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A teoria da coculpabilidade desemboca na emergência da responsabilização social do Estado,

caracterizado pela omissão latente da entidade que se responsabilizou pela proeminência do


bem comum. O artigo aqui resenhado trata de cinco pontos referentes a aplicação e
consequências do princípio da coculpabilidade.

Inicia afirmando que a segurança jurídica do processo penal é salutar importante para que haja
reparação da desigualdade de tratamento a pessoas que não tiveram oportunidades
semelhantes àqueles que já nasceram com possibilidades reais de ascenção, seja econômica,
política e principalmente social.

A aplicação de penas que remetem ao contexto da realidade daqueles menos favorecidos,


remeteria ao reconhecimento da coculpabilidade, ou seja, responsabilizando a sociedade pela
sua falha enquanto protetora e mantenedora de direitos.

No primeiro ponto, o autor argumenta sobre o que é princípio e sua representatividade para a
ordem jurídica, sabendo ainda que os princípios são a mola propulsora do ordenamento
jurídico, visando alinhar e dar consistência ao próprio sistema jurídico.

Para a realização da justiça, os princípios abstratos são aplicados na implementação desta,


orientando a resposta aos déficits da leis. Para que o Estado democrático de direitos seja real e
compreensível, suas regras devem ser claras e também aplicáveis a si mesmo. Desta forma, a
realidade social deve ser submetida a emergência destes princípios. Todavia é sabido a
deficiência necrosante da compreensão do direito como ferramenta da interação e correção
de desigualdades e isonomia de direitos.

A contrariedade dos princípios, na realidade, é complementação dos mesmos e para tal


afirmação, o autor salienta a questão da liberdade do cidadão e o direito de punição do
Estado. Pressupostos que parecem antagônicos, mas que se anelam quando a necessidade de
um pode ser limitado pelo outro, e a ausência de um deles poderia levar ao caótico panorama
de desestabilidade. Tal mediação de equilíbrio versa sobre os direitos humanos como
supremacia a interesses particulares e escusos.

Dada a abstração e implicidade dos princípios, a coculpabilidade enquanto tal, está


consubstanciada pela própria abstração da mesma e subentendimento de sua aplicabilidade,
enquanto responsabilidade do Estado que fora negligente na efetivação de seu contrato, cujas
obrigações foram negligenciadas na resposta a promoção de direitos iguais e cidadania
econômica e social.

A co-responsabilidade do Estado se acentua na acepção de que aqueles que tiveram


oportunidades negadas, enquanto pessoas que o Estado não reparou a igualdade e estas
ficaram desprovidas da igualdade devida. Partindo desta afirmação, o princípio da co-
culpabilidade salienta a responsabilidade do Estado no cometimento de determinados delitos,
quando praticados por aqueles que encaixam na descrição mencionada. A aplicabilidade da
pena deve, portanto, obedecer ao grau das circunstâncias em que estas pessoas foram
ensejadas e desprovidas da igualdade de direitos civis e universais.

A questão a ser observada é o risco de tornar o criminoso como vítima. Para tal situação, a
forma de avaliação do Estado deve ser respaldada pela observação correta dos princípios e o
interesse maior da responsabilidade social. A culpabilidade, para tal informação exige que haja
vontade, consciência real da pessoa ante a possibilidade de cometido do crime. Enquanto
responsabilidade indireta a falta do cumprimento dos deveres estatais e os princípios da
dignidade da pessoa humana, basilam a necessidade da erradicação da desigualdade enquanto
barreira para a concretização do combate real da pobreza e desigualdade.

Aos criminalizados que tiveram o cometimento de infrações devido a sua condição social
desigual, o princípio da co-culpabilidade permite revisão da pena a ser aplicada e verificação
da possibilidade da aplicabilidade ou não de uma reprovação jurídica. Sendo que o cárcere
brasileiro está repleto de pessoas excluídas e desamparadas pelo Estado, vide então o citado
princípio. O Direito penal enquanto ferramenta do Estado liberal para controle de massa,
promoveu em seu arcabouço a exclusão de direitos de pessoas desprovidas de condições reais
se sobrevivência. O resultado deste panorama, é uma gama de pessoas propensas ao erro. Tais
exemplos podem ser tipificados por aqueles que não dispõem de condições mínimas para
realização prática da vida em sociedade, tais como mendigos que perambulam pelas ruas e
encontram no consumo de álcool e outras drogas a fuga para a negação de sua condição
deprimente de sobrevivência.

Neste ponto, o autor apresenta a finalidade de seu trabalho reconhecendo a falha do Estado e
sociedade e a possibilidade real de reversão do quadro, isso enquanto reparação do dano
nestas vidas marcadas pelo sistema excludente. A discriminação daqueles que doravante se
encontram neste ciclo, servem a uma certeza de injustiça. A quebra de paradigma se revela
como mudanças de mentalidade da sociedade que deve proteger aqueles que em sua
diferença social, devem ser tratados como também detentores de direitos sociais.

Na sequência no raciocínio, a culpabilidade exonera em seu interior a inexistência de


compreensão da ilicitude, o que deve fundamentar a limitação da própria pena. E a proporção
da pena resguardada pela própria gravidade da ação delitiva. No entanto, bem assinala que o
direito penal se respalda do autor enquanto ser, isso remete imediatamente às condições do
autor e sua conduta social, o que revela o requinte da exclusão, requisitada enquanto
prevenção de futuros crimes. Todavia tal acepção direciona a decisão judicial para aqueles que
foram imbuídos da falta da responsabilidade do Estado, a maioria da massa da população, os
negros, os pobres, os desfavorecidos. Isso, enquanto a minoria abastada já os excluem e os
taxam como inimigos, visto que o patrimônio precisa ser mantido seguro e os supostos
inimigos contidos e criminalizados, portanto controlados.

Esta é a segregação, mantida, argumentada por interesses mercantilistas e egocêntricos. A


realidade de tais afirmações saltam à percepção da desigualdade latente. Sendo assim, a
culpabilidade e coculpabilidade são faces da mesma moeda, aliadas pela concepção de que
aquele indivíduo que teve suas condições de autodeterminação negligenciadas devem ter suas
penas avaliadas, colocando o peso das mesmas também nos ombros da própria sociedade
estatal que deveria acolhê-lo enquanto parte e não excluí-lo e negar sua participação
enquanto parte do meio. Desta feita, o princípio da culpabilidade deve ter a limitação dentro
da própria realidade social e jurídica em que é construída. Estes são pensamentos delineados
pelo autor ao abordar o segundo ponto da linha de pensamento em que o texto é construído.
Partindo da idéia de que o caso concreto em que o indíviduo descriminalizado está inserido, a
coculpabilidade deve ser vista, enquanto reconhecimento da exclusão da dignidade que o
criminoso ensejaria. No entanto, quando o indivudualismo predatório assume a
preponderância das ações sociais, ocorre a revolta daqueles que não visualizam a mão do
Estado em suas necessidades básicas, mas são vitimadas pela ação deprimente da força do
mesmo como órgão opressor da cidadania, sendo esta força taxativa na violência que continua
o ciclo da resposta exaustiva do controle da massa. O fato do Contrato Social ter sido
negligenciado pela própria sociedade macro e pelo Estado nuclear responsabiliza a
necessidade de interação e reparação das consequências maléficas da falta de sintonia do bem
estar de todos com a sensibilidade de que o “todos” não permite a exclusão daqueles que são
deixados esquecidos e marginalizados.

A distribuição de renda tão exaustivamente debatida, é na realidade o vetor de exclusão que


se deleita na inércia da justiça cega e surda, amparada ainda pelo descompromisso do
Soberano Estado, tão paulatino no entendimento do imediatismo da realização do trabalho de
tecer a proteção a essas vidas e inserí-las no contexto social de construção conjunta e
socioeconômica. Reconhecer o descumprimento de seus deveres, enseja uma forma de
reparação social e construção da realidade possível do todo como interesse de todos por uma
sociedade mais preocupada com os demais. A coculpabilidade, nesta conjuntura liga-se a
equidade, visando o senso de justiça compensatória.

O próprio Estado sofre pela sua insuficiência e negligência, a exemplo, verificamos o advento
das organizações criminosas que enfrentam o Estado e ensaiam seus próprios sistemas de
Estado. A falta de interesse em qualificar e preparar seus cidadãos os deixam à margem para
serem recepcionados pelo crime, salutar o organizado em suas próprias leis e panacéias. Se o
Estado institucionalizado quer exigir dos seus cidadãos condutas adequadas, deve
proporcionar aos mesmos a dignidade equivalente. Conforme assina a finalização da discussão
do terceiro ponto, a injustiça social irá refletir na Justiça Criminal.

As três faces da individualização da pena: O agente, O fato e A vítima são angulares na


compreensão da aplicabilidade desta enquanto sanção correspondente.