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POR UMA HISTÓRIA DE TODOS

O maior dos desafios enfrentados pela história ha segunda metade


do século XX e que continua presente no início do XXI é o de superar o
velho esquema tradicional que apresenta uma fábula de progresso univer-
sal em termos eurocêntricos - justificando, ao mesmo tempo, o imperia-
lismo em nome do "fardo do homem branco" - , que tem, como protago-
nistas essenciais, os grupos dominantes, políticos e econômicos das socie-
dades desenvolvidas considerados os atores decisivos deste tipo de pro-
gresso, deixando os grupos subalternos e a imensa maioria das mulheres à
margem da história.
Essa é uma questão que tem de ser examinada a partir da dupla
perspectiva da exclusão dos povos não europeus (dos "povos sem histó-
ria") na dimensão das histórias "universais" ou "mundiais" e da exclusão
social de boa parte da população, erí especial das mulheres e das classes
subalternas, na dimensão das histórias "nacionais" dos países desenvolvi-
dos, isto é, dos "países com história".
A primeira das reivindicações que sé apresentou foi a dos grupos so-
ciais excluídos. Augustin Thierry abriu o caminho, no século XÍX, ão pro-
por que se escrevesse a história da sociedade civil burguesa, deslocando a
tradicional que se ocupava principalmente dos reis e da aristocracia feu-
dal, a fim de refletir as mudanças que haviam ocorrido na sociedade. A
maior parte da história política dos tempos contemporâneos deixou de
privilegiai; as biografias dos monarcas, mas só o fez, porém, para dedicar-.
se aos políticos, aos partidos e às instituições oficiais. Mais ambicioso ain-
da que ó de Thierry, era o projeto de John Wade que, em 1833, publicou
uma History ofthe middle and working classes,1 que se tornou precursora
de uma corrente de estudos que chegaria a alcançar considerável desenvol-
vimento: a história dos trabalhadores, apresentada quase sempre a partir
da crônica, de suas organizações e lutas; isto é, realizada como "história do
movimento operário". Uma história que se tornou num campo especiali-
zado de trabalho, com instituições de estudos próprias, publicações de
fontes, revistas, etc. Mas, que foi criticada por ter esquecido-muitas coisas,
começando pelo fato de ter tomado, geralmente, as classes operárias dos
países avançados como objeto, descuidando dos demais grupos explora-
dos: escravos, trabalhadores das colônias (no caso dos impérios), etc. Uma
objeçãó que outros estenderam ao projeto de fazer uma história das mas-
sas, uma "história a partir dos de baixó", como a que queria George Rudé.2
Mais tarde, reivindicação semelhante surgiria, embora não com a
mesma força nem amplitude, a respeito dos camponeses, considerados
tradicionalmente inferiores pelos grupos dominantes da sociedade, que
explicavam freqüentemente este ponto de vista com teorias que sustenta-
vam que aqueles eram descendentes de raças atrasadas, culturalmente pas-
sivas, enquanto eles o eram de povos de senhores que haviam submetido
as populações primitivas.3

1 Em que estudava "as condições das diversas classes dà sociedade e as relações entre
elas", dedicando atenção especial aos trabalhadores (WADE, John. History of the
middle and working classes. London: Effingham Wilson, 1833).
2 CHAKRABARTY, Dipesh. Rethinking working-class history: Bengal, 1890-1940. De-
lhi: Oxford University Press, 1989, apud GREGG, Robert. Inside out, outside in. Es-
says in comparative history. London: Macmillan, 2000. p. 70-72.
3 Na segunda metade do século XVII, o inglês John Aubrey dizia que os "aborigines"
ingleses que viviam aferrados à terra estavam ecologicamente determinados por
ela, tanto no que se refere ao físico como aos hábitos brutais eque eram estéreis e
passivos do ponto de vista cultural, de maneira que toda civilização que tinham ad-
quirido, inclusive o conhecimento da arte de cultivar a terra, haviam-na recebido
dos povos superiores que os dominaram, dos romanos até aquele momento (ROL-
LISON, David. The local origins of modern society. Gloucestershire, 1500-1800. Lon-
don: Routledge, 1992. esp. p. 247-264). É bem conhecido o caso de Gobineau e da
interpretação da história francesa em termos dò enfrentamento entre os francos
Desde o século XIX, com o declínio da agricultura nos países desen-
volvidos, a diminuição do número de camponeses era vista como uma
conseqüência da modernização da economia e o desaparecimento de sua
cultura, como o feliz resultado da integração na comunidade e na cultura
"nacionais" permitindo que ingressassem na vida política moderna e
abandonassem os velhos sonhos igualitários utópicos.4 O que escapasse à
pauta da modernização, como teria sido a tentativa de abordagem autôno-
ma da história dos camponeses, geralmente marginalizava-se, entre outras
razões porque as fontes não costumam dizer grande coisa a respeito das re-
sistências camponesas à assimilação "modernizadora", a não ser as fontes
de natureza judicial que conservam os testemunhos da repressão contra as
formas de luta dos camponeses: furtos lio campo, arroteamentos ilícitos,
incêndios de casas e colheitas, etc.5
A partir de meados do século XX, entretanto, e uma vez comprova-
do que os camponéses continuavam sendo importantes - pelo volume de
população que representam nos países subdesenvolvidos e como problema
para o futuro, nos desenvolvidos - eles foram recuperados como protago-
nistas da história contemporânea, principalmente no que se refere às lutas

germânicos, um povo superior do qual a aristocracia descendia, e os gauleses, ra-


cialmente inferiores, dos quais descendiam os camponeses e os burgueses (POLIA-
KOV, Leon. Le mythe aryett. Bruxelles: Complexe, 1987).
4 WEBER, Eugen. Peasants into Frenchmen, The modernization of rural France, 1870-
1914. Stanford: University Press, 1976. Em contraste com suas teses, McPHEE, Pe-
ter. The politics of rural life. Political mobilization in the French countryside, 1846-
1852. Oxford: Clarendon Press, 1992,"e LEHNING, James R. Peasant and French.
Cultural contact in rural France during the nineteenth century. Cambridge:
Cambridge University Press, 1995.
5 Ter estabelecido os complexos problemas que apresenta o tratamento das fontes
que se referem à insurgência camponesa é um dos grandes méritos de Ranajit
Guha. Veja-se, por exemplo, "Dominance withoút hegemony and its historio-
graphy", em Subaltern studies. Delhi: Oxford University Press, 1989. IV, p. 210-309.
Pode-se ter uma idéia da invisibilidade dos camponeses, num caso da história do
Peru, onde não se encontrem referências a um episódio espetacular, como o dos
camponeses do sul do país que, enfrentando o estado, se sublevaram em fins do sé-
culo XIX) e criaram uma "federação independente" que durou quase vinte anos.
(MALLON, Florência E. Peasant and nation. The making ofpostcolonial Mexico and
Peru. Berkeley: University of California Press, 1995).
dos povos colonizados contra o imperialismo, começaíido á ser publicados
estudos que os focalizam, como os de Eric Hobsbawm sobre banditismo
social e o protesto pré-político. Mais importante ainda, é o surgimento de
uma linha específica de "peasant studies", inspirada nas interpretações po-
pulistas de Chayanov e representada por autores como Eric Wolf, Teodor
Shanin e Hamza Alavi, e pelo Journal of Peasant Studies que começou a ser
publicado em 1974.6
O problema, do ponto de vista da história, é que a recuperação do
camponês realizou-se de maneira confusa, esquecendo-se que não se trata
de um grupo homogêneo, de uma classe, sendo necessário considerar suas
divisões internas e estudá-lo nas inter-relações com a sociedade urbana. Na
Europa ocidental, por exemplo, nunca existiram, como desejariam certas
tendências, camponeses isolados da cidade, encerrados no pequeno mun-
do de economia de subsistência e partícipes de uma cultura estritamente
local. Campo e cidade estiveram sempre em estreita relação e a família cam-
ponesa não foi essencialmente autárquica - uma outra coisa é que tivesse
pouca capacidade de consumir produtos e serviços urbanos - entre outras
razões pela necessidade de completar os rendimentos agrários com o traba-
lho em outras atividades. Por outro lado, a própria cultura da qual faziam
parte os camponeses europeus não era estritamente "rural", porém mais
popular ou plebéia, compartilhada com as camadas urbanas pobres, mais
difundida e muito menos estátiça do que se supõe. Os aspectos negativos de
"atraso" com que é definida habitualmente vincula-se à incompreensão do
que significava, como estratégia para a sobrevivência, e o seu suposto imo-
bilismo, aò fato que poucos tentaram estudar e explicar sua evolução. No

6 BRYCESON, Debohra; KAY, Crist6bal; MOOIJ, Jos (Ed.). Disappearing peasantries?


Rural labour in Africa, Asia and Latin America. London: Intermediate Technology
Productions, 2000; BRASS, Tom. Moral economist, Subalterns, New social move-
ments and the (Re-)emergence of a (Post-) modernized (middle) peasant. Journal
of peasant studies, 18, n. 2, p. 173-205, 1991; WOLF, Eric R. Peasants. New Jersey:
Prentice Hall, 1966, Las luchas campesinas del siglo XX. Madrid: Siglo XXI, 1973/2
e Europe and the peoples without history. Berkeley: University of California Press,
1982. SHANIN, Teodor (Ed.). Peasants and peasant societies. Hardmonsworth: Pen-
guin, 1971; Defining peasants. Oxford: Blackwell, 1990; ALAVI, Hamza. Teoria de la
revoluci&n campesina. Medellin (Colombia): La oveja negra, 1969, etc.
século XVIII, Edward Thompson escreveu, o costume estava num fluxo
constante: "longe de ter a permanência rígida que a palavra "tradição" su-
gere, o costume era um terreno de mudança e de conflito, um lugar onde
interesses opostos formulavam reivindicações opostas".7
Em 1980, Shanin fez uma série de retificações em análises anterio-
res, concluindo com a seguinte afirmação: "Os camponeses são uma mis-
tificação. Para começar, não existe "um camponês" em nenhum sentido
imediato e específico". Tom Scott nuançaria a propósito dizendo que a ca-
tegoria camponês "não é tanto um arquétipo como um estereótipo" e que
as "formulações" camponesas devem ser compreendidas como "historica-
mente contingentes, cuja emergência tem relação tanto com outras forças
e grupos da sociedade como com qualquer qualidade supostamente in-
trínseca a eles e inerente a seu modo de reprodução social".8
De fato, pode-se dizer que apenas se iniciou a história da atuação
dos camponeses analisada em seus próprios termos, ottde as revoltas si-
tuem-se dentro de um sistema de relações que nos permita vê-las, não
como simples "reações", como geralmente foi feito, mas como umá ação
complexa que tem sua própria coerência interna. Quem foi mais longe
nesta direção é o historiador indiano Ranajit Gnha, ao reivindicar a neces-
sidade de entender a lógica da atuação camponesa. Refutando as idéias de
Hobsbawm sobre o protesto pré-político, Guha reivindicou o caráter polí-
tico das revoltas rurais hindus, mostrando que, na aparente incoerência e
ainda apresentando toda uma série de contradições, é possível encontrar a
formação de "uma consciência que aprendia a organizar e classificar os
momentos individuais e coletivos da experiência e a organizá-los em cer-
to tipo de generalizações".9

7 THOMPSON E. P. Costumbres en común. Barcelona: Crítica, 1995, p. 18r19..


8 SHANIN, Teodor. Defining peasants: conceptualizations and deconceptualizations.
In: . Defining peasants. Oxford: Blackwell, 1990. p. 49-74; a outra citação é
da introdução a SCOTT, Tom (Éd.). The peasantries of Europe from the fourteenth
to the eighteenth century. London: Longman, 1998. p. 1.
9 NEVEUX, Hugues. Les révoltes paysannes en Europe, XlVe-XVlle siècle. Paris: Albin Mi-
chel, 1997; JUSTICE, Steven. Writing and rebellion. England in 1381. Berkeley: Univer-
sity of California Press, 1994; GUHA, Ranajit. Elementary aspects of peasant insurgency
Foi também no século XX que as mulheres reclamaram com insis-
tência seu lugar na história geral, corroo antes tinham reclamado plena par-
ticipação na sociedade. Ao estabelecer que as imagens da masculinidade e
da feminilidade eram socialmente construídas, a história feminista mos-
trou que as relações entre os gêneros e a sociedade também o são. Mas o de-
senvolvimento desta linha de estudos, embora tenha alcançado um volume
considerável, não se realizou sem problemas porque a confrontação de gê-
nero levou à escrever umía história específica das mulheres que conduz ge-
ralmente a esquecer que as diferenças sociais passam também pelo interior
do gênero, fazendo que muito da historiografia sobre mulheres misture e
confunda "mulheres" e "senhoras", ou tenda a subvalorizar, em outro terre-
no, a transcendência das divisões raciais. O que cabe esperar é que, uma vez
recuperadas as mulheres da obscuridade e do silêncio, sua história se inte-
gre plenamente numa história comum, acrescentando-lhe novas perspecti-
vas e cumpra-se o que Sheila Rowbotham prevê ao dizer que "a "história
das mulheres" está em processo de transcender as próprias fronteiras e che-
gar a discutir a forma em que as questões da história se apresentam. Assim
é como deve ser, já que, se a história é um compromisso com o tempo, as
-demarcações que lhe impomos são também artificiais".10

iú colonial India. Delhi: Oxford University Press, 1993 (citações das p. 6 e 11). Partha
Chatterjee comenta e matiza os pensamentos de Guha "The nation and its peasants",
que se encontra reproduzido em CHATRUVEDI, Vinayak (Ed.). Mapping subaltern
studies and the postcobnial. London: Verso-New left review, 2000. p. 8-23.
10 É praticamente impossível sintetizar a bibliografia essencial de um campo tão ex-
tenso. Não queria, no entanto, deixar de mencionar as obras de Gerda Lerner - The
creation of patriarchy (1986) e The creation offeminist conciousness (1993) - as ex-
celentes histórias gerais da mulher de Bonnie Anderson e Judith Zinsser (Historia
de las mujeres una historia propria) e de Olwen Huftpn (The prospect before her), o
livro de ROWBOTHAM, Sheila. A century of women. The history of women in Bri-
tain and the United States. London: Penguin, 1999 (faço uma citação da p. 3), ou
dois títulos interessantes, como são o livro de SMITH, Bonnie G. The gender of his-
tory. Men, women and historical practice. Cambridge, MA: Harvard University
Press, 1998, que mostra o papel das mulheres numa profissão onde o sexismo foi
dominante, e o volume coletivo organizado por AMELANG, James S.; NASH,
Mary. Historia y género: las mujeres en la Europa moderna y contemporânea. Va-
lência: IVEI, 1990. Mais tarde, apareceu, sobretudo no terreno da crítica literária,
um campo denominado como "gay", "gay/lesbian" ou "queer studies", que se des-
Em seu conjunto, pode-se dizer que a integração dos excluídos no
relato geral é ainda um objetivo a alcançar. As recuperações destas outras
histórias esquecidas foram feitas, em grande parte, à margem do quadro
geral, que é o que nos oferece explicações globais, sem tratar de integrá-las
nêlê^ianljpresen^^ conjunto alternativas. E além disso,
cõmõãfirmamos. possuem geralmente um caráter eurocêntrico. E a mes-
ma crítica feita à "história econômica e social" que se apresentava como
uma história de todos, mas que assumia esquemas associados ao progres-
so, ao excepcionalismo europeu e à modernização." Isto pode ajudar a en-
tender porque, quando o modelo da história do progresso começou a fa-
lhar, a primeira das respostas ao desencanto conduzisse a uma tentativa de
recuperação dos esquecidos da história geral que incluísse não só as for-
mas de inserção coletiva dos mesmos na sociedade burguesa mas, tam-
bém, suas experiências próprias e sua cultura. Daí surgiram as tentativas
de recuperar o indivíduo e a cotidianidade com o objetivo de renovar a vi-

creve como "o mais recente dos discursos teóricos/críticos que emergiram do mo-
vimento de liberação, - New Left, contra a guerra do Vietnã, contra-cultural, negro
e feminista - dos sessenta e primeiros setenta" (artigo: Gay theory and criticism em
GRODEN, Michael; KEISWIRTH, Martin (Ed.). The Johns Hopkins guide to literary
theory and criticism. Baltimore: The Johns Hopkins University Press,.1990. p. 324-
332). No terreno da história, é menos importante, com John Boswell como espe-
cialista mais destacado (Christianity, social tolerance, and homosexuality, 1981); The
marriage of likeness, 1995, etc.). O mais freqüente são as obras que misturam os ter-
renos cultural e histórico, como MACCUBIN, Robert Purks (Ed.). This nature's
fault. Unauthorized sexuality during the Enlightenment. Cambridge: Cambridge
University Press, 1985 ou BLACKMOItE; Josiah; HUTCHESÕN, Gregory S. (Ed.).
Queer Iberia. Sexualities, cultures, and crossing from the Middle ages to the Renais-
sance. Durham: Duke University Press, 1999. '
11 São ainda escassas as tentativas de associar estas recuperações a outras linhas de tra-
balho. Destaque-se, no que se refere ao feminismo, History workshop ou casos como
o de Susan Pollock que, na conclusão de Ancient Mesopotamia (Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1999. p. 218-219), nos propõe uma Visão inspirada ao mes-
mo tempo na consideração dos elementos econômicos e no feminismo: "Tanto o fe-
minismo como a economia política levam a uma apreciação da complexidade da
história e da mudança histórica. Os dois enfatizam a existência, em toda sociedade,
de interesses em conflito - baseados no gênero, idade, classe, ocupação ou alguma
outra construção social - e a importância de explorar as formas em que interesses
concorrentes dão forma às ações e respostas dos diferentes grupos sociais".
são da sociedade, como fizeram o grupo "History workshop" do Ruskin
College de Oxford, em torno de Raphael Samuel, ou o da "Alltagsgeschich-
te" ou "história do cotidiano" alemã, sempre querendo superar as deficiên-
cias de uma história social assimilada pelo academicismo.12 Óutras expe-
riências semelhantes, como a da "micro-história" italiana, compartilham
também destas preocupações, mas já vimos que suas contribuições a apro-
ximam mais dos debates sobre a narratividade, embora seja só por sua am-
bigüidade, de modo que optei por situá-la naquele outro contexto.13
O modelo linear da história do progresso tinha, entretanto, outro
âmbito de exclusões, talvez o mais importante: o de todos os povos que
não pertencem à cultura dominante de origem européia, cujas sociedades
v e culturas costumava-se apresentá-las como estagnadas no tempo até o

momento em que a colonização as introduziu na dinâmica da moderniza-


ção. Isto afetava ao mesmo tempo a África e os povos indígenas que habi-
tavam a América e a Oceania antes da chegada dos colonizadores, enquan-
to que, no caso da Ásia, onde não era possível desconsiderar que existiram,
ali, em muitos sentidos, civilizações mais adiantadas culturalmente do que
a Europa, o atraso posterior era atribuído à força do "despotismo" orien-
tal e à debilidade das sociedades civis.14

12 SAMUEL, Raphael (Ed.). Historia popular y teoria socialista. Barcelona: Crítica,


1984; LÜDTKE, Alf (Ed.). Histoire du quotidien. Paris: Maison des Sciences de
l'Homme, 1994.
13 Uma mostra interessante dos mal-eritendidos que podem ser produzidos encontra-
mos no livro, organizado por GILLY, Adolfo. Discusión sobre la historia. México:
Taürus, 1996. Gilly enviara ao subcomandante Marcos, o chefe zapatista, um traba-
lho de Ginzburg, reproduzido no volume, "Senales. Raíces de un paradigma indi-
ciário", esforçando-se em defendê-lo numa interpretação que liga Ginzburg com E.
P. Thompson, como um método para fugir das generalizações abusivas do marxis-
mo catequético - esgrimindo, ao mesmo tempo, críticas pessoais à conduta dos po-
líticos comunistas - e recuperar a voz dos subalternos. Marcos, em troca, respon-
de-lhe com justificada desconfiança. As intenções de Gilly são boas, mas o caminho
que escolheu para realizá-las não é o mais adequado.
14 A importância da cultura da China não necessita demonstração depois da grande
obra de NEEDHAM, J. Science and civilisation in China. Cambridge: Cambridge
University Press, 1954-1989. Uma interessante revisão das comparações Asia-Euro-
pa, com amplas referências bibliográficas, será encontrada em LIEBERMAN, Vic-
tor. Transcending East-West dichotomies: State and culture formation in six osten-
No que se refere aos povos "primitivos" atuais, à tarefa dos cientis-
tas sociais europeus serviu constantemente para confirmar sua marginali-
zação: os antropólogos alemães que estudavam, em princípios do século
XX, as populações africanas colonizadas, como Eugen Fischer, chegaram a
conclusões que, ao afirmarem a conveniência da "extinção" das "raças in-,
feriores" e dos mestiços, serviram de inspiração ao holocausto.15 Por outro
lado, os esforços realizados conjuntamente por antropólogos e historiado-
res a fim de reconstruir o passado dos povos indígenas tampouco apresen-
taram resultados inteiramente satisfatórios. Em nenhum lugar, esses traba-
lhos devem ter sido quantitativamente mais importantes do que na Amé-
rica do Norte, onde os estudos sobre os povos indígenas têm um peso im-
portante no mundo acadêmico. Mas essa etno-história foi feita a partir de
uma perspectiva européia e à margem dos membros dos povos estudados,
que não participaram na elaboração da visão de seu passado e se queixam
de que "a história convencional foi incapaz de produzir um discurso que
respeite os1 ameríndios".16
A rejeição ao eurocentrismo formulou-se abertamente no terreno dos
estudos culturais, dando origem ao pós-colonialismo, cujo antecedente mais
evidente está na obra de Edward Said (nascido em 1936), um professor nor-
, te-americano. de literatura comparada, de origem palestina que publicou,

sibly disparate areas. In: LIBERMAN, Victor (Ed.). Beyond binary histories. Re-ima-
gining Eurasia to c. 1830. Ann-Arbor: The University of Michigan Press, 1999. p. 19-
102. Uma revisão da literatura recente sobre o crescimento econômico da Ghina
encontrar-se-á em DENG, Kent G. A^ri tical survey of recent research in Chinese
economic history. Economic History Review, LIU, n. 1, p. 1-28, 2000.
15 ERMANN, Annegret. From colonial racism to nazi population policy. The role of
thè so-called Mischlinge. In: BERENBAUM, Michael; PECK, Abraham J. (Ed.). The
Holocaust and history. The Known, the unknown, the disputed and the reexamined.
Bloomington: Indiana University Press, 1998. p. 115-133.
16 SIOUI, Georges E. For an Amerindian autohistory. Montreal: McGillTQueen's Uni-
versity Press, 1992. p. 98. Daí porque nem os grupos índios nem os negros sintam-
se identificados, nos Estados Unidos, com o tipo de história que se ensina nas es-
colas e lutem por estabelecer memórias coletivas próprias (ROSENZWEIG, R.;
THELEN, D. The presence of the past. Popular uses of history in America life. New
York: Columbia University Press, 1998. p. 147-176 ("History in black and red: Afri-
can Americans and American Indians and their collective pasts").
em 1978, Orientalism," onde denunciava, sob a influência de Foucault, a for-
ma como o discurso acadêmico ocidental tendia a construir o conceito de
um Oriente essencialmente diferente do Ocidente e a fazer disso uma arma
do imperialismo. Said tinha razão ao denunciar a penetração desta ótica nos
mais diversos domínios da literatura ou das ciências sociais e é evidente que
teve um papel considerável no despertar da consciência para o fato.18 Porém,
as contradições de sua obra e a rejeição da especialidade - a reivindicação do
crítico como amador não especializado - que traz consigo a falta de conhe-
cimento do trabalho dos estudiosos das línguas, das culturas e da história do
Oriente, que ele costuma confundir com o dos escritores e pintores "orien-
talistas", faz que sua herança seja ambígua.19
Além da função de chamar a atenção para o problema, Orientalism
exerceu pouca influência sobre os historiadores especializados,2" enquanto
o livro e a obra posterior de Said, referente à análise de obras literárias, in-
fluenciaram muito os que se dedicam aos estudos literários, especialmen-
te os membros dos departamentos de inglês das universidades norte-ame-
ricanas, proporcionando-lhes objetivos novos e estimulantes que lhes per-

17 Nova York, Pantheon, 1978, que completariam, posteriormente, formando uma es-
pécie de trilogia, The world, the text and the critic (Cambridge, MA: Harvard Uni-
versity Press, 1983) e Culture and imperialism (London: Chatto and Windus, 1993).
18 Como exemplo, mencionarei RAMON, M. Dolors Garcia; NOGUÉ, Joan. Colonia-
lismo, imperialismo y explotación en geografia: nuevas aportaciones críticas sobre
orientalismò y postcolonialisino. In: NOGUÉ Joan; VILLANOVA, José Luis (Ed.).
Espana en Marruecos. Lleida: Milénio, 1999. p. 35-54, que destacam a dívida dos
geógrafos com Said.
19 As contradições do pensamento de Said estão bem analisadas em ASHCROFT,
Bill; AHLUWALIA, Pai. Edward Said. The paradox of identity. London: Routledge,
1999. Uma útil seleção de textos em MACFIE, A. L. (Ed.). Orientalism-. A reader.
Edinburgh: Edinburgh University Press, 2000.
20 Há poucos anos, unja série de especialistas da história do Oriente Próximo - Hou-
rani, André Raymond, Rodinson, Halil Inalcik, etc. - , aos quais se solicitava opinar
sobre a obra de Said, a maioria mostrou-se em desacordo com ele (GALLAGHER,
Nancy Elizabeth. Approaches to the history of the Middle East. Interviews with lea-
ding Middle East historians. Reading: Ithaca Press, 1994). Para uma visão do orien-
talismo erudito até meados do século XlX, DIGAT, Gustave. Hisloire des orientalis-
tes de I'Europe du Xlle au XIXe siècle. Paris: Maisonneuve, 1868-1870. 2 v.
mitiram aplicar, de maneira mais ambiciosa, os métodos de análise do dis-
curso e das representações. Não é de estranhar, portanto, que Said tenha
sido um dos inspiradores fundamentais do "pós-colonialismo", nem que
os especialistas desta corrente procedam, em sua maior parte, do campo
dos estudos literários ou da cultura, como acontece com os hindus Homi
Bhabha, que fazem uma mistura confusa de psicanálise, desconstrução e
Foucault a fim de estudar as relações coloniais, ou òayatri Chakravòrty
Spivak, professora de humanidades em Columbia University, para quem as
referências "teóricas" são Foucault, Derrida (que ela mesma traduziu), De-
leuze ou Guattari, que se autodefine como pessoa "com uma certa carte
d'entrée nos ateliers teóricos da elite da França" e que se defendeu dos
"amigos teoricistas" que criticaram um trabalho de sua autoria por "exces-
siva preocupação com o 'realismo histórico'", dizendo: "espero que uma se-
gunda leitura os persuadirá de que minha preocupação dirigiu-sè à fabri-
cação de representações da denominada realidade histórica".21
Quando alguém observa como estes estudiosos dedicam-se a dar su-
cessivas voltas sobre a interpretação de obras literárias - como Heart of
darkness de Conrad - , refutando qualquer referência aos problemas reais do
mundo pós-colonial e quando são lidas afirmações como a que "o mito da
universalidade é uma estratégia primária do poder colonial", pois margina-
liza e exclui as características distintivas, a diferença, das sociedades pós-co-
loniais - ao que Amartya Sen respondeu que existem coisas, como as liber-

21 De Homi Bhabhà, podem-se ver, por exemplo, as superficiais contribuições ao vo-


lume, "editado" por ele, Nation and narration. London: Roudedge, 1990, com uma
introdução onde dá voltas em torno de uma trivial identificação de "nação" e "nar-
ração" como duas invenções, tema que não é precisamente novo, e um capítulo fi-
nal onde a frivolidade começa pelo título "derridiano" - "DissemiNation: time, nar-
rative, and the margins of the modern nation" - , com pouco mais que retórica.
Consideração que pode fazer-se extensiva ao livro de SPIVAK, Gayatri Chakra-
vòrty. A critique of postcolonial reason Toward a history of the vanishing present.
Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999, do qual se faz uma citação (p.
244). Ninguém poderia atacar como contagiada pela história a autora de uma sé-
rie de insuportáveis peças de retórica "gaulesa". Uma análise crítica da teoria do dis-
curso colonial em WASHBROOK, D. A. Orients and Occidents: Colonial discour-
se theory and the historiography of the British empire. In: WINKS, R. W. (Ed.). The
Oxford history of the British empire. Oxford: Oxford University Ptess, 1999. V. His-
toriography, p. 596-611.
dades democráticas, que são úteis em qualquer parte do mundo - ; quando
se menospreza a história, considerando-a como uma estratégia do homem
branco, ou se chega a dizer, como Allan Bishop, que as matemáticas ociden-
tais são "a arma secreta do imperialismo cultural", propondo a adoção dos
sistemas de contar dos primitivos, isto é, das "etnomatemáticas", parece cla-
ro que convém prevenir-se contra o perigo de que esse tipo de afirmação,
extremando a desconfiança em relação à "realidade histórica", acabe con-
vertendo-se em novas ferramentas de uma marginalização muito pior dos
"outros". "O recuo das verdades universais em nome de uma nova multipli-
cidade por parte dos teóricos do pós-colonialismo - disse Jacoby - leva à
incapacidade de analisar e julgar." As denúncias tornam-se meros gestos
ineficazes e sem nenhuma proposta útil. Salnian Rushdie explicou, em
1982, que multiculturalismo queria dizer, nas escolas britânicas, ensinar as
crianças a tocar o bongô ou a vestir o sári, convencendo-os, ao mesmo tení-
* po, de que os negros são "culturalmente tão diferentes" que forçosamente
criarão problemas de convivência.22
Não se pode negar que o pós-colonialismo contém elementos de
. resposta progressista por parte dos especialistas dos estudos culturais que
lutam pelos valores positivos do "politicamente correto" e do "multicultu-
ralismo"; mas, pelo lado negativo, é necessário dizer que sua concentração
no estudo das representações afasta-os dos problemas reais e os torna
cúmplices do imobilismo devido ao fato que partem do princípio de que
os colonizados não podem expressar-se por si mesmos, necessitando das
vozes do cientista social "pós-colonialista" para fazê-lo.23 Vozes que, infeliz-
mente, costumam estudar um tipo de problema que pode ser interessante

22 ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (Ed.). The post-colonial rea-
der. Oxford: Blackwell, 1995; CHILDS, Peter; WILLIAM, Patrick. An introduction
to post-colonial theory. Hemel Hempstead: Prentice Hall, 1997 (contém três capítu-
los específicos sobre Said, Bhabha e Spivak; a citação de Rushdie^ da'p. 77).
23 Veja-se, por exemplo, o trabalho de SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Les subalternes
peuvent-ils s'exprimer? In: DIOUF, Mamadou (Ed.). L'historiographie indienne en
débat. Colonialisme, nationalisme et sociétés postcoloniàles. Paris-Amsterdam Kar-
thala-Sephis, 1999. p. 165-229, onde, depois de uma longa peroração cansativa da
mais pedante retórica foucault-deleuzo-derridiana, própria da autora, acaba con-
cluindo: "O subalterno não pode expressar-se".
nos círculos acadêmicos dos países desenvolvidos mas que, concentrando-
se no meramente cultural - na confrontação Oriente-Ocidente - e esque-
cendo os aspectos políticos e econômicos - a confrontação Norte-Sul
não proporcionam ajuda alguma às vitimas do imperialismo, em franco
contraste com os antropólogos que assumiram a tarefa, muito menos eli-
tista, de denunciar os abusos do terrorismp de estado na índia, na Améri-
ca Central ou na Indonésia.25 Russel Jacoby critica muito os "pós-colonia-
listas" das universidades norte-americanas, que geralmente são professores
dos departamentos de inglês com horizontes de pesquisa pouco estimu-
lantes em seu campo, porque as grandes obras literárias que deveriam pes-
quisar já foram estudadas ad nauseam.26 Misturando a preocupação pelo
"politicamente correto" com a análise do discurso, dedicam-se a descobrir
por todos os lados, as distorções do discurso imperialista e procuram cum-
plicidades para denunciar (assim, por exemplo, houve quem criticasse
Derrida por haver atacado o apartheid sul-africano, dizendo que, com isto,
estava mascarando as outras formas de racismo), sem sujar pessoalmente
as mãos com problemas reais e cotidianos que podiam descobrir, apenas
olhando ao redor, ao sair à rua.27

24 Gregg explica-nos que, em meados dos anos oitenta, pouco depois da invasão de Gra-
nada, "uma turma de estudantes foi informada por um especialista norte-americano
na China, preparado em Harvard, que era necessário que fossem os norte-america-
nos que escrevessem a história da China, porque os historiadores chineses tinham
uma visão por demais enviesada para poder fazê-lo objetivamente" (GREGG, Robert.
Inside out, outside in... London: Macmillan, 2000. p. 133). É evidente que isto tem
pouco a ver com o "orientalismo".
25 SLUKA, Jeffrey A. (Ed.). Death squad. The anthropology of state terror. Philadelphia:
University of Pennsylvania Press, 2000.
26 A bibliografia de 1997, resenhada em Shakespeare Quarterly, contém 4780 títulos
(13 ao dia!) sobre temas tão peculiares como "O fracasso da amizade homoerótica
no "Mercador de Veneza" de Shakespeare" (KERMODE, Frank. Writing about Sha-
kespeare. London Review of Books, 9, p. 3-8, Dec. 1999).
27 JACOBY, Russel. Marginal returns. The trouble with post-colonial theory. Lingua-
franca, 5, n. 6, p. 30-37, Sept./Oct. 1995, onde descreve deste modo sua gênese: "o
marxismo engendrou o estruturalismo e o pós-estruturalismo; o pós-estruturalismo
engendrou o desconstrucionismo; o desconstrucionismo engendrou o pós-moder-
nismo e os dois fizeram nascer o pós-colonialismo", que é, de certo modo, herdeiro
de Frantz Fanon e de Foucault, ^través de Said. No que se refere a minha última afir^
mação, recorde-se que a Columbia University está ao lado do Harlem.
É evidente, em todo caso, que o pós-colonialismo é praticamente
inútil para os historiadores, mesmo que seja apenas pelo fato de que parte
do repúdio a uma história que geralmente ignora (o que poupa, aos espe-
cialistas, o trabalha de levantar documentos adequadamente). As críticas
estereotipadas de Said e de seus discípulos à obra dos pesquisadores univer-
sitários têm pouco a ver com a obra de historiadores como Donald F. Lach
(1917-2000) que, em monumental e inacabado estudo sobre a Asia in the
makittg ofEurope,211 se dedicou a estudar, na segunda parte, o impacto da
Ásia sobre a Europa, utilizando, além dos testemunhos escritos, as "fontes
silenciosas" que são os objetos. Nem com a nova imagem do comércio en-
tre Ásia e Europa que foi surgindo dos trabalhos de van Leur, Steensgaard,
Reid, TraCy, Denys Lombard, Om Prakash, Subrahmanyam, etc. e que per-
mite, na atualidade, estabelecer uma visão nova das relações entre o mun-
do do Índico e a Europa entre 1500 e 1800: uma visão em que o comércio
marítimo com o Ocidente deixa de ter o papel determinante que "antes lhe
era atribuído, situando-se numa rede muito mais complexa de intercâm-
bios, na qual se analisa o que significou o "desafio hindu" à Europa e se pro-
põe explicitamente o abandono das velhas visões eurocêntricas.29
Como disse Kenneth Pomeranz, é verdade que as ciências sociais
dominantes eram eurocêntricas, mas a solução não consiste em abandonar
as comparações entre culturas, limitando-se "a expor a contingência, a
particularidade e talvez a incognoscibilidade dos momentos históricos"

28' Donald F. Lach (no volume III, em colaboração com Edwin Van Cley) Asia in the
j making of Europe. Chicago: University of Chicago Press, 1965-1993.3 v., 9 t.
29 Citarei apenas, para não multiplicar referências bibliográficas fáceis de encontrar -
embora geralmente ainda ignoradas pelos pós-colonialistas culturais, que menospre-
zam olimpicamente a "historiografia disciplinar" (Spivak, p. 221) - os dois volumes
"editados" por James TRACY, D. The rise of merchant empires e The political economy
of merchant empires. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. A abertura a pos-
turas nada "orientalistas" é também evidente na revista Journal of early modem his-
tory, que procura dar uma visão global, com uma ótica definida pelo subtítulo: "Con-
tacts, Comparisons, Contrasts". Uma boa análise crítica, em SUBRAHMANYAM,
Sanjay. Connected histories: Notes towards a reconfiguration of early modern Eura-
sia. In: LIEBERMAN, Victor (Ed.). Beyond binary histories. Ann Arbor: The
University of Michigan Press, 1999. p. 289-316.
mas, sim, confrontar as percepções enviesadas dos dois lados para cons-
truir Outras melhores.30
Uma resposta crítica a essas limitações, que articulava conjunta-
mente os problemas da exclusão social e os da marginalização eurocêntri-
ca, foi dada, a partir de fins dos anos setenta, pela escola hindu dos "subal-
tern studies", inspirada principalmente no já citado Ranajit Guha.31 No
manifesto inicial de Subaltern studies, ele denunciou o caráter, elitista da
história nacionalista hindu que herdara todos os preconceitos da colonial
e que era incapaz de mostrar "a contribuição feita pelo povo por si mesmo,
isto é, independentemente da elite" e de explicar o campo autônomo da po-
lítica da índia nos tempos coloniais, em que os protagonistas não eram as
autoridades coloniais nem os grupos dominantes da sociedade, "mas as
classes e grupos subalternos que constituem a massa da população traba-
lhadora e as camadas intermediária^ da cidade e do campo - isto é, o
povo". Guha considera Gramsci como uma de suas fontes de inspiração

30 POMER/VNZ, Kenneth. The great divergence. China, Europe and the making of the
modern world economy. Princeton: Princeton University Press, 2000. p. 8.
31 Ranajit Guha, nascido em Bengala oriental numa família de proprietários de terra,
em 1922, militou no Partido Comunista até 1956. Transferiu-sè para a Grã-Breta-
nha, onde passaria vinte e um anos, ensinando nas universidades de Manchester e
de Sussex (em 1980, transferiu-se para a Australian National University, em Can-
berra). Propuseram-lhe escrever um livro sobre Gandhi, mas o que realmente lhe
interessava era o estudo da insurgência camponesa. Seu primeiro trabalho impor-
tante foi um estudo sobre o "Permanent Settlement" de 1793, pelo qual os ingleses
introduziram em Bengala um conceito "ocidental" de propriedade, com a idéia de
promover o desenvolvimento capitalista. O resultado, porém, em conseqüência de
não terem entèndido o contexto do sistema agrário local, foi o de conseguir a con-
trário, criando uma camada de latifundiários absenteístas (GUHA, Ranajit. A rule
ofproperty for Bengal. An essay on the I4ea of Permanent Settlement. Paris: Mouton,
1963; no prefácio à reedição de Durham, Duke University Press, 1996, que é a que
uso, Amartya Sen qualifica Guha como "o mais criativo historiador hindu deste sé-
culo"). Depois viria Elementary aspects of peasent insurgency in colonial índia
(1983) e, principalmente, a coleção dos Subaltern studies, que se iniciou em 1982
como uma série que se projetava em três volumes, mas que prosseguiu, dirigida
pplo mesmo Guha e por outros, até o sétimo (a maior parte dos dados procedem
do prefácio mencionado de Amartya Sen e dos trabalhos incluídos no volume VTII
dos Subaltern studies> "Essays in honour of Ranahit Guha").
para o propósito de analisar as formas de mobilização horizontal destes
grupos, sua ideologia, a formação de uma política "do povo", determinada
em parte pelas condições de exploração das classes subalternas e a dicoto-
mia que se estabeleceu entre a burguesia que não soube representar a na-
ção e as classes subalternas que, apesar da importância das revoltas cam-
ponesas, não conseguiram gerar uma luta nacional de libertação.32
O problema do viés das fontes levou Guha a formular a dificuldade
de se chegar à história dos subalternos a partir de relatos contaminados pela
visão da contra-insurgência,que acaba infiltrándo-se por todos os lados. O
historiador, que se mostra favorável aos insurgentes, "só se distancia da pro-
sa da contra-insurgência por uma declaração de intenções. Ainda deverá
percorrer um longo caminho antes que possa demonstrar que o insurgen-
te pode confiar em seu trabalho para recuperar o lugar na história".33
Desde 1985, entretanto, começaram a ocorrer dissidências no gru-
po, tendo uma parte dos membros proposto abandonar o projeto historio-
gráfico de Guha para avançar pelos caminhos do pós-colonialismo mais
convencional.34 Seria a partir deste momento, significativamente, que os

32 On some aspects of the historiography of colonial India. In: Subaltern studies. Writings
on South Asian history and society edited by Ranajit Guha. Delhi: Oxford University
Press, 1982. p. 1-8, e "Preface". In: Subaltern studies. Delhi: Oxford University Press,
1995. p. IM VII-VIII. Dipesh Chakrabarty recordaria o essencial das formulações de
Guha em: Discussion: Invitation to a dialogue. In: Subaltern studies. IV, p. 364-376,
onde, em resposta a diversas críticas recebidas até então, reafirma que "a tarefa dos his-
toriadores marxistas da Índia, hoje, não é a de repetir as ortodoxias recebidas do mar-
xismo, mas devolver ao pensamento de Marx sua tensão original" (p. 376).
33 GUHA, Ranajit. The prose of counter-insurgency. In: Subaltern studies, 2. Delhi:
Oxford University Press, 1983. p. 1-42 (citação da p. 40) e Dominance without he-
gemony and its historiography. In: Subaltern studies. Delhi: Oxford University
Press, 1989. VI, p. 210-309.
34 Veja-se a introdução de Vinayak Chaturvedi ao volume Mapping subaltern studies
and the postcolonial, citado anteriormente. O início da dissidência pode-se ver em
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Subaltern studies: Deconstructing historiography.
In: Subaltern Studies. Delhi: Oxford University Press, 1985. IV, p. 330-363, onde
realiza uma pròposta de "desconstrução da historiografia" e pretende - com uma
bateria de citações de Derrida, Nietzsche, Lacan e companhia - , ir além das posi-
ções críticas dos subalternos, chegando à própria dissolução do projeto historio-
gráfico inicial.
meios acadêmicos ocidentais começaram a reconhecê-los e que seu estilo
- é difícil falar de métodanas circunstâncias - seria adotado como uma via
aplicável de maneira geral ao terceiro mundo. Gyan Prakash o apresentou,
em 1990, como um possível modelo para escrever "historias pós-orienta-
listas do terceiro mundo", mas encontrou objeções por parte de Rosalind
0'Hanlon e Davfd Washbrook, que denunciavám a incoerência de querer
combinar uma perspectiva marxista que propunha interpretar a história e
mudar a sociedade, com outra de análise textual que, ao mesmo tempo
que negava a história, contribuía com o próprio ceticismo para perpetuar
um status quo regressivo.35
Em 1994, os postulados da escola foram objeto de um "fórum" da
American Historical Revieyv, em que Gyan Prakash defendeu uma visão cada
vez mais afastada das origens esquerdistas iniciais, na qual o marxismo era
acusado de ter perpetuado o discurso eurocêntrico que "universalizava a ex-
periência histórica da Europa". Tentou justificar a origem com o modelo da
"história a partir dos de baixo" e com métodos foucaultianos que prestavam
"maior atenção em desenvolver a emergência da subalternidade como um
efeito discursivo, sem abandonar a noção de subalterno como sujeito e ator".
A partir daí, passava a uma crítica "da disciplina acadêmica da*história cómo
uma categoria teórica carregada de poder", que sempre acabava sendo histó-
ria da Europa e marginalizando outras disciplinas, defendendo um progra-
ma segundo o qual o Subaltern studies obtém sua força como crítica pós-co-
lonial de uma combinação "catacrética" de marxismo, pós-estruturalismo,
Gramsci e Foucault, o oeste modernos a índia, a pesquisa de arquivo e a crí-
tica textual (Observe-se de passagem o caráter elitista de um léxico com pa-
lavras como "catacrética", o que obriga o cidadão comum a consultar o di-
cionário, o que lhe permitirá descobrir que, no contexto concreto, a palavra

35 PRAKASH, Gyan. Writing post-orientalist histories of the third world: perspecti-


ves of Indian historiography. Comparative studies in society and history, 32, n. 2, p.
383-408, 1990; O'HANLON, Rosalind; WASHBROOK, David. After orientalism:
culture, criticism, and politics in the third world. Comparative studies in society
and history, 34, n. 1, p. 141-167,1992, seguida de uma réplica de PRAKASH, Gyan.
Can the "subaltern" ride? A reply to O'Hanlon and Washbrook. Id., p. 168-184.
é equívoca36 e, por isso mesmo, desnecessária, perfeitamente substituível por
qualquer outra de uso corrente.). O programa foi recebido com uma atitu-
de crítica por Florência E. Mallon que, ao mesmo tempo que mostrava a im-
possibilidade de ligar duas tendências tão contraditórias, destacava o engo-
do que poderia implicar, para quem propunha novos métodos, ignorar todo
0 trabalho erudito anterior.37
Infelizmente, porém, o dilema entre as duas tendências incompatí-
veis denunciada por Mallon foi definindo-se e a escola - apesar de um caso
meritório, mas confuso, de trabalho com base erudita como Another rea-
son38 - ficou cada vez mais próxima da crítica textual e de Foucault, afas-
tando-se de Gramsci e da pesquisa em arquivo. Voltou-se para uma despo-
litização culturalista, arriscando-se a cair no vazio verbal do pós-colonia-
lismo, numa evolução de que a obra de Spivak pode servir de exemplo. O
fato de que, ao mesmo tempo em que se tornavam politicamente inofen-
sivos, os "subalternos" tenham conseguido ganhar, entre os meios acadê-
micos ocidentais pós-modernos, a audiência que não tinham na época em

36 Comeceçios economizando o leitor da ida ao dicionário. Catacreses é a "figura pela


qual uma palavra que designa propriamente um objeto é usada para designar ou-
tro que tem uma certa analogia com este". E catacfético, naturalmente, é "relativo
ou pertencente à catacreses".
37 O fórum foi publicado na American Historical Review, v. 99, n. 5, Dec. 1994 e com-
preendia: PRAKASH, Gyan. Subaltern studies as postcolonial criticism, p. 1475-
1490; MALLON, Florência E. The promise and dilemma of Subaltern studies: pers-
pectives from Latin American history, p. 1491-1515 (que, referindo-se à recusa, por
parte dos pós-colonialistas, de reconhecer o trabalho dos historiadores, destacou:
~ "no mundo acadêmico atual, com sua notória superprodução, estas técnicas de
menosprezo são especialmente atraentes", p. 1502) e COOPER, Frederick. Conflict
and connection: rethinking colonial African history, p. 1516-1545, também com
bastante precaução no que se refere às possibilidades de utilização destes métodos
na Áfricâ. Ao contrário, podemos ver uma intenção recente de estender os métodos
à história africana tal como apresenta DIOUF, Mamadou. Entre l'Afrique et l'Inde:
sur les questions coloniales et nationales. Ecritures et recherches historiques. In:
. (Ed.). L'historiographie indienne en débat. Paris-Amsterdan: Karthala-
Sephis, 1999. p. 5-35, livro que reproduz justamente o artigo de Cooper.
38 PRAKASH, Gyan. Another reason. Science and the imagination of modem India.
Princeton: Princeton University Press, 1999. -
que eram mais subversivos, deveria levá-los a pensar que talvez tenham
sido absofvidos por outro tipo de lógica da contra-insurgência.39
Um dos problemas mais graves e mais insidiosos, entre os muitos
que o eurocentrismo criou, foi a influência do mesmo nas novas histórias
autóctones, nas quais podem ser encontrados geralmente dois defeitos,
que são comuns a um determinado estágio inicial das historiografias do
sul da Ásia, da África e da América Latina. O primeiro é a adoção dos mo-
delos historiográficos europeus o que levou à tentativa de descobrir, no
próprio passado, as mesmas etapas que os historiadores europeus identifi-
caram em seus países: as conseqüências da transposição do conceito de
feudalismo foram graves no caso dos partidos da esquerda latino-america-
na que se empenharam em propiciar inviáveis revoluções burguesas, mes-
mo que tivessem de aliar-se a ditaduras militares, e provocaram efeitos
sangrentos em Ruanda, onde serviu para justificar, como dissemos antes,
a "revolução Social" e o extermínio dos tutsis.
A transição de uma história colonial para outra nacionalista era es-
pecialmente complexa no caso da África, já que os velhos modelos inter-
pretativos coloniais começavam por excluí-la da história. Para os britâni-
cos, o continente era um cenário da história do império: da ação dos bri-
tânicos - descobridores, militares, administradores - em terras africanas.
Imediatamente após a independência, os historiadores africanos viram-se
estimulados a escrever uma espécie de história "resistente", oposta à do
imperialismo, que usava, porém, os modelos interpretativos europeus
para reintegrar o continente no mesmo tipo de história que derivava da-
queles esquemas. Isso os obrigou a procurar os vestígios de estados, de co-
mércios à longa distância oü de redes urbanas, abandonando à etnografia
o estudo da vida rural, isto é, a parte essencial da realidade africana: "des-
ta maneira - disse Jean-Pierre Chrétien - a maior parte dos africanos que
viveram ficavam fora da ciência". Ou respondiam com a simples inversão
dos valores da historiografia colonial, ao mesmo tempo, que procuravam,
contraditoriamente, encontrar um sentido histórico nos novos marcos

39 SARKAR, Sumit. The decline of the subaltern in "Subaltern Studies". In:


Writing social history. Delhi: Oxford University Press, 1998. p. 82-108.
nacionais definidos pela partilha colonial, o que os comprometia a legiti-
mar, de início, as construções políticas e as formas de organização nasci-
das da independência.40
O fracasso econômico inicial dos países africanos independentes le-
vou a uma interpretação próxima às teorias latino-americanas da depen-
dência, jogando toda a culpa do atraso no colonialismo. Da velha visão co-
lonialista de um passado africano primitivo, fruto da incapacidade de seus
habitantes, que se havia modificado pela ação civilizadora dos europeus,
passou-se, agora, a uma recuperação otimista da própria história - com
reivindicações extremas dos valores africanos, como o da "negritude" do
Antigo Egito - 41 que supervalorizava o estado de civilização e desenvolvi-
mento, em termos europeus, da África nos inícios da Idade Moderna. Des-
se ponto de partida, a explicação do atual subdesenvolvimento reduz-se a
estabelecer as culpas do colonialismo: a afirmar, como sustentava um livro
de Walter Rodney, que a Europa havia subdesenvolvido a África.42

40 FALOLA, Totin. West Africa. In: WINKS, R. W. (Ed.). The Oxford history of the
British empire. Oxford: Oxford University Press, 1999. V. Historiography, p. 486-499.
CHRÉTIEN, Jean-Pierre. Les mémories, enjeux de l'histoire de l'Afrique. In: CHRÉ-
TIEN J.-R; TRIAUD, J. -L. (Ed.). Histoire d'Afrique. Les enjeux de mémoire. Paris:
Karthala, 1999. p. 491-500. No volume de readings, organizado por COLLINS, Ro-
bert O.; BURNS, James McDonald; CHING, E. Christopher. Problems in African his-
tory. The precolonial centuries. New York: Markus Wiener, 1993, um dos capítulos
principais dedica-se justamente a "African states and trade", por mais que uma par-
te dos textos reunidos mostre que existem muitos casos de estados que se formaram
por razões muito diferentes à da existência de comércio exterior. JEWSIEWICKI,
Bogumil; NEWBURY, David (Ed.). African historiographies. What history for wich
. Africa. Beverly Hills: Sage, 1986.
41 A tese, exposta pela primeira vez por Cheik Anta Diop em 1954 e difundida por ele
mesmo no volume II da Historia general de África da UNESCO, seria desenvolvida
por M. Bernal em Atenea negra, I: La invención de la antigua Grécia, 1785-1985. Bar-
celona: Crítica, 1993, e II: The archaeological and documentary evidence. London: Free
Association, 1991 (e criticada depois duramente, sobretudo por Mary Lefkowitz).
42 RODNEY, Walter. How Europe underdevelopped Africa. London: Bogle-L'Ouvertu-
re, 1972 (edição em língua espanhola, La Habana: Editorial de Ciências Sociales,
1981). Uma revisão crítica bastante interessante da evolução da historiografia afri-
cana pode ser encontrada em MOFFA, Cláudio. L'Afrique à la périphérie de l'histoi-
re. Paris: L'Harmattan, 1995.
A responsabilidade do imperialismo, que é inegável, não se atenua
pelo fato de que hoje saibamos que os impérios coloniais não foram tão
importantes para o crescimento econômico das metrópoles como antes se
pensava. No que se refere à Grã-Bretanha, os trabalhos de Davis e Hutten-
back, por um lado, e de Cain e Hopkins, por outro, demonstraram que o
império não era um bom negócio em termos globais, que só alguns se be-
neficiavam, enquanto que os custos da operação eram pagos pelo conjun-
to dos cidadãos. Algo semelhante, pode ser dito sobre os impérios francês
ou japonês e, no que concerne ao alemão, ao italiano ou ao espanhol, os
resultados foram tão exíguos que não vale a pena nem falar. Um dos his-
toriadores que mais e melhor pesquisou ás diferenças entre o crescimento
dos países desenvolvidos e o dos de terceiro mundo, Paul Bairoch (faleci-
do em 1999), insistiu em desmistificar o papel das colônias no desenvolvi-
mento dos países industrializados.43
Mas se a atribuição de todas as culpas ao colonialismo podia parecer
convincente nos anos sessenta, quando os países africanos recém-irídepen-
dentes aparentemente tinham oportunidades de iniciar processos de cresci-
mento autóctones, reproduzindo os que trilharam a industrialização eüro-

43 DAVIS, Lance E.; HUTTENBAÇK, Robert A. Mammon and the pursuit of empire:
The political economy of British impérialism, 1860-1912. Cambridge: University
Press, 1986 (ed. abreviada 1988); CAIN, P. J'.; HOPKINS, A. G. British imperialism.
London: Longman, 1993.2 v. I: Innovation and expansion, 1688-1914. II: Crisis and
deconstruction, 1914-1990; HAVINDEN, Michael; MEREDITH, David. Colonialism
and development. Britain and its tropical colonies, 1850-1960. Londoii: Routledge,
1993; MARSEILLE, Jacques. Empire colonial et capitalisme français. Histoire d'un di-
vorce. Paris: Seuil, 1989 (ed. original, 1984); DÜUD, Peter. The abacus and the
sword. The Japanese penetration of Korea, 1895-1910. Berkeley:. University of Cali-
fornia Press, 1995; KIMURA, Mitsuhiko. The economics of Japanese imperialism
in Korea, 1910-1939. Economic History Review, XLVIlI/n. 3, p. 555-574, 1995;
FIELDHOUSE, D. K. The West and the Third world. Oxford: Blackwell, 1999; WAI-
TES, Bernard. Europe and the Third world. London: Macmillan, 1999, etc. Para li-
mitar-me a duas referências recentes de Paul Bairoch, que tem uma extensa biblio-
grafia sobre estas questões: Victoires et déboires. Histoire économique et sociale du
monde du XVIe siècle à nos jours. Paris: Gallimard, 1997 e Mythes et paradoxes de
l'histoire économique. Paris: La Découverte, 1999. Uma reformulação interessante
do tema, surgida da escola de Bairoch, é a de ETEMXD, Bouda. La possession du
monde. Poids et mesures de la colonisation. Bruxelles: Complexe, 2000.
péia ou por outras viaS próprias, como a do "socialismo africano" de Nyere-
re na Tanzânia,44 deixou-o de ser mais tarde, quando o fracasso de todos os
projetos de desenvolvimento e a evidência de que a disparidade entre o cres-
cimento econômico da África negra e o dos países desenvolvidos continua-
va aumentando, obrigando a reformular todo um conjunto de questões de-
masiado complexas para serem resolvidas com as elucubrações retóricas do
pós-colonialismo e que só podem ser estudadas, tomando como base uma
análise histórica adequada da realidade de cada um dos países.45
As conseqüências dessa tara original que impedia a fundação de uma
história legitimamente africana atingiriam, paradoxalmente, Ernesto Che
Guevara quando tentou iniciar um processo revolucionário no Congo. Che-
gou com idéias extraídas de interpretações históricas e políticas de raiz eu-
ropéia como eram as do marxismo, descobrindo, por exemplo, que não ha-
via, naquela região da África, o tipo de problema de luta pela propriedade da
terra que havia conhecido na Europa e na América colonizada pelos euro-
peus e que os camponeses adequavam-se a formas próprias de vida e a soli-
dariedades tribais. As soluções que propunha, aprendidas em Cuba, não ser-
viam para fazer a revolução num meio social onde a Contradição principal
era a que existia "entre nações exploradoras e povos explorados".46
Na América Latina, fez-se, inicialmente, uma história nacionalista
que não reservava nenhum protagonismo aos nativos, atribuía todos os

44 SHTVJI, Issa G. et al. The silent class struggle. Dar es Salaam: Tanzania Publishing
House, 1976. Sobre o fracasso deste projeto, cita-se SCOTT, James C. Seeing like a
state. How certain schemes to improve the human condition have failed. New Haven:
Yale University Press, 1998. p. 233-261.
45 Uma análise que evite, no entanto, simplificações como as realizadas, a partir de
um enfoque estritamente economicista, por D. K. Fieldhouse (The West and the
Third world. Oxford: Blackwell, 1999), que conclui que "praticamente cada país do
Terceiro Mundo que não foi devastado pela guerra, pela guerra civil ou pela sim-
ples incompetência dos governos é agora mais rico do que era antes de sua integra-
ção ao mercado mundial", o que o leva a concluir que "Adam Smith, Ricardo e seus
discípulos tinham razão" (p. 350 e 355). Uma apresentação original do problema
em DAVIS, Mike. Late Victorian holocausts. London: Verso, 2001.
46 CHE GUEVARA, Ernesto. Pasajes de la guerra revolucionaria: Congo. Barcelona:
Mondadori, 1999. p. 266-267.
males à colônia e fixava o momento fundacional na independência, que
havia dado lugar a uma ruptura total graças à direção exercida pelos "pró-
ceres" fundadores do estado, Foi necessário realizar, depois, uma recons-
trução total da visão "nacionalista" - no sentido que aplicamos este termo
aos casos da índia ou da África - , da qual surgiram, principalmente na
América andinar, trabalhos de etnp-história que conseguiram aproximar-
se da problemática dos indígenas, graças à associação da erudição históri-
ca e da preocupação política pela sorte das grandes massas nativas que vi-
vem hoje em países como Equador, Peru ou Bolívia. Indígenas que reivin-
dicam agora a nacionalidade étnica e que, em alguns casos, como o dos ca-
taristas da Bolívia, aspiram, pelo fato de ser maioria, alcançar o controle da
nação crioula que se construiu sem levá-los em consideração.47
Foi necessário, também, reconstruir a história colonial e aprofundar
a das sociedades nacionais surgidas da emancipação, superando a epopéia
da independência e a falsa ruptura radical que se afirmava ter existido en-
tre a época anterior e posterior a ela, para alcançar uma visão que não se
limite, como denunciou Germán Carrera Damas, a mostrar uma história
vista exclusivamente através da mentalidade crioula, decididamente euro-
cêntrica, mas que estabeleça uma nova avaliação que inclua "o rico patri-
mônio indígena e africano".48

47 A necessidade de evitar relações bibliográficas demasiado longas obriga a limitar a re-


ferência a alguns grandes nomes como o de John V. Murra, que mostrou a especifici-
dade do uso dos pisos ecológicos pelos camponeses indígenas, do Alberto Flores de
Buscando un inca, ou das equipes qtíê trabalhavam em Cuzco em torno de Allpanchis
e da Revista andina (e das atividades paralelas de formação camponesa que realizavâm
junto ao trabalho de erudição, acompanhados de livros tão extraordinários como a
Historia rural dei Peru, de Guido Delgran, Cuzco, Centro de Estudos Rurais Andinos,
1981/2) ou o dos livros publicados no Equador para as edições Abya-Yala. A mostra
mais recente desta linha é o excelente primeiro volume da Historia de América andina
publicáda pela Universidad Andina Simón Bolívar (LUMBRERAS, Luis Guillermo
(Ed.). Las sociedades aborígenes. Quito: Universidad Andina Simon Bolívar, 1999).
48 Germán Carrera Damas, "Introducción general" ao primeiro volume da Historia
general de América latina patrocinada pela UNESCO (Madrid: Trotta, 1999, p. 13-
23). No que se refere à história colonial, é necessário mencionar de forma especial
nomes como o de Pablo Macera (Trabajos de historia. Lima: Instituto Nacional de
Cultura, 1977. 4 v.) ou o de Carlos Sempat/Assadourian (El sistema de la economia
Na Oceania, ao contrário, onde o debate sobre o passado fez-se qua-
se que exclusivamente em termos de antropologia,49 a situação pode mo-
dificar-se pela pressão dos grupos nativos que querem assumir o estudo de
sua história - como acontece na Nova Zelândia, onde os maoris discutem
o tipo de análise levado a cabo até agora pelos pakeha (neozelandeses de
origem européia) -, 50 ou que denunciam, como na Austrália, as interpreta-
ções ""bicancas" que serviram para construir a imagem da inferioridade dos
nativos, justificando que se lhes arrebate o controle dos recursos naturais.
Os estudos que tratam de integrar as duas perspectivas, a dos colonizado-
res e a dos colonizados, cpmo faz, na Austrália, o grupo que publica a re-
vista Aboriginal history desde 1977, podem ter muita importância na pro-

colonial. México: Nueva Imagen, 1983), que renovaram por completo a velha ótica
que só via a América como um dos dois pontos terminais das correntes de inter-
câmbios entre as "colônias" e as metrópoles. Um bom estado da questão encontra-
se em KOROL, Juan Carlos; TANDETER, Enrique. Historia económica de América
latina: problemas y procesos. México: Fondo de Cultura Económica, 1998. Uma
tentativa de aplicar ao caso da América Latina uma mescla de Wallerstein e "Subal-
tern studies" na versão pós-colonial em MIGNOLO, Walter D. Local histories/Glo-
bal designs. Coloniality, subaltern knowledges and border thinking. Princeton: Prin-
ceton University Press, 2000. Não surpreende que um livro como este, com uma ex-
tensíssima relação bibliográfica onde figura a totalidade dos livros "à la mode" com
trinta autocitações do próprio autor, ignore quase por completo toda a historiogra-
fia latino-americana das últimas décadas.
49 Disso pode ser muito representativa a obra de Marshall Sahjins: Historical metaphors
and mythical realities. Structure in the early history of the Sandwich Islands Kingdom,
(Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1981). Islands of history (Chicago:
University of Chicago Press, 1985) - onde defende a confluência de antropologia e
história, não somente em termos de colaboração "O problema é como fazer expló-
dir o conceito de história pela experiência antropológica da cultura", p. 72 How
the "natives" think about captain Cook (University of Chicago Press, 1995), etc.
50 O'REGAN, Stephen. Maori control of the Maori heritage. In: GATHERCOLE, P.;
LOWENTHAL, D. (Ed.). The politics of the past. London: Routledge (One world ar-
chaelogy), 1994. p. 95-106; BELICH, James. (Making peoples. A history of New Zea-
landers. From Polynesian settlement to the end of the ninenteenth century. Auckaland:
P'enguin Books, 1996. p. 58) escreveu: "Uma história geral da Nova Zelândia não
deve ignorar a concepção maori do passado distante, nem limitá-la a um prefácio
romântico, totalmente mitológico, qüe são as duas práticas usuais". Veja-se também
do mesmo autor, "Colonization and history in New Zealand" no volume já citado
Winks, Historiography, p. 182-193.
Por uma história de todos

jeção do futuro, já <jue, como foi dito, ali "a história está no coração d
muitas controvérsias políticas". De como se interprete o passado, dependi
a resposta que sé dará a questões tão cruciais como, por exemplo, se a Aus
tralia tornar-se-ia uma república, se no futuro orientar-se-á em direção a<
sudeste da Ásia, que política de imigração haverá de adotar ou "a indeni
zação aos abórígines pelos maus tratos recebidos no passado".51
Partindo destas revisões, cabe perguntar se existe alguma póssibili
dade de reconstruir uma história universal que escape do enfoque da "or
dem convencional da evolução unilinear" que organiza todas as história;
dos homens em função do ponto de chegada do tipo de presente impostc
pelos povos europeus: que leva todas as correntes, todos os projetos diver-
sos do passado, em direção ao único e definitivo fim da história.52
As soluções possíveis não podem vir pela via da "world history", quí
nos oferece visões dos "processos históricos" a longo prazo - e inclusive "a
muito longo prazo" - , na qual dominam e teorizam sociólogos que consi-
deram Norbert Elias como mestre e que tratam de ampliar o alcance da
análise do processo de civilização realizada por ele à toda a história mun-
dial, fazendo referências explícitas, também, a Spencer, Tylor e, principal-
mente, a Max Weber. A proposta de "conceber o passado humano não em
termos de datas e de indivíduos, mas em termos de estágios ou fases im-

51 CREAMER, Howard. Aboriginal perceptions of the past: the implication for cultu-
ral resource management in Australia. In: GATHERCOLE, P.; LOWENTHAL, D.
(Ed.). The politics of the past. London: Routledge, 1994. p. 130-140. Uma seleção de
trabalhos de Aboriginal history pode ser encontrada em CHAPMAN, Valerie;
READ, Peter (Ed.). Terrible hard biscuits. A reader in aboriginal history. St. Leonard
Allen and Unwin, 1996. Pouca preocupação pelos aborigines é vista, por outro
lado, na revisão global de Stuart Macintyre, "Austrália and the empire", em WINKS,
R. W. (Ed.). The Oxford history of the British empire. Oxford: Oxford University
Press, 1999. V. Historiography, p. 163-181. As considerações sobre história australia-
na e política atual provêm de BLAINEY, Geoffrey. Brave new themes. Times.Literary
Supplement, p. 8,1 Oct. 1999. .
52 SIOUI, Georges E. For an Amerindian autohistory. Montreal: McGill-Queen's
University Press, 1992. p. 105; sobre os problemas de elaboração de uma história uni-
versal, vistos de uma perspectiva africana, FEIERMAN, Steven. African histories and
the dissolution of world history. In: BATES, Robert H.; MUDIMBE V. Y.; O'BARR, Jean
(Ed.). Africa and the discipline. Chicago: University of Chicago Press, 1993. p. 167-212
pessoais - combinando a "cronologia" com uma "faseologiá" de origem so-
ciológica - implica logicamente uma sucessão única de etapas e não pare-
ce que leve mais do que a elucubrações de escassa rentabilidade.53
Outras tendências admitem a diversidade das histórias sem uma pau-
ta comum, mas só até o momento em que o desenvolvimento do capitalis-
mo estabelece um mercado mundial que cria relações de interdependência
entre os diversos participantes. Porém, nem isto os salva da linearidade já
que, a respeito do período anterior ao processo de "mundialização", os esfor-
ços limitam-se a uma análise comparativa que explica o "excepcionalismo
europeu": as causas que deram, ao "Oeste", uma posição dominante no mer-
cado mundial e, portanto, na história universal. Nesta linha, podemos en-
contrar desde a visão estimulante, ainda que algo simplista, de William
McNeill (The rise ofthe West, 1963; Plagues andpeoples, 1976; Thepursujtúf
power), até as inúmeras que se limitam explicar o êxito do Oeste em termos
de eficácia econômica, como as de Eric Jones (The European miracle, 1981;
Growth recurring, Centuries of economic endeavour) e, ultirtiamente, D. Lan-
des (La riqueza y la pobreza de las naciones, 1998).54 Há,,entretanto, outra fa-
mília de explicações do "excepcionalismo" que analisa, conjuntamente ou
em comparação mais ou menos explícita, Europa e Japão e outras que, ainda
que apresentem soluções mais complexas e engenhosas, como a de Pome-
ranz, consideram que a Europa e o Extremo Oriente estavam em situações
de desenvolvimento muito semelhantes em 1750, mas que a disponibilidade
de carvão mineral acessível, que permitiria prescindir em parte do consumo
de lenha, as matérias-primas e os alimentos da América, tornaram possível
a diversificação da revolução industrial, diferentemente do que aconteceu na
Ásia Oriental, que se viu obrigada a intensificar o trabalho na agricultura.55

53 GOUDSBLOM, Johan; JONES, Eric; MENNELL, Stephen. The course of human his-
tory. Economic growth, social process and civilization. Armong: M. E. Sharpe, 1996.
54 A repercussão obtida pela obra de Landes explica que American Historical Review,
p. 1240-1257, Oct. 1999, lhe dedicasse um conjunto de três "review essays" de Joel
Mókyr, Donna J. Guy e Charles Tilly, com o título global de "Explicando a domi-
nação européia".
55 O primeiro caso é o de POWELSON, John P. Centuries of economic endeavor. Paral-
lel paths in Japan and Europe and their contrast with the Third world. Ann Arbor:
Pode-se cair na linearidade eurocêntrica inclusive quando se aban-
dona o caráter apologético de algumas das visões anteriores que conside-
ram o êxito "ocidental" como um prêmio a uma série de virtudes - por
exemplo, o casamento tardio dos europeus, responsável por uma demo-
grafia menos expansiva - , adotando-se uma atitude neutra, ou inclusive
condenatória, deste processo. Tal seria o caso de autores como Eric Wolf
(Europe and the peoples without history, 1982), Jànet Abu-Lughos (Before
European hegemony, 1989) ou André Gunder Frank.
Neutra, em boa medida, é também a formulação do grupo da "glo-
bal history", onde encontramos historiadores que partem da idéia de que
hoje vivemos no apogeu de uma época de unificação planetária, mas que
não estudam o processo de "modernização" que o Ocidente impôs ao res-
to do mundo e que serviu de justificação ao imperialismo, mas o de "glo-
balização" posterior, entendido como "o processo global pelo qual nume-
rosos participantes estão criando uma nova civilização". Os globalizadores
rejeitam explicitamente qualquer interpretação que afirme que existam di-
ferenças substanciais entre "nós e os outros" e proclamam que "os "bárba-
ros", isto é os povos inferiores, já não figuram na história global; só povos
menos desenvolvidos momentaneamente".56

The University of Michigan Press, 1997; o segundo, o de HOWE, Christopher. The


origins of Japanese trade supremacy. Development and technology in Asia from 1540
to the Pacific war. London: Hurst and Co., 1996, com uma visão limitadamente eco-
nomicista; o último é o livro já citado de POMERANZ, Kennet. The great divergen-
ce. China, Europe and the making of the modern world economy. Princeton: Prince-
ton University Press, 2000.
56 Extraio os conceitos dos artigos programáticos de Bruce Mazlish, especialmente de
"Comparing global history to world history" em Journal of interdisciplinary history,
XXVIII, n. 3, p. 385-395, 1998. A série "Global history" publicou os seguintes três
volumes: MAZLISH, Bruce; B.UULTJENS, Ralph (Ed.) . Conceptualizing global his-
tory. Boulder: Westview Press, 1993; GUNGWU, Wang (Ed.). Global history and
migrations e CLARK, Robert P. The global imperative. An interpretive history of the
spread ofHumankind, os dois em Boulder: Westview Press, 1997. Embora, os traba-
lhos do grupo, que se referem principalmente à segunda metade do século XX, se-
jam interessantes, não está muito claro que esta ótica, herdeira da" dos anos felizes
do "desenvolvimentismo" - a visão de povos que estão em diversos graus da escala
universal do desenvolvimento e que convergem em direção a um mesmo nível -
seja a adequada para uma época comó a nossa que nos mostra, ao contrário, uma
Muitas das visões condenatórias do processo globalizador partem
dos velhos esquemas circulacionistas e das visões do dependentismo para
explicar a realidade atual como produto do desenvolvimento de um capi-
talismo depredador. Foi o caso de André Gunder Frank,57 um economista
nascido em Berlim em 1929 e educado nos Estados Unidos, que viveu na
América Latina alguns anos e extraiu, da experiência do subdesenvolvi-
mento, as idéias que o tornariam o pioneiro da escola da dependência -
uma teoria, diz John Lynch, "desenhada por sociólogos, manufaturada por
cientistas políticos e comprada por historiadores" - e^ que inspirariam
também uma interpretação histórica publicada em 1978 sob o título de
World accumulation 1492-1789, que o aproximava das formulações da es-
cola do "modern world-system" (generalizada como WST ou "wOrld-sys-
tems theory") de Immanuel Wallerstein. Em ReOrient: Global economy itt
#

theAsian age, (1998), Frank propõe uma revisão da história do crescimen-


to econômico moderno que procura sua origem na Ásia, onde "a produti-
vidade, a produção e a acumulação foram maiores do que na Europa, ao
menos até 1800". E afirma que a Europa nunca teria podido "ganhar (tem-
porariamente)" se não houvesse disposto do tesouro americano.
Inuhanuel Wallerstein é um sociólogo - foi presidente da Internatio-
nal Sociologiçal Association - , que refundiu elementos residuais do marxis-
mo com uma forte influência de Fernand Braudel - de fato um dos discípu-
los mais próximos do historiador francês nos últimos anos de sua vida -
para fundamentar um esquema que se baseia em dois princípios: 1) as so-
ciedades são fortemente afetadas pelas interações entre elas e 2) o sistema

disparidade crescente dos níveis de riqueza e de bem-estar, frente à qual, fenôme-


nos como o da "globalização da música", para mencionar um só dos exemplos que
eles estudam, podem não sér significativos.
57 É impossível sintetizar a bibliografia de André Gunder Frank, autor de cerca de qua-
renta livros. O primeiro deles, Capitalism and underdevelopment in Latin America
(1967) teve perto de cinqüenta edições em oito línguas diferentes. Extraio a maior
parte de informações para este parágrafo do volume de homénagem: CHEW, Sing
C.; DENENAMRK, Robert A. (Ed.). The underdevelopment of development. Essays in
honour ofAndré Gunder Frank. Thousand Oaks, CA: Sage, 1996, com contribuições
de pessoas como Samir Amin, Eric Wolf ou Immanuel Wallerstein.
mundial moderno estruturou-se como uma hierarquia centro/periferia em
que os estados do centro exploraram os periféricos (o jogo se enriquece, ain-
da, com a consideração da "semi-periferia"). Houve na história diz Wallers-
tein, dois tipos de "sistemas mundiais": os impérios mundiais, unificados
politicamente e as economias mundiais. Até 1500, as economias mundiais
eram instáveis e, ou transformavam-se em impérios, ou desintegravam-se.
Desde o século XVI, ao contrário, subsiste uma economia mundo, a do ca-
pitalismo, que não derivou em império. A visão que Wallerstein oferece da
construção do "sistema mundial", apresentada em livros onde reàliza um
notabilíssimo esforço para assimilar as pesquisas históricas existentes (The
modem world system 1,1974; II, 1980 eIII, 1989), exerceu uma forte influên-
cia nos arqueólogos, embora Wallerstein "nunca disse que a teoria do "siste-
ma mundial" pudesse ser aplicada a "mundos" anteriores ou alheios ao mo-
derno sistema mundial capitalista de base européia". Como sociologia histó-
rica aplicável ao presente, entretanto, a WST apresenta geralmente caracte-
rísticas de morfologia e levou o autor a utilizá-la como um mecanismo para
fazer previsões que qualquerliistoriador rejeitaria, já que este deve ser neces-
sariamente consciente, pela evidência guardada nos arquivos, da contingên-
cia dos destinos humanos e da incerteza das previsões.58
A única via de escape da linearidade parece residir ha adoção de for-
mas de exploração Comparativa que analisem desenvolvimentos diferen-

58 A bibliografia de Wallerstein é demasiado extensa para citá-la aqui. No último de


seus livros - The end of the world as we know it. Minneapolis: University of Minne-
sota Press, 1999 - expõe um "cenário* de futuro (antecipado em The age of transi-
tion, 1996) previsto como "um longo período de tempos obscuros, o aumento de
guerras civis (locais, regionais e talvez em escala mundial)" e que só deixa como in-
- certo que "o resultado deste processo forçará a "busca de ordem" em direções con-
traditórias (uma bifurcação), cujos resultados são inerentemente imprevisíveis" (p.
48). Entre os livros de conjunto sobre a WST, de um ponto de vista histórico, po-
dem-se ver FRANK, A. Gunder; GILLS, B. K. (Ed.). The World System:fivehundred
years or five thousand? London: Routledge, 1993 (faz-se uma citação de uma con-
tribuição de Gunder Frank a este volume, p. 277). De natureza distinta, mas formu-
lada de forma imprecisa, é a proposta de A. G. Hopkins de recuperar os marcos da
"história imperial" para superar as limitações de uma determinada "história nacio-
nal" (Back to the future: from national history to imperial history. Past and present,
164, p. 198-243, Ago. 1999).
tes. Um exemplo ambicioso, mas bastante discutível, encontramos em Vic-
tor Lieberman, que quis romper as dicotomias que se contentam com a
comparação e contraposição entre o leste e o oeste (as "histórias binárias",
como ele as denomina), com um esquema comparativo da evolução de di-
versos países da Eurásia - Birmânia, Tailândia, Vietnã, França, Rússia e Ja-
pão - entre ofinaldo Idade Média e 1830, que mostraria o surgimento in-
dependente e paralelo de processos de "consolidação territorial, centraliza-
ção administrativa, integração cultural-étnica e intensificação comercial",
devido em grande parte à coincidência de expansão agrícola, aumento dos
intercâmbios, disponibilidade de armas de fogo e melhoria dos métodos
fiscais e uma série de mudanças culturais que estimulariam o desenvolvi-
mento do estado.59 É também uma pauta comparativa mas desta vez não
com a Europa, e sim entre a África e a Ásia do sul, o que nos propõe Ma-
madou Diouf com a tentativa de colocar ao alcance dos historiadores afri-
canos pós-coloniais, os métodos da escola hindu dos "subaltern studies":
"ler os vestígios entrecruzados e múltiplos das trajetórias que se desenham
na África há cerca de meio século, não nos impõe uma revisão radical do
modelo histórico ocidental para considerar a diversidade das condições
culturais e históricas dos grup9s implicados?".60
No entanto, elaborar uma história comparativa não é fácil. Geral-
mente, cai-se no ehgano de fazer as comparações entre nações, assumin-
do que cada uma das entidades que comparamos tem um caráter tão uni-
forme que permite sejam feitas afirmações generalizadoras sobre elas, es-
quecendo outras possibilidades de agrupar os elementos que queremos
considerar. Robert Gregg denunciou as armadilhas geralmente feitas com
exercícios comparativos entre "nações", que acabam tornando-se legiti-
madoras de visões do excepcionalismo do próprio país. No caso dos Es-
tados Unidos, conclui, a aceitação geral de seu excepcionalismo dependia

59 LIEBERMAN, Victor. Transcending east-west dichotomies: state and culture for-


mation in six ostensibly disparate areas. In: . (Ed.) Beyond binary histories.
Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1999. p. 19-102.
60 No volume, já citado; DIOUF, Mamadou (Ed.). L'historiographie indienne en débat.
Colonialisme, nationalisme et sociétés postcoloniales. Paris-Amsterdan: Karthalà-
Sephis, 1999. (citação da p. 32).
em boa medida do fato de que o país tinha historiadores "excepcionais",
dos quais ninguém discutia as pretensões de objetividade, nem apontava
a contaminação da posição social/imperial, "e que podiam permitir-se o
luxo de considerar que os historiadores de todas as outras nações é que
estavam loucos".61
Até agora, neste capítulo, falamos principalmente de aspirações não
realizadas e de problemas mal resolvidos. Convém que destinemos um es-
paço adicional às possíveis soluções: aos caminhos que podem levar-nos
em direção a essa nova história de todos que nos permitiria superar a tra-
dicional "história dos homens" e conseguir, como queria o poeta, "mostrar
a multidão e cada homem em detalhe, com o que o anima e o desespera".62

61, GREGG, Robert. Inside out, outside in... iondon: Macmillan, 2000. p. 26.
62 ÉLUARD, Paul. Pouvoir tout dire. In: Oeuvres complètes. Paris: Gallimard, 1984. II,
p. 363.
E M BUSCA DE NOVOS CAMINHOS

Um dos maiores desafios que hoje se apresentam a nós, historiado-


res, é o de que voltemos a nos envolver nos problemas de nosso tempo,
como fizeram no passado nossos antecessores que ajudaram com seu tra-
balho a melhorar, pouco ou muito, o mundo em que viviam. Se os histo-
riadores franceses do primeiro terço do século XX estudavam a revolução
de 1789, era porque queriam contribuir para assentar os fundamentos das
liberdades democráticas contra as forças que as ameaçavam (e não é por
casualidade que, em 1940, boa parte dos que defendiam uma interpreta-
ção progressista da revolução uniu-se à resistência, enquanto outra, a dos
que a criticavam no terreno da história, colaborou com os alemães). E se
os historiadores marxistas britânicos do pós-Segunda Guerra Mundial de-
dicaram-se à análise profunda da revolução industrial e seus antecedentes,
era para entender melhor os fundamentos do capitalismo e, assim, aliviar
os males que ele causava. Para nós corresponde o grande desafio de encon-
trar as causas dos dois grandes fracassos do século XX: explicar a barbárie
que o caracterizou, com o objetivo de evitar que se reproduza no futuro e
a natureza dos mecanismos que engendraram uma maior desigualdade,
desmentindo as promessas do projeto de desenvolvimento que pretendia
ampliar os benefícios do progresso econômico a todos os países subdesen-
volvidos do mundo. Seria triste que tivéssemos que repetir a crítica que
Mare Bloch formulava em nome dos historiadores de seu tempo: "Não nos
temos atrevido a ser, em praça pública, a voz que clama no deserto... Te-
mos pretendo encerrar-nos na quietude dos escritórios... A grande maio-
ria não resta mais do que o direito de dizer que fomos bons operários. Mas
fomos também bons cidadãos?".1
Isso não significa que devamos voltar a trabalhar como o faziam
nossos antecessores: voltar à história econômica e social de Labrousse ou
à história social e cultural de Thompson, çmbora, em uma e em outra, haja
muita coisa ainda válida. Se os teóricos do pós-modernismo e da subalter-
nidade nos mostraram que nossos instrumentos tinham deficiências, con-
vém que os revisemos antes de prosseguir o trabalho. Mas, a revisão não
resume tudo. Teoria e método não são os objetivos de nosso ofício, mas tãó
somente as ferramentas que empregamos com o objetivo de melhor com-
preender o mundo em que vivemos e de ajudar outros a entendê-lo, a fim
de que, com todos, façamos algo para melhorá-lo, o que sempre é possível.
Nos momentos amargos da derrotafrancesa,Bloch o defendia. Uma cons-
ciência coletiva, dizia, está formada por "uma multidão de consciências in-
dividuais que se influenciam incessantemente entre si". Por isso, "formar
uma idéia clara das necessidades sociais, e tentar difundi-la, significa in-
troduzir um grão de fermento na mentalidade comum; oferecer-se uma
oportunidade de modificá-la um pouco e, como conseqüência disso, mo-
dificar de algum modo o curso dos acontecimentos que estão regidos, em
última instância, pela psicologia dos homens".2
A crítica justificada dos velhos métodos não deve levar-nos à nega-
ção do projeto de um novo tipo de história total que nos permita enten-
der os mecanismos essenciais de funcionamento da sociedade, o que não
significa buscar "leis" que determinem a evolução, ou que possamos nos
contentar com achados específicos que somente respondem a uma peque-
na parte de nossos problemas e que interessam apenas aos membros da

1 BLOCH, Marc. L'étrange défaite. Paris: Gallimard, 1990. p. 204-205.


2 BLOCH, Marc. L'étrange défaite. Paris: Gallimard, 1990. p. 205. Trezentos anos an-
tes, um grande rebelde, John Milton, escreveu: "Os livros não são coisas totalmente
mortas, mas contêm uma potência de vida que é tão ativa como a alma que os criou
(...) Sei que são tão vivos e tão vigorosamente produtivos como os fabulosos dentes
do dragão; e que, semeados aqui e ali, podem fazer nascer homens armados". MIL-
TON, John. Areopagitica. In: . Prose writings. London: Dent, 1974. p. 149.
tribo acadêmica. Temos de renovar o instrumental teórico e metodológi-
co para que ele sirva para voltar a entrar em contato com os problemas
reais dos homens e das mulheres de nosso tempo, dos quais a história aca-
dêmica, incluindo as variantes pós-modernas, distanciou-nos.
É preciso superar a fratura que existe, na atualidade, entre a memória
do passado que os homens constroem para organizar suas vidas - estabele-
cendo pontes a partir da própria memória pessoal e familiar em direção a
um passado mais amplo, construído com experiências, recordações de pes-
soas de outras gerações, leituras, imagens recebidas dos meios de comunica-
ção, etc. - e a história ensinada nas escolas, que a população comum vê
como um saber livresco "sobre a política, os reis, as rainhas e as batalhas".3
Uma nova história "total" deverá dedicar-se a todos os homens e
mulheres numa globalidade que abranja tanto a diversidade dos espaços e
das culturas como a dos grupos sociais, obrigando, assim, a corrigir boa
parte das deficiências das velhas versões. Deverá renunciar ao eurocentris-
mo, prescindindo, conseqüentemente, do modelo único da evolução hu-
mana com suas concepções mecanicistas, do progresso, que aparece como
produto das "leis da história", com escassa participação dos homens que,
ao contrário, deveriam ser os protagonistas ativos. Walter Benjamin de-
nunciou, nas "Teses defilosofiada história" - o texto por cuja conservação,
como dissemos antes, arriscou a vida - a grande fraude que a concepção
mecanicista do progresso significara para a classe operária.4 No inacabado

3 ROSENWEIG, Roy; THELEN, David. The presence of the past. Popular uses of history
in American life. New York: ColumBiâ University Press, 1998; EMMOTT, Kathy. A
child's perspective on the past: influences of home, media and scholl. In: Who needs
the past? Indigenous values arid archaeology. London: Routledge, 1994. p. 21-44, cita-
ção, da p. 25; HALBWACHS, Maurice. La mémoire collective. Paris: Albin Michel,
1997, em especial, "Mémoire collective et mémoire historique", p. 97-142.
4 Uma explicação necessária sobre a forma como utilizo as numerosas citações de
Walter Benjamin: faço-as diretamente, prescindindo da amplíssima bibliografia so-
bre Benjamin, dos seus projetos filosóficos e teológicos. O que me interessa é este
momento final de maturidade de suas idéias e não os anteriores, nem sua origem.
De fato, o que pretendo fazer é praticar, com Benjamin, a mesmo "arte das citações"
que ele defendia e, para isto, interessa-me mais o que se pode deduzir das citações,
olhando em frente, do que ater-me a seu significado no momento eih que as escre-
veu. Utilizei as "teses" na edição de BENJAMIN, Walter. Gesammelte schriften.
"livro das passagens", refletia sobre ela historicamente: o conceito de pro-
gresso teve uma função crítica até a Ilustração, mas, no século XIX, com o
triunfo da burguesia, esta o desnaturalizou e, auxiliada pela doutrina da
seleção natural, "popularizou a idéia de que o progresso realiza-se automa-
ticamente".5 Isso produziu uma forma muito eficaz de despolitizá-lo e de
incitar os homens à inação, como o fazem, de outro modo, aqueles que in-
terpretam hoje o progresso em função exclusivamente dos avanços da
ciência e da tecnologia.
O modelo linear está associado a uma prática equivocada dos histo-
riadores, nascida da falácia cientificista que os leva a proceder a partir de
uma análise abstrata supostamente inspirada nas "leis da história", em di-
reção ao dado preciso, colecionando fatos que possam encaixar-se no lu-
gar que lhes foi atribuído previamente no modelo interpretativo. O que
conviria, ao contrário, é começar pelo fato concreto, pelo acontecimento
com tudo o que tem de complexo e peculiar.
Quisera explicá-lo com uma imagem. O historiador costuma proce-
der como quem resolve um quebra-cabeça, um puzzle. Valendo-se de um
modelo que lhe mostra as linhas gerais da solução. Vai buscando o lugar
concreto em que as linhas da peça, isto é, as características do acontecimen-
to ou do dado encaixam com exatidão, o que sferve para confirmar a vali-
dade da solução antecipada do modelo interpretativo que levantou como
hipótese de partida. Um acontecimento, porém, não é uma peça plana que
possa ser explicado completamente a partir desse ajuste, mas um poliedro,
um corpo de três dimensões com um grande número de fàces, uma das

Frankfurt: Suhrkamp, 1974.1. 2, p. 691-704 (e anotações em I. 3. p. 1223-1266) e


em diversas traduções, das quais é muito válida a que se encontra em BENJAMIN,
Walter. Sul concetto di storia. Organização de Gianfranco Bonola e Michele Ran-
chetti. Milano: Einaudi, 1997. p. 20-57, com o texto alemão confrontado, e muito
pouco, por ser desnaturalizada, a dejesús Aguirre em BENJAMIN, W. Discursos in-
terrumpidos, I. Madrid: Taurus, 1982. p. 177-191. ,
5 Basear-me-ei em "Passagen-Werk", com o número correspondente do texto, de acor-
do com a edição de Rolf Tiedemann, neste caso N I la, 1. De fato, confronto os tex-
tos em três traduções diferentes: Paris, capital du XIXe siècle. Paris: Les Editions du
Cerf, 1989 (onde o texto encontra-se na p. 495), The Arcades Project. Cambridge, MA:
Belknap Press, 1999, (na p. 476) e Sul concetto di storia, (nas p. 126-127).
quais encaixa no modelo de nosso quebra-cabeça, enquanto que as outras
situam-no num feixe de diversas relações, determinando que possam encai-
xar-se em outros tantos modelos. Partindo da solução preestabelecida, só
veremos a dimensão plana dos fatos; se partirmos do acontecimento, po-
rém, poderemos distinguir a diversidade dos planos que nele se entrecru-
zam e escolher os que tragam perspectivas mais interessantes.6
Essa prática responderia ao estímulo de Edward Thompson para
que procuremos nos arquivos "a realidade ambígua e ambivalente" ou ao
de Walter Benjamin que queria um método de trabalho capaz de associar
o rigor da teoria com a "visibilidade" da história: um método que tornas-
se possível "descobrir, na análise do pequeno momento singular, o cristal
do acontecimento total".7
O cientificismo'de fins do século XIX, que afirmava que o que dis-
tingue a autêntica ciência é sua capacidade de prever, induziu os historia-
dores a buscar "leis" que lhes permitissem também prever o futuro. Mas
ocorre que, enquanto os cientistas sociais, e com eles muitos historiadores,
fixavam-se, durante o século XX, na concepção mecanicista, a ciência
abandonou as velhas ilusões. Descobriu que o Universo era muito mais
complexo que o relógio cósmico de Newton e de Laplace e que o determi-
nismo e a capacidade de prever correspondiam a um mundo de abstrações
e, não, ao de uma realidade em que a ciência não pode calcular com exati-
dão sequer o movimento de três corpos relacionados entre si. Isso levou os
cientistas a colocar, em lugar de destaque, as relações não lineares, muito
mais abundantes na natureza, e principalmente na vida, do que os enca-
deamentos simples e diretos de cansas e efeitos. Para dizê-lo com as pala-

6 Mack Walker fez algo pelo estilo em The Sakburg transaction. Expulsion and re-
demption in eighteenth-century Germany (Ithaca: Cornell University Press, 1992),
onde narra a expulsão do arcebispado de Salzburgo de 20.000 camponeses protes-
tantes que foram obrigados a assentar-se em terras distantes do leste da Prússia, ex-
plicando o fato a partir de cinco perspectivas distintas: como parte da história do
arcebispado de Salzburgo, como um acontecimento integrado à história da Prús-
sia, como um exemplo dos problemas confessionais e constitucionais no Império,
como uma experiência vivida dos camponeses e, finalmente, no contexto da histó-
ria dò protestantismo prussiano.
7 "Passagen-Werk", N 26.
vras de Ilya Prigogine: "Tanto em dinâmica clássica como em física quân-
tica, as leis fundamentais expressam hoje possibilidades e não certezas.
Não existem apenas leis, mas acontecimentos que não podem ser deduzi-
dos das leis".8
A ciência atual, uma ciência em que a indeterminação tem um pa-
pel importante, que se nega a aceitar "a igualação progressiva da evolução
com o progresso linear", que criou as "matemáticas experimentais" -• foi
um matemático que disse que "não existe nada que possa chamar-se uma
prova matemática", mas que "as provas são (...) argumentos retóricos des-
tinados a influenciar a psicologia" - e que desenvolveu um campo de estu-
do sobre o caos e a complexidade, tem pouco a ver com aquelas ciências
sociais que continuaram com a ilusão de construir explicações totais e es-
forçaram-se para torná-las mimeticamente científicas, às custas de renun-
ciar ao que era próprio e característico de seu trabalho.9
Jsso acontece quando, paradoxalmente, são os cientistas naturais os
que se mostram interessados em recuperar os valores da historicidade, di-
zendo, por exemplo, que "a natureza está constituída por acontecimentos
e pelas relações entre eles, tanto como por substâncias e partículas separa-
das: a historicidade é uma característica importante da ciência".10 Chega-se
ao ponto de um biólogo molecular, por exemplo, assegurar-nos que sua
disciplina está abandonando "a fútil busca de leis" e fazendo-se cada vez
mais histórica: "Muitos biólogos moleculares - conclui - estão se tornan-
do historiadores, de boa ou de má vontade".11

8 PRIGOGINE, Ilya. La fin des certitudes. Paris: Odile Jacob, 1996. p. 14.
9 Sobre a teoria do "equilíbrio puntuado", por exemplo, que'muda nossa percepção do
processo de evolução, veja-se GOULD, Stephen Jay. Um dinosaurio en unpajar. Bar-
celona: Crítica, 1997. p. 137-154 (anteriormente, foi feita uma citação de La monta-
ria de almejas de Leonardo, do mesmo autor, Barcelona:-Crítica, 1999. p. 129). O que
se refere à matemática, de G. H. Hardy, A mathematician's apology, publicado em
1929. Citado por George Gheverghese Joseph em NELSON, D.; JOSEPH,,G. G.; WIL-
LIAMS, I. Multicultural mathematics. Oxford: Oxford University Press, 1993. p. 11.

10 CORNWELL, John (Ed.). Nature's imagination. The frontiers ofscientific vision. Ox-
ford: Oxford University Press, 1995. p. V.
11 POLLACK, Robert. Signs of life. The language and meaning of DNA. New York:
Houghton Mifflin, 1994. p. 152-153.
Paradoxalmente, as tentativas de introduzir essa mesma ótica "histo-
ricista" no terreno da história não tiveram êxito. A inteligente crítica que Ed-
ward Neil fez das explicações "de fator", isto é, das seqüências lineares enca-
deadas de causas e efeitos, comuns nos historiadores, propondo substituí-las
com interpretações por "redes fatoriais de relações mutuamente dependen-
tes", muito mais adequadas para explicar o jogo de complexas inter-relações
que se produzem numa sociedade, passou sem receber atenção. Talvez, por-
que se distanciava dos métodos narrativos habituais; mas, também, porque
exigia muito trabalho e dava respostas sutis e matizadas com as quais dificil-
mente pode-se esperar receber atenção do público, ou da própria tribo.12
A linearidade é, de fato, uma conseqüência necessária do "fim da
história", propugnado por uma burguesia triunfante que tem interesse em
fazer acreditar na existência de uma única ordem final das coisas, para a
qual tendem naturalmente todas as linhas de evolução, ignorando que "os
conceitos da classe dominante foram sempre os espelhos graças aos quais
vem-se construindo a imagem de uma ordem".13
A linearidade exige, forçosamente, a idéia de continuidade. "A come-
moração ou a apologia se esforçam em ocultar os momentos revolucioná-
rios no curso da história. O que deseja de coração é fabricar uma continui-
dade. Por isso, confere importância apenas àqueles elementos da obra que
fazem'parte de seu influxo posterior. Esquece, no entanto, os pontos em que
a tradição se interrompe, comõ também as rupturas e asperezas que ofere-
cem apoio a quem se propõe ir mais além." É necessário arrancar a época
desta "continuidade coisificada" e fazer explodir a homogeneidade, "en-
chendo-a de ruínas, isto é, com o presente". Poderemos, assim, superar a
idéia de progresso pela de "atualização" e aprender a nos aproximar do que
aconteceu, "tratando-o, não de maneira historiográfica, como até agora foi
feito, mas de maneira política, com categorias políticas".14

12 NELL, E. J. Historia y teoria económica: Barcelona: Crítica, 1984. p. 62-68.


13 "Passagen-Werk", J 61 a, 2.
14 "Passagen-Werk" N 9a, 5; N 9a, 6; N 2,2 e K 2,3. Esta era uma das razões que o le-
vavam a combater "as construções da história [que] são como ordens militares que
disciplinam a vida real e a encerram em quartéis" e a priorizar a anedota qye é
"como uma revolta na rua" e que nos aproxima da vida imediata. (S la, 3).
Abandonar a linearidade ajudar-nos-á a superar não só o eurocen-
trismo, mas também o determinismo. Ao propor as formas de desenvolvi-
mento econômico e social atuais como o ponto culminante do progresso
- como o único ponto de chegada possível, apesar das suas deficiências e
da sua irracionklidade - , escolhemos, dentre todas as possibilidades aber-
tas aos homens do passado, somente as que conduziram ao presente e me-
nosprezamos as alternativas que alguns propuseram, ou tentaram, sem nos
deter em explorar as possibilidades de futuro que continham.
. Renunciando à visão que serviu para justificar como necessários e
inevitáveis tanto o imperialismo como as formas de desenvolvimento com
distribuição desigual, poderíamos ajudar a construir interpretações mais
realistas, capazes de mostrar-nos não só a evolução simultânea de linhas
diferentes, mas o fato de que, em cada uma delas, incluindo a que acaba-
ria dominando, não existe um avanço contínuo numa direção. Há, isso
sim, uma sucessão de rupturas, de bifurcações que permitem escolher en-
tre diversos caminhos possíveis e que nem sempre escolheu-se o que teria
sido o melhor em termos de bem-estar do maior número possível dê ho-
mens e mulheres, mas o que convinha - ou pelo menos o que parecia con-
vir - àqueles grupos que dispunham da capacidade de persuasão e/ou da
força repressiva necessária para decidir: "é de interesse vital reconhecer um
ponto determinado de desenvolvimento como uma encruzilhada".15
Devemos elaborar uma visão da história que nos ajude a entender
que cada momento do passado, assim como cada momento do presente,
não contém apenas a semente de um futuro predeterminado e inevitável,
mas a de toda uma diversidade de futuros possíveis, um dos quais pode
acabar tornando-se dominante, por razões complexas, sem que isto signi-
fique que é o melhor, nem, por outro lado, que os outros estejam total-
mente descartados. Christopher Hill disse: "Uma vez que o acontecimen-
to ocorreu, parece inevitável; as alternativas se esvaem. A história é escrita
pelos vencedores, principalmente a história das revoluções. Vale a pena, no
entanto, que adentremos imaginariamente no passado, no tempo em que

15 "Passagen-Werk", S 1,6.
as diversas opções pareciam abertas".16 Essa é a espécie de "reviravolta co-
pernicana" da história que Benjamin pedia-nos: abandonar a idéia de que
existe um ponto fixo, "o que aconteceu", ao qual o conhecimento tenta
aproximar-se a partir do presente, e revirá-lo de cabeça para baixo com a
irrupção da consciência desvelada, quando a política se sobrepõe à histó-
ria; então "os fatos se convertem em algo que nos atinge justamente neste
momento, e estabelecê-lo é coisa da memória".17
Uma história não linear permitir-nos-ia recuperar muitas coisas que
abandonamos no caminho da mitologia do progresso: o peso real das con-
tribuições culturais dos povos não europeus, o papel da mulher, a raciona-
lidade de projetos de futuro alternativos que não triunfaram, a política dos
subalternos, a importância da cultura das classes populares... E nos ajuda-
ria a escapar, com o enriquecimento de nosso horizonte, da apatia e da de-
sesperança a que nos quer condenar o discurso dominante em nosso meio,
levando-nos a este "tempo de resignação política e de fadiga".18
Durante a Guerra civil espanhola, Antônio Machado escreveu que, '
quando se examinava o passado para ver o que continha, era fácil encon-
trar nele um punhado de esperanças, nem realizadas nem frustradas, isto
é um futuro.19 O tipo de história que estamos escrevendo e ensinando, há
mais de duzentos anos, eliminou o núcleo de esperanças latentes do rela-
to, onde tudo se produz fatalmente, mecanicamente, numa ascensão inin-

16 A citação é de HILL, Christopher. Some intellectual consequences of the English re-


volution. Madison: The University of Wisconsin Press, 1980. p. 33. Robert Gildea
(The past in French history. New Haven: Yale University Press, 1994) mostra-nos
como a história da França foi escrita em diversas versões que correspondem a for-
mulações muito diversas. Não temos que pensar nestas visões alternativas só em
termos de invenção discursiva. Seu fundamento reside no fato de que, em alguma
encruzilhada dò passado, se diversificaram os caminhos que levavam às diversas di-
reções que propugnavam coletivos diversos e seus membros continuam acreditan-
do que a história não acabou e que a projeção deStes caminhos em direção ao fu-
turo ainda seja possível.
17 "Passagen»Werk", K 1,2.
18 JACOBY, Russell. The end of ytopia. Politics and culture in an age of apathy. New
York: Basic Books, 1999. p. 181.
19 MACHADO, Antonio. Obras. Poesia y prosa. Buenos Aires: Losada, 1964. p. 428.
terrupta que leva o homem das cavernas pré-históricas à glória equívoca
da pós-modernidade em que vivemos. Tudo o que cai fora do esquema é
menosprezado como uma aberração que não podia resistir frente à mar-
cha irresistível da força do progresso, ou como uma utopia inviável.
Outro fugitivo do fascismo como Machado, Walter Benjamin, que
morreu um ano depois que o poeta andaluz e em lugar muito próximo ao
do falecimento daquele, advertiu-nos sobre os males que produz a visão li-
near, ilustrando com o exemplo do fascismo, que era visto como uma
aberração retrógrada ou como algo excepcional e, portanto de sobrevivên-
cia difícil, em lugar de entendê-lo como um fruto lógico e natural de um
certo tempo e de certas circunstâncias (como pode ser visto hoje, quando
renasce, vagamente disfarçado e negando, em alguns casos, as origens, sem
que produza nem escândalo). Completava o quadro, denunciando o outro
erro paralelo em que haviam caído a esquerda e o movimento operário, o
de crer que tinham "as leis da história" ao seu lado e que isso lhes garanti-
ria a vitória.20
Contra a história que pretendia explicar as coisas "tal como acontece-
ram " - isto é, do único modo em que podiam acontecer - Benjamin propu-
nha ao historiador que trabalhasse como o físico na desintegração do áto-,
mo, com o fim de liberar as enormes forças que foram tomadas para a ex-
plicação linear da história, "o narcótico mais poderoso de nosso século".21
Abandonadas nas bifurcações em que se tomou uma opção - nas
encruzilhadas em que se escolheu um e outro caminho - , ou na bagagem
dos que foram derrotados por vencedores que depois reescreveram a his-
tória para legitimar seu triunfo, há muitas coisas que vale a pena recupe-
rar. Não é lícito pensar, para dar apenas um exemplo, que o fracasso dos
regimes da Europa oriental em fins do século XX transforme em menos-
prezíveis às esperanças e os esforços de todos os homens e mulheres que
vêm lutando, há muitos séculos, para conseguir uma sociedade mais igua-
litária. O legado deles forma parte, como muitos outros, das "enormes for-

20 Benjamin, "Tesis de filosofia de la historia", 8,11 y 13.


21 "Passagen-Werk" N 3,4; a citação diz "do século XIX", mas a expressão é plenamen-
te válida para o XX.
ças" esquecidas nos rincões de uma narração linear do passado: de uma
pretendida história de progresso que, além do mais, termina mal.
Praticar o projeto de escrever este novo tipo de história obrigar-nos-
á a mudar muitas das normas habituais de nosso trabalho. Deveremos de-
sintegrar o tipo de continuidade histórica que se constrói habitualmente
em função da vontade de estabelecer uma genealogia, isto é uma justifica-
tiva, do objeto histórico que nos propusemos explicar.22
Renajit Guha identificou uma destas falsas continuidades, talvez a
mais freqüente e perniciosa: a de quem cria esquemas interpretativos que
têm como fundamento essencial legitimar retrospectivamente as constru-
ções estatais e a estrutura do poder social de nosso tempo. Coincidindo em
muitos aspectos com a análise de Benjamin, Guha examina as convenções
que fazem que se considere determinados acontecimentos e fatos como
"históricos", o que significa que foram escolhidos para a história. Mas
quem os designa para esta função? Existe uma discriminação na seleção,
feita de acordo com valores e critérios não especificados. Mas, se olharmos
com atenção, não é difícil perceber que a autoridade que conduz a opera-
ção é, na maior parte dos casos, uma ideologia que considera a vida do es-
tado como central para a história e que, conseqüentemente, só considera
interessantes os fatos que a ele se referem.23
A tradição de "estatismo", diz Guha, nasce das origens do pensa-
mento histórico moderno durante o renascimento italiano, sendo que a
ascensão da burguesia na Europa durante os três séculos seguintes não fez
mais d° que reforçá-la, de manei» que a política "oficial" - a política do

. 22 Também aqui Benjamin acertou adivinhando a natureza do problema ao escrever:


\"0 momento crítico, ou destruidor, na historiografia materialista, manifesta-se
pela desintegração da continuidade histórica, porqué-só assim se constitui o obje-
to histórico. De fato, é impossível identificar um objeto histórico nó meio dó cur-
so contínuo da história. Por isto a narração histórica, desde tertipos imemoriais, ex-
trapolou um objeto do curso contínuo. Mas isto se fazia sem fundamentos, como
um recurso, e a primeira preocupação era a de voltar a inserir b objeto na continui-
_ dade que se criava novamente por empatia" "Passagen-Werk" N 10a, 1.
23 The small voice of history. In: Subalterti studies. Delhi: Oxford Univgrsity Press,
1996. VI, p. 1-12. -
estado - converteu-se na própria substância da história que, desde o sécu-
lo XIX, se integrou no sistema acadêmico com seus programas e com uma
profissão dedicada a propagá-los através do ensino e da produção de tra-
balhos escritos. „
A deformação, acrescenta, amplia os efeitos para além inclusive da
área de influência do poder estabelecido. Guha mostra-nos, examinando o
relato da revolta hindu de Telangana, dirigida pelo Partido Comunista en-
tre 1946 e 1951, que o estatismo chegou a perverter a história explicada pe-
los vencidos, que acaba sendo uma visão que subordina tudo ao projeto
frustrado de construção de um poder alternativo e, ao fazê-lo, esquece os
motivos reais "que levaram boa parte dos participantes à rèvolta. Ilustra o
fenômeno com o caso das mulheres que apôiaram/a revolta com as pró-
prias reivindicações mas que terminaram no relato, reduzidas a simples
colaboradoras do programa dos dirigentes do partido. Apesar da simpatia,
mostrada por elas e os elogios a seu valor, o que não se faz é escutar o que
diziam, já que isto destruiria o estatismo dominante no relato.
Ver o conjunto dos fatos, enumerar "os acontecimentos sem distin-
guir os pequenos dos grandes", tomando consciência de que nada do que
aconteceu foi perdido para a história, corresponde "à humanidade redimi-
da": isso significa que só a humanidade redimida pode citar o passado em
cada um de seus momentos".24
A crítica de Guha à história "estatista", concretizada na crônica da
revolta de Telangana, não significa que esteja apresentando uma versão
equivocada do acontecido que poderia ser substituída por outra seme-
lhante, mas correta. O problema vai mais além e reside no fato de que se-
ria necessário outro tipo de escritura que fosse capaz de escutar, ao mes-
mo tempo, as diversas vozes da história, não só as dos dirigentes que rela-
tam seu projeto e relegam todos os demais elementos ativos à instrumen-
talidade, nem apenas a voz das mulheres.
"O que tenho em mente - diz Guha - não é uma simples revisão dos
fundamentos empíricos." Para integrar as outras vozes da história, seria
necessário romper a linha unitária da versão dominante, coríiplicando o

24 Benjamin, "Tesis de filosofia de la história", 3.


argumento. Porque a autoridade desta versão é inerente à sua estrutura
narrativa. Uma estrutura formada na historiografia posterior à Ilustração,
como no romance, por uma certa órdem de coerência e linearidade. É esta
ordem que dita o que se deve incluir na história e o que se deixa fora da
mesma, o que diz como a trama deve desenvolver-se, com o desenlace
eventual, e como a diversidade de caracteres e acontecimentos deve ser
controlada de acordo com a lógica da ação principal. Enquanto a univoci-
dade do discurso estatista baseia-se nesta ordem, uma certa desordem -
um desvio radical do modelo que dominou a escritura da história nos três
últimos séculos - é uma exigência essencial da revisão.
A solução não será fácil. A fprma concreta que deverá adotar a de-
sordem, acrescenta Guha, é difícil de prever. Talvez, forçará a narração a
balbuciar em sua articulação em vez de apresentar-se como uma corrente
contínua de palavras. Talvez, a linearidade de seu avanço dissolver-se-á em
laços e nós. Talvez, a própria cronologia, a vaca sagrada da historiografia,
será sacrificada no altar de um tempo caprichoso, que não se envergonhe
de seu caráter cíclico. Tudo o que se pode dizer neste ponto é que a des-
truição da narratologia burguesa será a condição para a nova historiogra-
fia, sensível aos ecos de desesperança e determinação das vozes de uma su-
balternidade desafiante, dedicada a escrever a própria história.
Inspirado nos historiadores da escola dos estudos subalternos, Ro-
bert Gregg identificou o mesmo problema numa análise comparada das
histórias dos Estados Unidos e da África do Sul, que lhe serviu para anali-
sar as deformações impostas à história comparada por um tipo de excep-
cionalidade elaborada pelo historiador a partir da definição da própria na-
ção - uma definição sempre enviesada que inclui elementos e exclui outros
de maneira arbitrária - e que se apresenta como elemento de comparação
e de interpretação. Gregg propõe a possibilidade de outros tipos de relato
que permitam superar os riscos do excepcionalismo: "os formados sobre
intersecções com outras sociedades e nações, ou os baseados nas experiên-
cias de pessoas consideradas geralmente marginais (as pessoas que até os
historiadores sociais encontram dificuldade em atribuir-lhes um papel ati-
vo)". O problema maior é, naturalmente, o de pôr ordem na multiplicida-
de de narrações que nos são oferecidas com o método para conseguir al-
gum tipo de síntese.25 Isso nos obrigaria a desagregar boa parte dos ele-
mentos de análise da sociedade, recebidos da historiografia - não só por-
que os dados nos são apresentados em contextos nacionais que os condi-
cionam, mas, principalmente, porque estão pervertidos pela ótica de ex-
cepcionalismo, freqüentemente inconsciente - e voltar a recompor as pe-
ças em novas agregações, organizadas de acordo com as necessidades de
nossas indagações.
Um método que respondesse a essas formulações - e que tornaria,
muito difícil a pretensão de construir uma "história universal"26 - obrigar-
nos-ia a uma investigação muito mais complexa e a inventar um tipo de
relato polifônico27 que, sem esquecer o fio condutor do "estado" - porque,
queira-se ou não, o papel do poder deve ser sempre considerado28 esco-
lhesse o número suficiente das vozes altas e baixas, grandes e pequenas da
história para articulá-las num coro mais significativo do que as visões tra-
dicionais que nós falam dos soberanos e de suas conquistas, esquecendo os
camponeses que pagaram com esforço o custo dos exércitos que lhes per-
mitiram ganhar batalhas. Ou as de uma história social que tem os campo-
neses çomo protagonistas - o que significa um avanço no terreno da re-
presentatividade, já que são muito mais numerosos do que os soberanos -
mas nada nos dizem daqueles que, fazendo as leis e exigindo os impostos,
determinaram boa parte de suas vidas. A forma de relato que defverá in-
cluir uns e outros - e muitas outras vozes ainda - em pé de igualdade, sem
instrumentalizá-los (sem contentar-se em subordinar os camponeses, nem

25 GREGG, Robért. Inside out, outside in. Essays in comparative history. London: Mac-.
millan, 2000. p. 25-26.
26 "De um ponto de vista metodológico, a historiografia materialista distíngue-se da
história .universal mais que de qualquer outra. A história u niversal está carente de
estrutura teórica. Seu procedimento é o da adição: proporciona uma massa de fa-
tos para encher um tempo homogêneo e vazio." Benjamin: "Tesis de filosofia de la
historia", 17.
27 Talvez com técnicas narrativas semelhantes às de algumas novelas como El Volga
desemboca en el mar Cáspio de Bóris Pilniak, por exemplo.
28 Sem simplificá-lo nem despersonalizá-lo, à maneira de Foucault, mas analisando
com cuidado os diversos "poderes" concretos que atuam em cada lugar e e_m cada
momento.
que seja como vítimas, à história dos reis) está ainda por ser inventada e é
provável que requeira muitas experiências e comparações até chegar a al-
cançar a eficácia necessária.29
O abandono da narrativa inspirada no romance burguês,30 domi-
nante em boa parte da historiografia - não só na que se apresenta direta-
mente como narrativa, mas também na de pretensão analítica, que nor-
malmente é construída em função de um argumento - , poder-nos-ia aju-
dar a superar outro defeito comum nos relatos dos historiadores. Os ho-
mens costumam racionalizar os atos a posteriori, para convencer aos de-
mais e a si mesmos de que são lógicos e razoáveis. Mas, nas reais motiva-
ções, existe um conjunto de preconceitos, medos ou aspirações inconfes-
sas (que com freqüência não se atrevem nem sequer a confessar a si mes-
mos) que, ou são ocultados, ou se integram forçadamente num contexto
que pretende ser racional (o racismo, para dar apenas um exemplo, apre-
senta-se como um produto da ciência por parte dos que o defendem, mas
não nasce da ciência, usada como legitimação).31 O homem é mais do que
um animal racional, é um animal racionalizador que justifica a posteriori,
com razões imaginadas, muitas decisões que surgem de zonas obscuras da
mente. Isso explica que os homens e as mulheres reais sejam, por nature-
za, contraditórios - observados à luz da racionalidade - e que os atos não
se ajustem à imagem coerente que pretendem dar de si mesmos. Se nos
acostumarmos a vê-los assim e não na visão plana do retrato sem sombras
que os biógrafos nos oferecem normalmente, ou eles próprios, em memó-
rias em que reconstruíram cuidadosamente as vidas - duas formas de re-

29 Temos apenas poucos exemplos de obras que tentam explorar a realidade desse ou-
tro modo, como a de Paul A. Cohen que, em History in three keys. The Boxers as
event, experience and myth (New York: Columbia University Press, 1997), explica
um acontecimento, a Revolta dos Boxers, como fato reconstruído pela pesquisa his-
tórica, como experiência vivida e como mito, ou como o livro de Mack Walker so-
bre o arcebispado de Salzburgo, citado anteriormente.
30 Sobre a questão, vejã-se PHILIPS, Mark Salber. Society and sentiment Genres of his-
torical writing in Britain, 1740-1820. Princeton: Princeton University Press, 2000. p.
103-128.
31 O caso das "ciências racistas" nazistas é conhecido. Em data mais'próxima, temos
mostras de aparente cientificismo como a famosa de The Bell curve.
lato em que as próprias regras literárias exigem que se tenha coerência -
conseguiremos entendê-los melhor.
Poderíamos voltar agora ao tema que formulamos antes, do encaixe
de um fato ou de um acontecimento em mais de um quàdro interpretati-
vo - em mais de uih quebra-cabeça - que não era uma proclamação de re-
lativismo, como podia parecer, mas a defesa de uma pluralidade de visões
objetivas que correspondem à diversidade imprevisível da própria vida,
uma diversidade que os hábitos do pensamento científico tradicional le-
vou-nos a simplificar, empobrecendo nossa visão, ao "não aceitar os fenô-
menos tal como são, mas mudando-os, seja no pensamento (abstração),
seja interferindo ativamente neles (experimentação)", dois procedimentos
que eliminam os traços particulares que distinguem um objeto de outro
ou os laços que o ligam ao ambiente.32
Devemos dar um passo adiante, porém, explorando a forma pela
qual, em cada momento de suas vidas, os seres humanos escolhem um
dos aspectos concretos da realidade, em função das necessidades do mo-
mento, não para fazer um paralelismo fácil com o tipo de seleção que o
historiador pratica com os fatos do passado a seu alcance, mas porque
isso pode esclarecer acerca do papel real que a história tem em nossa com-
preensão do mundo, numa direção que Benjamin parece haver intuído ao
dizer, por um lado, que "a verdadeira imagem do passado se desvanece su-
bitamente. Só na imagem que relampeja de uma vez para sempre no ins-
tante da cognoscibilidade, o passado deixa-se fixar" e, ao acrescentar, por
outro, que "para o materialismo histórico, interessa fixar a imagem do
passado tal como se apresenta de improviso ao sujeito histórico no mo-
mento do perigo".33
Isso, que pode soar como algo nebulosamente poético, esclarece-nos
quando pensámos que a função que a memória coletiva, que é a história,

32 Estas linhas baseiam-se no livro póstumo de FEYERABEND, Paul. Conquest of


abundance. A tale of abstraction versus the richness of being. Chicago: The University
of Chicago Press, 2000 (citação da p. 5)
33 Benjamin, "Tesis de filosofia de la historia" 5 e 6; perigo, acrescenta, "de se tornar
instrumento da classe dominante".
cumpre a serviço dos homens e mulheres que a assumem como própria,
tem uma grande semelhança com aquilo que a neurobiologia atual nos diz
que a memória pessoal faz para cada ser humano individualmente. Com
efeito sabemos que a memória pessoal não é um depósito de representa-
ções - das supostas imagens fotográficas guardadas na mente, de modo se-
melhante a que o academicisnlo imagina uma"história" constituída como
um depósito de fatos cientificamente estabelecidos pelas academias - mas
que é, na realidade, um complexo sistema de relações que tem um papel
essencial na formação da consciência. Uma de suas funções mais impor-
tantes, precisamente, é a de elaborar "uma forma de "re-categorização" du-
rante a experiência em curso, que é muito mais do que a reprodução de
uma seqüência prévia de acontecimentos". Os neurobiólogos dizem-nos
que a consciência se vale da memória para avaliar as situações que tem que
enfrentar mediante a construção de um "presente recordado", que não é a
evocação de um momento determinado do passado, mas a capacidade de
pôr em jogo experiências prévias para desenhar um cenário no qual incor-
pora, também, os elementos novos que se apresentam.34
Do mesmo modo, os historiadores, quando trabalham com a me-
mória coletiva, não se dedicam a recuperar do passado verdades que esta-
vam enterradas sob as ruínas do esquecimento, mas usam sua capacidade
de construir "presentes recordados" para contribuir à formação do tipo de
consciência coletiva que corresponde às necessidades do momento, não
extraindo, porém, lições imediatas de situações do passado que não irão
repetir-se, como se pode pensar, mas criando cenários em que seja possí-
vel encaixar e interpretar os fatos novos que se apresentam: cenários em
que o passado se ilumina no momento de sua cognoscibilidade, quando
"se apresenta de improviso ao sujeito histórico no momento do perigo".
Porque, queira-se ou não, estando ou não consciente disso, o histo-
riador trabalha sempre no presente e para o presente: "Os acontecimentos
que cercam o historiador e naqueles que participa pessoalmente - disse
Benjamin - estão na base de sua exposição como um texto escrito em tin-

34 EDELMAN, Gerald M.; TONONI, Giulio. A universe of consciousness.-How matter


becomes imagination. New York: Basic Books, 2000, passim, uma citação da p. 95.
ta invisível. A história que submete ao leitor representa algo assim como o
conjunto das citações inseridas neste texto e são somente elas as que estão
escritas de modo que todos possam ler".35
O que expliquei nessas últimas páginas permitirá entender, espero,
que todas as propostas de revisão teórica, todos os planos ainda confusos
de caminhos que apontam para o futuro não se apresentam aqui como ele-
mentos de um debate acadêmico e, muito menos, como receitas prepara-
das para serem aplicadas imediatamente ao trabalho, mas como uma con-
tribuição ao necessário esforço coletivo de reconstruir uma prática que
permita aproximar-nos, de novo e eficazmente, dos problemas de nossas
sociedades e de nosso tempo.
Na medida em que o historiador é quem conhece melhor o mapa da
evolução das sociedades humanas, quem sabe a mentira dos sinais indica-
dores que marcam uma direção única e quem pode descobrir o rastro dos
outros caminhos que levavam a destinos diferentes, e talvez melhores, é a
ele que cabe, mais do que a ningúém, a tarefa de denunciar os enganos e
reavivar as esperanças de "voltar a começar o mundo de novo".
Falo de enganos, porque a história em más mãos - o temos visto re-
petidamente - pode tornar-se uma temível arma destrutiva. E o é, com fre-
qüência, nas dos que a usam como elemento de criação de uma consciên-
! cia de aceitação da ordem estabelecida. lá se afirmou que: "Representar o
passado e a forma de vida das populações é uma expressão e uma fonte de
poder". As representações podem servir de base aos programas mais aber-
rantes. "Neste século, em especial - escreveu Linda Colley - milhões de ho-
mens e mulheres morreram em virtude de que eles, e outros, acreditaram
em construções sobre o passado com as quais foram alimentados por po-
líticos, jornalistas, fanáticos - e também por maus historiadores."36
Infelizmente não se pode dizer que isso seja coisa do passado. A histó-
ria está presente hoje, em regra geral, na base dos preconceitos utilizados para

35 "Passagen-Werk", 11,3.
36 BOND, George Clement; GILLIAM, Angela (Ed.). Social construction of the past.
Representation as power. London: Routledge, 1997. p. 1. Além disso, acrescentam,
que estas versões dominantes, com freqüência vagas e gerais, podem tornar-se ele-
mentos centrais "de debates intelectuais, lutas políticas e oposição popular". COL-
LEY, Linda. Fabricating the past. Times Literary Supplement, p. 5,14 June 1991.
justificar as mais diversas formas de opressão e de extermínio, com o pretex-
to de superioridades raciais ou de civilização, laicas ou religiosas. Falamos,
antes de casos como o de Ruanda. Pode-se dizer algo semelhante dos confli-
tos da Iugoslávia ou da visão dos "talibãs" do Afeganistão que, convencidos
de terem sido eles que acabaram com a União Soviética - esquecendo as cau-
sas internas do declínio russo e a parte que, em suas próprias vitórias, corres-
ponde à ajuda que receberam dos Estados Unidos - , pensam que chegou o
tempo de empreender uma nova guerra santa em escala planetária e de reto-
mar a expansão que o Islã experimentou nos séculos VII e VIII.37 A própria
persistência do racismo baseia-se antes de tudo em formulações históricas.
Em The Turner diaries, o livro de cabeceira dos grupos racistas mais radicais
dos Estados Unidos, pode-se ver como se educa um novo recruta, recomen-
dando-lhe a leitura de "alguns livros sobre raça e história".38
Mas ainda há uma falsificação mais grave: a que nos pede que acei-
temos as coisas como são, sem fazer nenhum esforço para mudá-las, em
nome das "leis da história" que conduziram ao triunfo anunciado e inevi-
tável do liberalismo e da globalização.
Conscientes da transcendência que podem ter essas visões de passado
que nutrem as memórias coletivas, não é lícito que nos equivoquemos a res-
peito do problema dos usos da história em nome de uma impossível neutra-
lidade - acadêmica ou pós-moderna - que, por outra parte, não ^impedirá
que "os poderes" continuem fazendo dela um uso doutrinário. Nas circuns-
tâncias confusas e difíceis do presente, aos historiadores cabe combater, ar-
m'ados de razões, os preconceitos baseados .em leituras malsãs do passado, e
ao mesmo tempo, as profecias paralisantes da globalização. Deste modo,
contribuiremos para limpar a encruzilhada em que nos encontramos e aju-
daremos para que sejam percebidos com maior clareza os diversos caminhos
que se abrem para nós e que, entre todos, escolhamos os que podem condu-

37 RASHID, Ahmed. Taliban. Militant Islam oil and fundamentalism in Central Asia.
New Haven: Yale University Press, 2000. p. 130-131.
38 E como esta visão racista da história transforma-se, em função de stias "leis", na pre-
visão de um futuro de extermínio racial da maior parte da humanidade. (MACDO-
NALD, Andrew. The Turner diaries. Hillsboro: National Vanguarda Books, Í980).
zir-nos ao ideal de uma sociedade em que, como disse um grande Historia-
dor, haja "a maior igualdade possível, dentro da maior liberdade possível".
Esse é um objetivo que muitos continuamos acreditando lícito, ain-
da que se tenha pretendido desqualificá-lo (e não deixa de ser revelador
que a desqualificação se faça ao mesmo tempo que a da história como ins-
trumento de análise). Na luta por construir uma sociedade como esta, te-
mos perdido muitas batalhas e inclusive guerras. Não é de surpreender-sè
que muitos tenham acreditado que o triunfo era impossível e tenham
abandonado o combate, sem dar-se conta de que, mesmo tendo perdido,
se conseguiu mudar muitas coisas que já não voltarão a ser como no pas-
sado. Assim o entendia também William Morris quando, em 1887, ao co-
memorar uma dessas grandes derrotas coletivas, escreveu: "A Communa
de Paris não é senão um elo na luta que teve lugar ao longo da história dos
oprimidos contra os opressores; e, sem todas as derrotas do passado, não
teríamos a esperança de uma vitória final".39
Não estou seguro de que hoje pensemos numa vitória final - esta
ilusão era também filha das falácias do progresso linear —, mas que aspire-
mos, mais modestamente, a algumas conquistas, por parciais que sejam,
isso bastará para justificar o esforço da luta. E penso que, apesar das der-
rotas, valeu a pena tentar e que é necessário continuar. Porque, como dis-
se Paul Eluard: "Ainda que não tivesse tido, em toda minha vida, mais do
que um único momento de esperança, teria travado este combate. Inclusi-
ve, se hei de perdê-lo, outros o ganharão. Todos os outros".40

39 MORRIS, William. Why we celebrate the Commune of Paris. Commonweal, 3, n.


62, p. 89-90, Mars 1887. reproduzido em Political writings. Bristol: Thoemmes
Press, 1994. p. 232-235.
40 ELUARD, Paul. Une leçon de morale, prefácio, em Oeuvres complètes. Paris: Galli-
mard, 1984. II, p. 304.