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Anotações _ Comprender Davidson Ghiraldelli.

Uma teoria da ação adequada


No exemplo, “Joana se afastou da porta com um salto para trás porque apareceu um cão
muito grande na entrada”, como Davidson analisaria?
Ver Joana dando um salto na direção oposta à da porta após o aparecimento do cachorro, este
“porque” da sentença acima pode nos dar concomitantemente tanto a causa quanto a razão
para o ato da agente chamada Joana. Mas alguns acham que contém um “porque”, ao meio,
que não pode explicar a ação de Joana e dar a razão da ação de Joana. É com isso que
Davidson não concorda.
A razão que explica o movimento de Joana, que é o aparecimento do cão e a concomitante
crença de Joana de que um cão grande pode lhe ferir e, mais, o desejo de Joana de não se
deixar exposta a um possível ferimento, é que é a causa do pulo de Joana.
Para Davidson, a razão é, ao mesmo tempo, a causa. A causa-de-uma-ação e a razão-que-
explica-a- ação-sob-uma-descrição são, ou podem ser, a mesma coisa. Mas a psicologia
popular (folk psychology) diz que é a causa, e o que o filósofo não-davidsoniano toma como
sendo apenas a razão ou uma razão, é, para Davidson, a razão que é, ao mesmo tempo, a
causa.

As razões não são visíveis e nem facilmente singularizadas, exclusiva. Uma ação pode ser
descrita, explicada, racionalizada de diversas formas. Como ficamos então? Entre as razões,
qual é aquela que é a razão correta para ser apontada como a que é a que explica a ação em
questão?
A razão primária (primary reason) é o que se quer apontar. Uma explicação vinda da teoria da
ação é exatamente a razão que é a causa da ação explicada.
O que é a razão primária?
Trata-se da razão que racionaliza, ou seja, explica e/ou justifica a ação mostrando tal ação
como razoável se considerarmos a crença e o desejo que constitui a razão para a ação.
Ex: A razão que explica o movimento de Joana, que é o aparecimento do cão e a
concomitante crença de Joana de que um cão grande pode lhe ferir e, mais, o desejo de
Joana de não se deixar exposta a um possível ferimento, é que é a causa do pulo de Joana.
Isto é, o que temos de buscar é um par determinado de eventos mentais, uma crença e um
desejo determinados.
Uma vez que Joana tem o desejo de não sair machucada (antes prevenir que remediar – diz o
ditado popular), ela não fica parada diante do cachorro que aparece na porta, ela se afasta
tanto quanto pode no momento. Uma vez que ela acredita que um cachorro tão grande pode
ser feroz, e se for feroz, pode lhe trazer um dano físico, ela pula para trás.

A razão primária, como Davidson a toma, é uma racionalização da ação unicamente se a


predisposição para realizá-la mostra alguma característica bastante específica da ação que o
agente imaginou desejável. A racionalização da ação tem de servir, a nós, os observadores do
agente, para vermos claramente o porquê tal ação foi desejável.
Não quer dizer que uma predisposição compromete (induz ou constrange) o agente a ter de
realizar a ação, que se trata de algo que ele deveria fazer. Joana, por exemplo, poderia ter
uma predisposição para pular para trás ao ver o cachorro, mas não achar que deveria se
afastar repentinamente.
O que se quer na teoria da ação de Davidson, em seu âmago, é identificar uma razão primária
para cada ação, que é a tal razão fornecedora da explicação.

Quando se racionaliza uma ação, ou seja, quando se explica ou se justifica uma ação, é que
se pode ver a racionalidade da ação como revelada pelas crenças e desejos do agente.
Encontramos um padrão se consideramos as crenças e os desejos solicitados na explicação
da ação. Tais crenças e desejos são as que devem tornar a ação razoável.
Razão primária: é aquela razão que racionaliza a ação por meio de nos revelar a ação como
uma ação razoável, considerando aqui, de modo imprescindível, as crenças e desejos que
constituem a razão para a ação.
Ex: a crença de Joana é a de que um cachorro grande pode lhe morder causando um dano, e
então o seu desejo é o de se afastar para obter uma relativa e primeira segurança.

Intenções, desejos e crenças.


Davidson não vê diferenças de natureza entre intenções, desejos e crenças.
Quando a intenção precede a ação e colabora com ela como fator causal, assim o faz em
associação às crenças e desejos.
Se há alguém com alguma intenção, e tal intenção vai aparecer como elemento causal de
uma ação, o que se tem é que tal intenção surge como o resultado de uma ponderação a
partir de crenças e desejos desse alguém.
(a intenção como o resultado de uma ponderação a partir de crenças e desejos desse alguém).
A intenção depende, no caso, de razões, de certa racionalização, que é causa da ação – tal
racionalização requisita um par determinado de crença e desejo. A escolha sobre qual par é
este depende, no entanto, de um estoque de probabilidades. (influencia de Ramsey). Sacar
entre as probabilidades qual par é o mais correto, é algo possível a partir da teoria da decisão
de Frank Ramsey.

Ontologia dos eventos.


Tomar os eventos como “parte da mobília do mundo”, e aceitar as ações como tipo de
eventos. (Davidson, D. Aristotle´s action. Truth, language and history).

Uma ação (para a qual cabem várias descrições) é considerada intencional se há ao menos
uma descrição que revela uma característica da ação responsável pela motivação do agente
em realizá-la.
Conclusão de Davidson sobre as intenções: o conceito de intenção deve ser visto como o que
não modifica os atos diretamente, mas modifica, sim, todas as proposições. Ele é um
diferenciador, mas um diferenciador no âmbito das descrições. A intenção tem as mesmas
características semânticas apresentadas quando temos conversas nas quais aparecem crenças,
desejos, expectativas e esperanças. (Davidson, D. Aristotle´s action. Truth, language and
history. 286-7).

Um evento descrito como uma ação é causado por uma razão primária. Uma razão primária é
formada por par de crença e desejo. Mas como podemos determinar, a partir dos princípios
gerais de uma psicologia popular (uma folk psychology é o máximo que Davidson precisa),
quando é que um par de crença e desejo causará uma ação?
A teoria da ação de Davidson tem um instrumento capaz de observar pares de crenças e
desejos, e mostrar os pesos de determinados pares na decisão do agente quanto a agir de uma
forma e não de outra, realizando a ação em questão.
A teoria da ação com êxito tem de apontar, entre os pares concorrentes, para o par mais forte
de crença e desejo que irá compor a razão primária da ação. Davidson opta pela teoria da
decisão de Frank Ramsey como um possível procedimento que permitiria a eleição de tais
concorrentes.

A escolha da razão
A teoria colabora para se saber, ao menos em tese, como determinar o grau de certeza de um
agente diante de suas próprias crenças.
Ex: Uma vez sabido em que grau Joana acredita que um grande cão pode lhe ferir, podemos
dizer mais a respeito do que até então foi dito sobre a sentença que descreve o evento, a ação
de Joana – o que está na sentença “Joana se afastou da porta com um salto para trás porque
apareceu um cão enorme na entrada”. Joana acredita que um cachorro é perigoso – muito,
pouco, quanto afinal? E quanto deseja Joana se safar das possibilidades de levar uma
dentada? Tais perguntas são, na teoria da decisão de Ramsey, formalizadas da seguinte
maneira, como está abaixo.
Coloração pragmatista na teoria de Ramsey (teoria empírica da tomada de decisão. )– ela é
uma teoria do tipo das “teorias dos jogos”, usadas na economia, política e outras áreas das
ciências sociais. Em tais teorias, os agentes atuam segundo uma maximização da utilidade,
esperada de cada ação escolhida. Trata-se de uma teoria que mostra o agente trabalhando
com apostas. Ele, agente, decide realizar determinada ação porque aposta que as
conseqüências de tal ação irão satisfazer o que ele mais espera que ocorra, segundo o seu
julgamento da importância do evento esperado.
Se o agente faz apostas, então sua crença não é, propriamente, uma crença. Há uma
probabilidade subjetiva, digamos assim, de que a ação escolhida traga as conseqüências
esperadas. Devemos falar aí, também, em graus de desejo – há um grau relativo de desejo; ou
seja, uma escala de preferências do agente.
O conhecimento do grau de uma crença e a força relativa de um desejo são os elementos
teóricos na explicação dos padrões de preferência de um agente no momento de suas apostas

Teoria da decisão de Ramsey lhe dá o que necessita para dizer que as características da
decisão podem ser medidas e, assim, mostrar qual dos pares de crença e desejo é o mais
forte.
A teoria fornece para Davidson a expectativa de previsibilidade que ele quer ter. Pode traçar,
com ela, o perfil do agente. Este perfil pode ser chamado de grau de racionalidade do agente.
possibilidade de mensuração em graus do par de crença e desejo que faz parte da razão
primária (a causadora a ação), que é o que se pode tirar da teoria de Ramsey, dão força para a
teoria da ação de Davidson. Portanto, É necessário que o teórico da ação saiba o que está
determinado, em cada caso, no par crença-desejo. Em outras palavras: quem faz a descrição
da ação do agente, utilizando-se da teoria da ação de Davidson, tem de conhecer o conteúdo
das atitudes proposicionais do agente descrito. Eis aí onde a teoria da ação se vê dependente
da construção de mais uma teoria, a da interpretação.
Pois é necessário ser capaz de interpretar o agente para poder fornecer elementos para se
saber o que dizem suas atitudes proposicionais, isto é, o par crença- desejo que forma a
razão primária, aquela que é também causa da ação.
É necessário saber qual a crença em questão e qual o desejo associado a razão.

Obs: O que descreve a ação deve ser capaz de captar o grau do par crença-desejo nas escolhas
e ações para saber o seus conteúdos proposicionais que ou são verdadeiros ou falsos e que são
baseados em crenças e desejos e que são a razão primária.

Mostrar que o que ele fala é algo que eu posso saber o que é. Para isso é preciso de uma teoria
da interpretação.

UMA TEORIA DA INTERPRETAÇÃO


Uma teoria do significado lida diretamente com perguntas do tipo “o que é dizer como as
coisas são?”, “o que é dizer algo com significado?” e “o que é, para palavras ou sentenças,
ter significado?”.
Davidson adota a ideia de Quine de “indeterminabilidade do significado”.

Concepção tradicional do significado: a concepção referencial de significado. A teoria


identifica o significado de uma expressão com o objeto que a expressão mantém apreendido.
Problema dessa teoria: muitas expressões não deixam de ter significado e, no entanto, não
fazem qualquer referência a alguma entidade. Um termo singular como “o décimo quinto
homem” não precisa fazer referência a algo para ter significado.
Dois termos podem ter significados diferentes apesar de se referirem ao mesmo objeto. Ex:
estrela da manhã e estrela da tarde.
Quine desqualifica a idéia de significado como entidade mental.
Problemas com essa semântica acrítica – mito do museu; defensora da linguagem privada, isto
é, uma linguagem não aprendida socialmente que preservaria em um plano mental interno,
individual e a-social, a expressão própria dos significados – a essência ou quase que como uma
essência dos elementos do mundo.
Quine afirma a linguagem como uma interação social que pressupõe, para existir funcionando,
um grupo organizado em que os falantes adquirem seus hábitos lingüísticos. O significado não
é uma entidade psíquica. Ele é uma propriedade do comportamento — do comportamento
lingüístico, social.

Para os positivistas lógicos o significado de uma sentença é dado pelo método pelo qual ela é
confirmada ou infirmada. Há, para eles, três tipos de enunciados: os analíticos, os sintéticos e,
enfim, o que é non sense do ponto de vista cognitivo.
Primeiro: “Todo solteiro é um homem não casado”. Esta é uma frase analítica. Quando
queremos saber se ela é verdadeira ou falsa, nosso método é apenas um: nada procuramos de
empírico nela, e nos fiamos única e exclusivamente no arranjo da linguagem. Tal frase é uma
“verdade lógica”.
Segundo: “Joana é casada”. Essa é uma frase sintética. Ela agrupa dois elementos – “casada” e
“Joana” – e acrescenta uma informação, a de que Joana está casada. Quando queremos saber
se ela é verdadeira ou falsa, nosso método é apenas um: temos de checar empiricamente, isto
é, ou perguntamos para alguém ou para Joana, ou vamos ao cartório e olhamos os
documentos, etc. Se a informação se confirma, então tal frase é uma “verdade factual”.
Quine discorda dessa visão que acredita poder classificar desse modo os enunciados.
Mas para Quine, os critérios de analiticidade dos positivistas lógicos não poderiam sustentar a
idéia de uma divisão nítida entre verdades analíticas e verdades sintéticas.

holismo – que é a doutrina que apela para a idéia de que devemos tomar o todo em
articulação com as partes –, entende que qualquer enunciado só pode ser confirmado ou
infirmado em relação a certo conjunto de enunciados.
O significado é para ser investigado no modo como podemos atribuir valor de verdade a uma
sentença quando esta é checada quanto à harmonia ou desarmonia com uma rede de
enunciados a qual ela pertence ou pertencia.
É preciso ver a verdade e a falsidade – o significado, portanto – observando a relação entre a
sentença em questão, tomando nota de detalhes, e a rede de enunciados ao qual este
enunciado singular se articula. A verdade e a falsidade são funções de uma relação entre um
conjunto teórico (ou toda uma linguagem) e um enunciado em questão, pertencente a tal
conjunto (ou linguagem). O mesmo ocorre, portanto, ao significado.

Condições de verdade: duas sentenças são semanticamente equivalentes se têm as mesmas


condições de verdade. Os significados das sentenças são dados pelas suas condições de
verdade, e os das palavras são abstrações das sentenças nas quais estão. Ou seja: os
significados são vistos na medida em que as sentenças individuais têm suas próprias condições
de verdade fixadas.

Quine condensa holismo e condições de verdade.


Considera que as condições de verdade de uma sentença S, se S é uma sentença que podemos
checar sua verdade ou falsidade por meio de observação, são as mesmas condições segundo
as quais um falante assentiria S.
Condições de assentimento, evidência e condições de verdade, coincidem.
Tira as condições de verdade de uma sentença do campo puramente abstrato, articulando-as
ao comportamento humano. Sendo que o significado se prende às condições de verdade,
também ele passa a depender do comportamento humano. O resultado é, portanto, uma
concepção comportamentalista do significado.

A teoria de Davidson é “construtiva”.


“o que é para as palavras, enfim, significarem o que significam?
Toma um caminho diferente para buscar o significado, como que um tipo de meta-discussão a
respeito do significado – similar ao que faz na sua teoria da ação.
Persegue qual a forma que uma teoria do significado deveria assumir, sendo tal teoria
adequada a uma linguagem específica.
Antes do significado, o que Davidson investiga é o caráter geral de uma teoria do significado;
isto é, o caráter geral do que poderia ser chamado de teoria do significado, ou seja, como
uma teoria do significado deveria ser.

Teorias do significado caem sob o rotulo de analíticas a de Davidson é construtiva.


A teoria de Quine, que é causal e comportamentalista, é do primeiro tipo. A tradicional teoria
referencial (que é o nosso senso comum), as teorias verificacionistas, as que abordam o
significado apelando para o uso (como em Wittgenstein), as teorias da intenção
comunicacional (como em Grice) ou a dos atos de fala (como em Austin).

A teoria de Davidson, diferentemente, não diz o que é o significado. Vale aqui seu modo
descritivo de filosofar. O que faz é gerar para cada sentença S (real ou potencial) de uma
linguagem específica, um teorema que dá o significado de S e que, em particular, mostra como
o significado depende dos componentes de S.
A teoria do significado davidsoniana é menos uma teoria do significado que uma teoria da
comunicação lingüística.
Sua questão central não é dizer o que é para uma expressão significar algo, nem mesmo o
que é para uma expressão ser sinônimo de outra expressão. Este é o projeto de Quine.
Para Davidson, a pergunta central é “o que é entender o que um falante disse de uma ocasião
particular?”. O que deve ser alcançado se tal pergunta é respondida? Isto: alguém que
conhece a teoria está na posição de entender toda e qualquer expressão, real ou potencial, de
uma linguagem particular L.
Uma teoria, nesses termos, deve satisfazer as seguintes condições: adequação extensional,
verificabilidade empírica, não circularidade e axiomatização finita.
Extensão adequada- é aquela que, para cada sentença S de L, gera um teorema que especifica
o significado de S.
Verificável empiricamente - tal teoria age desse modo na amplitude em que não demanda
qualquer conhecimento prévio a respeito do que os falantes de L querem dizer com as suas
expressões.
Não-circular - Não é circular quanto à evidência na qual ela se baseia, pois essa evidência não
implica conceitos muito próximos aos aliados e parentes do significado, que é o que ela
pretende explicar.
Axiomatização finita - conduz a ter teoremas que dão os significados como geradores de um
número finito de regras de inferência e axiomas.

Na busca de satisfazer tais condições para sua teoria, Davidson adota três idéias básicas: 1)
composicionalidade, 2) contextualismo e 3) condicionalidade.

Holismo - entender uma sentença é entender uma linguagem toda.


Na forma como Davidson aborda a linguagem, os significados das palavras são abstraídos dos
seus papéis em sentenças. Não é possível entender uma sentença sem entender outras
sentenças nas quais os componentes da primeira também estão presentes. Mas, nas novas
sentenças há novos componentes, que por sua vez só serão entendidos quando percebidos em
outras novas sentenças e assim por diante.
Os teoremas de uma teoria semântica dão o significado de uma sentença S ao especificar as
condições de verdade de uma sentença.
Dar as condições de verdade é um modo de fornecer o significado de uma sentença.
Entender um nome é diferente de entender uma sentença. Para o nome há o que é apontado,
o que o nome fixa, para a sentença o que é necessário é saber sob que condições ela é
verdadeira. Isso, davidsonianamente, escapa do realismo uma vez que não se trata de saber
como o mundo é, mas se trata, sim, de saber como deve ser se uma sentença é verdadeira.

A forma dos teoremas que se adaptariam a uma teoria do significado adequada será: s é
verdadeiro SSe p.

O teorema não deve lidar com termos que ele tem de explicar, para não ser acusado de
circularidade como, por exemplo, significa, referencia etc.

Não se trata de uma definição completa de verdade, mas uma definição parcial de verdade.
As definições parciais apenas nos dão em que consiste, para uma sentença individual, sua
condição de ser verdadeira).
A palavra “verdadeiro” – Tarski também ensina – é de uma natureza lógica diferente de tais
expressões: ela expressa uma propriedade (ou denota uma classe) de certas expressões ou
sentenças.

A linguagem-objeto é a que fala das próprias coisas – fala sobre todas as coisas. A
metalinguagem é a que fala sobre o que essa primeira linguagem fala. O vocabulário da
metalinguagem é determinado por condições previamente estabelecidas sobre as quais a
definição de verdade será materialmente adequada.
Toda sentença que ocorre na linguagem-objeto, como Tarski diz, deve também ocorrer na
metalinguagem.

A satisfação é uma relação entre objetos e expressões.

Em Davidson temos as condições para uma boa teoria do significado ou vai mais além
propondo uma teoria da comunicação humana.

As noções que devem ser acopladas ao teorema são as de (1) interpretação radical, (2)
princípio de caridade e (3) holismo; e a estratégia onde essas noções são usadas é a de (4)
triangulação.

Interpretação radical - inicia um processo de entendimento de uma linguagem; vai partir de


um grau zero de informação a respeito do conteúdo da linguagem que quer interpretar. Isto é,
nada sabe sobre o falante, nem mesmo se o falante é um falante ou apenas um balbuciante.
Holismo - uma sentença verdadeira como “a neve é branca” tem de estar no campo de outras
sentenças, também verdadeiras, que dizem, por exemplo, que “isto é neve”, “isto é branco”,
“a tela do computador é boa se é branca”, “as páginas dos livros são, em geral, brancas” etc.
Principio de caridade - o que o intérprete faz ao conceder ao falante uma racionalidade;
primeiro,deve-se supor que o falante que acredita que p e q então não acredita que não-p,
segundo, considerando tudo que é possível e plausível de ser considerado, deve-se supor que
cada falante sempre escolherá realizar algo que ele julga ser o melhor.

A boa teoria do significado visa correlacionar sentenças da metalinguagem com sentenças da


linguagem-objeto, e tal correlação depende delas terem o mesmo valor de verdade. (...) o
teórico tem um único trabalho: vê se as condições de verdade designadas pela teoria para uma
sentença são mesmo as condições de verdade da sentença.

A teoria davidsoniana não torna mais compreensível nosso entendimento das condições de
verdade de uma sentença. O que a teoria davidsoniana faz é relacionar o conhecimento do
intérprete a respeito das condições de verdade de cada sentença às palavras nas sentenças
que representam papeis idênticos em outras sentenças.

O intérprete ou teórico davidsoniano tem de descobrir, primeiramente, as sentenças que são


mantidas, segundo um tempo, um lugar e condições específicas, como verdadeiras pelo
falante. Em seguida, deve escolher as que serão candidatas a participar de sentenças-T, que as
correlacionarão com as sentenças que ele, intérprete, também mantém como verdadeiras
segundo um tempo, um lugar e condições específicas afinadas com a do falante. Construídas
tais sentenças-T, e todos os axiomas da teoria, o que se tem é uma teoria do significado para o
falante da linguagem, no caso, a linguagem-objeto.

O êxito da interpretação radical depende disso:


Crença, verdade e significado
Os enunciados dos falantes significam (em um alto grau) aquilo que as crenças dos
intérpretes significam. Isso porque o que se acredita em uma linguagem é o que o falante de
tal linguagem mantém ou sustenta, é o que ele toma como verdade.

Em hipótese alguma, o fato da interpretação radical ter sucesso, deve nos levar a acreditar que
Davidson está dizendo, contra Quine, que é possível uma tradução de uma linguagem em
outra, no sentido da palavra “tradução” enquanto correspondência termo a termo entre uma
linguagem L e uma linguagem L’. Davidson caminha por uma noção de indeterminação da
interpretação, como Quine.
Com toda a indeterminação, ainda assim, nós podemos apostar no entendimento mútuo.

O mecanismo que Davidson chama de “triangulação”48 é o que favorece a interpretação


radical.

Triangulação
Davidson enumera três tipos de interação (e de ajustamento de comportamento) entre os
elementos que estão nos ângulos de um triângulo ABC, onde os ângulos A e B são criaturas e o
ângulo C é um meio compartilhado por elas. Primeiro tipo: há o que poderíamos chamar de
comunicação animal, onde A e B trocam alguma sinalização diante de um mesmo estímulo
emitido por C. Segundo tipo: há o estabelecimento do local para o surgimento da noção de
erro e, portanto, da possibilidade da emergência de atitudes proposicionais, o que dá a
condição para a existência de pensamento e linguagem. Terceiro tipo: há a situação onde A e B
já estão equipados de pensamento e linguagem, mas lhes falta uma linguagem comum, de
modo que a interação triangular é que vai fazer com que seja possível a emergência da
interpretação. Davidson, D. Triangulation. In: Kotatko, P. e outros (orgs.). Interpreting
Davidson. Stanford: CSLI Publications, 2001, pp. 292-94.

Se somos intérpretes, e de fato somos constantemente intérpretes (pois estamos em


comunicação o tempo todo), então estamos sempre identificando as crenças por meio de sua
localização no padrão de crenças do falante. Tal padrão nos permite determinar o conteúdo
da crença observada, se ela é logicamente consistente com outras do falante. Para colaborar
na averiguação disso, Davidson fala em “triangulação”. A interpretação funciona no interior de
um triângulo cujas linhas de intersecção nos dão três pontos: o falante, o intérprete e o meio
que falante e intérprete compartilham.

Ainda que a indeterminação nunca chegue ao fim, o que se consegue, certamente, é uma alta
definição sobre os pontos de discordância.( Davidson, D. Externalisms)

A indeterminação da interpretação (Quine) é uma diferença que não faz diferença.

LINGUAGEM E PENSAMENTO
A teoria da ação davidsoniana diz que razões e causas podem se igualar.
Para vários filósofos, o que é corpóreo ou físico é visto sob relações causais e o que é não
corpóreo, ou seja, mental, é colocado sob relações racionais. Mas se há identidade entre
causas e razões, haveria identidade entre mental e físico?

Para Davidson devemos maximizar a verdade e reduzir o significado.


Trata-se de tomar as sentenças que são verdadeiras em nossa linguagem (aquelas que não
abrimos mão) e confrontá-las com as sentenças, na linguagem daqueles com que estamos
entrando em interação, que são verdadeiras (aquelas que eles não abrem mão). A teoria da
interpretação prima pela idéia de atribuição de racionalidade a outro e, a partir daí, busca
elaborar um manual capaz de comparar o que é verdade com o que é verdade, ou seja,
crenças sustentáveis de ambos os lados da interação lingüística.
(Confrontar as sentenças da metalinguagem que são verdadeiras com as sentenças da
linguagem que estamos analisando, a Lo e comparar crenças sustentáveis de ambos os lados
da interação linguística).

Identidade entre eventos físicos e mentais:


Descates foi quem dualizou a mente do corpo. Para este, o corpo é algo que deve ser definido
pelas três dimensões que ocupa no espaço, pela forma e pela posição temporal e, enfim, pela
capacidade de deslocamento. O pensamento (dúvida, afirmação, negação, lembrança, etc.), ou
o que é mental, é exatamente o que não possui as propriedades do que é físico, não está na
interação causal.
A doutrina do naturalismo atual diz que todas as manifestações de nossa vida podem ser
assumidas como eventos exclusivamente físicos, sujeitos às leis naturais – as leis do universo.
Aprendemos que vivemos todos sob o mesmo teto da natureza.

A idéia de Davidson é a de manter a tese de que o fisicalismo tem razão ao dizer que todos os
eventos são físicos, mas que tal doutrina não tem o direito de querer reduzir todos os eventos
descritos nos termos do vocabulário do mental a eventos descritos nos termos do vocabulário
do físico.
como pode haver identidade entre mental e físico se o mental se mantém fora de uma possível
cobertura levada adiante por leis estritas e se o mental não pode ser reduzido ao físico? A idéia
é dizer que o mental é esquisito, anômalo.
(Pode-se falar de materialismo e fisicalismo, às vezes, como sinônimos. Mas é possível fazer
distinção, na maioria dos casos. O primeiro seria uma tese ontológica e, por esta via, também
metafísica. O segundo seria uma posição em filosofia da ciência. A doutrina materialista
apontaria para substâncias materiais ou, menos atavicamente, para objetos materiais ou
físicos como elementos únicos de constituição do mundo. A doutrina fisicalista diria respeito
mais à epistemologia ou mesmo à semântica, uma vez que estaria apontando apenas para a
possibilidade de descrição do mundo segundo o que faz a ciência moderna, em especial as
ciências naturais. Sobre isso: Moser, P. e Trout, J. D. Contemporary materialism – a reader.
New York: Routledge)

O monismo anômalo de Davidson é esboçado através de uma teoria especial da identidade


entre mental e físico.

Posição fisicalista não-redutivista:


A identidade que Davidson estabelece entre eventos físicos e mentais não é aquela que diz
que esses eventos serão idênticos a partir de tipos. Ela é aquela que se estabelece entre sinais
particulares. Em outras palavras, não é a identidade de types, é a entre tokens. Evento mental
e evento físico são qualificados por alguma identidade um com o outro pelo fato de que
ambos são não-repetíveis, datados e individuais. São tokens e não types.
Ex: Se um evento mental é idêntico a um evento físico, ele o é por que é um evento individual,
particular, no seguinte sentido: a minha crença de ter sede às três horas da tarde de hoje (que
é um evento mental) é idêntica, digamos, ao que chamo de uma configuração neural particular
minha (que é um evento físico), às três horas da tarde de hoje. Todavia, não posso dizer que a
próxima vez que eu (ou Joana) tiver a crença de que estou com sede, o evento mental
chamado que eu exprimo dizendo “tenho sede” corresponderá à disposição neural que é a
mesma da última vez que tive sede ou que será igual à próxima vez que tiver sede. O evento
físico estabelecido em meu organismo no dia de hoje, às três da tarde, e que associo à minha
crença de estar com sede (àquela de hoje, às três da tarde), é único.

Ex: Se Joana bate seu dedo do pé na porta e sente dor ele é, antes de tudo, individual e
datado, e a experiência dessa dor não vai se repetir jamais. Não há que procurar um tipo de
dor para cobrir tal evento – para identificá-lo. Ele está coberto pelo que é: um evento
singular, particular, que não pode ser repetido. Esta é sua característica, que é singular. Esta é
sua singularidade. Esta singularidade é o que proporciona a identidade do físico com o mental.
O que caracteriza a descrição com sendo da ordem do mental é que ela evoca contextos
intencionais (Intensional, com “s”, é o que diz respeito à conotação, e extensional o que diz
respeito à denotação.). Assim, os verbos pretender, intencionar, acreditar e desejar são todos
do âmbito de contextos intensionais.
Diferença entre intencional e extensional –
Descrição do da ordem do mental – me coloca em contextos intencionais.
onde não é possível intercambiar elementos sem alterar o valor de verdade das expressões em
questão.
Descrição do da ordem do extensional – em contextos físicos, são intercambiáveis.
Âmbito do extensional; isto é, trata-se de eventos que são tomados como estando em relações
que são independentes de suas descrições, quando no âmbito do contexto extensional onde
eventos são intercambiáveis.

A diferença entre contextos intensionais e contextos extensionais é que nos segundo há os


termos que apontam para o que é o mesmo e podem, assim, ser intercambiáveis, enquanto
que em relação as intensões tal situação não ocorre, já que são individuais.
Ex: “Joana é a mãe de Joaninha”, então a expressão “a mãe de Joaninha” é intercambiável com
“Joana” – são idênticas. Isso em nada altera o valor de verdade dos enunciados em questão.
Todavia, isso não se dá em contextos intensionais. Por exemplo, podemos tomar “Joana
acredita que Joaninha fez sua tarefa escolar”, e então denominamos a sentença “Joaninha fez
sua tarefa escolar” de S, assim podemos ter “Joana acredita que S” como uma formulação
geral que muda seu valor de verdade segundo a mudança de S para um enunciado p (onde p é
diferente de S; p pode ser, por exemplo, “Joaninha não fez sua tarefa escolar”).

Davidson mostra que estamos certos ao adotar a visão do materialismo ou fisicalismo que nos
coloca, em todas as nossas manifestações, sobre a Terra, no mundo natural;
não eliminarmos as diferenças de contexto a fim de descrição, de conceituação, pois o que é
do campo contextual intensional acolhe os eventos mentais e o que é do campo contextual
extensional acolhe os eventos físicos. O reducionismo, onde uma única linguagem poderia ser
suficiente, é descartado.

os eventos mentais são idênticos aos eventos físicos, e tal identidade é por característica
particular e não por tipo, mas há um sentido em que o mental depende do físico.

O mental é anômalo
Davidson chama de estados mentais ao invés de mente.
Eventos mentais - percepção, lembrança, decisão e ações.
Ex: são propriedades que as pessoas possuem. Em outras palavras: há predicados nomeados
em termos psicológicos que são verdadeiros uma vez aplicados às pessoas.
Ex: Joana percebe que é hora de sua janta. Joana se lembrou de quem lhe ensinou regra de
três há anos. Joana está experimentando um doce de milho, e vendo se gosta. Ela decidiu que
vai passar as férias na praia. São eventos mentais. Davidson os toma como físicos. Mas isso
não quer dizer que eles deixam de ser mentais
Resistem à captura por parte de uma rede nomológica, que é o que caracteriza uma teoria
física.
Então, como isso pode ser conciliado com o fato – que parece evidente a todos nós – de que
tais eventos mentais desempenham algum papel causal no mundo físico? A resposta vem com
a conciliação entre três princípios, conciliação entre três princípios que, em um primeiro
momento, parecem inconciliáveis. (Davidson, D. Mental events).

1) O princípio da interação causal: ao menos alguns eventos mentais interagem com eventos
físicos. Esse princípio é óbvio para todos nós: crenças e desejos causam a ação de um agente e
as ações causam mudanças no mundo físico. Eventos no mundo físico freqüentemente
alteram nossas crenças, desejos e intenções.
Obs: se o mundo tivesse outra configuração ou mudasse teríamos outras crenças sobre o
mundo. Mais uma prova do externismo ao mostrar que as nossas crenças são causadas, pelo
menos, em parte, pelo mundo.
2) O princípio do caráter nomológico da causalidade: eventos relacionados como causa e efeito
caem sob leis determinísticas estritas. Ou seja, a relação de causa e efeito possui descrições
que exemplificam uma lei estrita. Leis estritas são as que pertencem a um sistema fechado, de
modo que qualquer coisa que possa afetar o sistema está nele incluído (com as leis da física
newtoniana, por exemplo).
3) O princípio do anomalismo do mental: não há qualquer lei determinística estrita, cuja base
possa dar garantias para que eventos mentais sejam preditos, explicados. Não há leis
psicofísicas ligando eventos mentais sob descrições mentais e eventos físicos sob descrições
físicas.
O mental como tendo um comportamento anômalo, é a negação dos outros dois – o mental,
ainda que sob a natureza, regrado pela causalidade, não se submete a leis estritas como as
leis, por exemplo, que explicitamos matematicamente para a natureza física em geral.

Contexto extensional - eventos que são tomados como estando em relações que são
independentes de suas descrições.
Contexto intencional - onde não é possível intercambiar elementos sem alterar o valor de
verdade das expressões em questão.
O resultado disso é que temos um monismo ontológico centrado no âmbito físico – os
eventos mentais nada acrescentam à “mobília do mundo”. E este monismo é acoplado a um
dualismo conceitual ou lingüístico – as leis são lingüísticas e, neste campo, distinguimos o
físico do mental por meio de descrições diferentes, uma vez que o que é descrito como
mental é o que é descrito como anômalo, ou seja, o que não se comporta segundo a
formulação de leis estritas (por isso a-nomolo, ou seja, sem lei). (Davidson, D. Donald
Davidson. Op. cit, p. 231).

os princípios constitutivos do mental incluem normas de racionalidade.

Linguagem e pensamento
Medimos quantidades físicas objetivamente, pois temos padrões intersubjetivos, mas não
temos concordância intersubjetiva a respeito de padrões de racionalidade para mensurar
eventos mentais. Então como fazemos? Mantemo-nos em comunicação e no decorrer desse
processo atribuímos a outros os nossos padrões de racionalidade, e continuamos a
conversação – assim nos entendemos. Não temos um fracasso da objetividade e a
impossibilidade de uma boa comunicação. (estratégia da imputação de racionalidade).

Nega a metáfora de que vemos através da linguagem. Essa ideia para da possibilidade de
possuirmos esquemas conceituais diferentes que veriam o mundo de modos particulares, e
que seriam incomensuráveis entre si.
Ele pergunta: como podemos entender o enunciado “vemos através da linguagem”? Entre
outras, três respostas aparecem no horizonte filosófico: 1) a linguagem é um meio que
simplesmente reproduz ou grava para a mente o que lhe é exterior; 2) a linguagem é muito
densa e, portanto, incapaz de falar do mundo como ele é verdadeiramente; 3) a linguagem é
um meio não muito denso, e então o mundo pode se responsabilizar pela tinta e pelo foco de
cada linguagem que falamos. Mas toma essas respostas como insuficientes.
Visão que trespassa essas respostas: a de que a linguagem faz o papel de um “esquema” que
deve apreender um “conteúdo”, que é o mundo. É a ideia de que há um “dado”, algo não
conceptualizado, de um lado, e há uma maquinaria de conceptualização, o “esquema”, de
outro. Em mais, o funcionamento perfeito ou imperfeito da relação dessa maquinaria que
molda o que é o dado, sua matéria prima, é o que daria uma linguagem capaz ou não de
contar algo válido a respeito do mundo.

A metáfora do óculos:
Há vários óculos que me permitem ver o mundo com várias perspectivas ou pontos de vista.
Davidson não aceita essa visão.
Quem concebe a relação linguagem-mundo como uma relação esquema-conteúdo termina
por falar que cada um tem o seu “de vista”. Aposta que há vários “óculos” para ler e ver o
mundo e atribui as diferenças de visão a tais óculos. Um sabor de antropologia pode dar o tom
para esse império do relativismo ponto de vista” ou sua “perspectiva” e que não é possível
optar de modo seguro entre os enunciados fornecidos por vários pontos. E mais, essa visão
acredita que cada par de óculos é exclusivo. Um par de óculos não poderia olhar por meio do
outro sem que não ocorresse uma presumida distorção.
Imagina, então, que em algum lugar há um par de óculos especial, que todos nós poderíamos
pegar e que uma vez posto sobre os nossos nos faria compartilhar todas as paisagens de
modo igual. Assim, o relativismo de sabor antropológico é abandonado em favor de algum
tipo de “fundamento”, nos moldes dos cânones da filosofia tradicional. A conseqüência é o
surgimento no horizonte das noções universalistas que requisitam elementos como “Homem”
ou “Sujeito Transcendental” ou “Classe Universal” ou, mais atualmente, “Comunidades
Lingüísticas Ideais”, etc. Vamos de Descartes a Habermas passando por Kant, Marx e outros, de
modo bem rápido. Como se vê, o caminho ao fundacionismo passa por uma conduta que nos
leva primeiro ao relativismo.

O problema é a noção de esquema conceitual à linguagem e não as várias abordagens-


Davidson acredita que a idéia de que há vários esquemas diferentes vale para quando
falamos de sistemas conceituais. E, de fato, esquemas de conceitos podem ser, em certo
sentido, tomados como incomensuráveis entre si na medida em que não falam dos mesmos
assuntos, temas e objetos. Ninguém negaria que existe a “ótica da sociologia positivista” em
contraposição à “ótica da sociologia historicista”. Ninguém negaria que existem divergências
de “ponto de vista”. Mas quando aplicamos a noção de esquema à de linguagem,
começamos a enveredar por torturas da imaginação – de dois modos que, na contabilidade
de Davidson, são equívocos: pensamos que, no limite, nossa comunicação é impossível, uma
vez que não possuímos uma mesma linguagem; ou aceitamos que a comunicação é possível –
uma vez que de fato nos comunicamos –, e nos obrigamos a consentir que estamos de posse
de uma e mesma linguagem previamente dada. O problema todo poderia ser eliminado
evitando tomar a linguagem como algo que ela não é: um meio.
(descarta a ideia da linguagem como um meio epistemológico ou um intermediário
epistêmico). Nesta imagem equivocada, a linguagem seria um meio para organizar o sense
data.

Descarta a ideia da linguagem como um meio epistemológico-


Dois argumentos para mostrar isso:
1 - contra a idéia da linguagem como órgão mental – defende a tese de que a linguagem é um
órgão especial da percepção;
2- contra o representacionalismo – defende a tese de que a noção de representação não é útil
para ser aplicada à atividade da linguagem ou do pensamento.
Obs: o problema da ideia de representação será o de duplicação de algo que não precisa ser
duplicado. A linguagem e o pensamento não duplicam; talvez as atividades científicas.

1 - se insurge contra a metáfora que diz que “nós vemos o mundo através da linguagem”.
Do através ao com
A linguagem, Davidson diz, não é um meio através do qual vemos. Não vemos o mundo
através da linguagem mais que o vemos através de nossos olhos; todavia, eis aqui o ponto
chave: nós não vemos através de nossos olhos, mas com os nossos olhos.
Não sentimos através dos dedos ou ouvimos através dos ouvidos e nem vemos através dos
olhos. Sentimos com os dedos, ouvimos com os ouvidos e enxergamos com os olhos. Então,
se é para fazer uma analogia entre linguagem como órgão e outros órgãos, como os do
sentido, que façamos a uma mais correta: os órgãos dos sentidos são elementos de contato
direto com o meio ambiente, sem intermediários; não lidamos com o mundo através da
linguagem; mas, sim, enfrentamos o mundo com a linguagem. (Davidson, D. Seeing through
Language. Op. cit, pp. 130-1).
Tese: a linguagem não é um meio epistêmico.

Pano de fundo da ideia de Davidson:


A tese da linguagem como um órgão análogo aos sentidos
Pensamos que a fala é radicalmente diferente dos sentidos, na observação de Davidson,
porque não há um órgão externo devotado exatamente para isso, e também por conta da
diversidade de linguagens. Mas essas diferenças não deveriam contar tanto, pois a fala tem um
local no cérebro tanto quanto os órgãos dos sentidos; tanto isso é verdade que danos
cerebrais podem causar a perda da habilidade de linguagem sem destruir a inteligência.
Contraposições a isso: a idéia da existência do “mentalês”, ou seja, uma linguagem interna de
pensamento, inata.
Chomsky e Steven Pinker
O que nos induziria a negar a analogia com os órgãos dos sentidos é que todas as linguagens
compartilham regras estruturais a despeito de sua variedade superficial. Além disso, há o fato
desconcertante sobre a capacidade lingüística das crianças. Um grupo de crianças, tendo
crescido ouvindo somente um pidgin, isto é, um jargão de mistura de palavras de diversas
origens, que é uma invenção de adultos colocados em um mesmo lugar sem uma linguagem
comum, consegue formar um creole, isto é, uma linguagem gerada por contato com diversas
culturas, tão complexa quanto o francês ou o turco ou outras.
A tese da linguagem não como um tipo de órgão análogo ao dos sentidos e sim como um
“órgão mental”. Seria o retorno da idéia, apontada como sem base por Wittgenstein, da
“linguagem privada”. No caso, o “mentalês”.
A idéia da existência do “mentalês”, ou seja, uma linguagem interna de pensamento, inata,
em cima da qual e através da qual aprenderíamos a linguagem que falamos, em geral aparece
exemplificada por vários argumentos: às vezes sabemos o que queremos dizer e não
encontramos palavras; ou reconhecemos que o que dissemos não era o que queríamos dizer; a
rapidez com que manuseamos a nossa linguagem materna.
Um mentalês que é traduzido pela linguagem social.

Davidson contra o mentalês:


Davidson vai de encontro aos cientistas cognitivos e linguistas que advogam o mentalês, pois
as conclusões filosóficas são equivocadas.
Chomsky mostra a tese de que há limites sobre a sintaxe que são inatos. Davidson ataca a
estratégia chomskiana: os limites sobre a sintaxe poderiam até ser tomados como inatos, ou
tomados como adquiridos na primeira infância, isso é irrelevante uma vez que não são limites
sobre a semântica. Não há razão, insiste Davidson darwinianamente, para supor que idéias,
conceitos ou significados são inatos.
Não nascemos com uma linguagem completa, que seria o “mentalês”.
A evolução nos fez mais ou menos adaptados ao nosso meio ambiente, mas a evolução não
poderia nos munir de conceitos – a natureza decidiu que os conceitos viriam naturalmente,
mas isso não quer dizer que a mente sabia antecipadamente com o que a natureza se
pareceria. (Davidson, D. Seeing through Language. Op. cit, pp. 134-5).

A fala como um órgão da percepção proposicional:


A fala é eleita por Davidson como um modo de percepção. Não um órgão a mais –
simplesmente. Se é que os sentidos devem nos render algum conhecimento proposicional, e
considerando que os sentidos, por eles mesmos, não podem nos dizer muita coisa, lançamos
mão da idéia da fala comunicacional – da linguagem – como um órgão essencial: ela é o órgão
da percepção proposicional.
Ex: se Joana vê uma luz e ouve um som ela está sem perceber o que há para ser percebido até
dizer algo como “Acabei de ver um cachorro na porta” ou “Escutei um latido”. Joana evoca os
verbos “ver” e “ouvir”, o que requer os sentidos, mas ela acredita que está diante de um
cachorro (e não um gato ou qualquer outra coisa), e essa crença se expressa para ela própria e
para nós por meio de enunciados. Então, para tal, ela acionou uma função proposicional.
Obs: os sentidos tem que ser sentidos proposicionais e não podem ser não-conceitualizados?
Neste caso a percepção é proposicional, já os sentidos ainda não, ele não é razão.
Ou seja, os sentidos por si próprio não são razões;
Por isso que o pensamento – as crenças, desejos, intensões etc são proposicionais. Quando
seu ferroado por uma abelha, já tenho que estar no espaço da conceitualização, da crença do
que é uma abelha, se é verdadeiro ou falso que fui ferroado por ela.

A função perceptiva de perceber se desenvolve junto com a linguagem.


Razão e causas.
Há de fato uma cadeia causal entre o cachorro na porta e as retinas de Joana, mas o que Joana
vê e ouve como diz que vê e ouve não são as vibrações na sua retina nem o tremular de
pequenos fios no tímpano, mas são as razões (motivos) pelas quais ela pode evocar para dizer
que vê e ouve um cachorro. Razões, segundo a teoria da ação de Davidson, são causas. Mas
nem todas as causas são razões. Quando diz “Vi o cão com os meus próprios olhos”, ela está
dando uma razão, é claro, para acreditar que há um cão ali na sua frente, e não um gato ou
qualquer outra coisa, mas isto quer dizer realmente que ela viu algo que a fez acreditar que há
um cachorro e não qualquer outra coisa na porta.

Joana, como qualquer um de nós, tem sensações e pode se reportar a elas como razões para
suas crenças. Mas as sensações, elas próprias, não constituem razões. Elas podem aparecer
em enunciados que expressam o que Joana acredita, e então serem razões. Mas elas próprias,
as sensações, não possuem conteúdo proposicional e, então, não são razões. Aqui a distinção
entre sentidos e percepção fica clara: sensações não podem ser razões; as razões são as
crenças que surgem da percepção e por isso esta se articula imediatamente com a linguagem
ou, então, nem poderia existir. Idem, p. 135.
Obs: a percepção já tem investimento proposicional com linguagem.
Assim, davidsonianamente, descartamos sensações como suportes epistemológicos.
Por suporte epistemológico estamos indicando o que garantiria, em uma teoria do
conhecimento, o tipo de conhecimento (ou proto-conhecimento) que sustenta outros,
indubitavelmente ou ao menos de uma forma razoavelmente garantida.
Entre o meio ambiente e a nossa pele, não existe nada a não ser relações causais, mas disso
não temos que tirar a conclusão de que a relação entre pensamento e estímulo é algo simples.
As relações são complexas, e não temos que confiar mais em nossas crenças empíricas, mesmo
as de percepção, do que em outras. Então, a única base razoável para darmos crédito para
uma crença são outras crenças.
O trabalho da filosofia moderna de tentar ser árbitro entre um imaginado dado não
conceptualizado e o que é necessário para sustentar uma crença é uma tarefa encerrada,
inútil.( Idem, p. 136).

Problema entre crenças e mundo, como reconcilia-os?


A tese de Davidson de que a única base racional para uma crença são outras crenças, coloca
uma questão importante: qual é o papel da natureza, se há algum, na determinação dos
conteúdos das crenças? Essa questão é aparentada com a questão da linguagem. E isso no
seguinte sentido: pode-se insistir que a linguagem, tal como a percepção, não possui
intermediários, mas essa insistência não nos proporciona uma explicação sobre como temos
os conteúdos das sentenças observacionais que temos. Do mesmo modo que não nos fornece
uma explicação a respeito do conteúdo de nossas crenças de percepção. Isso desemboca em
um problema filosófico clássico: como que as crenças, uma vez sustentadas
epistemologicamente somente por outras crenças, podem de maneira completamente
independente ou em conjuntos, serem conectadas como o mundo? Com isso, em parte
retornamos ao problema do relativismo. Em que confiar se nunca conseguimos sair da cadeia
de crenças? Ou seja, que grupo de crenças teria mais legitimidade que outro, para se colocar
como garantia epistêmica?

1 – Sentenças de percepção. Começamos a investigação perguntando como as sentenças


diretamente ligadas à percepção adquirem seus conteúdos. Essas sentenças são as sentenças
de percepção.
Ex: Elas não são, necessariamente, simples, e nem mesmo as mesmas para todos. Nós as
aprendemos de modo bastante direto, olhando para as coisas ou ouvindo sons. Por exemplo,
Joana vê um cachorro grande na porta e pode explicar por que o que viu causou ou produziu a
sua crença de que há um cachorro na porta. Mas isso não é o mesmo para todo mundo.

O conteúdo empírico das sentenças de percepção:


Vem das situações que nos provocam e nos levam a aceitá-las ou rejeitá-las. O mesmo ocorre
para as crenças expressas por tais sentenças. Todavia, que razão nos conduz a dizer que o
conteúdo expresso é o mais adequado? Sabemos que se pode muito bem aprender a afirmar
sentenças em uma linguagem, em situações em que tal sentença é verdadeira, mesmo sem o
seu entendimento. Davidson exemplifica lembrando que alguém, sem nenhum conhecimento
de física, pode facilmente dizer “lá se foi um elétron” ao ver uma faísca em uma nuvem.
Entender uma sentença implica em reconhecer situações ou objetos que estão no seu
conteúdo. Uma sentença simples tal como “isto é uma colher”, para ser entendida, requer o
conhecimento do que são colheres – coisas físicas, duras, etc. Eis aqui algo que depende de
um aprendizado no qual a ostensão desempenha um papel fundamental. (Idem, p. 137).
Obs: associar o conteúdo aos objetos para saber em que situação uma sentença é verdadeira.
Reconhecimento do que são os objetos que estão sendo postos.
Obs: os objetos são causas e reconheço pelas minhas atitudes proposicionais que dão
conteúdo proposicional a estas sentenças de percepção. Quando digo: alí tem um cachorro
tenho a crença de que há um cachorro e não um gato, faço um juízo, uma classificação , mas
quando faço essa classificação já sei suas condições de verdade e circularmente não saberia
que é uma proposição sem saber as suas condições de verdade. por isso temos atitudes
proposicionais.

Equivoco: achar que a formação do conceito se dá em um nível mais primitivo do que aquele a
qual pertencem as atitudes proposicionais, em particular as crenças. Ter um conceito, para
Davidson, implica em classificar objetos ou propriedades, ou eventos, ou situações e
entender o que caiu fora da classificação escolhida por não pertencer às classes
discriminadas.
Insiste em nos advertir que é um erro achar que uma criança muito pequena que nunca diz
“mamãe”, exceto quando sua mãe está presente, possui algum proto-conceito de mãe.
A conexão entre conceitos e pensamentos, Davidson desfaz a idéia popular de que a formação
de conceitos seria apenas um estágio entre disposições e juízos.

O que deve ser acrescentado a um som sem significado, que é emitido posteriormente em
momentos apropriados, mas tomado agora como fala, para que o som sem significado seja
visto então como tendo significado?

À descrição da triangulação, que pode nos explicar linguagem e pensamento. O


compartilhamento de respostas a estímulos similares permite a emergência de um elemento
interpessoal. Este é o modelo: criaturas que compartilham respostas podem correlacionar as
respostas de cada elemento da situação compartilhada com aquilo que são as situações que
geraram as tais respostas.
Ex: A pessoa A responde às respostas da pessoa B às situações similares a A e B. Um triângulo é
então estabelecido. Com três ângulos, A, B e C, onde neste último estão os objetos ou
eventos, ou situações as quais eles respondem mutuamente. Essa interação triangular
elaborada, que forma um lugar comum, ainda não requer pensamento ou linguagem. Ela
ocorre com freqüência entre animais que não pensam e não falam. Mas a partir desse
triângulo básico, há dois elementos que surgem e que estão interligados à existência de
pensamento e linguagem: possibilidade do erro e movimento de percorrer a triangulação
quantas vezes for necessário.

Erro e conceito de verdade objetiva:


O conceito de erro, isto é, apreciação da distinção entre crença e verdade – eis o primeiro
passo. O triângulo aí é o espaço para que isso possa aparecer. Na relação entre duas
criaturas, em reação a um mesmo estímulo, o que é esperado por uma ou outra pode gerar
uma frustração. Isso é o espaço para o erro. Quem olha de fora do triângulo pode sempre
dizer diante da frustração de uma, manifesta em seu comportamento, que há erro, onde que
houve um comportamento errado por parte de um dos elementos do triângulo. As próprias
criaturas do triângulo também podem chegar à mesma conclusão. Se assim de fato fazem, elas
alcançaram o conceito de verdade objetiva.

Estamos num círculo: alcançamos o conceito de verdade somente quando podemos


comunicar os conteúdos, ou seja, os conteúdos proposicionais da experiência compartilhada,
mas isso já requer a linguagem, e foi dela que partimos. O triângulo primitivo de duas
criaturas reagindo em comum acordo às características do mundo e às reações uma da outra –
eis o que fornece o quadro em que pensamento e linguagem podem evoluir. Assim, nem
pensamento nem linguagem podem vir primeiro, pois cada um requer o outro. Não há
nenhum enigma aí do tipo “ovo e galinha”. As habilidades de falar uma linguagem, de
perceber e de pensar, se desenvolvem conjuntamente e de modo gradual. A conclusão
davidsoniana implica em dizer que não vemos através da linguagem, mas percebemos o
mundo através da linguagem, isto é, por meio de ter uma linguagem. (Idem, pp. 130-40).

Linguagem, Anti-representacionismo e Slingshot


Descartando a linguagem como meio epistêmico, Davidson, diz que ela não é um meio de
representar o mundo. Contra a ideia de duplicação.
Descarta representações e fica apenas com causas.
Por que é descartável dessa noção?
Todavia, apesar desse uso cotidiano da palavra “representar”, acredita que “nomear” ou
“descrever” são maneiras melhores para expressar a relação que se efetiva entre nomes e
aquilo que é nomeado, ou entre uma descrição e o que é descrito.
Confessa trazer sob rédea curta a idéia de que alguma expressão re-presenta um objeto ou
evento. A razão disso é que, segundo seu entendimento, as únicas manifestações diretas da
linguagem são enunciados e inscrições, e somos nós mesmos que lhes damos significações; a
linguagem é, portanto, uma abstração, de modo que não pode ser um meio autônomo – não
pode ser um meio representacional – através do qual alcançamos o mundo, nem mesmo um
meio entre nós e a realidade. (Davidson, D. Reply to Stephen Neale. In: The philosophy of
Donald Davidson. LLP – XXVII. Nova York: Open Court, 1999, pp. 667-8).

Não temos a capacidade de individuar representações de fatos-


Essa é a ideia básica contra o representacionalismo. Tal argumento se dá com o slingshot - O
que faríamos, no máximo, seria levar adiante a representação do “Grande Fato” – totalmente
inútil.
Davidson entende que não conseguimos delimitar e individualizar X em nossa linguagem. O
enunciado E não perde sua validade, mas X, não sendo individualizado, se transforma no que
Davidson chama de o “Grande Fato”.
Então a correspondência perde sua utilidade. Dizer que S é verdadeiro se e somente se S
corresponde a um fato que não conseguimos individuar não ajuda.
Se algo é para ser representacionalmente correspondente a uma sentença, este algo tem de
ser possível de ser individualizado. Se não é, não existe o que representar. O que é que
corresponde representacionalmente na equação entre S e X, se X é nada mais nada menos que
“o Grande Fato”? Assim da falha da teoria da verdade como correspondência, surge a
insustentabilidade do representacionismo. ( Davidson, D. Truth. In: Kotakto, P e outros (orgs).
Op. cit., p. 295).

O pensamento, o ceticismo e a abordagem externalista –


Será que temos boas razões para sustentar aquelas crenças que ocorrem de serem
verdadeiras? Aceitando a definição de conhecimento como “crença verdadeira bem
justificada”, a pergunta cética é sobre se temos conhecimento, uma vez que para dizer que
realmente temos conhecimento teríamos de ter razões indubitáveis. Se nossas crenças não
podem ser bem justificadas, então não deveríamos questionar se o mundo é todo ele como
acreditamos que ele é?

Devemos rejeitar a perspectiva de que todo o conhecimento a respeito do mundo depende de


objetos ou fenômenos diretamente presentes em mentes individuais, objetos tais como dados
dos sentidos, impressões, idéias, sentimentos crus ou proposições. Temos de rejeitar a
afirmação de que apreenderíamos esses objetos, aqueles que seriam a nós apresentados
mesmo que o mundo fosse completamente diferente do que ele é.
Uma filosofia que tem intermediários epistêmicos ou de que alguns objetos são básicos
epistemologicamente. Esse é o subjetivismo.
O que é o subjetivismo? É a doutrina segundo a qual o mundo de cada indivíduo é construído a
partir do material disponível na sua consciência, material que é conectado ao mundo exterior,
se é que é conectado, somente de maneira indireta.
Empirismo – é uma forma de subjetivismo; a fonte de nosso conhecimento empírico está nos
sentidos; é a doutrina que diz que as evidências últimas para nossas crenças sobre o mundo
externo é algo não conceptualizado que nos é dado, diretamente, na experiência.

Externalismo x Subjetivismo
externalismo social - sustenta que, de um modo ou de outro, nossos pensamentos dependem
de nossas interações com outros seres pensantes. - Kripke
externalismo perceptivo - diz que há uma conexão necessária entre os conteúdos de nossos
pensamentos e as características do mundo que os tornam verdadeiros. - Tyler Burge.

Davidson junta as duas posições, mas acrescenta algo, pois mesmo as duas juntas ainda não
resolveriam um problema levantado por Wittgenstein. Um bom externalismo poder ser uma
resposta plausível a qualquer dúvida cética. Tal resposta implica na capacidade de resolver um
dos problemas formulados por Wittgenstein. Qual?
Como podemos identificar um erro como um erro?
Através do conceito de erro.

Se concordarmos com Arthur C. Danto (Danto, A. Connection to the world), entendendo que a
filosofia não tem de se ocupar com a distinção entre o falso e o verdadeiro, e sim com a
maneira como chegamos a uma compreensão de critérios sobre o errado e o engano, então
podemos afirmar que Davidson se envolve com o que é a própria tarefa que define a filosofia.
O problema então é o de saber como é que distinguimos, por exemplo, uma falsa vaca de
uma vaca. Davidson não se constrange em dizer que saber sobre a vaca é saber sobre o
conceito de vaca.
Não se quer dizer com isso que há uma velha concepção de identificação em Davidson.
Ele não toma a noção de conceito como necessariamente implicando em “representação”. A
noção de conceito é um instrumento de operação.

A tarefa do externalismo de Davidson é a de explicar como podemos alcançar a noção de erro


– o conceito de erro.
Instrumento de operação: pode ser dito de Joaninha que ela tem o conceito de X se sua
classificação de características de X obedece a um resultado que pode ser dito avaliado, ao
final, como correto, ou mesmo como incorreto. Ter um conceito é exatamente isso: poder ser
avaliado em suas classificações. Ter ou não conceitos é derivado de poder classificar
corretamente ou classificar incorretamente.
A questão é a de explicar como adquirimos o conceito de erro. Temos de ir do erro ao
conceito de erro – é exatamente isso que o externalismo de Davidson faz.

Ideia comportamentalista
Tenta explicar o erro notando a causa e as reações que temos a ele. Causas comuns e reações
comuns aos chamados fatos brutos sugerem algo sobre como alcançamos a noção de erro.
se há um estímulo que permanece o mesmo e reações a ele, de diversas pessoas, que
permanecem muito semelhantes, estamos aí diante da idéia de que pode se seguir uma regra,
e quando não a seguimos, há o erro.
Para Davidson isso cria um espaço para o erro, mas não é suficiente para explicar como
alcançamos a noção de erro e, assim, como chegamos a poder conceptualizar.

Um triângulo interconectado (duas leoas, uma gazela) constitui a condição necessária para a
existência de conceptualização, pensamento e linguagem.
Mas o importante para Davidson não é a existência de Joana somente, ou seja, a presença do
observador que faça o papel de “terceira pessoa”, o que é necessário é que o observador
possa ver a comunicação entre elementos que coordenaram ações em busca de objetivos.
O triângulo de Davidson – uma proposta célebre em sua teoria – só é original enquanto um
modelo filosófico para explicar conceptualização, pensamento e linguagem na medida em que
torna possível para Joana apontar para a causa relevante na situação de mudança de
comportamento que observa entre as leoas.

O ceticismo é fraco diante de modelos que podem contar com a linguagem como elemento
produzido socialmente.

Contabilidade da reação mútua de cada um quando do estímulo que é a visão de algo.

A melhor maneira de lidar com o cético é mostrar quão implausível é sua tese.

Davidson estabelece quatro pontos de apoio que, ao mesmo tempo, correspondem ao plano
de sua abordagem: 1) define sua metodologia como sendo a do naturalismo filosófico; 2)
estabelece as proximidades e as diferenças de sua postura para com Descartes; 3) aponta para
a aquisição da noção objetiva de verdade enquanto apreendida conceitualmente como
sendo o marco necessário do que ele qualifica como pensamento racional pleno; 4) e, enfim,
faz a defesa do holismo (tanto em relação ao pensamento quanto em relação à linguagem)
como o melhor modo de entendermos o pensamento e, se assim quisermos, afastar o que
ainda poderiam ser resquícios do ceticismo.

Naturalismo epistemológico Davidsoniano

Ponto em comum com Descartes -


em seu modo de filosofar não há espaço para duvidar do próprio pensamento. Não podemos
duvidar do pensamento porque a própria dúvida da existência do pensamento é um
pensamento. É impossível ter uma dúvida sem saber que ela é uma dúvida. (reflexividade).

O que Davidson não concorda com Descartes e os empiristas?


Descartes baseia todo o conhecimento em algo que dado imediatamente à mente – algo que
não se pode questionar (o Cogito). Os empiristas afirmam que o dado inquestionável são
percepções, impressões, dados dos sentidos, dados não interpretados da experiência. Erram
compartilhar da convicção de que somente o que está imediatamente diante da mente é
conhecido diretamente e sem inferência. Assim, de ambos os lados da filosofia moderna, tudo
que podemos conhecer estaria baseado no que é certo e imediato, subjetivo e pessoal.

Como podemos justificar nossas crenças (objetivas, isto é, independente de nossas mentes) no
mundo? Segundo: como temos o conceito de uma realidade objetiva?
A explicação de como agarramos o conceito de verdade objetiva cai na dependência de
explicarmos como o pensamento é possível.
Um pensamento é definido, ao menos em parte, pelo fato de que tem um conteúdo que pode
ser verdadeiro ou falso. A forma mais básica de pensamento é a crença. Não podemos ter
uma crença sem entender que uma crença pode ser falsa ou verdadeira.
Ex: Quando Joana diz “Creio que não há um dragão atrás da porta” ela sabe que sua crença
está associada a poder abrir a porta e, então, é claro, ver que não há um dragão (ou que há, e
então sua crença é declarada falsa). O essencial é o elemento surpresa. A consciência da
possibilidade da surpresa é o essencial para a crença.
A crença é pessoal, pode estar errada ou não. A verdade, diferentemente, é objetiva.

Como então adquirimos o conceito de verdade?


Não podemos explicar a apreensão do conceito de verdade por meio da presença da
frustração de uma expectativa uma vez que para sermos frustrados diante de uma
expectativa já temos de estar de posse, antes, do comando de tal conceito. Ficar surpreso é
reconhecer a distinção entre o que conjecturamos e o que é o caso. Ter uma expectativa é
admitir que o que se espera pode não ocorrer ou pode não se mostrar como o que
acreditamos.

Conceito está ligado ao modo –


Aplicar um conceito é fazer um julgamento (juízo) no sentido de classificar ou caracterizar
um objeto ou evento ou situação de certo modo, e isto requer o conceito de verdade, uma
vez que é sempre possível classificar ou caracterizar algo de modo errado.
Ter um conceito: é poder cogitar (entertain) a respeito de conteúdos proposicionais, é ser
capaz de formar julgamentos, é ter o comando do conceito de verdade.
Se temos um temos todos.

Holismo, isto é, a interdependência de vários aspectos do mental.

Uma sentença é inteligível porque sabemos, antes de tudo, sob que condições ela seria falsa
ou verdadeira. Saber o que seria para uma proposição ser falsa ou verdadeira não
necessariamente implica em saber contar quando ela é falsa ou verdadeira, muito menos
saber dizer se ela é falsa ou verdadeira. O que é necessário saber para a inteligibilidade de uma
proposição são suas condições de verdade.
Para conhecer uma proposição, faz-se necessário, também, ter o conceito de verdade, o que
implica em ter o conceito de objetividade; isto é, ter a noção do que é uma proposição ser
verdadeira ou falsa independentemente dos interesses de toda e qualquer criatura. (e isso é
também ter o conceito de crença).
Holismo: ter uma atitude diante de uma proposição de maneira que se possa ver que ela é
verdadeira ou falsa de modo independente é acreditar em muitas outras proposições
concomitantemente.
Ex: Se Joana imagina que está vendo um grande cachorro na porta, e ela se assusta porque não
quer ser mordida, ela tem uma idéia do que é um cachorro. Um cachorro é um animal. É um
cachorro, não é um gato. É um cachorro grande, o que implica em saber que há cachorros
pequenos e que este é de um tipo grande. Isso implica em saber o que é grande e o que é
pequeno. Um cachorro pode morder alguém, um gato provavelmente não faria tal coisa. Há
cachorros dóceis e não dóceis. Mesmo sendo dócil, pode morder um desconhecido ou mesmo
um conhecido sob determinadas circunstâncias. Assim, há uma lista – infinita mesmo – de
proposições que se agregam à primeira.
Sem essas crenças que surgem em pacotes não há como cogitar algo a respeito da
proposição “eu vejo um cachorro grande na porta”. Não há, antes disso, como acreditar ou
desacreditar dela, ou desejar que ela seja falsa, ou perguntar se ela é verdadeira ou, enfim,
investigar o que a torna verdadeira.

O que existe?
Um tipos de semântica da referência: a semântica que relaciona expressões a objetos.
E falar de linguagem e pensamento é de alguma forma falar na relação de referência.

O estudo da linguagem, para Davidson, é necessariamente um estudo de ontologia da


linguagem.( Davidson, D. Method and metaphysics. In: Truth, language, and history. New York:
Oxford, 2005b, p. 40).

Se sabemos algo sobre a semântica da linguagem e, então, isso nos envolve com a ontologia
da linguagem, podemos aprender algo da própria ontologia? Temos condições de lidar com as
questões tradicionais sobre “o que há?”?
Davidson responde afirmativa e taxativamente essa pergunta. De posse da semântica correta,
os objetos que designamos com as expressões são objetos que existem.( Idem, ibidem).

Quine mostra que não conseguimos uma relação entre um enunciado em uma linguagem e um
enunciado em outra linguagem cuja correspondência possa ser tomada como exclusiva e como
sendo a única correta. Não encontrar uma única tradução entre uma linguagem e outra é, para
muitos, a porta aberta para um relativismo que nos levaria ao ceticismo. No entanto, Davidson
entende que isso não é uma ameaça à objetividade de nossa capacidade de dissertar sobre o
mundo (e de nos comunicarmos) tão mais perigosa que o fato de usarmos formas de medidas
diferentes (polegada, metro, centígrado, fahrenheit, etc.) é uma ameaça para a objetividade
de nossa mensuração(Idem, ibidem).

Tese da concordância de Davidson:


a interpretação de uma pessoa, usuária de uma linguagem determinada, por outra pessoa com
outra linguagem, depende da concordância que elas chegam a respeito do mundo que as
cercam.
Tese subjacente: a impossibilidade do erro maciço e do interprete onisciente.
Filosoficamente, para dar continuidade à defesa dessa tese, é necessário mostrar que a
ocorrência de um erro enorme, ou seja, um erro de ambas sobre tudo que as cercam, não faz
sentido.
Poderíamos imaginar um intérprete onisciente e correto metodologicamente.
Existindo, ele seria aquele que interpretaria qualquer falante como tendo, no geral, crenças
corretas. Um intérprete que está correto sobre o mundo e correto em suas interpretações
necessariamente encontra um falante que no geral está correto, então o falante deve
realmente estar correto.

1) a consideração do padrão das crenças que um intérprete pondera que são possíveis de
atribuir a um agente;
2) a consideração das conexões causais entre o agente e o mundo.
Esses dois princípios podem ser chamados de princípios de consistência interna e de
observação de causalidade, ou princípios de coerência e realidade.

1) Como obedecer a coerência interna?


O intérprete tem de rejeitar uma interpretação semântica de uma sentença, que um falante
sustenta como verdadeira, se a interpretação torna essa sentença uma contradição óbvia. O
intérprete desconfiará de uma interpretação que encontre duas sentenças contraditórias
mantidas verdadeiras pelo falante. – ex: acreditar que uma proposição p é verdadeira e,
também, acreditar que a negação de p é verdadeira.
De um modo geral, ele deve apostar em interpretações que tornam o falante um signatário
de seus próprios padrões, os do intérprete, de consistência e racionalidade.
O que está por trás de tal estratégia: proposições são identificadas pela posição que ocupam
em um meio de outras proposições; se uma proposição é mudada para longe de sua posição,
as razões para identificá-la como aquela proposição serão perdidas.
Obs: a proposição identificada pela sua posição se assemelha a ideia de estrutura na
matemática em que o valor se dá pela posição dos elementos dispostos uns com os outros.

A partir da semântica, Davidson nos conduz até à ontologia.


Na investigação ontológica, nos faz mais próximos à verdade relacionada a pessoas, ou,
certamente a qualquer criatura capaz de pensamento.
É impossível crer em uma contradição; assim considerando, nossas crenças sobre o mundo
não podem ser falsas. É certo que é possível acreditar em proposições contraditórias: pode-se
acreditar que uma proposição p é verdadeira e, também, acreditar que a negação de p é
verdadeira. Mas aquilo que não merece crédito é o seguinte: uma proposição da forma p e
não-p é verdadeira. Nada poderia contar como uma razão adequada para se atribuir tal crença
a uma pessoa.

Obs: o conceito de verdade é necessário porque nos faz ver que podemos estar errados ou
equivocados sobre as nossas crenças sobre o mundo. A dúvida já nos lança na
metalinguagem, na reflexividade, e é somente até aí que vou com Descartes. Se ela existe é
porque temos crenças com conteúdos proposicionais, ou seja, podem ser v ou f.
A possibilidade da dúvida já nos lança na esfera proposicional.
Se tudo estivesse correto não precisaríamos do conceito de verdade.
Toda dúvida já tem como pressuposto o conceito de verdade, de objetividade.
Portanto, somos seres pensantes porque temos atitudes proposicionais, já pensamos tendo
com base o conceito de verdade.

2) Como obedecer a realidade?


Vendo as conexões causais.
Elas são de dois tipos, dependendo da direção da causalidade: a ação revela os efeitos do
pensamento de um agente sobre o mundo exterior a ele; as sensações mediam os efeitos do
mundo sobre as crenças do agente.
O que é exigido será que as conexões causais sejam respeitadas na interpretação.
Ex: se alguém está normalmente estimulado por corujas, e está sob boa luz para poder manter
verdadeira a sentença “há forujas aí”, e então, estando todas as outras coisas em acordo com
essa interpretação, a melhor hipótese é de que o falante usa a palavra “forujas” para se referir
às corujas. Tais condicionamentos diretos de palavras a objetos devem repousar na base da
interpretação correta, e se assim é, a interpretação correta torna um falante em alguém que
acredita em muitas outras coisas verdadeiras sobre o que existe. (Idem, ibidem, pp. 44-5).