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Coleção

QUESTÕES DA NOSSA ÉPOCA


Volume 89 Carlos Antonio Aguirre Rojas

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Aguirre Rojas, Carlos Antonio


Tempo, duração e civilização : perspectivas
braudelianas / Carlos Antonio Aguirre Rojas ; tradução
TEMPO, DUR
CIVILIZAÇÃ
de Sandra Trabucco Valenzuela — 2. ed. — São Paulo,
Cortez, 2002. — (Coleção Questões da Nossa Época; v. 89)

Título original: Ensayos braudelianos


ISBN 85-249-0804-|

1. Braudel, Fernand, 1902-1985 2. Historiografia


Percursos Braudelianos
3. Historiadores — França — Biografia |. Título II. Série.

Tradução:
01-3756
Sandra Trabucco Valenzuela
CDD-907.2072

Índices para catálogo sistemático:

1. Historiadores : Biografia e obra 907.202

DA NOSSA EPOCA
Título original: Ensayos braudelianos
Carlos Antonio Aguirre Rojas

Capa: DAC
rep aração de originais: Silvana Cobucci Leite
Revisão: Maria de Lourdes de
D

sição: Dany Editora 1


Ltda. O Passado e a Chave do Tamanho COD COLO LC arara...
o editorial: Danilo A. Q. Morales
Prólogo ao leitor brasileiro o

Capítulo 1 — A longa duração: in illo tempore et

Os tempos da longa duração Pere e esa Mes sa Ceras e coco 26


Longa duração e temporalidade oriental 32
Os múltiplos “tempos vividos” do
Pré-CapitalisMO rr 38
Iempo capitalista e marco temporal... 44
A linha aberta pela teoria dos diferentes
LEMPOS er ii
51

Capítulo 2 — A longa duração no espelho. (Para


além do tempo “vivido” e do tempo
“expropriado”) PR 57
Capítulo 3 — Civilização material e história da
vida cotidiana... rien SO

Nota bibliográfica res aaa retas cena e 97


Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada
sem autorização expressa do autor e do editor. A obra de Fernand Braudel erra serasa tener are er 97)
Livros mais importantes de Braudel eterna nei 98
O 2001 by Autor
trabalhos sobre a obra e a figura de Braudel ...... 1092
Direitos para esta edição Obras coletivas em torno da obra de Braudel..... 103
CORTEZ EDITORA o
Irabalhos individuais sobre a obra e a figura
Rua Bartira,
05009-000 — São Paulo -S
a”
de Braudel essere Ti 107
Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290
E-mail: cortez Gcortezeditora.com.br

Impresso no Brasil — agosto de 2002


O PASSADO E À CHAVE DO TAMANHO

Este volume reúne ensaios derivados das instigantes


reflexões que O professor Carlos Antonio Aguirre Roj as,
da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM),
vem desenvolvendo, pacientemente, para a elaboração do
que chamou uma “biografia intelectual” de Fernand
Braudel.
O historiador francês, autor de O Mediterrâneo e o
mundo mediterrâneo na época de Felipe II (1949), Civili-
zação material, economia e capitalismo (1979) e À iden-
tidade da França (1986), marcou a historiografia do sécu-
lo XX. Entre suas elaborações intelectuais, a distinção das
temporalidades, das dimensões, ritmos e velocidades var1-
adas do tempo histórico na percepção e compreensão do
passado, tornou-se a mais difundida. É, talvez, a menos
explorada pelos historiadores. Braudel teve inúmeros alu-
nos e alguns discípulos, dentro e fora da França, inclusive
no Brasil, mas seu legado intelectual permaneceu pouco
ou timidamente conhecido pelas gerações posteriores. 51-
tuação paradoxal, a divulgação dos livros e do nome de
Fernand Braudel não deixou de expandir-se, em escala pla-
netária, desde a década de 1970, intensificando-se após
seu falecimento, em 1985.
Este livro constitui um esforço de compreensão, por
um lado da glorificação de Braudel, ainda em vida, e da
crescente propagação de suas obras. Por outro, contém um
meticuloso diálogo com as idéias, análises, conceitos, pro-
cedimentos metodológicos, experiências pessoais, intelec-
tuais e profissionais que respondem por essa consagração,
incomum na corporação dos historiadores. Impressionan-
te a visão de conjunto dessa irradiação, apresentada aqui
em levantamentos sobre edições francesas € estrangeiras
vendagem dos livros, traduções, artigos, entrevistas... Um
inventário de grande alcance, na busca do sentido da pro-
jeção de um indivíduo e de sua produção historiográfica.
O estudo de conceitos como os de longa duração, coti-
PRÓLOGO AO LEITOR BRASILEIRO
diano e civilização material, entre outros, basilares do
pensamento de Fernand Braudel, elucidam formulações
metodológicas que singularizaram sua reflexão sobre o
Por que publicar um novo livro ou uma nova cole-
passado e o próprio conhecimento histórico. Nesse aspec-
ção de ensaios sobre a contribuição de Fernand Braudel?
to, Os textos deste volume ganham densidade analítica, ali-
Uma pergunta pertinente, que o leitor pode se fazer
mentada pela quantidade e a qualidade das informações, a
diante do material que ora tem em mãos. E a resposta,
convocação teórica de autores, obras e debates referenciais
das ciências humanas no século XX, as conexões intelec- em nossa opinião, pode dar-se inicialmente já em duas
tuais existentes nos vários escritos do historiador, abrindo dimensões diferentes: em geral, e de modo cada vez
mais evidente, pela crescente atualidade que a obra de
caminho para uma interpretação consistente sobre o papel
e o significado cultural de Braudel e sua obra. Fernand Braudel apresenta em todo o mundo, pela pro-
gressiva e irrefreável difusão e recuperação de suas prin-
Nas páginas deste livro comparecem rigor, argúcia e
cipais teses e propostas, e, em particular, pela ainda
clareza que estimulam o diálogo entre os historiadores e
entre estes e o conjunto das ciências sociais na atualidade.
insuficiente pesquisa que mesmo no Brasil já se fez
acerca da relevância fundamental que a “experiência
Nas páginas que se seguem, o interesse e a contribuição
brasileira” teve, não só na biografia intelectual do pró-
que as idéias de Fernand Braudel podem oferecer são abor-
dados com assertividade e entusiasmo. Estas são caracte- prio Fernand Braudel, mas, sobretudo, na definição e
construção específicas de suas singulares perspectivas
rísticas de Carlos Antonio Aguirre Rojas, incansável pes-
e cosmovisões históricas.
quisador do universo braudeliano, que, uma vez mais, com-
parece ao debate com leitores brasileiros. Assim, diante das evidências e dos inúmeros fatos
que afirmam com força crescente a figura de Fernand
São Paulo, 14 de julho de 2001 Braudel como o historiador mais importante de todo o
Paulo Henrique Martinez século XX, pode ser oportuno refletir um pouco sobre
Professor no Departamento de História as possíveis causas dessa atualidade expansiva da con-
da UNESP, Assis-SP tribuição braudeliana, trazendo alguns elementos que
talvez permitam, num futuro próximo, incentivar essa
pesquisa ainda pendente dos complexos vínculos entre
o Brasil e a América Latina e a trajetória e a obra do
historiador francês, autor de O Mediterrâne
do mediterrâneo na época de Filipe II. smoca de Filipe II, começou a s
Como explicar, então, a enorme difusão e
do, primeiro no mundo anglo-saxão
dade dos trabalhos de Braudel-m toda
nas ahistoriografia
Europa e no mundo, que po
Bh

corma Fernand Braudel, de respeitado intelect


cionais de praticamente todo o planeta,
“hecido é essa
nos círculos nero.de algumas
de vanguarda
tente vigência é atualidade inovadora denacionais
suas picodo mundo ocidental, em uma
sais obras? Trata-se, sem dúvida, defigura
uma difusão rel mais pública, que
cada vez
e até
mente excepcional, que em alguns casos alcança ní. das ciências sociais, para come-
veis de verdadeiros recordes, somada a uma atualidade «ar a ser conhecido, lido e dis
e vigência de obras, algumas escritas há cinquenta anos culto e por amplos setores da opinião pública
que à primeira vista surpreendem e desconcertam, exi- mundial.
gindo de nossa parte um esforço especial para explicá- Assim. no ritmo em que aumentam Os doutorados
las adequadamente. honoris causa dos quais Braudel é titular — entre 1974
e 1985, ele recebeu nove títulos de doutor honoris Cau
Assim, ao iniciar estas reflexões sobre algumas das
sa, que se somarão aos onze que já possuía em 1975,0
contribuições teóricas, metodológicas, problemáticas e
primeiro dos quais concedido pela própria Universida-
historiográficas contidas nas obras braudelianas, vale a de de São Paulo, em 1954 — e em que se multiplicam
pena refletir mais seriamente sobre o sentido profundo as entrevistas concedidas a jornalistas e intelectuais
de certos fatos e acontecimentos que se encontram as- SECOS. brasileiros, franceses, espanhóis, italianos, dd
sociados, primeiro à “glorificação” em vida da figura te-americanos etc. — em seus últimos dez anos de vida,
pessoal, e em seguida à difusão crescente € aos Ecos Braudel foi entrevistado dez vezes mais que nos cin-
cada vez mais fortes suscitados pelo legado intelectual qienta anos anteriores — aumentam também os livros,
do próprio Fernand Braudel. Fatos e acontecimentos artigos, ensaios e até séries de televisão elivros de arte,
que começaram a se multiplicar já desde a última déca- escritos ou coordenados por Braudel.

da de vida de Braudel e sobre os quais ele gostava mui Em 1975, e devido ao êxito da primeira impressão
to de ironizar, repetindo que nunca pensou em vir à de 1972, publica-se uma primeira edição de bolso em
este mundo para receber vinte títulos de doutor honoris inglês de o Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo nº
causa de universidades de todo o mundo e acrescen- época de Filipe II, livro que o jornal The Ne
Times qualificará como “a obra histórica mais signifi-
dot,€ due» felizmente, toda essa glorificação
chegara tardiamente, no final de sua carreira.
pessoal
cativa de nossa época”. Da mesma forma, e nessa mes-
ma linha de sair do estrito círculo dos especialistas e do
lê Co va publicação, em 1972, da edição
Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na
emexclusivo
campo in- dos historiadores, é que se organiza €
se projeta, em 1916 e Dri, a série de doze Program
explica à tiragem inicial de 40 mil exemplares da ver-
de televisão sobre “O Mediterrâneo”, coor denada cer
são em 1holês deste mesmo livro, impressa em 1981-
parte construída e escrita pelo próprio Braudel, que tor 983. Uma tiragem que, desde o seu imed
nará acessíveis ao grande público de tevê algumas de ento, começará a se esgotar rapidamente e f
suas teses essenciais sobre os destinos históricos e so.
bre a vida múltipla daquele mar e de suas civilizações
que o livro seja considera
ce tome O livro de história mais vendido no mundo anglo-
contíguas. O eco dessa série se prolongará também com caxão entre 1945 e 1985, levando o jornal Sunday Times
sua transformação em dois belos e artísticos livros, ri.
a qualificá-lo como “um livro sem igual neste domínio e
camente ilustrados e publicados em 1977 e 1978.
que aparentemente não poderá ser superado.
A experiência de disponibilizar os resultados da pes- A partir de 1975, portanto, configura-se uma clara
quisa mais inovadora e complexa a um vasto público tendência que, além de popularizar o nome e a figura
não-especializado será repetida em 1982, com outra de Fernand Braudel, transforma também suas obras em
série e outro livro de arte sobre o tema “Europa”, eem verdadeiros best-sellers, em trabalhos lidos e debati-
1984, com um livro de imagens, publicado simultanea- dos numa escala até então muito pouco usual para Os
mente em francês e em italiano, sobre a história e a eruditos, sérios e complexos livros da historiografia
situação atual de Veneza. acadêmica mais inovadora. É o que explica o fato de,
Além de transformar Braudel num “homem públi- por exemplo, só em 1985 terem sido vendidos 8.500
co” cada vez mais conhecido, a experiência de levá-lo exemplares da versão em francês de O Mediterrâneo e
ao grande público que assiste televisão e se Interessa o mundo mediterrâneo na época de Filipe Il e também
por guias culturais divulga também em grande escala o dado extraordinário de, em 1986 e 1987, a edição
algumas das idéias e teses centrais resultantes de seus póstuma dos três volumes de A identidade da França
eruditos e pacientes trabalhos historiográficos. chegar a atingir vendas de até 240 mil exemplares.
Assim, ao se publicarem em francês, em 19/79, os. Ao mesmo tempo em que edições dos livros e traba-
três volumes de Civilização material, economia e ca- lhos braudelianos crescem e se multiplicam nessa es-
pitalismo. Séculos XV-XVIII, é natural que esses livros cala excepcional, prosperam também as empresas inte-
sejam imediatamente comentados no popular progra- lectuais que se dizem inspiradas nessas mesmas obras.
ma francês Apostrophes e alcancem boas vendas desde Assim, em 1976-1977, na State University of New York
o início, a ponto de estar, já em 1980, entre os vinte funda-se o Fernand Braudel Center, dirigido até hoje
livros franceses mais importantes daquele ano, segun- por Immanuel Wallerstein, com um ativo núcleo de es-
do as revistas especializadas do mundo editorial. tudiosos que, trabalhando sobre a história e a situação
atual do sistema capitalista, levarão a cabo um verda-
O grande êxito dessa edição francesa da segunda
grande obra de Fernand Braudel muito provavelmente deiro processo de reciclagem e aprofundamento das
teses braudelianas, numa linha que ao mesmo tempo Juntamente com essa cobertura quase total do Mun
-econhece e assume com orgulho sua dívida com a he. 4o das ciências humanas francesas p
rança intelectual de Fernand Braudel e pretende man- -a intelectual braudeliana, sua difus
ter vivo seu pensamento e suas lições, por meio de no- em continuou a avançar. O Mediterrân
mediterrâneo na época
de Filipe Il e Civilização mate-
vas aplicações e novas pesquisas que às vezes ultrapas-
sam criativamente essas mesmas lições e essa herança, il economia € capitalismo. S éculos X V-xVii m che-
saram a ser traduzidos para dezesse
Esse aprofundamento, ampliação e até ultrapassa-
sem do legado braudeliano desenvolveram-se também
guas, entre as quais se inc
» flamenco, coreano, russo € O romeno, entre outras.
durante as três jornadas de homenagem a Fernand
soa difusão mundial das perspectivas de Fernand
Braudel. realizadas em Chateauvallon em outubro de
Braudel, ao mesmo tempo expressa no incremento cons
1985, que, em seu conjunto, demonstraram tanto à
ante da tradução de seus mais diversos escritos, expli-
| das ressonâncias da obra
amplitude internaciona ca por que a referência a seus conceitos, modelos, teo-
de de historiadores e cien-
braudeliana como a vasta Té rias e hipóteses se tornou moeda corrente nos debates e
ictas sociais que, no mundo inteiro, trabalham em di- OS escritos dos historiadores de praticamente todo O
nhas inspiradas por esses mesmos sulcos abertos nos mundo.
trabalhos braudelianos. Assim, ao mesmo tempo em que já se organizaram
Esse processo de difusão planetária das contribui cinco Jornadas Braudelianas Internacionais nos últi-
cões braudelianas, longe de se extinguir ou de decair os dez anos — na Cidade do México (1991), em Pa-
depois de sua morte, só tem aumentado. Depois de 1985, “ris (1994), em Savona (1995), em Wassenaar (1927) €
difusão maciça de seus livros mais importantes conti- em Binghamton (1999) —, repetiram-se também Os
nua e chega a se acentuar. Edições de bolso são publica- colóquios, mesas-redondas, seminários € encontros que,
das na França e se esgotam rapidamente, como OCOIT+, total ou parcialmente, se consagram ao estudo de um
por exemplo, com as edições de O Mediterrâneo € O ou outro aspecto de sua vasta contribuição intelectual.
mundo mediterrâneo na época de Filipe II e de Civili-
Ao lado dessa excepcional difusão de seus escritos
zação material, economia e capitalismo, impressas em
e da infinidade de empreendimentos e iniciativas aca-
1993, em tiragens de 20 mil exemplares, ambas esgo-
dêmicas inspiradas no legado de Braudel, devem assi-
tadas em menos de três anos. Com isso, é muito prová-
nalar-se também tanto suas criações acadêmico-
vel que haja poucos cientistas sociais franceses que não
institucionais ainda vivas e atuantes, como a presença
se tenham deparado alguma vez com um livro de
e o rol intelectual dos integrantes da imensa rede de
Fernand Braudel, e também que sejam raríssimos OS
historiadores franceses que não conheçam ao menos seus colaboradores, alunos, discípulos ou seguidores
algum de seus três grandes livros. diversos.

TON
As três instituições ou empresas principais que Le Roy Ladurie ou Marc Ferro são intelectuais que,
praudel ajudou a conceber, à construir ou às quais deu segundo eles mesmos declararam, devem parcelas im-
-ontinuidade evidentemente também fazem parte de sua nortantes de seus respectivos enfoques à obra do pró-
herança cultural. Em primeiro lugar, à Maison des prio Fernand Braudel.
eciences de 1 Homme, que continua a ser hoje um es- Esse conjunto multiforme de influências, presenças,
vínculos e irradiações explica por que Braudel é cita-
naço privilegiado para a organização, O contato € 0s
tercâmbios das mais diferentes redes de pesquisado- do. ensinado, discutido e recuperado tanto na América
ces € dos mais diversos projetos de pesquisa de cientis- Latina, Japão, Rússia ou Turquia, como na China, Es-
tados Unidos, Austrália, África ou Europa.
tas sociais provenientes de todos Os continentes e de
todos os horizontes acadêmicos possíveis. A que se deve essa ubigiidade planetária das heran-
cas braudelianas, que se renovou e expandiu perma-
Em segundo lugar, a Ecole des Hautes Etudes en nentemente durante as últimas décadas?
Sciences Sociales, instituição que ainda hoje concen-
Em nossa opinião, deve-se tanto à dimensão univer-
tra um setor importante do melhor que a intelectualidade
sal dos problemas abordados em sua obra, como ao
francesa é em parte européia já produziu nos últimos |
caráter radicalmente inovador das propostas de expli-
cinquenta anos.
cação e de solução desses mesmos problemas. Porque,
Finalmente, a própria revista Annales, Histoire, como poderá ser visto nos ensaios reunidos neste livro,
Sciences Sociales, que, depois de 1989, tornou a reno- , Braudel ocupa-se tanto da história e da situação atual
var seu projeto intelectual para gerar lentamente os nás- da modernidade e do capitalismo como do papel de
centes “quartos Annales”, muito mais próximos do le- “centro de mundo” do espaço-mar Mediterrâneo. Inda-
gado braudeliano do que estiveram os Annales da his- gando além das chaves da singularidade da civilização
tória das mentalidades do período 1969-1989. européia ou das diferentes dimensões da civilização ma-
A marca braudeliana nas ciências sociais contem- terial e da vida cotidiana, ou estudando o papel da base
porâneas também se faz sentir no papel essencial que q geo-histórica para os processos civilizatórios, ou à
esses três espaços da produção e reprodução intelec- dialética complexa dos diversos destinos históricos do
tual francesa, européia e mundial cumprem hoje. conjunto global das civilizações de todo o mundo,
Braudel percorre espaços temáticos de alcances verda-
Não é de admirar que as lições e ensinamentos de
deiramente histórico-universais. Isso significa que ele
de alguns dos historiadores ou cientistas socia
Braudel tenham tido influência decisiva na formação
aborda temas que, necessária € imperativamente, vão
interessar a todos os praticantes do ofício de historia-
proeminentes nessas disciplinas Sociais da atualidade
dor, situados em qualquer das historiografias nacionais
Assim, pessoas tdo conhecidas € importantes interna fm

de todo o planeta.
cionalmente como Immanuel Wallerste; n, Emmanuel
É justamente essa dimensão universal das reflexões
hipóteses criativas e novos modelos heurísticos para
e das lições braudelianas que entra em Jogo quando,
as explicações que tenta estabelecer.
por exemplo, um historiador do estado de Oaxaca, no Isso para não mencionar o caso, mais evidente, de
México, recupera Braudel para explicar 0 problema
do conflito secular entre os homens da montanha e os
qualquer historiador europeu que, ao submergir nos
ensaios e livros braudelianos, encontra constantemen-
habitantes do vale de Oaxaca. Tendo lido alguns ca. te novas pistas, novas interpretações, novos e inéditos
pítulos fundamentais da primeira parte de O Mediter. enfoques para um vasto setor de seus problemas e de
“ineo e o mundo mediterrâneo na época de Filipe II, ceus debates mais habituais e recorrentes. Ou também
«eferentes à complexa dialética entre os homens da do historiador indiano ou norte-americano, ou russo,
montanha e os homens das planícies, esse historiador ou argentino, ou turco, que lêem, discutem e assimilam
perdido em alguma pequena cidade de Oaxaca consi-. Braudel para explicar o capitalismo atual, ignorando
derou útil e frutífera a lição braudeliana sobre esse talvez muitos dos elementos da biografia pessoal ou
problema. O mesmo ocorre quando, por exemplo, um | das peripécias de sua vida como intelectual na França,
historiador chinês reencontra fascinado em Braudel a “mas sabendo muito bem que o livro Civilização mate-
visão da “longa duração”, visão que lhe fala da per- rial, economia e capitalismo, que já mencionamos,
sistente permanência das formas de organização so- constitui uma nova e profunda tentativa de construir
cial na China, com as quais ele convive cotidianamente um novo modelo e uma nova teoria explicativa da his-
e às quais está, de maneira quase espontânea, tão ha- tória do capitalismo entre os séculos Allle XA.
bituado. Esse historiador chinês de repente lê em A essa evidente dimensão universal das lições e
Braudel a menção dessas realidades lentas em cons- ensinamentos braudelianos, que cativa seus mais diver-
truir-se, lentas em afirmar-se e em deixar de ser vi- sos leitores em qualquer parte do mundo, sejam eles
sentes, e lentas em desaparecer, e encontra nelas pon- historiadores, cientistas sociais ou simples homens cul-
tos de partida fundamentais para explicar suas pró- tos, soma-se o fato de que nas obras de Braudel se en-
prias realidades históricas específicas. É o que ocorre cerra também toda uma série de perspectivas sempre
também com uma historiadora brasileira que, tratan- novas e inéditas. Perspectivas radicalmente inovado-
do de decifrar os modos de povoamento e de constru- ras, que nos propõem uma nova concepção do enorme
ção das cidades nos vastos espaços da Amazônia, re- e milenar problema da temporalidade e de suas formas
corre à tipologia braudeliana sobre os “modelos de de apreensão mais adequadas, dos diferentes modos de
cidade” e sobre as formas da dialética campo/cidade, percepção humanos dessa complexa realidade que é o
que encontrou no livro Civilização material, econo- tempo e de suas implicações específicas, novas formas
mia e capitalismo, e que constituem para ela pontos de aproximação para o estudo e decifração do social, e,
de partida interessantes que lhe permitem elaborar em consequência, novos modos de construção de todo
e dos COnhecimentos humanos |
o sistema sar ampla e abundantemente as fronteiras do hexá
SO
a ado Novas perspectivas com respeitos
francês, para influenciar de uma forma também finda,
“— «e máticas igualmente universais mental
e abrangentes que
grande parte das pesquisas de história econá.
dão a questão da temporalidade Órmo
ou do modo
mica eur é Srganh
opéia destas mesmas décadas posteriores à
zação de nossos “epistemes
cognoscitivo ço
Segunda Guerra Mundial. Alcançando dimensões Id
ticamente
4o humano-social que, obviamente, interessarão fam planetárias, essa presenç
Ȏm e de maneira fundamental tantotiplicou-se,
a geógrafos, his.
para se fazer sentir igualmente numa parte
ou linguistas como a antropólogos, econo-
considerável de certas manifestações e resultados im.
ou sociólogos, entre tantos outros. Assim, não éportantes da historiografia mundial dos últimos vinte e
exagerado afirmar que praticamente todo cientista
cinco ou trinta anos.so
cial que se aproxime da obra braudeliana encontrará
Alguém duvida que Fernand Braudel é o mais im-
eacilmente, dada a enorme vastidão de seus horizontes portante historiador de todo o século XX? Não é im.
» de suas temáticas fundamentais, algum elemento ou possível imaginar que, ao se ver qualificado dessa ma-
alguns elementos que poderão recuperar em Suas pés- heira, Braudel provavelmente teria comentado, com sua
quisas concretas. fina e aguda ironia: “Sim, é muito provável que eu seja
O mesmo farão os autores que tentam explicar a o mais importante historiador de todo o século XX...”
modernidade ou o capitalismo, os que se ocupam de para, depois de uma breve pausa, acrescentar: “dentre
compreender a história da experimentação dos múlti- o conjunto de todos aqueles historiadores nascidos na
plos “socialismos reais” desenvolvidos no século AA, pequena aldeia de Lumeville, em Ornois, dentro da
os especialistas da crise econômica contemporânea ou Lorena Francesa”, Em seguida, certamente nos presen-
os estudiosos da maldenominada “globalização ou tearia com um de seus característicos SOrTISOS, corres-
“mundialização” atual, que encontrarão sempre nos tex- pondentes a sua sempre ágil e aguda malícia intelectual.
tos braudelianos teses, idéias, modelos e elementos fun- Ou talvez tivesse respondido: “Eu, o historiador mais
damentais que lhes servirão para continuar a refletir e a Importante de todo o século XX?... Não sei. Os ho-
avançar na compreensão dessas diferentes temáticas. mens e as obras passam. Mas, em todo o caso, talvez
Essa presença quase invasiva e praticamente onipre- “U seja mesmo um dos historiadores mais afortunados.
sente da obra braudeliana permite-nos entender por que pelo vasto e imenso espetáculo humano que pude ob-
seu legado se encontra presente, de múltiplas manei- servar, e também um dos mais felizes com o processo e
ras, nos desenvolvimentos principais que a historio- com os resultados de suas próprias pesquisas pessoais”.
grafia francesa concretizou nos últimos cinqiienta anos. Seja como for, isso não passa de mera especulação.
Permitem-nos entender também por que suas contri-
buições intelectuais se difundiram a ponto de ultrapas-
Berlim, estaríamos assistindo à conclusão do ciclo vi-
tal desse modelo que fez da reflexão sobre o social um
campo diferenciado de distintos territórios autônomos
e até auto-suficientes que, parcelando as diversas di-
Capítulo | mensões do social, terminou por construir o novo
epistéme vigente durante o século XX, para estas mes-
mas ciências sociais.
A LONGA DURAÇÃO:
Diferindo da visão predominantemente unitária que
IN ILLO TEMPORE ET NUNC prevaleceu nas ciências sociais desde o século XVI e
até a primeira metade do século XIX, durante a curva
ascendente da modernidade, e que permitia aos pensa-
É difícil, sem dúvida, imaginar que uma ciência,
dores e aos intelectuais daqueles tempos deslocar-se
seja qual for, possa fazer abstração do tempo.
livremente e sem problemas do campo da filosofia ao
Marc Bloch
da nascente economia, e das ciências morais e políticas
Apologie pour lhistoire até a reflexão da influência do clima sobre a natureza
das sociedades, a visão que se tornou dominante no
último terço do século XIX e durante o século XX con-
Depois de 1989, e de todo o rastro de transtorma- formou-se, mais precisamente, dividindo e autonomi-
ções fundamentais que esse acontecimento-ruptura dei. zando as diferentes zonas do social, o que, embora te-
xou em seu caminho, as ciências sociais contempora-
nha permitido um reconhecimento muito mais pontual
neas parecem ter entrado em uma crise definitiva do
e rigoroso de seus particulares espaços constitutivos, a
modelo a partir do qual se desenvolveram durante os
levou, no entanto, a perder o horizonte global e o espí-
últimos cem anos. Essa crise encontraria sua expressão
"to totalizante que a caracterizaram no passado.
nas recorrentes afirmações sobre o fim dos paradigmas
e na decadência das diferentes “escolas” ou correntes Assim, marchando paralelamente à curva descenden-
te da modernidade, iniciada após as revoluções euro-
de pensamento antes bem-sucedidas e atraentes, bem
pelas de 1848, as ciências sociais que viram seu espaço
como nos tópicos recentemente difundidos pelas visões
unitário fragmentar-se e multiplicar-se em diversas dis-
pós-modernas sobre a sociedade e a história, VISÕES
ciplinas, batizadas com outros tantos novos nomes,
profundamente pessimistas e desencantadas que cons
pareceriam já ter esgotado os efeitos positivos desse
tituem apenas uma nova variante, felizmente etémera é
modelo segmentado de seu desenvolvimento. voltando
conjuntural, de um novo irracionalismo. Assim, depois
então a rediscutir agora a necessidade de construir um
dos processos simbolizados na queda do Muro de
novo epistéme ou horizonte geral para seu futuro de- nas, que encontra um de seus filões mais importantes
senvolvimento. precisamente em todo aquele conjunto de projetos in-
Cinl-
ice defini
Daí se depreende que a saída para ds crise telectuais que, ao longo do século XX e em aberta opo-
sição às tendências dominantes de parcelamento e
tiva desse modelo fragmentado não poderá ser encon-
trada na “trans”, “multi”, “inter” ou na pluridiscipli- autonomização das disciplinas, tentaram retornar às
caridade” = que já foram ensaiadas no passado e que, perspectivas globalizantes, Teconstruindo em alguma
medida o velho espírito ou visão a partir da totalidade e
tenham enfrentado os efeitos negativos do
propiciando, a partir daí, o processo de diálogo, de
parcelamento e da especialização a que nos
mútua aproximação e também o trabalho recíproco ea
não questionaram seu fundamento último — nem colaboração entre as diferentes ciências sociais.
tampouco em uma interdisciplinaridade “dura”, defen-
dida hoje como alternativa a outra interdisciplinaridade Projetos intelectuais de evidente cunho crítico que,
à maneira de presenças reiteradas de um lembrete dos
“branda”. Só se sairá da crise aceitando O desafio de
limites do caminho empreendido por essas ciências so-
abordar a complexa construção de um novo epistéme,
ciais desenvolvidas nos últimos cem anos, tentaram ela-
capaz de retornar às visões “unidisciplinares ou unitá-
rias anteriores a 1848, mas também capaz de, a parti borar diferentes teorias, conceitos ou propostas que
fundamentassem uma vez mais as perspectivas
dessa nova base, recuperar toda a riqueza e variedade
totalizantes por eles reivindicadas. Um complexo uni-
das especificidades e particularidades descobertas nas VEISO de resultados teóricos e hipóteses de trabalho,
diferentes áreas do social durante o último século. cuja grande riqueza deriva do fato de estarem na con-
Avançando num duplo processo de superação, que; tramão das concepções dominantes, no qual se desta-
transcende o caráter pouco definido e genérico das re- ca, como uma das mais sugestivas e ainda pouco ex-
flexões sobre o social anteriores ao século XX, e tam- ploradas, a teoria braudeliana sobre a longa duração
bém o ponto de vista parcelado e autonomizado das histórica, teoria que não só constitui a chave-mestra de
diferentes disciplinas hoje existentes, o novo epistéme todo o rico arcabouço da cosmovisão histórica de
deverá estar em condições de reconstruir de uma nova Fernand Braudel, eo segredo evidente da permanente
maneira a visão globalizante e unitária, agora sobre à originalidade de seus pontos de vista sobre os mais di-
base da recuperação do refinamento alcançado pelas “STSOs temas, mas é também e declaradamente um pro-
múltiplas técnicas, instrumentos analíticos e conceitos grama aberto de pesquisa, cujo objetivo central era
específicos legados pelas ciências sociais durante 08, Precisamente a construção de uma linguagem comum
Para todas as ciências sociais contemporâneas.
f
últimos cem anos.

Irata-se, pois, de uma recuperação crítica do cami- Assim, com o objetivo de buscar pontos de apoio para
hho percorrido até hoje pelas ciências sociais moder- 4 Construção desse novo epistéme que as ciências so-
Passei a vida sem se
ciais hoje exigem, cremos que pode ser pertinent ni difícil. | compreendido... É muito

o ane, a partir desses pressupostos críticos,


«e o olhar para todas aquelas elaborações €
Fernand Braudel

Pam abrir ou manter caminhos de desenvolvim Colóau!


olóquio de Chateauvallon, outubro de 1085

os pontos de vista globalizantes sobre 0 SO 0]


mesmo tempo, interrogar-nos sobre o que FP sofá
A longa duração, “descoberta” e estabelecida por
ser recuperado e incorporado nessa DOVê (eme
Fernand Braudel desde 1943/1944, embora formaliza-
epistemológica em torno do conhecimentoda de maneira mais sistemática e explícita somente em
Jesse mesmo universo do social, cuja elaboração consti-
1958, sempre foi concebida por seu autor como a pos-
tui hoje um dos maiores desafios dos cientistas
sívelSocIáls.
contribuição| específica da história ao diálogo aber-
Que contribuições encerra, vista dessa ótica espe to com as outras ciências sociais, e em conseqgiiência
fica, a teoria de Fernand Braudel sobre as diferentes
como a pedra fundamental da projetada construção de
temporalidades e durações históricas* Como se Situas um campo e uma língua comum para todas essas ciên-
«ssa teoria em relação a outras formas de percepção das cias que versam sobre o social.
temporalidade? Que novas luzes lança, em
Assim, visto que tórmos
a matéria à qual faz da
referência essa
apreensão do tempo, a proposta braudeliana: TA Que, teoria sobre as diversas durações e temporalidades his-
medida isso permite, para as ciências sociais uma: tóricas é compartilhada de maneira universal por todo
transformação real de seus pontos de vista e de seus o conjunto dos fatos, fenômenos e processos que têm
modos específicos de aproximação? E, finalmente, aca lugar na sociedade e na história, então a aplicabilidade
que ponto esse programa braudeliano implícito em suag dessa teoria abarcaria igualmente todos os territórios e
proposta sobre Os múltiplos tempos históricos contra espaços assinalados como múltiplos objetos específi-
bui para a edificação desse novo epistéme acime cos das diferentes ciências sociais contemporâneas.
cionado? Vejamos alguns dos elementos de resposta x Porque, do geográfico ao cultural, do familiar ao an-
essas diversas questões. tropológico, passando pelo econômico, pelo político ou
pelo psicológico, todos esses campos particulares —
aos quais correspondem, por sua vez, diferentes ciên-
cias sociais determinadas — poderiam reconhecer, em
Os tempos da longa duração
seus universos problemáticos constituídos, em seus res-
Num certo sentido, a longa duração é ampla, pectivos “obj etos de estudo”, estruturas e realidades de
mente aceita hoje. uma longa permanência, que, por terem sido coordena-
Michele Benaiteal, das decisivamente influentes no interior do conjunto
A proposito della lunga durata, 1984
de fenômenos que essas mesmas ciências analisam, ciências, poderia nos levar a pensar que foi amplamen-
cexistem também com realidades ou: fenômenos de te retomado, debatido e aprofundado, constituindo hoie
muito menor duração e até mesmo com aconiecimen- em dia, como se afirmou, um para
cos de breve ou brevíssima vigência temporal.
ais lidam constantemente
Assim,
aceito”, que teria sido incorporado de maneira corrente
posto que todas as ciências soci [A
A por todo o espectro de disciplinas que giram em forno
do social.
-om diferentes realidades, cuja dur, ação particular é tam-
hém diversa, mas sempre importante para a sua apre Longe disso, porém, podemos afirmar que, com ex-
«nsão cabal, então o tratamento teórico e a análise das ceção de certas obras excepcionais, produzidas apenas
implicações dessa dimensão temporal da vida social — no campo da história e sempre associadas ao nome ou
teorização que, nas palavras de Braudel, teria à influência mais ou menos direta do próprio Fernand
correspondido de maneira quase natural à história = Braudel, esses estudos realizados a partir da perspecti-
podem constituir uma via de acesso pertinente para à va da longa duração histórica são até hoje bem escas-
delimitação de um espaço comum em torno do social a sos. Por isso, não é de admirar que Braudel tenha insis-
partir do qual poderia começar à construção dos novos tido até o final de sua vida no fato de se considerar um
perfis da futura ciência social. Ao fazer com que a homem “intelectualmente solitário”, cujo projeto inte-
diversas disciplinas dialoguem e se interpenetrem em lectual tinha poucos seguidores, e que passou a vida
torno dessa problemática comum da temporalidade, e; “sem ser compreendido”.
ao tentar generalizar as conclusões dessa interpene-. Isso, contudo, contrasta com o fato de o termo “lon-
tração no âmbito metodológico e epistemológico para ga duração histórica” ter se tornado efetivamente, em
elaborar um novo paradigma global, seria possível ini- certa medida, moeda corrente da linguagem dos histo-
ciar a elaboração desse vocabulário e linguagem co-' riadores contemporâneos, com muita freqgiiência cita-
mum para todas as ciências sociais, no novo horizonte do nas principais obras da historiografia francesa e em
epistêmico antes referido. parte européia dos últimos trinta anos. Sem falar que o
artigo de 1958 é um dos mais traduzidos e mais lidos
A análise das diferentes durações dos fatos sociais
apresenta-se assim, mais que como um tema que da bibliografia atual sobre metodologia histórica, além
de ser inspiração ou origem das mais diferentes tentati-
corresponderia à história, como um problema comum ,
vas de aplicação, bem como um texto que tem sido
a todas as ciências sociais contemporâneas. Aliás, um
amplamente comentado, discutido, “interpretado” e
problema central de todas essas ciências, que, por ter!
caracterizado das mais diversas maneiras possíveis.
sido “descoberto” e aplicado por Fernand Braudel há
O que explica então essa aparente contradição entre
praticamente meio século, e por ter-se explicitado de U
modo formal há 35 anos como uma proposta aberta nO | 40, Posta popularidade importante e ampla difus
à teoria e da perspectiva da longa duração e o protesto
caminho da já mencionada convergência entre essas
e.

tor com respeito a sua escas-


enfático de seu próprio au Jise histórica concreta, da mesma forma resulta muito
sa assimilação e sua também limitada recuperação,
simples apresentar que
e esquematizar a teoria das
de fato parecem corresponder à realidade+ For outro
temporalidades diferenciais, assinalando uma longa
lado. dada : a relativa simplicidade da apresentação des- | uma média e uma curta duração — o que já foi feito
“a teoria, contida no célebre artigo de 195 ô, como com- ' milhares de vezes em todo o mundo —, embora seja
preender as múltiplas interpretações, claramente diver-
extremamente complicado conseguir descobrir e apreen-
gentes, a que tem dado lugar no momentoder em emque é operatividade histórica essas mesmas
sua real
elosada por seus diferentes leitores? E, por fim, por longa duração histórica.
estruturas da
que parece tão difícil sua aplicação concreta,
Porque, assim istona prática
como se desenvolve, é, ae por
real descoberta e a verdadeira incorporação dessas es-. meio de um longo treinamento, a capacidade de ir além
truturas da longue durée, como elementos explicativos dessa percepção anacrônica dos fenômenos e situações
dos diversos problemas analisados pelos historiadores, históricas, assim também pode se desenvolver e se aper-
dificuldade que, por sua vez, explica O porquê da pro- feiçoar o “sentido” que nos permita detectar e em se-
funda originalidade das hipóteses e os pontos de vista guida apreender essas diferentes durações sociais, e
de Fernand Braudel sobre os mais diversos tópicos, tanto mais particularmente a longa duração histórica.
historiográficos como em geral? Em segundo lugar, e de maneira mais profunda, cre-
Em nossa opinião, a resposta a essas perguntas en- mos que a resposta às perguntas antes enunciadas en-
contra-se em uma dupla dimensão. Em primeiro lugar, contra-se também no fato de a teoria da longa duração
e no plano mais geral da dificuldade não evidente que constituir na verdade uma profunda revolução nas for-
a proposta braudeliana encerra, a explicação encontra- mas anteriores de percepção da temporalidade histó-
se na distância real que separa a simples enunciação de rico-social, e em conseqiiência a superação, no âmbito
um paradigma e sua aplicação e representação concre- conceitual, das formas até então vigentes de assimila-
tas. Ou, para explicitá-lo por meio de outro exemplo ção da dimensão e do problema do tempo, característi-
similar: enquanto é extremamente simples explicar 0 cas de todo o período de nossa atual modernidade.
que é o anacronismo em história e reivindicar sua su- Uma superação, portanto, do modo moderno-bur-
peração — ou seja, criticar o habitual procedimento de guês de conceber e tratar o fenômeno temporal, que foi
conceber os homens de outros tempos a partir de valo-
construída simultaneamente, em uma complexa
res, figuras e representações de nossa época, como S€ dialética de recuperação, mas também uma superação
esses personagens do passado vivessem, amassem, pen das formas de compreensão do tempo anteriores ao sé-
culo XVI, tanto em suas variantes ocidentais pré-capi-
sassem € reagissem da mesma forma que os homens dt
hoje — e é muito difícil conseguir transcender real- talistas, como em sua versão oriental igualmente pré-
mente esse anacronismo no momento de realizar a aná Via à etapa da modernidade.
Uma revolução espiritual, igualmente de longa du. e que, cumprindo-se através de certas etapas determi-
ração, das maneiras antes estabelecidas de assimilação nadas, constitui o cenário fundamental de curvas
da temporalidade, que não só nos permite alcançar uma evolutivas dotadas de sentido, dos diferentes proces-
nova definição do conceito da duração, mas que abriu sos, fenômenos e fatos históricos.
também uma nova forma de tratamento, de compreen- No entanto, isso não impede que, em um de seus
são e de utilização do tempo, tanto para Os historiado- pontos fundamentais, se assemelhe notavelmente ao
res como para todos os cientistas sociais, forma que, esquema de construção do tempo bidimensional, ca-
longe de estar esgotada, apenas hoje parece estar em racterístico da versão oriental da historicidade. Porque,
condições de ser realmente explorada e recuperada por como sabemos, a primeira diferença que podemos iden-
esse novo epistéme que está se formando. tificar, em termos dos modos de percepção do fenôme-
Vejamos então com mais detalhes como essa teoria no temporal, é a que diz respeito à divisão entre a per-
dos diferentes tempos recupera e supera ao mesmo tem- cepção elaborada há muitos séculos pelas velhas e tra-
po as antigas formas de concepção da temporalidade “dicionais civilizações orientais — as primeiras que
elaboradas pelos homens. existiram na história — e aquela outra que, a partir da
afirmação do cristianismo como doutrina dominante,
desenvolveu-se juntamente com a existência e consoli-
Longa duração e temporalidade oriental dação do caminho ocidental da historicidade.
Como explicou Mircea Eliade, as primeiras socie-
O problema consistia em livrar-se de alguma
dades orientais têm decantado, ao longo de um pro-
forma dos acontecimentos. [...] É o que chamei
logo de “o ponto de vista de Deus Pai”. Para longado processo, uma dupla concepção do tempo que,
Deus Pai, um ano não conta: um século é um ao dividi-lo em tempo profano ou histórico e tempo
piscar de olhos.
universal ou sagrado, reproduz, a partir de nosso pon-
Fernand Braudel to de vista, dentro dessa mesma concepção, a lógica
Une leçon d"histoire, 1986 decorrente da relação peculiar que essas sociedades
orientais estabeleceram com a natureza e que sé pIo-
jeta igualmente em seu comportamento tecnológico
A teoria da longa duração histórica e dos diferentes
mais elementar.
sociais inscreve-se claramente na tradição oci-
Esse caminho oriental da historicidade tem seu pon-
denial que aborda o fenômeno do tempo. Isso significa
1 INCOTPOrA, como suas premissas superadas, mas
to de partida fundamental em uma lógica que, tendo
'EUalmente presentes, os elementos de percepção dá estabelecido certo tipo de equilíbrio na relação entre 0
homem e seu ambiente natural, para poder obter Os ele-
temporalidade como um processo aberto, progressivo
mentos básicos de sua reprodução material, tende a re
repetição, € passando pelo ciclo lunar que recomeça a
produzir sem mudança esse mesmo equilíbrio tão diti- cada 28 dias, ou o recorrente retorno de climas e esta-
cilmente alcançado. E, visto que O ambiente natural ções em sua reiteração anual, tudo tende, a partir da
dessas primeiras sociedades de tipo oriental é um am- natureza, a impor essa visão que mais adiante reencon-
biente que, em princípio, é superabundante para à me- traremos na estrutura do tempo sagrado que, sob a for-
dida das populações existentes, então o tipo de cresci. ma de um tempo cíclico e fechado, caracteriza, por exem-
mento e desenvolvimento que aqui se impõe é de cará- plo, a filosofia e as concepções do mundo da Índia.
ter essencialmente reiterativo ou reprodutivo dessa O tempo universal e sagrado desse caminho oriental
mesma figura do equilíbrio alcançado e, portanto, um da historicidade aparecerá, portanto, como um tempo
desenvolvimento que cresce apenas quantitativamente, “do “eterno retorno”, que, prolongando-se em ciclos
sem modificação essencial de seu ponto de partida, um quase infinitos, mas sempre repetidos, desvaloriza e
desenvolvimento que bem poderíamos caracterizar relativiza o tempo profano dos homens, o tempo histó-
como estacionário. rico cotidiano de sua vida e de sua ação concretas. Por-
Esse caráter estacionário das figuras da reprodução que, enquanto esse tempo sagrado é apenas a represen-
social dos mundos orientais só se transforma muito len- tação ideal e humanizada do tempo cíclico próprio da
tamente e ao cabo de amplos intervalos de tempo, e, ao natureza, e de igual maneira uma reprodução mediada
ter-se quase detido num estádio em que a natureza ain- da estrutura semipermanente e estacionária das socie-
da se sobrepõe claramente aos homens, tenderá então a dades orientais, o tempo humano profano é, por sua
reproduzir, na dicotomia antes mencionada entre tem- vez, reflexo da vida dos homens, que não recomeça
po profano e tempo sagrado, alguns dos elementos tem- nem se repete dentro de um mesmo molde através das
porais diretamente derivados dos próprios mecanismos gerações, mas que muda e se transforma de acordo com
as diferentes circunstâncias em que se desenvolve.
espontâneos de funcionamento desse mesmo espaço
natural. Assim, dado o caráter dominante da lógica reiterativa
À natureza se apresenta ao homem, em suas primei- que brota da relação fundamental entre homem e meio
ras observações, como um conjunto no qual tendem a natural, o tempo sagrado resulta ser o verdadeiro tem-
predominar os movimentos e estruturas cíclicas e repe-
no universal, o tempo divino verdadeiramente impor-
tidas, Os esquemas de comportamento regular. Assim, tante, empregado justamente para relativizar e tornar
a partir do ciclo mais evidente da alternância do dia € evidente o caráter apenas “evanescente” e até certo
da noite, que se repetem tenazmente sem cessar, até OS ponto hierarquicamente menor do tempo humano pro-
ciclos da vida vegetal e animal, que através das ativida-
fano e ordinário. [Ei

des da colheita e semeadura ou das fases elicecsivas da Assim, como explicou Mircea Eliade, ao reproduzir
domesticação do gado impõem a idéia de recomeço é a fábula hindu sagrada do Brahmavaivarta Purâna so-
bre Indra e sua vitória sobre O dragão vrtra, à compára- cimentos, relativizando-os a partir do registro temporal
cão entre os acontecimentos da vida histórica € profa-
mais profundo dos tempos longos e da ampla duração.
“a dos homens, : ante a magnitude dos ciclos do Grande Como ele próprio disse: “O problema consistia emi.
Tempo Mítico Sagrado, desemboca em uma clara des- vrar-Se de alguma forma dos acontecimentos que se
valorização e relativização dos primeiros. ouviam à nosso redor, dizendo-nos: “Não é tão impor-
Pra “E
3

tante . Não poderíamos superar esses vaivéns, esse sobe-


Indra escuta da própria boca de Vishnu uma história ver.
dadeira: a verdadeira história da criação € destruição eter-
e-desce, para ver algo completamente diferente? É Oo
na do mundo, ao lado da qual sua própria história, às aven- que chamei logo de 'o ponto de vista de Deus Pai” É
turas heróicas sem fim que culminam na vitória sobre Vrtra evidente nessa citação a semelhança dessa idéia
parecem ser, com efeito, “Histórias falsas”, Isto é, acon- braudeliana com o mecanismo da dupla temporalidade
recimentos carentes de significação transcendente. oriental aqui assinalado.
Desvalorizando a curta duração e os acontecimen-
A clara hierarquia estabelecida entre o tempo sa-
tos e fatos históricos que lhe são correlativos, diante
grado e o tempo profano faz-nos lembrar espontanea-
das durações de médio e, sobretudo, de longo fôlego,
mente a própria hierarquia definida por Fernand
Braudel recuperou essa hierarquia e essa função
Braudel, entre as diferentes durações históricas que relativizadora que são características do modo oriental
ele propôs em sua teoria acerca do problema do tem- de percepção da temporalidade. No entanto, o fez a
po social. Pois, assim como o tempo humano profano partir e dentro da outra vertente de assimilação do tem-
é redimensionado e desvalorizado pelo tempo sagra- po, a vertente ocidental, que concebe este último como
do das concepções orientais, assim também, na pro- tempo predominantemente humano e não sagrado, e
posta braudeliana das durações diferenciais, aqueles dentro de uma estrutura aberta, progressiva e linear,
fatos históricos fechados no tempo imediato dos acon- carregada também do sentido de uma inovação cons-
tecimentos terão de ser reposicionados e repensados a tante que refaz o mundo e suas figuras específicas como
partir dos processos e estruturas mais permanentes da resultado desse mesmo transcurso do tempo.
longa duração histórica. Além disso, e nessa mesma linha de comparação da
Isso se evidencia também nas circunstâncias que ro- proposta braudeliana com a concepção oriental do tem-
dearam e até provocaram a “descoberta” dessa teoria po sagrado, é interessante sublinhar a relevância da idéia
das diferentes durações sociais. Diante dos aconte- de permanência e até de longa permanência, de semi-
cimentos absurdos e irracionais da Segunda Guerra imobilidade, que de diferentes maneiras se faz presen-
Mundial, e submerso na conjuntura agitada e vitalmen- te em ambas. Para a idéia oriental da temporalidade,
E muito intensa do período entreguerras, o próprio apoiada no caráter estacionário das sociedades que
Braudel viu-se levado a rejeitar esses mesmas aconte- optaram por ela, o tempo sagrado é como uma soma
4

de eternidades
32
uma síntese de ciclos ou círculos so-
x de percepção do fenômeno temporal. Isso si gnifica que
brepostos com duração cada vez maior, que desembo- ela se enquadra, em termos gerais, nessa visão ampla-
«a em um enorme e quase infinito ciclo semi-eterno, € mente desenvolvida e difundida pelo cristianismo, que
portanto em um e
nas próximo fluxo
nãodeidêntico
tempo Pri —
o Do,
à imobilidade. concebe o tempo como um fenômeno predominante-
fara
mente humano, que se desenvolve como uma estrutura
Braudel. filho da tradição ocidental, a permanencia aberta que, tendo um claro princípio (a criação e em
ampla e tenaz de uma estrutura o levou também à des- seguida a queda resultante do pecado), avança de for-
cobrir e reincorporar essas camadas da história profun- ma progressiva através de um certo itinerário (a busca
história
da, que ele vai chamar igualmente de uma da terra prometida, a vinda do redentor, a evolução pos-
«emi-imóvel”. uma história de elementos que mudam terior) para algum ponto futuro que não repete o ponto
apenas muito lentamente e que se identifica com aque de partida (o Juízo final, o retorno ao paraíso), mas que
las arquiteturas que, na medida em que realmente in constitui a chegada a um mundo diferente e a uma eta-
o rumo dos fatos e fenômenos históricos, pa diferente das anteriormente vividas. Um tempo, por-
constituem essas coordenadas determinantes da longue tanto, não fechado nem circular, mas aberto e linear-
durée que foram sempre o objeto privilegiado de sua mente progressivo, que não repete os diversos mo-
atenção e observação. mentos de um ciclo, mas que constrói um itinerário
Para além da filiação ocidental da proposta braude- que se modifica qualitativamente ao longo das etapas
liana, portanto, é interessante destacar esses evidentes percorridas.
pontos de convergência e de empatia com os esquemas Isso também se fundamenta na relação especial que
orientais em torno da dimensão temporal. o ocidente — essa vertente da historicidade que, mar-
chando em sentido contrário à linha dominante das
sociedades orientais, criou, por meio de sua negação,
Os múltiplos “tempos vividos” do pré-capitalismo um outro caminho global de desenvolvimento históri-
co — travou na dialética entre o homem e a natureza,
Estes homens [...) viviam em um mundo cujo relação que, ao contrário da lógica oriental, se cons-
tempo escapava tanto a sua observação que ape-
nas o sabiam medir. trói a partir da transformação permanente do equili-
brio anteriormente alcançado, o que configura um
Marc Bloch comportamento tecnológico centrado na inovação re-
A sociedade feudal, tomo 1, 1939 corrente das figuras desse vínculo entre a sociedade e
seu ambiente natural.
A teoria dos diferentes tempos históricos e da longa Porque, ao contrário do mundo oriental, no qual a
duração inscreve-se claramente na tradição ocidental reprodução estacionária sob uma mesma e quase idênti-
+ 4.4 ndo atá ecnontaneamen te
ca figura é não só possível, mas até esponta Na ausência do marco temporal homogêneo, que só
gerada, o espaço dessa 2 +“
versão ocidental da
o limitado e
será descoberto e estabelecido pela modernidade. e na
historicidade é, desde o princípio, um espas falta também dos sofisticados instrumentos de “medi.
ou bas
muito mais diversificado, e portanto um espaço E ção do tempo, em que se apóia esse mesmo marco tem.
O. £2 92/33
al a “medida” de um desenvolvi- poral, as sociedades pré-capitalistas ocidentais desen.
“geo-histórica no qual à «il Itranassad
ap d
mento OU equilíbrio qualquer é alcançada eu volverão apenas uma medição pontual e discreta do
rapidamente, obrigando os homens a moditicar Contam
temente sua estratégia de aproximação do natur & Com
tempo, medição esta que, longe de ser sistemática e
permanente, é realizada antes como um exercício in.
isso a figura do equilíbrio vigente, suas próprias capaci- termitente que se torna presente em limitadas ocasiões
dades produtivas, seu comportamento é esquemas extraordinárias, como no caso em que se torna impera-
tecnológicos e em consegiiência toda a lógica global tivo fixar à hor a nona em que vence 0 prazo de espera
de sua reprodução social. Apoiando-se então nesse fun- dos participantes posicionados para um duelo, ou no
damento diferente do vínculo homemy/natureza, e na ati- momento em que alguma situação exige o recurso aos
tude geral diferente que ele produz, as sociedades oci- calendários e à realização de cômputos realizados ex
dentais e sobretudo as pertencentes à civilização euro- professo para determinar a idade exata de al guém.
péia construíram outro esquema de percepção tempo- imersos então nessa “vasta indiferença diante do tem-
ral que, como dissemos, concebe o tempo como tempo po, assinalada por Marc Bloch, e ignorando por com-
histórico e social, como tempo humano encerrado em pleto o tempo preciso, regular e compassado, que só
uma estrutura inovadora, linear-progressiva e aberta. será inventado pela modernidade, os homens dos mun-
Entretanto, essa abertura empreendida pelo ociden- dos pré-capitalistas enquadrados na variante ocidental
te, de uma modalidade essencialmente diferente de as- “da historicidade poderão se virar sem problemas, com
similação do fenômeno temporal, implicou, como uma Os imperfeitos e limitados relógios existentes antes do
das consegiiências principais de sua “humanização” e século XVI — como o relógio de sol, que deixa de
de seu deslocamento para o cenário do mundo históri- funcionar à noite ou sob o nublado céu do norte da
co-social, uma clara e necessária multiplicação, que Europa, ou o relógio de água, caro, difícil de ser trans-
transformará esse novo tempo, humano e inovador, em portado € que se torna menos preciso com o frio inten-
uma infinidade de tempos vividos individuais, de tem- SO próximo à temperatura de congelamento, ou ainda,
pos aderidos” às diversas e heterogêneas experiências a ampulheta, que termina por desgastar bastante rapi-
dos homens e das coletividades humanas, que serão a damente o orifício de passagem da areia, tornando-a
modalidade fundamental de existência desse tempo Inútil por estar limitada pela relação exatamente pro-
ocidental durante o longo período de sua curva de vida porcional entre seu tamanho e o lapso temporal que
pré-capitalista. permite medir —, relógios que, como é evidente, só
permitem uma medição aproximada e incerta das dife. portamento humano dessas épocas diante desse mes.
rentes horas do dia, horas que, portanto, serão horas mo universo do transcurso do tempo: para o mundo
desiguais” com a maior normalidade. pré-capitalista, que assimila dessa maneira pontual e
Assim, é lógico que a vida humana, submetida a es- descontinua os diversos tempos das diferentes
cas circunstâncias de uma “temporalidade flutuante”, ções experimentadas, o anacronismo não é nem um
ce construa como uma série de fatos e ações que só pouco problemático ou incômodo, mas totalmente na-
podem ter lugar no interior de margens i gualmente frou- tural, o que permi te, por exemplo, que uma cena pinta-
xas e flexíveis: a convocação para uma ação conjunta da na Idade Média e que reproduz uma batalha impor-
qualquer, ou a referência dentro do dia a um fato que se tante da antiguidade grega apresente seus personagens
narra, está confinada a um vocabulário que a conota de vestidos com os mais típicos trajes medievais.
forma extremamente genérica, explicando que tal per- O tempo ocidental pré-capitalista é, então, esse tem-
sonagem morreu “pela manhã, pouco antes de o sol po definido na concepção aristotélica como uma das
chegar a seu ponto mais alto”, ou fixando o início de “dimensões do ser”, como esse elemento ou aspecto
uma revolta popular que se quer convocar “ao cair da que, sendo “comum a todos os seres”, é percebido so-
noite, logo após o pôr-do-sol”, diante da impossibili- mente como atributo universal das próprias experiên-
dade de dizer que morreu às 11h37min ou de fixar o cias vividas pelos homens.
início da insurreição às 19h15min.
Desse modo, o período pré-capitalista da história
Adaptando-se então a essa estrutura de uma tempo- ocidental situará o tempo como mais um dos elemen-
ralidade ligada e até subordinada a essas condições tos ou determinações que constituem o ser, como “tempo
mutáveis das experiências vividas, os homens pré-ca- do ser”, e, em conseqiiência, fragmentado e atomizado
pitalistas situam o momento de um acontecimento qual- em múltiplos tempos individuais correspondentes às
quer correlacionando-o com os acontecimentos extraor- Igualmente diversas experiências vividas pelos homens,
dinários e coletivos que permanecem na memória dos um tempo que parece “produzido” pela própria vida
grupos sociais dos quais eles fazem parte. E, assim, di- em suas numerosas figuras, e neste sentido um tempo
zem que vieram ao mundo semanas depois das festas efetivamente decomposto nos muitos tempos experi-
de Páscoa, do ano posterior à grande inundação esobo mentados.
governo do rei Eduardo H, em vez de afirmar que nas- Tal decomposição do tempo pré-capitalista, nos di-
ceram em / de maio de 1590. Isso demonstra também ferentes tempos individuais e concretos, será recupera-
que, embora certamente conheçam os calendários. só da e ao mesmo tempo superada por Fernand Braudel
recorrem a eles em casos excepcionais. em sua teoria das diferentes durações € temporalidades
Essa Pluralidade dos vários “tempos vividos” e até
66 7º históricas. À noção do marco temporal típico da moder-
A rs. lê
derivados” de sua experiência explica também o com hidade, com seu tempo homogêneo, único, linear € Và-
zio, que também regula e domina os fatos e aconteci- situar aproximadamente no século XVI. Uma modifi-
mentos humanos, Braudel oporá justamente essa per- cação radical de todo O conjunto de estruturas
cepção pré-capitalista da pluralidade temporal, reivin- civilizatórias e sociais da vida humana que, fechando o
dicando tanto a multiplicação dos tempos, como o fato milenar ciclo da longa duração das sociedades pré-ca-
de que se trata de tempos dos fenômenos e processos pitalistas, instaura esse novo metabolismo sOcial que
4

históricos, das específicas durações correspondentes a hoje conhecemos como modernidade.


essas mesmas realidades histórico-sociais.
Paralelamente a essa remodelação profunda da tota-
No entanto, em clara divergência com o esquema
lidade social, modificar-se-á também a forma de per-
pré-capitalista, Braudel transforma esses tempos Indi- cepção do tempo antes vigente, dando assim lugar à
viduais da experiência vivida em tempos coletivos dos construção da nova temporalidade correspondente a
fenômenos sociais, experimentados pelos grupos hu- esse período da modernidade. Uma nova temporalidade
manos, ao mesmo tempo em que os correlaciona e vin- que, ao contrário do tempo pré-capitalista, construir-
cula a todos, de forma geral, através do referido marco se-à como marco temporal, isto é, como um único tem-
temporal, que, contudo e como veremos mais adiante, po homogêneo, regular e uniforme, que parece trans-
será por ele redefinido e repensado de maneira radical. correr totalmente à margem da vida dos homens e de
seus processos sociais, estando quadriculado e subdi-
vidido de maneira perfeita em séculos, décadas, lus-
Tempo capitalista e marco temporal
tros, anos, meses e dias, mas sobretudo em horas, mi-
nutos e segundos.
|...) a regulação do tempo típica dessas socie-
dades representa sua pauta de civilização e já Compassando-se com as mudanças profundas que o
não é pontual e particular, mas penetra toda a advento dessa modernidade implica, mudarão também
vida humana, sem permitir oscilações. É uni-
forme e inevitável. a própria noção e o manejo concreto da dimensão tem-
Norbert Elias poral. Assim, a partir dos processos de universalização
real da história, que termina com as histórias locais, de
Sobre o tempo, 1984
povos, raças ou de impérios, para criar uma única €
coerente história universal, e juntamente com a intensa
A passagem do mundo pré-capitalista para a atual socialização e a generalização dos processos € expe-
modernidade em que ainda vivemos, e que se cumpre riências dos diferentes grupos humanos, tudo se enca-
em diferentes tempos históricos, segundo os diversos minhará para o divórcio do tempo, com respeito à ex-
processos que seu nascimento envolve, tem, contudo, periência vivida, autonomizando o primeiro como uma
entidade universal e abstrata, que deixa de ser um sim-
um ponto de condensação qualitativo, que podemos
A le mes mo
ples “atributo do ser”, para se transformar e moderna não produz para satisfazer as necessidades
em outra das figuras possíveis desse “ser -
humanas, mas para aumentar o lucro capitalist
Esse processo de autoconformação do tempo como mitir aà crescente e ininterrupta “valorização do
espaço independente da experiência também se valor”.
dará com base na igualmente radical transformação
O valor, como sabemos, é uma entidade homogê-
da relação do homem com a natureza em que « Se nea, abstrata e uniforme que, embora possa encarnar.
ta esse projeto do mundo da modernidade. Forque, ao se em qualquer valor de uso (já que é também univer.
mesmo tempo em que a natureza € O mundo são
sal), apenas o faz de maneira transitória, para tornar pOS-
dessacralizados em sua totalidade, se desenvolve uma
sível a única mudança que lhe interessa: seu próprio cres-
nova atitude diante do meio natural, que o observa e
cimento, seu aumento apenas quantitativo. Por isso, para
assimila de forma puramente instrumental. A natureza o mundo moderno, “tempo é dinheiro”, pois esse trans-
é, para os modernos, apenas O reservatório prático dos curso do tempo é a própria possibilidade, e muitas vezes
materiais a utilizar e a transformar, e, portanto, uma a realidade, dessa autovalorização do valor
base material que deve ser dominada e regulada pelos
A uma sociedade onde o princípio dominante é esse
próprios homens. Então, a partir desse novo posiciona-
valor, homogêneo, uniforme e abstrato, corresponderá
mento real, o tempo já não pode ser nem a simples pro-
um tempo homogêneo, abstrato e uniforme, tempo que,
jeção dos tempos cíclicos da natureza, representados
sendo social-geral e instrumental, constitui justamente
como tempo sagrado, nem tampouco os limitados tem- O novo marco temporal característico da modernidade.
pos individuais ligados às experiências locais e singu-
lares dos homens. Faz-se necessário contar com um tem- Tal marco temporal só pôde ser elaborado a partir
da invenção do relógio mecânico moderno, que, subs-
po também instrumental, que tenha vigência social-
tituindo os imperfeitos e aproximativos relógios pré-
geral e universal, e que permita então medir e regular
de forma operativa tais processos naturais, bem como, capitalistas, tornou possível uma medição muito mais
exata, regular e permanente desse mesmo tempo. Às-
e em segunda instância, os próprios processos sociais.
sim, a partir da invenção da roda catarina e do escape,
Completando esses pontos de apoio da nova figura
e mais tarde do mecanismo do pêndulo, e até os sofisti-
moderna da temporalidade, a sociedade capitalista cons- cados e onipresentes relógios contemporâneos de
truiu-se, assim, sobre a total inversão do sujeito central
microcircuitos integrados, o processo de uma medição
de todo o processo produtivo e reprodutivo social. A
sistemática e rigorosa da quadrícula de segundos, mi-
produção burguesa moderna não é uma produção para nutos e horas do dia é o suporte tecnológico que tornou
Os homens, mas uma “produção para a própria produ- possível a construção desse marco temporal capitalista
ção , e, em consegiiência, um processo centrado em
€ sua progressiva afirmação como forma dominante de
torno de um novo sujeito, que é o valor. A sociedade
assimilação do próprio fenômeno temporal.
Esse marco temporal reticulado se faz presente, em Tal idéia da temporalidade, concebida c omo quadro
primeira instância, como um espaço perfeitamente sub- associada tanto »uma noção
vazio, estará, portanto,
dividido, mas vazio, que parece existir por St SO, € especial do progresso como a uma certa id éia da histó-
com independência total dos acontecimentos, tenôme. ria. FOIs, Sé O tempo existe “por si mes
nos € processos humanos. E que, portanto, não só te. marco sem conteúdo que continua e avan
ria que ser “recheado” pelos diferentes acontecimen- dos homens, mas que, ao mesmo tem
tos históricos e ações humanas, mas até parece tender na sua vida social em geral, então o pro
a dominar e regular essas mesmas atividades e acon- será percebido como uma acumulação
tecimentos.
a
e crescente de atividades, fatos e sobr
Trata-se, é claro, de uma inversão total da situação alcançadas pela “humanidade”, considerada como u
pré-capitalista. Pois, em vez de estar subordinado à bloco, é desenvolvida sequencialmente “dentro desse
experiência, o tempo a domina, e, em lugar de estar tempo linear € vazio. O mesmo vale par
constituído como simples dimensão específica do ser, que, também nessa perspectiva, será definida como sim.
ples “acúmulo” ou arsenal progressivo de acontecimen-
se apresenta mais precisamente como mecanismo de
tos humanos, situados claramente dentro de suas úni.
regulação e ordenação desses mesmos seres, e em ge-
ral do conjunto dos processos sociais e da vida coletiva cas € irrepetíveis coordenadas temporais e espaciais e
e individual dos homens. ordenados de forma supostamente inteligível, precisa-
mente a partir dessa cronologia rigorosa e pontual do
Agora, na modernidade, os homens definem suas
marco temporal, isto é, a velha e infatigável historiogra-
ações a partir de e dentro desse marco, adquirindo há- fia positivista, que, junto a seu culto fetichista do dado
bitos e costumes que se regem por seu próprio funcio- e de sua datação exata, reproduz facilmente essa no-
namento. O tempo parece ter sido “expropriado” aos ção burguesa moderna desse quadro da temporalidade.
homens, o que implica que eles terão de “inserir” sua
É precisamente diante dessa forma de moderna per-
vida e suas atividades dentro dessa linha originalmente cepção capitalista do temporal e a partir de sua crítica e
vazia e Irrefreável que avança irremissivelmente diante também superação que a teoria braudeliana das dife-
deles e que, com suas “cadências” e pontos predeter- rentes temporalidades históricas irá se constituir. Ali-
minados, lhes impõe uma normatividade de funciona- mentando-se dos efeitos intelectuais produzidos pelo
mento de seu cotidiano, lhes prescreve “a hora de en- surgimento da teoria da relatividade, que pôs por terra
trar e sair do trabalho”, a “hora de comer”, “a hora de à noção física — subjacente ao conceito de marco tem-
dormir”, “o momento de brincar e divertir-se”, “o tem- poral que já mencionamos — de um tempo absoluto e
po de relaxar ou de praticar esportes” e, às vezes, até O idêntico para todos, e apoiando-se igualmente na in-
“tempo para desfrutar e sentir” tensa reproblematização do tema do tempo que, a par-
ir das diferentes ciências sociais,
raude!l se desenvo veu
A linha aberta pelana
teoria dos diferentes tempos
Europa durante os anos vinte e trinta, fernan
uma crítica profunda da concepção então vigente As
Tia,experiências e tentativas recentes da histó-
sobre o fenômeno do tempo. epreende-se É] uma noção cada vez mais
Precisa da multiplicidade do tempo e do valor
Assim, opondo ao marco temporal e a seu tempo excepcional do tempo longo. Esta última: noção
único a pluralidade dos tempos, 0 tempo homogêneo O. 1 deveria interessar às ciências sociais, nos.
Sas vizinhas.
- abstrato, as diversas durações concretas e diferencia-
das das diferentes realidades históricas, ao caráter Su- Fernand Braudel

postamente autônomo do tempo, a condição SuDOrai História e ciências sociais.


nada das durações e tempos múltiplos com respeito ãos A longa duração, 1958
fatos. fenômenos e processos históricos € à função
ordenadora e reguladora do marco temporal, Sua Hova
Quando observamos a teoria braudeliana das dife-
função como simples mecanismo de registro das dife-
rentes durações históricas em uma perspectiva históri-
rentes durações históricas, Braudel termina por deses-
ca ampla e a comparamos com as formas anteriores de
truturar e superar todas as premissas essenciais da idéia
moderna do tempo, propondo então como alternativa percepção da temporalidade, nos deparamos com uma
sua visão dos tempos diferenciais, que, como dissemos, dupla comprovação. Em primeiro lugar, as notáveis
constitui uma verdadeira revolução nas formas de as- semelhanças que ela apresenta com respeito a certos
similação da temporalidade. elementos ou propostas contidos nas formas que a pre-
Ao recorrer, em alguma medida, a certos elementos cederam. Mas também, e em segundo lugar, a novida-
da idéia pré-capitalista do tempo e até mesmo da noção de radical que essa mesma teorização elaborada por
oriental da temporalidade, em oposição a essa idéia Fernand Braudel em torno do tema maior da tempora-
lidade representa diante de todas elas.
moderna do temporal, Braudel conseguirá construir uma
outra teoria específica sobre a temporalidade, que afir- Já insistimos, nas páginas anteriores, nas coincidên-
ma que o tempo é na verdade muitos e múltiplos tem- cias mencionadas. Por exemplo, na idéia de clara
pos, diversas durações dos fatos, fenômenos e proces- hierarquização dos tempos, que distingue o tempo sa-
Sos históricos, que, embora possam ser medidos a par- grado ante o mais relativo tempo profano, e a sensibili-
tir do registro universal do marco temporal, constituem zação com respeito ao caráter semi-imóvel e realmente
no fundo realidades de durações ou vigências histó- duradouro de certas estruturas que, presentes na tempo-
ricas muito diferentes, cuja dialética complexa e sín- ralidade oriental, reaparecerão na hipótese braudeliana
tese particular configura precisamente o novo tempo como hierarquização das durações e como claro privi-
da história. légio da longa duração diante do tempo dos aconteci-
mentos, e como chamada de atenção para a necessida- historiografia positivista, m às que inunda com sua
de de aguçar o sentido que nos permita descobrir e apre. presença todo o espectro das
Ciências sociais contem-
ender essas estruturas fundamentais do tempo longo da porâneas, conforma-
se esta Posição que des-estrutura
história. Ou, ainda, as idéias pré-capitalistas ocidentais a concepção modern
dos múltiplos tempos vividos, ligados à experiência ou
dela dependentes, que serão recuperadas como a
tipologia estruturada da pluralidade dos tempos é como outras noções de temporalidade pré- modernas, para
a reiteração de que as diferentes durações são durações reintegrá-las na nova perspectiva d esenvolvida por
dos fatos, fenômenos e processos históricos considera-
Fernand Braudel. Contudo, é claro, em nossa opinião,
dos. Ou, finalmente, a noção de um marco temporal,
que, sem essa intenção crítica que Br audel herdou dos
unitário e de vigência social-geral, que permitirá a primeiros Annales, a novidade radic
Fernand Braudel insistir, para além da pluralidade tem- al de sua própria
teoria é impensável.
poral, também na dialética complexa e igualmente uni-
Essa novidade parte da própria tentativa de estabe-
tária das diversas durações históricas para configurar o
processo global da história, o processo único do itine- lecer uma tipologia estruturada dos múltiplos tempo
rário histórico das sociedades humanas, constituído postulados. Embora Braudel tenha esclarecido que
existem dezenas e até centenas de tempos históricos
ademais por durações sociais de realidades fundamen-
talmente coletivas. diferentes, seu esforço de conceitualizar os três tipos
principais de durações históricas constitui em si um
Recuperando e transformando dessa maneira alguns critério novo de ordenação e inteligibilidade do con-
dos elementos antes descobertos pelos antigos modos junto integral das realidades do próprio processo da
de assimilação do tempo, a teoria braudeliana define. história. A tripartição braudeliana não só classifica
porém, seus perfis específicos, a partir de uma inova- durações, mas propõe de fato os três grandes ciclos
ção radical que constrói um novo e diferente modo de vitais de toda realidade histórica possível: a matéria
percepção temporal. Insistamos, de maneira conclusi-
do historiador estaria submetida, necessariamente, a
va, nas determinações principais dessa novidade pro- algum desses três ciclos possíveis e às vezes a mais
funda, dessa verdadeira “revolução espiritual” em tor- de um deles. Isso significa que qualquer “problema
no da apreensão do mundo de Cronos.
histórico” que o praticante dos ofícios de Clio aborde
A originalidade da proposta de Braudel deriva, em poderá ser enquadrado ou no périplo efêmero do tem-
primeiro lugar, de seu posicionamento crítico diante Po curto e do imediato ou no percurso dos ciclos his-
He todos os seus antecedentes. Na intenção explícita tóricos conjunturais, ou, finalmente, no interior dos
de avançar no contrafluxo da concepção dominante
Itinerários diversos das estruturas do tempo longo,
do tempo, que não só está presente na tradicional Secular ou milenar. Significa também que a vida his-
tórica transcorre sempre compassa da pol , essas três
concreta da história. Pois, a
partir dessa nova percep-
a com uma luz diferente a aná-
trajetórias, qué 1 ção temporal, são editadas também novas problemáti.
fectacões. Para citar q mm
ice de suas diferentes manifestações.
q ] 989 cas da análise histórica: trata-se agora de pr
exemplo: acaso não é verdade quedefasagens,
o ie compassos, coincidências e atrasos das di.
se enriquece e se redimensiona se º estudo “ Suas ferentes realidades históricas que, ne
circunstâncias imediatas é aprofundado com o cami. bal de diferentes durações, criam ao mesmo tempo pon.
nho que conduz também à conjuntura 19687 1989, que tos de condensação da mudança histórica, registráveis
lhe outorga vários de seus sentidos,
que se de-
e ainda
e presentes em diferentescom
níveis,a
bem com
análise também do “pequeno século AA de relativa estabilidade histórica, ou de pontuais é dis-
«envolveu entre 1914/1917 e 1989? cretos conflitos recorrentes.
Por outro lado, e também nessa linha da originalida- Foi precisamente esse conjunto de perfis radical-
de da tese elaborada pelo autor de O Mediterrâneo e o mente novos que talvez tenha provocado as tão diver-
mundo... encontra-se O novo conceito de duração for- sas interpretações da contribuição braudeliana, bem
mulado em suas proposições. Para Braudel, a duração como a enorme dificuldade de sua real apreensão e de
é a dialética concreta de mudança e de continuidade de sua adequada aplicação no estudo das realidades his-
uma realidade histórica qualquer, concebida como devir tóricas.
do ser (fatos, fenômenos, processos) dentro do tempo Talvez só agora tenhamos conseguido medir as di-
imerso na dinâmica do antes e do depois. Ou seja, e mensões da teoria de Fernand Braudel sobre as dife-
para retomar suas próprias metáforas, mais que algo rentes durações históricas e possamos começar a
similar à fotografia, algo que poderia se assemelhar ao utilizá-la realmente. Longe de estar esgotada, ela pa-
filme sempre em movimento, à “viagem” ou itinerário rece estar hoje em seu início. Braudel a propôs como
percorrido pelos seres históricos em sua curva de per- uma primeira contribuição para se construir uma nova
manência e de mutação específicas. linguagem e uma nova ciência social, que apenas agora
Superando, pois, a frágil divisão do tempo em pas- Se fizeram iniludíveis. Esse projeto de uma ciência
sado/presente/futuro, e a dicotomia rígida do pensamen- Social renovada encontra, assim, uma primeira peça
to binário entre continuidade e ruptura, a imagem recuperável nessa proposta braudeliana sobre o tem-
braudeliana da duração cria um novo “olhar” ou forma po. Faltariam as propostas equivalentes sobre o espa-
de abordagem das dimensões do real-histórico, forma ço, sobre o número, sobre a hierarquia do social e so-
genuinamente dinâmica e dialética dos seres históricos bre outras problemáticas globalizantes similares. São
no transcurso do tempo. essas algumas das tarefas essenciais que os cientistas
Finalmente, e como corolário do anterior, encerra- sociais terão de enfrentar no imediato porvir. Que se-
se aqui toda uma nova visão da dinômica evolutiva jam bem-vindas!
Capítulo 2
A teoria braudeliana das temporalidades e das
tormas anteriores de percepção do tempo
À LONGA DURAÇÃO NO E
Tempo Oriental (Para além do tempo “vivido” e do
Tempo sagrado Longa Duração | Postura crítica e superação

Tempo profano
Hierarquia Conjuntura é
acontecimentos
das formas anteriores de
tempo “expropriado”)
percepção do Tempo

Sensibilidade quanto 6
Sensibilidade quanto Os
a é semt- Podes “ver segundo o tempo o que ocorre no
mobilidade das estruturas estruturas da Longa Duração Tipologia estruturada tempo?
das temporolidades
E Fx
Tempo Ocidental Pré-Capitalista deferenciors Santo Agostinho
Pluralidade dos tempos
Confissões, Livro XI
Múlfiplos tempos “vividos

Duração dos fatos,


Dependência do tempo com lenômenose processos | Novo conceitoOdo
artigo de Fernand Braudel, intitulado “História e
respeito à experiência Duração Histón
ciências sociais. A longa duração” e publicado inicial-
mente na revista Annales ESC, no último número de
Tempo Oadental Capitalista
1958, é sem dúvida alguma o artigo mais lido, comen-
Ambito temporal unitário Durações

Nova visão da História


tado e citado deste importante autor. Em sintonia com
a partir da dialético a celebridade desse texto braudeliano especial — ver-
Durações sociais de
Tempo de vigência realidades coletivas
das Durações dadeira “obra-prima da metodologia histórica”, que
social-geral e universal
explicita sua teoria acerca das diferentes temporalidades
históricas e da longa duração em particular —, multi-
Plicaram-se os usos € as interpretações mais diversas e
heterogêneas, as diferentes leituras que de mil e uma
formas tentam apreender realmente os conteúdos es-
senciais da proposta braudeliana em torno do proble-
ma do tempo.
O artigo sobre a longa duração histórica
“compreender foi aslido
e fazer compreender” tan.
impnlicacã
plicações
a

to como uma defesa polêmica da história e dos histo- dessa teoria dos diferentes tempos da história.
adOres diante dos embates do estruturalismo e da an-
ÃO mesmo tempo, e junto a esse universo de auto-
tropologia de Lévi-Strauss, como um elemento que,
res, dit procuraram decifrar a contribuição essencial
dentro da história, poderia ser comparado ao longo
de Fernand Braudel à teoria da história, outro grupo de
prazo” dos economistas. Foi considerado original tan.
leitores assumiria uma postura crítica diante dela, afir-
to por implicar uma nova teoria dos diferentes ritmos”
históricos ou do próprio procedimento de pluraliza-
mando que se trata de um sim
apresentação dos fatos, ou de um “artifício do discnr-
ção” dos tempos, como por apontar parao problema
maior” da articulação espaço/tempo. SO, sem corr espondência direta com a realidade, ou de

Assim, uma vez que cada comentarista do texto res- uma supervalorização das permanências históricas, que
esqueceria os elementos de mudança e a função das
saltava um aspecto ou elemento diferente que acredita-
revoluções, os “acontecimentos de ruptura” e sua ca.
va descobrir nele, chegou-se a postular que a longa
pacidade de gerar a inovação na história
duração era, na verdade, a tentativa de resgatar de ma-
neira sistemática as realidades geográficas. Enquanto Finalmente, e fechando este breve quadro das rea.
isso, outro autor insistia em que essa mesma longa du- ções intelectuais suscitadas pelo ensaio braudeliano, é
ração inaugurou o novo tratamento da história das men- interessante constatar que se chegou até a tentar utilizá-
talidades, e um terceiro se restringia a empregar o con- lo como modelo didático de explicação da história uni-
ceito braudeliano da longue durée para equiparar fenô- versal ou como esquema pedagógico para ensinar ado-
menos ou elementos que persistiram por mais de um lescentes a pensar os fatos históricos. Ou ainda, em outra
céculo. vertente, como marco de reconstrução da profunda rup-
tura de 1989, do próprio projeto ou itinerário intelec-
Falando então de tempos “geográficos”, tempos
tual da corrente dos Annales ou da própria biografia
“econômicos” ou tempos “políticos”, recortando a his-
Intelectual de Fernand Braudel.
tória em lenta (ou semi-imóvel), regular e frenética, ou
tentando classificar os fenômenos em fatos de longa, Diante desse multifacetado mosaico de leituras e
média e curta duração, ao mesmo tempo em que se de- Interpretações do célebre ensaio braudeliano, revela-se
batem no interior das dialéticas entre estrutura/conjun- bastante curiosa a declaração do próprio Braudel, no
tura, conjuntura/acontecimento ou estrutura/aconteci- Colóquio de Chateauvallon, em outubro de 1985, afir-
mento € em que se esforçam em precisar as diferenças mando que havia “passado sua vida sem ser compreen-
entre tempo natural, tempo físico e tempo social, ou dido” e, numa ocasião um pouco anterior, que sentia
entre extensão, duração e ritmo, os diferentes intérpre- ter sido pouco “seguido” em seu projeto intelectual,
tes do referencial metodológico braudeliano tentam considerando-se assim um homem “intelectualmente
colitário”. Ao mesmo tempo, € reforçando essa ima. e aperfeiçoá- la (uma tarefa que 0 D rÓ
prio Braudel de-
sem tão contrastante, é também importante corr Obotar mandava e q
Je tratou de continuar ao longo de toda à
que, até o dia de hoje, e não obstante a abundante
sua vida). quan.
Explica também as limitações
idade de comentários e de abordagens geradas Pelo ampla e complexa utilização por parte dos historiad
referido artigo de Braudel, ninguém experimentou até res € cientistas Sociais, limitações que se evidenciam
agora 0 projeto de aplicar a visão dos diferentes tem-
sobretudo nO esforço até agora não realizado de pôr
DOS e da longa duração para explicar espec Ulcamente essa teoria diante do espelho”, para solicitar-lhe a
essa mesma teoria das diversas temporalidades e du- mencionada tarefa de explicar a si mesma.
rações históricas. Ou seja, ninguém tentou até agora Com o Objetivo de preencher essa explicável, em-
aplicar essa teoria para extrair seu significado par. bora também urgente ausência, vamos tentar 0 exercí.
ticular e os motivos de seu próprio surgimento, colo-
cio de olhar a teoria braudeliana sobre os diferentes
cando-a diante do espelho para pedir-lhe um exercício
tempos a partir desse mesmo modelo da tripla tempora-
de verdadeira e detida auto-explicação.
lidade. Com isso, queremos saber mais precisamente
Por que, então, tantos e tão diversos usos”, inter- onde está a verdadeira novidade radical da contribui.
pretações e leituras do texto sobre a longue durée? Por ção braudeliana em torno dessa temática, ao mesmo
que o ceticismo de seu autor com respeito à real apre- tempo em que ilustramos com esse exemplo excepcio-
ensão de sua mensagem profunda? Por que, finalmen- nal a profunda riqueza potencial contida nessa nova for-
te, essa ausência notável de tentar olhar a longa dura- ma de ver os fatos, fenômenos e realidades históricas.
ção a partir de si mesma e os diferentes tempos a partir
do prisma de sua própria imagem refletida no espelho?
Em nossa opinião, o motivo central que responde a es-
sas Interrogações refere-se ao fato de que, para além de
sua aparente simplicidade formal, a teoria dos diversos Diferentes tempos são só partes do
tempos e durações histórico-sociais representa uma mesmo tempo.
verdadeira “revolução espiritual” quanto ao modo de Immanuel Kant
conceber e de perceber o tempo histórico, ou seja, uma Crítica da razão pura
forma nova e radicalmente diferente de abordar o fenô-
meno da dimensão temporal dos fatos e realidades so-
ciais humanas.
Embora a explicitação formal e a estruturação mais
Isso explica as dificuldades tanto de compreendê-la afinada da teoria das temporalidades diferenciais date
adequadamente e, portanto, as múltiplas e heterogê- apenas de 1958, sua verdadeira “descoberta por parte
heas leituras a que foi submetida, como de aprofundá-la de Fernand Braudel remonta aos difíceis anos da Se-
seu “funcionamento habitual”. a
gunda Guerra Mundial.dasComo
SUCESSIVas
ele mesmo em mostrandU-se
ços mais essenciais,
sUçam seus perfis e tra-
então de maneira
várias ocasiões, foi no próprio processo
mais clara e evidente para todo O mundo.
redações de sua obra sobre O Mediterrâneo é O mundo
Dessa maneira, e para voltar
mediterrâneo na época de Filipe que a decomposi. ao problema que aqui
ção dos tempos se “impôs quase por st mesma , trans. nos ocupa, é fácil perceber que a Segunda Guerra Mun-
formando-se então na chave principal de construção de dial representou, entre muitas o Utras coisas e em virtu-
sua obra e no núcleo do que mais adiante será a pro- de dessa condição de situação-
limite que compartilha
com qualquer outra guerra, um
posta metodológica mais essencial de toda a produção à forma de exacerbação
intelectual braudeliana. dos traços mais profundos da
Europa daquela época e,
Esse não é um fato puramente anedótico ou secun- em consequência, também uma agudização em torno
dário, mas um fato fundamental e de primeira ordem, do modo de percepção da te
porque é precisamente como resposta às circunstân- no continente europeu começara a desenvolver no ti.
cias e acontecimentos gerados pela guerra que essa teo- mo quartel do século XIX e que se afirmou progressi-
ria dos diferentes tempos históricos é elaborada e toma vamente até Chegar a ser o modo dominante durante
toda a primeira metade do século XX.
corpo. É a partir da rejeição intelectual e, portanto, da
tomada de distância crítica diante desse mundo de acon- Qual é essa nova maneira de percepção do tempo?
tecimentos desencadeados pela guerra que se tornará Como se percebem seus traços no momento 1939-19459
possível diferenciar o “tempo dos acontecimentos ', esse Como explicou lucidamente Walter Benjamin, em vá-
tempo curto e frenético do dia-a-dia, de um tempo “me- rios de seus ensaios mais importantes, a forma de per-
nos curto” e ainda de outro “muito mais longo”. ceber o tempo por parte dos homens, modificou-se de
O que é, afinal de contas, a guerra em geral, e o que maneira importante a partir da segunda metade do sé-
foi, em particular, essa Segunda Guerra Mundial? Toda culo XIX. Ao completar-se, no século XIX, a planeta-
guerra é, para usar estes conceitos que a literatura e 0 rização orgânica e a universalização global da história,
teatro conhecem bem, uma clara “situação-limite”, ou gera-se uma concomitante multiplicação acelerada dos
Seja, uma situação que, rompendo a cotidianidade nor- acontecimentos que agora podem ser percebidos pelos
mal e seus mecanismos de funcionamento habituais. diferentes indivíduos e a cujo conhecimento indireto
leva até o limite os traços mais característicos € pro- eles podem agora ter acesso. Nasce assim a possibili-
fundos dessa mesma vida cotidiana. Desse modo, a si- dade de assimilar a nossa experiência pessoal, de
tuação-limite converte-se em um “observatório privile- Interiorizar de algum modo esse acúmulo enorme e cres-
giado "dos mecanismos e das estruturas mais típicas de cente de acontecimentos exteriores, os quais começa-
uma situação cotidiana e normal, os quais, nessa con- ram a ser percebidos cada vez mais como algo autôno-
dição de exacerbação extrema criada pela ruptura de mo e externo a nós, como fatos sempre novos, breves €
fulgurantes, que parecem desprovidos “8 Conexão ou
e sua Talsa
de hierarquia entre si e que, em virtude
autonomia e exterioridade, não podem ser vinculados
"om as tradições e referências já existentes. Desse modo, o momento da
Sueérra caracteriza-se
A mudança vivida pela imprensa, precisamente nos
homens
pela hipersensibilização dos
diante desse
“tempo dos acontecimentos”, perceb
últimos lustros do século XIX e que, substituindo as O

publicações elitistas e especializadas debranco” esquema moderno do marco tempo


outrora, que
inau
gura o jornal de publicação diária e e consumo de nesses anos difíceis se
massa expressa muito bem essa transformação = modo até saturado de fatos — históricos o
de perceber a temporalidade histórica. À partir desse que lhe ditam as batalhas, conquistas ou recon
momento, o tempo — que já era percebido desde antes de novos territórios, as ações repetidas, pla
como esse marco vazio e homogêneo em que a moder- espontâneas dos movimentos de re
nidade capitalista burguesa o constituíra — será assu- ção, bem como Os comunicados cotidianos dos fer.
mido de modo ainda mais radical como um espaço “a dos, vítimas, desaparecidos e as baixas de um e outro
front.
ser preenchido” e, portanto, como essa dimensão “em
branco” que deverá ser preenchida todos os dias, com E é precisamente como reação a essa forma de assu-
novos e sempre chamativos acontecimentos, tão mir a temporalidade, emseuinterior— e a partir de um
efêmeros e pouco históricos em sua maioria, como re- campo de prisioneiros —, mas em clara e aberta oposi-
correntes terão de ser nesta forçada renovação cotidia- ção a ela, em um explícito esforço de transcendê-la e
na de sua publicação nos jornais. de se posicionar criticamente diante dela, que se cons-
Preservando essa forma de percepção do tempo que truirá a visão braudeliana dos diferentes tempos e du-
a modernidade burguesa criou, em que o marco tem- rações históricas. Fernand Braudel o disse com todas
poral” vazio pouco a pouco se enche de acontecimen- as letras, ao afirmar que era necessário “rejeitar os acon-
tos, mas transformando-a em uma clara “saturação”, tecimentos” e o “tempo dos acontecimentos” que en-
agora repetida e cotidiana, de acontecimentos de rele- tão se viviam, passando assim desse tempo “trágico”,
vância muito diversa, desse mesmo espaço da temporali- curto e completamente “événementielle”, repleto de
dade, o período da história européia de 1869-1939 es- loucuras e de desgraças, para os tempos médios e lon-
tabeleceu a modalidade particular de viver e assumir 0 gos da história, para os registros mais profundos da tra-
fenômeno do tempo que será levada justamente até sua ma particular que então se vivia.
condição extrema durante os anos 1939-1945, anos em Com isso, o que se questionava não era apenas esse
que o mundo acompanha, angustiado e esperançoso ao modo de percepção e de concepção temporais próprios
mesmo tempo, as “notícias” sobre os “novos aconteci- das circunstâncias de guerra, mas também suas moda-
lidades específicas desenvolvidas entre 1860 e 1930 Por isso, não é por acaso
nos de qu
— e como veremos mais adiante, também suas modal; 1919 a 1932 floresça em toda a Eu
dades anteriormente vigentes e muito mais profundas movimentos críticos € contracultu
— modalidades que se expressavam na Imprensa es. diferentes caminhos e em campos p
crita cotidiana e na popularidade então avassaladora diversos, Poti “IM questão as formas básicas da
do instrumento radiofônico, e que Já tinham começado racio nalidade moderna dominante, Quando Sigmund
a ser teorizadas e criticadas de maneira geral, durante a Freud e seus discípulos descobrem o inconsciente e tr
conjuntura entreguerras, que precede o momento de zem à luz todo esse universo complexo da sexualidade
1939-1945 e que lhe outorga também, em outras di- repri mida e normatizada, eo grupo do Ordine Nuovo
mensões, parte de seus sentidos mais profundos. trata, junto com Antonio Gramsci, de repensar os me.
cani smos da política moderna e de sua subversão por
parte do novo bloco histórico”, assim com
os historiadores franceses dos Annales criticam avelha
historiografia positivista instala da na Sorbonne, para
Submetemos, assim, ao exame e estudo o
promover uma outra nova história, ou os membros da
tempo e suas propriedades.
Escola de Frankíurt levam a cabo sua análise e
Aristóteles desmontagem da lógica da “razão instrumental” daquela
Física, Livro IX, capítulo 14 época, em todos esses casos está-se dando expressão e
curso, de maneiras bem diversas, a uma conjuntura cuja
“senha geral é a de repensar e examinar, a partir de seus
A conjuntura vivida pela Europa entre o fim da Pri- próprios fundamentos e numa perspectiva crítica, as
meira Guerra Mundial e o início da Segunda é uma principais formas da consciência e da racionalidade
conjuntura que, vista em perspectiva histórica, se apre- burguesas modernas.
senta como excepcional, pois, embora seja verdade que, Logicamente, tudo isso leva os protagonistas e inte-
em nossa opinião, o fim da parte ascendente e o clímax lectuais daquela época a repensar profundamente a con-
da curva global da modernidade capitalista já fora al- cepção burguesa moderna da temporalidade, a partir
cançado com as revoluções européias de 1848, tam- de abordagens bastante diversas. Em primeiro lugar, e
bém parece claro que é apenas setenta e noventa anos como horizonte mais geral de toda essa conjuntura, a
depois, e precisamente nesse período de entreguerras, partir da crise global desencadeada pela descoberta €
que a própria consciência européia assumiu de manei- difusão da Teoria da Relatividade Geral. Com esta últi-
ra radical e sistemática todas as implicações dessa vi- ma, não só foram sacudidas profundamente todas as
rada da curva vital do projeto da modernidade. certezas antes adquiridas pelas ciências, tanto naturais
como sociais, obrigando-as a repensar suas noções mais profunda e revolucionária transformação que, como
primárias e elementares, mas também eliminou-se de- todas aquelas que acompanham o surgimento da
enitivamente a idéia de um tempo absoluto, universal modernidade, implica também uma modificação radi-
e idêntico para todos os homens. Com os trabalhos de
Einstein e de seus seguidores, demonstrou-se que não
cal nas formas da vida human
marco temporal e com a sua utilização como mecanis-
existe um tempo único para todos os homens, pois este mo de regulação da vida social dos homens. revolu-
é correlativo ao espaço, à posição a partir da qual é cionou-se radicalmente o modo de percepção e de con-
medido e à velocidade de movimento daquele que mede, cepção do tempo até então vigente.
Com isso, não entra em crise apenas a antiga noção de Agora 0 tempo deixou de ser uma dimensão a mais
tempo físico, empregada pela física newtoniana, que da experiência vivida e cotidiana, para transformar-se
concebe o tempo como algo idêntico e absoluto, mas em uma entidade que parece ter sido expropriada aos
também, e de maneira mais geral, a própria noção glo- próprios homens, em algo que parece preexistir a eles
bal da temporalidade que a modernidade capitalista vi- de maneira autônoma como um campo ou espaço va-
nha construindo desde o século X VI e que foi a noção zio e abstrato, que eles terão de “preencher” com acon-
dominante em torno do fenômeno do tempo durante “tecimentos e com as ações particulares que se desdo-
toda à vigência dessa mesma modernidade. brarão imersos ' nesse mesmo marco temporal. De-
Essa noção, que concebe o tempo como “um marco pois dessa profunda revolução realizada pela moder-
temporal” definido como um marco abstrato, homogê- nidade em torno da dimensão temporal, os homens co-
neo, vazio e constituído por unidades idênticas que se mem “quando chega a hora de comer” e não quando
fragmentam precisa e regularmente em anos e dias, mas estão com fome, e vão dormir ou se levantam quando é
sobretudo em horas, minutos e segundos — uma divi- “a hora de dormir ou de acordar”, e não quando são
são que só se torna corrente e difundida socialmente vencidos pelo cansaço ou quando suas energias foram
no século XIV —, essa noção somente pôde afirmar-se realmente repostas.
a partir da invenção do relógio mecânico moderno, Os homens vivem agora sua vida como “inserida”
apoiado no mecanismo da roda catarina e do escape, no tempo, que regula suas ações e existe à margem de-
que, através de seu movimento regular e uniforme, pos- les. Nessa mesma linha, o progresso humano é conce-
sibilita a medição e a divisão homogênea do dia em bido como um avanço linear, contínuo e ilimitado, de-
vinte e quatro horas, de sessenta minutos, de sessenta senvolvido pela humanidade “em bloco”, dentro desse
perfeitos e idênticos segundos. “tempo homogêneo e vazio” no qual se inscrevem e se
No entanto, por trás desse simples aparelho e dessa acumulam progressiva e ininterruptamente os
construção formalizada e específica do marco tempo- ços” do “gênero humano”. O mesmo ocorre com à his-
ral que lhe é concomitante, encerra-se na verdade uma tória, que agora será concebida precisamente como Sim-
nles “acúmulo” ou “progressão”nacrescente de aconte.
Índia. Tais noções, radicalmente diferentes da idéia
cimentos, que se acomodam para ocupar seu lugar, úni- burguesa moderna em torno do tempo, por efeito de
co e irrepetível, dentro desse marco em branco da contraste e Sim um exercício particular do método com-
temporalidade — e daí justamente a grande importân- parativo, também levarão a criticar e a rediscutir a con.
cia atribuída pelos historiadores tradicionais ão processo cepção da dimensão tem poral característica da
me

de uma fina e precisa “datação” dos fatos históricos —, modernidade.


marco que, dessa forma, vai-se preenchendo de diver-
Por 1559, não é casual que essa conjuntura privile-
sos e sempre interessantes fatos da história. giada entre as duas guerras mundiais tenha visto flores-
Entretanto, como afirmamos antes, o período 1919- cer também, Junto com as correntes de pensamento crí.
1939 constitui precisamente um período de questiona- tico antes mencionadas, uma série importante de obras
mento geral das formas da consciência e da racionalida- “e autores que, a partir de ângulos muito diversos. tenta-
de modernas e até do próprio projeto civilizatório eu- ão também desmontar essa moderna noção capitalista
ropeu. Depois da Primeira Guerra Mundial e de seus sobre o tempo, para, por meio de sua crítica, ser capa-
devastadores efeitos, rompeu-se definitivamente a iden- zes de explicá-la fundamentadamente e de transcendê-
tidade antes postulada de modo explícito ou sustentada Ja qualitativamente. Assim, como um prelúdio ou um
implicitamente entre progresso e civilização européia. desdobramento desses singulares anos vinte e trinta de
O progresso moderno, desdobrado em sua vertente eu- nosso século, veremos surgir as agudas e importantes
ropéia, demonstrou então seu “lado mau”, o que pro- reflexões de Heidegger sobre a temporalidade — defi-
vocou uma profunda revisão e crítica da própria idéia nida em sua acepção mais geral como o “próprio hori-
de progresso e, em conseqiiência, da moderna idéia zonte do ser” —, contidas em sua obra Ser e tempo, ou
burguesa do tempo que a ela se encontra vinculada. ainda a elaboração de Henri Bergson de seu conceito
Ão mesmo tempo, e nessa mesma direção de uma crucial da “duração ' e, a partir dela, a revisão retros-
tomada de distância crítica diante do projeto da civili- pectiva da evolução da idéia do tempo, ou as análises
zação européia, começou a se impor com força o ne- fenomenológicas de Husserl sobre a “consciência do
cessário reconhecimento de outras civilizações, de ou- tempo imanente”. Associando então o problema do tem-
tros esquemas ou alternativas de “escolhas civilizató- po — em suas diversas manifestações como realidade
ras que, tendo tomado caminhos diferentes daquele empírica ou como dimensão objetiva, mas também em
do ocidente europeu e da modalidade norte-européia sua condição de consciência temporal ou modo de per-
dominante da modernidade, elaboraram e desenvolve- cepção subjetiva dessa realidade — aos horizontes pro-
ram também outras formas diferentes de percepção e blemáticos da história, da psicologia ou da filosofia,
de concepção da temporalidade, como é, por exemplo, vão se desenvolver, também dentro dessa conjuntura
O caso da noção vigente do “tempo cíclico” estruturada de entreguerras ou imediatamente depois dela, traba-
lhos como as agudas observações de “a des de medida deverão agora servir para medir as du-
(a que já nos referimos), o ensaio “ o Mme] rações, sempre heterogêneas, mutantes e concretas dos
cobre o tempo histórico, as observações po Uais po-
diversos fenômenos, fatos e realidades históricas con.
rém muito profundas de Marc Bloch realizadas duran- ciderados.
te a Segunda Guerra, as reflexões de autores como
Há, então, nesse conceito braudel; ano da duração
Gaston Bachelard ou Maurice Halbwachs e até mes- algo que recorda a idéia pré-ca
mo, embora aqui ultrapassando o campo “noção
da reflexão pitalista do tempo, a
anterior à modernidade, em que o tempo é con-
social e penetrando no âmbito das expressões literá- a] e

cebido efetivamente como algo que existe subordina-


rias, obras como A montanha mágica, de Ilhomas Mann,
do ou dependente das realidades concretas e vividas.
“ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust.
Entretanto, trata-se na verdade, dentro da proposta de
Desse modo, se a “descoberta” da teoria dos dife-
Braudel, de algo essencialmente diferente, que, embo-
rentes tempos históricos foi feita por Fernand Braudel
ra recupere parcialmente essa percepção pré-capitalis-
nesse momento singular que é a Segunda Guerra Mun- ta da temporalidade, o faz apenas mediante sua efetiva
dial, também é verdade que isso se realizou no mo- e radical superação.
mento imediatamente posterior à conjuntura excepcio-
nal de 1919-1939, uma conjuntura em que a reproble-
matização e a rediscussão da questão do tempo em ge-
ral e da idéia burguesa moderna da temporalidade em
particular se encontravam na ordem do dia. Assim, ali- Recorde que o tempo é esse jogador insaciável
mentando-se dessa rica e variada atmosfera intelectual que, sem necessidade de trapacear, sempre ga-
nha, necessariamente.
que repensa e rediscute abundantemente o tema de tudo
O que diz respeito ao reino de Cronos, Braudel também Charles Baudelaire
criticará e transcenderá a já mencionada idéia moderna Obras
do marco temporal, autônomo e “expropriado” dos
homens, ao afirmar que os diferentes tempos de sua
teoria são tempos sociais e históricos, isto é, tempos Se a teoria das diferentes durações e dos diferentes
dos próprios fenômenos e das realidades históricas, que, tempos históricos constitui uma reação direta ante a
embora sejam medidos com os instrumentos universais Supersaturação dos acontecimentos provocada pela
desse marco temporal próprio da modernidade, não se “Segunda Guerra, e ao mesmo tempo uma solução ori-
subordinam, contudo, a ele, não se “inserem” nele para ginal para o conjunto de reproblematizações críticas €
preenchê-lo. O que ocorre é o contrário: o refinado de questionamentos que a noção burguesa moderna do
marco temporal e suas homogêneas e idênticas unida- tempo sofreu um pouco antes, durante e um pouco de-
AN J
nois da conjuntura de 1919 a 1939, é simultaneamente
os Seres € SãO Universais”, pois na medida em que a
ama tentativa de dupla superação dessa noção
moderna idéia
par ticular de marco temporal ainda não foi for.
mulada,
capitalista da dimensão temporal é da concepção € for. bem explicitada e forma
ma de percepção pré-capitalista dessa mesma tempo- precisamente uma das invenções da modernidade — o
ralidade. próprio tempo é percebido apenas como uma espécie
8

Nas etapas pré-capitalistas não existem ainda nem o de atributo ou característica a mais, entre muitas ou-
marco temporal abstrato homogêneo, que regula a vida tras, dos diferentes aspectos ou elementos que compõem
social na modernidade, nem tampouco os sofisticados O ser, das diversas determinações da realidade que se
netrumentos de medição que agora conhecemos. Con- considera em cada caso. Assim, nessa modalidade de
sequientemente, a medição do tempo não é sistemática, percepção, os diferentes fenômenos ou processos pa-
regular e contínua, e sim pontual e discreta, e limitada, recem secretar” seu próprio tempo, que será concebi-
do, portanto, como uma dimensão apenas subordinada
portanto, a certos momentos, processos ou situações
dos próprios acontecimentos humanos.
muito particulares. Apoiado também em relógios ne-
cessariamente limitados ou imperfeitos — como o re- Trata-se, pois, de um tempo diferente do que conhe-
lógio de sol, que pára de funcionar à noite, ou a cemos na modernidade, de um tempo que, longe de ser
concebido como universal, homogêneo, idêntico e até
ampulheta, em que o orifício de passagem da areia ter-
normativo dos processos humanos, apresenta-se como
mina por se desgastar mais cedo ou mais tarde, inutili-
um espectro discreto e disperso, configurado por uma
zando-o, ou o relógio de água, que pode se paralisar
multiplicidade de tempos vividos individuais, cada um
quando esta se congela no inverno etc. —, o mundo
com sua própria medição autônoma, particular e espe-
pré-capitalista só pode estar constituído por um con-
cífica, dentro de uma lógica em que a coisa mais natu-
junto de ações relativamente incertas, realizadas ape-
ral do mundo é a existência de “horas desiguais” den-
nas com uma grande margem de imprecisão e de tole- tro do dia. Essa lógica carece do marco unitário da re-
rância. Os homens, nessas circunstâncias, marcam en- presentação temporal e, em conseqgiiência, percebe os
contros para a tarde” ou para “quando o sol nascer”, fatos significativos de uma vida ou uma comunidade
pois estão impossibilitados de fixar um horário preci- apenas correlacionando-os de modo pontual com al-
so: um encontro às 9h30min ou às 17h45min, por exem- gum evento social importante que todo o pequeno
plo. mundo local” pôde guardar em sua memória: os ho-
Desse modo, e tal como define Aristóteles em seu mens pré-capitalistas estabelecem seu modo de percep-
livro sobre a Física, o tempo no período pré-capitalista ção da temporalidade a partir dessa vinculação de fatos
é concebido como uma das dimensões específicas do delimitados e pontuais, declarando então que nasceram
Ser, como um dos “aspectos” que “são comuns a todos na véspera da grande inundação da cidade, ou que seu
casamento ocorreu antes da última epidemia, ou realidades
que o históricas são igualmente c Oletivas, durações
governo do rei que desejam localizar aconteceu Mais que, no entanto, se medem todas el
as dentro e a partir
ou menos” na mesma época das excepcionais colheitas do registro unitário e global, univer
Salizador, do marco
repetidas durante mais de oito anos. Por isso, não po- temporal.
dem responder de imediato à pergunta sobre sua idade
Desse modo, o autor da grande obra sobre O Medi-
exata, a qual conseguem precisar apenas depois de um
cálculo especial e realizado ex-professo para tal efeito.
ferrâneo e O mundo mediterrâneo n
Embora conheçam, sem dúvida, os calendários, estes
II transcende a noção pré-capitalista d
fazendo intervir sobre ela a função de registro do mar.
ocupam em sua vida cotidiana uma função absoluta-
mente diferente da que terão na vida da modernidade,
co temporal, ão mesmo
ção clássica moderna desse mesmo marco temporal o ão
Submersos nesses múltiplos e infinitos tempos vi-
vidos”, e sem um marco global formalizado que unifi-
redefinir suas tarefas, prec
cidade dos tempos que o mundo pré-capitalista já co-
que de modo mais preciso suas ações e condutas coti- nhecera e afirmara.
dianas, os homens do período pré-capitalista desenvol-
vem, portanto, um modo de percepção do tempo que Como dissemos antes, Braudel vai criticar e superar
eles parecem dominar ao enfrentá-lo sob a figura des- também a noção burguesa moderna da temporalidade.
ses múltiplos tempos individuais, cotidianamente ex- ao manter € reivindicar a validade do marco temporal,
perimentados e diretamente protagonizados, vividos mas mediante uma inversão radical do que deve cons-
como parte de sua própria atividade regular. tituir sua função essencial: no conceito braudeliano dos

São esses múltiplos tempos individuais e concretos, vários tempos e das diversas durações, o marco tempo-
característicos da idéia pré-capitalista do tempo, que ral já não existe como mecanismo dominante e regula-
Fernand Braudel resgata e supera em um mesmo movi- dor da vida social humana, senão como simples instru-
mento de medição e registro das diferentes tempora-
mento, com sua noção das diferentes durações históri-
lidades sociais e históricas.
cas. Superando esse caráter individual, indeterminado
e demasiado pontual e delimitado da forma típica de Assim, a proposta braudeliana transcende de fato a
percepção temporal da etapa anterior à modernidade, visão do tempo própria da modernidade, visão que con-
mas mantendo simultaneamente a idéia de múltiplos e cebe este último como uma entidade autônoma e auto-
aiferentes tempos, a teoria braudeliana procura cons- subsistente, como uma dimensão que parece transcor-
truir uma nova noção da duração, porque, para Braudel, rer, avançar e progredir linear e irreversivelmente à
os muitos tempos da história não são tempos indivi- margem dos processos e dos acontecimentos humanos.
duais, mas sociais ou coletivos, tempos plurais e diver- Ão reposicionar esse marco temporal que antes existia
SOS, Visto que as diferentes durações específicas das como “folha em branco” para ser preenchida pelos fa-
tos históricos, em sua nova condição “de ferramenta ricas, às quais, na “dialética de suas diferentes dura.
universal destinada a levar o seguimento é àÇ medição
ões — que não obstante são medid as € adquirem sua
das diferentes durações desses mesmos fatos e fenô- possibilidade de comparação mais geral entre s: d Par-
menos históricos, dissolve-se inteiramente essa aparente tir e através do marco temporal unive
autonomia e independência da qual parecia gozar o mitem apreender 0 núcleo da dinâmica histórico-cor.
“tempo moderno”, ao vinculá-lo novamente, de forma creta das sociedades € civilizações que a história co.
direta e sistemática, ao universo real dos processos da nheceu até agora.
história.
Desenvolvendo uma estrita superação (Auf
A partir daqui, o tempo já não pode ser concebido tanto do modo de percepção pré-capitalista da
como uma espécie de campo vazio, nem tampouco temporalidade, como da modalidade burguesa moder-
como um espaço homogêneo e linear. Em seu lugar
na de experimentar e conceber a dimensão temporal,
apareceram agora as medições concretas e variáveis, Fernand Braudel levou a cabo, fundada e radicalmen.
das diferentes durações dos fenômenos sociais, cuja te, essa revolução espiritual” que constitui a teoria dos
coexistência e muito complexa imbricação constituem,
diferentes tempos e durações históricos em geral e da
em sua combinação específica, O novo tempo da histó- longa duração em particular.
ria. Do mesmo modo que as diversas cores do arco-íris
Parafraseando os próprios termos com os quais
se combinam para formar o branco, assim os diferentes Braudel explica a passagem da história “événementielle”
tempos sociais, com suas durações desiguais, se com- para a história econômico-social, e radicalizando seu
binam para formar em seu conjunto o novo espectro da sentido, podemos afirmar que, a partir do aparecimen-
temporalidade histórica humana. Temporalidade que to da teoria braudeliana das diferentes temporalidades
não mais será a monótona sucessão e progressão linear e durações da história, “houve uma (profunda e radi-
de segundos, minutos, horas e dias, e sim o difícil pro- cal) alteração do tempo histórico tradicional”. E pode-
cesso ou dialética de adequação e defasagens das dife- mos então concluir também com ele que, depois disso,
rentes durações, o jogo complicado de apoios, contra- “|...] o historiador dispõe certamente de um tempo
dições, divergências e pontos cruciais das diferentes novo. Cheios de otimismo, confiemos em que saberá
realidades e acontecimentos históricos. realmente aproveitá-lo.
Superando, assim, essa noção moderna de uma
temporalidade auto-suficiente, abstrata, indeterminada
e linear, Fernand Braudel desloca o centro das preocupa-
ções do historiador, enfocando-o de uma nova maneira
pará O exame renovado das realidades sociais e histó-
te O trabalho sistemático
da totalidade, que depois seriam recompostos median-

to simplificadamente o célebre esquema de Condillac


Assim, à totalidade complexa do social humano na
Capítulo 3 história foi resumida ou classificada tanto em diferen.
tes ordens de fenômenos, como em subuniversos de
diferentes redes de relações, m
CIVILIZAÇÃO MATERIAL E HISTÓRIA
com as diversas durações ou a partir dos critérios de
DA VIDA COTIDIANA* suas diferentes lógicas de funcionamento geral. Com
isso, à vida social pôde ser (de)composta, por exem-
plo, em vida econômica, social, política e cultural, ou
...] a introdução da vida cotidiana no terreno nas escalas do indivíduo, da família, do local, do regio-
da história era algo útil? Era necessária... nal, do nacional e do mundial, mas também em fatos.
Fernand Braudel fenômenos e processos de curta, média e longa dura-
“Prólogo” do tomo I do livro ção, bem como em vida material e vida espiritual.
Civilização material, economia e Neste mesmo sentido, e com o objetivo de buscar
capitalismo, 1919 novas formas para compreender adequadamente a “re-
cente” realidade social global, o século XX trouxe uma
nova subdivisão possível dessa mesma vida social: à
que separa a vida cotidiana, ordinária ou habitual, do
Ao longo da história, a vida social dos homens, em
sua enorme complexidade e diversidade, tem sido ob- mundo do não-cotidiano, o extraordinário ou excep-
cional. Ao longo dos últimos cem anos, pudemos ob-
jeto das mais diferentes classificações. Ao tentar apre-
servar 0 resgate, múltiplo e reiterado, que as diferentes
ender a enorme massa de conteúdos que ela encerra, OS
ciências sociais contemporâneas realizaram desse vas-
cientistas sociais viram-se levados a construir os mais
to território que abrange o campo do cotidiano-social.
complicados e heterogêneos procedimentos de “decom-
O mesmo ocorre a partir da psicanálise ou da antropo-
posição do todo em suas partes”. Tais procedimentos
logia, em que, a partir dos horizontes da filosofia, da
tornaram possível a “análise” detida de todas essas pe- literatura ou da história, o cotidiano deixou de ser um
cas, subníveis, fragmentos ou elementos constitutivos
simples objeto marginal, confinado à curiosidade dos
especialistas em folclore, dos colecionadores dos cos-
tumes e da tradição, para se transformar em um campo
* Para efeito de publicação desta edição, o texto original deste capi-
rigoroso da análise e da explicação científica, bem como
tulo foi adaptado, não sendo mantido na íntegra.
em instrumento dessas mesmas ciências sociais men- homens. ve) amos então muito brevemente, e à maneira
cionadas. de simples tese, esses diferentes aspectos.
Como definir então o cotidiano? Como relacioná-lo Na curva global percorrida pela historiografia con-
com o restante da vida social que escapa de suas fron- temporânea do século XX, corresponde à Fernand
teiras? Quais são suas dimensões específicas € sua sig- Braudel a tarefa de ter introduzido o tema da vida coti-
nificação dentro dos processos sociais ou históricos diana na análise histórica. Com seu particular conceito
humanos? Qual a relevância de seu estudo e seus pos- de vida ou civilização material, que faz parte de sua
cíveis ensinamentos? Trata-se aqui de questões com- teoria ou explicação mais geral sobre o capitalismo.
partilhadas por todas essas ciências sociais que tenta- Braudel pretende justamente recuperar certas dimen-
ram “cercar” e apreender racionalmente essa esfera da sões do cotidiano, propondo-nos sua tematização qua-
vida cotidiana, e portanto de uma típica “problemática litativa e também O exercício de demonstração de sua
globalizante”, que não só torna possível e necessário o real operatividade histórica.
diálogo e a confrontação entre essas diferentes ciên-
Nessa linha, Braudel dá uma definição geral do co-
cias humanas, mas que poderia auxiliar, mais radical-
tidiano quando, ao resumir o argumento de sua grande
mente e no futuro, a real superação da configuração de
obra Civilização material, economia e capitalismo, as-
seu episteme hoje vigente, desse episteme limitado que sinala:
separa, delimita e comprime as diversas disciplinas cien-
tíficas que dividem entre si esse espaço de tratamento Parti do cotidiano, daquilo que, na vida, se encarrega
do social-humano na história. de nós sem que sequer o percebamos: o costume — ou
Procurando trazer alguns elementos de resposta a melhor, a rotina —, mil gestos que se desenrolam e se
esse debate ainda aberto em torno do cotidiano e de concluem por si mesmos e com respeito aos quais nin-
guém precisa tomar uma decisão, que ocorrem sem que
seu estudo, o presente ensaio aborda de forma muito
tenhamos plena consciência deles. Creio que a humanida-
resumida e quase apenas enunciativa a concepção de de encontra-se algo mais que semi-submersa no cotidia-
Fernand Braudel em torno da vida cotidiana e de seu no. Inumeráveis gestos herdados, acumulados confusa-
papel na história, uma concepção que, construída no mente, repetidos de modo infinito até nossos dias, nos aju-
interior de um debate e de uma atmosfera intelectual dam a viver, nos cercam e decidem por nós durante toda a
nossa existência. São impulsos, pulsões, modelos, formas
muito particulares, serviu a Braudel para edificar uma
ou obrigações de agir que às vezes, e com mais fregiiên-
nova explicação da história e da situação atual do capi-
cia do que imaginamos, remontam à noite dos tempos [...1.
talismo e da modernidade, permitindo-lhe também re- Foi isso que procurei englobar com o cômodo nome —
novar de modo importante a historiografia contempo- embora inexato, como todos os termos de significado de-
rânea, ao introduzi-la na tarefa da tematização sistemá- masiadamente amplo — de vida material [...), esta vida
tica e qualitativa desse âmbito da vida cotidiana dos que nós mais suportamos que protagonizamos.
Essa definição do cotidiano, além de precisar vários que considera realmente relevantes, mas também se
dos elementos dessa civilização material da qual se contrapõe a um tratamento ou enfoque da vida cotidia-
ocupará nosso autor, delimitará também os contornos na que em sua opinião não é suficientemente histórico,
desse novo campo de pesquisa que Fernand Braude] sendo mais o objeto de uma análise de tipo estrutura-
inaugura para a história e para a historiografia, campo lista. O conceito de vida material surgiu emum contex-
que será depois frequentado, explorado e até banaliza- to no qual O projeto da antropologia estrutural de Claude
do pelos historiadores posteriores. No entanto, ao ser Lévi-Strauss encontra-se confrontado diretamente com
incorporado à obra braudeliana, representou sem dúvi- a histori ografia promovida por Braudel e pelos Annales
da uma ampliação fundamental e uma mudança impor- braudelianos, € em um momento no qual começa ades-
tante dos territórios e das fronteiras até então vigentes pontar com força essa curva do estruturalismo francês
para a pesquisa histórica contemporânea. que invadirá quase todas as ciências sociais do hexá-
Contudo, se Braudel leva a cabo essa introdução da gono durante os anos sessenta do século XX.
vida cotidiana na história, não o faz de modo indis- Dessa perspectiva, o conceito de vida material re-
criminado ou passivo, mas de uma maneira sistemática presenta uma tentativa consciente de recuperar, a partir
e estruturada que, por meio da elaboração de seu con- da história e da longa duração histórica, alguns dos ele-
ceito de civilização material, resgata só aquelas dimen- mentos da vida cotidiana que a antropologia de Lévi-
sões e elementos do cotidiano que constituíram verda- Strauss incorporara e analisara anteriormente, embora
deiras arquiteturas da longa duração histórica e, em com um enfoque muito mais estrutural e sincrônico.
consequência, são estruturas realmente atuantes e de- Então, não será surpreendente reencontrar, tanto na obra
cisivas dos processos históricos humanos. antropológica da escola francesa de Lévi-Strauss, como
Nem toda a vida cotidiana, repleta tanto de milhares na historiografia realizada durante o período
de pequenos acontecimentos banais e singulares como braudeliano dos Annales, certos temas compartilhados,
de fatos reiterados e de maior densidade histórica, Inte- como os da alimentação, o vestuário, as técnicas ou O
ressa por igual ao historiador que explicitou a teoria espaço urbano, embora tratados de maneira diversa nos
das diversas durações sociais dos fenômenos da vida dois enfoques mencionados.
humana. Interessam-lhe só aquelas partes que, tendo Fernand Braudel recupera, então, historizando-os,
desempenhado um papel realmente decisivo na histó- alguns desses “objetos” antropológicos tomados do
ra, se constituem como os diferentes elementos do que universo da cotidianidade e os redefine a partir de suas
nosso autor incluirá em seu conceito da vida material. habituais perspectivas da longa duração histórica e da
Ao delimitar os conteúdos da vida material, Fernand história global e mediante seu singular conceito de vida
Braudel não só seleciona aqueles espaços do cotidiano Ou civilização material.
Considerado na obra global de Fernand Braudel, esse Com isso, Braudel será ca
paz de pensar esse capita-
-onceito não se apresenta como Bim GONCRO isolado, Jismo e essa modernidade a
partir de uma perspectiva
as como uma das peças centrais de uma teoria mais fundamentalmente crítica.
POIS, num exercício cuja
geral sobre o capitalismo e a modernidade. No esforço semelhança com a reflexã
O de Marx salta à vista.
de fazer avançar e de levar adiante tanto à reflexão teó- Braudel explica o capitalismo partindo do mundo do
“ca como a pesquisa desse mesmo capitalismo, Braudel consumo e não da produçã
O, conirontando, além disso,
trata de construir uma perspectiva nova e inédita para o a modernidade a partir da
esfera da civilização mate-
-xame dos mesmos temas. Então, ele se vê obrigado a
rial e da civilização em geral, o que torna possível su-
rranscender os resultados e as pesquisas da economia e
da história econômica tradicionais, centradas sempre blinhar Seu car áter apenas histórico e efêmero. Igual.
mente, e numa perspectiva que, sem ser limitadamente
nos problemas dos preços, da produção, do comércio e
antieur ocentrista, é no entanto, crítica do eurocentrismo
dos diferentes intercâmbios, para aceder a um novo
Braudel trata de explicar a Europa, a “singular
espaço de problemas habitualmente “esquecidos” ou
européia, a partir da não-Europa e do mundo. E final-
“omitidos” por esses economistas/historiadores. E é
mente, nessa mesma linha, nosso autor é capaz de
então que vai descobrir e abordar questões como a das
relativizar, redimensionar e até reexplicar com novas e
diferentes figuras e estruturas concretas do consumo,
originais luzes todos esses acontecimentos da “Grande
os elementos constitutivos das técnicas e de suas dinã-
História que tanto obnubilam a vista dos historiadores
micas específicas, o papel da dialética entre o luxo e as
positivistas, justamente a partir da história “miúda e
necessidades, a presença e influência da relação cam-
po/cidade ou o impacto dos fluxos e movimentos ordinária”, que é a história essencial da civilização
material composta por essas estruturas de longa dura-
demográficos dentro da história.
ção presentes de maneira privilegiada nesse âmbito do
Reencontrando por sua própria via esse complexo cotidiano.
universo temático que Marx conceituara como O 'sis-
A partir dessa cotidianidade que é a vida ou a civili-
tema das necessidades e das capacidades humanas,
Braudel se introduz na análise desse setor da vida coti- zação material, Braudel pôde pensar o capitalismo de
diana composto por essas realidades igualmente eco- modo crítico, novo e original, pôde pensá-lo todo “ao
nômicas, ou infra-econômicas, mas essenciais para en-
contrário”.
tender essa mesma economia, que abrange as formas Para conseguir compreender, em seguida explicar
de alimentação, as fontes de energia, do vestuário, OS e finalmente demonstrar a real operatividade históri-
espaços rurais e urbanos, as bebidas e estimulantes, O ca dessas estruturas de longa duração do cotidiano que
ambiente cotidiano ou as formas de reprodução bioló- foram o centro de seu interesse, Braudel construiu o
gico-demográficas das sociedades. conceito de civilização ou vida material. Embora ele
te, se configura como coorde
mesmo tenha- se negado a dar uma definição clara e nada realmente explicativa
cita desse conceito, limitando-se, segundodas
suas
grandes curvas civilizat Óórias das sociedades.
explicita aVIAS. mais a “inventariá-lo, nós pode- Um segundo traço que d
efine a civilização material
Própria lado, tentar verificar mais explicita.
é o fato de que constitui p arte da singularidade de vas-
tos grupos humanos, na
medida em que é uma das di-
mensões que caracteriz
civilização material, extraindo
d algums “Sds dm des históricas globais e
am, em particular, essas entida-
plicações possíveis para à tematização his abrangentes que são as diferen.
tes civilizações da hist
cotidiana. UU E. Ho
Ória. Assim, a partir da síntese
de uma complexa mu tiplicidade de traços, entre os
para Braudel, as realidades da civilização material
são, em primeiro lugar, um conjunto de estruturas de
quais se incluem aqueles pertencentes à esfera da vida
material, configuram-se as diferentes civilizações
longa duração. Isto é, não são simples tenômenos que
perduram e permanecem manas
no que constituem
tempo em longos os In
protag
gerais da evolução histórica.
los, mas verdadeiras arquiteturas que ao os
andaimes e referentes do processo histórico, dimensões A divisão ou geografia diferencial do planeta,
lentas em se constituir, em vigorar e em caducar, que estabelecida a partir dessas diferentes civilizações que
definiram em muito as fronteiras do possível e do im- O habitaram eo habitam, é também uma primeira e apro-
possível na história. É o caso, por exemplo, dos dife- ximativa geografia da diversidade do cotidiano: pois
rentes esquemas de alimentação em torno dos diferen- Os homens acompanham suas refeições com vinho ou
tes cereais básicos das civilizações, que, além de re- com chá e cobrem o corpo com lã, linho ou seda, cons-
truindo suas casas de pedra, madeira ou ramos e folhas
produzir as grandes populações do planeta, permitem
de árvore, utilizando vento, água, cavalos. bois ou a si
construir também diferentes regimes da distribuição do
mesmos como fontes da energia necessária para levar a
tempo livre/tempo de trabalho, criando também diver-
sas atitudes ou “éticas” com respeito à atividade de tra- cabo seus empreendimentos produtivos.
balho e ao rendimento produtivo. É claro que o cotidiano é também uma estrutura di-
ferenciada que se especifica temporal e espacialmente
A partir disso, torna-se claro que, embora o caráter
€ que, portanto, precisa ser classificada, pois, apesar de
de ampla permanência, de reiteração ou repetição que
sua longa permanência, a vida cotidiana possui toda a
singulariza todo o universo dos fenômenos cotidianos
seja também compartilhado por essa longa duração que variedade e riqueza dos diferentes núcleos e grupos
define a vida material, esta última é, por sua vez, apé- civilizatórios entre os quais se divide a atual população
de nosso planeta.
nas um setor particular daquele universo, visto que neri
todo o cotidiano é essencial para o historiador, e sim Um terceiro traço que define a vida material trata
apenas aquele que, ao durar e repetir-se recorrentemen- em seu conjunto de diferentes respostas humanas às
coações da base geo-histórica, os homens e paraCS
pois, no CEAUSMA às sociedades,
Im» então é também um
15
terpretação braudeliana, a base g€0- O tm ea
» limita as sociedades € OS homens, criando ain cam
espaço privilegiado para entender, em cada momento
os difíceis limites da ação humana. Ao constituir essas
so de possibilidades” para suaironteiras
própria do ação.
possível são pre-
e do impossíve
-icamente as diferentes estratégias de respostas elemen- dada, as chaves da vida material introduzem uma dose
ares dos homens a essas coações geográficas que pro- de necessário realismo nos esforços d
duzem as diferentes figuras da civilização material social, ao mesmo tempo em que permi
Assim, conforme os recursos disponíveis e dentro dos muitos dos fracassos e tropeços, mas também dos su.
horizontes do campo das possibilidades estabelecidos cessos € da legitimidade das exigências de muitos mo.
vimentos sociais e políticos da história.
pelo meio geo-histórico, as civilizações serão agrico-
las, pecuaristas, comerciantes ou coletoras e caçado- Esses espaços da cotidianidade são também um in-
ras, construindo cidades fixas ou migrantes ou alimen- dicador excepcionalmente fiel da verdadeira profundi-
tando-se de maneira quase exclusivamente vegetariana, dade e radicalismo de uma mudança histórica qualquer
ou com partes importantes de elementos camnivoros. A revolução real de uma sociedade é capaz de ir tão
Desse modo, é claro que aquelas zonas do cotidiano longe quanto sua capacidade de modificar a fundo à
que correspondem à vida material são O resultado des- vida cotidiana, renovando radicalmente essas estrutu-
sas estratégias de sobrevivência e adaptação que o ho- ras civilizatórias elementares da vida material. Um fato
mem elaborou trabalhosamente, com muita paciência, Ilustrado amplamente com a profunda e verdadeira re-
experiência e inteligência, e para fazer frente às pulsões volução cultural de 1968, sob cujos efeitos ainda vive-
TnNOS.
geo-históricas, e em consegiiência constituem formas
de existência às quais o homem tende a se apegar e à Já que a vida ou a civilização material é essa forma
conservar de modo quase espontâneo. O cotidiano da condensada resultante de certas estratégias humanas
vida material são estruturas profundas da vida social Inteligentes, ela só pode ser modificada a partir da
que, tendo sido construídas lentamente e tendo funcio- assunção consciente de outras novas estratégias igual-
nado durante longos períodos como sólidas referências mente inteligentes e alternativas de remodelação da vida
dessa mesma vida humana, revelam-se difíceis de se cotidiana e da vida social em geral.
transformar radicalmente e de um modo súbito, impli- Um quarto perfil da civilização material alude pre-
cando processos também longos e complicados para cisamente a essa condição de materialidade que o pró-
sua mudança. prio conceito torna explícita. Para Braudel, trata-se de
Se o cotidiano que é parte da civilização material é detectar aqueles fatos cotidianos que são tangíveis,
tradição, inércia e ponto de referência constritivo pará observáveis e que podem ser captados diretamente
mediante OS sentidos. A forma como se semeia e se = erados humanos, pois o que interessa ao historiador
-ultiva O arroz, a rota marítima pela qual circularam e da perspectiva da longa duração e da história totalizan
circulam ainda os barcos, O traçado e O desenho de uma não mca estruturas individuais do cotidiano, mas seus
3

cidade. são os fatos fáticos materiais que Nosso autor elementos mais gerais e universais
resgata do âmbito do cotidiano. No entanto, é clar O que O historiador deverá concentrar- S€, portanto, na-
existem outros âmbitos da cotidianidade que, apesar queles traços da vida cotidiana que formam o
de constituir também estruturas de longa duração, fi definindo assim as condições
mA fora do conceito de civilização ou vida material. E da vida material de uma classe social, de uma aldeia
o que ocorre, por exemplo, com todo um conjunto de camponesa ou de uma minoria nacional, apenas para
hábitos mentais, de crenças, atitudes e de comporta- citar alguns exemplos. Se se ocupa da vida cotidiana
mentos culturais, de gestos e rituais. de um indivíduo, fenômeno que é por excelência um
Foi precisamente neste último domínio que tenta- dos âmbitos de preocupação da literatura, terá de
ram avançar em grande medida os historiadores poste- enfocar essa vida individual apenas enquanto expres-
a Fernand Braudel, especialmente os artífices da são específica desse cotidiano social, coletivo ou ca-
tão difundida história das mentalidades. Prolongando racterístico do supra-individual, que é seu verdadeiro
essa tentativa braudeliana de resgatar o espaço do coti- interesse.
diano ao âmbito um pouco “ambíguo” e não bem deli-
Um sexto elemento da definição conceitual da vida
mitado do “mental”, os historiadores franceses dos anos
setenta e oitenta evidenciaram um dos grandes riscos material diz respeito à própria noção braudeliana do
cotidiano a que nos referimos anteriormente. As estru-
dessa mesma tarefa de recuperação, pois na história das
turas da civilização material, para Braudel, são estrutu-
mentalidades, que também se ocupa fundamentalmen-
te da cotidianidade, encontramos tanto brilhantes en- ras “inconscientes” da vida dos homens, na medida em
saios e obras muito sólidas quanto análises que banali- que se trata de realidades que, para funcionar e para
zam e desfiguram a importância desse problema do reproduzir-se, não requerem, como condição impres-
cotidiano, ao tratar de abranger, indiscriminadamente cindível, a participação da consciência e da vontade
desses mesmos homens.
e sem hierarquia ou seleção alguma, qualquer elemen-
to da vida cotidiana, ao qual superdimensionam e exal- Não existe uma escolha a realizar na forma de culti-
tam pelo simples fato de sua novidade e de nunca ter var e de colher o trigo, nem quanto ao movimento da
sido examinado até então. curva demográfica de nascimento e morte, ou quanto à
Uma quinta aresta da vida material refere-se ao fato essas formas de alimentar-se e viver “ao rés do chão
de que se trata também de estruturas e fatos coletivos, típicas de certas sociedades orientais, mas se trata aqui,
sociais, compartilhados por grandes grupos ou conglo- mais precisamente, dessas figuras da vida “mais supor-
tada que protagonizada” que, transmitidas
normal e
comocaso
herança
à função de suporte que essasHH)realida
pelas gerações e assumidas como hábito relação a outros níveis da mes
ma vida social. Com isso,
inquestionável através dos séculos, parecem anteceder não só propõe que as mudanças deste setor do
os homens, moldando-os, formando-os, e até educan- no terão Tepercussões importantes no restante d
do-os dentro de uma cotidianidade determinada. das sociedades — explicando, por
Isso significa que a presença do cotidiano não é gem da pré-modernidade e do pré-cap
homogênea nem igualmente relevante nas diferentes capitali smo moderno a partir das revoluções des sa vida
ordens dos fenômenos sociais, pois se O cotidiano é material, desdobradas entre os séculos XII
parte dessa vida social inconsciente, que a partir de que se encaminham todas para uma densificação anor.
diferentes ângulos ocupou os cientistas sociais, opõe- mal dessa vida material —, mas
ce então a sua vida consciente e ativa, aquela que tem r áter essencial que esse setor da cotidianidade dese.
como protagonistas a vontade e a consciência huma- penha na análise histórica em particular
na. Então, será sem dúvida mais difícil situar uma certa Partindo do próprio Marx, que teria revalorizado
cotidianidade na esfera da política ou da normatividade radicalmente O papel fundamental dessas necessidades
jurídica moderna, âmbitos em que o Jogo das vonta- econômicas “cotidianas e elementares” que são ne
des e a constante escolha constituem elementos cha- cessidades de comer, beber, vestir-se e proteger-se sob
ves de sua reprodução. Ou ainda na atividade artística um teto, e até Michel Foucault, que teria revelado e nos
ou científica, na qual a aplicação da consciência e da tornado conscientes desses epistemes que constituem
vontade encaminhadas ao desenvolvimento do conhe- nossos cotidianos e inconscientes quadros e mecanis-
cimento ou à consecução de certos fins estéticos re- mos de construção do pensar, há toda uma evidente li-
duz consideravelmente o espaço de presença dessa nha de importantes autores e de profundas reflexões
mesma cotidianidade. que se introduz nessa esfera do cotidiano, para esmiuçá-
la a partir de diferentes enfoques, linha que inclui tanto
Em contrapartida, certos aspectos da economia —
Freud e sua psicopatologia da vida cotidiana, como
muito menos o mercado e as trocas e mais a produção
Lévi-Strauss e suas incursões antropológicas nos fun-
ou as técnicas, por exemplo —, da sociedade ou da
cultura estarão muito mais dominados ou “semi- damentos cotidianos do chamado “pensamento selva-
gem , os trabalhos de Georg Lukács sobre a vida co-
submersos” nessa semi-escuridão que é a vida social
cotidiana. tidiana, caracterizados por sua tentativa de construir
uma estética marxista, ou as propostas filosóficas de
Finalmente, e como último traço, Braudel duvidará Karel Kosik sobre o vínculo entre o cotidiano e o mun-
em qualificar essa civilização material de “infra-eco- do da “pseudoconcretude”, apenas para citar alguns
nomia ou “infra-sociedade”, destacando em qualquer exemplos.
Trata-se, em nossa opinião, de um vasto fenômeno
intelectual, característico apenas dos últimos 150 anos,
e mediante o qual a reflexão sobre o social se ocupa e
e encarrega desse nível, antes marginalizado ou até
ignorado, que é O mundo do cotidiano. NOTA BIBLIOGRÁFICA

A obra de Fernand Braudel

Não existe ainda hoje uma bibliografia completa do


conjunto de trabalhos e escritos de Fernand Braudel.
E, embora seja muito provável, como afirmam os
que uma verdadeira bibliografia integral seja
uma tareía impossível, é verdade, porém, que ainda não
contamos com essa tentativa de nos dar ao menos uma
primeira bibliografia completa das obras, ensaios, re-
senhas críticas, prefácios, artigos jornalísticos, trans-
crições de conferências etc. da autoria de Braudel. Paule
Braudel, a viúva de Fernand Braudel, trabalha na ela-
boração dessa primeira bibliografia completa, que de-
verá ser incluída na série Les écrits de Fernand Braudel,
no livro LJ, L'Ahistoire au quotidien.
Na ausência desta bibliografia, pode ser útil reme-
ter-se ao texto de Branislava Tenenti, que elaborou uma
bibliografia dos escritos de Fernand Braudel, com a
assessoria e o apoio direto do historiador francês, mas
que, infelizmente, só vai até o ano de 1971. A referên-
cia deste texto é:

TENENTL Branislava. Bibliographie des écrits de Fernand


Braudel. In: Mélanges en Uhonneur de Fernand
o. Wê
praudel: Méthodologie de V'histoire et des sciences ] Civilisation matérielle, économi
humaines. Toulouse, Privat Editeur, 19/5, t. 2. XVe-XVIII siêele. Paris, Armand Colin
Essa bibliografia, elaborada com muito cuidado, co- Discours de réception de M. F emand Braudel à
| Academie Francaise et 4

bre quase toda a produção intelectual de Fernand Druon. Paris, Arthaud. 19 do de M. Maurice
Braudel, porém, como dissemos, apenas até DI . Sal, . Ecrits sur Phistoire IL Paris, Arthaud, 1990.
vo pequenas ausências, como, por exemplo, a reierên-
Numa segunda edição, em coleção de bolso, deste
cia 208 artigos publicados por Fernand Braudel no jor-
nal brasileiro O Estado de S. Paulo, em 1955-1957 e último livro, foram suprimidos dez breves artigos que
Braudel publicara em italiano no jornal Corriere della
1947. ou alguma referência falha, que dá como publi-
sera, e que não englobam a coleção completa da série
cado na Argentina, em 1948, um capítulo de um livro
de todos os artigos Publicados por Braudel nesse jor-
que na verdade ainda permanece inédito, é uma fonte
nal, e que tinham sido agrupados sob o título de “Fcrits
muito importante de consulta e acesso a essa produção
sur le présent . Em seu lugar acrescentou-se um novo
braudeliana até 1971.
texto que € o Prefácio” aos Souvenirs de Tocqueville.

. L Europe. Paris, Arts et Métiers Graphiques, 1982.


Livros mais importantes de Braudel
Esse texto, coordenado por Fernand Braudel, foi ini-
BRAUDEL, E La Méditerranée et le monde méditerranéen cialmente uma série de vários capítulos de televisão, e
à V'époque de Philippe II. Paris, Armand Colin, 1949. Inclui três capítulos escritos pelo próprio Braudel, in-
Existe uma segunda edição, notavelmente corrigida, clusive o capítulo 8, “Civilisation et Culture. Les
sobretudo no que se refere à segunda parte do livro e splendeurs de | Europe”, erroneamente atribuído a
que foi editada também pela Armand Colin em 1966. Folco Quilici, que é, na verdade, o autor das fotogra-
Quem quiser conhecer a fundo a contribuição de fias do livro, e traz textos também de Pierre Gourou,
Fernand Braudel está obrigado a ler também esta se- Jean Guilaine, Massimo Pallottino, Maurice Aymard e
gunda edição. Jacques Dupâquier.

. Civilisation matérielle et capitalisme (XV*-XVIIF —— — V'identité dela France. Paris, Arthaud-Flammarion,


siêcle). Paris, Armand Colin, 1967. 1986, 3 v.
Este livro será retomado, com ligeiras modificações, — —. La dynamique du capitalisme. Paris, Arthaud,
como tomo I da obra em três tomos Civilisation 1985.
matérielle, économie et capitalisme. XV*-X VIII siêcle, A primeira edição deste último livro foi feita em
também publicada pela Armand Colin, em 1979. inglês, com o título Afterthoughts on Material Civili-
liano, Sob o SHU1]KINASCIMEnto. Duo DueCornl:
zation and Capitalism (Baltimore/Londres, John O título Secondo Ri 14

ento. Secoli
Hopkins University Press, 19/17). e tre Italie (Turim, Einaudi, 1986)

— Lahistoriay las ciencias sociales. Madri, Alianza, 1 e monde actuel, Paris, Librairie Eugêne Belin, 1963,
1968.
E Parte Tedigida por Fernand Braudel foi reeditada
» Ta
Trata-se de uma compilação de artigos metodoló- depois com o título Grammaire E Pd

es civilisations (Pa-
gicos de Fernand Braudel, editada inicialmente em ris, Arthaud, 1987).
espanhol, e no ano seguinte em francês, acrescenta-
do-lhe seis artigos ou textos não incluídos nessa com- Les débuts de la Révolution à Bar- an

pilação em espanhol, sob o título Ecrits sur OCCE, 1989, (Col Dossiers
(Paris, Flammarion, 1969). Mais adiante, em 1971, Irata-se do texto da dissertação redi gido por Braudel
publicou-se uma versão em polonês desse livro, em 1922 para a obtenção do Diploma de Mestrado. Fo;
acrescentando-lhe novamente vários ensaios não 1n- inicialmente publicado, em 1922 e 1923, em Le Reveil
cluídos na edição em francês, sob o título Historia 1 de ta Meuse, com o título de “Les trois premiêres années
trwanie [História e duração] (Varsóvia, Czytelnik, de la Révolution à Bar-le-Duc”.
1971).
. Les écrits de Fernand Braudel. Autour de la Médi-
. La Méditerranée. Paris, Arts et Métiers Graphiques, terranée. Paris, Fallois, 1996.
19//. . Les écrits de Fernand Braudel. L'Histoire au
Este livro foi reeditado, sem as belas ilustrações desta quotidien. Paris, Fallois, (em preparação).
primeira edição, em dois volumes, sob os títulos La Les écrits de Fernand Braudel. Les Ambitions de
Méditerranée. L'espace et lhistoire, com quatro tex- [' Histoire. Paris, Fallois, 1997.
tos de Fernand Braudel, um de Filippo Coarelli e um . Les mémoires de la Méditerranée. Paris, Fallois,
de Maurice Aymard (Paris, Flammarion, 1986), e La 1998.
Méditerranée. Les hommes et Vhéritage, com textos “Navires et Marchandises à lentrée du Port de
de R. Arnaldez, J. Gaudemet, P. Solinas, M. Aymard, Livourne (1547-1611). Paris, Armand Colin, 1951.
F. Braudel e G. Duby (Paris, Flammarion, 1986). Escrito com a colaboração de Ruggiero Romano
. Une leçon d'histoire de Fernand Braudel. Paris,
. Le modele italien. Paris, Arthaud, 1989. Arthaud-Flammarion, 1986.
Inicialmente publicado em italiano, como parte de “Venise. Paris, Arthaud, 1984. [Publicado simulta-
Storia d'Italia (vol. II. Turim, Einaudi, 1974), e neamente com a edição italiana, em Bolonha, 1
republicado como livro independente, sempre em ita- Mulino, 1984|
cetada experiência de Braudel
Além dessas obras, é preciso mencionar que Fernand no Brasil, entre 1935 e
1957, e novamente em 1947 e
Braudel coordenou, ao lado de Emest Labrousse, uma Xperiência que é pouco
mencionada e cujas consegiiên Cias são claramente me-
obra importante de História da França, cuja referência é:
nos valorizadas nessa biografi d Pessoal.
a

BR AUDEL, Fernand & LABROUSSE, Ernest (coord.). Entretanto, diferentes aspectos da obra de Braudel ou
Histoire économique et sociale de la France, 4 t. seus livros mais importantes suscitara
Paris, PUF, 1970-1982. ro de ensaios, artigos e livros. Desse conjunto, que é im-
possível reproduzir totalmente agUi, selecionamos ape-
Além desses trabalhos já publicados ou em curso de
Has uma mostra indicativa mas bastante representativa.
edição, restam ainda alguns materiais inéditos de e a título de mera exemplificação, das diferente
Fernand Braudel, como por exemplo o rascunho de uma
gens que a obra braudeliana suscitou até 0 momento
História do Brasil, hoje em poder de Paule Braudel, ou
também alguns textos resultantes de transcrições de suas
aulas ministradas no College de France, ou de discus- Obras coletivas em torno da obra de
«des de seus Seminários na Sorbonne, bem como al- Fernand Braudel!
guns rascunhos conservados de sucessivas Tedações de
seus livros ou trabalhos maiores, junto a alguns textos
Várias revistas dedicaram números inteiros ou par-
de Conferências ministradas por Braudel fora da Fran-
tes importantes à obra de Braudel, reproduzindo por
ça e que se conservaram até hoje. É de desejar a pronta vezes textos de sua autoria aos quais é difícil ter aces-
publicação e resgate de todos esses materiais.
so. Igualmente, existem alguns livros coletivos, consa-
grados à análise de diferentes aspectos de seus traba-
Trabalhos sobre a obra e a figura de lhos, de seu itinerário intelectual ou de suas diversas
Fernand Braudel contribuições à historiografia. Dentre esses números de
revista e livros, indicamos:
Não existe até hoje nenhuma verdadeira biografia
intelectual de Fernand Braudel. Em 1995, foi publicada
a primeira biografia pessoal de Braudel, sob o título Livros

Braudel, escrita por Pierre Daix, e editada em Paris,


pela Flammarion. Embora se trate de um trabalho bem VVAA Braudel e U'ltalia. Prato, Ed. de la Comune di
informado e cuidadoso, ressente-se, por exemplo, de Prato, 1988.
algumas ausências nesse mesmo nível da informação, Inclui, dentre outros, um interessante ensaio de A
entre elas a que se refere à rica, complexa e multifa- Terenti sobre a atividade de Braudel em torno do Insti-
ruto Francesco Datini, e outro de Maurice Aymard so-
bre o papel da Itália na reflexão braudeliana.

VV AA. Fernand Braudel et Vhistoire. Introdução e sele-


ção de textos de Jacques Revel. Paris, Hachette, VV.AÃA. Segundas JornadaSs Braudelianne Mávina Tune
1999.
tuto Mora/UAM Iztapalapa 1995 México, Insti-
Trata-se da reunião de diversos ensaios que comen-
Atas das Segundas Jornadas Braudelianas. com tex-
tam as diferentes obras de Fernand Braudel. tos de Bernard Lepetit, Pie rre D
%

Maurice Aymard, Marteer o Revel,


ARCANGELI, Bianca & MUTO, Giovanni (orgs.).
Fernand Braudel: il mestiere di uno storico. Nápo- Aguirre Rojas.
les, Scientifiche Italiane, 1988.
VV AA. Lire Braudel. Paris, La Découverte, 1988.
Este último livro é uma coleção de ensaios muito Revistas

bem planejada que aborda várias dimensões essenciais


da obra braudeliana, com textos de I. Wallerstein, M. Espaces Temps, n. 34/35, Paris, 1986.
Morineau, M. Aymard, F. Fourquet, A. Caille, Ph. Número que inclui, entre outros textos interessan-
Steiner, F. Dosse e Y. Lacoste. tes, duas breves porém esclarecedoras entrevistas a
Marc Ferro e a Immanuel Wallerstein
VVAA. Mediterrâneo e capitalismo (Atas da Terceira Jor-
nada Braudeliana). Savona, Marco Sabatelli, 1997. Inchiesta, v. XIV, n. 63-64, Bari, Dédalo, jan.-jun. 1984.
VVAA. Primeiras Jornadas Braudelianas. México, Ins- Inclui uma seleção de textos do próprio Braudel e
tituto Mora, 1993.
vários ensaios sobre suas obras. A composição deste
Este livro traz as Atas das Primeiras Jornadas Braude- número está na origem do livro que também reúne vá-
lianas Internacionais, organizada no México em outu- ros ensaios de Braudel, intitulado 1 tempi della storia.
bro de 1991, cuja iniciativa deu lugar, mais adiante, à Economie, società, civiltã (Bari, Dédalo, 1986).
organização das Segundas Jornadas Braudelianas (Pa-
ris, jan. 1994), das Terceiras Jornadas Braudelianas Istor, n. 4, Atenas, 1992.
(Savona, out. 1995), das Quartas Jornadas Braudelianas
Número que inclui duas interessantes entrevistas, a
(Wassenaar, maio 1997) e das Quintas Jornadas Maurice Aymard e a Peter Burke, sobre a obra O Medi-
Braudelianas (Binghamton, out. 1999). Inclui textos de terrâneo e o mundo mediterrâneo na época de F ilipe If.
rinerario, v. V, n. 2, Leyden, 1981. Trabalhos individuais sobr Ê

Fernand Braudel q obra e q figura de


Journal of Modern History, V. 44, n. 4, Chicago, 1972.
Este número é interessante porque, além de forne- A obra de Braudel tem sus
cer um bom panorama da recepção anglo-saxônica da Citado interpretações di-
versas € até mesmo contra
obra de Braudel, inclui O único texto explicitamente Postas. Selecionamos uma
mostra dos trabalhos que re
autobiográfico de Fernand Braudel, intitulado aqui Hletem esta tão diversificada
recepção e adoção.
“Personal testimony” e incluído nos Ecrits sur | histoire
II, já citados.
a er Ta CAOS Antonio. Hacer a
[| 'Histoire. n. 192, Enquete: “Faut-il brâler Braudel'?”, out. líticos, n. 48 tor e audel, Cuadernos P
1995. Marx and Braudel: +. inglesa: Between
786. ltrad.
making history, knowing history,
Le Nouvel Observateur, Paris, n. de 6-12, dez. 1985. Review, v. XV,n.2, Nova York, 1992]
Número que inclui a última entrevista concedida por . Fernand Braudel y la “invención” de América,
Fernand Braudel. bem como algumas repercussões ime- La Jornada Semanal, n. 72, México, out. 1990.
diatas de seu falecimento. Fernand Braudel. Semblanza Intelectual, La Jor-
nada Semanal, n. 167, México, ago. 1992,
Magazine Littéraire, n. 212, Paris, nov. 1984. - À longa duração no espelho, Margem, n. 4, São
Review, n. 2/3, Nova York, 1978. Paulo, 1994.

Trata-se das Atas do Colóquio Inaugural do Fernand . (Re) construyendo la biografia intelectual de
Braudel Center, da State University of New York at Fernand Braudel, Obradoiro de historia moderna,
hn. 5, Santiago de Compostela, 1994. [trad. italiana:
Binghamton, dirigido por Inmanuel Wallerstein. Inclui
ainda um texto também muito interessante de Braudel. (R1) construendo la biografia intellettuale di Fernand
Braudel, Rivista di storia della storiografia moder-
“En guise de conclusion”, que complementa, em algu-
na, ano AV, n. 3, Roma, 1994|
ma medida, o texto de “Personal testimony”.
. Die “longue durée” im Spiegel, revista Comparativ,
ano 6, n. 1, 1996.
Review, v. XXIV,n. 1 (Atas das Quintas Jornadas Braude-
. A longa duração: in illo tempore et nunc, Revista
lianas), Binghamton, 2001.
de História das Ideias, n. 18, Coimbra, 1996.
Suplemento cultural “Perfil de Fernand Braudel”, Suple-
. Synchronisation et désynchronisation des mouve-
mento de La Jornada Semanal, n. 167, México, 23
ments historiques: un essai d'explication braudéhenne
ago. 1992.
de la rupture historique de 1989, revista Social Science
Information/Information sur les Sciences Sociales,
v.35,n.4, 1996.
S. Carlos Antonio. F
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