para gravar agora,
mas ele estava excitado pela descoberta de sua coleção antiga.

As fitas e o gravador me deram uma idéia, e eu senti um pequeno


304

alívio, uma pequena tábua de salvação. Gostaria de usar as fitas para deixar
Página

uma mensagem para Millie. Eu os ergui cuidadosamente da mesa, pisando


The Song of David/ Amy Harmon

em silêncio enquanto eu tranquilamente voltava para o quarto com as


minhas mãos carregadas. Eu lhe devolveria tudo, prometi para Henry
silenciosamente.

***

Moses

NÓS PARTIMOS PARA Vegas no início da próxima manhã. Georgia


ficou para trás com Kathleen, mas Millie se recusou a ser deixada para trás.
Ela pediu desculpas por insistir já insistindo de qualquer maneira. E Henry
não podia ficar em casa sozinho. Por isso, éramos nós três na cabine do meu
caminhão, seguindo para Vegas com nossos estômagos em nós e nossos
pensamentos voltados para dentro. Poderia ter sido estranho, mas não foi.
Passamos um momento embaraçoso há muito tempo e esse foi nosso
caminho para sermos amigos.

A equipe de Tag partiu mais ou menos na mesma hora, mas não


tínhamos planos para nos encontrarmos. Isto era dividir e conquistar. Esse
era o plano, embora o plano não fosse específico. Meu objetivo era apenas
para chegar a Vegas e entrar na luta. Eu me preocuparia com o resto mais
305

tarde.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Não havia um toca-fitas no meu caminhão. Eles não fazem mais isto
desta forma. Mas Millie trouxe um toca-fitas e a caixa de fitas, e ela se sentou
com eles no colo como se ela não pudesse suportar ficar sem eles. Eles eram
uma tábua de salvação. Uma Tagline. Uma vez que no dia anterior, quando
Tag revelou os resultados de sua MRI, Millie não tinha compartilhado o
conteúdo das fitas restantes comigo ou Georgia, e eu não havia pedido para
ouvir. Eu não queria ouvir. A conversa veio a ser muito pessoal, a história de
amor muito perfeita, os sentimentos muito crus, e a história era para Millie
ouvir sozinha. Eu não tinha certeza se ela tinha continuado a ouvir depois
que nos separamos, mas eu estava adivinhando que ela tinha, ela tinha
escutado um pouco mais.

Por volta do meio caminho em nossa viagem, ela puxou uma fita e
colocou fones de ouvido. Fiquei impressionado que o toca-fitas funcionar
mesmo com fones de ouvido. Ela se afastou um pouco, puxando os joelhos
contra o peito, e perder-se na voz de Tag.

Não foi até meia hora depois que ela começou a chorar. Ela tinha sido
tão complacente. Então composta. Mas agora, agora ela não era. Algo na fita
abateu-a. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, e suas pálpebras estavam bem
fechadas, claramente numa tentativa de mantê-las dentro.

Eu precisava de Georgia. Eu não sabia o que fazer. E Henry tão certo


como o inferno não sabia o que fazer. Avistou as lágrimas de sua irmã e
imediatamente começou a mexer e puxar seu cinto de segurança,
estendendo a mão para Millie e, em seguida, afastando-se dela.
306
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Lou Gehrig, Jimmie Foxx, Hank Greenberg, Eddie Murray, Buck


Leonard... – Henry começou a murmurar e balançar, – Mark McGwire,
Harmon Killebrew, Roger Connor, Jeff Bagwell...

— Millie! – Eu levantei minha voz em um esforço para ser ouvido


sobre os fones de ouvido que tampava seus ouvidos.

Millie arrancou os fones de ouvido de suas orelhas e imediatamente


em sintonia com Henry.

Ela deslizou o toca-fitas para o chão e subiu sobre o banco sem


hesitação. Ela enxugou o rosto molhado com uma mão enquanto puxava
Henry para dentro de seus braços.

— Eu sinto muito, Henry. Estou bem.

— Cap Anson, Bill Terry, Johnny Mize, – Henry murmurou.

— Os jogadores de beisebol? – Perguntei reconhecendo alguns.

— Primeira base – Millie forneceu. Seus lábios estavam apertados, e


eu podia ver que ela ainda estava tentando forçar para trás a dor que tinha
chegado a ela primeiro. A testa de Henry descansou em seu ombro, os olhos
escondido dela destacando um rosto corado, dando-lhe um momento para
reuni-los.

— André Anderson – acrescentou Henry, mas não continuou listando


nomes.

Levei um minuto para colocar tudo em conjunto. Beisebol. Primeira


307

base. André Anderson. O pai de Millie e Henry.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Rookie of the Year42, Gold Glove43, Silver Slugger44. – Henry tirou de


Os braços de Millie e tocou seu rosto. Eu estava ficando tonto olhando para a
estrada e o espelho retrovisor e o drama no banco de trás.

— Rookie of the Year, Gold Glove, Silver Slugger, e péssimo pai – disse
Millie seguramente. — Eu não estou chorando pelo papai, Henry.

— Tag Taggert, meio-pesado contendor, dezenove vitórias, duas


derrotas, onze nocautes, namorado ruim? – Perguntou Henry.

Eu queria rir. Eu queria chorar. Eu fiz nenhum dos dois. Mas minha
garganta doía pelo esforço de não fazer nada. Millie riu, mas uma rápida
olhada no meu retrovisor confirmou que as lágrimas escorriam por suas
bochechas mais uma vez. Era tragicamente engraçado.

— Não, Henry. Não é o mesmo. Não é o mesmo em tudo. Tag não nos
deixou. Isto não é sobre nós, Henry. Isto é sobre Tag.

Senti uma onda de temor por Millie Anderson. As pessoas não me


impressionam muito facilmente. Eu poderia contar em uma mão as pessoas
que tinham excedido as minhas expectativas, mas Millie tinha acabado de
entrar na classificação.

— Ele ainda está desaparecido, – Henry insistiu, fazendo-me


estremecer. Millie não disse nada. Eu apenas continuei a dirigir.
308

42 Rookie of the Year é o prêmio ao melhor jogador da liga NFL, através de uma lista dos escolhidos é
Página

realizada a votação pela Baseball Writers Association of America (BBWAA).


43 Gold Glove é a Luva de Ouro ao melhor jogador, individualmente, da liga de beisebol.
44 Silver Slugger é o prêmio ao melhor jogador ofensivo da liga.
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO DEZENOVE
MOSES

A arena estava com flashes brilhantes e luzes estroboscópicas


balançando, e os lugares que eu tinha conseguido eram só a direita da mesa
do locutor, no lado esquerdo do octógono. Sabia de fonte segura que
seríamos capazes de ver do canto Tag e ele de nos ver se eu quisesse chamar
sua atenção. Eu teria que vender um dos meus pulmões para recuperar o
custo dos bilhetes, mas estávamos aqui. Axel, Mickey e o resto dos caras já
tinham chegado nos lugares também, mas outros estavam em outros
acentos na arena, e eu não tinha os avistado ainda.

O rosto de Henry estava vazio, mas seus olhos oscilavam bastante,


absorvendo as celebridades, a energia elétrica, os locutores, as ring girls45, a
música. Millie já com sua cara de jogo, e segurando firmemente a mão de
Henry para que ele pudesse guia-la pela multidão, mas fiquei com medo dos
dois serem arrastados, então estendi minha mão e segurei a sua livre, os três
de nós ligados como uma fila de jardim de infância passando pela faixa de
pedestre.
309
Página

45
The Song of David/ Amy Harmon

A aglomeração de pessoas me deixou nervoso, e eu podia ver. Nem


conseguia imaginar como Millie se sentia, colidindo pelo meio da multidão
numa escuridão total, sentidos sobrecarregados, incapaz de se orientar. Ela
agarrou a minha mão e me deu um flash de um sorriso assim que fizemos
nosso caminho para os acentos. A luta de Tag não era o evento principal,
mas ele estava na última luta antes dessa, e tinha mais dois combates
alinhados antes do seu.

Ele ainda não atendia seu celular. De fato, ligar para seu número só
resultou em uma mensagem para a caixa postal que já estava cheia. Nós
tínhamos o rastreado fazendo o melhor que podíamos, e agora só restava
esperar.

Millie estava desanimada na viagem para Vegas, com o rosto


sombreado e fechado, cuidando de Henry e conversando tranquila comigo, e
além das lágrimas que tinham vazado quando escutou uma das fitas de Tag,
ela manteve suas emoções trancadas no peito. Eu? Eu estava com raiva. Se
Tag não tivesse sua bunda chutada na luta, eu estava indo chutá-la depois. A
raiva me impediu de ter medo. Eu já tinha o bastante de auto coincidência
disso. Mas eu não entendia o que Tag estava pensando. Não mesmo. Não
entendia nos cortar e sair fora. Eu tinha visto um documentário uma vez
sobre como os nativos norte-americanos idosos deixavam suas tribos
quando estavam prontos para morrer. Mas Tag tinha vinte e seis. E ele não
era um nativo norte-americano. E me recusei a acreditar que ele estava
morrendo. A raiva se construiu no meu peito de novo, e mentalmente mudei
310

de assunto.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Henry estava sintonizado na mesa do locutor, mais interessado nos


comentadores do que nas lutas em si, e seu interesse chamou o meu. Eles
estavam falando sobre Tag, e senti Millie enrijecer ao meu lado.

— Para nossos telespectadores que só estão sintonizados, Tag Taggert


não estava programado para lutar hoje à noite. Mas quando Jordan Jones
desistiu no último minuto devido a uma lesão no ombro, o comissário da luta
Cliff Cordova, chamou Tag Taggert, que definitivamente é uma estrela em
ascensão na ultimate fighting, e perguntou se ele queria entrar nessa. Tag
venceu Bruno Santos no quinto round apenas há um mês, o que já é a segunda
vez que ele destrói completamente seu status de azarão, e bate um adversário
altamente favorecido.

— E agora, David Taggert entra na arena usando sua própria marca de


vestuário Tag Team. Mas ele está completamente sozinho. Só dois seguranças
de arena com ele. E isso é tudo. Nenhum ajudante, nenhum treinador, sem
qualquer tipo de equipe. Não acho que já vi isso antes. Para uma cara que vem
construindo sua marca Tag Team tão agressivamente, isso é um pouco
estranho.

— Tag! Tag! - Henry estava gritando e pulando para cima e para baixo,
tentando chamar sua atenção, e Millie estava tremendo tanto que cerrei
meus dentes para ajudá-la a parar. Tag viu Henry, me viu, e depois viu Millie.
Sua mandíbula apertou, seus olhos arregalaram, e diminuiu a velocidade,
quase parando, antes de se lembrar da onde estava. Na verdade, ele deu um
passo na nossa direção e Henry berrou seu nome mais uma vez e acenou
311

teatralmente. Os olhos de Tag foram como um tiro para mim de novo,


Página
The Song of David/ Amy Harmon

apontou na minha direção, em seguida para Millie, como se dissesse “cuide


dela”. E eu só podia olhar para trás.

E depois, após uma cotovelada do segurança, continuou até a bordo do


octógono, fez movimentos se aquecendo, tirou os sapatos, enfiou o protetor
de dentes na boca, e esperou o oficial chama-lo para frente. Ele não olhou
para nós de novo, e eu reconheci a inclinação de seus ombros e o queixo
projetado para cima. Eu já tinha visto isso em Tag mais vez do que eu
poderia contar. Era hora do jogo, e infelizmente, isso não era um jogo.

— O que está acontecendo, Moses? - Millie perguntou, o medo em sua


voz cortou o rugido da multidão ao nosso entorno. Me inclinei e coloquei
minha cabeça ao lado da sua. Eu não tinha ar suficiente nos pulmões para
gritar.

— Ele vai fazer isso. Ele vai lutar.

— Odeio que não posso vê-lo. - Seu rosto estava branco e sua boca
tremia.

Fiquei maravilhado pela milionésima vez com a sua coragem. Como


seria a sensação de passar a vida em perpétua escuridão, se colocando lá
fora e esperando que o mundo pudesse vê-la, mesmo se você não pudesse
ver isso? Eu vi mais do que quis ver, e por grande parte da minha vida, odiei.
Eu odiava o que podia ver. Mas era melhor do que não ver nada.

— Ele viu você, Millie. Sabe que você está aqui. Ele sabe que estamos
aqui.
312

— Como ele parece?


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Parece estar pronto. - Essa era a única coisa que eu podia dizer.

— Por que ele está fazendo isso? - A pergunta foi quase um soluço, e
peguei sua mão novamente. Eu não tinha uma resposta.

O locutor começou a falar, introduzindo Tag primeiro, e Henry


balbuciou sua sequência quase palavra por palavra, das vitórias e derrotas,
apelidos e finalmente David “Tag” Taggert, assim que a multidão vibrou e
minha consciência gritou. Tag era um fodido idiota. Isso era Davi e Golias, e
eu só podia olhar impotente quanto Terry ““Shotgun46” Shaw foi anunciado
e o árbitro chamou os dois lutadores para o centro do octógono. Henry sabia
as estatísticas de Shotgun muito bem.

A atenção de Millie mais uma vez se cravou na televisão que dava


todos os detalhes da luta, onde dois co-anfitriões faziam um bate-papo
animado, dando-lhe as informações que não podia ver. Os ouvi lançar uma
introdução da próxima luta assim que o árbitro se encontrava no centro do
octógono e conversou com os dois lutadores, que estavam parados peito
contra peito, olho no olho, tentando empurrar um ao outro antes da buzina
soar. Tag me disse uma vez que aqueles poucos segundos de intimidação
eram inestimáveis.

— A equipe de Shotgun não ficou muito feliz com esse emparelhamento.


Eles não acham que Taggert ganhou o direito de estar no octógono com
Shotgun. Eles realmente queriam a luta com Jones, mas Jordan Jones está fora,
e depois da grande vitória de Taggert no mês passado, ele seria uma escolha
óbvia na minha opinião. Ele é uma estrela em ascensão, popular com os fãs,
313

popular com os outros lutadores, assim como um grande embaixador para o


Página

46
O apelido do lutador traduzido é espingarda.
The Song of David/ Amy Harmon

esporte. É um atacante sólido, lutador sólido, e suas habilidades no wrestling


melhoraram imensamente. Ele foi um peão de boiadeiro na escola, então
definitivamente ele é viciado em adrenalina, embora alegue que alguns ossos
quebrados bastaram para deixar os touros em paz. Mas mais do que qualquer
coisa, esse cara aprecia o esporte. Ama ficar no octógono, o combate em si, e
alega que essa é a razão pelo o qual é bom. Ele ama lutar, e tem um inferno de
uma lábia.

A buzina soou e os locutores ficaram em silêncio por uns cinco


segundos. Tag e Shotgun circularam um ao outro, e os locutores não
conseguiram se segurar. Tiveram que saltar de volta para a luta.

— É isso mesmo Joe. Na luta recente contra Bruno Santos, houve alguns
momentos que todos pensavam que ele ia para baixo. Bruno conseguiu alguns
golpes brutais, e Taggert apenas continuou vindo. Ele meio que deixou Bruno
cansado, o no final pegou Santos com uma direita e o mandou para a lona,
absolutamente aturdindo o mundo da luta. Santos claramente era o favorito,
assim como Shotgun é o favorito hoje. Mas não subestimem Tag Taggert. Não
o subestimem, porque ele pode surpreender vocês.

Meu coração saltou como uma bola no peito e o suor escorria pelas
minhas costas. Tag tentou um movimento para baixo e ganhou uma
enxurrada de punhos no lugar.

— Oh, Shotgun aterrissou uma sólida combinação no corpo de Tag! E lá


vem um sorriso de Tag Taggert! Ele está sorrindo de orelha a orelha!
314

— Será isso parte de seu plano de jogo? Sorrir em meio a dor?


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Sabe, pode ser isso, já assisti muitas de suas lutas e honestamente


acho que ele realmente ama uma batalha. Ele já começa a sorrir quando os
primeiros punhos começam a voar, e ele não para.

Eu tive que parar de escutar os locutores. Eles estavam me deixando


nervoso. Mas estavam certos. Shotgun vinha com força para ele, e o sorriso
de Tag ficava maior. Com suas covinhas aparecendo, as mulheres no meio de
toda a multidão solidamente já estariam do seu lado depois do segundo
round. Vi isso antes. Tag sorrindo assim que o sangue escorria de seu nariz e
boca. O homem era lunático.

Mas ele não estava doente, e não agiu como um doente, e senti uma
lasca de alívio que Tag não estava tentando morrer. Ainda não. O punho de
Shotgun raspou a testa de Tag no final do primeiro round e por um minuto,
as pernas de Tag endureceram. Shotgun viu que Tag ficou temporariamente
abalado e partiu para ele, punho voando, só para ter sua confiança e
dinâmica usada contra ele. Tag lançou um double leg perfeito, envolvendo
os braços ao redor dos joelhos de Shotgun, e o derrubou de forma limpa
pelas costas.

A multidão foi à loucura, os locutores ficaram selvagens, e Millie se


esforçou para ouvir seus comentários, com uma mão na minha e a outra
sobre Henry.

— Tag derrubou ele! - Soltei um grito, dando-lhe os detalhes. Eu sabia


que ela precisava, mas seus olhos ficaram trancados nas costas de Tag
enquanto lutava para moer seu caminho pela guarda de Shotgun.
315
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ground and Pound!47 - Henry berrou.

Mas o round terminou, e Tag foi forçado a deixar Shotgun se levantar.


Tag levantou com facilidade e caminhou para seu lado vazio, mas não se
senta no banquinho colocado lá para ele, e nem se inclina contra as cordas,
dando as costas para a multidão. Em vez disso, agarrou uma toalha, atirou
água na boca e cuspiu de novo, tomou outro gole e achou Millie no meio da
multidão. Ficou de pé, agarrando a gaiola que cerva o octógono, e não olhou
para mim ou qualquer outra pessoa. Manteve seus olhos nela tendo o
suficiente para os locutores virarem seus cabeças, tentando ver quem
prendeu sua atenção.

— Tenho tudo sob controle, Millie! - Ele rugiu de repente. — Deixe


comigo! Eu tenho isso, baby!

— Ouviu ele, Millie? - Gritei para ela, com meus olhos nunca deixando
Tag e os dele plantado no rosto de Millie. Ela assentiu vigorosamente. — Ele
quer que você saiba que ele está okay.

Todo mundo estava olhando para ela agora, e os locutores ficaram


com os olhos arregalados e abertamente especulavam assim que a buzina
soou e Tag se virou. Ele continuou nesse caminho pelos próximos quatro
rounds. Quando a buzina soou, Tag procurava o canto, encontrava Millie, a
tranquilizava, sempre da mesma maneira.

— Tenho isso, baby. Eu tenho tudo sob controle.

A multidão começou a acreditar nele. E começaram a entoar para ele,


316

um coro que iniciou com Henry.


Página

47
Jargão de luta, também usado no Brasil, que nada mais é do que uma tática que consiste em derrubar e bater no
adversário quando ele ainda está no chão, conseguindo um nocaute.
The Song of David/ Amy Harmon

— Tag Team! Tag Team! Tag Team! - Gritava continuamente, e depois


de não muito tempo, as pessoas ao nosso redor pegaram o coro, e isso se
espalhou pela multidão a dominando com poder, até Shotgun acertar Tag na
testa de novo, o fazendo cambalear, deixando ir para baixo só num joelho
para capturar Shotgun abaixo do queixo, batendo sua cabeça para trás como
um estalo de chicote, causando a um estalo.

Shotgun desmoronou.

Por meio segundo houve um consumo coletivo de ar, um batimento


cardíaco aturdido compartilhado que silenciou a platéia antes do
pandemônio estourar e o árbitro praticamente deslizar para a forma inerte
de Shotgun, acenando freneticamente os braços acima da cabeça, indicando
que a luta acabou.

— Acabou! - Gritei. — Ele conseguiu!

— Tag! - Henry berrou num delírio selvagem. — Tag!

Mas Millie só ficou parada, balançando, olhos secos, palmas das mãos
encharcadas. Ou talvez foi da minha mão. Agarramos um ao outro, e Henry
se pendurou também, os três de nós capturados no pico e na ondulação que
se espalhou ao nosso entorno. A multidão gritava, batendo palmas, pulando
para cima e para baixo, empurrando, batendo nas nossas costas, nos
felicitando. Todo mundo assistiu como Tag se focou em Millie durante a luta,
e eles se focaram só nela agora.

Tag se aproximou de seu canto novamente, desta vez com as mãos


317

levantadas acima da cabeça. Mas assim que ele encontrou Millie mais uma
Página

vez, os olhos se estreitaram no rosto dela, sua perna direita se dobrou e as


The Song of David/ Amy Harmon

mãos caíram, abandonando a celebração para se segurar. Ele oscilou


grosseiramente, a multidão ofegou e se lançou para frente, soltei a mão de
Millie, e meus braços se estenderam como se eu pudesse pegá-lo.

Seus dedos se emaranharam na rede, olhos revirando, e seu corpo


estremeceu, colapsando num monte de espasmos no chão do octógono. E
continuou a convulsionar. Foi para cima e pulei a barreira da jaula antes que
alguém pudesse me parar. A multidão ficou em silêncio ao redor do
octógono, e por incrível que pareça, ninguém me desafiou. Me ajoelhei ao
seu lado, tentando o pegar, sem saber o que fazer, e o árbitro imediatamente
foi para o meu lado, assim como alguém foi para o lado de Shotgun.

— Ele está tendo uma convulsão! - O árbitro disse bruscamente, e


alguém empurrou o protetor de boca de volta entre os dentes de Tag, para o
impedir de morder a língua. Deslizei meu braço sob sua cabeça para impedir
de bater contra o chão.

Shotgun estava se sentando, com os olhos turvos, e a equipe médica


que veio imediatamente para o auxílio dele o abandonou para a nova
emergência. Pelo canto do olho pensei ver Molly. Cabelo loiro, olhos azuis,
esperando silenciosamente. E mordi de volta uma maldição e travei minhas
paredes, me recusando a reconhecê-la.

***

A televisão na sala de emergência estava sintonizada numa estação


318

local, e Millie, Henry e eu ficamos sentados num silêncio entorpecido,


Página

ouvindo uma repórter de Vegas compartilhar a notícia do dia. Axel, Mikey,


The Song of David/ Amy Harmon

Cory, Andy e Paulo também estavam aqui, parecendo tão tristes e


eviscerados como eu, e levantaram os olhos para a tela quando o nome de
Tag foi mencionado. A repórter estava parada do lado de fora do MGM, onde
pessoas ainda fluíam dentro e fora do local, com sua mão segurando um
microfone azul felpudo, sua expressão era séria e exultante, dizendo o que já
sabíamos sobre a luta de Tag e nada das outras coisas que nós queríamos
saber.

— Era uma noite de luta no MGM, e muitos estavam esperando um


longo tempo para ver o evento principal, mas foi uma luta preliminar, com
uma substituição de última hora, que tem sido o assunto entre os fãs nesta
noite. David Taggert foi convocado apenas três dias atrás para preencher o
lugar de Jordan Jones. Jones estava programado para lutar com o velho
favorito da UFC peso meio-pesado campeão, Terry Shaw, quando sofreu uma
lesão que o deixou incapaz de lutar.

— David Taggert, após a virada impressionante em abril contra Bruno


Santos, foi chamado para tomar o seu lugar. Os fãs de luta definitivamente
viram que gastaram bem seu dinheiro quando Taggert e Shaw passaram um
total de cinco rounds antes de Taggert nocautear Shaw. No entanto, esse não é
o fim da história. A controvérsia é sobre a convulsão que Taggert teve após a
luta terminar. Shaw nocauteado. O combate havia acabado. O árbitro
levantou a mão de Taggert, Tag Taggert se virou na direção da multidão,
levantou suas mãos, deu alguns passos e colapsou.

— Ele foi levado para um hospital da área em estado crítico, e nós


319

estamos agora ouvindo relatos que logo após a luta de abril, onde Tag
Página

derrotou Santos, ele teve um confronto em seu bar na cidade de Salt Lake com
The Song of David/ Amy Harmon

um ex-funcionário. Tag foi atingido ao longo da testa na discussão e sofreu um


ferimento na cabeça bastante grave. Dizem que ele foi tratado e liberado
nessa noite, mas evitou chamar atenção nas semanas seguintes a briga. A
especulação agora está correndo solta. Vamos manter vocês informados sobre
sua condição e quaisquer outros desdobramentos que podem lançar luz sobre
essa chocante série de eventos.

Tag entrou em cirurgia cerca de uma hora depois de ter chegado na


sala de emergência. Na verdade, ele recuperou a consciência brevemente na
ambulância, pelo que nos disseram. Ele perguntou sobre a luta, e contaram-
lhe que teve uma convulsão, e depois apagou de novo. Ele teve a ousadia de
se certificar que realmente ganhou a luta antes de perder a consciência mais
uma vez. Isso quase me fez rir. E eu teria rido que não estivesse com tanta
raiva.

De acordo com o doutor que veio e conversou com nós cerca de três
horas depois que chegamos no hospital, o cérebro de Tag já tinha começado
a sangrar e inchar, provavelmente durante a luta. Pensei no golpe que ele
levou na testa no final do primeiro round, quando suas pernas cambalearam
e todos pensaram que ele vinha a baixo. E lutou por mais três rounds antes
de tomar outro golpe no mesmo ponto antes do combate terminar. O
inchaço criou uma pressão que só então causou a convulsão, que por sua vez
os ajudou a achar o sangramento. Aparentemente, pessoas que passam por
uma craniotômia e tem tumores removidos de seus cérebros não devem
entrar num octógono com menos de três semanas após a cirurgia.
320

Eu não pude ir na ambulância com Tag. Tive que ficar com Millie e
Página

Henry. Nós lutamos nosso caminho em meio à multidão o mais rápido que
The Song of David/ Amy Harmon

podíamos, o que não tinha sido fácil, para depois corrermos para o hospital,
chegando a uns bons vinte minutos após Tag ter sido levado as pressas
através das portas da emergência. Contei para a enfermeira na recepção
tudo o que eu sabia, tudo sobre o que Tag havia confessado nas fitas, e pedi
a ela que por favor repassasse para aqueles que estavam tratando do meu
amigo. Ela me deu aquele olhar como se eu fosse altamente perigoso, me
olhando por cima de uns pequenos óculos, pressionado seu gordo queixo no
peito em confusão. Ela me ouviu e em seguida se levantou, entrando pelas
portas que Millie e Henry e eu não éramos permitidos seguir.

Eu já podia imaginar as reações atordoadas dos enfermeiros e


médicos quando Tag chegou ali e começaram a puxar seu histórico e depois
quando passasse pela MRI48. Ele tinha puxado seu cabelo desgrenhado num
rabo de cavalo para a luta, cobrindo completamente as linhas raspadas ao
redor do crânio, evidências da craniotômia, mas essas coisas não podiam
ficar mais escondidas. Seu cabelo já tinha saído do laço e caia em torno de
seu rosto quando o segurei em meus braços no octógono. Eu vi as provas,
assim como eles.

Quando a funcionária gorda da recepção finalmente voltou para seu


posto, ela estava balançando a cabeça, e ficou olhando para nós como se
tivesse escapado de um show de horrores. Eu tinha sido olhado assim umas
duas vezes, então só fiquei olhando de volta com toda a insolência que
podia, e Millie, obviamente, sem saber que era o foco das suspeitas atenções.
Henry estava nervoso, jorrando sua usual bagunça, mas Millie estendeu sua
321

mão, acariciou seus cabelos e falou sobre alguma trivialidade fútil, como se
Página

48
Sigla para Magnetic Resonance Imaging, ou seja, Imagem por Ressonância Magnética (IRM).
The Song of David/ Amy Harmon

ele fosse o garoto mais inteligente do universo. Em pouco tempo ele já


estava comendo M&Ms de amendoim e bebendo Sprite das máquinas de
venda automática com relativa calma, sussurrando estatísticas para si
mesmo de vez em quando.

— Ele está fora da cirurgia. Fomos capazes de parar a hemorragia. - O


médico disse solenemente. E olhou de mim para Millie. Seus olhos se
arregalaram e focou em mim de novo, obviamente percebendo que só
poderia fazer contato visual com um de nós. Para seu crédito, ele continuou
falando, quase parando. — Ele está inconsciente, e gostaríamos de mantê-lo
dessa forma nesse ponto, mas nós achamos que o inchaço diminuirá nas
próximas doze horas e ele vai acordar. Precisaremos o monitorar pelos
próximos dias, mas ele deve ficar bem. A atividade cerebral parece ser boa,
sinais vitais também. Consultei o Dr. Stein e o Dr. Shumway do hospital LDS.
Foi o Dr. Shumway que realizou a craniotômia em seu amigo, e não posso
contar mais, mas o Sr. Taggert tem grandes decisões para tomar. Penso que
ter você aqui, ter pessoas falando sobre o que ele fez e sobre o que ele
precisa fazer, é importante. Ele teve sorte de ficar vivo.

322
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO VINTE
MOSES

Tag acordou assim como o médico previu, mas não nos deixaram vê-lo
até o mover para fora da UTI, o que não aconteceu até depois vinte quatro
horas após ele ter recuperado a consciência. Ficamos saindo e voltando do
hospital para um hotel nas proximidades, correndo contra o terror e
dormindo pouco, e dois dias após nossa vigília, ao voltarmos para o hotel
para tomar banho e nos trocarmos, Henry subiu na cama e se recusou a
voltar. Millie nunca ia deixar Henry sozinho no hotel horas a fio, então ela
ficou para trás e eu voltei para o hospital.

Fiquei surpreso ao encontrar Tag sentando na cama, círculo ao redor


dos olhos, mandíbula áspera de vários dias sem fazer a barba, cabelo
desgrenhado no rosto. As bandagens e marcas de grampos eram
extremamente visíveis agora, e ele coçava seu crânio como se a pele nua
estivesse o deixando louco.

— Já faz quase três dias. A maior parte já curada, e isso coça. -


Reclamou com um sorriso, como se fosse apenas um machucado superficial,
nada sério. — Acho que tenho que convencer uma das enfermeiras para me
323

ajudar a raspar tudo de uma vez. Vamos ficar gêmeos, Mo. - Disse, se
referindo ao fato de que meu cabelo nunca foi grande.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Eu não podia responder. Eu não ia ficar de conversa fiada e falando


besteiras como Tag sempre fazia. De fato, nem conseguia entender ele. Só
encarei meu amigo e enfiei as mãos nos bolsos reprimindo minha vontade
de pintar... ou mata-lo.

— Acho que Millie vai adorar uma cabeça lisa. - Ele parou
abruptamente e esfregou o queixo, claramente agitado. — Ela está aqui, Mo?
Com você?

— Ela está num hotel com Henry. Ele ficou exausto, e ela nunca o
deixaria sozinho.

Tag concordou e fechou os olhos, como se também estivesse exausto.

— Bom. Isso é bom.

Uma enfermeira apressada entrou, me viu, e hesitou um pouco. Quase


ri. Ela provavelmente queria Tag todo só para ela enquanto o atendesse.
Típica mulher. Ele provavelmente tinha a equipe de enfermagem inteira a
seu dispor. Seria o paciente mais bem cuidado da história do hospital.

Assisti enquanto ela cuidadosamente o cobriu com o lençol e


gentilmente começou a raspar o cabelo dele com um barbeador elétrico,
parte por parte, até se virar para mim, com a cabeça lisa e cheia de
cicatrizes, parecendo tão diferente e derrotado, tão mudado, que relaxei
minhas mãos, soltando um pouco da raiva.

A enfermeira soltou algo como “você deve se sentir bem melhor


agora”, e varreu da sala o cabelo tosquiado e tirou o lençol que o cobria.
324
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Depois ela o ajudou a tirar vestido do hospital, tomando cuidado com os IV49
e vários outros monitores, para colocar um novo. Captei a atenção de Tag
quando ela cuidadosamente amarrava os cordões nas suas costas. Levantei
uma sobrancelha e ele me deu um sorrisinho que me deixou saber que ele
não mudou tanto assim.

Assim que ela saiu do quarto, Tag fechou os olhos brevemente,


descansando momentaneamente, e eu senti o medo encher meu peito mais
uma vez.

— Você parece uma merda, Tag. - Eu disse.

— Assim como você, Mo. - Atirou de volta, sem nem abrir os olhos.

— A culpa é sua.

Suspirou e então murmurou:

— Eu sei.

Não comentei, pensando que ele precisava dormir. Mas depois de


várias respirações longas, abriu os olhos e encontrou meu olhar.

— Sinto muito, Moses.

— Você não deveria ter partido assim. Colocou todos nós num inferno.
- E acho que estávamos indo para lá, depois de tudo.

— Não vi uma solução melhor.


325
Página

49
Sigla para Via Intravenosa, que consiste na introdução de injeção de agulha ou cateter para administração
diretamente na corrente sanguínea.
The Song of David/ Amy Harmon

— Posso pensar em uma. - Eu bati, e quando ele não respondeu


imediatamente, exalei fundo e pressionei minhas mãos em meus olhos
cansados.

— Às vezes sinto que a morte é a única coisa que ainda não fiz. - Ele
disse eventualmente. — Inferno. Até já tentei algumas vezes. O problema
com a morte é que ela é exclusiva, como o sexo e o parto. Uma vez que você
tenha feito isso, não tem como voltar atrás.

Seus pensamentos eram claramente retóricos, e fiquei esperando de


novo.

— Esse é o ponto, Mo. Eu estou okay com isso. Se tem uma coisa que
aprendi de ser seu melhor amigo, de assistir você comungar com os mortos,
é que a morte não é algo que preciso temer. Não sou um homem perfeito.
Mas acho que sou um homem bom. Eu tenho vivido um inferno de uma vida,
mesmo com todo o sofrimento. Millie me disse uma vez que a capacidade de
devastar é o que faz uma música bela. Talvez é isso que faz a vida mais bela
também. A habilidade de devastar. Talvez só assim para saber se estamos
vivendo. Se verdadeiramente amamos.

— A habilidade de devastar. - Repeti. E minha voz quebrou. Se essa


não fosse a perfeita descrição da agonia do amor, eu não sabia mais o que
era. Senti essa devastação. Eu sobrevivi a isso, mas não quero sobreviver a
isso novamente.

— Amo tanto ela, Mo. Amo pra caralho. Essa coisa me suga muito. Eu
326

sou capaz de lidar com o câncer. Sou capaz de lidar com a morte. Mas vou
sentir falta de Millie. Já sinto falta. - Ele engoliu em seco, com sua garganta
Página
The Song of David/ Amy Harmon

trabalhando horas extras contra a emoção sufocou nós dois. — Vou sentir
falta de você também, Mo, mas você pode ver pessoas mortas, então posso
voltar e te assombrar.

Eu ri, mas saiu como um gemido, e fiquei ali, precisando escapar,


odiando a tristeza, a fúria contra a inutilidade do sofrimento, e ainda sentido
isso de qualquer maneira.

Tag me observou andar e quando finalmente sentei, indicando que eu


estava pronto, ele falou de novo.

— Estou okay com a morte, Mo, estou bem com isso. - Disse devagar.
— Mas morrer... morrer é diferente. Tenho medo de morrer. Tenho medo de
não ser forte o suficiente para as pessoas que me amam. Tenho medo do
sofrimento que isso vai causar. Tenho medo do desamparo que vou sentir
quando eu não puder fazer meu melhor. Não quero sentar na cama do
hospital, dia após dia, morrendo. Não quero Millie tentando cuidar de mim.
Não quero Henry me assistindo desaparecer do gigante a sombra. Você pode
entender isso, Mo?

Balancei a cabeça devagar, embora fazer isso me fez sentir doente,


como se eu estivesse tolerando com o que ele tinha feito, partindo como ele
fez.

— Me deitei na cama todas as noites depois que eles me disseram o


que eu estava enfrentando. Me deram todos os riscos, o tempo que sobrava,
os melhores cenários, os piores cenários. Pela manhã eu sabia que isso não
327

era para mim. Disse para meu médico “muito obrigado, mas vou ir agora”.
Página

— E você não ia contar para ninguém?


The Song of David/ Amy Harmon

— Não. - Tag balançou a cabeça, com seus olhos nos meus. — Não.

— Mas... - Eu não compreendia. Eu não estava seguindo o raciocínio.

— Tenho meus assuntos em ordem. Encontrei com meu advogado e


resolvi algumas coisas. Redigi meu testamento, liquidei um monte de contas.
E a única que estava me incomodando era o dinheiro que eu ainda devia a
meu pai. Eu poderia vender tudo, bar, academia, a linha de roupas. Se eu
fizesse isso, ainda não teria o suficiente, mas não quero vender. Quero
deixar o ginásio com os caras. E quero deixar o bar para Millie e Henry,
então Millie pode dançar em torno do maldito poli dance até que tenha
oitenta e dois anos e ninguém possa dizer não, e Henry pode ter um lugar
onde possa conversar sobre esportes e alguém para ouvir. Ele ama o bar. Eu
queria deixar alguma coisa para você também, mas sabia que você ia odiar
isso.

Ele tinha razão. Ele estava confuso sobre todo o resto. Mas tinha razão.

— Mas mesmo com a venda dos apartamentos, a liquidação de tudo,


mais minha caminhonete, e ainda devo a meu pai cinquenta mil. - Tag
continuou.

— Não era a sua herança?

— Eu não queria uma herança. Queria construir minha própria


estrada. - Tag argumentou. — Eu disse para ele que ia pagar tudo de volta
quanto tivesse trinta anos. Trinta não vai acontecer, Mo. Então eu precisava
encontrar uma maneira de pagar mais cedo.
328

— A luta.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Yeah. - Tag assentiu. — A luta. Acontece que me ofereceram um


combate pelo cinturão que me pagariam cinquenta mil dólares. E eu não
tinha absolutamente nada a perder.

— E depois da luta?

— Eu ia fazer uma viagem para Dallas, ver minha mãe, minhas irmãs e
pagar meu pai de volta. Não os vejo faz um tempo. Depois... dar uma
caminhada para as colinas acima do viaduto de Nephi.

— Aquele onde Molly foi enterrada?

— Aquele onde Molly foi enterrada. - Confirmou. — Caminhar para as


colinas. Tomar uma pílula. Ver o pôr-do-sol quando eu fosse dormir.

— Era isso então? - Perguntei controlando meu temperamento.

— Era isso. - Respondeu, sem paciência.

Senti uma onda de raiva no peito e um estalo nos ouvidos, mas


mantive meu nível de voz. Aparentemente, ele não tinha pensado que
precisava dizer adeus para mim.

— Então você deixou as fitas. Por quê?

— Foi minha maneira de dizer adeus. Queria que Millie soubesse


como eu me sentia. Cada passo do caminho. Como me apaixonei por ela.
Nunca quis que tivesse alguma razão para duvidar de mim. Eu queria que
ela soubesse que foi real, que foi perfeito, que foi o melhor presente que eu
já recebi.
329

— E você retribui a ela tomando seu presente e o arremessando


Página

longe?
The Song of David/ Amy Harmon

Tag ficou em silêncio, me encarando, seu rosto procurando


compaixão. Amor forrando sua face e vazando pelos cantos dos olhos.

— Eu amo você, Mo. Você sabe disso, não sabe? - Disse gentilmente. E
eu sabia que ele me amava. Não tinha nenhuma dúvida. Mas ele tinha um
inferno de uma maneira de mostrar isso.

— Vai se foder, Tag! - Silvei. — Eu sei o que quer de mim. Sei que você
quer que eu diga que apoio sua decisão. Mas não sou tão altruísta. Não sou
aquele amigo. Eu não quero que você sofra. Realmente não quero. Gostaria
de compartilhar esse fardo se pudesse. Eu substituiria seus piores dias se eu
pudesse, porque sei que você faria o mesmo por mim num piscar de olhos.
Mas prefiro vê-lo sofrer que dizer adeus. Sinto muito. Se isso faz de mim um
idiota, então mudo meu nome. Basta só colocar num crachá e vou usar. Não
dou a mínima. Quando começasse a ter medo de um pouco de dor?

— Não é isso, Mo.

— Mentira! - Rugi. — Você deve isso para as pessoas que amam você
lutando. Você nos deve!

— Não é o meu sofrimento que me preocupa, cara. - Disse tão baixo


que mal pude ouvi-lo.

— Onde está a sua raiva? Onde está o monstro de olhos verdes que
queria me matar só por respirar o nome de sua irmã? Onde está o cara que
pegou o touro pelos chifres na Espanha só para ver se conseguia? Onde está
o cara que atirou num homem para me proteger, que me tirou da linha de
330

fogo? Deixa eu ver se entendi, Tag. Você morreria para salvar minha vida,
Página

mas eu não posso lutar para salvar a sua?


The Song of David/ Amy Harmon

— Não se eu tenho que colocar as pessoas direto no inferno para fazer


isso.

— Tire essa capa50, irmão. Tire agora! Ou vou bater o inferno pra fora
de você, colocar uma camisa de força e começar a bombear um monte de
quimio eu mesmo. Só observe.

— Te amo, Mo.

— Pare de falar isso, Tag!

— Te amo, Mo.

Senti uma sensação de fragmentação dentro do meu peito e eu soube


que tinha de sair antes de me descontrolar. Eu raramente chorava, mas eu
tinha uma tendência de armazenar até a dor, colocando-a longe em
compartimentos escondidos, encaixotando, e construindo partições. Eu
acumulava minha dor. Mas agora os remendos estavam arrebentando, me
deixando incapaz de escapar de sentimentos fortes que tinham me
ameaçado enterrar desde que Millie me ligou e disse que Tag tinha ido
embora. Eu estava caindo aos pedaços. E tive que partir.

Tag

Levei vários dias para fazer as fitas. Eu comecei isso como uma
331

maneira de dizer adeus, uma maneira de expressar meus sentimentos, meu


amor por Millie nas minhas próprias palavras. E quando contei nossa
Página

50
Expressão americana que quer dizer deixar de bancar o herói.
The Song of David/ Amy Harmon

história, percebi o milagre que era. Moses estava certo. Eu tinha um milagre.
E com cada palavra, cada fita, fiquei mais convencido disso. O problema foi
que eu não sabia como parar. Não queria que as fitas acabassem. E eu não
queria dizer adeus.

Quando recebi a ligação da luta, peguei as fitas que eu tinha


completado, junto com o gravador, que eu tinha pegado emprestado de
Henry, do gabinete do escritório no ginásio, e deixei uma chave no envelope
para Millie. Mas eu tinha ainda tanto para falar. Gostaria de lembrar de mais
alguma coisa, algo que perdi, algo que queira falar a ela. Depois me recordei
do que o médico disse “glioblastoma grau 4”, e considerei todas as coisas
terríveis que eu tinha lido e pesquisado sobre meu diagnóstico.

Pensei nas fotos que vi, recitando as taxas de sobrevivência. E pensei


na forma que eu iria morrer, a maneira que ia sofrer, a maneira como as
pessoas ao meu redor iam sofrer. E não me deixai chamar ela. Em vez disso,
fui atrás de um gravador para mim para gravar mais fitas. Acabei por passar
os próximos dias, quando eu já deveria estar na estrada para Vegas, nas
lojas de penhores procurando por um. Comprei um na quinta loja que tentei
quando uma velha me vendeu um gravador portátil empoeirado, junto com
um pacote fechado de fitas cassetes virgens, tudo por cem dólares. Ela me
disse, completamente séria, que eu estava fazendo um trato. Provavelmente
estava certa. Eu teria pago duzentos.

Os resultados da biópsia vieram com bastante rapidez. Só fiquei no


hospital por dois dias após a craniotômia. Não muito tempo, considerando
332

que tinham perfurado a minha cabeça e retiraram um grande pedaço de


Página

tecido do meu cérebro. Eles conseguiram remover noventa e cinco por cento
The Song of David/ Amy Harmon

do tumor, o que foi uma ótima notícia. Também voltaram com o resultado
da biópsia muito mais cedo que o previsto. Pensavam que levaria seis dias
depois da cirurgia para obter os resultados. Eu tive sorte. Só levou quatro.
Sorte, sorte minha.

Quando fui para a craniotômia, fiz um trato comigo mesmo. Se os


resultados dessem negativos, sem câncer, eu ligaria para Moses e ligaria
para Millie, e então contaria sobre o pequeno susto que passei. Ia dizer que
não queria os preocupar, e hey, nem foi grande coisa. Eu estava ótimo.
Deixaria Millie ficar com raiva e me xingar, depois a beijaria até se acalmar,
e se gostaria de casar comigo. Por que esperar? O que eu disse mesmo?
Quando você ama algo você deve dar seu nome. Fiz isso com meu bar e
estava indo fazer isso com minha garota. Inferno, e se Henry quisesse meu
nome, ia adotá-lo também. Não vejo porque não poderia ser feito. Seríamos
todos Taggerts. Esse foi o trato que fiz comigo mesmo.

E se as notícias não fossem positivas? Se eu tivesse um diagnóstico


terminal? Se a notícia não fosse positiva, eu não chamaria ninguém.

E foi isso que fiz. Chamei um táxi para vir me pegar depois da
craniotômia. A enfermeira insistiu em ligar para alguém, e eu insistir que
poderia cuida de mim mesmo. Me sentia ótimo. Minha cabeça doía, o que
fazia sentido. Mas fora isso, me sentia bem. E eu ficava dizendo isso porque
era a verdade. Meu corpo se sentia bem. Era meu coração que doía.

Meu coração parecia uma merda. Mas eu estava bem. Fui para casa e
dormir por uns dois dias, acordei para beber água, ir para o banheiro e
333

voltava a dormir. Depois que tinha certeza que meus resultados chegaram,
Página
The Song of David/ Amy Harmon

dirigi para o hospital para descobrir que eu tinha de seis meses a um ano de
vida.

Dirigi de volta para casa.

Ainda não chamei Moses, ainda não chamei Millie. Não liguei para Axel
ou incomodei Mikey. Em vez disso, deixei todo mundo acreditar que eu
tinha ido a Dallas para ver minha família, e liguei para o meu advogado.
Então comecei a colocar as coisas em movimento. Durante esse tempo,
ignorei as ligações. Não li minhas mensagens.

Eu não podia. Não podia e permaneci forte. Mas eu estava no meio da


gravação de uma fita para Millie quando o telefone tocou, interrompendo
meu ritmo, e o agarrei para silencia-lo e vi o nome de Cliff Cordova
iluminado a tela. Respondi por instinto.

Ele tinha uma luta para mim. Sábado à noite em Vegas, seis dias de
distância, contra Terry Shaw. Cinquenta mil dólares se eu ganhasse e dez
mil apenas pela presença. Eu disse a ele que só faria isso pelos cinquenta
mil, independente se ganhasse ou não, mas o prometi que iria ganhar. Ele
concordou me disse que se vencesse Tag Team ia ficar com mais vinte mil
dólares, e me disse para estar em Vegas dentro de quarenta e oito horas.

Isso iria estragar meu plano. Minha equipe ia descobrir. E ficariam


magoados se eu lutasse sozinho. A palavra chegaria a Millie. E ficaria
magoada também. E Moses iria me encontrar na vida após a morte e
chutaria minha bunda. Mas seria um inferno de uma maneira de se despedir.
334

Pensei que seria forte. Pensei que seria ótimo para a equipe. Pensei
Página

que ia embora num momento de glória. Lutar a morrer. Ser forte. Mas eles
The Song of David/ Amy Harmon

me encontraram primeiro. E quando vi Millie ali no meio da multidão, Henry


ao seu lado, Moses segurando sua mão e me olhando como se quisesse me
estrangular, minha determinação me abalou e minha pernas ficaram fracas.

E isso me deixou puto.

Eu não ia me dissolver numa poça para Terry Shaw me liquidar no


primeiro round. Não ia pegar o meu sacrifício e todos os planos e atirar
direto para o inferno porque minha garota estava na platéia e meu melhor
amigo irritado. Eu não ia deixar o maçante palpitar na minha cabeça que não
ia embora desde que acordei com vinte pontos no meu crânio me deixar
descuidado e lento. Não ia deixar o câncer vencer. Não neste round, pelo
menos.

Lutei mais duro do que qualquer luta antes. Tudo doía, minha energia
estava manchada, minhas duas semanas fora da academia mais o fator
cirurgia. Corri três milhas no dia que Cordova ligou. Corri mais cinco no
próximo. E um dia antes da luta treinei na academia Vegas Gold e trabalhei
meu suor chutando como inferno um saco de pancadas, anestesiando minha
pele, e lembrando que não tinha nada a perder. Nem fiquei nervoso. Isso foi
bizarro.

Esse sentimento continuou até ver Millie. Então meus nervos me


atingiram como uma mangueira de incêndio e fiquei aterrorizado de deixa-
la para baixo, ou pior, eu ia ter minha bunda chutada e ela ficaria lá,
testemunhando isso acontecendo. Tinha visto seu rosto depois do primeiro
round. Ela estava miserável. E chamei sua atenção. Nem conseguia me
335

ajudar. Mas eu tinha de tranquilizá-la, e fiz de novo na próxima rodada. E de


Página
The Song of David/ Amy Harmon

novo. E então ganhei. Seu rosto cansado tinha o mais lindo sorriso, e Henry
estava gritando meu nome. Moses ainda parecia furioso.

Depois a sala girou. Um rosto gritando turvando em outro, como se eu


estivesse num carrossel. O octógono girava. Nem sabia como isso era
possível. Deve ser um novo truque. Então percebi que era eu. Eu era o único
girando. E depois estava caindo, meu corpo ricocheteou no chão, minha
cabeça se conectando em uma batida um pouco depois, bem na mosca. E a
multidão gritou. Não levantei minhas mãos ou cobri meu rosto. A luta
acabou, não? O sinal tinha soado. Em vez disso meus olhos focaram
sonolentamente em Moses, seu rosto manchado ainda mais escurecido pela
rede cruzando a gaiola. Moses não parecia mais com raiva. Ele parecia
atordoado, e o vi correr na minha direção. Pulando no octógono, vindo. Me
senti como se estivesse numa névoa e não conseguia controlar meus braços
direito. Meus músculos se contorceram de repente, repuxando, tentando
pular para fora da pele. E um estrondo começou. Pareceu como se um
grande caminhão caísse em cima de mim. Como se eu estivesse parado do
outro lado da estrada. Como se estivesse parado embaixo do viaduto não
muito longe da onde encontraram o corpo da minha irmã.

— Tag! Pode me ouvir? Porra. Acho que ele está tendo uma convulsão!

Era Moses falando comigo, mas soou esquisito, longe. Como se sua voz
viesse do outro lado do campo onde Molly estava enterrada. Do outro lado
do campo depois da parada de caminhões que fazia uma negligente vigília
por uma garota morta. O rugido dos caminhões continuou, um depois do
336

outro, um tufão deles passando por mim.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Ele está mordendo a língua! Coloque o protetor de boca de volta!


Tag! Tag! Vamos lá, baby.

A dor na cabeça se tornou tão forte que de maneira nenhuma eu


poderia abrir os olhos. Talvez eu fosse aquele com a bala na cabeça. Talvez o
assassino da minha irmã me matou também. Não. Isso não estava certo. O
assassino de Molly estava morto. Matei ele. O encontrei e o matei. E os
cachorros encontraram Molly.

— Sr. Taggert. Se estiver me ouvindo, pode tentar abrir os olhos?

Eu tentei. Tentei abrir os olhos. A dor ricocheteou na minha cabeça de


novo, como o som de um tiro, reverberando a memória no presente. Nah.
Não era isso. Não tinha nenhuma bala no meu cérebro. Havia outro
problema com meu cérebro.

Uma vez, minha irmã Molly me desafiou a comer dois punhados de


areia. Ela disse que eu não ia conseguir fazer isso. Então é claro que fiz. E
não tinha sido areia molhada. Era tão áspero e seco que ficou preso na
minha garganta e fiquei tossindo areia por uns três dias depois. Não
conseguia engolir e a língua estava inchada e estranha atrás dos meus lábios
rachados. E minha garganta em chamas.

Talvez eu tenha voltado para a praia com Molly, o céu azul sem fim,
interrompido apenas por um avião voando baixo puxando uma serpentina
sobre seguro de carros atrás. Mas o zumbido e a luz não vinham de céu
brilhante ao longo do trecho de praia, e minha garganta não estava cheia de
337

areia. Luzes brilhantes circulavam minha cabeça em vez de aviões bi


Página
The Song of David/ Amy Harmon

planes51, e os zumbidos se transformaram em beeps de máquinas e vozes


preocupadas.

— Sr. Taggert?

— Me chame de Tag. - Eu disse com a voz áspera.

— Tag, você sabe onde está?

— Hospital Psiquiátrico Montlake. - Sussurrei. Eu podia até mesmo


sentir o cheiro da água sanitária. — Sr. Taggert? - Moses nunca me chamou
de Sr. Taggert. Ninguém em Montlake me chamava de Sr. Taggert. Talvez eu
não esteja em Montlake. Mas eu estava num hospital. Disso tinha certeza.

— Você estava numa luta, Sr. Taggert. Se lembra da luta?

— Eu ganhei? - Sussurrei, tentando levantar as mãos para ver meus


dedos. Se eu estivesse num hospital por causa de uma luta, então
provavelmente não venci. Meu pai ficaria tão decepcionado. Fechei meus
olhos contra a luz e as vozes, tentando me lembrar do que perdi.

— Estou orgulhoso de você, David. - Meu pai nunca me disse isso. Onze
anos de idade, e ele nunca tinha me dito que estava orgulhoso. Mas estava
orgulhoso agora.

— Está? - Minha voz falhou perplexa.


338
Página

51
The Song of David/ Amy Harmon

— Yeah. Às vezes temos que ser maus na vida para conseguir algum
respeito. Não tem nada de errado em se defender. Não é uma coisa muito
popular nos dias de hoje. As pessoas acham que é iluminador ser fraco. Não é.
Existem momentos de palavras e momentos de ação.

Concordei. Gosto de palavras. Mas ação causa em sentimento incrível.

— Palavras funcionam melhor se as pessoas com que está conversando


sabem que você tem algo para apoia-las se as palavras falharem. Durante
quanto tempo tentou ser amigo daquele garoto?

— Muito tempo.

— Pensei isso.

— Acho que quebrei seu nariz. - Tentei não soar tão satisfeito como me
sentia.

— Yeah. Provavelmente quebrou. Mas agora ele sabe que você pode, e
não vai começar uma briga com você tão rápido, agora ele vai?

— Nope. - Fiquei em silêncio por alguns minutos, até que me forcei a


confessar. — Pai?

— Yeah, filho?

— Eu gosto disso. Gosto de lutar. Quero fazer isso de novo.

— Quero uma revanche. Pensei que tinha ganhado. Pensei que tinha
339

batido naquele cara. A buzina tocou. - Tentei formar as palavras, mas saíram
arrastadas e malfeitas e não tinha certeza se alguém entendeu. Deve ser a
Página
The Song of David/ Amy Harmon

areia na minha boca. A areia e minha língua ferida. Porra, como minha boca
doía.

— Ganhou a luta. E já acabou. Mas você teve uma convulsão, Sr.


Taggert. Nós precisamos descobrir a causa.

E então meus olhos fecharam e o mundo ficou escuro, mais escuro do


que jamais foi. Essa foi a última coisa que lembrava. E agora eu estava aqui.
Agora eu estava num hospital, o único lugar que jurei que não ia voltar. Aqui
não teria mais como fugir. O que faço agora? Para onde vou daqui? Eu não
sabia.

Eu não sei o que fazer, Eu não sei o que fazer, o antigo refrão estava de
volta na minha cabeça, um som que grudou na mente e se recusou a se
transformar numa solução. Então fui falar com o gravador. De novo.

Alguém da folha de pagamento de Cordova tinha levado minha


caminhonete para o hospital, bem como todas as minhas coisas. Tinha uma
enfermeira para me ajudar a levantar, eu estava trêmulo e tonto, mas eu
poderia me mover o suficiente, e posicionei o player pela minha cabeça pela
cama de hospital inclinada, falando nisso, então nem precisaria segurar o
gravador no meu rosto. Eles não iriam me manter por muito tempo aqui.
Nós iríamos voltar para Utah em um ou dois dias. Axel ia dirigir minha
caminhonete. Quando disse que ele podia fazer isso, Millie tinha me cortado
imediatamente e a enfermeira riu.

Eu não tinha ficado sozinho com Millie. Nenhuma vez. Ela ficava
340

parada perto, sua mão no meu braço, sempre me tocando, mas não tivemos
nenhum tempo só para nós. Não queria a repetição de cena com Moses, e
Página
The Song of David/ Amy Harmon

não tinha idéia do que dizer para ela. A convulsão tinha me deixado exausto
e o sono era um alívio. Quando eu estava acordado e ela estava por perto, eu
só podia olha-la, pegar sua mão, e tentar imaginar o que estava pensando. O
que estava sentindo. Acho que eu sabia, e sua agonia só me fazia querer
dormir novamente. Tentei uma vez lhe dizer como sentia muito, e ela só
balançou a cabeça e disse:

— Eu sei, garotão. Eu sei.

Mas seus olhos se encheram de lágrimas e deitou a testa no meu peito


escondendo isso de mim. Acariciei seu cabelo até o sono me puxar para
longe.

Os caras, Axel, Cory, Mikey, Paulo e Andy, entravam e saiam. Eles se


recusaram a ir para casa sem mim. Tive a sensação que estava se revezando
fazendo guarda, como se eu fosse fugir de novo. Nenhum de nós
conversamos sobre o porquê de eu estar aqui. Andavam na ponta dos pés
em torno do elefante como se falar sobre isso faria todos desmoronar. Então
por enquanto, fingimos que foi a luta que me colocou aqui. Uma luta que eu
tinha ganhado de maneira bastante gloriosa. Isso nos deu algo o que falar.

Moses não voltou. Moses nunca tinha sido capaz de fingir. Só trouxe
Millie e Henry e foi os pegar de novo quando Henry ficou agitado e precisava
voltar para o hotel. Eu podia dizer que queria que Millie ficasse. Mas o dever
chamava, e ela partia sem protesto, um aperto de mão, um abraço em Henry,
e nenhuma das coisas que precisavam ser ditas foram discutidas.
341

Já era tarde. Todos os caras finalmente tinham ido embora, voltando


para o hotel pela noite, depois de fazer um grande show rasgando os
Página
The Song of David/ Amy Harmon

contratos que meu advogado os tinha enviado, dizendo que ginásio era meu
e eles não iriam assinar nada. Foram embora, mas eu tinha certeza que
alguém ficou para trás para ficar sentado do lado de fora da porta do meu
quarto no hospital.

Finalmente fiquei sozinho, falando com o gravador que facilmente era


mais velho que eu, contando minha história na esperança de descobrir um
final que não fosse devastar as pessoas que amo.

342
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO VINTE E UM

TAG

Na manhã seguinte, Henry chegou ao meu quarto de


hospital primeiro. Eu quase não o reconheci. Seu cabelo tinha ido
embora, assim como o meu, e apenas uma barba curta manteve-se.

— Henry! É você, cara?

— Sou eu. - Ele sussurrou, balançando a cabeça. Ele parecia


perturbado. Obviamente, Millie ou Moses havia explicado algumas coisas
para ele. Eu queria que eles não tivessem, mas eu acho que não havia
nenhuma maneira de contornar isso. Eu esperava que eles iriam deixá-
lo acreditar que eu estava aqui apenas por causa da luta. Eu não queria
que ele se preocupasse com o resto.

— Onde está Millie? - Perguntei quando o silêncio se estendeu entre


nós.
343

— No telefone, no corredor.
Página

— E Moses?
The Song of David/ Amy Harmon

— Ele foi pegar o café da manhã para nós, na cafeteria.

Eu balancei a cabeça, agradecido. Moisés estava cuidando


deles. Bom. Andy, Cory, Axel e Mikey estavam cuidando deles, também, mas
eles estavam a caminho de casa agora.

— O que você fez com o seu cabelo, Henry? - Perguntei quando ele se
recusou a chegar mais perto do pé da minha cama.

Henry coçou a cabeça lisa com ambas as mãos, obviamente irritado. O


rosto dele parecia tão diferente, sem o cabelo, e pela primeira vez pude ver
a semelhança entre Millie e seu irmão. Eram os olhos. Os olhos de Millie
pareceriam com os de Henry, se ela pudesse enxergar. Do jeito que era, a
forma, a cor pálida, os espessos cílios negros eram os mesmos, mas os olhos
de Henry estavam arregalados com perguntas.

Henry sentou-se no final da minha cama abruptamente, e quando ele


olhou para mim novamente, seus olhos estavam vidrados, e seus
lábios tremiam.

— Brian Piccolo era um running back do Chicago Bears.

Olhei para ele, intrigado. Eu tinha que pensar sobre isso por um
minuto. Então, eu entendi.

— Sim. Ele era. - Ele era. E Brian Piccolo morreu de câncer aos vinte
e seis anos de idade. Mesma idade que eu. Eu tinha feito Moses assistir
"Brian's Song" comigo, chorei durante toda a maldita coisa, mesmo eu já
tendo visto isso uma dúzia de vezes antes, e em seguida, chamei-o
344

de Billy Dee por um mês depois. Era mais divertido do que o chamando
Página

de Gale, depois de Gale Sayers, o melhor amigo do Piccolo. Moses não gostou
The Song of David/ Amy Harmon

do apelido, mas a dinâmica entre James Caan e Billy Dee Williams no


filme era bastante semelhante a Moses e eu. Eu acho que esse foi o meu
próprio jeito de comunicar a Moses que eu o amava sem realmente
dizer. Aparentemente, eu lembrava Henry de Brian Piccolo também. Eu
estava honrado. E eu estava apavorado.

— Você raspou seu cabelo por minha causa, Henry?

Henry assentiu e coçou a cabeça nervosamente, mais uma vez.

— Moses me levou a um barbeiro.

— Ele levou? - Meu coração doeu com o pensamento de meu amigo. —


Parece muito bom, não é?

Henry balançou a cabeça novamente.

— Shaquille O'Neal, Michael Jordan, Brian Urlacher, Matt Hasselbeck,


Mark Messier, Andre Agassi...

— Nós somos gêmeos. - Eu comentei, interrompendo sua


recitação nervosa de atletas carecas.

— Eu sei. - Respondeu Henry. — Eu quero me parecer com você.

A dor em meu coração aumentou. Henry era irresistível às vezes.

— Posso esfregar sua cabeça? - Eu só queria que ele se


aproximasse. Eu precisava abraça-lo por um minuto.

Henry se levantou e se moveu até que ele estava de pé ao meu lado. Eu


345

puxei a mão dele e ele sentou ao meu lado, a cabeça baixa, olhos no chão.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Coloquei minha mão esquerda sobre a cabeça dele e esfreguei em


círculos suaves, querendo confortá-lo, odiando que eu era impotente
para fazer isso.

Com um soluço repentino, ele caiu contra o meu peito, e eu passei


meus braços em torno dele, acariciando sua cabeça raspada. Ele chorou por
um minuto, encharcando meu vestido do hospital, agarrado a mim como se
ele estivesse com medo de perder seu aperto. Então ele começou a falar.

— David "Tag" Taggert, peso meio pesado com um registro


profissional de vinte vitórias, duas derrotas, doze nocautes. - Henry soou
como um locutor de luta que tinha bebido, com todos
os soluços e palavras arrastadas, a voz abafada contra mim, e eu notei que
ele tinha acrescentado minha recente vitória na biografia.

— Não é um currículo ruim, hein?

— Você é um lutador. - Ele chorou.

— Sim. Eu sou. - Eu disse.

— Você ama lutar. - Ele insistiu.

— Amo.

— Você é um lutador! - Henry levantou a voz e eu percebi o que ele


estava dizendo.

— Esse é um tipo diferente de luta, Henry. – Fiquei acariciando sua


cabeça.
346

— É a mesma coisa.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Não. Não é a mesma coisa.

— Você é um lutador!

— Henry...

— Millie luta! - Henry insistiu, me interrompendo.

— Ela com certeza faz. Cada maldito dia.

— Mikey luta. - Ele levantou a cabeça do meu peito.

Eu podia apenas acenar.

— Moses luta. – Disse ele.

Minha garganta fechou.

— Henry luta? - Desta vez foi mais uma pergunta do que uma
declaração.

— Você luta. - Sussurrei.

— Meu pai não lutou. - Seus olhos se encontraram com os meus, a


súplica neles tão sincera, tão determinada, tão amável, que eu não podia
responder. Filho da puta. Ele estava me matando.

— Tag Taggert é o melhor lutador do universo. - Ele implorou. — O


melhor lutador do universo.

Eu não sei como eu alguma vez já pensei que Henry não era um bom
comunicador.
347

Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
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The Song of David/ Amy Harmon

— EU PRECISO QUE VOCÊ puxe mais, Mo. – Insistiu, minha mão na


maçaneta da porta. Eu estava sentado na parte de trás com Millie, e Henry
estava no banco do passageiro ao lado de Moses. Estávamos no nosso
caminho de casa de Las Vegas, e a viagem não poderia ter sido mais infeliz
se eles tivessem me amarrado no telhado como a tia Edna52 no National
Lampoon’s Vacation53. Eu estava preso. Eu não poderia desaparecer
novamente. Eu estava tomando medicamentos anti-convulsivos, e fui
informado que era ilegal para “dirigir um veículo a motor no estado de Utah,
por até três meses depois de sofrer uma convulsão”. Alguns estados, como
Colorado, nunca permitiam voltar a dirigir. Legalize a maconha, mas não
deixe alguém como eu dirigir novamente nunca mais. Não faz nenhum
sentido para mim.

Os olhos de Mo encontram os meus no espelho retrovisor. Ele só tinha


falado comigo com grunhidos e monossílabos desde nossa conversa
acalorada no hospital, e eu podia sentir sua raiva e frustração lutando
contra a minha própria.

— Encoste. – Gritei. Ele poderia parar ou ele podia limpar o meu


vômito em seu banco de trás.

Ele parou no acostamento, cascalho e detritos levantando quando os


pneus cavaram no asfalto ao lado da estrada.

Abri a porta, sai, dei alguns passos e vomitei no pneu traseiro direito
de Mo. Ele ia ficar tão satisfeito. Eu deveria saber melhor. Pílulas para dor
sempre me deixam enjoado. Agora eu estava tremendo, apoiado contra a
348
Página

52
Personagem do filme.
53
É um filme, no Brasil o título é “Férias Frustradas”.
The Song of David/ Amy Harmon

caminhonete, tonto e fraco, e tudo isso só me chateou. Eu era durão. Eu


trabalhei duro para me tornar um. Eu era duro, eu era poderoso, e tudo que
podia fazer era balançar e me segurar, implorando ao mundo para me
segurar, e então eu não iria cair.

Estávamos ao norte de Cedar City, ao sul de uma cidade chamada


Beaver, que deixou nada além de espaço aberto e lugar interminável para
contemplação. Os campos pontilhados de flores roxas em ambos os lados da
rodovia rolavam serenamente enquanto as montanhas pareciam olhar como
pais indulgentes. Era tudo tão tranquilo e benigno que me deixou furioso.
Era uma mentira. Tudo isso.

— Você precisa fazer xixi, Tag? – Henry perguntou de dentro da


caminhonete. — Será que ele precisa fazer xixi, Amelie? Posso fazer xixi
também?

Millie saiu e cautelosamente tateou ao longo da lateral da


caminhonete, as mãos estendidas até que seus dedos tocaram minhas
costas. Eu ouvi Henry perguntar a Moses se ele poderia sair também, e
Moses pediu-lhe para esperar apenas um minuto. Apreciei isso. Eu amava
Henry, mas eu não queria uma audiência. O fato de que Millie não podia me
ver era reconfortante. Ela era reconfortante.

Ela me entregou uma garrafa de água, sem fazer comentários, e eu


aceitei com gratidão, enxaguando minha boca e cuspindo algumas vezes.
Senti-me melhor e tomei algumas respirações cuidadosas, enchendo meus
pulmões para ver se a náusea se foi.
349

— Melhor? – Perguntou ela, gentilmente.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Sim.

— Você pode se encostar em mim, sabe. Descansar sua cabeça em


meu colo. Isso fará com que o resto da viagem seja mais fácil se você dormir.

Eu tinha me segurado com firmeza as primeiras horas da viagem,


mantendo distância entre nós. Ela não tinha me tocado, e eu não tinha
chegado para ela. Havia muito a dizer, e até agora, nenhuma chance para
falar. Culpa, confusão e tristeza estavam guerreando em mim, especialmente
nos últimos dias. Eu tinha um plano, um terrível plano de merda, mas ainda
um plano. Mas tinha sido enviado ao inferno, e agora eu não podia ver o
caminho a seguir.

Percebi que tinha dito as últimas palavras em voz alta e me virei para
olhar para Millie, cujo rosto virado de repente estava perto o suficiente para
beijar. Nós não tínhamos estado tão perto desde a noite antes da minha
craniotômia, a noite quando fizemos amor. Eu era um imbecil. Eu tinha feito
amor com Millie e então eu corri. Culpa cortou através de mim. Culpa,
remorso e desejo, e a náusea voltou.

— Eu não posso ver o caminho a seguir. - Repeti, dando-lhe as costas,


desejando que a agitação no meu intestino e o balanço na minha cabeça
aliviasse.

— Eu também não. - Disse Millie suavemente. Mas isso ainda não me


parou.

Eu não podia responder. Eu não podia fazer nada além de respirar e


350

me segurar até que meu estômago se acalme. Eventualmente, Millie e eu


Página
The Song of David/ Amy Harmon

subimos de volta no banco de trás, Henry teve sua vez fora do caminhão, e
nós retomamos o nosso caminho.

Millie pegou minha mão, e quando ela a encontrou, ela puxou, me


levando em direção a ela. Eu era um homem grande, e foi necessário um
pouco de força, mas ela embalou minha cabeça em seu colo e puxou meu
casaco por cima dos meus ombros. Pressionei meus punhos contra meus
olhos como uma criança, segurando as lágrimas indefesas que queriam cair.
Segurei-as até que eu adormeci com as mãos de Millie acariciando e me
acalmando, perdoando-me, mesmo que eu não merecesse isso.

***

Moses

EU NÃO SABIA o que fazer com meus passageiros. Não me atrevi a


levá-los de volta a Salt Lake. O apartamento de Tag e o apartamento acima
dele estavam sob contrato - ele tinha um comprador interessado antes dele
351

sair para Vegas. Além disso, ele não deve estar sozinho. Ele não estava bem,
e eu não confiava nele para não fazer algo ridículo. Mais uma vez. Eu poderia
Página
The Song of David/ Amy Harmon

levar Millie e Henry para casa em Salt Lake e insistir que Tag viesse comigo
para casa em Levan, mas eu sabia que Millie não iria querer isso. Eu não
acho que ela e Tag tenham tido a chance de arejar as coisas. E eles
precisavam. Tag precisava consertar as coisas, se isso fosse mesmo possível.
Eu observei-os pelo espelho retrovisor, Tag finalmente cedeu e deixou Millie
segurá-lo no último trecho da viagem. Ela iria perdoá-lo, se ela já não
tivesse, mas eu não sabia se ele iria deixa-la. A coisa toda estava seriamente
bagunçada. Tudo, e eu senti a angústia ferver em mim novamente. Eu não
tinha idéia do que fazer.

Tag tinha uma consulta com o seu oncologista em Salt Lake em uma
semana. Eu tinha feito ele ligar para o Dr. Shumway na minha frente, e ele
colocou o médico no viva voz. Dr. Shumway havia sido atualizado pela
equipe médica em Vegas na luta de Tag, da hemorragia e edema que tinha
causado a convulsão, e da condição atual de Tag, que era
surpreendentemente boa, considerando tudo. Aparentemente, depois de
uma craniotômia, é típico esperar pelo menos um mês para deixar o
paciente curar antes de embarcar em um tratamento, em outras palavras,
radiação e quimioterapia. Passaram-se três semanas, então o tratamento do
Tag não tinha sido adiado por sua decisão de fugir, mas Dr. Shumway tinha
informado a Tag que era improvável, com a lesão que ele tinha “sofrido”. Dr.
Shumway foi notavelmente diplomático, que o tratamento para o câncer
começasse na próxima semana.

Tag precisaria de mais tempo para curar agora, e saber disso me


352

deixou com raiva de novo. Eu queria que o câncer se explodisse. Eu não


queria Tag esperando mais. Ele não parecia chateado com qualquer atraso.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Apenas subjugado. Perturbado. Inseguro de si mesmo. Ele observava Millie


com tanta fome e pesar que era difícil ficar com raiva dele. Mas eu consegui.

— Você está voltando para casa comigo. Pelo menos pelos próximos
dias. - Insisti, chegando a única solução que eu poderia pensar. Estávamos
nos aproximando da saída Levan /Mills, uma saída onde tinha alguns
veículos abandonados, várias vacas abandonadas e um reservatório
artificial que não tinha muito para se olhar. A rodovia atravessava Levan
completamente, e a única saída, a várias milhas da cidade, era a única
maneira de acessá-la sem retornar de Néfi. Engraçado, Levan era apenas um
pontinho no mapa, um pontinho, mas Geórgia e Kathleen estavam lá, e de
repente eu estava incrivelmente com saudades da cidade que um dia eu
odiava.

Eu peguei o olhar de Tag no meu espelho retrovisor, e ele me encarou


de forma constante. Ele levantou a cabeça do colo de Millie e se sentou.

— Vocês estão todos voltando para casa comigo. - Repeti com firmeza.

Ele quebrou o contato visual e se virou para Millie, mas ela já estava
balançando a cabeça.

— Tudo bem. - Disse ela facilmente, e eu soltei a respiração que eu não


sabia que eu estava segurando.

Henry foi o único sorrindo.

— Você sabia que o peso médio de um jóquei é entre 49 e 54 quilos? -


ele perguntou. Aparentemente, ele estava querendo cavalgar novamente. —
353

Mas um jóquei tem que ser forte. - acrescentou. — Porque um cavalo de


Página

corrida pesa em média 540 quilos e pode ser forçado a correr a 64km/h.
The Song of David/ Amy Harmon

Eu apertei o pedal para baixo, voando para casa, deixando um cavalo


de corrida na poeira.

354
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO VINTE E DOIS

PASSEI OS primeiros três dias na casa de Moses e Georgia enfurnado


no meu quarto. Georgia me trouxe comida que eu não queria comer, e eu
dormi tanto quanto eu poderia. Mas no quarto dia, eu estava inquieto,
irritantemente recuperado, e eu não poderia me esconder no quarto sobre o
estúdio de Mo para sempre. Mesmo que eu quisesse. Eles colocaram Henry
na cama de solteiro no quarto do bebê – Kathleen ainda dormia em um
berço no quarto de seus pais, e Millie pegou o quarto de hóspedes no andar
principal. Essa era uma casa grande, uma bela casa, e eu amava as pessoas
nela, mas eu tinha propositadamente os evitado.

Moses tinha pisoteado nesta manhã com a pintura que ele fez de Davi
e Golias e colocou-a para baixo em uma armação de frente para minha cama.
Então ele desabou uma enorme bíblia, apenas jogou-a na minha frente, e
abriu-a em uma seção que ele tinha destacado em lápis vermelho.

— David mata gigantes. Gigantes não matam David, – ele gritou,


batendo no livro. — Leia-o. – Ele pisoteou novamente para fora.
355

Peguei o livro, gostando do peso na minha mão, a suavidade das


Página

páginas. Ela tinha letras douradas gravado na capa – Kathleen Wright – a


The Song of David/ Amy Harmon

avó de Moses, sua filha recebeu o nome de sua avó. Desde a aparência dela,
sua Bíblia tinha sido uma amiga de confiança. Surpreendeu-me que Moses a
leu, mas ele obviamente tinha, pelo menos o suficiente para encontrar a
passagem da escritura que ele queria que eu lesse. Voltei atrás na página
aberta e li as seções destacadas.

E sucedeu que, quando Golias se levantou, e veio, e chegou perto de


encontrar Davi esse Davi se apressou e correu em direção ao exército para
enfrentar Golias. E Davi colocou a mão no alforje, e tomou dali uma pedra, e
giraram-na, e feriram Golias em sua testa com aquela pedra afundando sua
testa; e ele caiu com o rosto em cima na terra. Então Davi prevaleceu sobre
Golias com uma faixa e com uma pedra, e feriu Golias, em demasia; mas não
havia espada na mão de Davi. Pelo que correu Davi, e se pôs sobre Golias, e
tomou sua espada, e tirou-a da bainha da mesma, e cortou com ela sua
cabeça.

Moses havia sublinhado a parte onde Davi correu para enfrentar


Golias. Pequeno ansioso trabalhador, esse Davi. Aparentemente o Davi
bíblico gostava de lutar também. Suspirei e fechei o livro. Eu não estava
terrivelmente inspirado. Eu sabia o que Moses queria, mas no fundo, eu não
estava convencido, e eu queria que ele me ouvisse. Moses era tudo sobre
ver, mas ele poderia estar para ouvir de vez em quando.

Eu podia ouvir Georgia e Henry fora da janela do meu quarto. O quarto


com vista para o curral redondo, e Georgia estava andando com Sackett
círculos devagar, Henry empoleirado felizmente atrás, conversando, como
356

falar era sua coisa favorita e não algo com que ele lutava.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Georgia era danada de boa no que fazia, e fiquei maravilhado com o


pequeno milagre que Henry estava aqui, aproveitando os benefícios de
minha amizade com Georgia e Moses. Se nada mais, isso era algo que eu
poderia agarrar. Eu não tinha estragado tudo. Não era tudo ruim.

Foi apenas na maior parte ruim. Incluindo a maneira que eu cheirava.


Eu precisava desesperadamente de um banho. Além da cama, Moses tinha
uma enorme pia e um vaso sanitário escondido acima de seu espaço de
trabalho, mas sem chuveiro. Eu teria que enfrentar o resto da casa para isso,
e não poderia ser adiado por mais tempo.

Quando entrei na casa através da entrada da garagem, parei para


ouvir. Eu podia ouvir alguém no andar superior, Moses, pelo som das
pisadas, mas ninguém parecia estar no andar de baixo. O grande banheiro
de hóspedes no andar principal era conectado ao quarto que Millie dormiu,
mas a cama estava bem feita e Millie estava longe de ser vista. Eu liberei
minha respiração e mergulhei no banheiro, trancando a porta e utilizando o
chuveiro.

Mas Millie estava esperando por mim quando eu saí. Ela sentou-se
empertigada na cama, as mãos cruzadas no colo, apenas esperando.

— Você cheira bem, David, – ela disse com um sorriso, e eu senti uma
pontada que essas palavras invocavam na memória. Ela estendeu a mão
para mim, como se tivesse feito na noite em que nos conhecemos, como se
esperando por mim para agitá-la.
357

— Oi. Sou Amelie. E eu sou cega.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Eu não podia negar-lhe. Eu pisei à frente e peguei sua mão na minha e


disse o meu verso.

— Oi. Eu sou David. E eu não sou. – Eu não a soltei, e ela não se


afastou. Corri meu polegar sobre a maciez de sua pele, meus olhos fixos em
nossas mãos juntas. Deus, eu a amava tanto! Eu queria fechar a porta,
trancá-la, e empurrá-la de volta para a cama e simplesmente deixar tudo ir.
Só por um tempo. Eu queria isso tanto.

— Agora que nós nos apresentamos outra vez, talvez você vá falar
comigo, – ela sugeriu suavemente.

— Eu não quero falar, Millie, – Eu sussurrei.

Ela inclinou a cabeça para os lados, pegando o canto na minha voz. O


canto. O maldito canto que ainda estava vibrando entre nós, a música na
repetição constante.

Ela levantou-se lentamente, e ela estava tão perto que seu corpo
escovava o meu. Eu senti sua respiração em minha garganta, um pouco de
vibração da melodia que eu não podia tirar da minha cabeça, fora do meu
coração. Eu trouxe uma mão para o rosto dela e inclinei seu queixo para
cima, até que seus lábios estavam diretamente sob o meu. E então eu a
beijei. Tão levemente. Tão suavemente. Tentando desesperadamente para
não transformar a música em uma sinfonia, o canto em uma um evento de
orquestra.

Ela respondeu, mas ela não aumentou o ritmo. Nossos lábios se


358

encontraram, fundiram, e recuaram apenas para se encontrar novamente e


Página

repetir o movimento. Quando eu lhe pedi os lábios separados e provei a


The Song of David/ Amy Harmon

doçura molhada de sua boca, era tudo que eu podia fazer para não gemer na
derrota. E, depois, estávamos caindo de costas na cama, seus quadris em
minhas mãos, a minha camisa apertada em seus punhos, e o beijo rugiu para
um inevitável, de repente crescente.

E foi aí que ela me empurrou para longe.

— David. Pare, – ela sussurrou, sua boca me procurou mesmo quando


ela me pediu para parar. Eu pressionei minha testa à dela para controlar-me
e reprimir uma maldição quando minha carne tenra ainda protestou contra
o contato. Ela pegou meu rosto em suas mãos, e passou os dedos sobre o
meu rosto, como se estivesse tentando ler a minha expressão.

— Nós não temos que conversar. Mas você não pode me beijar e, em
seguida, ir embora de novo. Você não pode fazer isso comigo, David. – Havia
aço em sua voz, apesar de ter sido envolvido em veludo, e eu sabia que ela
quis dizer isso.

— Eu posso não ser capaz de controlar se vou ou não, – eu disse,


rolando longe dela e olhando para o teto.

— Isso não é o que quero dizer, grandalhão. E você sabe disso. – Ela
sentou-se e cruzou as pernas debaixo dela. Ela manteve a mão no meu braço
a maneira como ela sempre fazia quando nós estávamos próximos, o contato
era importante para ela. Sim. Eu sabia o que ela queria dizer. Eu tinha me
levado embora. Me afastado. E ela estava me perguntando se eu estava indo
para fazê-lo mais uma vez.
359

— As pessoas não sobrevivem o que eu tenho. Elas simplesmente não


Página

fazem, – eu sussurrei.
The Song of David/ Amy Harmon

Ela imediatamente sacudiu a cabeça. Resistindo. Sua resistência me


fez áspero.

— Pode parecer romântico, Millie. Cuidar de mim. Mas não é


romântico. Vai ser feio e doloroso. E eu não vou ser o homem que você está
apaixonada. Eu vou ser o homem tentando não morrer e morrendo de
qualquer maneira. – Eu pressionei. Ela endureceu e sua mão apertou a
minha camisa. Bom. Ela estava ouvindo.

— Eu vou parecer como merda, eu provavelmente vou estar ruim


como o inferno, e você saberá o que está fazendo. Eu vou perder meus
músculos. Você é tudo sobre os músculos, lembra? Eu já perdi o meu cabelo.
Eu vou perder minha capacidade ser forte para você. E para Henry. E
quando você perder tudo isso, quando você estiver no inferno, eu vou
morrer de qualquer jeito! Eu vou morrer de qualquer jeito, Millie, e você não
terá qualquer coisa para deixar. Sem David, sem Tag. Você não terá a minha
música. Você apenas vai ter entranhas cheia de tristeza, – argumentei,
fervoroso. Mas ela estava pronta para mim.

— Por algumas pessoas vale a pena sofrer. Eu sou forte. Venho


treinando para isso, você sabe. Em vez de sentir-se mal que eu tive minhas
provações, sou grata que eu sou forte. Eu tenho isso. Eu entendi você. Não
tome isso de mim, David.

— Eu não quero que os nossos últimos dias juntos sejam comigo em


estado vegetativo. Eu não quero que você me alimente e segure minha mão!
Eu não quero esquecer o seu nome. Eu não quero que você me veja sofrer!
360
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The Song of David/ Amy Harmon

— Ah, mas eu não vou. Vantagens de ser uma garota cega, – ela atirou
de volta, e não havia raiva em sua voz. — Eu não vou ter que ver você sofrer
em tudo, vou?

Eu praguejei e levantei, sacudindo-a. Eu não queria discutir com ela.


Eu cabeceei a porta. Agora eu entendia o precisar de Millie onde quer que
fosse. Caminhar derrotava armadilhas. E eu estava preso.

— Quando é que você vai começar acreditar que você é digno de ser
amado? – Sua voz soou atrás de mim, limpa e controlada, mas havia uma
fúria mal contida que fez as palavras oscilarem.

Fiz uma pausa e olhei para ela mais uma vez. Ela estava tentando me
seguir, e eu não tinha dúvida que, se eu saísse da casa, ela iria pegar sua
bengala, e eu seria forçado a jogar um jogo de Marco Polo pelas ruas de
Levan então ela não me perderia. Eu precisava que ela me deixasse ir e ela
obviamente não iria fazer isso.

— Millie

— Não! – ela gritou. — Você não acha que você é digno de amor, se
você não é Tag, se você não é o 'homem sexy!' – Millie fez aspas no ar e me
ridicularizou, imitando a conversa que tivemos quando ela jogou meus
acordes. — Você não acha que você é digno de amor, se você está doente.
Você não acha que você é digno de amor, se você não pode ser forte todo o
maldito tempo! Se você não pode cuidar de mim 24/7, você não deve ser
digno de amor.
361

— Não é isso! – Eu protestei, sacudindo minha cabeça, negando tudo.


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The Song of David/ Amy Harmon

— Isso é isso, caramba! – Ela gritou, batendo o pé. Ela deu um passo
em direção a penteadeira decorativa onde ela cuidadosamente colocou as
coisas e, com um rara demonstração de temperamento, empurrou tudo ao
chão. Artigos de higiene pessoal, um secador de cabelo, um pilha da
lavanderia dobrada – tudo isso caiu fora das bordas, e Millie continuou
empurrando, assim como ela estava me empurrando.

— Millie, para com isso, caramba! Você vai se machucar, baby!

— NÃO! – Ela gritou. — Isto não é sobre mim! Se eu quero jogar


algumas coisas, eu vou. Eu não sou uma inválida. Eu não sou uma princesa.
Eu sou uma mulher adulta. E eu posso ter um ataque se eu me sentir assim!
– Ela atirou sua mão fora em minha direção, apontando o dedo para mim e
abanou-o ferozmente. — E eu não espero que você limpe isso quando eu
terminar!

Eu não sabia o que dizer, então eu disse nada enquanto eu a observava


desgrudar. Em mim.

— Sabia que quando eu perdi minha visão eu me senti culpada por um


longo tempo? Eu me sentia culpada pela dor que eu coloquei em meus pais.
Então meu pai partiu. E minha culpa cresceu dez vezes. Eu me sentia
culpada quando minha mãe teve que mudar toda a sua vida para acomodar
a minha cegueira. Henry era apenas uma criança, e ele tinha seu próprio
conjunto de problemas. E eu fiz tudo pior! Eu fiz tudo desmoronar. Isso é o
que eu disse para mim por um longo, longo tempo.
362

Eu sabia exatamente como me sentir. Culpa. Eu tinha sido consumido


por ela quando Molly desapareceu. Comido vivo por ela. E eu estava
Página
The Song of David/ Amy Harmon

torturado com isso agora. Mas Millie não estava esperando por mim para
contribuir para a conversa. Ela estava tremendo de raiva, e eu fiquei em
silêncio.

— Eu não sei quando as coisas começaram a mudar. Talvez fosse a


ginástica. Talvez fosse a música e a dança. Pode ser que foi quando minha
mãe ficou doente, e alguém começou a depender de mim por uma vez. E eu
lidei com isso, David. Eu segurei isto! Eu era forte. E eu era digna de amor.
Eu tinha sido digna o tempo todo! Eu apenas não via isso. – Millie bateu em
seu peito enfática e repetida. — Eu sou digna de ser amada. Olhos cegos e
tudo.

O nó na garganta era tão grande e duro que eu gemi um pouco,


tentando respirar em volta dele. Os olhos cegos de Millie estavam cheios de
lágrimas que derramavam sobre e deslizavam por suas bochechas. Ela as
escovou impacientemente.

— Mesmo ainda. Eu nunca teria pedido para me amar, David. Eu pedi


por um beijo, porque eu queria tanto. Mas eu nunca teria lhe pedido para me
amar. Meu orgulho não permitiria isso. Meu respeito por mim mesma não
iria ficar por isso. Mas você o deu. Você ofereceu. Você se apaixonou por
mim de qualquer maneira! E eu sou digna desse amor, – ela repetiu, sua voz
aumentando mais uma vez.

— Sim. Eu me apaixonei. E você é digna, – Meu coração estava na


minha garganta e eu caminhei em sua direção. Ela me ouviu chegando e deu
um passo de distância, com o braço estendido rigidamente, palma para mim,
363

evitando para longe.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Não. Ainda não, – ela me disse com firmeza, não que ela estivesse
gritando. — Eu entendo a culpa, David, eu entendo. Mas o amor não pode
ser unilateral. Uma pessoa não pode sempre dar e a outra pessoa não pode
sempre tomar. Se você realmente me ama, você tem que confiar em mim.

Eu não poderia pensar em alguém que eu confiava mais, nem mesmo


Moses.

— Eu confio em você, Millie.

— Não. Você não. Você não confia em mim. E você não acha que você é
digno de amar.

Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia respirar e eu não podia


me mover. Então eu escutei.

— Você não acha que você é digno de meu amor se você não pode ser
forte todo o tempo, – ela repetiu com firmeza. — E você não acha que eu sou
forte o suficiente para estar lá para você quando você não está. Você não
confia em mim.

— Isto não tem nada a ver com a minha fé em você. Eu sei quem você
é, Millie. – Eu tropecei em minha resposta, tentando me expressar, tentando
dizer o que eu quis dizer e dizer o que disse. — Eu sei que você iria me ver.
Você diz para dar uma chance ao milagre, mas eu sinto como se eu já tivesse
o meu. Você é meu milagre! O fato de que eu e você estamos juntos, que nos
conhecemos, que eu encontrei o amor da minha vida. Isso é um milagre,
Millie! Sou tão grato por isso. Muitas pessoas não conseguem isso. Nós
364

conseguimos. É um milagre eu estar acordado o suficiente para não perdê-


Página

la. E é um milagre que você me ame também.


The Song of David/ Amy Harmon

Seu rosto amassado e ela avançou para mim. Por fim, ela estendeu a
mão para mim. Pedindo-me. Fui até ela imediatamente, mas ela pressionou
ambas as mãos contra o meu peito, emoldurando meu coração, me
impedindo de puxá-la para mim. Em seguida, ela passou a mãos pelos meus
braços e encontrou minhas mãos. Ela embalou uma das minhas mãos entre
as suas e trouxe minha mão para seus lábios. Ela a beijou suavemente,
docemente, pressionando os lábios para o centro como se ela pudesse
aliviar a minha dor e a sua própria beijando tudo para longe. Em seguida, ela
mudou minha palma de seus lábios para deixa-la em sua bochecha. Ela se
inclinou para ela brevemente, segurando-a lá, como se ela tirasse suas
forças de mim, apesar do que ela havia dito. Então ela deslizou minha mão
pelo seu pescoço, além se sua clavícula, e pressionou a palma da minha mão
contra o peito, cobrindo-o completamente.

— A maioria das pessoas acha que a coisa mais íntima do mundo é o


sexo, – ela disse suavemente.

Estremeci com o sentido de pertencimento que eu sentia, tocando-a


assim, onde ninguém mais tocou, mas eu não enrolei meus dedos contra o
dela, não acariciar o alto de seu peito com o polegar ou alcançar e embalá-la
em outro peito a mão que ainda estava ao meu lado. Eu apenas esperei,
sentindo as batidas do seu coração contra as pontas dos meus dedos, e ela
recompensou-me por continuar.

— Eu pensei que quando eu fizesse amor com você, quando eu


deixasse-o ver tudo de mim e quando você me deixasse saber tudo de você,
365

cada polegada íntima sua, quando fizemos isso prometemos com nossos
Página
The Song of David/ Amy Harmon

corpos e nossos lábios, eu pensei que seria a coisa mais íntima que eu jamais
faria.

— Millie? – Eu sussurrei. Eu não sabia onde ela estava indo com isso,
mas havia uma tristeza em suas palavras, e finalmente, como se tivesse
chegado a uma conclusão sobre mim, sobre nós.

— Mas não é. O sexo não é a coisa mais íntima que dois amantes
podem fazer. Até quando o sexo é bonito. Mesmo quando é perfeito. – Millie
respirou fundo, como se ela se lembrasse de como perfeito isto tinha sido.
— A coisa mais íntima que podemos fazer é permitir que as pessoas que
mais amamos nos ver em nosso pior. No nosso menor. No nosso mais fraco.
A verdadeira intimidade acontece quando nada é perfeito. E eu não acho
que esteja pronto para ser íntimo comigo, David.

Ela parou de falar, deixando as palavras soarem no ar, e minha mão


enrolada contra o peito, amassando-a e precisando dela, e não sabendo
como dar o que ela queria. Sua respiração presa e sua cabeça caíram no meu
peito como se o prazer guerreasse com a dor.

— Eu não sei como, – eu confessei, e eu puxei minha mão para que eu


não fizesse mal a ela na minha frustração.

Ela pegou minha mão e levou-a de volta, desta vez pressionando-a em


seu coração.

— Eu estou dizendo-lhe como. Você se apega a mim. Você confia em


mim. Você me usa. Você se inclina em mim. Você confia em mim. Você me
366

deixa abrigar você. Você deixa eu te amar. Tudo de você. Câncer. Medo.
Página

Doença. Saúde. Melhor. Pior. Tudo de você. E você vai ter tudo de mim.
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu não sei se eu posso vencê-lo, Millie. – Eu engasguei com as


palavras e de repente eu estava chorando. Meu primeiro instinto era ser
grato que ela não poderia me ver, e então eu senti suas mãos nas minhas
bochechas, sentindo as lágrimas, e eu me preparei. Mas eu não podia me
afastar. Ela ficou na ponta dos pés e puxou meu rosto para o dela,
pressionando os lábios trêmulos nos meus, reconfortando, acalmando, e
reconhecendo meu medo. E não foi apenas o medo, era meu medo mais
profundo. Se eu lutasse, eu não sabia se eu poderia vencer. Na verdade, eu
estava muito certo que eu não o faria. Eu provei lágrimas de Millie, e eu
sabia que ela provou as minhas. E então ela falou contra os meus lábios.

— Você não tem que vencê-lo, David. Você não tem que vencê-lo. Você
apenas tem que nos deixar lutar com você.

Eu passei meus braços em torno dela e a segurei por um momento,


incapaz de falar. Quando eu encontrei a minha voz eu ainda não a deixei ir.

— Sem se entregar, – eu sussurrei.

— Sem culpa, – disse Millie suavemente.

— Amelie significa trabalho. – Eu não sei por que isso que veio à
minha mente, mas veio. Quando ela me segurou, eu pensei de sua força.

— Isso é certo. – Ela sorriu cintilando. — Então, você está indo para
trabalhar para mim ou não?
367
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO VINTE E TRÊS

MOSES

EU OUVI um estrondo no andar abaixo, e eu parei, preocupado e um


pouco irritado. Kathleen estava dormindo, e eu realmente não queria que
ela acordasse. Ela tinha um novo par de dentes chegando, e ela estava
geniosa e mais do que um pouco triste. Então ouvi a voz de Millie, elevada,
raivosa mesmo, e eu congelei, escutando. Eu ouvi o rosnar na voz de Tag
também, e Millie voltou em direção a ele, ainda mais furiosa. Eu andei até o
topo da escada e peguei pedaços e frações do que Millie estava dizendo. Ela
não estava respirando, e ela estava colocando tudo para fora. E em seguida a
porta do quarto estava fechada, e as vozes ficaram camufladas. Eu comecei a
descer a escada, mais esperançoso do que eu tinha sido durante toda a
semana. Eu não sei como ela havia feito isso, mas Tag estava no quarto de
Millie, e as coisas estavam finalmente chegando a um entendimento.

Henry irrompeu para dentro da casa, o nome de Millie em seus lábios,


e eu desci correndo os degraus restantes da escada, interceptando ele.

— Henry, espere!

Henry pulou e virou, assustado com a veemência na minha voz. De


jeito nenhum que eu estaria deixando qualquer coisa interromper o que
368

estava acontecendo atrás daquela porta.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Não vá lá. Millie está com Tag. E precisamos deixá-los sozinhos por
um tempo.

Henry olhou para a porta fechada e de volta para mim. Ele acenou com
a cabeça devagar. Eu peguei duas latas de Coca-Cola geladas da geladeira e
entreguei uma para ele, coloquei meu braço em volta de seus ombros e
levei-o de volta para fora da casa. Nós sentamos no deck, colocando nossos
pés em cima da balaustrada para que pudéssemos ver o trabalho Georgia
enquanto bebíamos as nossas bebidas. Eu amava assistir Georgia trabalhar.

— Axel nunca andou de cavalo, – Henry observou, pensando


claramente na noite anterior, quando Axel e Mikey tinham entregado o
caminhão de Tag, indecisos de onde guarda-lo em Salt Lake, com tudo que
estava no ar.

— Não. Gostaria de lhe mostrar como se faz? – Eu sabia que Henry


tinha exibido um pouco, mas eu queria dar-lhe uma chance para falar sobre
isso. Tag não tinha descido quando os caras chegaram. Era um milagre ele
estar conversando com Millie agora.

— Sim. Eu mostrei-lhe coisas, ele mostrou-me coisas, – disse Henry,


balançando a cabeça. — Eu sou parte da equipe.

Era a minha vez de acenar com a cabeça. Tag reuniu um grupo incrível
de caras. E a coisa mais legal sobre eles era como todos eles tratavam Henry.

— Não há um “eu” dentro da equipe, – disse Henry de repente,


seriamente, como se repetisse algo que tinha ouvido com vigor na escola. Ou
369

talvez ele tenha escutado na academia.


Página

— Não.
The Song of David/ Amy Harmon

— Não há um “eu” na equipe de Tag também, – ele adicionou.

— Não. Não há, – eu concordei.

— Somos a equipe de Tag? – ele perguntou.

Eu comecei a explicar o que a equipe de Tag era, o rótulo, os lutadores,


a academia. E então eu parei. – Sim. Nós somos. Somos a equipe de Tag.

— Por que nós o amamos?

— Sim, – eu disse, engasgando novamente. Eu estava tão cansado de


ser tomado pela emoção. Mas Henry tinha uma maneira de esconder-se
sobre mim e dizendo o óbvio, e falando de tal maneira que parecia profundo.
Em Vegas, Millie havia explicado a condição de Tag o melhor que pode, e ele
veio me pedir para ir a um barbeiro para que ele pudesse obter o seu cabelo
cortado como o de Tag. Eu realmente não sabia o porquê ele queria. Eu
apenas pensei que era apenas um caso de veneração ao herói. Mas Millie
ficou assombrada pelo desejo de Henry para cortar o cabelo.
Aparentemente, não era algo que vinha fácil para ele. Agora eu percebi que
era sua maneira de dar apoio moral, de fazer parte da equipe de Tag. Eu
assisti como Georgia subiu sobre a cerca e dirigiu para nós, grato que eu
teria o seu apoio moral momentaneamente.

— Há um “eu” em David, porém, – Henry disse simplesmente, como se


isso negasse todo “eu na equipe”, argumento.

Eu ri, um latido alto de alívio que lhe inclinou a cabeça para mim em
curiosidade. — Você estava indo tão bem, garoto. Eu pensei que você estava
370

indo para me inspirar – Eu suspirei, ainda rindo, e aliviado ao fazê-lo.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Não há um “eu” em Henry, – disse ele suavemente.

— Ou Moses, – acrescentei, incapaz de parar de rir. — Nós somos


aqueles altruístas, – expliquei.

— Há um “eu” na Geórgia, – disse Henry, quando Georgia se juntou a


nós no deck.

— Sim. E eu não sei disso. Eu, eu, eu. Todo o tempo, – eu disse,
puxando a mão de Georgia trazendo-a para próximo de mim. Ela colocou os
braços em volta do meu pescoço e beijou meus lábios suavemente.

— Onde está Millie? – Ela perguntou, não pegando minha dica.

— Ela está com Tag, – Henry voluntariou. — E nós estamos deixando-


os sozinhos.

Os olhos de Georgia dispararam para mim e suas sobrancelhas


levantaram.

— Ah, sim? – Havia esperança em sua voz.

— Sim. E Millie não estava sendo suave, – acrescentei baixinho. Mas


Henry ainda ouviu.

— Não há tal coisa como um lutador suave, – Henry repetiu. — Isso é


o que Tag diz. E ele diz que Amelie luta todo dia.

— Aleluia e graças a Deus por isso, – Georgia disse, soando como


minha bisavó Kathleen. Elas ambas eram garotas da pequena cidade de
Levan com quem tiveram passado boa parte da vida com seus vizinhos.
371

Então, eu acho que isso não era surpreendente.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Amém, – eu concordei.

— Maomé Amelie, – Georgia brincou. — Flutua como uma borboleta...

— Pica como uma abelha, – Henry e eu terminamos.

— Eu vou verificar Kathleen, – Georgia disse, movendo-se para longe


de nós. Eu sabia que ela estava indo para escutar da porta do quarto de
hóspedes em seu caminho para Kathleen, mas eu não iria falar sobre isso,
esperando que ela retornasse com o relatório. Henry levantou também e
vagou de volta para o curral para conversar com Sackett, que caminhou para
a cerca para cumprimentá-lo.

Do canto do meu olho eu vi uma trepidação, um bruxulear, como o ar


sobre o auge negro em um dia sufocante. Meu pescoço ficou quente, e em
vez de resistir, eu me abri concentrando-me na trepidação, curioso em vez
de com medo. Não era Molly desta vez.

Eu a reconheci, embora eu só tenha visto-a uma vez antes. Ela me


mostrou rendas. Apenas rendas. A faixa esvoaçante, e então ela se foi. Mas
eu entendi, e para pela primeira vez desde que Tag desapareceu, o torno ao
redor do meu coração abrandou ligeiramente.

***

372
Página
The Song of David/ Amy Harmon

EU TROQUEI UM quarto por outro, cavando sobre diferentes partes da


casa do meu melhor amigo. Mas desta vez, eu não estava me escondendo. Eu
estava curando. Ou esperando. Talvez era isso. Talvez eu estivesse me
permitindo ter esperança.

Ninguém veio batendo. Ninguém trouxe comida ou passou bilhetes


por baixo da porta. Mesmo Henry. Ele estava sendo cuidado, e Millie e eu
sabíamos disso. Então ficamos trancados, juntos.

Escuridão caiu afora, e as estrelas saíram. Millie não podia vê-las, mas
eu disse-lhe que elas estavam lá, grandes e brilhantes no céu fora da janela
de sacada do quarto de hóspedes. Eu disse a ela como eu deitava sob essas
estrelas quando um menino, dormindo na cama elástica no meu quintal em
Dallas. Eu disse a ela como, dez anos depois, Moses e eu tínhamos nos
esticado no convés do barco descendo o Rio Nilo, na África. Eu olhei para a
vastidão que nunca termina, e eu reconheci aquele velho sentimento. O
mesmo sentimento que tive quando era criança. Eu não me senti
insignificante sob as estrelas. Eu me senti grande, como se o céu girasse em
torno de mim. Eu era maior do que as estrelas. Eu era maior e mais
brilhante, e o mundo era meu. Eu era tão grande que eu poderia suportar
com meu polegar e completamente esquecer, minha mão acima segurando e
373

destruindo todo um pedaço do céu. Tanto poder. Tanta magnitude. Eu não


era David, eu era Golias.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Quando eu deitei naquela cama com Millie, as cortinas postas de lado,


olhando para as estrelas piscando sobre uma pequena cidade que eu nunca
chamei de casa, esse sentimento subiu dentro de mim mais uma vez. Eu era
relevante. Eu era significante. Eu queria desaparecer, se tão-somente o
câncer pudesse desaparecer comigo. Mas as estrelas sussurraram que essa
coisa não funcionaria. Você não desaparece para sempre. Você apenas
muda. Você parte. Você segue em frente. Mas você nunca desaparece.
Mesmo quando você pensa que quer.

Millie não riu. Ela não me provocou sobre o sentimento semelhante a


Deus. Ela apenas me ouviu falar, meus dedos escalando para cima e para
baixo a pele lisa de suas costas, traçando a curva de seu quadril e o
comprimento da perna que foi jogada através da minha. E então eu a puxei
para mim, minha mão na base de sua espinha, e ela prendeu a respiração e
disse meu nome, e eu me sentia como Deus tudo de novo.

***

EU NÃO SEI que horas eram quando finalmente voltamos a falar. Nós
dormimos por horas e acordamos com a barriga roncando e a garganta seca,
mas colamos nossos rostos por baixo da torneira do banheiro e engolimos
água para aliviar a nossa sede, apenas para não ter que sair do quarto. Então
a boca de Millie encontrou a minha, os lábios molhados e frios, a água
agarrado em seu queixo e deslizando para baixo de seus seios, e começamos
mais uma vez. Algum tempo antes do amanhecer, eu tentei deslizar para
374

fora da cama, desemaranhando da minha bela adormecida apenas para tê-la


Página
The Song of David/ Amy Harmon

vir totalmente acordada e sentar-se, estendendo a mão para mim, em


pânico.

Seu medo me deixou triste, porque eu criei isso.

— Shhh, Millie. Eu não vou a lugar nenhum. Eu prometo. Eu estarei de


volta, – eu sussurrei, beijando sua testa e alisando seu cabelo. – Deite-se. Eu
prometo que não vou partir de novo. Não de propósito. Nunca mais.

Ela assentiu com a cabeça e afundou de volta contra os travesseiros


enquanto eu puxava minhas calças jeans, mas quando voltei alguns minutos
mais tarde, seus olhos estavam abertos e ela estava esperando por me ouvir,
os lençóis puxados para cima sobre seu corpo, um braço enrolado sob sua
cabeça.

— Onde você foi? – ela perguntou.

— Seu poderoso caçador trouxe carne. E pão. E queijo, – Eu grunhi


com minha voz de homem das cavernas.

— E Miracle Whip54? – Ela interrompida.

— Nojento.

— Você sabe que eu gosto de Miracle Whip.

— E Miracle Whip, – eu disse, entregando ela um sanduíche em um


prato, com Miracle Whip, do jeito que ela gostava.

Eu mandei para baixo três sanduíches pelo tempo que levou ela comer
um e abrir uma lata de refrigerante, ouvir as bolhas por apenas um segundo
375

de apreciação era o som favorito de Millie.


Página

54 Miracle Whip é um creme, como maionese, para salada.


The Song of David/ Amy Harmon

Quando terminamos, eu caminhei de volta à cozinha e coloquei os


pratos na pia, coloquei os sanduíches preparados de volta na geladeira, e
fechei e amarrei o saco de pão. Foi quando avistei as chaves do meu
caminhão em cima do balcão e fiz uma pausa, considerando. Eu as arrebatei
e fui pela porta da frente, dentro da minha caminhonete, e logo voltei para a
casa em menos de um minuto, grato que a casa ainda estava em silêncio e
Millie não tinha me perseguido.

Millie estava escovando seus dentes e cabelo, ao mesmo tempo,


usando minha camiseta descartada e parecendo a salvação, mesmo no
escuro. Sentei-me na cama e olhei para ela, apreciando-a, mas ela ouviu-me
entrar, mesmo sobre a água corrente. Ela sabia que eu estava lá.

Ela voltou para a cama, aconchegando para baixo, e eu pensei em


puxar minha camiseta sobre sua cabeça e chutar minhas calças jeans, mas
algumas coisas exigem calças e eu sentia que esta era uma delas. Eu me
arrastei atrás dela e envolvi-me ao redor dela, puxando-a de volta contra o
meu peito. Então eu sussurrei em seu cabelo

— Quer se casar comigo, Millie?

— O que? – Ela engasgou.

— Quer se casar comigo e me deixar ser o irmão de Henry? Eu quero


que você seja parte da equipe Tag. – Eu estava repetindo a proposta de
Henry, tentando ser legal, mas o meu coração estava na minha garganta e
minhas mãos pareciam escorregadias contra a minha camiseta. Eu estava
376

feliz que eu não tinha a tirado dela. Eu pressionei. — Estatisticamente, os


atletas com famílias têm mais propósito, melhor saúde mental, mais
Página
The Song of David/ Amy Harmon

resistência e no geral melhor desempenho do que os atletas que não são


casados. - Se não fosse palavra por palavra que o Henry havia jogado para
mim, era próximo. Mas ela ficou em silêncio, e eu não podia ver seu rosto.

— Eu ia perguntar-lhe um mês atrás. Eu comprei um anel. Ele ainda


estava no porta-luvas do meu caminhão, – expliquei, correndo sobre as
palavras. E agora ele estava no meu bolso, no meu jeans, esperando que ela
me desse uma resposta.

— Eu sei. Você me disse, – ela sussurrou.

— As fitas? – Perguntei, percebendo que eu tinha de fato dito a ela.

— Sim.

— Se nada disso tivesse acontecido, se eu tivesse lhe perguntado duas


semanas atrás, antes de tudo isso ir para baixo, o que você teria dito? – Eu
perguntei, meu coração pequeno no meu peito.

— Não. Eu teria dito não, – Millie disse calmamente.

Meu estômago embrulhou um pouco, e eu puxei-a para mais perto,


embora eu quisesse deixa-la ir. Meu coração estava martelando.

— Por que, Millie?

— Porque eu pensei que você precisava de mais tempo, – disse ela.

— Você pensou que eu precisava de mais tempo? – perguntei,


incrédulo.
377
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Ela assentiu com a cabeça, um movimento rápido de sua cabeça, e seu


cabelo fez cócegas em meus lábios. Esperei por alguns segundos,
processando.

— E agora? – Perguntei.

— Agora, eu quero casar com você tanto que eu não me importo se


você precisa de mais tempo, – ela confessou.

Eu ri, de repente feliz que eu estava deitado. Eu me senti tonto de


alívio. E em seguida, outra coisa me ocorreu.

— Você mudou de opinião porque eu não tenho mais tempo? – Eu


inquiri, e minha voz falhou.

Eu me senti um tremor correr pelo corpo dela.

— Não. Eu mudei de opinião porque eu não quero que ninguém nos


mantenha separados. Eu não quero alguém me dizendo que eu não posso
estar ao seu lado. Eu quero ser uma Taggert. Ou uma Taggerson. – Eu senti
seu esforço para sorrir, mas eu não acho que ela conseguiu. — Eu quero ser
sua. Eu quero que você seja meu. Camas do hospital, minha cama, sua cama.
Eu não me importo. Eu só quero ficar com você.

— Você quer cuidar de mim, – eu disse sem rodeios.

Ela ignorou a minha declaração e fez uma própria. — Se eu não fosse


cega, eu teria dito sim. Um mês atrás, eu teria dito sim.

Eu esperei.
378

— Mas porque eu sou cega, eu o quis dar-lhe muito tempo para saber
Página

no que você estava se metendo.


The Song of David/ Amy Harmon

— Eu não teria mudado minha mente, querida.

— Eu sempre vou ser cega, David.

— Provavelmente... sim, – eu concordei.

— E há um mês, você queria casar comigo de qualquer maneira? – ela


perguntou, claramente sabendo a resposta.

— Sim. Eu queria.

— Você queria casar comigo apesar de minha cegueira, e eu quero


casar com você apesar de seu câncer. É assim tão difícil compreender?

— Não, – eu sussurrei. Porque isso não era. Não quando ela colocava
dessa forma.

Ficamos deitados em silêncio, ouvindo um ao outro respirando,


pensando, considerando. Mas eu tinha tomado a minha decisão no momento
que eu propus. Moses avisou-se que isso seria necessário, ele não tinha?

— Tudo ou nada, Millie? – Perguntei, minha boca pressionada contra


sua testa.

— Tudo, – ela respondeu de volta.

— Eu também, – eu sussurrei. Tudo ou nada. Isso é quem eu era. E se


eu ia lutar, se eu ia ficar, eu ia fazer tudo isso por tanto tempo quanto eu
poderia tê-lo. Enfiei a mão no meu bolso e tirei o anel.
379
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO VINTE E QUATRO


MOSES

Me levantei antes do sol nascer. Eu estava agitado e sentimental, ainda


mais do que o habitual, e decidi pintar um pouco. Mas a pintura não tinha
diminuído o formigar sob minha pele e os nós na barriga, e quando o sol
nasceu fiz um bule de café e decidi passar um tempo lá fora vendo o raiar do
dia antes do resto da casa acordar e fazer minha contemplação impossível.

— Você parece como se seus pensamentos valessem cinquenta quilos.


- Tag disse, com a voz rouca do sono, e as portas francesas a minha esquerda
se fecharam em devagar.

Ele descansou na espreguiçadeira ao lado da minha e assistiu o nascer


do sol lentamente, com seus olhos treinados para frente. Segurava uma
xícara de café entre suas mãos grandes e tomou um gole, seu dia costumava
vir com montes de cafeína.

— Bem, bem, bem. - E senti meus lábios se torcerem num sorriso.


Disse para mim mesmo que não ia dar qualquer bronca por ter se escondido
com Millie por sólidas dezesseis horas. E lá estava eu, dando a ele minha
bronca no momento que pus meus pés na varanda.

Ele não me deu qualquer sorrisinho de volta ou me mandou calar a


380

boca. Ele parecia cansado. Mas parecia bem. O suficiente, mas parecia bem.
Satisfeito. E eu ainda não tinha me acostumado com seu novo cabelo.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Pareceu um pouco raspado demais para meu gosto, mas em Tag funcionava.
Ele tinha uma boa mandíbula para fazer isso acontecer, irritante como era.

— Você parece uma merda, Tag. - Menti, apenas porque era nosso
costume de brincar um com o outro.

— Assim como você, Mo. - Disse amavelmente.

— A culpa é sua. - Eu disse, assim como tinha dito no hospital. E


imediatamente me senti mal e quis tomar de volta. Foi sua culpa. Mas isso
não foi culpa dele.

Não respondeu e tomou outro gole de café.

— Sempre pensa em Montlake? - Perguntei, bebericando de leve meu


café, não tomando um gole fundo. Meio como estava fazendo agora,
molhando meus pés dentro da conversa que era como um caldeirão.

— O tempo todo. - Tag respondeu, virando a caneca de novo.

— Eu também. O tempo todo. Especialmente ultimamente. - Eu disse.

Ficamos sentados como dois velhos, bebendo devagar, o tempo


passando, e ainda sem nenhuma pressa de combater. Engraçado como isso
era. Os velhos sabiam que seu tempo estava contado, e mesmo assim
raramente corriam para preenche-los.

— Foram dias escuros, Mo. - Tag disse suavemente.

— Foram. Mas não tínhamos nada a perder.


381

— E agora, nós temos tudo a perder.


Página

— Agora temos tudo a perder. - Repeti.


The Song of David/ Amy Harmon

— Sonhei com a esposa do Dr. Andelin. - Tag disse de repente,


inexplicavelmente, e agora fiquei confuso da onde a conversa ia.

— O quê? - Engasguei.

— Se lembra daquela sessão de aconselhamento quando você a viu? -


Tag insistiu, seus olhos verdes afiados. — Quando nos conhecemos?

— Naquele tempo que você queria me matar? - Tentei rir, mas não
consegui reunir alegria suficiente. Minha risada soou como se tivesse levado
um soco no estômago, o que era extremamente justo, pois Tag tinha feito
exatamente isso. Eu perguntei a ele sobre Molly, e ele me deu um soco no
estômago, um tapa na cara, e me derrubou no chão. E eu tinha dado boas-
vindas e lutado de volta.

— Como você sabia? - Disse Tag, seus olhos nos meus. A algazarra ao
redor de nós acalmou um pouco. — Como sabia sobre minha irmã? - Os
ajudantes nos puxaram do chão e nos colocaram nas cadeiras, mas Dr, Andelin
me pressionou para responder.

— Moses, você vai ter que explicar para Tag o que quis dizer quando
perguntou se alguém conhecia uma garota chamada Molly.

— Eu não sabia que era a irmã dele. Não o conheço. Mas eu tenho visto
uma garota chamada Molly por quase cinco meses. - Eu disse.

Todos me encararam.
382

— Vê-la? Você quer dizer que teve um relacionamento com Molly? - Dr.
Página

Andelin perguntou.
The Song of David/ Amy Harmon

— Eu quis dizer, ela está morta, e sei que está morta porque nós últimos
cinco meses tenho sido capaz de vê-la. - Eu disse pacientemente.

O rosto de Tag era quase cômico em fúria.

— Ver ela como? - A voz do Dr. Andelin era plana e seus olhos frios.

E combinei sua entonação e nivelei meu próprio olhar frio na sua


direção.

— Da mesma maneira que posso ver sua esposa morta, Doutor. Ela
continua me mostrando a viseira de um carro e neve e umas pedrinhas num
fundo de um rio. Eu não sei por quê. Mas provavelmente você pode me dizer.

O queixo do Dr. Andelin afrouxou e a tez ficou acinzentada.

— Do que você está falando? - Ele engasgou. — Já vinha esperando para


usar isso nele. E agora era tão bom quanto qualquer outra hora. Talvez sua
esposa fosse embora e eu pudesse me concentrar em expulsar Molly de uma
vez por todas.

— Ela te segue toda parte. Você sente muita falta dela. E ela se
preocupa com você. Ela está bem... mas você não. E sei que é sua esposa
porque ela fica te mostrando esperando no altar. Seu dia de casamento. Seu
smoking estava um pouco curto demais nas mangas.

Eu tentei ser petulante, para forçá-lo para fora de seu papel de


psicólogo. Fiz uma busca por sua vida para impedi-lo de ficar cavando ao
redor da minha cabeça. Mas a selvagem dor que se abateu em seu rosto me
383

abrandou e suavizou minha voz. Eu não poderia manter minha atitude contra
Página
The Song of David/ Amy Harmon

sua dor. Me senti momentaneamente envergonhado e olhei para minhas mãos.


E então Dr. Andelin falou.

— Minha esposa, Cora, estava dirigindo do trabalho para casa. Eles


acham que ela ficou cega temporariamente pelo sol refletido na neve. Como as
vezes aqui no banco, sabe. Ela bateu num numa mureta de proteção. Seu carro
capotou e caiu no fundo do rio. Ela... se afogou.

Ele forneceu essas informações com tranquilidade, mas suas mãos


tremiam enquanto acariciava a barba.

Em algum momento entre essa trágica história, Tag perdeu sua fúria.
Ele olhou de mim para Dr. Andelin em confusão e compaixão. Mas Cora
Andelin não se foi, era como se ela sabia que eu tinha a atenção do médico e
não quisesse perder qualquer momento.

— Manteiga de amendoim, amaciante Downey, Henry Connick Junior e


guarda-chuvas... - Fiz uma pausa porque a próxima imagem era tão intima.
Mas então eu disse de qualquer maneira. — Sua barba. Ela amava a sensação
de sua barba, quando você... - Eu tive que parar. Eles estavam fazendo amor e
eu não queria ver a esposa desse homem nua. Não queria ver ele pelado. Mas
eu podia ver isso através de seus olhos.

Mas Dr. Andelin se focou, com seus olhos azuis intensos e cheios de suas
próprias memórias, e outra coisa também. Gratidão. Seus olhos estavam
cheios de gratidão.

— Essas eram algumas de suas coisas favoritas. Ela caminhando até o


384

altar no dia do nosso casamento com a música de Harry Connick. E yeah. A


Página

manga do meu smoking estava curta demais. Ela sempre ria sobre isso. E
The Song of David/ Amy Harmon

como sua coleção de guarda-chuvas estava fora do controle. - Sua voz quebrou
e olhou para as mãos.

A sala estava tão pesada de compaixão e tão cheia com a intimidade


que se os outros cinco presentes pudessem ver o que eu podia, eles olhariam
para longe para dar aos amantes momentos a sós. Mas eu fui o único a
testemunhar a esposa de Noah Andelin estender a mão e corre-la sobre a
cabeça curvada do marido antes das linhas suaves de sua inconsciência se
fundirem numa luz cintilante de uma tarde desvanecendo.

Estranho. Eu não tinha pensado sobre Cora Andelin desde que deixei
Montlake. Não a tinha visto mais desde aquele dia, assim como eu havia
previsto. Mas a memória era tão nítida e específica que senti uma sensação
de déjà vu55, como se Tag não fosse o único que tivesse sonhado com ela. O
rosto do Dr. Andelin, quando eu disse que podia ver sua esposa, foi
queimando de volta dentro dos meus olhos. Atirei todos seus precisos
detalhes, detalhes de sua vida, de sua vida juntos, na sua cara, simplesmente
porque eu precisava distrai-lo de seu olhar tão duro no meu. Eu era um
fodido idiota naqueles tempos.

— Se lembra quando você disse que sua esposa estava bem, mas o
Doutor não? - Tag perguntou.

Balancei a cabeça, incrédulo.

— Ela te segue toda parte. Você sente muita falta dela. E ela se
preocupa com você. Ela está bem... mas você não.
385
Página

55
O termo “déjà vu” vem do francês e quer dizer literalmente “já visto”, significa uma sensação do passado; como
se o que estamos vivendo no presente já tenhamos vivido há muito tempo.
The Song of David/ Amy Harmon

— Esse era o porquê de ela estar por perto. Ela estava preocupada
com ele. - Disse.

— Não consigo acreditar que você se lembra disso. - Exclamei em


descrença.

— Algumas coisas você não esquece, Mo. - Meditou. — Nunca vou me


esquecer disso. - Balançou a cabeça como se as imagens ainda o
assombrassem. — Você acha que a razão ter visto Molly, não minta pra mim,
Mo. Sei que a viu algumas vezes por esses tempos. Você acha que é por que
ela estava apenas preocupada comigo? - Havia em tom melancólico que me
fez ter uma centelha de esperança em meu coração.

— Poderia muito bem ser. - Respondi suavemente. Persuadindo a


centelha virar uma chama.

Ele assentiu e colocou a caneca vazia no chão. Mais eu ainda não


estava pronto para deixar Montlake ir, ainda não.

— Antes de nós saímos de Montlake, você me pediu para mantê-lo


vivo. Me disse para te derrubar, conter, o que fosse preciso. Se lembra disso?
- Perguntei, sem olhar para ele.

— Sim. Me lembro. - Disse.

— E eu disse que faria. - Tive que parar por um minuto. Tomei


algumas respirações profundas e um enorme gole de café para acalmar
minha garganta queimando e aliviar a dor no peito. — Eu pretendo manter
essa promessa. - Disse. Minha voz rachando com a última palavra.
386

Quando ele não respondeu, me preparei e virei.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

A garganta de Tag se mexia mesmo que o café já tenha ido embora.


Esfregou o queixo, passou a mão pelos lábios trêmulos, e eu poderia dizer
que estava lutando por controle, assim como eu estava.

— Não posso curar o câncer, Tag. E assim como com certeza não posso
parar as pessoas que amo de me deixar. Não consegui salvar Gi. Eu não
salvei Eli. Mas tenho alguma influência do outro lado. E todos vão ter que
passar por cima de mim se quiserem você.

Ele estava balançando a cabeça.

— Tudo bem. - Sussurrou. — Tudo bem. Mas Mo, se isso não for o
suficiente. Se no final, isso não for o suficiente, eu vou precisar de você para
cuidar de Millie e Henry. Millie não vai querer deixar. Ela é teimosa. Mas se
certifique dela não parar de dançar. Eu odeio, mas ela ama. E isso é a coisa
mais importante. Se certifique dela estar fazendo as coisas que ama. Não a
deixe ficar se lamentando por muito tempo. Não a deixa se lamentar como o
Dr. Andelin fez, fazendo sua esposa morta o seguir por todos os lados
porque ele não a deixa partir. A ajude a me deixar ir, Mo. Diga a ela que
estou feliz. Faça essa merda acontecer.

Me engasguei, risos e lágrimas em guerra pela supremacia.

— Diga a ela que estou lutando com as lendas no céu, que estou
correndo pelos prados de flores, que sou alimentado com uvas... diga isso.
Ela não vai gostar disso. Apenas diga que estou comendo uvas.

Ri mais ainda e enxuguei os olhos.


387
Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Vou lutar com essa coisa, Mo. Vou lutar tão duro o quanto puder até
a campainha soar. Mas se a campainha tocar mais cedo demais, quero que
me prometa que vai cuidar da minha menina. Temos um acordo?

— Feito. - Sussurrei. E ficamos em silêncio por um tempo, batalhando


a dor, a gratidão, e a ironia que não há tristeza sem a doçura.

Ouvi a porta dessa vez e abaixei minha cabeça, não estava pronto para
audiência, mas era apenas Millie, e Millie não podia ver lágrimas. Seu rosto
estava brilhante e rosa, como se tivesse acabado de lavá-lo, e seu escuro
cabelo estava lindo e ao redor dos ombros. Ela tinha um café numa das
mãos, e meu bule definitivamente se foi, e estendeu a outra.

— Cadê você, David? - Perguntou, e disse David com carinho.

— Estou aqui, baby. - Tag se levantou e pegou sua mão, guiando para
frente e depois em seu colo. Ele pegou seu café e roubou um gole enquanto
ela deu um beijo na sua cabeça. Seu braço esquerdo estava ao redor do
pescoço e notei o anel em seu dedo. Meu coração encheu dentro do peito, e
por um momento estava apenas doce, mesmo se eu não estivesse surpreso.
Me fez lembrar das imagens mostradas no dia anterior.

— Vi sua mãe de novo, Millie. - Eu disse gentilmente. Tag se virou para


me encarar, seus olhos brilhando no rosto cansado. Millie se virou também,
como se abrisse sua mente para a impossibilidade. — A vi ontem, só por um
minuto. E acho que ela queria que você usasse seu véu.
388

***
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Millie me ligou. Sua voz estava com medo e pesar, e era tão parecido
com a chamada que ela fez seis semanas antes, procurando por Tag, o que
me levou imediatamente de volta, imediatamente apreendido pelo medo e
pavor. Tinha acabado de vê-los em seu casamento uma semana atrás e
fiquei tão esperançoso. Eu estava tão certo que iam superar as
probabilidades. Não apenas do câncer, mas as probabilidades. Eles eram
loucos um pelo outro, e sua beleza e sua devoção eram tangíveis, um pulso
de tons de rosas que eu ardia em pintar. Estavam se movendo rápido, o que
era o estilo do Tag, mas nada as pressas. Isso era certo. O casamento
improvisado e a festa no bar me fez desejar que eu pudesse casar com
Georgia tudo de novo, e nós conseguimos uma babá e dançamos juntos pelas
primeira vez desde o nosso casamento.

— Moses?

— O que está errado, Millie?

— A quimioterapia deveria começar amanhã. Mas Tag ficou com febre


o dia inteiro. Ele está doente, Moses, realmente doente, e quero leva-lo para
o hospital. Ele diz que nós devemos apenas esperar até amanhã, pois temos
um compromisso de qualquer maneira. Mas eu não quero esperar. Eu podia
ligar para Axel ou Mikey. Mas é o chefe deles. E eles tendem a fazer o que ele
diz, mesmo sendo um idiota.

— Estou a caminho.
389

Tag não argumentou muito, na verdade. No momento que cheguei,


Página

uma hora e meia mais tarde, ele estava doente demais para se colocar numa
The Song of David/ Amy Harmon

briga, apesar de piscar para mim e insistir em se sentar atrás com Millie
para que pudesse segurar sua mão. Nem tinham chegado a ter uma lua-de-
mel, embora Millie dissesse que não se importava. Ela estava mais
interessada em ter seu marido. Lua-de-mel podia esperar, a quimioterapia
não. Henry não queria voltar para o hospital de novo. Não podia culpa-lo, eu
não queria voltar, então ficou com Robin, e não estava escondendo seu
medo muito bem. Nenhum de nós estava.

— Eu já volto, Henry. - Tag prometeu. — Grave as lutas para mim,


okay? Já as ordenei no pay-per-view. Quero uma pancadaria quando chegar
em casa.

A contagem de células brancas de Tag estava elevada, mas suas


plaquetas estavam altas ainda para a primeira rodada de quimioterapia ser
administrada, de acordo com o médico. Ele ficou em observação, mas não
encontraram qualquer infecção ou qualquer razão para a febre, e finalmente
concluíram, vinte e quatro horas depois, que a febre era apenas seu corpo
numa tentativa de lutar contra o câncer por conta própria.

Com a febre sob controle e nenhuma razão para adiar mais,


administraram a primeira rodada de quimio lá mesmo no hospital. Tag
descansava confortavelmente, Millie ao seu lado, ele tinha convencido eles
de que poderia ir para casa quando terminasse. Então o tremor começou.
Tag balançou tanto que a cama tremeu com ele, passou de descansado
confortavelmente para cortejando a morte num pulo. Corri para a
enfermeira, que não podia fazer nada por ele e bipou o médico. Os tremores
390

continuaram. Isso era como a convulsão tudo de novo, mas Tag estava
Página

perfeitamente consciente e dilacerado pela dor que parecia interminável.


The Song of David/ Amy Harmon

— Não deixe eles m-m-e s-s-a-alvarem Millie. Eu n-n-ão qu-e-ero ser


todo pl-u-ugado em al-l-guma coisa para algué-m-m eventualmente ter ter t-
e-e-r que me desligar. Eu n-n-ão quero isso. - Tag gaguejou, tremendo sua
mandíbula num esforço para formar as palavras. — M-me p-p-promeeta que
va-i-i me de-i-ixa-r-r ir.

— Okay, David. Okay, eu prometo. Eu prometo. - Millie cantarolou,


mas seus olhos estavam tão abertos, como se estivesse se esforçando para
vê-lo, como se ela estivesse concentrando toda a sua energia nele, como se
recusassem ter qualquer barreira entre eles, até mesmo seus olhos
fechados.

Ele tinha virado de lado e sua testa pressionada contra o peito dela.
Millie se esforçou para segurá-lo, o rigor dos tremores o sacudindo, fazendo
seus dentes vibrarem com o seu. Mas ela não soltou. Em algum momento ele
pediu algo para morder, depois de sua boca começar a sangrar por ter
mordido a língua. Mas ele continuou com a cabeça pressionada no seu peito
enquanto seu corpo resistia na cama estreita.

— Isso acontece às vezes. - O médico disse, impotente, quando


finalmente apareceu. — É a quimio atacando o câncer. Tem uma batalha
acontecendo agora, e seu corpo está apenas respondendo a isso.

O médico não disse quando ou se Tag iria ganhar a luta. E durante


quatro longas horas, nenhum de nós sabia. Eu tive que sair da sala num
ponto e obter controle de mim mesmo, chamar Georgia, e reforçar minhas
paredes. Se meu melhor amigo estava morrendo, eu não queria saber. Não
391

queria ver sua irmã morta no seu ombro, seu bisavô esperando
Página

pacientemente pela passagem. Eu não queria ver nada disso. Não quero
The Song of David/ Amy Harmon

saber. Me recuso a saber, porque a esperança era vital. A esperança era


preciosa. E eu não ia tirar isso do meu amigo ou da garota que ele amava.

Em algum momento durante a noite, quando os tremores começaram


a diminuir e o pior havia passado, Millie entrou dentro do banheiro, e tomei
seu lugar ao lado de Tag. Ele olhou para mim e disse:

— Você os vê, Mo? Molly está esperando por mim? Se está, então nós
dois sabemos o que isso significa.

— Não. Ela não está esperando, cara. Somos apenas nós, eu, você e
Millie. Somos os únicos aqui. Não é a hora ainda, Tag. - Não era uma mentira.
E me recusei a acreditar em algo mais.

Ele respirou fundo e agarrou minha mão.

— Te amo, Mo.

— Te amo também. - Essa foi a primeira vez que respondi que o


amava de volta, a primeira vez que disse algo parecido, fora Georgia, e as
palavras doíam. Quando eu disse que amava Georgia, não machucou. Mas
isso? Isso foi excruciante.

— Sabia que você amava. - Sussurrou. E com um suspiro


tranquilizante, Tag deslizou num sono, e agarrei a meu amigo, determinado
a manter a minha promessa de mantê-lo ligado a terra. 392
Página
The Song of David/ Amy Harmon

CAPITULO VINTE E CINCO

É ESTRANHO. Comecei a Equipe Tag porque eu sabia que, no ringue,


no octógono, ninguém realmente luta sozinho. Você está ali em pé, lutando
contra um adversário, mas a luta realmente acontece nas semanas e meses,
às vezes anos, que vêm antes de uma luta. É na preparação, é na equipe que
você monta que ajuda você a se preparar. Veja, um lutador sempre tem uma
equipe.

Porque você tem uma equipe, e esta equipe está contando com você,
ninguém quer desistir. No MMA, desistir é pior do que perder uma luta. Se
você luta até o fim e você perde a luta, você realmente não perdeu. Mas se
você entra em uma luta e você desiste? Isso é difícil para um lutador. Isso é
difícil para sua equipe. Isso é duro para a moral. Isso significa que você não
leva seriamente seu adversário, você não fez seu dever de casa, você não se
preparou, sua equipe não o ajudou a se preparar, e você foi pego com as
calças no chão. Ou isso significa que você ficou com medo e não confia em
seu treinamento. Você não confia em si mesmo. Você não confia em sua
equipe. Então você desiste. E isso é difícil de voltar atrás.
393

Ninguém luta sozinho. Este era o meu lema para a Equipe Tag, mas foi
Página

o meu lema para todos os outros. Foi o meu lema para meus companheiros
The Song of David/ Amy Harmon

de equipe, mas eu nunca me acreditava mesmo. Eu era a equipe, eu queria


ser a equipe para todos os outros. Eu disse Millie antes da luta de Santos que
todos lutam sozinhos. E eu acho que, bem no fundo, eu não quero que
ninguém tenha que lutar por mim. Estúpido? Óbvio? Pode ser. Mas isso é
quem eu sou. Ou quem eu era.

Meu objetivo agora? Não desistir. Ficar por perto. Permanecer aqui.
Lutar. E como eu disse a Moses, quando a campainha toca, ela toca. E até
agora, minha equipe está pegando completamente. Minha equipe inteira.

Todos os caras vieram para o meu casamento com camisas da Equipe


Tag. Na verdade, cada pessoa presente estava vestindo uma camisa da
Equipe Tag com um terno ou uma saia. Até os meus pais e minhas duas
irmãs, que me surpreenderam com a sua presença, estavam usando-as.
Henry usava sua camisa com um smoking e gravata borboleta. Moses todo
de preto, como de costume, mas acrescentou um par de máscaras que ele
não removeu nem uma vez, mesmo que a cerimônia era dentro da favorita
igreja velha de Millie. Os tons esconderam seus olhos, e eu sabia que ele
estava chorando. Eu chorei também, mas eu não me sentia obrigado a
esconder isso. A sala estava cheia de pessoas com quem eu me preocupava,
pessoas que se importavam comigo, e foi facilmente o melhor dia da minha
vida, provando que mesmo com um diagnóstico de câncer, você ainda pode
ter um melhor dia. Você ainda pode ter muitos melhores dias.

Henry conduziu Millie abaixo pelo corredor, e ela usava o véu de sua
mãe e um vestido de renda branca que parecia mais adequado para outra
394

época, talvez da época que eu descrevi quando nos conhecemos. Assistindo


Página

sua caminhada em minha direção naquele vestido me fez acreditar em


The Song of David/ Amy Harmon

destino e toda a porcaria que Moses e eu sempre dissemos não acreditar. Ou


talvez não fosse tudo sobre o vestido, talvez ela estivesse apenas linda.
Olhando para ela me fez feliz por estar vivo. Mas então novamente, ela
sempre teve esse efeito em mim.

Tivemos uma recepção no bar que era mais uma pós-festa do que
qualquer coisa, e Millie e eu dançamos até ficarmos sem fôlego, mas
partimos quando ainda estava em pleno andamento. Eu não deveria dirigir,
então Mikey brincou de motorista e nos levou para o nosso hotel,
arrastando luvas de boxe e latas e um par de sapatos tamanho 16 de Axel no
para-choques, gritando – Accidental Babies56 – a pedido de Millie – como
fizemos no banco de trás.

Falando de bebês acidentais, nós descobrimos que Millie estava


grávida exatamente um mês após o casamento. Não era realmente um
acidente em tudo. Millie quis que isso acontecesse, eu acho. Uma vez que a
quimioterapia e a radiação começaram, não haveria qualquer mini Targget
até isto estar acabado – não importa o que “acabado” significa. Então ela se
certificou disso acontecer antes. Ela era o reforço da equipe, chamando
novos recrutas, certificando-se que eu tinha todos os motivos para respirar
fundo. Mantivemos o tudo ou nada na mente. E nós comemoramos a notícia
e nos recusamos a ver os gigantes a espreita nas sombras, tornando-nos
com medo do que estava por vir.

Eu estava feliz que ela não seria capaz para dançar em torno desse
maldito poste por muito mais tempo. Eu não queria mostrar o meu homem
395

das cavernas interior, e vamos ser honestos, o meu homem das cavernas
Página

56 Damien Rice, Accidental Babies


The Song of David/ Amy Harmon

interior é uma vagina, mas eu não era louco sobre outros homens olhando
para minha esposa dançando em torno de um poste. Sugeri que ela deveria
tocar sua guitarra um par de noites na semana no bar, mas ela parecia
contente em manter a dança no porão e adicionar algumas aulas de pré-
natal de yoga para aptidão no cronograma da Equipe Tag, e realmente
puxado algumas boas novas adesões.

Moses fez o seu melhor para manter a morte à distância, e eu o deixei


acreditar que eu pensava que ele podia. Eu cheguei perto o suficiente com a
primeira rodada de quimioterapia para saber melhor. Ninguém podia
afastá-la quando ela finalmente viesse. E eu a assisti vir para muitos
sofrendo em torno de mim no mesmo centro de tratamento. Fiquei grato
que Millie não podia vê-los. De certa forma, foi uma pequena misericórdia.

Eu tinha sido indicado para o Huntsman Cancer Intitute57 e após


novos exames, meu tumor tinha regredido de um estágio quatro
glioblastôma para um astrocitôma anaplásico estágio três. Essa foi uma boa
notícia. Enorme notícia. Isso mudou um diagnóstico terminal para um
diagnóstico com um fio de esperança. Mas a boa notícia foi derrubada
quando os tentáculos do tumor que eu tinha removido se recusaram a
morrer, e mês após mês os resultados de minha MRI dificilmente variavam.

Mas más notícias ou boas notícias, nós ainda comemoramos. Nós


rimos. Nós amamos. Eu continuei cantando e Millie dançando, unicamente
para cada um. Ela disse enquanto eu continuasse cantando ela não iria me
perder. E isso parecia estar funcionando. Sua barriga cresceu, meus
396

negócios também, e Henry cresceu acima de tudo. Ele atirou-se ao longo do


Página

57 Centro de Tratamento de Câncer localizado em Salt Lake City


The Song of David/ Amy Harmon

verão e começou acumulando músculo com contínua orientação na


academia. Com o seu cabelo curto e corpo mudado, ele foi dificilmente
reconhecível quando começou o seu ano do ensino médio.

Henry tinha parado de procurar por gigantes em cada esquina. Em vez


de gigantes, estávamos à procura de milagres. Isto era estranho, mais
procurávamos mais encontrávamos, e Henry manteve um curso, detalhou
nossos achados e recitou eles todos os dias.

***

O TRABALHO DE PARTO DE MILLIE DUROU muito tempo. Muito


longo. Mas nós fizemos isso. Nós todos fizemos. Millie lidou com isso quase
como uma campeã, o que não era surpreendente; ela era boa em quase tudo
o que ela tentava. Ele era um menino grande com 56 centímetros e pesava
4,226 quilos e ele parecia tanto comigo que eu só podia rir... e chorar. Ele era
completamente careca, o que o fazia parecer ainda mais comigo. Eu perdi
todo o meu cabelo com a radiação, e tinha mantido curto desde então. Henry
apenas assentiu sabiamente como a nossa semelhança era um dado.

Millie pensou que deixássemos Henry nomeá-lo, e eu me preparei


para um filho chamado por uma carne japonesa ou algo igualmente exótico
que soaria ridículo sobre um menino branco. Contrapartida ele pensou
cuidadosamente e o pronunciou David Moses, que funcionou para mim.
Curiosamente, porém, Millie, que nunca tinha apreciado o meu apelido,
chamou-o Mo. Ela disse que eu era seu David, e o rapaz precisava de sua
própria identidade na casa. Ela estava certa que Moses não se importaria de
397

partilhar o seu apelido, e quando Moses ouviu a notícia, ele disse que o
Página
The Song of David/ Amy Harmon

pequeno Mo poderia tê-lo, ele não queria este. Ele odiava quando eu
chamava ele de Mo. Mas eu sabia que ele estava secretamente emocionado.

Pequeno Mo podia ter sido um grande bebê, mas ele ainda era tão
pequeno que o seguramos por três dias seguidos por medo de se nós
deitássemos perderíamos ele no chão. Millie quebrou alguns dias antes de
ele nascer, me dizendo como ela estava com medo que ela não seria capaz
de cuidar dele, mas eu nunca duvidei dela. Ela era natural. O que ela não
sabia, ela descobria, e ela o descobria rápido. Ela se aproximou com a
maternidade mesma atitude se aproximava tudo, e ela tinha sido mãe para
Henry há muito tempo. Ela não era exatamente nova para o emprego.

Gostaria de saber quantas mães cegas havia no mundo. Eu sabia que


havia algumas, mesmo se não fossem muitas. Ela exigiu que eu descrevesse
cada detalhe minucioso quando ela passou as mãos sobre seu corpo
minúsculo e traçou suas características muito pequenas, o nariz fofo, e seus
lábios moldados em reverência, suas pequenas orelhas, e sua pálpebra fina
como papel. Seus dedos, os dedos dos pés, os solavancos de sua espinha, a
inclinação da sua barriga. Eu a peguei explorando ele amorosamente muitas
vezes desde seu nascimento, como se ela estava determinada a não perder
nada. Isto me fez doer por ela, que ela não podia vê-lo, que ela nunca iria ver
o rosto do filho. Ela nunca iria ver o meu, aliás. Mas Millie estava convencida
de que se pudesse ver, ela nos reconheceria imediatamente. Talvez ela
estivesse certa. Talvez ela realmente nos enxergasse melhor, porque ela
tomou tempo para nos tocar, para nos sentir, para nos descobrir, para nos
398

conhecer.
Página
The Song of David/ Amy Harmon

Millie estava dormindo agora, e no suave luar em tempo real através


da janela do nosso quarto, eu podia ver o comprimento pálido de seu braço
e a piscina escura de seu cabelo contra o travesseiro branco. Ela era uma
trabalhadora, minha Amelie, como o nome. Ela tinha sido fiel à sua palavra, e
havia combinado comigo passo a passo e cuidado de mim facilmente tanto
ou mais do que eu tinha tomado conta dela.

Sentei-me para ver a minha esposa dormir, segurando meu filho de


duas semanas de idade contra o meu peito, minha mão em sua minúscula
costas, sentindo o subir e descer de seu pequeno corpo quando ele puxou
vida em seus pulmões e a deixou ir novamente. A bochecha gorda dele
estava contra a abertura do V na minha camisa, e eu podia sentir que ele
babava em mim, ou choveu. Ele tinha adormecido enquanto mamava, e eu
aliviei dos braços de Millie para ele arrotar assim ela poderia descansar, e
para que eu pudesse abraçá-lo. Ele comia constantemente, e eu estava
convencido de que era só porque ele gostava de onde o leite estava vindo. O
que havia com os meninos e seios? Ele chorava quando obrigávamos a
separá-lo, e eu tinha começado a dizer que “Mo quer mãe58”, que inspirou o
slogan Mo quer mãe estava agora indo para o mercado com a minha linha de
roupas Tag Team. Talvez houvesse mesmo ser uma linha infantil – Mo & Co
ou uma linha de maternidade, Millie & Mo. Eu gostei mais do que nunca.

— Mo sempre quer mãe, não é garotão? – eu sussurrei, beijando sua


cabeça suave. Ele cheirava como seios. Em outras palavras, ele cheirava
como o céu. Ele parecia como o céu também, mesmo quando ele chorava.
399

Millie declarou seu choro vigoroso um seu som favorito no momento em que
Página

58 No original ele fala “Mo wants mo’”, em que o segundo é uma contração de “mom”, que é mãe.
The Song of David/ Amy Harmon

veio ao mundo, gritando como se sua vida tinha acabado, em vez de apenas
começar.

— Papai quer a mãe também. Mais, e mais, e mais, – eu murmurei,


ainda observando sua mãe.

Eu tinha começado a fazer fitas para ele. Eu poderia ter alterado para
um conversor gravador digital. Mas as fitas funcionam para mim. Eu gostava
de como elas eram tangíveis. Millie disse que ela iria pegá-las e então
convertê-las, todas elas, para discos, e eu disse que estava tudo bem. Mas eu
continuei fazendo as fitas, e eu tinha uma grande pilha delas, um diário
verbal do ano passado, os dias da minha vida, os dias de nossa vida em
conjunto. Agora eu estava fazendo-as para o pequeno Mo.

— David? – Perguntou Millie sonolenta. Ela cuidadosamente deu um


tapinha no espaço ao lado dela.

— Eu o tenho. Volte a dormir, boba Millie.

Eu pensei que ela tinha, ela ficou em silêncio por um tempo. Nós dois
estávamos cansados. Exaustos. O ano passado tinha sido o céu e o inferno.
Música e miséria. Não tinha sido uma batalha fácil, e eu ainda não estava
livre do câncer. Mas eu não estava perdendo a batalha também. Eu poderia
perder a guerra. Eventualmente, eu poderia perder. Mas nós não
pensávamos sobre isso.

— Agora eu tenho essa canção presa na minha cabeça, – disse ela, de


repente, me assustando. Eu puxei e Mo estendeu os lábios e deixou o grito
400

mais triste que o homem conhece.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

Millie e eu suspiramos em conjunto, sincronizados, – ohhhh, – que


levantou até o fim e transmitiu o nosso sentimento compartilhado de que
ele era a coisa mais fofa do universo. O grito se transformou em sucção em
pânico, sua cabecinha flutuando sobre o meu peito, sua boca larga em busca
de algo que eu não podia ajudar, e eu tive que leva-lo de voltar para sua mãe.

Millie me ouviu chegando e o pegou, aconchegando-o ao lado dela,


dando-lhe o que ele sempre queria.

— Tão mimado, – eu sussurrei, deitando ao lado deles, vendo-os


porque eles eram muito bonitos para olhar de longe.

— Ele não é mimado, ele é um bebê. – Millie sussurrou, um sorriso


brincando ao redor de sua boca.

— Eu não estava falando sobre ele. Eu estava falando de mim, – eu


sussurrei de volta.

Beijei-a suavemente e ela começou a cantar.

— Eu amo suas pernas. Eu amo seu peito, mas esse ponto aqui, eu amo
mais, – ela cantarolou.

— É essa a música que está presa na sua cabeça? – Eu ri baixinho.

— Sim, – ela reclamou em um sussurro. — E eu preciso de um verso


diferente, porque nada rima com David.

Eu ri novamente.

— Eu te amo mais a cada dia que passa, eu vou te amar quando você
401

velho e grisalho. – Eu rimei.


Página
The Song of David/ Amy Harmon

— Oh, isso é melhor, – ela suspirou.

— Eu te amo de manhã, a tarde e a noite, – eu cantei.

— Eu te amo mesmo quando nós lutamos, – ela fez-se a próxima linha.

— Eu adoraria lutar, – eu provoquei.

— Eu sei, – respondeu ela, e sua voz estava suave. — E essa é a coisa


que eu mais amo.

Beijei-a novamente e esqueci a canção. Beijei-a até que seus olhos


pesaram e Mo começou a se mexer entre nós. Levei-o para fora de seus
braços mais uma vez e a deixei dormir enquanto eu segurava meu menino e
disse a ele sobre a minha primeira luta. Isto parecia acalmar ele e ele me
acalmou também, me lembrando da adrenalina, a maneira que sentia para
corrigir um erro, para marcar um ponto, para sair vitorioso.

Mo ressonava suavemente em meus braços, e eu sorri para ele,


reconhecendo que minhas batalhas não eram de muito interesse para ele.
Ele só gostava de seios. Eu não podia culpá-lo, mas eu esperava estar por
perto por tempo suficiente para ajudá-lo a descobrir alguns outros prazeres.
Eu precisava mostrar-lhe como dar um soco e como tomar um também. Eu
queria mostrar-lhe como cair e como voltar quando você estava perdendo.
Na minha vida não havia muitas lutas que eu não havia vencido. Mas a
verdade era que eu não sabia se eu estava indo para ganhar à única. Eu só
não sabia.

Minha história não poderia terminar em um milagre. Mas eu não estou


402

ansioso para um fim, então eu vou pegar os milagres ao longo do caminho e


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The Song of David/ Amy Harmon

evitar o fim todos juntos. Eu descobri que não tinha que ver o que está em
frente de mim para continuar. Millie me ensinou isso.

Vantagens de amar uma garota cega.

403
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The Song of David/ Amy Harmon

EPILOGO
MOSES

NÓS TODOS MORREMOS. Eventualmente, é assim que a história


termina para todos nós. Não há variação. Não há exceção. Nós todos
morremos. Jovens, velhos, forte, fraco. Vamos todos cedo ou tarde. Eu vim a
aceitar que, talvez até melhor do que a maioria, embora eu não pense que eu
nunca vou aceitar isto.

Quando o tempo permite, eu gosto de caminhar até o cemitério em


ascensão com vista para o vale ao sul de Levan. Não há muito para ver –
algumas casas na orla da cidade, campos, uma rodovia, e montanhas
distantes. Na verdade, a vista praticamente não mudou em todos esses
quarenta anos. Eu tinha muitos da família enterrados aqui. Minha bisavó
estava enterrada aqui. Minha mãe também. Meu pequeno filho que eu nunca
conheci em vida estava enterrado aqui também.

A sepultura de Eli era a única que eu mais visitei. Eu gostava de deixar


coisas para ele em sua lápide. Pedras brilhantes e pontas de flechas, um
novo pincel e um cavalinho de plástico. Conforme os anos passaram, os
presentes nunca mudaram, porque ele nunca mudou. Dentro de minha
mente ele sempre foi o menino, o menino que nunca envelheceu e espera
em algum lugar para eu me juntar a ele. Eu sabia que ele não precisava das
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coisas que eu deixei. Eu sabia que ele nem sequer queria-as. Deixava porque
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eu precisava, porque eu precisava dele. Ainda. Embora eu me desse bem


The Song of David/ Amy Harmon

sem ele, e mesmo que minha vida foi preenchida com os entes queridos,
nada preencheu o espaço onde ele devia estar.

Eu tinha outros espaços como esse – pequenas cicatrizes adormecidas,


que nunca parecia ou sentia a mesma. Lugares inóspitos que eu não poderia
preencher, onde nada iria crescer, onde as paredes ecoavam e o silêncio
reinava. E eu poderia combinar cada espaço a uma lápide naquele cemitério.

O cemitério de Levan cresceu ao longo os anos. Quando eu voltei pela


primeira vez para Levan como um homem jovem, procurando Georgia,
procurando pela minha vida, ainda havia filas e filas de lotes inacabados,
trechos de grama verde esperando por entes queridos perdidos. Mas essas
fileiras estavam preenchidas agora, novas fileiras foram adicionadas, e o
cemitério não era tão pequeno mais.

Os pais de Georgia tinham falecido e ela tinha perdido um irmão


alguns anos atrás também. Axel morreu em um acidente de automóvel,
cinco anos após Millie e Tag casarem. Nós todos ficamos devastados por sua
perda, e quando sua família na Suécia nunca se apresentou ou respondeu
nossas tentativas de contatá-los, nós o trouxemos aqui, para Levan, e o
enterramos entre a família, pois isso era o que ele se tornou. Eu o vi uma ou
duas vezes, tão grande e loiro e musculoso na morte como tinha sido em
vida. Ele sempre sorriu e me mostrou coisas, lembranças do tempo na
academia, tempo com Tag e a equipe, e os pedaços e pedaços de coisas que
eu sempre não entendia, mas nunca deixei de pintar. Eles eram suas coisas
preciosas – suas ótimas – e eu não tinha que as entender.
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A vida não tinha sido fácil na equipe, mas a vida não é fácil para
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ninguém. Poucos anos atrás, a esposa de Mikey perdeu sua luta com o
The Song of David/ Amy Harmon

câncer de mama e, depois disso, Mikey decaiu rápido. Seus filhos se


ergueram e Mikey estava cansado. Ele era um veterano, mas ele não queria
uma cerimônia militar. Ele perdeu a perna no Iraque, mas encontrou uma
casa na Equipe Tag. Ele manifestou o desejo de ser enterrado aqui, ao lado
de sua esposa, e nós o enterramos com seis meses de intervalo, não muito
longe de Axel.

Quando o filho mais novo de Cory morreu de leucemia uma década


atrás, eles o trouxeram também aqui, querendo ele cercado na morte por
pessoas que teriam o amado em vida, se vivessem, se tivesse vivido. Seu
pequeno monumento foi gravado com uma árvore, e nós o enterramos perto
de Eli, embora o lugar ao lado de Eli já estava tomado com uma lápide que
levava meu nome. Nome de Georgia também, com os anos de nossos
nascimentos, um traço e um espaço vazio, uma data que a morte um dia
seria fornecida.

Eu tinha netos agora, vários deles. Georgia e eu tínhamos dado boas


vindas a mais duas filhas – sem filhos depois de Eli e – todas as nossas
meninas casaram e se foram, criando seus próprios filhos. Menino de Tag
Mo foi para os fuzileiros navais e acabou por entrar na política. Ele se
parecia com seu pai, grande e de olhos verdes com seu sorriso e covinha e
um queixo considerável. Mas ele ouvia como sua mãe, trabalhava como ela
também, e graças a Henry tinha um cérebro como uma enciclopédia quando
ele vinha com detalhes. O senador David Moses Taggert era uma força a ser
reconhecida, e as pessoas começaram a pensar em todos os lados em seu
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nome como um possível candidato presidencial. Eu apenas balancei minha


cabeça para isso e esperava que ninguém viesse bisbilhotando em torno de
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The Song of David/ Amy Harmon

Levan, tentando desenterrar a sujeira em sua família e amigos. Eu gostava


da calmaria.

Eu respirei profundamente, enchendo meus pulmões com o silêncio e


o ar doce, e parei para puxar uma erva daninha, retirando a intrusa de meu
precioso conjunto de lápides. Quando me endireitei, eu peguei o movimento
com o canto do meu olho e virei-me para encontrar Tag caminhando na
minha direção, seus ombros largos como sempre, suas costas em linha reta,
seu sorriso tão largo. O nome dele subiu para os meus lábios e meu coração
levantou em saudação, acolhendo o meu velho amigo. Tinha sido um tempo,
e eu tinha sentido falta dele.

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