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O design gráfico como elemento de linguagem editorial

Pode ser do design gráfico a culpa pelo fracasso ou sucesso de uma publicação?
› Márcia Okida › Abril 2002

O design gráfico é uma das mais importantes linguagens de comunicação existentes em uma página de jornal ou
revista. Por que uma linguagem explicitamente gráfica seria um dos objetos principais de construção e transmissão de
uma mensagem, em uma mídia composta, basicamente, por textos jornalísticos? Não seria por isso, talvez, que muitas
revistas e jornais não duram mais do que algumas poucas edições logo após o seu lançamento? Não seria o design
gráfico um dos principais responsáveis pelo fracasso editorial de um jornal ou revista? Responsável também pela
falta de identificação e comunicação direta com seu público?
Sim. O design gráfico é responsável por grande parte do sucesso ou do fracasso de uma publicação. Com certeza,
nesse momento, muitas pessoas podem estar "mal-dizendo" o que afirmo acima. Mas é do design gráfico grande parte
da responsabilidade de uma perfeita comunicação entre um impresso e seu público.
A forma gráfica de uma página tanto pode afastar como aproximar o veículo de seu leitor. Pode, também, causar
ruídos de leitura, má compreensão, cansar a vista, conduzir a leitura de uma forma errada etc. O modo como uma
página, seja ela de jornal ou revista, é composta graficamente deve estar em sincronia com diversos fatores editoriais
como, por exemplo:
ordem de leitura das matérias;
facilidade de percepção do conteúdo explícito na página;
rapidez na transmissão da informação;
facilidade na localização de assuntos;
melhor entendimento da reportagem.
Assim como a composição gráfica pode ajudar a construir pode, também, destruir o conjunto editorial. Um bom
projeto gráfico editorial é aquele que conduz os olhos dos leitores sem se tornar o elemento principal daquela página.
Sem interferir na qualidade da leitura. As imagens, o tamanho das fontes tipográficas, a posição de títulos, retículas,
boxes, fios, enfim, todos os elementos visuais devem ser perfeitamente pensados e posicionados com o objetivo de
atender a uma necessidade editorial.
Esse conjunto gráfico deve ser o espelho de um determinado tipo de público para o qual aquelas matérias estão sendo
feitas, principalmente no caso de revistas segmentadas. A busca de um equilíbrio entre a informação visual e a
informação textual, um design que não se imponha às vistas de seu público gritando suas formas e cores, deve ser a
finalidade principal do designer gráfico no momento do desenvolvimento de seu trabalho.
Mas esse "design invisível" que comunica com perfeição e que leva os olhos do leitor pelos caminhos desejados por
um editor sem se tornar a força maior da página, não é algo fácil ou simples de ser alcançado. Existem vários
elementos de construção gráfica que devem ser observados no momento da criação de um projeto ou na hora da sua
diagramação. São eles:
Geometrização
Deve-se privilegiar os pontos de visão direta e visão periférica com as informações principais da matéria. A fotografia
tem uma grande importância no traçado geométrico de uma página. Os olhos das pessoas caminham pela página de
acordo com a força visual de cada elemento apresentado na diagramação. Esse traçado geométrico feito,
inconscientemente, pelos olhos transmite ao cérebro informações de caráter sinestésico, além de facilitar ou dificultar
o entendimento geral.
Gestalt
O contraste entre "figura e fundo" do conjunto gráfico. O equilíbrio entre áreas com e sem informação deve ser bem
observado. Esses espaços em branco funcionam como área de respiro para uma página ajudando o ritmo de leitura.
Essas áreas de descanso visual devem ser usadas de acordo com a necessidade editorial de um assunto, além de
representar os anseios estéticos de um determinado público. Faixa etária, sexo, nível social e cultural, além dos
assuntos a serem abordados, podem indicar como essas áreas de respiro devem ser usadas, em que quantidade e onde.

Um detalhe colorido em
uma fotografia pode
destruir a linha de
leitura de uma página

Tipografia
A escolha tipográfica é de grande importância no resultado final de um impresso. Essa escolha pode ser
a responsável pela falta de vontade de terminar a leitura de uma matéria. Algumas características
gráficas das letras podem dificultar muito a leitura e, conseqüentemente, a assimilação do conteúdo.
Existe uma sinestesia tipológica que deveria ser pensada, analisada, pesquisada e usada. Infelizmente a
preocupação com o conjunto tipográfico de uma publicação é uma questão pouco valorizada pela
grande maioria dos impressos nacionais.
Cores
O uso das cores de forma errada pode fazer com que o leitor se interesse em primeiro lugar por uma
matéria que não é tão importante. Deve-se observar não somente a cor que se deseja usar mas sua
localização na página e quantos segundos de percepção são necessários para sua assimilação pelo
cérebro, assim como, quanto tempo uma pessoa ficará com seus olhos fixos nela. Esses tempos são de
grande importância e influenciam diretamente na comunicação visual e textual. Um detalhe colorido em
uma fotografia pode destruir a linha de leitura de uma página caso essa imagem tenha sido posicionada
sem levar em conta essas questões acima mencionadas.
Na grande maioria dos impressos atuais, principalmente os jornais diários, as cores são usadas como
um elemento facilitador na localização das editorias, mas dificilmente os designers, diagramadores,
criadores de projetos gráficos se preocupam, no momento de posicionar uma imagem, com o que as
suas tonalidades são capazes de fazer com a seqüência de leitura e, principalmente, com o que aquela
cor pode transmitir.
As cores, dentro do conjunto visual de uma página, deveriam ser mais um elemento a ajudar na
seqüência de leitura desejada pelo editor. Mas essa também é outra questão pouco observada na mídia
impressa nacional de um modo geral.
Equilíbrio
A assimetria ou simetria excessiva de uma página também pode afastar o interesse imediato e dificultar
a leitura geral. O uso de uma diagramação simétrica é quase que um padrão nos impressos atuais e a
assimetria é tida, muitas vezes, como erro ou desequilíbrio. Mais uma vez devia-se levar em conta o
perfil gráfico do leitor para o qual a publicação está sendo editada e somente assim determinar se o
simétrico é realmente o mais correto. Existem públicos com preferências estéticas totalmente
assimétricas e que acabam não se identificando com uma diagramação excessivamente simétrica.

A busca pela excelência


da comunicação gráfica
deve ser o objetivo dos
novos profissionais da
área
Essas são apenas algumas questões que devem ser observadas graficamente no momento da criação de
um projeto gráfico e, posteriormente, na sua diagramação. A diferença entre as preferências visuais e
até textuais dos diferentes tipos de público faz com que a segmentação da mídia impressa, mesmo no
jornalismo diário, cresça cada vez mais. Essa segmentação do mercado editorial torna obrigatório o
conhecimento de todos os meios de transmissão de comunicação gráfica, principalmente os que
atingem seu público-alvo através de uma comunicação subliminar ou sinestésica, como as preferências
por cores, tipos, formas gráficas, estilos etc.
É fato que, graficamente, o jornalismo brasileiro ainda tem muito que alcançar. Basta que algumas
regras e padrões antigos sejam quebrados e reformulados de acordo com uma sociedade que busca uma
informação cada vez mais aprofundada dentro de assuntos específicos.
A busca pela excelência da comunicação gráfica deve ser o objetivo dos novos profissionais da área. A
comunicação subliminar e sinestésica, que podem ser transmitidas através de cores, tipos, formas
gráficas e estilos, faz parte dessa busca. É o design invisível segmentado transmitindo informações para
o favorecimento de uma perfeita comunicação editorial.

› Márcia Okida (1967) é designer gráfico, membro da SND – Society for News
Design – e professora de Design Gráfico e Editoração Eletrônica na Faculdade de
Artes e Comunicação (FaAC) da Universidade Santa Cecília (Unisanta).

› Artigo publicado na 1ª edição na Revista Ceciliana – publicação científica


acadêmica da Unisanta – em julho de 2001, reeditado em janeiro de 2002 para a
[designGráfico].

Fonte: www.designgrafico.art.br/comapalavra/linguagemeditorial.htm

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