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VEREDAS

Revista da Associação Internacional de Lusitanistas

VOLUME 3

FUNDAÇÃO ENG. ANTÓNIO DE ALMEIDA

PORTO, 2000
Veredas
Revista de publicação anua]
Volume 3- Dezembro de 2000

Director:

Caries Reis
Director Executivo:

Sebastião T. Pinho

Conselho RedactoriaL"
Anibal Pinto de Castro, Axel SchSnberger, Claudio Guillén, Cleonice Berardine]li, Fer-
nando Gil, Francisco Bethencourt, J. Remero de Magalhães, Jorge Couro, Maria Alzira
Seixo, Marie-Hélène Piwnick, Ria Lemaire. Por inerência: Amet Kébé, Ana Mafalda
Leito, Ana Paula Ferreira, Benjamin Abdala Jr., Carlos Reis, Christopher Lund, Cristina
Robalo Cordeiro, Ettore Finazzi-Agrò, Helder Macedo, Henry Thorau, Isabel Pires de
Lima, Laura Padilha, M. Carmen Villarino, Maria Manuel Lisboa, Onésimo T. Almeida,
Regina Zilberman, Sebastião T. Pinho, Solange Parvaux.

Seda~ã«
VEREDAS- Revista da Associação Internacional de Lusitanistas
Faculdade de Letras
P-3000-447 Coimbra Codex
Fax 351-239.410088; E-maih stpinho@cygnus.ci.uc.pt

Edição, administração, distribuição e assinaturas:


Fundação Eng. António de Almeida
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P-4100-479 Porto
Tel. 351-22.6067418; Fax 351-22.6004314; E-mail: fundacao@feaa.pt

P~: José Soares Pinto - Porto


Impressão e ~abamento: SerSliito - EJmpresa Gráfica, Lda./Maia
Autor/a da ~ Atelier Henrlque Ca~ttte - IAsboa

DepÓsito Legal N.° 137737/99

ISSN 0874-5102

Revista integralmente patrocinada pela

FUNDAÇAO ENG. ANTÓNIO DE ALMEIDA

AS ACTIVIDADES DA ASSOCIAÇAO INTERNACIONAL DE LUSITANISTAS


T~M O APOIO REG~ DO INSTITUTO CAMÕES
ÍNDICE

To m o I

CARLOS REIS -- Apresentação .................................. ....................................... 9

E. M. DE MELO E CASTRO -- NU no NU ...................................................... 11

VIRG~.IO DE LEMOS -- POESIA hoje ............................................................... 15

ÂNGELA VAZ LF_AO - Questões de linguagem nas Cantigas de Santa


Maria, de Afonso X ..................................................................................

DAVm BROOKSHAW -- Entre o real e o imaginado: o Oriente na narra-


tiva colonial portuguesa ...........................................................................

FRANCISCO FZRRZmA DE LIMA- Paraíso e Inferno na Bahia de Gabriel


Soares de Sousa ........................................................................................

K. DAVID JACKSON -- Ruínas de Império: a cidade-fortaleza de Chaul ..

L~LL~ PARRZmA DUART~ -- Os Lusíadas, de Camões, e a Peregrinação,


de Fernão Mendes Pinto: diferentes perspectivas das portuguesas
viagens? ....................................................................................................

Jo~o ADOLFO HANSEN -- Ler & Ver: Pressupostos da representação


colonial .......................................................................................................

MARIA HELENA D. T. C. UREI~A PRmTO - Astrolatria e astrologia em


Portugal nos séculos XVII e XVIII ........................................................

MARL~ JOSEFA POSTIGO -- Os provérbios de Don Quijote de la Mancha


nas TraduçSes em Português ..................................................................

XosÉ I~_ANUEL DASILVA -- Anticastelhanismo e Sebastianismo nas tra-


duções espanholas do Frei Luís de Sousa ............................................
ANNE-MARIE PASCAL -- A abolição da escravatura e o teatro português
(XVIII-XIX) - A polémica, o exemplo, e a utopia ...............................

CONSTANCIA LIMA DUARTE -- O olhar de uma viajante brasileira:


Nísia Floresta ............................................................................................

BZRTHOLD ZILLY--A reinvenção do Brasil a partir dos sertões: viagem


e literatura em Euclides da Cunha .......................................................

LUCETTE PETIT -- Machado de Assis à ~loda da Vida": Das Memórias


Póstumas ao Memorial de Aires .............................................................

CARLOS ALBERTO PASERO -- Reflexos no Oriente: aristocracia e indus-


trialização ní4 Reltquia de Eça de Queirós .........................................

PAULO MOTTA OLIVEIRA -- Fradique Mendes: Eça, a heteronímia e o


vencidismo ..................................................................................................

REGINA ZILBERMAN -- De Memórias póstumas de Brás Cubas a Grande


sertão: Veredas - o demônio em viagem ............................................... 195

LEYLA PERRONE-MoISÉS - Cesário Verde: um "astro sem atmosfera'? ... 217

ANNA KLOBUCKA -- Fernando Pessoa, o poeta amoroso? Fragmentos de


um discurso ......................................................................................

MARIA IRENE RAMALHO DE SOUSA SANTOS -- Interrupção poética: um


conceito pessoano para a lírica moderna ..............................................

MÓNICA ELENA SERRA HÜGLI -- Escritas de leituras na poética de


Drummond ................................................................................................. 255

ANA PAULA FERREIRA -- O conto da mulher nos anos quarenta ............ 265

ANA SOFIA GANHO -- Luiza Neto Jorge: Ekphrasis e Iconotexto ............. 277

CLAUDIA PAZOS ALONSO -- Do centro e da periferia: uma re-leitura de


Laços de Família ......................................................................................

RUTH SILVIANO BRANDAO -- A nau catrineta: velhas receitas, novos


sabores ........................................................................................................

ISABEL PIRES DE LIMA - Concertos/Desconsertos: arte poética e busca


do sujeito na poesia de Ana Luísa Amaral .......................................... 307

LÚC]A CASTELLO BRANCO -- Por graça da textualidade ............................ 319

ASA PAULA ARNAUT -- O Delfim: silêncios inquietos ................................. 333

ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS -- 7bdos os Nomes ou uma viagem


pelos labirintos da cidade na busca do nome que cada um tem .....
To m o I I

LUCIANA STEGAGNO PICCHIO -- O futuro do passado: O Ano de 1993


de José Saramago ..................................................................................... 351

VERA LÚCIA CASA NOVA -- Fragmentos de um itinerário amoroso:


Saramago, lrmgem a Portugal (1981) .................................................... 363

ANNA KAL~.WSKA -- As modalizações anti-épicas na narrativa por-


tuguesa contemporânea: José Saramago, António Lobo Antunes
e Mário Cláudio ........................................................................................ 371

MARIA LÚcIA DAL FARRA -- De Pedro a Paula: um caso de amor de


Helder Macedo .......................................................................................... 389

MÓNICA FIGUEIREDO -- O corpo, esta casa no mundo: a propósito de


Pedro e Paula de Helder Macedo .......................................................... 401

MAmA THSR~SA ABELHA ALVES -- A peregrinação iniciática de Barnabé


das Indias .................................................................................................. 411

MARIA LUIZA RrrzBL R~M~DIOS -- Cavaleiro andante: identidade nacio-


nal e o processo de dispersão do ser português .................................. 419

V I L M A ~ - - A l é m d o p r i n c í p i o d a s u p e r fi c i e : O fi l a n t r o p o , d e
Rodrigo Naves ........................................................................................... 429

CHRISTOPHER F. LAF~RL -- O clichê da terra: a Bahia de Dorival


Caymmi ...................................................................................................... 441

JOSÉ MARIA PEDROSA CARDOSO -- Da especificidade da música sacra


pertuguesa nos séculos XVI e XVII ....................................................... 451

MAR~ DO AMPARO CARVAS MONT~IRO -- Polifonia aquática ....................... 467

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA -- Lusofonia: mentiras e realidade .... 475

ANTONIO CANDmO -- Livros e pessoas de Portugal .................................... 483

MARIA ~INA DA CRUZ MAIA -- Pátria, uma trajectória de deriva.. 493

BRATRIZ RESENDS -- Imagens da exclusão ................................................... 509

BENJAMIN ABDALA JUNIOR -- Terra morta e outras terras: sistemas lite-


rários nacionais e o macrossistema literário da língua portuguesa. 523

RUSSF~L G. HAMILTON- A literatura dos PALOP e a teoria pós-colonial. 537


TANJA FRANCO CARVALHAL -- De mar a mar: entre viagens nas litera-
turas portuguesas e brasileiras .............................................................. 549

ETTORE FINAZZI-AGRÒ- Geografias da Memória. A Literatura Brasileira


entre HistSria e Genealogia .................................................................... 557

ERMELINDA GALAMBA -- Ser português na China ....................................... 569

GERHARD BRUNN -- Comunicação intercultural entre Europa e Brasil:


a contribuição de Johann Moritz von Nassau-Siegen (1637-1644) .... 579

MmAELA GmTF_.SCU -- Cultura luso-brasileira na Roménia ....................... 589

BENJAMIM PINTO BULL -- Senghor, o Brasil e Portugah alguns marcos


culturais lusófonos .................................................................................... 597

RENATO CORDEIRO GOMES -- Cidade e nação na narrativa brasileira


contemporânea: uma guerra de relatos ................................................. 609

ARMANDO JORGZ LOP~.S - Em direcção ao primeiro léxico de usos do


português moçambicano ........................................................................... 621

ENEIDA DO REGO MONTmRO BO~WIM - Que tratamento dar ao Rei? ...... 633

MAmA HELENA MIRA MATEUS- A Face Exposta da Língua Portuguesa. 647

MICHEL LABAN -- Reflexões sobre a elaboração de um inventário das


particularidades do português de Moçambique através da literatura 655

TOM EARLZ -- O ensino do português nas universidades britânicas ...... 665

SOI.AN«Z PARVAUX -- O ensino da língua portuguesa no segundo grau


em França .................................................................................................. 671

MARIA Jos~. MOITA VL~NA e ADRLA.NA CASTILHO -- "A coisa melhor do


mundo»: o tempo e o modo de um discurso ........................................ 687

EVANILDO BECHARA -- Herculano de Carvalho: In Memoriam (1924-


-2001) .......................................................................................................... 693
VEREDA..ç 3-II (Porto, 2000) 483-491

Livros e pessoas de Portugal

A N TO N I O C A Z ~ m O
Brasil, Ex-Professor da Universidade de S. Paulo

O meu intuito é relatar alguns aspectos do que se poderia cha-


mar experiência de época, relacionada à presença da cultura portu-
guesa na minha geração, nos meios em que vivi, mencionando pri-
meiro o contacto por intermédio dos livros; depois, pela convivência
com algumas pessoas. Ao fazê-lo, procurarei registrar não apenas o
meu caso pessoal mas os de amigos, colegas, professores, familiares,
conhecidos, usando uma espécie de amostragem certamente arbitrária
e sem pretensão sistemática. No que tange aos livros, falarei da qua-
dra da adolescência, época das leituras apaixonadas que formam a
base da vida intelectual. Quanto às pessoas, aquelas com as quais
tive contacto directo se situam na quadra da maturidade, quando já
são mais raras as grandes aventuras da imaginação.

Vejamos o primeiro caso. Na geração dos que nasceram no tempo


da primeira guerra mundial, digamos entre 1910 e 1920, houve no
Brasil uma presença atuante dos livros produzidos por escritores por-
tugueses da chamada ~geração de 1870». Desde a segunda metade do
484 Antonio Candido

século XIX até o tempo da minha mocidade era avassaladora a voga


de Eça de Queirós e, menos, as de Antero de Quental, Oliveira
Martins, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão. Hoje talvez nem sejam
mais lidos aqui em escala apreciável, e naquele tempo já eram repre-
sentantes do passado, pois o gosto por eles vinha de nossos pais. E
a sua voga era ainda mais acentuada nas cidades do interior, onde
as bibliotecas eram desatualizadas e as modas recentes custavam a
chegar.
Talvez seja difícil a um jovem brasileiro imaginar a força da pre-
sença de Eça naquela época. Anoto de passagem que foi uma sorte o
fato de serem contemporãneos dois narradores de nossa língua que
foram dos maiores da literatura ocidental: ele e Machado de Assis. E
anoto a fim de dizer que Machado era menos lido, menos conhecido
e menos presente, porque menos incorporado aos hábitos mentais, que
é o que faz os narradores extravasarem do livro para a experiência
de vida.
Eça era objeto de verdadeira mania por parte não apenas de
quem tinha certa formação intelectual, mas de leitores mentalmente
modestos, nas capitais, nas pequenas cidades, nas fazendas. As pes-
soas sabiam de cor trechos de seus livros, os seus personagens eram
comentados como se fossem gente de carne e osso, os rapazes assu-
miam ou atribuíam os nomes deles: um era João da Ega, outro era
Carlos da Maia, um terceiro era Jacinto, não faltando quem apeli-
dasse algum vigário de cónego Dias e muito jornalista de Palma
Cavalão. No ginásio, nas universidades, no círculo familiar faziam-se
testes de conhecimento da sua obra: quem e em que livro tinha no
meio da calva um topete que lhe valeu a alcunha? Que personagem
possuía um alfinete de gravata representando um macaco comendo
uma peta? Quem era o barão d'Alconchel? Qual a gravata de André
Cavaleiro quando vai jantar pela primeira vez na casa dos Barrolo?
Um colega meu de Colégio Universitário publicou, mal saído da ado-
lescência, um livro intitulado Personagens de Eça de Queirós.
Ora, Machado de Assis não tinha essa extraordinária populari-
dade, pois é menos pitoresco e menos acessível, não sendo todavia
maior nem menor, É uma questão de personalidade literária e (repito)
foi excelente termos no universo da língua um par não apenas dessa
qualidade, mas tão diverso, de maneira a proporcionar visões diferen-
tes da realidade - como Stendal x Balzac ou Proust x Joyce.
Livros e pessoas de Portugal

Um indício da voga de Eça no tempo de nossa adolescência


e mocidade é o número de livros publicados sobre ele no Brasil
nos anos de 1930 e 1940: os de Viana Moog, ]klvaro Lins, Clovis
Ramalhete, José Maria Bello, Cassiano Nunes, Melo Jorge. Nos anos
50, o de Paulo Cavaicanti e, mais recentemente, o de Luís Viana
Filho. Lembro de intelectuais portugueses que vinham ao Brasil nos
anos de 1940 e estranharam essa voga já inexistente em Portugal.
É preciso agora integrar Eça de Queirós na sua geração e men-
cionar a influência que esta teve na nossa, ressalvando que líamos
outros autores portugueses, como Alexandre Herculano, Júlio Diniz,
Camilo Castelo Branco, Ant5nio Nobre. Mas estes não tiveram o efeito
da geração de 1870, que, além do impacto literário, atuou como uma
espécie de corpus ideológico, afetando a nossa maneira de ver a his-
tSria e a sociedade, num sentido radical adequado à atmosfera men-
tal do Brasil no decênio de 1930, depois do movimento armado de
outubro daquele ano
O radicalismo pode ser alimentado pelo pessimismo em relação
à marcha da sociedade e ao comportamento das suas classes domi-
nantes, atitude de espírito favorecida em nós pelas Farpas, pela obra
de Oliveira Martins e em parte pelo ensaio de Antero de Quental
sobre o declínio dos povos peninsulares. Decadência, incompetência,
atraso, arbítrio eram não apenas males contemporâneos, nas crónicas
de Eça e Ramalho, mas traços inerentes à história portuguesa depois
do século XVI, segundo aqueles dois autores. A dureza com que
Oliveira Martins analisa a política e a sociedade foi para nós um con-
vite ao pessimismo em relação ao Brasil do nosso tempo e um estí-
mulo para o desejo de transformá-lo. Contágio parecido ocorrera no
livro A América Latina (1905), de Manoel Bonfim, cuja visão nega-
tiva da nossa histSria depois da Independência deve muito a Oliveira
Martins. Tanto este quanto o Antero de Quental prosador influíam
não apenas pelo conteúdo das idéias, mas pela eficiência da escrita.
Oliveira Martins tinha o dom de mostrar os fatos e os períodos em
seus aspectos mais gerais, de maneira que os pormenores eventual-
mente discrepantes eram dissolvidos no brilho e na eloquência da sín-
tese, gerando um raro poder de convicção. Além disso, valia como luz
sobre o presente a sua técnica de ler o passado em termos atuais, a
exemplo do que fez para a história romana ao usar conceitos como
proletariado, espoculação fmancoira, capitalismo, etc.
486 Antonio Candido

Um dos elementos da sua obra foi o retrato negativo do clero e


da Igreja Católica, o que ajudou a aguçar em nós o ânimo de contes-
tação em face de uma instituição religiosa que na época era aliada
fiel dos poderes e da mentalidade que desej~ívamos ver superada. E
de fato nós ainda vivemos um anti-clericalismo que hoje parecerá insó-
lito aos jovens, habituados à Igreja posterior a João XXIII, mas que
naquele tempo era fator de desmascaramento e combate. Com tais
posições convergia a dos escritores que abundavam no mesmo sen-
tido, como o Guerra Junqueiro d'A velhice do Padre Eterno, o Eça de
Queirós d'O crime do Padre Amaro e d'A relíquia.
Sobretudo no interior menos atualizado do Brasil tais livros
podiam ser, ainda em nossa geração, uma força crítica virulenta, não
apenas entre os moços, mas entre os que vinham da geração ante-
rior, mais próxima da sua fatura. Profissionais liberais, fazendeiros,
funcionários, professores os liam com fervor e muitos sabiam de cor
trechos e poemas.
Essas leituras anti-clericais e iconoclastas podiam deslizar nos
mais esclarecidos ou mais inquietos para certo inconformismo geral
de caráter definido. Por isso, acho que para a nossa geração o com-
plexo formado pelas obras sobretudo de Oliveira Martins, Eça de
Queirós e Guerra Junqueiro assumiu em relação, tanto ao passado,
quanto ao presente da sociedade e das instituições, uma conotação
crítica de maior densidade, que acabou contribuindo para reforçar con-
vicções e atitudes radicais.
Convém assinalar que esse apego talvez meio anacrônico a uma
literatura do tempo de nossos pais convergia com o tipo de leitura
que fazíamos de uma novidade daqueles anos: a dos "romances do
Nordestes, marcados pela forte componente social. Romances que lia-
mos, à medida que iam aparecendo, como algo renovador e desmisti-
ficador, a partir d'O quinze, de Rachel de Queirós, seguido pelos livros
de Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Amando Fontes
e outros, que estimulavam o inconformismo ao mostrarem um Brasil
pobre, oprimido, torturado, bem diverso daquele que o ensino apre-
sentava nas aulas. Assim, escritores portugueses que tinham sido
novidade para nossos pais e avós atuavam ao modo de bombas de
retardo, convergindo com brasileiros nossos contemporãneos para con-
firmar uma consciência política, que foi das marcas diferenciadoras
do tempo de nossa adolescência e primeira mocidade, nos anos de
Livros e pessoas de Portugal
487

1930 e 1940, nos quais os intelectuais do Brasil assumiram pela pri-


meira vez massiçamente posições ideológicas deflnidas, quase como
dever. Nesses decênios de polarização, com o fascismo numa ponta e
o comunismo na outra, enquanto mergulhávamos no presente de nossa
literatura, inclusive sentindo a força renovadora de semana de 1922,
mergulhávamos também naquele passado atuante da literatura por-
tuguesa.
Uma palavra final sobre Fialho de Almeida, que pouco líamos e
não faz parte da atmosfera mental dos citados, para dizer que o seu
sarcasmo desabusado atuou desde o começo do século no estilo de
combate de alguns escritores mais velhos do que nós. Sente-se algo
dele em escritos polêmicos de Gilberto Freyre e de José Lins do Rego,
e ainda está por ser feito um estudo sobre a influência que teve no
jornalismo contundente de Oswald de Andrade, seu leitor assíduo na
mocidade.

Os intelectuais portugueses que conhecemos pessoalmente em São


Paulo nos anos de 1940 e 1950 estranhavam a voga desses autores
do passado, sobretudo porque não havia de nossa parte conhecimento
adequado da literatura e do pensamento português posteriores a eles.
De fato, no caso do grupo de jovens com os quais convivi ocorreu uma
espécie de hiato, um valo de ignorãncia, mal compensado aqui e ali
pelo conhecimento de autores como António Sérgio, João Gaspar
Simões, Adolfo Casais Monteiro, José Régio. Isso só se modificou de
maneira substancial com as consequências da voga avassaladora de
Fernando Pessoa a partir do começo dos anos 40, quando chegaram
aqui os seus primeiros livros. Essa voga foi, em compensação, uma
das maiores que já houve no Brasil e marcou de maneira profunda
a produção poética e a sensibilidade dos leitores.
O conhecimento da literatura portuguesa que naquele tempo era
recente poderia ter sido beneficiado pela fundação das Faculdades de
Filosofia a partir de 1934, quando começou o estudo sistemático da
língua e da literatura em nível superior, com vistas à obtenção de
graus e à formação sistemática de professores. Na Universidade de
São Paulo atuaram docentes portugueses, como Francisco Rebelo
Gonçalves e Urbano Canuto Soares, filólogos, mas sobretudo Fidelino
488 Antonio Candido

de Figueiredo, que ensinou também no Rio. Entretanto, naquela altura


havia uma norma, ou acordo tácito: não deviam ser objeto de cursos
e pesquisas as obras de autores vivos, ou mortos a menos de um bom
meio século, senão mais, ao contrário de hoje, quando vemos quase o
contrário, isto é, a abundância de dissertações e teses sobre a produ-
ção in fieri. Daí ter havido no ensino superior muito pouca presença
da literatura portuguesa recente, perdendo-se com isso um meio impor-
tante de difusão. Devemos lembrar que a proscrição de obras contem-
porâneas como objeto de estudo universitário não era característica
brasileira, mas decorria do exemplo europeu. Se não estou mal infor-
mado, na França (de onde veio o principal contingente de professores
de literatura e ciências humanas para as nossas recentes Faculdades
de Filosofia) s~ nos anos de 1950 foi objeto de curso um autor mais
próximo: no caso, Guillaume Apellinaire, falecido.., em 1918. Significa-
tivamente, quem onsou a inovação foi uma mulher, a Professora Marie-
Jeanne Durry, na Sorbonne.
Privados do estímulo que a universidade poderia ter trazido, res-
tavam os livros, que nem sempre chegavam, e o contacto com um ou
outro escritor de carne e osso, que passo a mencionar, começando por
alguns escoteiros que apareceram em São Paulo no inicio dos anos
de 1940, como o pitoresco e patético Antônio Botto, que se não me
engano morreu aqui no decênio seguinte. Ele chegou a ter certa voga
e foi alvo de estudos, como um ensaio de Ruy Coelho na revista que
publicámos entre 1941 e 1944, Clima. Quem ficou nosso amigo, cola-
borou na revista e teve uma exposição de quadros patrocinada por
nós foi o surrealista AntSnio Pedro, criador do Dimensionismo. Nós o
aproximámos de Guiseppe Ungaretti, que leccionava Literatura Ita-
liana na Faculdade de Filosofia e escreveu o prefácio do catálogo,
interessadíssimo por aquela arre imaginosa e desabusada. Logo depois
da guerra veio Agostinho da Silva, então voltado para a militância
social e humanitária por meio de um movimento que criou, o Serviço
de Paz Social. A sua influência foi grande e a ele se deve um incre-
mento dos estudos afre-brasileiros na Universidade Federal da Bahia.
Para o meu grupo de amigos e conhecidos, assim como para os
que pensavam como nós, foi especialmente relevante a presença dos
opositores ao regime de Salazar, os que saíram de Portugal devido à
ditadura instaurada em fins dos anos de 1920. Um dos primeiros foi
Livros e pessoas de Portugal
489
João Sarmento Pimentel, militar inteiriço, escritor de força camiliana,
homem de grande retidão que de certo modo aglutinou em São Paulo
a oposição portuguesa. Eu só o conheci no decénio de 1960 e partici-
pei dos seus famosos almoços, nos quais POrtugueses e brasileiros de
vocação democrática se confortaram naquele momento de ditadura nos
dois países. Ele foi um constante apoio do jornal Portugal Democrático
e presidia os jantares de 5 de outubro, nos quais sempre falava um
brasileiro, como Paulo Duarte, Florestan Fernandes, Ruy Coelho, eu
prdprio.
É preciso destacar a atitude oposicionista dos jornalistas, uns
radicados no Rio de Janeiro, como Paulo de Castro e, durante alguns
anos, Novais Teixeira; outros, como Miguel Urbano Rodrigues e João
Alves das Neves, em São Paulo, onde se fixou também um artista e
escriter de participação atira, Fernando Lemos.
Não esqueçamos a produção em outros setores, como a investi-
gação hist5rica e o ensino da Hist5ria, a começar por Jaime Cortesão,
que publicou o material relativo ao Tratado de Madrid, com destaque
para Alexandre de Gusmão. A ele se deve o primeiro toque, no Brasil,
no sentido de amainar a visão extremamente pessimista a que está-
vamos habituados em relação ao século XVIII português. Além disso,
Cortesão organizou e dirigiu a Coleção de Autores Portugueses da
Editora Livros de Portugal, onde apareceu a antologia reveladora de
Cecfiia Meirelles sobre a nova poesia portuguesa.
No ensino universitário marcaram presença Joaquim Barradas
d e C a r v a l h o , q u e s e d e m o r o u , J o a q u i m d e C a r v a l h o e Vi c t o r i n o
Magalhães Godinho, que estiveram pouco tempo. Alguns pensaram
em vir para cá, mas acabaram se limitando a visitas periódicas, como
Antônio José Saraiva, desde quando estava exilado em Paris. Quem
veio e ficou foi Victer de Almeida Ramos, também exilado inicialmente
em Paris. Victor trabalhou numa editora em São Paulo, foi professor
de Literatura Francesa na Faculdade de Assis e depois na Universi-
dade de São Paulo, onde havia obtido o grau de doutor e o título de
livre-docente. Era um oposicionista militante à ditadura salazarista e
se caracterizava por um traço raro: a intransigência ideológica vincu-
lada ao espírito de tolerância. Morreu alguns dias depois do 25 de
abril.
No setor universitário foi inestimável a contribuição de Manuel
Rodrigues Lapa, que ensinou durante alguns anos na Universidade
490 Antonio Candido

Federal de Minas Gorais. A ele devemos obras monumentais, como


as ediçSes de Gonzaga e Alvarenga Peixoto e o estudo sobre as Cartas
Chilenas, momento culminante da critica erudita de língua portu-
guesa. Ainda quanto às universidades é preciso dizer que os portu-
gueses se distribuiram de maneira a formar uma verdadeira rede cul-
tural, quer se tenham radicado nelas, quer tenham dado contribuiçSes
temporárias. Na Universidade Federal da Bahia estiveram Agostinho
da Silva, Eduardo Lourenço, Adolfo Casais Monteiro; na de São Paulo
já mencionamos que ensinaram, além dos precursores dos anos de
1930, Joaquim de Carvalho, Barradas, Godinho e, afinal, Victor Ramos,
inicialmente da Faculdade de Assis, como Jorge de Sena, que depois
passou à de Araraquara, para a qual já se tinha transferido Casais
Monteiro; na Universidade Federal de Pernambuco esteve um notá-
vel grupo de matemáticos, entre os quais Rui Luís Gomes, candidato
de oposição à presidência da República Portuguesa.
Praticamente todos esses intelectuais eram anti-salazaristas e
muitos deles expatriados, porque não tinham condições de viver com
segurança na sua terra. Alguns ampliaram a ação atuando ao mesmo
tempo no ensino, no jornalismo e na militância, como Victer Ramos,
Casais e Sena.
Casais Monteiro era bastante conhecido aqui antes da vinda em
1954, graças à sua poesia e sobretudo aos ensaios criticos, partilhando
com João Gaspar SimSes uma estima aumentada pelo papel que teve
na iniciação à obra de Fernando Pessoa, por meio dos dois pequenos
volumes de seleção dos seus poemas. No Brasil escreveu assiduamente
nos jornais, ocupando-se com a produção local do momento, enquanto
Sena focalizava de preferência autores portugueses e temas gerais.
Menos conhecido ao chegar, salvo pela sua valiosa coletânea de ensaios
de Pessoa, Páginas de doutrina estética, tornou-se rapidamente um
personagem de destaque graças à vivacidade apaixonada com que
abordava problemas literários e políticos. Tanto ele quanto Casais
Monteiro obtiveram em São Paulo os títulos universitários que con-
solidaram as suas carreiras, É notável como, em pouco tempo, coisa
de meia dúzia de anos, o engenheiro Jorge de Sena não apenas se
qualificou formalmente para a docência universitária, mas construiu
a plataforma que lhe permitiu ser chamado a ensinar em importan-
tes universidades norte-americanas.
Livros e pessoas de Portugal

Não conheci pessoalmente alguns dos que acabo de mencionar e


conheci outros que não mencionei, com Castro Soromenho, morto, infe-
lizmente, antes de ter podido deixar marca em nossa vida cultural e
social. O que desejei foi apresentar uma amostra significativa (para
falar como os estatísticos) de intelectuais portugueses que manifesta-
ram aqui, quase todos, idéias e posições de radicalidade democrática,
bem como repúdio à ditadura de seu país. Isso criou afinidadis conosco
e confirmou a nossa disposição própria. Estou certo de que, recipro-
camente, a nossa simpatia e o nosso apoio reforçaram neles o ânimo
de prosseguir na luta. É uma história de sintonias e ações paralelas,
que permite falar em comunhão ideológica de intilectuais de Portugal
e do Brasil.
Nessa altura, as minhas considerações se tocam em ângulo agudo,
isto é, o relato inicial das leituras de mocidade converge com o do
convívio nos anos maduros, de modo a configurar um efeito de reforço
das opções ideológicas de minha geração. Ela se beneficiou, no seu
percurso, do exemplo radicalizador dos portugueses, seja pelos livros,
seja, mais tarde, pelas relações. Boas experiências de época, para vol-
tar ao começo desta palestra.
VEREDAS 3-H (Porto, 2000) 493-507

Pátria, uma trajectória de deriva

ARMANDINA DA CRUZ SAIA


Portugal, Universidade Nova de Lisboa

Para quando a nova viagem para esse


outro desconhecido que somos nós mes-
mos e Portugal connosco?

EDUARDO LOURENçO 1

Não posso viver comigo,


Não posso fugir de mim.

SA DE MIRANDA 2

Oceanites erraticus é o nome de uma ave marinha, "descoberta»


e m 1 9 7 2 , p e l o c i e n t i s t a e fi l ó s o f o D i e t z , c o m o a p r i m e i r a a e n c e t a r
uma deriva continental, muito antes do aparecimento dos homens na
terra. Numa tentativa de reconstruir o voo que executava na época
em que a Pangeia existia, em rota directa de sul a norte, esta ave
marinha executa agora uma trajectória de migração tortuosa, em zig-
zag, que se inicia no Antárctico. Atravessando o Atlântico várias vezes,

I Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Lisboa, Ed. Dom Quixote, 1988,


3.n edição, p. 64,
2 Arthur Lee-Francis Askins, Cancioneiro de Cortes e de Magnates, ms. CXIV/2-2
da Biblioteca Pública do Arquivo Distrital de l~vora, Berkeley, Los Angeles, UCP, 1968,
p. 112.
494 Maria Armandina da Cruz Maia

toca primeiro a Argentina, voando depois para a J~frica Austral, poi-


sando entre as chicambas do rio Limpopo, de onde segue para o Brasil,
Norte de Africa, Terra Nova e Land's End, para terminar na sua zona
de postura, as ilhas Spitzbergen, no Arctico, impreterivelmente a i de
Abril de cada ano.3
Há aventuras, como a deste pássaro, que nos lançam por cami-
nhos árduos. Falar de pátria, por exemplo, depois de Pessoa é, "pro-
curar de novo um azul na infinita dist~cia', o que, obrigatoriamente,
nos obriga a viajar por dentro de nós próprios. Falar de pátria sig-
nifica, portanto, antes de mais, falar de uma condição, de um modo
de estar e de sentir o mundo.
Não são aqui convocados - e não deverão ser confundidos - os
territSrios políticos que deram lugar a estruturas organizacionais que
regem o colectivo nacional de cada povo.
A pátria de que aqui venho falar desenha-se, fundamentalmente,
numa estruturação intima da geografia do sentimento, que nos liga
lugares a lugares e pessoas, um berço e um refúgio indelevelmente
associados a um estado de pureza original, bem longe dos interesses
que regem Estados e até naçSes.
Este «pedaço de mim», ou «metade exilada de mim», como o cha-
mou Chico Buarque, tem testemunhos poderosos na poesia cabo-ver-
diana, cuja postura insular, foi classificada pelo "mestre" Pierre Rivas
como dnsularité e déracinement, deux structures constitutives et anta-
gonistes de ridentité capoverdienne» 4. Sugestiva e precocemente, ela
viria a apontar um caminho de fusão sentimental da vivência da
pátria:
Eu sinto
para além da tua epiderme de jambo dourado
o lirismo antigo da minha raça
cruciiicada
na encruzilhada de duas sensibilidades [...]

3 Informação cedida pelo grupo de investigação Projecto Pangeia, coordenado por


Vitor Gama e Caria Fernandes "Oceanites Erraticus - trajectos de deriva intercultu-
ral'. A ambos, os meus agradecimentos.
4 Pierre Rivas, "Iusularité et déracinement dans la poésie capoverdienne', Les
Littératures Africain¢s de Langue Portugaise: à la recherche de l'identité individuelle
et nac/ona/e, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian - Centre Culturel Portugais, 1985,
p. 291.
Pátria, uma traject5ria de deriva

que és para mim?


Minha amante,
Minha mamãi adormentando os meus cuidados [...]
OSVALDOALCANTARA, Presença 5

O exemplo de Cabo Verde, protagonizou uma luta tão sem tré-


guas quanto inglória, quando os poetas que ambicionavam «casar-se
com a respiração do mundo», foram confundidos com cidadãos em crise
de rebelia pequeno-burguesa. A famosa polémica do evasionismo, cujo
padl~inho de baptismo dava pelo nome de Manuel Bandeira, com a
seu Vou-me embora p'ra Pasárgada, coroado de Estrelas da manhã,6
acabaria por tornar-se um marco da incompreensão geral e generali-
zada, que os imperativos políticos interpuseram entre a criatividade
e um imaginário «dever patriótico»:

A voz do poema não era a voz do poeta:


era a voz do povo,
o grito do povo, o choro do povo. [...]
A«UINALDO BRrro FONSECA, Poeta e Povo 7

Por ocasião da morte prematura de um grande poeta cabo-ver-


diano, Pedro Corsino de Azevedo, o duplo de Osvaldo de Alcântara,
de seu nome Baltazar Lopes, iria pôr termo a esta questão, ao defi-
nir o evasionismo como a necessidade de «completar a sua alma»,
classificando o jovem poeta como alguém «em quem a capacidade de
se debruçar sobre os abismos interiores, superava défices provincia-
nos de cultura» 8.
No Portugal desse tempo, trazíamos na alma uma pátria triste,
emparedada, um passaporte para turistas em busca de um Abril em

50svaldo Alcãntara, Claridade, revista de arte e letras (organização, coordenação


e prefácio de Manuel Ferreira) 2 (EcL ALAC, Agosto 1936, 2.a edição) 6.
60 maior defensor desta linha é Jorge Barbosa, que mantém quase uma cor-
respond&acia poética com o modelo de Manuel Bandeira: «Há uma palavra que Manuel
Bandeira descobriu / um dia na poesia / e que poeta algum poderá mais empregar /
porque 85 ele ficou sabendo o sentido exacto / e o simples segredo da sua expressão»,
'Talavra profundamente", C/ar/dade 8, cit. (Maio 1958) 26.
Cit. n.° 7, Dezembro 1949, p. 28.
8 Baltazar Lopes, "O poeta foi para a Terra-longe», Claridade 4, cit. (Janeiro,
1947) 13.
496 Maria Armandina da Cruz Mala

Portugal, que só podia fazer-nos sentir saudades do futuro. Deste


P o r t u g a l fi c a r a m c i c a t r i z e s l o n g a s d e a p a g a r, a p e s a r d a m e m ó r i a d o
esquecimento persistir em atenuar a cisão irreparável, de, durante
séculos, termos vívido na sombra da História, na cauda da Europa,
numa casa portuguesa que se erguia orgulhosamente só, num imenso
deserto que circunscrevia o mundo à pobre e resignada respiração
deste modo de "ser português~, pequenino, doméstico e domesticado
que os poetas do desassossego definiram assim:

Estar aqui dói-me. E estou aqui


há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
MANtW~ ALEGRE, Canto Peninsular 9

No meu pais há uma palavra proibida.


Mil vezes a prenderam, mil vezes cresceu.
MANUEL ALEGRE, O canto e as armas

Por um país de pedra e vento duro


Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e polo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos cem toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
[...] Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.
SOPHIA DE MELLO BREYNER, Pátria 11

Esta dor da pátria que se tem e a dor da pátria que se queria


ter vão dar lugar a um espaço de utopia, numa busca incessante de
um onde, sem lugar exacto e sem tréguas, numa dilacerada vivência
que nos bifurca a todos, ao sermos nós, pacíficos cidadãos e simulta-
neamente o contrário de tudo isso, como antecipou Pessoa, ao querer
simplesmente ser «todo em cada coisa», por imperativo pessoal e
intransmissível, onde não assomam quaisquer laivos de patriotismo,

9 Manuel Alegre, 30 Anos de Poesia, Lisboa, PublicaçSes Dom Quixote, p. 46.


10 Id., p. 230.
u Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia, Lisboa, Moraes Editores, 1970.
Pátria, uma trajeet6ria de deriva

a o c o n t r á r i o d e u m d i s c u r s o o fi c i a l q u e d u r a n t e d é c a d a s a l i m e n t o u
uma pátria de contornos nítidos, que porém não ultrapassava a fron-
teira de uma imagem mítica e virtual.

Um sítio. Um sítio sagrado algures no tempo.


Um sítio por dentro. Um obscuro ponto
No mapa luminoso
Do coração.
MANL~L .4J..F~RE, [taca 12

Cheguei à procura de um sonho. A floresta


recebera os meus passos no prenúncio
das colinas e vales onde me esperava
o silêncio de um nome.
FZRNAN~ PINTO DO AMARAL, Horace Townsend 13

A virgindade almejada nestes textos vai cruzar-se, na história


dos povos, com o momento de libertação, que, aparentemente, iria
substituir o espaço asfixiante envolvente, expresso em termos épicos,
que vão desde a revelação do silêncio mais recôndito à explosão liber-
tária, libertina, opulenta e excessiva, da palavra, do gesto e dos sen-
tidos.
Esta é a madrugada inicial que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do sil~ncio
E livres habitamos a substância do tempo.
SOPHIA DE ~ BRE£NER, 25 de Abril 14

Enchem-se as ruas de júbilo. Destemem-se os corpos. Apertam-se mãos


desconhecidas. Trocas de sorrisos e cravos gravam a marca da liberdade nesta
hora de prata. [...] os seios das mulheres despejam-se nos olhos encadeados
dos soldados. [...] A agitação do povo pelas ruas faz pensar num animal manie-
tado que, na sombra, durante sdculos, olfacteasse a liberdade. [...] Soltem-se
as rolhas do champanhe desde há muito engarrafado na nossa esperança.
NATALIA CORREIA, Não percas a rosa 15

12 Manuel Alegre, ~Inéditos», cit., p. 742.


13 In poésie portugaise contemporaine, anthologie bilingue, La réunion, Ed.
L'orange bleue, colecção rarbre à paroles/l'orange bleue, p. 526.
14 aO nome das coisas», Gli abbraeci feriti, poetesse portoghesi di oggi, Milano,
ed. Universale Economica Feltrinelli, 1980, p. 32.
15 Natália Correia, Não percas a rosa, didrio e algo mais (25 de Abril de 1974-
-2~t de Dezembro de 1975), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1978, p. 25.
498 Maria Armandina da Cruz Maia

Não sentindo já o cerco dos mecanismos da censura, viajámos


então de novo, rumo a um espaço não circunscrito a fronteiras, É o
tempo do voo transatlântico, transcontinental, dos horizontes sem limi-
t e s d o o l h a r, d e s e r e s t r a n g e i r o e m t o d a a p a r t e , e s i m u l t a n e a m e n t e
coabitar uma pátria comunitária, avassaladora, que galga, com uma
força agregadora incomum, as distâncias impostas por uma cartogra-
fia fisica, alheia à vontade soberana dos povos, que agora dela se rea-
propriam. As fronteiras diluem-se, liquefazem-se, «maritimizadas',
como diria Guimarães Rosa, o mestre da palavra inventada.

A minha geração nasceu da guerra


e viu crescer o cogumelo em Hiroshima
Vibrámos tanto com o Bogert em Casablanca
Depois aprendemos a cantar Kalinka
Era o tempo das certezas redondas como as abóboras
cada ano mais felizes no Kolkhoze
MAmmL ALEGRE, Babilónia 16

Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
[...l
cem os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrãneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios das negras amoras de Jerusalém [...]
Jos~ CRAV~ImNHA, Canto do nosso amor sem fronteira 17

(Quatro pulsaçõos febris de um corpo só


oh Africa do Nilo e do Zaire oh Africa do Zambeze e do Níger
quem em ti está pensando de coração em Africa?
Africa dos rios velhos e minas ossificadas de Zimbawé
China das muralhas de crisãntemo e sangue

16 Manuel Alegre, c/t., p. 481.


l~ Kadnguana ua Ka~na, Maputo, Ed. Associação de Escritores Moçambica-
nos, 1995, p. 73-74.
Pátria, uma trajectória de deriva

Malaias e Indonésias com encruzilhadas de sono e de febre


Indochina da virilidade com abraços tricolores de fraternitd
[e palavras de balas
quem em vós está pensando de coração em ,~~rica, nas Chinas
[e Malaias, Indonésias e Indochinas de sonhos crispados?)
FRANCISCO Jos]~ TENREIRO, Coração em Africa 18

Mas o circuito pátrio não vai parar de se ampliar, com o nosso


olhar que cresce em exigência, à medida que o mundo cresce em
imperfeição. A censura tinha sido, afinal, um estádio temporal, na
"Queixa das almas jovens censuradas», que ainda hoje mantém toda
a sua actualidade, não obstante a nossa obstinada vontade de mudar
o mundo.

Dão-nos um mapa imaginário


Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.
NATAIJA CORRE]A, "Queixa das almas jovens censuradas" 19

Apetece ~desnascer», como disse José Mário Branco, perante a


iniquidade do real. Para não morrer, restam os atalhos que se ins-
crevem numa «poética da resistência», contra a uniformização do
mundo global.
Assim se chega de novo a uma atitude de indagação, um
espaço pátrio, de medida humana, única na sua subjectividade. Um
espaço que cada um vive, pelo avesso, na dor e no sofrimento, mul-
tas vezes. Na ausência, sempre. Por isso a pátria s~ pode sentir-se e
nunca tocar-se, e nela vivemos em toda a parte, enquanto herdeiros
de códigos e decifradores de mensagens e sinais e simbolos, que nos
cumpre transmitir.
Por isso, a pátria da nossa (con)vivência é sempre um espaço
marginalizante no texto poético, longe de qualquer registo triunfal e
triunfante.

is Francisco José Tenreiro, Coração em ~~~a, Lisboa, ed. ALAC, 1982, p. 99.
19 Natália Correia, ~Dimensão encontrada», Gli abbracci feriti, cit, p. 36.
500 Maria Armandina da Cruz Maia

São muitos os lugares que percorre, incansável, o sujeito desta


pátria. Podemos vê-la atravessar os textos, no tempo límpido da infân-
cia, doce ou amarga, mas sempre um lugar de recolhimento e paz,
mesmo nos maiores nomes do desassossego literário:

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.


Ti n h a f e i ç õ e s d e m e n i n o i n c o n s o l á v e l .
Um menino impúbere
ainda sem o amor de ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.
JORGE DE SENA, Andante2°

O Portugal futuro é um país


Aonde o puro pássaro é possível
E sobre o leito negro do asfalto da estrada
As profundas crianças desenharão a giz
Esse peixe da infãncia que vem na enxurrada.
RuY BELO, País possível

Cresce dentro dos textos, esta pátria que procuramos, como o


crescer da idade a que ninguém foge. Podemos vê-la nas palavras
tímidas, entreditas, de uma viagem iniciática do mistério de dos sen-
tidos, aproximand~se do olfacto e do tacto africanos, herdeiro de lições
ancestrais de sensualidade e erotismo, num outro xadrês, onde as
regras escapam e se escapam das margens do tabuleiro:

Um rosto Uma cidade um rosto sem nevoeiro


Acordas de manhã no golfo do meu ombro
E v e m c o n t i g o a l u z d o s p a s s o s d o s « c a m p i » d e Ve n e z a
com a laguna ao longe e gôndolas na sombra
Um resto Uma cidade a espreguiçar-se ao vento
Luz de canais em torno E de canais por dentro
DAVID MOV-RAO-FERREIRA, Um rosto Uma cidade 21

20 «Perseguição~, Esorcismi, Antologia poetica, Milano, Ed. Accademia, 1974,


p. 71.
21 David Mourão Ferreira, ~Lira de Bolso", Poésie portugaise contemporaine, cit.,
p. 174.
Pátria, uma trajectória de deriva

I l h a , c o r p o , m u l h e r. I l h a , e n c a n t a m e n t o . P r i m e i r o t e m a p a r a c a n t a r.
Primeira aproximação para ver-to, na carne cansada da fortaleza ida, na rugo-
sidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias, escravos, coral e aça-
frão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no ~ndico esquecida.
Circum-navego-to, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e escul-
turo-to de azul e sol.
Tu , s o l t o c o l m o a o r i e n t o , p a r a s e m p r e d e t i e x i l a d a .

Luas CARIDS PATRAQUIM, Os barcos elementares 22

Já não cabe em nenhum palmo de mão, e muito menos na pal-


mat5ria do Torga, esta pátria, solta, que se espraia pelos mais recôn-
ditos pensamentos. As ~l~s Marias» profanam definitivamente o ter-
ritório sacro dos sonhos húmidos das mulheres, uma lição que a
história literária consagraria, mais fora do que dentro de Portugal,
então ainda país exilado de si próprio:

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram.


Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo
c r a v e j a d a s d e p e d r i n h a s , u m a n e l c e m p é r o l a . E l a s s o n h a m t r ê s n o i t e s a fi o
cem um homem que s5 viram de relance, à porta do café. [...] Elas compram
à s e s c o n d i d a s c a d e r n o s d e r o m a n c e s e m f o t o g r a fi a s . E l a s n a m o r a m m u i t o .
E l a s n a m o r a m p o u c o . [ . . . ] E l a s a n d a m n a v i d a s e m a m ã e s a b e r, p o r m a i s
três vestidos e um par de botas.[...] elas chamam de noite nomes que não
vêm. [...] Elas queriam outra coisa.
MARIA VELHO DA COSTA, ProduÇão de desejo 23

Rasgou o ventre materno esta pátria que sonhamos, e, porque a


sonhamos alto, tem de dizer adeus, um adeus intoleravelmente ingrato,
com sabor de traição «No fundo de mim eu sei que te traí, mãe»,
mas que tem de ir «com as aves» (Eugénio de Andrade), um adeus
com o sentimento de um remorso, que Osvaldo Alcântara confessa,
entregando-se como «filho vadio» 24 aos cuidados da «mamãi» e que
Régio descreveu com uma fúria inegualável, optando, como Pessoa,

99 Luts Carlos Patraquim, V/nte e ta/Novas Formulações e uma Elegia Carntvora,


Lisboa, Ed. ALAC, colecç~o juntamon, p. 41.
2 s M a r i a Ve l h o d a C o s t a , " R e v o l u ç ã o e M u l h e r e s ~ , G l i a b b r a c c i f e r i t i , c i t . ,
pp. 190-191.
24 Osvaldo Alcãntara, ~~esença», C/ar/dade, /x/em.
502 Maria Armandina da Cruz Mala

p o r n ã o s e d e i x a r t r i b u t a r, u m l u t o q u e A l e x a n d r e O ' N e i l l e x p r e s s a
deste modo:

Portugal: questão que tenho comigo mesmo,


golpe até ao osso, fome sem entretém, ricim engraxado, feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós
ALZXANDRE O'NF_JLL, «Portugal" 25

Crescido o corpo e vencida a dificuldade do difícil adeus, a per-


turbação cresce, à medida que ousamos avançar mais longe neste
lugar recôndito, visitar as suas membranas íntimas, tão aprazíveis
quanto pecaminosas:

Ao desejo,
à sombra aguda
do desejo, eu me abandono.
[ . . . ] M i n h a p e d r a d e o r v a l h o , m e u a m o r, m e u p u n h a l , e u m e a b a n d o n o .
Minha lua queimada,
violada,
colhe-me, recolhe-me: eu me abandono.
EUG~.~O DE ANDRADE, «Ostinato', Mar de Setembro 26

Não é fácil morar nesta pátria, mas, uma vez descoberto este
espaço dos sentidos, não mais nos será permitido ignorá-lo, porque
há que pagar o luto de viver sem ele, se assim o decidirmos.
Este acto amoroso pode mesmo não ousar consumar-se, deli-
neando-se apenas num espaço fraterno que marca grande parte da
produção poética pSs-libertação:

Quitandeira de ananases
eu goste dos teus olhos
q u a n d o m e fi t a s a s s i m
tímida e suplicante
a expiar crimes
sofrendo por ter sofrido

25 Alexandre O'Neill, «Feira Cabisbaixa~, Poésie portugaise contemporaine, cit.,


p. 153-154.
26 Eugénio de Andrade, Poés/e portuga/se contemporaine, cit., p. 110.
Pátria, uma trajectória de deriva

Goste doo teus olhos


que me segredam o tudo está consumado
do teu calvário
e me indicam
o caminho do ressurgimente
AGOSTINHo NETO, 'Tendedeira de ananases", A renúncia impossível 27

Mas os limites foram para sempre derrubados, e, tal como acon-


t e c e n a v i d a r e a l , o r i s c o é o p r e ç o a p a g a r, d e d e s l u m b r a m e n t o e m
deslumbramento, somos chutados sempre mais além, anulando fron-
teiras preibitivas e barreiras protecteras. Negligenciando as regras da
e s c r i t a d e m a r fi m , R u i K n o fl i e s c r e v e O P a E s d o s o u t r o s , u m l e n t o e
demorado urro de libertação interior, um n~ na garganta que se solta,
uma língua que já não hesita em inscrever-se, recorrendo a termos
triviais, que, porém, nunca tocam a orla da banalidade, numa língua
Precocemente lusófona, mestiça, «desvestida» e nua:

Um caminho de areia solta conduzindo a parte


nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
Eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
Tinham nomes por que era costume dooigná-loo.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misteriooo, habitado por deuses e duendes
de uma mitelogia que não vem nos temoo e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho da linha imaginária. A isso
chamávamos pátria [...]
Uma
S~ e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.[...] legado
de palavras, pátria é s~ a língua em que me digo.

Rui KNOPFLI, "Pátria» 28


27 Agostinho Neto, A renúncia Impossível, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da
Moeda, Col. Escritoros dos Pafsos de Língua Portuguesa, 1987, p. 51-52.
2s Rui Knopfli, O eseriba ncocorado, Lisboa, Moraes Editores, Círculo de Poesia,
1978, pp. 13-14.
504 Maria Armandina da Cruz Maia

A língua espraia-se e confunde-se de tal modo com a ausência


de fronteiras, que não se restringe ao espaço lusófono. Como seria de
esperar, surgem textos que reclamam a mais completa liberdade e se
exibem com plena autoridade num espaço linguístico em que a mul-
ticulturalidade, mais que defendida, é definitivamente proclamada,
por intercalares de línguas nacionais no texto escrito em português,
como acontece nos textos de Ruy Duarte de Carvalho, Ana Paula
Tavares e Manuel Rui, por exemplo, ou até pela mestiçagem de lín-
guas europeias:

Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia


Que partout, everywhere, em toda a parte.
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um voo cego a nada [...1
REINALDO FERREmA, "Nocturnos" 29

O conjuntivo "desinstala-se" da gramática do texto, que se des-


nuda e nutre com o amor físico, cujo melhor exemplo se encontra na
relação que Eduardo White instaura com o corpo, seu e da mulher,
num acto de posse e de sujeição recíproco, uma circuncisão definitiva
com o despudor necessário para se afirmar pela sua crescente grada-
ção de qualidade estética e ética, como um acto deontologicamente
obrigatório na nova passagem pela pátria, cujo sujeito vive, agora,
numa atracção fatal, uma travessia de risco, que raia a alucinação,
num obsessivo estado de penetração em que se misturam suor e
esperma, com sentimento e ausência dele, puro prazer sexual, de pare-
des meias com uma estética da contenção, como manda o erotismo
do texto, e da vida, de que emana uma corrente imparável, pessoana,
física e metafisica, como acontece nas coisas mais banais da vida e
no (des)controlado e supremo acto amoroso:

29 Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa, Portugália Editora, colecção Poetas de hoje,


4.a edição, prefácio de José Régio, p. 38. Deste raro exemplar, que devo à generosi-
dade da minha amiga Maria Helena Pato, consta um poema autógrafo que passo
a transcrever «Eu/morreu/só há ideal/No plural./tecidos/como os fios que há nos
linhos]Parecidos/Entre si como dois olhes]há, futuro que viver aos molhos/e que mor-
ter sozinhos».
Queria ainda registar que «conheci~ este poema, cantado por um coro de poetas
moçambicanos que o conhecem de cor, entre os quais Luís Carlos Patraquim e Raul
Calane.
Pátria, uma trsjectória de deriva õOõ

Tu q u e a d o r m e c e s a s ó r b i t a s , a fl o r p r i m a v e r i l
E t o l e r a n t e d o a m o r, t u q u e é s o n d e a s e s t r e l a s s ã o
l e n t a s , a s fl o r e s a c o r d a d a s , o p o e m a e m t o d a a
parte e o sangue e o centro constelar da minha
própria casa[...]tu, a quem o fundo gravita
o açúcar nas furnas da pele, tu que és uma lua e um
relâmpago e o corpo arrancado de alguns versos
calados, [...]tu, que és felino fugaz e que
não se engana sobre a harmonia de uma savana,
quere dizer-te que estou chegado, e trago as veias
e a boca informuladas, umas guelras para que
dentro do teu ventre eu respire, não do modo
altíssimo e belo como o trazes deitado, mas no
amor tecedeiro, na aranha intensa e doméstica que
és, na rosa inominável e acordada que pelo seu
perfume exala a demência toda de amar-te que eu
SOU.

EDUARDO WH1TE, Os materiais do amor 30

Não foi, como vemos, por mero acaso, que White respondeu ao
País dos Outros, de Knopfli, como o seu País de mim 31, a que o obri-
gava este voo de pássaro sem dono de que apenas citámos um exem-
plo, que ganha folêgo à medida que o corpo se avoluma e as veias
engrossam, da cabeça aos pés, numa quase alucinação, obsessiva, mas
rigorosa nas marcas de pesquisa deste «eu» à procura de se encon-
trar no corpo de uma mulher, longe e perto do amor dito por Eugénio
de Andrade como «uma ave a tremer nas mãos de uma criança».
Não terá sido também por acaso que uma Ilha de Moçambique
foi consagrada, como símbolo da unidade pátria moçambicana, num
dos números da Revista Oceanos, que tinha por título Ilha de
Moçambique, Ilha de todos nós.

Daqui em diante, não nos resta outro caminho senão o da des-


coberta, da redescoberta, da experimentação, que Ernesto de Melo e

so Eduardo White, Os materiais do Amor seguido de O desafio à Tristeza, Maputo,


Ed. Ndjira, 1996, p. 15-17.
31 Eduardo White, O país de m/m, Associação dos escritores moçambicanos, 1989,
Prémio «Gazeta» da Revista Tempo.
506 Maria Armandina da Cruz Mala

Castro levou ao ponto de generosamente «descobrir» num texto de


Gilberto Gil, que inclui no excelente trabalho As ilhas do arquipé-
lago 32:

Criar meu web site


Fazer minha home page
Com quantos gigabytos
Se faz uma jangada
Um barco que veleja
Que veleje nesse
Que aproveite a vazante da informar~
Que leve um oriki do meu orixá
A o p o r t o d e u m d i s q u e t e d e u m m i c r o e m Ta i p é
GmBZRTO G]L, Pela Internet

Para terminar estas deambulações por caminhos pátrios, em que


tentei reunir duas metades do sujeito que habita este espaço, relem-
bro a peregrinação do Oceanites erraticus que, ao contrário de nós,
sabe o seu destino, sem o sentimento confuso de pertencer a uma
pátria que se busca, não sendo já portador do pecado original, numa
dupla identidade, que, uma vez instalada, não mais nos abandona.

O l h a r a Ve r d a d e F i n a l n ã o d e v e p o d e r s u p o r t a r - s e , m a s o m e u d e s e j o
d e a c h a r e s s a f d r m u l a fi n a l é m a i o r d o q u e o m e u p a v o r ; t e n h o - a d e b a i x o d a
língua. Acho que é isto; «Morrer é um país estrangeiro.» É uma parte, mas
não é ainda tudo. There it is: «Viver é um pais estrangeiro.» Acho que sim,
que era disto que andava à procura. Sinto-me agora preparado: «Morrer é
u m p a i s e s t r a n g e i r o . V i v e r é u m p a i s e s t r a n g e i r o . » Vo u a c a b a r, s i n t o , t u d o
mo diz. Isto é: vou mudar-me de um pais estrangeiro para outro país estran-
g e i r o . E s t r a n g e i r o n a t e r r a , s ê - l o - e i t a m b é m n o a l é m q u e h o u v e r. E , s e n a d a
h o u v e r, n a d a s e r e i : f o r m a s u p r e m a , t a l v e z , d e s e r e s t r a n g e i r o »
EU«~NIO LmBOA, Um estrangeiro na terra, excerto de uma ficção 33

sz Ernesto de Melo e Castro, "As ilhas do arquipélago~, Via Atlãntica, São Paulo,
1997, p. 114.
as Eugénio Lisboa, O Objeeto Celebrado (miscelãnea de ensaios, estudos e crítica),
Coimbra, Ed. Universidade de Coimbra, 1999, p. 28. O presente excerto faz parte de
um trabalho apresentado pelo autor no Congresso Pessoano, em 1988.
Pátria, uma trajectória de deriva

Obedientes e resignados a esta peregrinação interior que a con-


ciência do nosso tempo não nos permite adiar, amemos esta pátria,
plural e singular, íntima e universal. Mansa e placidamente, como
fez Caeiro ou com desejo e fúria, como Eduardo White. Este acto amo-
roso é, como qualquer outro, de livre escolha e arbítrio.