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SANTOS

DUMONT
SEU PRIMEIRO
E ÚNICO VOO
NO BRASIL

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BRASIL · ANO 25 · Nº 288 · R$ 18,00 · € 4.00
SUN ‘N FUN
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ESPECIAL CHINA E CARROS
NASCE UMA POTÊNCIA VOADORES
AEROESPACIAL

ENTREVISTA
LUXO A BORDO PRESIDENTE DA EAA
UMA REVOLUÇÃO FALA SOBRE O FUTURO
NO INTERIOR DAS DA AVIAÇÃO GERAL
AERONAVES

SEGURO SPOTTERS
PAIXÃO POR
COMO CONTRATAR
AVIAÇÃO E
O DA SUA AERONAVE
FOTOGRAFIA

ESTOL
COMO
SAIR DELE

EDIÇÃO DE ANIVERSÁRIO

POR QUE VOAR?


A RAZÃO DE SER DE UMA DAS MAIS
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E D ITO R I A L

POR QUE
VOAR? AERO MAGAZINE
BRASIL · ANO 25 · Nº 288 · 2018

DIREÇÃO
Publisher
Christian Burgos - christian@innereditora.com.br

M
ais um ano se passa e o ciclo do tempo se renova.
Diretora de Operações
Nesta edição, AERO Magazine chega a seus 24 Christiane Burgos - christiane@innereditora.com.br

REDAÇÃO
anos de existência. Completamos exatos 288 Editor-chefe
Giuliano Agmont - giuliano@aeromagazine.com.br
números, com revistas todos os meses nas bancas desde
Repórter
1994. A cada capa, novas histórias. Para celebrar a data, Edmundo Ubiratan - edmundo@aeromagazine.com.br

bolamos uma ação especial, procurando explicar uma das Colaboradores


Ernesto Klotzel, Rodrigo Duarte, Paulo Marcelo Soares,
Rodrigo Moura Visone e Phelip Yancovitz
mais nobres e memoráveis atividades humanas, o voo.
ARTE
Tentamos captar o propósito por trás de cada pouso e Diretor de Arte
Ricardo Torquetto - ricardo@innereditora.com.br
decolagem, colhendo depoimentos de pessoas que vivem Assistente de Arte
Aldeniei Flávio Gomes Santos - arte@innereditora.com.br
a aviação. Por que voar? Foi a pergunta que izemos. As
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Por falar no inventor do 14-Bis e do Demoiselle, Teresa Rebelo – teresarebelo.inner@gmail.com

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único voo que Santos Dumont fez no Brasil, a bordo do
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Ainda nesta edição, a cobertura da principal feira de
A Inner Editora não se responsabiliza por opiniões,
interiores do mundo, as novidades de Sun ‘n Fun e uma ideias e conceitos emitidos nos textos publicados e
assinados na revista AERO Magazine, por serem de inteira
responsabilidade de seu(s) autor(es).
entrevista exclusiva com o presidente da EAA, Jack Pelton.

Bom voo,

Giuliano Agmont e Christian Burgos


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SUMÁRIO

18
8

18 E D I Ç ÃO DE AN I VERSÁRI O 42 ESPECIAL

Por que voar na opinião China emerge como nova


de quem vive a aviação potência aeroespacial

26 AVI AÇÃO DE N EGÓ CI OS 60 SUN ‘ N FUN 2018

Luxo a bordo na maior feira As curiosidades da mais


de interiores do mundo divertida feira dos EUA

38 I N DÚ STRI A
64 ENTREV ISTA

A suspensão do programa Presidente da EAA fala


Cessna Citation Hemisphere sobre o futuro da aviação leve
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68

foto: Gilson Campos


6

68 S EG U R A NÇA

Com sair de uma SEÇÕES


situação de estol
10 FIRST CLASS

76 H I S TÓ R I A

Os sonhos de Santos 12 CURIOSIDADES

Dumont para o Brasil


16 AERO RESPONDE

80 E D I Ç ÃO D E AN I VERSÁRI O 82 AEROCLICK SPOTTER

O AERO Click Spotter e a


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10 | MAGAZINE 2 8 8
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MAGAZINE 2 8 8 | 11
POR | E D M U N D O U B I R ATA N
CURIOSIDADES
AERONAVES SUPERLATIVAS
A Scaled Composites Stratolaunch realizou recentemente Hughes H-4. Aviões superlativos sempre izeram parte
os primeiros testes com seu superavião, o Stratolaunch, do imaginário coletivo entre os amantes da aviação, que
que deverá ser utilizado para lançamentos de cargas adoram saber qual o mais rápido, o maior, o mais pesado
suborbitais ou na órbita baixa da terra. O estranho e assim por diante. Nesta edição de aniversário, saciamos
projeto quebrou o recorde de avião com maior essa curiosidade e reunimos os aviões imbatíveis em cada
envergadura do mundo, que pertenceu por 71 anos ao um dos mais diferentes quesitos.

VELOCIDADES
EXTREMAS
O Lockheed SR-71 Blackbird ainda ostenta o recorde de avião produzido em
série mais rápido de todos os tempos. Ele atingiu 3.529,6 km/h em 28 de julho
de 1976. Entre os aviões comerciais, o Concorde atingia Mach 2,04,
ou seja, duas vezes a velocidade do som. No entanto, o recorde de
velocidade pertence ao experimental North American X-15, que em 3
de outubro de 1967 atingiu 7.274 km/h. O voo controlado manualmente mais
rápido dentro da atmosfera ocorreu em 14 de novembro de 1981, quando o
ônibus espacial Columbia atingiu 28.000 km/h na reentrada da missão STS-2.

UM GIGANTE DE
DOIS ANDARES
O Airbus A380 é o maior avião de passageiros do mundo em
capacidade, podendo transportar até 868 passageiros em classe única.
Embora se destaque por seus dois andares e sua grande capacidade,
o modelo possui 79,75 m de envergadura, 72,72 m de comprimento e
24,08 m de altura, o que o torna também o avião mais alto do mundo.
O avião ainda conta com uma fuselagem de 6,5 m de largura no deck
principal e 5,8 m no andar superior.

PROPULSÃO A JATO
O Boeing 777-300ER e o Airbus A350-1000
disputam palmo a palmo o mesmo mercado. O
Boeing já sofre os efeitos da idade, especialmente
por seu consumo superior ao do modelo europeu
recém-certificado. Ainda assim, o 777-300ER conta
com o motor de maior capacidade e tamanho do
mundo. O GE90-115 possui empuxo de 115.00 lbf e
diâmetro de 3,4 m. Em breve, ele perderá o posto
para a nova versão do triplo sete, o 777X, com o
novo motor GE9X.

12 | MAGAZINE 2 8 8
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O CHARUTO
MAIS LONGO
O icônico Boeing 747 perdeu seu status de maior avião do mundo
para o rival europeu da Airbus, mas o 747-8 recuperou o recorde de
avião comercial mais longo, com 76,3 metros de comprimento. Ainda
que distante dos recordes absolutos do passado, o 747 mantém-se entre
os aviões com maior área, capacidade e alcance do mundo. Quando foi
lançado, em 1968, o 747 era em quase todos os aspectos duas vezes maior
do que o 707, até então o maior avião da Boeing.

QUANTOS MOTORES?
O Boeing B-52 Stratofortress foi o avião de série com o maior
número de motores a jato instalados, oito no total. No entanto,
o Dornier Do X ainda possui o recorde de quantidade de motores
empregados em um único avião. Nada menos que 12 Curtiss Conqueror
impulsionavam o exótico avião alemão. Cada motor possuía 12 cilindros em
V, com 610 hp cada. Entre os experimentais, o ekranoplano Korabl Maket,
conhecido como monstro do Mar Cáspio, empregou 10 motores a jato Dobrynin
RD-7, de 28,670 lbf cada.

A MAIOR
ENVERGADURA
O Stratolaunch é um avião especial criado apenas para lançamentos de
cargas espaciais. Utilizando sistemas e componentes do Boeing 747, como o
cockpit, as janelas de cabine e os motores, o avião conta com fuselagem dupla
de 73 m de comprimento. Com a impressionante envergadura de 117 metros, as
asas acomodam seis motores Pratt & Whitney PW4056, os mesmos do 747-400.
O peso máximo de decolagem é 589.670 kg, sendo 250.000 kg de carga paga.

UM AVIÃO
COM NOVE ASAS
Nos anos 1920, o Caproni Ca.60
Transaero pretendia ser um avião
comercial de grande capacidade e
alcance. É considerado até hoje o único
nonaplano da história, ao empregar
nove asas. O engenheiro italiano Gianni
Caproni instalou no avião três pares de
asas triplas (um “triplo triplano”). O avião
era impulsionado por oito motores V12
Liberty L-12 de 400 hp cada.
MUITO MAIS PESADO ULTRALONGO
DO QUE O AR ALCANCE
Com peso máximo de decolagem de 640.000 kg, O avião civil com maior
o ucraniano Antonov An-225 Mriya é o avião mais alcance do mundo é o Airbus
pesado do mundo. Construído na Guerra Fria A340-500, que detém o
para apoiar o programa Buran – o ônibus espacial recorde de 16.670 km de voo
soviético –, este enorme avião de seis motores sem escala. Com 13.890 km de
tornou-se único no mundo. O Mryia ainda detém o alcance, o Gulfstream G650ER
recorde de maior comprimento e maior área, com é o avião de negócios de maior
uma fuselagem de 84 m e área total de 905 m. alcance da atualidade.

14 | MAGAZINE 2 8 8
A E RO R E S P O N D E
COMO CONTRATAR O
SEGURO DE MINHA
AERONAVE?
A atenção com os detalhes de um contrato e as operações
de seu avião ou helicóptero podem fazer toda a diferença
em caso de sinistro, principalmente no bolso

M
uito se engana quem somente para operações diurnas, mes-
pensa que a contrata- mo que tenha balizamento para pousos
ção de um seguro ae- e decolagens no período da noite.
ronáutico é semelhan- Esse fato deve ser especialmente
te à de outro seguro veriicado nas operações de helicóp-
qualquer. Na aviação, as seguradoras teros que pousam praticamente em
procuram avaliar criteriosamente qualquer lugar. O pouso em local não
todos os detalhes de uma operação registrado (e, portanto, homologado) é
a im de quantiicar seu risco e saber previsto na legislação, mas deve constar
se poderão aceitá-lo, preciicá-lo ou expressamente na apólice para que a
simplesmente rejeitá-lo. cobertura seja válida.
Cada seguradora tem suas próprias Para aviões com capacidade de
exigências e vê o risco de maneira di- voos internacionais de médio e longo
ferente. Algumas exigem treinamentos alcance, alguns países são excluídos
periódicos em simulador enquanto ou- de sua cobertura por motivos de
tras cobram apenas o mínimo previsto segurança. O sobrevoo neles até pode
nas normas aeronáuticas para revali- ser aceito pelas seguradoras desde
dação das habilitações dos pilotos. Há que previamente comunicado e
também variações nas exigências para expressamente aceito.
experiência mínima da tripulação. Alguns países ainda exigem uma
Mais um ponto importante é o cobertura de responsabilidade civil de
cumprimento pelo operador aéreo milhões de dólares, isso impacta no
das normas aeronáuticas. Qualquer prêmio do seguro. No Brasil, isso existe
violação que leve a um sinistro perderá por meio do seguro RETA (responsa-
a coberta e o prejuízo será enorme, bilidade do transportador aéreo), que
podendo ser apenas material ou ainda é o seguro obrigatório da aviação. Os
que vitime pessoas a bordo ou no solo. valores cobertos nesse seguro são abso-
Os pilotos devem sempre buscar as lutamente irrisórios se comparados aos
informações oiciais divulgadas a res- valores de indenizações.
peito dos aeródromos que pretendem Cada operador deve saber exata-
operar. Muitas vezes, o comprimento mente o que deve ser contratado em
das pistas ou a existência de balizamen- sua apólice, preencher adequadamente
to noturno não condizem, ainda que os formulários de peril de operação
existam de fato, com os documentos na hora da contratação, observar a
oiciais. Pousar em pistas oicialmente experiência mínima exigida na apólice
menores do que as exigidas pela perfor- da tripulação contratada (a segurado-
mance de uma aeronave pode signiicar ra exigirá o comprovante de vínculo
problemas com a seguradora, e tam- empregatício na hora da reclamação
bém com as autoridades aeronáuticas. de um sinistro) para ter a cobertura
O mesmo vale para uma operação devida e também não pagar a mais pelo
noturna em um aeródromo registrado que não usa.

MAGAZINE 2 8 8 | 17
ANIVERSÁRIO
POR QUE
VOAR?
AERO Magazine completa 24 anos de existência
e celebra com respostas inspiradoras
dadas por quem vive a aviação

A
revista AERO Magazine com- em português, espanhol e agora também
pleta 24 anos de existência em inglês, atingindo mais de 40 países.
nesta quinta edição de 2018. Graças a você, nosso leitor, nesses 24
Um marco a ser celebrado. anos, AERO Magazine se consolidou como
Estamos próximos de quase a publicação jornalística de maior referên-
um quarto de século escrevendo e diagra- cia em informação sobre aviação elaborada
mando notas, artigos e reportagens sobre no Hemisfério Sul.
aviação, mensalmente, desde 1994, tudo Realizamos um trabalho que tem como
devidamente ilustrado com fotograias, grá- foco uma das mais nobres e memoráveis
icos, quadros e demais elementos de arte. atividades humanas, o voo. Mostramos
Com o advento da internet e o surgi- (e testamos) em mais de duas décadas
mento de novos canais digitais, nosso traba- inúmeras máquinas, de diferentes formas e
lho se intensiicou. Deixamos de nos dedi- tamanhos, sem perder de vista que, por trás
car apenas ao conteúdo que enviamos para de cada pouso ou decolagem, sempre há
a gráica e expandimos nossos horizontes um grande propósito. E é esse espírito que
às diversas plataformas virtuais. Do nosso tentamos captar colhendo depoimentos de
site em parceria com o portal Uol e nossas pessoas que vivem a aviação e participam
redes sociais – o Facebook com cerca de direta ou indiretamente da produção de
320 mil seguidores e o Instagram crescendo AERO Magazine. Fizemos uma pergun-
vertiginosamente desde o início da parceria ta simples, “Por que voar?”, e recebemos
com a comunidade de spotters – às revistas respostas que pretendemos que sejam um
digitais distribuídas para computadores, presente de aniversário para cada um de
tablets e smartphones via Zinio, com versões nossos leitores.
P O R Q U E VOA R?

“Paris, França. 23 de outubro de Brasileira, somos responsáveis por “Porque sim! Curto e grosso. Sem
1906. Desde esse dia, em que o muito do que se relaciona com a ati- irulas. Sem mi-mi-mi. Voar é ser
brasileiro Alberto Santos-Dumont vidade aérea no Brasil. Defendemos testemunha da magia da natureza em
realizou o voo do ‘mais pesado que a soberania do nosso país, 24 horas sua plenitude. É poder ver o mundo
o ar’ diante de uma multidão atôni- por dia, todos os dias. Controlamos e suas paisagens, por ora deslum-
ta, começou a ser escrito um novo esse imenso espaço aéreo de 22 mi- brantes, por ora deprimentes. Apesar
e importante capítulo na história da lhões de km2, abrangendo além de das airmações com tom lúdico,
humanidade. Surgia deinitivamente todo o território nacional, também ainda assim, não deixa de ser uma
a aviação: descoberta que revolu- parte do Oceano Atlântico. Por atividade que exige muita responsa-
cionou o mundo, reduziu distâncias im, integramos continuadamente bilidade. Voar é a capacidade que a
e conectou sociedades de formas desde a nossa criação este “conti- humanidade emprestou daqueles que
antes só possíveis em obras de nente” chamado Brasil. Trata-se de fazem isso na sua natureza para che-
icção. Para mim, que convivo com um conjunto diverso de ações nas gar a lugares nunca antes alcançados,
o meio aeronáutico há quase 50 quais residem nossa razão de voar e levando desenvolvimento, esperança
anos, voar é um prazer indescritível. também nosso orgulho de sermos e prosperidade para os que precisam.
E hoje, na condição de comandan- não só uma força aérea, mas, sim, a Voar é um sacerdócio e nos impõe
te da Aeronáutica, tudo isso tem Força Aérea Brasileira”. uma missão divina para carregar
um sentido ainda mais amplo e Comandante da Aeronáutica, Tenente- vidas sob nossa responsabilidade e
gratiicante. Nós, da Força Aérea Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato realizar nossos voos com segurança”.
Rodrigo Duarte, gestor de frota
e piloto de aviões e helicópteros

20 | MAGAZINE 2 8 8
“Voamos para aproximar. Voamos “A conquista dos céus é um “O ser
se humano
um sempre se “Voar e as aerona-
para reconectar. Voamos para sonho antigo dos homens. en to com
encantou c a beleza do ves são sem dúvida
explorar. Além do desejo de ter Voar exerce fascínio, seja do voo dos pássaros. Após o ferramentas de
asas, o homem sempre voou para lado apaixonante da aviação voo do 14-Bis, esta ativi- trabalho para uma
exceder seus limites. Por isso, voar desportiva ou sob a ótica dade não parou de crescer nação com a di-
é ir além. A Líder Aviação nasceu comercial, no ganho de tempo, e se tornar cada vez mais mensão do Brasil”
desta vocação de voar e de prover encurtando distâncias, pro- segura e veloz”. João Moutinho,
tudo que for necessário para que, movendo encontros, negócios, Ivan Resende Leitão, diretor da Vulcanair
independente da motivação que passeios etc., enim, que só presidente do Aeroclube Pará
impulsione o voo, esta seja uma quem voa é capaz de descrever de Minas
experiência única. Há 60 anos essa e a AERO Magazine de escre-
vem sendo a nossa inspiração. ver. Recebam nossos parabéns
Porque voar é da nossa natureza. pela edição de aniversário
Nestes 24 anos, parabenizamos a e um grande abraço a toda
AERO Magazine e registramos o equipe”
nosso apreço por quem também Cássio Polli, avaliador e diretor
divide conosco esta paixão e voca- da Aérie Aviação Executiva
ção por voar”.
Junia Hermont Correa, diretora
superintendente da Líder Aviação

MAGAZINE 2 8 8 | 21
P O R Q U E VOA R?

“Voar faz parte da minha “...coordenação em São João da Boa Vista, Papa
“Porque voar é o que nos Uniforme Bravo Mike Bravo alinhado na zero
história. Acredito que ao
inspira e nos impulsiona. quatro inicia decolagem, após decolagem curva à
longo dos anos a aviação
É a nossa razão de existir. direita para sobrevoo da Serra da Mantiqueira no
passou a fazer cada vez
Aproveitamos para parabe- setor Echo mantendo 5.000 pés... Coordenou Bravo
mais parte do dia a dia
nizá-los pelo aniversário e Mike Bravo em São João... Ver o pôr do sol e pousar
das pessoas, seja para ins
que venham voos cada vez no último minuto na divisa de São Paulo com Minas
comerciais ou para lazer,
mais altos”. Gerais não tem preço, a primeira vez que iz isso
encurtando distâncias de
maneira segura e confortá- Helibras Helicópteros do Brasil já valeu toda a pena de ter escolhido ser piloto. Na
vel. Hoje, é uma satisfação minha condição de fazer aviões e poder escutar isso
aliar essa antiga paixão a dos amigos, é como se fosse a primeira vez que tives-
um grande negócio que é a se visto o sol tocar as campinas atrás das montanhas.
“Voar é unir a técnica à arte,
Icon Aviation” Poder proporcionar o voo para outros pilotos me
é respeitar os seus limites e os
motiva a produzir cada vez mais novos aviões, novos
Michael Klein, CEO do Grupo CB da sua aeronave, voar é nego-
projetos e novas sensações, como voar pela primeira
ciar com a natureza, é a busca
vez com meu ilho de 2 anos e já enxergar em seus
incessante pela segurança,
olhos o sentido de voar e icar desejando o céu quan-
pela eiciência, pelo
do se está no chão. Faço da minha vida dar sentido
aperfeiçoamento”
ao voo a muitas pessoas!
Paulo Marcelo Soares, instrutor
e comandante de A320 André Godoy, CEO da Sector Aircraft

22 | MAGAZINE 2 8 8
“Voar por deinição e por essência é uma coisa ção de poder e status que a máquina voadora traz. ““Entendo que voar torna-se
única, porém a motivação e a forma como isso Temos no Brasil uma grande tradição de aviação, necessário a todo aquele que, de
se realiza é apresentada de inúmeras maneiras. que vem dos primórdios da atividade aérea, alguma forma, intui e deine-se
Temos desde o voo virtual, não dá para excluir porém, ainda falta cultura de aviação em nossa como parte dos elementos que
um tipo de voo só porque os pés estão no chão; sociedade. Não temos uma boa infraestrutura, sustentam o voo. Aquele que
controlar o voo de drones e aeromodelos; usar o nossa burocracia é chata e por vezes incompre- comunga da arte de voar com
corpo para voar em um salto de paraquedas; pe- ensível, a tributação é complexa e cara; nossas outros que nutrem o mesmo
gar asas emprestadas no voo livre; voar sem motor autoridades por vezes perdem a mão na criação sentimento, e espelha-se naque-
em planadores; voar ultraleves e experimentais; e aplicação das leis, todos esses poderiam ser les que atingem a excelência de
tem o voo privado por hobby ou voo proissional; motivos para não voar, mas os motivos para voar maneira natural. Não é apenas
os voos militares; da aviação agrícola; a acrobacia; são mais fortes e a aviação resiste, viabilizando ne- criar uma reação aerodinâmica
voos em jatos executivos; aviação regional, jatos gócios, conectando comunidades, salvando vidas, num peril. É transcender, ainal,
comerciais em voos nacionais e intercontinentais; unindo famílias, integrando culturas, viabilizando é possível voar com os pés no
e o voo espacial. Cada um desses tipos de voo tem a viagem dos sonhos. Aviação é minha proissão e chão. É possível ser aviador, sem
seus objetivos e sua segmentação, mas tratamos o meu hobby, uma paixão de criança que vou levar licença de piloto. Voar é aperfei-
todo como aviação. Mas o que faz esse universo por toda a vida, sendo o voo a essência de tudo çoar o pensamento daquele cujo
girar? São vários os motivos, que tem como base o isso. A aviação é cheia complexidades, regras e in- habitat seja a terra irme”.
ato não natural ao homem de cortar os céus, isso teresses, mas o voo é puro, simples. Voar é preciso
serve para alimento aos sonhos, passando pela e preciso voar. Thiago Sabino, Comandante
necessidade, conveniência, acessibilidade, proje- de ATR 72-600
Daniel Torelli, piloto de aviação executiva

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Divulgação (Márcio Jumpei)
P O R Q U E VOA R?

“O transporte aéreo tem regis- “Cruzar os ares, como um pássaro, ir “Primeiramente, gostaria de
trado resultados positivos nos além do horizonte, seja para salvar vidas, parabenizar toda a equipe da
últimos meses. As companhias seja para proteger pessoas, seja para en- AERO Magazine, pelos 24
aéreas apresentaram crescimento curtar distâncias e continentes, seja para anos de vida desta prestigiosa
de tráfego e capacidade. Acom- servir ou mesmo desaiar a natureza, revista, tão lida e admirada por
panhar de perto estas mudanças a nossa natureza, tudo tem apenas um todos os amantes da aviação,
e apoiar o setor com nossa expe- sentido: o prazer de voar”. no Brasil e agora, também,
riência e tecnologia inovadora é estendendo seus braços para
a razão que nos faz voar. Somos outros tantos países, certamen-
parte da indústria, pois, a Sita te com muito sucesso. Que
é de propriedade do transporte vocês cresçam sempre e cada
aéreo – uma condição única que vez mais. Que realizem os seus
nos permite entender e responder “Leonardo Da Vinci acreditava que uma sonhos e alimentem os sonhos
suas necessidades melhor do que vez que tivéssemos experimentado voar, dos seus leitores. Respondendo
ninguém. A tecnologia ajuda a andaríamos pela terra com os nossos olhos à pergunta, resumiria em qua-
otimizar os processos e ainda é voltados para o céu. Voar traduz a sensação de tro frases: voar é terapia, voar
capaz de contribuir para uma me- querermos ir cada vez mais alto. Nos traz uma é liberdade, voar é tecnologia,
lhor experiência do passageiro”. visão de mundo através de uma perspectiva voar é velocidade”
Elbson Quadros, vice-presidente da diferente e mais ampla. Milton Roberto Pereira, CEO da
SITA para América Latina Philipe Figueiredo, diretor de Vendas da Líder Aviação Octans Aircraft Industrial Ltda.

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“Amo voar pelo simples fato de me sentir cidadã do mun- “Um amigo me disse: você constrói 2 km de estrada
do. Adoro conhecer novos países, pessoas e suas culturas e anda 2 km com seu carro. Você constrói 2 km de
distintas de tudo que estamos acostumados quando estamos pista e voa até onde o teu avião te levar. Muitas vezes,
na nossa zona de conforto. Poder contar nossas histórias a partir de uma pista todo, um país será coberto e
de descobertas aos amigos e colegas. Ser piloto também te destinos diicilmente alcançados pelos modais tradi-
faz ver o mundo de uma maneira mais simples e leve. Lá de cionais seriam alcançados. Se um empresário tem a
cima não há fronteiras nem diferenças. É ver o mundo com pretensão de ter um negócio capaz de atender a uma
a perspectiva de um pássaro. Ter o imenso prazer de levar as grande região ou mesmo um país inteiro e até outros
pessoas ao encontro de seus entes queridos, chegar e ver to- continentes, ele na verdade só vai conseguir ser o
dos encontros e despedidas se emocionando junto com esses melhor entre os seus concorrentes se dispuser de
desconhecidos. A sensação indescritível de ter a capacidade um avião próprio capaz de livrá-lo de horas desper-
em decolar e pousar uma máquina magníica que é o avião! diçadas em aeroportos congestionados e riscos em
Ao inal do dia poder compartilhar em casa experiências e estradas esburacadas e inindáveis.”
ensinamentos que a aviação no traz”. José Eduardo Ippolito Brandão, CEO da Synerjet
Josie Fabian, comandante de Boeing 737

“Porque voar está no meu sangue! Na as conversas eram sempre sobre aviões e teros do mundo, motivo de prazer e
porta do quarto da maternidade tinha histórias da aviação. Cresci nesse meio. orgulho. Gosto de voar diferentes aviões
um aviãozinho pendurado. Meu avô Logo aos 6 anos, meu pai me ensinou e experimentar cada característica deles.
paterno construía planadores no IPT a voar aeromodelos e na adolescência Uns mais dóceis, outros mais ágeis. Uns
(Instituto de Pesquisa Tecnológica) nos comecei a fazer plastimodelismo de mais fáceis, outros mais complexos.
anos 1950, meu pai voava no Aero- aviões – hobbies que cultivo até hoje! Acrobáticos ou não. E a cada voo vou
clube de Jundiaí quando os primeiros Faltava aprender a voar. Tornei-me entendendo cada vez mais o que disse
Paulistinhas chegaram no começo dos piloto privado de aviões por prazer Leonardo da Vinci: ‘Uma vez que você
anos 1960. Descobri recentemente que e lazer e assim pretendo continuar. tenha experimentado voar, você andará
meu primeiro voo foi em 1974 no CAP- Com 20 anos de carreira, trabalhei em pela terra com seus olhos voltados para
4 preixo PP-DBL, o mesmo utilizado diferentes empresas representantes o céu, pois lá você esteve e para lá você
pela famosa Ada Rogato para sua aven- de diferentes fabricantes de aviões e desejará voltar’.”
tura aérea. Os amigos da família eram, helicópteros e hoje integro a equipe de Daniel Cagnacci, gerente de Desenvolvimento
então, pilotos ou amantes da aviação. E um dos maiores fabricantes de helicóp- de Negócios da Leonardo Helicopters

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AV I AÇ ÃO D E N EG Ó C I O S

LUXO
A BORDO
Os interiores de aviões e helicópteros de uso particular
ganharam sofisticação e as soluções cada vez mais
personalizadas exigem atenção especial de quem
compra ou freta uma aeronave
P O R | ERNESTO KLOTZEL
A
feira anual Aircrat dos trincos das portas), eventuais
Interiors Expo, chuveiros, entretenimentos de
realizada desde 2002 bordo sob demanda e muito mais.
em Hamburgo, na Quando o jato não é novo, o
Alemanha, começou interessado tem de se conformar
em Cannes, na França, em 2000, com o que lhe é oferecido pronto,
antes de se irmar na cidade alemã. existindo sempre – dependendo
Para o evento deste ano, pelo menos do bolso – a possibilidade de subs-
500 expositores de todo o mundo tituir parte ou o todo do ambiente
apresentaram as mais diferentes so- interno recorrendo a um retroit.
luções, de fornecimentos completos De qualquer forma, a preocupação
de instalações de assentos, lavatórios, com o cliente-passageiro e o pro-
galleys e amenidades até persona- prietário de um jato de negócios
lizações especíicas de empresas de para os fornecedores especializa-
menor porte altamente especiali- dos não tem comparação.
zadas e qualiicadas, que ganharam A simples localização de uma
a coniança das grandes empresas ou mais galleys e lavatórios varia
de serviços integrados. O projeto e diretamente conforme a inalidade
desenvolvimento de interiores tanto de um jato de negócios novo de
na aviação comercial regular como fábrica: o proprietário voa só, com
na de negócios é uma atividade a família ou gosta de levar uma
que envolve somas milionárias. verdadeira comitiva? A aeronave
Em 2017, movimentou cerca de servirá a ins de lazer ou negócios?
US$ 26 bilhões com uma projeção Os voos serão sempre do mesmo
de US$ 39 bilhões para 2022. alcance ou variam entre viagens de
poucas horas e missões de longa
CONFORTO E COMODIDADE duração? A aeronave será utilizada rios merecem toda a atenção,
A maioria dos jatos de negócios mais para promover a imagem de principalmente em jatos menores
comprados novos de fábrica dá seu proprietário? Enim, vale aten- que apresentam um só lavatório
ao seu proprietário uma liberda- tar para estas e outras variáveis e uma mini-galley. Em jatos
de total para escolher o interior que podem fazer grande diferença de negócios maiores e mais
em quase todos seus detalhes de quando for tarde demais para uma generosos em termos de espaço,
cores, iluminação, revestimentos decisão mais ponderada. dois lavatórios e duas galleys são
e entretenimento embarcado geralmente montados nas seções
após passar pelo “hardware” mais ONDE INSTALAR dianteira e traseira da cabine, o
importante: o layout das confortá- GALLEYS E LAVATÓRIOS? que é o melhor dos mundos do
veis poltronas, seus estofamentos, Considerações que inluenciam ponto de vista da conveniência e
as galleys, os lavatórios (até o estilo a localização de galleys e lavató- do balanceamento. Agora, para

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quem deseja descansar, trabalhar Quando se trata de uma só dos assentos e de um sofá podem A escolha
ou realizar reuniões sem ser instalação de cada, com uma ser a melhor solução. A solução do interior
incomodado pelo vaivém dos cama, sofá-cama ou mesmo lo- “club” de mesa com poltronas depende do
tipo de voo e
demais ocupantes e pela tripu- cal de reuniões na parte traseira dispostas em seu redor (inclu-
necessidade
lação, ou simplesmente manter do jato, vale o cuidado com a sive “de costas” para o sentido dos passageiros
distância do ruído de talheres, localização do conjunto galley- do voo) pode ser ideal quando
micro-ondas, máquina de café -lavatório. também são previstas reuniões de
e visitas aos lavatórios, opta por Com muito ou pouco espa- trabalho.
mantê-los na frente da cabine. ço, a acomodação em poltronas
Um segundo lavatório e e eventual sofá depende do cará- CAMAS E CHUVEIROS
eventual galley dá maior liberda- ter dos voos. Se predominarem A legislação exige que, em
de aos tripulantes e passageiros. os voos “sociais”, a disposição voos longos, exista espaço para

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descanso da tripulação de Layouts de cabine, lavatórios, LAR A BORDO
Diversos revezamento. Os mesmos galleys, poltronas, sofás, entrete- Referências da aviação regular
fabricantes voos que permitem ao nimento de bordo e demais itens podem ser incorporadas em
possuem centros proprietário ou contratante devem fazer parte do checklist tan- aeronaves de negócios. As mais
especializados desembarcar refrescado após to de aquisição de um futuro experientes equipes de decora-
para configuração um banho de chuveiro em proprietário como de exigência dores, arquitetos e designers têm
de interiores
instalação que começa a ser de um usuário quando se trata de criado uma verdadeira “psico-
exigida em muitos jatos de um arrendamento de operadoras logia do conforto em cabines
porte médio e grande. de voos charter. O fabricante da de aviões comerciais” e utilizam
Quando a maior parte célula recorre geralmente a um os lançamentos periódicos de
dos voos é conduzida noite número de fornecedores terceiri- cabines reconiguradas como
adentro, a escolha de assentos zados coniáveis em seu cadastro trunfos na venda de seus serviços.
de grande reclinação ou que para a incorporação dos mais Geralmente, estas modiicações –
se transformam em camas é diversos produtos à aeronave que de alto impacto – recebem nomes
muito importante, seja qual fabrica, atendendo às demandas próprios escolhidos pelos depar-
for a inalidade principal das do cliente e, quando possível, tamentos de marketing e agências
operações aéreas conduzidas satisfazendo-o nos mínimos deta- de propaganda. O objetivo princi-
ao longo do ano. lhes, técnicos ou estéticos. pal é dar boas-vindas a cada

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passageiro nas portas de acesso à azul e o verde são geralmente asso- O verde dá impressão de úmido
cabine, principalmente nos jatos ciados à paz. Toques de lavanda e enquanto o laranja é associado ao
comerciais widebody. rosa têm relação com o amor. Já o seco – extremos do grau de umi-
O que os designers descobri- azul e o púrpura conotam nobreza. dade. O azul pode sugerir limpeza
ram em suas pesquisas e entrevistas A intensidade da cor também ou fragrância fresca, enquanto o
com o público que viaja, merece tem sua inluência. As mais claras rosa se associa a algo doce.
menção. A ideia básica é tornar o fazem com que as superfícies Os padrões nas paredes da
ambiente de bordo o mais parecido pareçam mais altas, largas e cabine, da mesma foram, têm in-
com o lar ou habitat do passagei- abertas, enquanto cores mais es- terferência. Como na própria casa,
ro. Em termos gerais, superfícies curas denotam algo menor, mais a iluminação da cabine inluencia
curvas são amigáveis e criam um compacto e coninado. na sensação de conforto do passa-
ambiente mais confortável. Designers sugerem que as geiro. A última palavra é combinar
A psicologia das cores desem- cores podem inluenciar em per- a tonalidade e a intensidade da luz
penha papel importante na apa- cepções de umidade, temperatura para acompanhar o ciclo circadia-
rência inal da cabine. Os estudos e mesmo aroma. A cor laranja, por no do passageiro (manhã, tarde
mostram que pessoas de culturas exemplo, faz uma pessoa sentir- e noite), dando-lhe a sensação
diferentes associam certas cores a -se mais quente, ao passo que o – principalmente em voos longos
conceitos e emoções análogas. O azul-verde tem efeito contrário. – de estar passando pelos fusos

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A psicologia horários e, assim, enfrentar os poucas empresas chamadas full- nhos do layout e as principais
das cores
desempenha
efeitos do jet lag. -service no mundo, como a LHT. instalações na cabine. Em paralelo,
papel importante O trabalho começa quando desenvolvem-se as negociações
na aparência COMO ESPECIFICAR o interessado entra em contato pré-contratuais, que culminam
final da cabine UM INTERIOR VIP direto com os especialistas da Luf- com uma carta de intenções e re-
A Luthansa Technik (LHT) é thansa Technik. Caso não tenha serva de “janela” para os serviços.
referência no setor de grandes ocorrido um contato anterior com Após a assinatura do contrato,
modiicações, adaptações e con- um designer ou empresa especia- são estabelecidas as especiicações
versões de cabines de aeronaves lizada de fora, cabe à LHT avaliar internas, que podem somar umas
de qualquer origem, dimensão todos os dados para levantar 500 páginas (isso mesmo!). Um
e natureza. A sequência de as necessidades reais do futuro gerente de projeto assume a partir
procedimentos de especiicação transporte VIP, ou seja, a missão desta etapa.
de instalação de um interior VIP especíica do jato que está sendo A fase que sucede a assi-
da subsidiária da Luhtansa dá adquirido. natura do contrato pode durar
uma boa ideia da atenção que Uma vez levantadas todas as de seis a 12 meses enquanto se
uma cabine pode exigir. Além informações, segue-se ao primeiro dá um diálogo entre o cliente e
disso, serve para mostrar – de encontro cliente-LHT, quando são funcionários da LHT para escla-
forma abreviada – o que fazem as preparados os primeiros rascu- recer os mínimos detalhes, como

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UMA INDÚSTRIA POR TRÁS DOS INTERIORES
Fornecedores de diferentes partes do mundo respondem pelas mais
sofisticadas soluções a bordo de uma aeronave. Veja alguns dos principais

ESTADOS UNIDOS FRANÇA TURQUIA JAPÃO


EnCore : interiores de aviões, Zodiac Aerospace : estruturas Logo Sky : placas de aviso Jamco Corporation :
assentos e estruturas em material para interiores de cabines, internas e externas, pinturas de interiores, lavatórios, galleys
composto. sistemas embarcados. fuselagens, decals e marcações. e assentos.

TCI Cabin Interior Inc :


fabricante de interiores de
cabines, galleys e espaços para a
guarda de objetos.

PORTUGAL ALEMANHA SUÍÇA REINO UNIDO ITÁLIA


Biomex Aerospace: centro Bertrandt Group: Bucher Group: soluções AIM Altitude: projeto e ABC International: serviços
de reparos de couro, para soluções estruturais e para interiores, incluindo Desenvolvimento da cabine de engenharia em interiores
cobertura de assentos. desenvolvimento de cabines. componentes de assentos, de um avião. de cabines e especialistas
galleys customizadas e em branding.
KP-Air Division: pinturas * Cabinnet Gmbh: trolley de macas aerotransportadas. Airbase Interiors: reparo
de aeronaves e máscaras de bebidas, entretenimento de assentos, forrações, Fenice Care System – the
pintura, marcações internas e e rastreamento. Gimmel: fabricantes em modificações e limpeza. Leather Professionals:
externas e decals, limpeza de couro, gravação, impressão, limpeza de assentos em
fuselagens. Diehl Aerosystems: baixo-relevo e bordado. Beadlight: luzes de leitura, couro, restauração e
sistemas do cockpit e soluções iluminação LED, projetos de renovação.
para Interiores. Iluminação.
Geven SpA : interiores de
Lufthansa Technik AG: Factorydesign Ltd: aeronaves, fabricação de
manutenção e reparo de projetos de interiores e assentos leves.
aeronaves, serviços de estratégia e soluções.
modificação. Tekspan Spa – Sogimi
Monarch Aircraft Group : espuma leve, placas
Vartan Aviation Group: Engineering: manutenção de rígidas em plástico para
suporte no local para aeronaves, serviços de reparo assentos e interiores.
interiores de cabines, e revisão geral (MRO).
aeroestruturas e sistemas
aeronáuticos. United Aerospace Ltd :
projetistas e fabricantes de
materiais compostos.

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trincos dos lavatórios, acessórios até a sede LHT, em Hamburgo, a 1,8 tonelada de material para
dos banheiros e nuances de onde já espera a equipe que vai a isolação de som em jatos me-
pintura. Com tudo acertado, produzir a visão 3D da futu- nores e até 4 toneladas em jatos
o gerente de projeto passa a se ra versão VIP. Outros passos de grande porte podem exigir
preocupar com o planejamento convergem para os testes no tanques auxiliares de combustí-
do layout, entrando em contato solo. Na média, são necessários vel devido ao seu peso.
com os fornecedores tradicionais 260 especialistas para a conver- Antes da entrega da versão VIP
da LHT de forrações, aviônicos, são de um jumbo, por exemplo. ao cliente, testes inais em terra e
assentos, mecânica de instalação, Normalmente, seis a nove meses em voo, na presença de todos os
entre outros. No caso da Lutan- são necessários para instalar engenheiros e técnicos respon-
sa Techinks, cerca de 10% apenas uma cabine em jatos menores, sáveis pelas diversas áreas de
é coniado a terceiros. como o Boeing BBJ 737 ou o especialização. Tudo isso antes da
Quando chega a hora, a ae- Airbus ACJ A319, e de 12 a 15 burocracia dos diversos docu-
ronave é trasladada “verde” (sem meses para um Boeing 747 ou mentos e o cobiçado certiicado
qualquer instalação no interior) Airbus A330/340. Cerca de 0,6 de aeronavegabilidade. 

34 | MAGAZINE 2 8 8
R

Foto Cortesia US Air Force

Foto EAA Jim K pnick oto AA J m Koepnick Foto EAA Chris Miller
E NA AVIAÇÃO REGULAR?
Os interiores dos jatos utilizados por companhias aéreas
variam pouco, mas a guerra por espaço é intensa

modelos comerciais de grande


porte, o fabricante desenvolve,
com os mais variados recursos
– próprios ou terceirizados –
todos os detalhes para tornar
mais acolhedora e confortável
possível a permanência a bordo
de um passageiro, principal-
mente em voos de durações
média e longa.
O resultado em um avião
novo ou na modernização
de um modelo antigo deve
permanecer durante um
longo tempo, igualando muitas
vezes os layouts dos assentos,
decisão que, na classe econô-
mica, depende de complexos
estudos inanceiros. Nesse caso,
a luta se resume ao pitch e à
largura dos assentos e, como
decorrência, o maior espaço
para as pernas de cada um. Às
reinvindicações dos passageiros
se contrapõe a volúpia por um
faturamento maior, produto de
uns poucos assentos a mais às
custas do “conforto” individual.
É o que explica a criação da
nova classe econômica pre-
mium, que proporciona – a um
preço adicional, claro – parcos
centímetros a mais no pitch.
A luta de aéreas e fabri-
Para se ter uma ideia da impor- como Ford, Texaco, Kodak e cantes para tornar os assentos
tância do mercado de interiores Procter&Gamble fora do trade cada vez mais esguios e ganhar
e a atenção que lhe é dado por aeronáutico e Alaska Airlines, espaço já permeou aos mais
gigantes como a Boeing, basta Rockwell Collins, Emirates tradicionais fornecedores do
citar que o fabricante de Seattle Airlines, Air Canada, Cathay produto, que estão chegando
tem uma parceria de 71 anos Paciic e Panasonic Avionics no ao limite de seu poder criativo.
com a empresa de “industrial mercado de transporte aéreo. Um passo adiante são os assen-
design” Teague, fundada em Ainda que os projetos tos que deixam os passageiros
1926 por Walter Dorwin de interiores não sejam tão praticamente em pé, mas a
Teague. Todos os modelos diversos, existe uma diferença solução esbarra nas normas de
Boeing, desde o primeiro, têm marcante no grau de controle segurança, pois aumentam o
a assinatura Teague, que possui que o operador tem sobre o tempo de evacuação previsto
entre seus clientes nomes produto saído de fábrica: nos para as aeronaves.

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INDÚSTRIA
MAIS UMA
VÍTIMA
Cessna suspende programa Hemisphere diante
dos problemas com o motor Silvercrest
P O R | EDMUNDO UBIRATAN E ERNESTO KLOTZEL

D
urante a última edição o motor não consegue entregar no
da NBAA–BACE tempo adequado as acelerações e
(National Business reduções de velocidade.
Aviation Association Com o acúmulo de problemas
Convention and Exhi- e a falta de solução, a Cessna foi
bition), que aconteceu em Las Vegas obrigada a interromper o programa
em outubro de 2017, a Safran enca- de desenvolvimento do Citation
rava seu maior desaio dos últimos Hemisphere, que deveria voar em
anos, ganhar a coniança do setor 2019. As constantes falhas no mo-
em relação ao motor Silvercrest. tor impossibilitaram o andamento
A situação estava tão tensa que do projeto dentro do cronograma
Cedric Goubet, vice-presidente de esperado. Segundo o Chairman e
Motores Comerciais da Safran, teve CEO da Cessna, Scott Donnelly, a
de dar explicações sobre o atraso Safran “precisa resolver os proble-
no desenvolvimento dos motores mas dos motores antes de prosse-
na coletiva de imprensa da Dassault guir com os planos originais”.
– que posteriormente cancelou o
programa Falcon 5X. Na ocasião, a NOVO MOTOR
Textron Aviation esquivou-se do as- Para alguns analistas, os proble-
sunto e airmou que as diiculdades mas da Safran com seus motores
com o motor não tinham impactado podem provocar o cancelamento
o programa Citation Hemisphere, do projeto. Isso porque o acúmu-
desenvolvido pela Cessna. Mas, lo de atraso no cronograma de
conforme AERO adiantou já em sua entrega do novo Citation Hemis-
cobertura da NBAA-BACE, havia phere, que compete no concorrido
o risco de o desenvolvimento do mercado de cabine larga, pode
avião ser impactado pelas falhas no inviabilizá-lo. A alternativa para
Silvercrest. E foi o que aconteceu. A a Cessna deve recair sobre os mo-
Cessna acaba de anunciar oicial- tores PW800, da Pratt & Whitney
mente a suspensão do programa Canada, como fez a Dassault ao
Hemisphere. lançar o Falcon 6X [leia mais na
Pouco antes da feira, os voos AERO 286], já que o motor Silver-
experimentais conduzidos pela crest, segundo consta, tende a ser
Safran, utilizando um Gulfstream 2 cancelado – e, caso se mantenha,
modiicado, apontavam algumas não poderá cumprir, ao menos
falhas em regimes especíicos de no prazo estipulado, os requisitos
potência, atingindo particularmen- mínimos de projeto.
te voos em elevadas altitudes ou Para a Cessna manter o Hemis-
baixa velocidade, durante os quais phere, o maior desaio será integrar
um novo motor ao programa já vento em Colônia, Alemanha, do
em fase avançada de desenvol- programa Hemisphere, que de-
vimento, o que poderá atrasar veria ser seguido pelos trabalhos
em vários meses a certiicação e de arquitetura, dimensionamento
consequentemente, as entregas. estrutural e seu projeto. O Hemis-
Ironicamente, a Cessna abriu a phere é o primeiro programa Ci-
carteira de vendas para o Cita- tation a utilizar testes em túnel de
tion Hemisphere justamente na vento com número de Reynolds,
NBAA-BACE 2017, quando os com interesse especial na deter-
problemas com o Silvercrest se minação precisa do coeiciente de
revelaram críticos. sustentação na coniguração de
Com valor de tabela de US$ pouso e efeito solo.
35 milhões, a Textron ainda espera O Hemisphere oferece dife-
ingressar com sucesso no segmen- rentes opções para a cabine de três TT X FORA DO CATÁLOGO
to de cabine larga, o único jamais zonas, permitindo maior lexibi-
Com vendas fracas, Cessna encerra
disputado pela Cessna. No passa- lidade para a aeronave. Se vingar, a produção do seu mais veloz monomotor
do, o Citation Columbus também o novo avião terá alcance de 4.500
O ano de 2018 também marca a saída de cena de outra
tentou inserir a família Citation no nm e velocidade Mach 0.9, o
aeronave Cessna, o monomotor a pistão TTx , que acaba
mercado de cabine larga. Todavia, que o colocará em uma posição de ser retirado do portfólio. Com um total acumulado
o projeto lançado em 2008 foi intermediária, como modelo para de vendas de menos de 100 unidades desde a conversão
cancelado em julho de 2009. quem deseja uma aeronave com de Columbia 400 para a nova versão, em 2013, o avião
No inal de 2017, foram cabine larga, mas não necessita de monomotor a pistão se revelou pouco competitivo.
encerrados os testes no túnel de ultralongo alcance.

40 | MAGAZINE 2 8 8
Os melhores vinhos das melhores
importadoras em um clube único:
Mistral, World Wine, Winebrands, Qualimpor, Adega
Alentejana, Portus, Grand Cru,
Vinci entre outras.

Sempre vinhos pontuados por Robert Parker, ADEGA,


Wine Spectator ou Descorchados.

a c e s s e : w w w. c l u b e a d e g a . c o m . b r
E S PEC I A L

CHINA,
UM GIGANTE COM ASAS
Nova potência mundial promete mudar o equilíbrio de forças na
indústria aeroespacial nas próximas duas décadas
POR | EDMUNDO UBIRATAN E GIULIANO AGMONT

A
China assumiu uma nova década de 1980, as autoridades locais olhar internacional a possibilidade de
posição global ao colocar passaram a priorizar diversos seg- mudar sua história. Com os vultuosos
em serviço ativo, no início mentos considerados estratégicos. O investimentos vindos do exterior, o
de 2017, o caça de supe- avanço da indústria de alta tecnologia país iniciou um dos maiores proje-
rioridade aérea Chengdu J-20. O país eletrônica, sobretudo de semicondu- tos industriais já realizados e hoje
de cultura milenar ganhou relevância tores, ocorria em paralelo à expansão desponta com um player capaz de
internacional não apenas por deter do mercado de aviação civil. Em rivalizar com protagonistas dessa
o único avião de combate de quinta termos de escala de transporte aéreo, indústria, como Airbus, Boeing e
geração produzido, e em atividade, a China se manteve consecutivamente Lockheed Martin.
fora dos Estados Unidos, ou por ter como segundo maior mercado do A evolução da indústria aeronáu-
concebido a aeronave em menos de mundo nos últimos 12 anos, aproxi- tica chinesa demonstra o interesse
uma década, mas, especialmente, por mando-se dos Estados Unidos. que o país projeta para o setor aero-
consolidar sua ascensão tecnológi- Vista pelo Ocidente como um espacial. A China atualmente dispõe
ca com o desenvolvimento de uma enorme mercado de mão de obra de de uma complexa e bem estruturada
indústria aeronáutica de ponta em baixo custo atrelado a 1 bilhão de indústria e centros de pesquisa de
menos de 30 anos. potenciais consumidores, a Chi- ponta, o que poderá garantir seu
Com o rápido crescimento eco- na beneiciou-se dessa percepção ingresso, já na próxima década, no
nômico chinês a partir de meados da estrangeira. Pequim enxergou nesse seleto grupo dos gigantes do setor.
MAGAZINE 2 8 8 | 43
HISTÓRIA
Origem na era Mao

Com forte inluência política e Com o rápido crescimento


cultural, o líder chinês Mao Tsé- econômico, o governo chinês
-Tung fundou a República Popu- passou a criar centros de pes-
lar da China em 1949 e, apoiado quisa nacionais, investindo em
pela então União Soviética, deu tecnologia independente. Ainda
início a um embrionário, porém que muitos airmem que a maior
robusto, processo de industrializa- parte da base de conhecimento
ção, ainda baseado em tecnolo- advenha de estudos externos,
gias e processos provenientes da o fato é que a China criou uma
Rússia e seus aliados. O resultado rede industrial capaz de conce-
não tardou a aparecer e o país ber qualquer projeto, por mais
foi capaz de desenvolver armas audacioso que seja.
nucleares em 1964. Apenas dois No setor aeronáutico, os chi-
anos antes, Pequim havia obtido a neses criaram uma complexa e
licença para produzir o MiG-21, soisticada rede fabril, estrutu-
rebatizado Chengdu J-7. rada inicialmente em quase uma
Com a morte de seu ditador, centena de pequenas empresas
em 1976, a China inicia um am- estatais e institutos de pesquisa
plo programa reformista e promo- avançados. O primeiro fabri-
ve uma abertura econômica. Uma cante aeronáutico do país foi a
das bases da indústria chinesa na Xi’an Aircrat Industrial Corpo-
época foi a engenharia reversa, ration, conhecida internamente
aplicada tanto a modelos ociden- como XAC, criada em 1958.
tais como a aeronaves soviéticas. Com sede na alusiva cidade de
Mesmo sem ter gerado nenhuma Xian, no noroeste da China, a
inovação relevante, o processo XAC iniciou suas atividades
rendeu aprendizado industrial, produzindo o H-6, um bom-
garantindo aos engenheiros bardeiro estratégico baseado no
chineses acesso a tecnologias de Tupolev Tu-16.
produção e materiais. Em paralelo, surgia a Cheng-
Na década de 1980, com a du State Aircrat Factory No.132
aproximação entre Washington Aircrat Plant, instalada na
e Pequim, a McDonnell Douglas província de Chengdu, no oeste
enviou a produção de compo- da China. O centro nasceu da
nentes para a China. Ao mesmo necessidade de capacitar técni-
tempo, milhares de fabricantes cos e engenheiros chineses para
de eletrônicos, vestuário, energia, produção do J-5, a versão feita
entre outros, corriam para sob licença do MiG-17. Apenas
constituir unidades produtivas em 1990, o centro recebeu o
no território do gigante asiático status de indústria, sendo reba-
atrás de mão de obra barata e um tizado como Chengdu Aircrat
mercado consumidor interno Industry Group e se tornando
de um bilhão de pessoas quase responsável pela produção do
completamente inexplorado. J-20, o caça stealth chinês.

44 | MAGAZINE 2 8 8
Chengdu J-7
exportado para
o Paquistão

Shenyang J-5 XPC H6

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INDÚSTRIA
Uma complexa teia

ARJ21

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Com o modelo político e admi- quando icou claro que não ha-
nistrativo centralizado, a China via condições de estipular uma
desmembra sua base industrial data para a entrada em serviço
em diversos segmentos e no- regular – só que aconteceu em
menclaturas. Além disso, a cada 2016.
parceria estratégica formada com No ano seguinte, as
empresas ocidentais, o país cria autoridades decidiram reor-
uma estrutura completa dentro ganizar a base industrial de
de sua burocracia para atender aviação. Com isso, foi criada
especiicamente àquele projeto. a Comac (Commercial Aicrat
Desde o estabelecimento da Corporation of China) e a
chamada Comissão de Adminis- AVIC se tornou uma empresa
tração da Indústria da Aviação, única, cuidando de projetos
em 1º de abril de 1951, a indús- não comerciais. Com isso,
tria aeronáutica chinesa passou foi possível gerir melhor os
por 12 reformas sistêmicas. Uma projetos, cancelando pesquisas
das mais profundas ocorreu em redundantes. Ao modo chinês,
1999, quando foi estabelecida simpliicar foi, na prática,
a divisão da AVIC (Aviation passar tudo para a Comissão
Industry Corporation of China) de Supervisão e Administração
em duas. A chamada AVIC I se de Ativos Estatais do Conselho
tornou um consórcio que reunia de Estado, um órgão que reúne
as seis principais indústrias rela- absolutamente todos os ativos
cionadas a programas de aviação estatais e tem o controle geral
de combate, como bombardeiros, dos processos.
caças e aviões comerciais. Já a A Avic, por sua vez, tornou-
AVIC II icou responsável em -se um conglomerado que reunia
reunir as cinco indústrias focadas todos os fabricantes do setor
em aviação leve e helicópteros. aeronáutico, com quatro divisões
Todavia, as subsidiárias sob o (Comac, China Aviation Industry
guarda-chuva de cada uma das General Aircrat, Avicopter e
AVIC reuniam um sem-im de China National Aero-Technology
outras subsidiárias. Import & Export Corporation) e
O modelo burocrático sete subsidiárias (Harbin Aircrat
chinês começava a dar sinais Industry Group, Shenyang Air-
de limitação quando o ARJ21 crat Corporation, Xi’an Aircrat
Xiangfeng, o primeiro avião re- Industrial Corporation, Hongdu
gional chinês desenvolvido com Aviation Industry Group, Chan-
tecnologia local, inalmente ghe Aircrat Industries Corpora-
realizava seu voo inaugural. O tion, Chengdu Aircrat Industry
programa havia se revelado um Group, Guizhou Aircrat Indus-
pesadelo logístico, industrial, try Corporation). Essa reestrutu-
tecnológico e administrativo. A ração realizada em 2009 permitiu
primeira entrega deveria ocor- uma rápida expansão nos progra-
rer em meados de 2005, porém, mas chineses, representando um
o primeiro voo aconteceu salto nos segmentos de aviação
apenas em novembro de 2008, comercial, militar e geral.

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AVIAÇÃO
COMERCIAL
Na esteira de
Boeing e Airbus

O jato regional ARJ21 se originou


do acesso que a China teve a
projetos da McDonnell Douglas,
ainda na década de 1980. Na oca-
sião, a China havia obtido alguns
contratos para produção de par-
tes da fuselagem e da empenagem
do programa MD-80/90. Ainda
que fosse um subcontrato sem
grande complexidade industrial
ou de engenharia, permitiu aos
chineses aprender a produzir
itens aeronáuticos em série, com
padrão de qualidade e dentro de
regras de certiicação ocidentais.
Após o cancelamento do con-
trato, o ferramental passou a ser
empregado para a criação de um
programa de avião regional chi-
nês. Logo de princípio, porém, já
surgiu o primeiro problema, havia
apenas ferramental e capacitação
para produzir partes da fuselagem
e empenagem, faltavam asas e da fuselagem, o que levaria a um mainliner e totalmente projetado Comac 919
poderá ser o
motores. Assim, em meados dos reestudo do centro de gravidade e dentro de normas da FAA.
primeiro avião
anos 2000, a Avic I, que passou de pressão do avião. O programa C919 surgiu não comercial de
a responder pelo projeto, criou Se a engenharia já não fosse apenas como um ousado projeto sucesso chinês
a Commercial Aircrat Company um enorme problema, as ques- de engenharia, mas, também, de
(ACAC), uma subsidiária que tões burocráticas também não mercado. Diferente das nomen-
icaria a cargo de todo e qualquer se revelaram favoráveis. Com claturas e siglas das estatais chi-
projeto de aviação comercial. um modelo militarizado, todo nesas de então, que nada diziam,
Em paralelo, os engenheiros processo demandava uma série de a escolha do acrônimo Comac foi
chineses optaram por instalar no idas e vindas para ter apenas uma especialmente elaborada como
ARJ21 uma asa supercrítica, com resposta. E é nesse contexto que forma de reletir a origem do
enlechamento de 25°. Para isso, nasce a Comac. fabricante e, ainda, considerando
contrataram a ucraniana Antonov a ordem alfabética, colocar-se
Design Bureau. A COMAC E O C919 entre os principais rivais, Airbus e
Sem tecnologia para um A Commercial Aircrat Boeing. A nomenclatura do avião
motor civil capaz de ser certiica- Corporation of China nasce foi inspirada naquela adotada
do pelas autoridades dos Estados para desenvolver programas de pela Boeing na série comercial,
Unidos e da Europa, a ACAC aviação comercial com um capital conhecida como 7-7. Ao contrá-
optou por adotar o motor General declarado de US$ 2,7 bilhões e rio de programas anteriores, os
Electric CF34, o mesmo utilizado administrar um programa pro- chineses tiveram como primeira
nos Embraer E-Jet. Contudo, o blemático em desenvolvimento, o grande preocupação criar um
motor seria instalado na fusela- ARJ21. Imediatamente após sua poderoso marketing para o fabri-
gem, como na família MD-80, formalização, a Comac anunciou cante e o avião.
o que demandou um redesenho um avião comercial de corredor Em termos tecnológicos,
do avião, que deveria suportar único, para até 190 passageiros, a Comac não podia repetir os
um peso maior naquela seção que seria desenvolvido como um erros do ARJ21 – criando um

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“Frankenstein” – ao mesmo pela Alcoa, os freios têm a chance- visto como um modelo que deverá
tempo que deveria estabelecer um la da SKF, os pneus são Michelin atender apenas às demandas das
projeto sólido e viável dentro de e assim por diante. Ao todo, mais empresas chinesas. Contudo, vale
cronogramas internacionais, ainda de 50 fabricantes aeronáuticos são lembrar que a aviação comercial
que sem ambições de conquistar parceiros do programa. chinesa poderá representar um
o mercado global. O objetivo era Atualmente, o programa C919 terço do mercado global já na
(e continua sendo) conquistar ao já consumiu mais de US$ 9 bi- próxima década. Se a indústria
menos metade dos contratos com lhões. O primeiro voo ocorreu em local conseguir conquistar apenas
as empresas aéreas chinesas, além 2017, com o programa avançando metade desse mercado, terá ven-
de demonstrar ao mundo a capa- dentro do atual cronograma. Ain- dido mais de 5.000 novos aviões.
cidade tecnológica chinesa. da que com custos elevados, a in- Literalmente um negócio da China.
O C919 passou a ser desenvol- tenção é proporcionar a capacida-
vido dentro de normas ocidentais de da Comac em desenvolver um TURBO-HÉLICE REGIONAL
e contando com tecnologia de avião de classe mundial, utilizando Mesmo distante do potencial
prateleira. Ou seja, em vez de ten- parcerias com empresas de todo do C919, a Avic ainda pre-
tar desenvolver soluções próprias, o mundo. O modelo conta com tende explorar o mercado de
a China seguiu o modelo adotado mais de 770 intenções de compra e aviação regional turbo-hélice
pelos principais fabricantes do 169 pedidos irmes, praticamente da China e de países vizinhos,
mundo, utilizando sistemas já todos de empresas chinesas. A especialmente aqueles encra-
existentes. Com isso, os motores exceção é apenas um acordo com vados no Himalaia ou que
passaram a ser o Pratt & Whitney a GECAS, a empresa de leasing possuam cidades remotas con-
PW1000G e o CFM Leap-1C do grupo GE, para 10 unidades. sideradas estratégicas. No final
enquanto a aviônica é fornecida A previsão é que o C919 entre em de 2017, a estatal chinesa deu
pela Rockwell Collins, o sistema serviço regular em 2021. início à produção do MA700,
elétrico vem da Safran, o alumínio Analistas não acreditam no um turbo-hélice comercial
e partes de titânico são produzidos potencial internacional do C919, com capacidade entre 78 e 85

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MA700

A380 da
China Southern

ma década com 25% do mercado


global de aviação comercial. Se
conquistar apenas metade do
próprio mercado, as empresas
chinesas terão cumprido boa parte
dessa ambiciosa meta.

GIGANTES AÉREAS
passageiros, com performance O MA700 será equipado Do lado da operação, os números
China trabalha
similar à da família ATR 72. com os motores Pratt & Whitney chineses também são superlativos.
no projeto de
um turbo-hélice O modelo terá asa alta e peso 150C e hélices Dowty Propellers Quem teve a oportunidade de ver
comercial na máximo de decolagem de 27 R504, esta de propriedade da GE. as obras do aeroporto de Daxing,
categoria do toneladas, e carga paga de 8.600 kg. Até o fechamento desta edição, próximo a Pequim, pode ter uma
ATR e Dash 8 Um dos destaques do modelo é o MA700 possuia 185 pedidos ideia do que se transformou o
romper com os projetos anteriores irmes, sendo 50 de empresas mercado aéreo chinês nas últimas
da Xi’an, que eram basicamente fora da China (Nepal Air Ave- três décadas. Com oito pistas e ca-
reprojetos de modelos derivados da nues, Cambodia Bayon Airlines, pacidade inicial para 100 milhões
Antonov. O novo MA700, além de Bahrain EGA Group, Pakistan de passageiros ao ano, o aeroporto
ser produzido do zero (o chamado Hybrid Aviation e a sul-africana surge como um relexo do po-
clean sheet), segue as especiicações Segers Aero, sendo 10 pedidos tencial chinês. Embora as árabes
de mercado estabelecidas pelo para cada uma). tenham ganhado os holofotes do
governo chinês, de buscar soluções A expectativa do governo mundo, movimentando milhões
globais e não invenções próprias. chinês é chegar ao inal da próxi- de passageiros ao redor do globo

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Aeroporto de Daxing

Pequim deverá
contar com
maior aeroporto
viagens internacionais, justamente política fechada de preços, limi-
do mundo, com
pelo surgimento de uma nova e tando a competição em mercados capacidade para
populosa classe média. No último domésticos e mantendo o valor 100 milhões de
ano, mais de 130 milhões de do bilhete dentro de patamares passageiros
chineses viajaram para o exterior, considerados saudáveis. Um dos e oito pistas
ante 41 milhões em 2007. objetivos é que rotas lucrativas
Um estudo da IATA (Interna- possam subsidiar voos pouco
tional Air Transport Association) atrativos, especialmente rotas
aponta que o mercado chinês internacionais deicitárias.
através de seus hubs nos Emirados deverá ser, com folga, o maior do Com objetivo de levar a avia-
Árabes e no Qatar, o crescimento mundo até 2036, quando mo- ção de longo curso para cidades
entre 2010 e 2017 das três maiores vimentará pelo ar 1,5 bilhão de do interior da China, o governo
empresas aéreas da China faz passageiros por ano. A expecta- tem subsidiado a construção de
qualquer índice global parecer tiva é que já em 2022 a China se aeroportos em regiões afastadas
insigniicante. Em sete anos, o nú- consolide como o maior mercado dos grandes centros e custeado
mero de passageiros transportados mundial, ultrapassando os Estados parte do valor das passagens. Uma
por Air China, China Southern e Unidos, que, desde o inal da das estratégias é manter a tarifa
China Eastern cresceu surpreen- Segunda Guerra, mantiveram-se acessível para turistas estrangeiros
dentes 70%, atingindo a marca de na liderança com ampla margem. que queiram conhecer o interior
339 milhões ao ano. Com exceção Corroborando os dados a Iata, se- do país. Ironicamente, cidades
da Air China, as outras duas apre- gundo a Boeing, até 2035, a China remotas da China muitas vezes
sentaram crescimento inanceiro vai precisar de cerca de 111.000 possuem mais de um milhão de
no mesmo ritmo, com lucros novos pilotos, o que representa habitantes, mas ainda sem capa-
anuais recordes. 40% do mercado mundial, e cidade inanceira para que todos
O desempenho pode ser expli- 119.000 técnicos aeronáuticos. possam ingressar imediatamente
cado pelo sólido crescimento da Ainda segundo a Boeing, o país no transporte aéreo, especialmente
demanda por transporte aéreo na deve adquirir nos próximos 20 em viagens internacionais. A ex-
China, que atingiu a marca de 549 anos cerca de 7.000 aviões. pansão do mercado interno deverá
milhões de passageiros transpor- Apesar de pujante, o modelo criar uma demanda constante por
tados em 2017, ante pouco mais de desenvolvimento chinês segue novas aeronaves, um mercado que
de 184 milhões em 2007. Um dos na contramão do mundo. A a indústria aeronáutica chinesa
mercados em maior expansão é de agência reguladora mantém uma pretende se estabelecer.

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AVIAÇÃO
GE RAL
Materiais compostos
e motores elétricos

Criada dentro da reorganização de motores aeronáuticos a pistão


promovida pelo governo chinês dos Estados Unidos, e fornecedor
em 2009, a Caiga (China Aviation de Cirrus, Cessna, entre outros.
Industry General Aircrat) passou Além de adquirir o controle de
a investir no segmento de aviação grandes marcas, a Caiga produz
geral, um dos mercados consi- alguns modelos próprios, como
derados estratégicos pela China. o utilitário de asa alta Y-12, uma
Com potencial de crescimento evolução do Harbin Y-11, e o Shi-
constante nas próximas décadas, a jiazhuang Y-5B, a versão chinesa
aviação geral passa por uma pro- do Antonov An-2, e trabalha em
funda mudança, com a chegada de diversos outros conceitos de avia-
novos conceitos e projetos inova- ção leve. A Caiga ainda produz
dores. O potencial em torno tanto alguns modelos ocidentais sob
de aeronaves pessoais autônomas licença, voltados exclusivamente
como da propulsão elétrica é uma para o mercado chinês.
das apostas da Caiga, que, em par-
ceria com universidades chinesas, INVESTIMENTO PRIVADO
tem investido em pesquisas em Paralelamente às iniciativas esta-
ambas as áreas. tais, um dos grandes negócios dos
Um dos primeiros investimen- últimos anos na aviação geral foi
tos da Caiga foi a compra da Epic a aquisição da austríaca Diamond
Aircrat, que decretou falência Aircrat pelo grupo chinês Wan-
nos Estados Unidos em 2010. feng Aviation Industry. O acordo Também é controladora da maior
Mesmo se tratando de aeronaves ocorreu um ano após a divisão fábrica de alumínio da Ásia,
experimentais, os chineses tinham da Diamond, no Canadá, ter sido rivalizando em produção com a
interesse em acessar os projetos de incorporada pelo grupo. Com a gigante Alcoa. Foi com a Zhejiang
construção em materiais avança- aquisição do controle acionário, Wanfeng Aluminium Wheel
dos, sobretudo ibra de carbono e a Wanfeng assumiu o controle que o conglomerado surgiu, em
polímeros plásticos, assim como integral da Diamond Austria e 1994. Apenas cinco anos depois,
em aerodinâmica. A empresa da Austro Engine, e passará a já havia estabelecido a Zhejiang
acabou posteriormente negociada ser responsável pela produção, Wanfeng Science and Technology
com a russa Engineering LCC, vendas e suporte dos modelos Development, focada na pesquisa
dois anos depois. Embora tenha Diamond. Além disso, todos os e desenvolvimento de tecnolo-
mantido as instalações da Epic novos investimentos e desenvol- gias diversas. Ao entrar nos anos
no Oregon, Estados Unidos, a vimentos estarão sob controle 2000, a Wanfeng expandiu suas
Caiga passou a produzir na China do grupo chinês, liderado pelo áreas de atuação, passando a atuar
o Leadair AG300, uma versão investidor Bin Chen, presidente especialmente no setor automoti-
aperfeiçoada do Epic LT. da Wanfeng. vo, mercado no qual ainda possui
Em 2011, a Caiga adquiriu A Wanfeng Auto Holdings uma série de modelos próprios,
o controle da Cirrus Aircrat e, Group é uma empresa global com especialmente na linha de SUV.
assim como ocorreu com a Epic, mais de 60 subsidiárias em todo Ao adquirir a Diamond
os chineses mantiveram toda a o mundo, sendo um dos maiores Aircrat, que atualmente detém
produção nos Estados Unidos, conglomerados privados da Chi- a maior parte das vendas de
inclusive do novo monojato da na, com forte presença no setor aeronaves bimotoras a pistão do
marca, o Vision SF50. Curiosa- automobilístico, sendo respon- mundo, a Wanfeng airmou que
mente, meses antes da compra, a sável pela produção de compo- continuará a desenvolver novas
Avic havia adquirido a totalidade nentes para veículos de grandes tecnologias e modelos de aero-
do controle da Continental Mo- marcas, como Chevrolet, Fiat, naves, incluindo o turbo-hélice
tors, um dos principais fabricantes Peugeot-Citroen, Ford e Hyundai. acrobático de treinamento Dart

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Diamond DA62

Empresas
chinesas têm
adquirido diversos
fabricantes ao
redor do mundo,
como a Cirrus e
Diamond

Leadair AG300 Cirrus SF50

Y12F

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Entre os projetos
mais importantes esta
a aviação elétrica e
desenvolvimento local
de helicópteros

e o DA50, além dos consagra- tos de treinamento para escolas


dos DA42 e DA62. A Wanfeng de aviação ao redor do mundo.
pretende continuar investindo O único entrave para os modelos
no centro de pesquisa e desen- elétricos, incluindo o RX1E-A, é a
volvimento global da Diamond, autonomia de apenas 1 hora, ante
localizado em Wiener Neustadt, um tempo de recarga completa de
na Áustria, ampliando o leque até 2 horas. Um dos destaques do
de atividades, que pode incluir a modelo chinês é a possibilidade
produção de aeronaves em todo o de suas duas baterias, instaladas
mundo através do licenciamento uma em cada lado da fuselagem,
de tecnologias avançadas. serem retiradas facilmente em
A aquisição da Diamond dez minutos. Permitindo ao
segue a tendência de empresas operador, assim, manter a frota
chinesas adquirirem o controle de voando, bastando trocar as bate-
fabricantes de sucesso da avia- rias a cada voo.
ção geral, especialmente os que
permitem acessar rapidamente HELICÓPTEROS
tecnologias avançadas, como uso A Haig (Harbin Aircrat Industry
de materiais compostos. Group) foi fundada em 1952,
com a intenção de ser uma fabri-
AVIAÇÃO ELÉTRICA cante de aeronaves leves, mas, até
A China ainda investe maciça- 1958, atuou apenas como uma
mente em tecnologias elétricas, oicina local para diversos tipos Shijiazhuang Y-5 B
inclusive com a meta de ser de máquinas que operavam na
o maior fornecedor global de China. Apenas após a formali-
soluções de energia renovável zação de acordos com a União cauda, incluindo o rotor Fenes- Harbin SH-5
na próxima década, em espe- Soviética começou a produzir ae- tron. Basicamente toda a seção
cial painéis solares e baterias de ronaves sob licença. Os primeiros dianteira foi reprojetada, seguindo
elevada capacidade de armaze- modelos foram os helicópteros conceitos clássicos de um helicóp-
namento. Um ótimo exemplo Harbin Z-5, derivado do Mil Mi- tero de ataque médio. O mérito
é a Liaoning General Aviation 4, e o CHDRI Z-6, uma versão a chinês foi desenvolver soluções
Academy (LGAA), que realizou turbina do Z-5, que teve apenas próprias para atender às neces-
recentemente o primeiro voo 11 unidades produzidas. sidades do programa, incluindo
do RX1E-A, um avião elétrico Com a abertura comercial sistema de armas e aviônica. A
desenvolvido dentro das normas da China, a Harbin formali- Harbin ainda produz sob licença
LSA (Light Sport Aircrat). O pe- zou em 1981 um acordo com a da Airbus Helicopters o H175 e o
queno avião será similar ao Alpha Aérospatiale para produção do EC120 Colibri.
Electro, da Pipistrel, que também AS365 Dauphin, designado Z-9. Mesmo sendo dedicada à
será produzido na China. A dife- Produzido sob licença como uma produção de asas rotativas desde
rença é que o projeto do RX1E-A aeronave multipropósito média, 2009, a empresa produziu o Har-
foi completamente desenvolvi- logo o modelo ganhou uma versão bin SH-5, um avião de patrulha
do na China, com propriedade de ataque, destinada ao exército e ataque marítimo derivado do
intelectual local e que está sendo chinês. Porém, em 2011, a Harbin projeto básico do Beriev Be-6. Em
patenteada, garante a LGAA. apresentou o Z-19, um helicóp- 2003, a Embraer e a Harbin for-
A aeronave de dois lugares tero de ataque e reconhecimento malizaram uma joint venture para
deverá ter um custo operacional oicialmente divulgado como produção do ERJ-145 e, posterior-
de apenas US$ 2,64 por hora para genuinamente chinês. O modelo mente, do Legacy 650 na China.
recarga (na China), o que poderá conta com diversos componentes O acordo foi encerrado em 2016,
reduzir signiicativamente os cus- do Dauphin, como a seção de com a entrega do último Legacy.

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Z-9 RX1E

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AVIAÇÃO
MILITAR
Caça com tecnologia
de construção furtiva

J-20A

O J-20 foi Após a reestruturação de tuto para os MiG-21. O programa nâmica foi baseada nas soluções
o primeiro 2008, a Avic passou a controlar Chengdu J-9 exigia dos engenhei- desenvolvidas pela israelense IAI
avião stealth todo o complexo industrial aero- ros e da indústria local muito mais Lavi. Com fatos jamais conir-
operacional fora náutico chinês. As unidades civis do que podiam oferecer, levando mados ou admitidos pela China,
dos Estados
Unidos acabaram ganhando alguma auto- ao cancelamento do projeto em o J-10 pode ser deinido como o
nomia, atuando em três divisões, 1980. Para solucionar as deiciên- primeiro grande programa com
Comac, Caiga e Harbin, enquanto cias que levaram ao cancelamento tecnologia chinesa.
a militar, mesmo subdividida do projeto, os chineses criaram Outro programa contro-
em diversas empresas, está sob o centros de pesquisas em diversos verso é o J-11, o caça pesado
controle direto da Avic. pontos do país. Desse modo, em multimissão chinês. Criado pela
Até meados da década de 1998, inalmente, voou o Chengdu Shenyang Aircrat Corporation,
1990, a imensa maioria dos aviões J-10, um genuíno projeto chinês. externamente, ele é idêntico ao
militares chineses era derivada de O caça multimissão em delta Sukhoi Su-27. A Shenyang, aliás,
modelos soviéticos, muitos dos com canard era uma revolução havia sido autorizada a produzir
quais recebiam melhorias mesmo em relação a qualquer programa sob licença o modelo na China.
sem obter as devidas licenças. anterior. Além de soluções ae- Contudo, as autoridades chinesas
Com o crescimento da econo- rodinâmicas próprias, o modelo asseguram que o J-11 é um projeto
mia chinesa, Pequim autorizou recebeu controle ly-by-wire to- chinês, inclusive contando com
o desenvolvimento de algumas talmente desenvolvido na China. soluções desenvolvidas local-
soluções locais, embora a maior Algumas fontes das agências de mente. Se o J-11 causou polêmica
parte contasse com sistemas e inteligência ocidentais airmam ao ser descrito como uma cópia
motores russos. que a tecnologia foi absorvida do Su-27, em 2012, a agência de
Nos anos 1970, a Chengdu por espiões chineses nos Estados notícias estatal chinesa Xinhua
Aircrat Corporation (CAC) tra- Unidos e na Europa. Muitos air- airmou que as autoridades da
balhou no projeto de um substi- mam até que mesmo a aerodi- China consideravam infundadas e

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J-11

ácidas as airmações de que o J-15 materiais utilizados e sua distri- Fighting Falcon, F-14 Tomcat Muitos
era exatamente o Su-33, a versão buição, métodos de construção, e F-15 Strike Eagle. Ou seja, projetos foram
desenvolvidos a
embarcada do Su-27. Na ocasião, tipo de tinta, entre tantos outros parece claro que os chineses partir de aviões
a Xinhua noticiou que o protótipo detalhes. tiveram acesso ilimitado a russos
lembrava o modelo russo por estar Com dados em mãos, passa- dados de motores militares
sem a pintura inal, e que, por ram a trabalhar em um programa norte-americanos. Nesse con-
séculos, o Ocidente copiou tecno- realmente próprio. Ao ser lagra- texto, a CIA acusava a China
logias chineses sem dar os devidos do pela primeira vez em 2010, de ter invadido os computado-
créditos a seus inventores, como, poucos acreditavam se tratar de res da Lockheed-Martin que
por exemplo, a pólvora. Air- um avião real. Mesmo agências dispunham de dados do F-35.
mando ainda que entendia que de inteligências não conirma- Na ocasião, o fabricante norte-
a história da humanidade é um vam a veracidade das fotos ou o -americano e as autoridades
processo de aprendizagem mútua, estado de evolução do programa. de Washington alegaram que
emprestando ideias e desenvol- O primeiro voo, no ano seguinte, os dados eram irrelevantes
vendo tecnologias próprias, que comprovou não apenas se tratar e de conhecimento público.
incorporam outras vantagens. de um avião real, mas, sobretudo, Seja como for, a China obteve
Mas, se o J-11 e o J-15 podem da enorme capacidade da China sucesso em tecnologias sensí-
ser descritos como versões “made em desenvolver uma tecnologia veis e que, mesmo os russos,
in China” dos Su-27/33, é ine- sensível em absoluto segredo. com um século de experiência
gável a originalidade do J-20. O Enquanto o mundo observava o aeronáutica, assim como os
primeiro avião stealth operacional então PAK-FA russo, e os proble- europeus, ainda patinavam.
fora dos Estados Unidos começou mas do F-35, a China desenvolvia
seu desenvolvimento na década inclusive o motor WS-15. AVIÃO ANFÍBIO
de 1990. A China se aproveitou Não por coincidência, Embora distante do potencial
da queda de um F-117 Nightha- o motor emprega diversas militar ou de mercado global,
wk para ter acesso à complexa soluções desenvolvidas para a China realizou o roll-out do
tecnologia de construção furtiva. o CFM56, o motor do Boeing AG600, o maior avião anfíbio do
Adquirindo partes do avião der- 737, o General Electric F101, mundo. Com dimensões próxi-
rubado, os chineses conseguiram utilizado pelo B-1B Lancer, mas às do Boeing 737, o modelo
obter importantes dados sobre e o F110 que equipa os F-16 será empregado especialmente

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Rússia acusou
China de copiar
o Su-33 para
desenvolver o J-15

em missões de patrulha marítima acordo com a Antonov Airli-


e eventualmente em combate nes para inalizar o segundo
a incêndios lorestais. Mesmo exemplar, que será destinado ao
sem potencial de mercado, o lançamento de satélites. O projeto
AG600 é simbólico ao ampliar a deverá ser revisto, apenas usando
capacidade de patrulha marítima a enorme fuselagem já existente.
chinesa, que vem expandindo O modelo será inalizado pela
suas ambições no mar da China, Avic, que fará um reprojeto do
inclusive construindo diversas An-225 e o equipará com apenas
AVIC AG-600
ilhas artiiciais na região. O uso quatro motores, assim como
do AG600 torna possível acessar novos sistemas elétricos deverão
pequenos arquipélagos e recifes substituir os complexos e pesados
em águas territoriais ou sob dis- conjuntos hidráulicos originais,
puta internacional. e um cockpit redesenhado. Uma
Na mesma linha, um dos curiosidade será voltar a utilizar o
passos mais exóticos da indústria conceito de transporte sobre a fu-
aeronáutica chinesa foi o contrato selagem, no qual serão ancorados
para inalização do segundo os satélites para serem lançados
Antonov 225. O modelo que em voo. Cabe aqui uma menção
teve grande parte da estrutura ao programa espacial chinês, o
principal construída nos anos terceiro a colocar um homem no
1980, icou incompleto após o espaço, em 2003. Para o futuro, a
colapso da União Soviética e o China pretende enviar uma mis-
im do programa espacial Buran. são tripulada para a Lua e uma
An225
Em 2017, a China assinou um não tripulada para Marte.

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INVESTIDORES
Participação acionária
mundo afora
Paralelamente ao desenvolvi-
mento industrial propriamente
dito, algumas empresas privadas
chinesas, com ambições globais,
iniciaram nos últimos cinco anos
um ambicioso projeto de expan-
são internacional. Apoiados por
empréstimos de bancos estatais
chineses com juros extremamente
baixos e regras de alavancagem
pouco transparentes, conglome-
rados como HNA Group, Fosun,
Dalian Wanda Group e Anbang
Insurance compraram US$ 221
bilhões em ativos no mundo todo
apenas em 2016.
Somente o HNA realizou
importantes investimentos no
Brasil, como a compra da parte
da Odebrecht no aeroporto do
Galeão e parte das ações da Azul
Linhas Aéreas, ao mesmo tempo
que adquiria ações de empresas
diversas, como o Deutsche Bank,
os hotéis Hilton e a rede de fre-
eshops Dufry. passou os US$ 40 bilhões em dois Em abril, a Hainan Airlines, que
Por meio da Hainan Airlines, o anos, foi baseada em concessões de é o braço do grupo que detém
Investidores
HNA adquiriu 23,7% das ações da empréstimos com bancos chineses, parte da Azul, anunciou a venda chineses
Azul em 2015, e se tornou o maior ou seja, ampliou a dívida do grupo. de 4,3% da empresa brasileira assumiram a
acionista individual da linha aérea Com centenas de débitos vencendo para a United Airlines. Atual- concessionária
brasileira, podendo indicar até ao mesmo tempo, o Grupo HNA mente, o HNA ainda possui Rio-Galeão
mesmo um membro ao conselho passou a enfrentar diiculdade 17,95% da Azul, mas analistas
de administração. O aporte ocor- de liquidez. Embora o grupo acreditam que os chineses
reu na sequência de uma série de chinês não informe dados de sua podem fazer uma nova venda de
investimentos maciços em aviação situação inanceira, um artigo do ações, inclusive no mercado.
por parte do conglomerado, que já jornal Financial Times revelou O temor do mercado é que o
havia adquirido ações ou controle que apenas em 2018 o HNA já endividamento exagerado possa
total de empresas aéreas como realizou a venda de quase US$ 14 comprometer as ambições da
Hainan Airlines, Tianjin Airli- bilhões em ativos. Os custos com HNA e de empresas chinesas, que
nes, Deer Jet, Lucky Air, Capital empréstimos, segundo o jornal, podem encontrar serias restrições
Airlines, West Air, Fuzhou Airlines, aumentaram de US$ 2 bilhões no para novas aquisições no exterior.
Urumqi Air, Yangtze River Express, primeiro semestre de 2017 para É aguardar para ver.
MyCargo, Africa World Airlines US$ 5 bilhões ao longo do ano. Em
e Aigle Azur. No mesmo período, dezembro, o conglomerado chinês Fontes da reportagem: Aviation
a empresa adquiriu a Swissport, tomou três empréstimos seguidos, Industry Corporation of China,
maior provedor de serviços de solo um deles de aproximadamente Embaixada da República Popular da
do mundo, por aproximadamente US$ 500 milhões, garantidos pelo China no Brasil, State-Owned Assets
US$ 2,72 bilhões. Hilton, grupo do qual detém 25%. Supervision and Administration
Por outro lado, a alavancagem As dívidas totais em 2018 Commission of China, Cirrus, GE
em ritmo acelerado, que ultra- ultrapassavam os US$ 100 bilhões. Aviation e Engineering LLC

MAGAZINE 2 8 8 | 59
S U N ‘ N F U N 2018

NOVA
ONDA
Marcado pela descontração, o evento apresentou
tendências como carros voadores e giroplanos,
além dos sempre hipnotizantes shows aéreos
PO R | PHILIP YANCOVITZ, DE LAKELAND

A
nualmente, a pequena em Lakeland, o visitante pode O ACE atende a uma série de
cidade de Lakeland, na conhecer com mais calma os propósitos educativos e tecno-
Flórida, recebe um dos lançamentos dos principais fabri- lógicos, incluindo cursos de
mais descontraídos en- cantes, sobretudo da aviação leve, aprendizado de ciência, tecno-
contros aeronáuticos dos homologada e experimental. Não logia, engenharia e matemática.
Estados Unidos, o Sun por acaso empresas como a brasi- Além disso, oferece o Destination
‘n Fun. O nome traduz leira SeaMax apostam alto em Sun Aviation Summer Camp, que dá
com exatidão o clima do evento, ‘n Fun, onde encontram a maior aos participantes a oportunidade
com muito sol e diversão. Para parte de seu público alvo. de aprender sobre os princípios
muitos, especialmente brasileiros, do voo, incluindo aerodinâmica,
a feira Sun ‘n Fun é uma versão EDUCAÇÃO AEROESPACIAL funcionamento de uma aeronave,
compacta da gigantesca EAA Air O que poucos visitantes notam é familiarização com os instru-
Venture, que ocorre em Oshkosh. que o Lakeland-Linder Regional mentos de cockpit e pilotagem
O encontro na Flórida, porém, Airport abriga muito mais que em simulador – tudo dentro
reúne algumas características par- o evento aeronáutico em si. É da tradição de acampamento
ticulares, como o maior foco nos que ali está a sede do campus do norte-americana. Ao longo do
negócios da aviação geral leve. Aerospace Center for Excellence ano, o local ainda oferece oicinas
Diferente de Oshkosh, que (ACE) com 14 prédios e uma a educadores e professores,
reúne centenas de expositores, sala de aula em um Boeing 727. ministrado por técnicos do setor
Os principais nomes da aviação nos
EUA se apresentam anualmente,
são aeronaves modernas e clássicas.
Nesta edição, destaque também para
o carro voador conceito e
os girocópteros

Switchblade, o conceito de carro


voador, que promete revolucio-
nar o segmento apresentando
soluções únicas e inovadoras. O
fabricante airma que o Switch-
blade possui a mesma relação
peso-potência do Corvette 2017,
o que o torna bastante promis-
sor na aviação. Atualmente, o
modelo possui 615 reservas,
feitas por clientes de 15 países.
O preço do modelo é de apenas
US$ 140.000 na versão VFR. A
intenção do fabricante é oferecer
um veículo de dois lugares que
permita maior lexibilidade para
quem busca uma aeronave de
baixo custo e capaz de operar em
locais remotos. Da mesma forma,
atender a entusiastas do voo, que
queiram reunir tanto a praticida-
de de poder guardar o avião em
aeroespacial e pilotos, ajudando Stephen Del Bagno, o hunder- casa como a possibilidade de voar
a divulgar o universo da aviação bird #4. O aviador faleceu quan- visual aos inais de semana.
para formação de futuros prois- do seu F-16 Fighting Falcon caiu O desaio para todos fabri-
sionais da indústria aeronáutica. durante um voo de treinamento cantes do conceito de lying car é
Um ponto importante é a de rotina em Nevada. solucionar o problema aerodinâ-
valorização de heróis nacionais. Em se tratando de shows aéreos, mico, que faz com que o projeto
Todos os cursos se inspiram em os norte-americanos ostentam uma do carro atrapalhe o desempenho
nomes como Orville e Wilbur lista invejável de opções, que fazem do avião e vice-versa. Ao resolver
Wright, Charles Lindbergh, dos encontros aeronáuticos um a questão de peso-potência, a Sa-
Emelia Earheart, Neil Ar- espetáculo à parte. Em Sun ‘n Fun, mson Sky dá um importante passo
mstrong, para citar os mais várias equipes rabiscaram o céu. para tentar equalizar tal impasse.
proeminentes. Ao demonstrar Além do Aeroshell Aerobatic Team,
os feitos de grandes nomes com seus T-6 Texan, que realiza A ONDA DOS GIROPLANOS
norte-americanos, os educa- um dos mais belos shows aéreos A alemã Rotorvox Aero exibiu
dores tentam despertar nos do mundo, especialmente em suas pela primeira vez nos Estados
jovens o fascínio pelo assunto apresentações noturnas, também Unidos o Rotorvox C2A, um
e estimulá-los a ir além desses brindaram o público com passagens monociclo giroplano todo em
pioneiros. Sem dúvidas, uma baixas os Aerostars e os incríveis carbono. O modelo se destaca
boa referência para o Brasil. Julie Clark, Kirby Chambliss, Kevin entre os experimentais por ser
Coleman, Michael Goulian, Lee comercializado como um kit de
SHOWS AÉREOS Lauderback, Kyle Franklin, Matt construção amadora (amateur
Embora estivesse programada a Younkin, Paradigm Team, entre build). O pequeno aparelho é
participação dos hunderbirds, outros. Difícil escolher a melhor impulsionado pelo motor Rotax
a apresentação do esquadrão da apresentação. 914 Turbocharged, possui sistema
demonstração da força aérea dos de absorção de choque de elas-
Estados Unidos foi cancelada CARROS VOADORES tômero e conta com um sistema
dias antes do evento. O motivo A Samson Sky apresentou em um de pré-rotação hidráulico livre de
foi o acidente fatal com o major dos fóruns de Sun ‘n Fun o seu manutenção. A cabine é espaçosa

62 | MAGAZINE 2 8 8
para o porte da aeronave enquan- lhorias em projetos já existentes.
to seus assentos lado a lado com Na exposição estática, quase todos
controles foram posicionados presentes já estão disponíveis para
ergonomicamente. venda no mercado. A exceção foi a
Quem também apresentou um Cessna, que timidamente mostrou
giroplano foi a também alemã Auto- a interessados o 408 SkyCourier.
Gyro. A empresa desenvolve, produz O novo turbo-hélice bimotor foi
e vende vários modelos de giroplanos projetado para atender aos operado-
e mantém parceiros de serviços em res do Cessna Caravan que neces-
mais de 40 países. Em Sun ‘n Fun, a sitam de uma aeronave com maior
empresa apresentou o MTOsport, capacidade, mas que tenha custos
que recebeu o prêmio “Red Dot: Best e performance similar ao irmão
of the Best”, competindo com quase menor. Um dos destaques é a versão
60 fabricantes de todo o mundo. O cargueira, que pode acomodar os
modelo conta com cabine aberta e containers LD3, os mesmos utiliza-
assentos em tandem, fuselagem mo- dos em aviões de maior porte. Além
nocoque feita de aço cromo-carbono disso, foi instalada uma ampla porta
e pode incorporar o motor Rotax de carga lateral, na parte traseira, e
912 ULS, ou o 914 UL turbocharged, piso que permite a movimentação
acoplado à hélice de carbono. de cargas de maior volume. Por
ora, a Cessna ainda não vende a
POUCOS LANÇAMENTOS versão de passageiros, que depende
Embora Sun n Fun tenha maior de algum pedido que justiique seu
vocação entre a aviação geral leve, desenvolvimento. O SkyCourier terá
poucos lançamentos marcaram capacidade e performance similares
presença em Lakeland. A maior a aviões asa alta como o Twin Otter
parte das novidades era de me- e o Let 410.
E N T R E V I S TA

A AVIAÇÃO
TEM FUTURO
O presidente da EAA, organizadora da AirVenture, em Oshkosh,
maior encontro ae onáutico do mundo, demonstra otimismo
em relação ao uso de aviões e também aos jovens talentos
POR | EDMUNDO UBIRATAN

Jack J. Pelton é o atual Chairman como o A380 e o C-5 Galaxy, que para obter informações no
e CEO da Experimental Aircrat dividem espaço com clássicos cockpit, em particular dados
Association, mais conhecida como P-51 Mustang, B-17 Flying meteorológicos, de uma forma
como EAA, que congrega pelo Fortress e B-29 Superfortress. que não era possível antes.
menos 200.000 associados Nesta entrevista, Jack Pelton fala Esse tipo de tecnologia é muito
nos Estados Unidos. Trata-se sobre o futuro da aviação leve comum à aviação geral de hoje.
da maior e principal entidade e os LSA e as perspectivas de
dedicada à aviação experimental jovens talentos nessa indústria. Qual a sua opinião sobre o
no mundo. Pelton possui ampla surgimento da categoria LSA?
experiência na aviação. Traba- Qual o tamanho da Temos hoje mais de 100 fabri-
lhou por mais de duas décadas frota de aviação experimental cantes de aeronaves LSA [nos
na McDonnell Douglas, antes norte-americana? Estados Unidos]. É um número
de ingressar no grupo Textron, A frota experimental, de cons- bastante signiicativo. Muitos
onde chegou a assumir o cargo trução amadora, é de aproxima- foram criados após as regras LSA
de CEO da Cessna. Em março damente 30.000 aeronaves nos entrarem em vigor, em 2004. Es-
de 2008, a então governadora EUA. Mas existem milhares de sas empresas estão atraindo tanto
do Kansas, Kathleen Sebelius, aeronaves da categoria experi- gente que já é da aviação como,
nomeou Pelton para o Grupo mental em outras subcategorias, também, servindo de porta de
Consultivo de Políticas Energé- como exposição, pesquisa e de- entrada para começar a voar.
ticas e Ambientais do Kansas. senvolvimento, teste de mercado
Pelton se aposentou em 2011 e, e assim por diante. O que mudou, no mercado
no ano seguinte, foi nomeado americano, desde a
como Chariman da EAA. Um de Como aviação geral evoluiu nas criação da LSA?
seus desaios à frente da entidade últimas décadas? Tem sido um mercado em
é manter o desenvolvimento da Uma das maiores evoluções constante evolução. Um
aviação experimental, auxiliar nos últimos 10 anos foi a exemplo é o Vashon [Ranger
as autoridades na criação de capacidade de obter novos 7], um asa alta que destacamos
normas mais adequadas ao setor equipamentos de segurança em nossa publicação no início
e ampliar o interesse do público na operação de aeronaves deste ano. Toda essa evolução
pela aviação. Anualmente, a certiicadas, dentro da Part 23. ajudou a mudar a percepção
EAA promove o Air Venture, em Isso traz enormes economias de que aeronaves esportivas
Oshkosh, que é o maior encontro para os proprietários, além de leves são inseguras. Os dados
da aviação no mundo. A feira inovações tecnológicas. provaram o contrário, que não
reúne mais de 10.000 aeronaves, existe mais uma preocupação
de pequenos aviões projetados Por exemplo... real sobre a segurança geral
por seus proprietários a gigantes A capacidade de usar tablets dos LSA.
aproxima do auge nas décadas uma facilidade de emprego e
de 1980 e 1990. Uma razão pela alta coniabilidade. Essa tecno-
qual não há tanta atividade logia está se movendo em um
é algo que a EAA está traba- ritmo muito rápido.
lhando para mudar. Devemos
tornar ultraleves um ponto Fabricantes como a Icon
de entrada viável para quem apostam na produção em massa
deseja começar a voar. para atender a uma grande
demanda de aviões. Existe
Como assim? mesmo essa demanda de massa?
Nos Estados Unidos existe uma Até agora, a não ser imediata-
regra que limita o número de mente após a Segunda Guerra
pessoas elegíveis para fornecer Mundial, nunca houve uma
instrução inicial em ultraleves. demanda por um mercado de
A FAA permite apenas um aeronaves pessoais em massa.
certo número dessas pessoas Muitas coisas terão de mudar
em qualquer região. Isso res- para que um avião seja uma
tringe o número de pessoas que compra comum, como ocorre
podem entrar na comunidade com um novo carro, barco ou
ultraleve, mesmo que elas quei- computador. Muito disso tem a
ram. A EAA está trabalhando ver com a economia mundial e
numa solução para isso. mercados especíicos. A aviação
A segurança pode sempre cresceu nos bons mo-
permitir ampliar a definição A aviação pessoal crescerá mentos econômicos. O fundador
de LSA no futuro? nas próximas duas décadas? da EAA, Paul Poberezny, quando
Sim. Esses dados positivos nos Espero que sim! Na verdade, perguntado se poderíamos
permitem ser otimistas para po- acredito que a quantidade de revitalizar a aviação geral, disse
dermos expandir a deinição de inovação que estamos assistindo que mesmo nas décadas de 1950
aeronaves esportivas no futuro. na aviação provocará um surto e 1960 a aviação nunca atingiu
de crescimento. Toda semana todo o seu potencial. Por isso não
Quantos LSA estão voando ouvimos falar de um novo sabemos a que ponto estamos
nos EUA atualmente? conceito de carro voador. Há tentando chegar. Essa linha de
De acordo com os números da uma melhor automação que chegada ainda está por aí.
Gama (General Aviation Ma- facilita a operação de um UAS
nufacturers Association), temos (unmanned aircrat system), são Quais são as expectativas
aproximadamente 9.000 aviões ideias que serão levadas ao voo para o AirVenture 2018?
leves esportivos no país. Esse to- tripulado. É uma grande área de Nós temos uma expectativa de
tal, é claro, não inclui os milhares crescimento para todos. não chover. Estou brincando,
de aeronaves certiicadas, como claro. Na verdade, nossas expec-
os Piper Cubs, que podem ser Um dia compraremos e tativas continuam sendo seguir
voadas por pilotos esportivos. voaremos aviões com a o caminho da última década.
mesma facilidade com Oferecermos muitas coisas dife-
Os ultraleves são que temos carros? rentes para ver e fazer para toda a
mais seguros hoje? Se você olhar para as inovações família. Um show aéreo divertido
A comunidade ultraleve ama- que estão ocorrendo, no mun- e uma multidão. O AirVenture
dureceu nos últimos 35 anos. do todo, parece que o objetivo continua sendo o lugar onde você
Sim, eles estão mais seguros comum é criar um caminho pode ver uma coleção de aviões
hoje, mas, ao mesmo tempo, para facilitar o acesso ao voo. O e pessoas, que não se vê em lugar
a atividade ultraleve não se elevado uso da automação cria algum do mundo.

66 | MAGAZINE 2 8 8
Devemos tornar ultrale-
ves um ponto de entrada
Quais foram os mais de 2 milhões de crianças viável para quem deseja
principais momentos da
Air Venture em sua opinião?
que voaram em nosso programa
Young Eagles, assim como tudo
começar a voar
Foram muitos. A visão original que fazemos para a educação
do Paul Poberezny era reunir da aviação. São mais de 20.000
aqueles que gostam de voar, jovens a cada ano visitando o
independentemente do tipo de KidVenture durante a AirVentu-
voo que gostem. A mudança re. Lá eles aprendem sobre todas
para Oshkosh, em 1970, foi um as facetas da aviação e até mesmo
grande ponto de virada. Pois o voo espacial. A AirVenture
forneceu a localização para sempre foi um evento familiar, na aviação. Aqui na EAA, tivemos
nosso crescimento ao longo sendo o relexo do que a EAA grande sucesso em formar novos
do último meio século. Mas os faz durante todo o ano. É muito pilotos entre nossos funcionários,
melhores momentos de nossa gratiicante ver todos os anos um muitos dos quais nunca tiveram
história devem incluir a chegada número cada vez maior de jovens interesse na aviação antes. Acredi-
do Concorde, em 1985. Foi a e famílias chegando a Oshkosh tamos que isso pode acontecer em
primeira vez que o Concorde para desfrutar do AirVenture e toda a indústria aeronáutica.
aterrissou em um lugar dos Esta- descobrir a aviação conosco.
dos Unidos que não fosse algum Por que participar
dos grandes aeroportos. Quando Esse é um assunto pertinente da Air Venture?
o White Knight e o Space Ship porque hoje as crianças De Paul Poberezny a Tom Pobe-
One chegaram aqui, em 2005, preferem eletrônicos, e o rezny até hoje, a AirVenture foi
foi outra grande conquista. mercado de trabalho é mais estabelecida como um evento único
Tivemos também a chegada do vantajoso em setores como a de aviação. Os Estados Unidos
Airbus A380 em 2009. tecnologia da informação e o precisam de uma vitrine para sua
financeiro. Como recuperar comunidade aeronáutica para o
Cite coisas que só o interesse dos jovens pela mundo. Isso é tremendamente im-
acontecem em Oshkosh... aviação? Não apenas como portante. Eu fui muitas vezes para
É por causa do famoso “apenas transporte, mas como lazer o Paris Air Show e Farnborough,
em Oshkosh” que o AirVenture ou profissão... que são eventos impressionantes, no
alcançou o renomado status Sim. As novas tecnologias de entanto, há algo sobre Oshkosh que
que tem agora. Mesmo o ano automação [na aviação] estão é diferente de qualquer um desses
passado foi notável, quando você criando uma alta demanda por shows. Há uma vitalidade aqui que
viu aqui os Blue Angels, sete as- pessoas com habilidades em é incomparável. Talvez seja porque
tronautas da Apollo e Jef Bezos, computação e tecnologia. Nós incluímos tudo, desde balões de ar
com o foguete Blue Origin. Tudo vemos isso hoje na comunidade quente, passando por ultraleves, até
em Oshkosh e no mesmo dia. dos drones. Queremos que os o F-35 e aviões comerciais. Quando
Isso simplesmente não acontece jovens entendam que a aviação ouvimos pessoas de todo o mundo
em nenhum outro lugar. não é apenas pilotar um avião. falarem que vieram para Oshkosh
Aqueles com conhecimento porque um amigo esteve aqui e dis-
Air Venture reúne milhares de marketing, contabilidade se que eles precisavam vir, é o que
de famílias, e crianças. ou habilidades técnicas podem nos faz mais feliz. Nós realmente
Como integrá-las à aviação encontrar bons empregos na acreditamos que este evento inspira
experimental? aviação. Podemos fazer muito as pessoas, para que elas possam so-
Essa é uma tarefa importante mais para promover isso. O que nhar e inovar quando voltarem para
não apenas para a EAA, mas descobrimos é que essas pessoas, casa. Existem incontáveis ideias que
para a aviação em geral. Focar independentemente de suas nasceram ou se desenvolveram em
nos jovens está alinhado com habilidades, descobrirão a ale- Oshkosh porque as pessoas viam
a missão da EAA. Isso inclui as gria de voar quando trabalham que era possível.

MAGAZINE 2 8 8 | 67
S EG U R A N Ç A

ATITUDE
CERTA
Para sair de uma situação de estol, que pode
acontecer em qualquer ponto do envelope de
voo da aeronave, é preciso conhecimento e técnica
POR | PAU LO MAR CELO SOARE S

U
m MD-80 sobrevoa a direita. Segundo o depoimento de um dos
Venezuela. Há diversas tripulantes, o comandante puxa o manche
formações meteorológicas e, para o espanto dos três ocupantes do
na rota. A tripulação solicita cockpit, a aeronave levanta o nariz até
subida para 33.000 pés. quase nivelá-lo com o horizonte. O bufet
Alguns minutos após atingir a altitude de (tremor), porém, continua e a trajetória
cruzeiro, a aeronave inicia uma descida não se altera, continua descendente. O
descontrolada. A razão de descida chega a piloto em comando solicita laps 15 e ten-
impressionantes 12.000 t/min. Pouco mais ta novamente recuperar o voo nivelado.
de três minutos depois de iniciar a descida, Volta a puxar o manche.
o bijato colide contra o solo, causando Para sua surpresa, apesar de a velocida-
a morte de todos os 160 ocupantes. Era de já estar próxima a 160 nós (muito mais
agosto de 2005. alta do que a velocidade de estol daquele
Pouco menos de um ano depois, em avião, naquela coniguração de lap e vazio),
meados de 2006, uma aeronave comercial a aeronave se recusa a parar de descer. O
está em um teste de voo após um prolon- comandante baixa novamente o nariz, pede
gado período de manutenção. A bordo, laps 25 e acelera os motores. Com velocida-
apenas os dois tripulantes técnicos e um de já próxima a 200 nós, ele puxa suave-
engenheiro, este encarregado de anotar os mente o manche. A aeronave treme e o
resultados e parâmetros do voo. Um dos piloto alivia um pouco a pressão. Puxa mais
testes envolve a veriicação do funciona- um pouco, e a aeronave volta a tremer. Ele
mento do stick shaker (falaremos mais dele cede o manche, cessa o tremor. Mais uma
adiante). A aeronave será desacelerada até a puxada de leve e, aos poucos, a aeronave vai
velocidade a partir da qual entrará em ação recuperando o voo normal até conseguir
o stick shaker, depois, acelerada novamente nivelar em torno de 12.000 pés. Tudo não
até cessar o alarme. dura mais que um minuto. Os três tripulan-
A 20.000 pés, o comandante começa tes concordam em encerrar o voo por ali e
a reduzir a velocidade. Sem o aviso do retornar ao aeródromo de origem.
stick shaker, a aeronave começa a tremer, Um salto no tempo, para 2009. O mês
e inicia uma abrupta queda de asa, para a é fevereiro. Uma aeronave Bombardier
F1 F2 Elevado
Coeficiente de AOA
sustentação (CL)

Pré Estol Em Estol Velocidade


Elevado
CL MAX Elevação máxima AOA
Velocidade

Para a asa importa apenas o


ângulo de ataque (AOA)
AOA Ângulo de ataque crítico
aviso de estol
Velocidade
Velocidade
Elevado
Ângulo de ataque AOA
AOA Elevado
AOA
Coeficiente de F3 Coeficiente de F4 Coeficiente de F5
sustentação (CL) Efeito dos slats sustentação (CL) sustentação (CL)

Efeito
dos flaps
CL MAX CL MAX CL MAX

Efeito de
congelamento
Efeito dos
speed brakes

AOA Estol Ângulo de AOA Estol Ângulo de AOA Estol Ângulo de


Ataque (AOA) Ataque (AOA) Ataque (AOA)
Gráficos: FAA

Dash-8 Q400 em aproximação trapassa um valor tal que ocasiona a um valor máximo, para depois
para o aeroporto de Bufalo, nos uma queda de sustentação (veja o diminuir abruptamente, por conta
Estados Unidos, pouco após gráico). O piloto pode aumen- do descolamento do luxo de ar do
interceptar a aproximação inal, tar a sustentação da aeronave peril da asa. Este valor de ângulo
inicia uma subida abrupta com um elevando o ângulo de ataque ou de ataque é chamado AOA crítico
ângulo de até 35 graus, seguida de a velocidade, mas ambos têm um e independe da velocidade e
uma descida com um ângulo de limite. Quanto menor a veloci- mesmo do ângulo da aeronave em
25 graus e um rolamento primeiro dade, maior o ângulo de ataque relação ao solo(F2).
para a esquerda e depois para a di- necessário para manter um voo Em resumo, o estol pode
reita, atingindo o solo num ângulo horizontal com um determinado ocorrer em qualquer ponto do
de 105 graus. O acidente tira a vida peso e vice-versa. envelope de voo da aeronave. Seja
de um total de 50 pessoas. Todo piloto já teve a opor- em alta velocidade ou durante
tunidade de praticar estóis, em descidas, em qualquer altitude,
ÂNGULO especial no curso de piloto priva- em qualquer fator de carga ou
DE ATAQUE (F1) do. Certamente, na época, sabiam atitude. Mesmo quando parece
Há um aspecto comum aos três qual era a velocidade de estol do haver velocidade de sobra, a asa
eventos aqui reportados. Todos avião. Mas será que já haviam pode estar em estol. A igura
foram causados por uma entrada em lhes contado sobre o ângulo de mostra exemplos em que a aero-
estol, agravada por técnica incorreta ataque crítico? E é aí que reside a nave está com um AOA maior do
de recuperação dessa condição. O causa de confusão entre os pilotos que o AOA crítico e, portanto,
aumento de acidentes causados por quando o assunto é estol. O que está estolada. Cabe lembrar que
entrada inadvertida em estol nos úl- determina se uma asa está ou não em uma curva, a aeronave precisa
timos anos indica que este fenôme- em estol é única e exclusivamente de mais sustentação do que em
no pode não estar sendo adequada- o seu ângulo de ataque (AOA). Se um voo nivelado e, portanto, ou
mente compreendido pelos pilotos quisermos manter o voo nivelado aumenta o AOA ou, se já se está
de aeronaves comerciais. a uma velocidade mais baixa, no AOA crítico, a única alternati-
Por deinição, o estol (do inglês temos de aumentar o AOA. À va é aumentar a velocidade.
stall) é uma condição aerodinâmi- medida que aumentamos o AOA, Além dos sintomas típicos de
ca em que o ângulo de ataque ul- a sustentação aumenta, até chegar um estol (bufet, perda de eiciência

70 | MAGAZINE 2 8 8
dos comandos de voo, impossibili-
dade de comando da trajetória da
aeronave, entre outros), as moder-
nas aeronaves a jato de transporte
de passageiros com suas asas
enlechadas, dispositivos hiper-
sustentadores, motores montados
sob as asas e capacidade de voar
a grandes altitudes apresentam
algumas características adicionais
durante o estol.

1 - Efeito dos
flaps/slats (F3)
A igura mostra o efeito dos laps F6a
Sustentação Sustentação Momento
(em laranja) e dos slats (em amare- speedbrakes em regimes de baixas
lo) em relação ao coeiciente de sus- velocidades e alto AOA, pois, na
tentação (CL) de uma asa “limpa”, tentativa de manter atitude com o
ou seja, com laps e slats recolhidos speedbrake aberto (durante uma
(em azul). Note que, com laps, o CL rápida redução de velocidade em
máximo aumenta para um mesmo voo nivelado, por exemplo), ele
AOA. No entanto, o AOA crítico di- pode acabar aumentando o AOA Perda abrupta Perda abrupta
de sustentação de sustentação
minui em relação ao AOA crítico da até ultrapassar o AOA Crítico,
mesma asa na coniguração “limpa”, levando a aeronave a um estol.
embora a sustentação seja maior, Algumas aeronaves, aliás, limitam
F6b
por conta do maior CL. o uso do speedbrake a velocidades
Já o efeito dos slats é permitir acima de um limite mínimo e/ou
um AOA crítico bem mais alto do coniguração de laps/slats.
que o de uma asa “limpa”, obtendo
ganhos expressivos de sustenta- 3 - Efeito do
ação Vento re
ção por meio de um CL máximo acúmulo de gelo (F5) nto da tr lativo
Increme
bem maior, que pode ser obtido Veja nesta igura o efeito do
em virtude do maior AOA. Esse acúmulo de gelo nas asas (em
aumento de CL causado pelos laps/ azul escuro). Note que em altos
slats se traduz em velocidades de AOA’s o acúmulo de gelo reduz
estol menores para um determinado não só o CL (e consequentemente vai gerar possível perda de controle
peso. No caso de falha destes dispo- a sustentação) para um deter- em rolamento.
sitivos, o piloto deve estar preparado minado AOA, mas, também,
para fazer uma aproximação com o AOA crítico. Ou seja, a asa 4 - Efeito do enflechamento das asas
velocidades bem maiores do que as vai estolar a um AOA menor e, e da posição dos motores (F6A E B)
que está acostumado. Com pesos quando estolar, estará produzin- Aeronaves com asas retas possuem
elevados, a distância de parada será do bem menos sustentação do uma distribuição da sustentação
bem maior do que o normal, às que deveria. Como o acúmulo de mais ou menos uniforme ao longo
vezes, no limite da pista disponível. gelo é imprevisível, não há como de sua envergadura. No entanto, em
precisar exatamente com qual asas enlechadas as pontas costumam
2 - Efeito dos speedbrakes (F4) AOA a asa vai estolar e isso pode perder abruptamente a sustentação
Esta igura mostra que os ocorrer antes da entrada em ação antes da parte interna. Isso causa uma
speedbrakes reduzem o CL para um dos alarmes e/ou dispositivos mudança na distribuição das forças de
mesmo AOA, reduzindo, portanto, antiestol. Além disso, a contami- sustentação ao longo da asa, e induz a
a sustentação. O piloto deve estar nação nunca é igual ao longo de aeronave a querer levantar o nariz, o
bastante atento quanto ao uso dos toda a superfície das asas, o que que pode fazer com que uma aerona-

MAGAZINE 2 8 8 | 71
F7a F7b

velocidade (acusada por uma tur-


bulência, por exemplo) sem que o
piloto ajuste a potência, a tendên-
cia é que a aeronave volte para a
F8 F9 velocidade original. No entanto, se
a velocidade cair abaixo da Vmd,
Velocidade instável Velocidade estável sem uma pronta intervenção do
Arrasto piloto, esta perda de velocidade vai
Arrasto e potência

aumentando gradativamente. Para


Máxima
Atração recuperar a velocidade, o piloto
precisará aplicar grandes quan-
Nível maximo da tidades de potência. O problema
L/D MAX (Velocidade velocidade de Voo é que, à medida que subimos, a
mínima de arrasto)
potência disponível diminui.
Velocidade Essa perda de potência pode
ser acentuada pela necessidade de
uso de anti-ice. Pode acontecer de
o piloto aplicar potência máxima
ve com um alto AOA, ultrapasse o a um alarme de estol ou até e, ainda assim, não ser capaz de
AOA crítico e entre em estol. Para mesmo a um estol completo. Por estancar a perda de velocidade.
piorar a situação, aeronaves com outro lado, ao aumentar o número Se não iniciar prontamente uma
motores montados abaixo das asas Mach de cruzeiro, podem haver a descida, a aeronave vai precisar
terão uma tendência de levantar o formação de ondas de choque em manter um AOA cada vez mais
nariz, com aumento de potência determinadas porções da asa. alto, até eventualmente chegar ao
dos motores, diicultando ainda Estas ondas de choque desco- estol. Foi a situação que desen-
mais o controle de pitch numa larão o luxo de ar e causarão um cadeou o acidente com o MD-80
situação de pré-estol, caso o piloto bufet (chamado estol de choque, mencionado no início desta ma-
aumente bruscamente a potência. ou estol de Mach) semelhante a téria. O uso dos sistemas de wing
um estol de baixa velocidade. Isso e engine anti-ice pode reduzir o
5 - Efeito do Mach (F7A E B) pode confundir o piloto, levando- teto máximo da aeronave em até
Conforme já foi dito, para uma -o a aplicar a técnica incorreta de 5.000 pés em alguns casos. Ou
determinada coniguração e a um recuperação de cada situação. O seja, evite subir para o nível má-
determinado número Mach, uma crosscheck com outros parâmetros ximo caso haja previsão de gelo
asa estola em um determinado de voo (velocidade, atitude e potên- ou turbulência na sua rota.
AOA. À medida que aumentamos cia) é necessário para identiicar Outra situação potencial-
o número Mach, o valor AOA corretamente a origem do bufet e mente perigosa é aquela em que
crítico diminui. Ao nos aproxi- tomar as devidas providências. Em voamos em direção a uma área
marmos deste valor de AOA, a asa grandes altitudes, a margem entre onde a temperatura está substan-
começa a gerar um bufet, que tende as velocidades máxima e mínima cialmente acima da ISA, o que
a aumentar em intensidade em altos é muito pequena, e pode ser ainda vai diminuir a altitude máxima
números Mach. No caso de uma mais reduzida em caso de curva. possível. Caso o piloto não desça
subida para um nível de cruzeiro para uma altitude compatível
muito próximo ao do nível máximo 6 - Tração x arrasto (F9) com seu peso, pode ocorrer uma
para determinado peso, a margem Conforme reduzimos a velocida- perda contínua de velocidade,
entre o AOA de cruzeiro e o AOA de, o arrasto tende a diminuir. Isso levando ao estol.
crítico é muito pequena. (F8) é válido até um valor chamado
No caso de turbulência, as Vmd (velocidade de mínimo 7 - Deep stall (f10)
variações de AOA determinadas arrasto). É o que mostra a linha Algumas aeronaves, especialmente
pelo fenômeno, ou por comandos no gráico desta igura. Acima da aquelas com empenagem em “T”
bruscos do piloto, podem induzir Vmd, se sofre uma variação de (mas não apenas estas), podem

72 | MAGAZINE 2 8 8
F10
DEEP STALL

sofrer uma substancial redução ou


total perda da atuação dos eleva-
dores e do estabilizador horizontal,
tornando difícil ou até mesmo im-
possível a recuperação de um estol.
Isso acontece pelo fato de o luxo
de ar descolado da asa durante o
estol estar passando pelo estabi-
Gráficos: FAA
lizador horizontal em um estado
turbulento, o que pode torná-lo
ineicaz para controlar o pitch. Para ções de formação de gelo.
ã d l sar um determinado
dt i d A AOAA próximo
ó i
complicar, quase todas as aeronaves Outro exemplo típico envol- (mas ainda abaixo) do AOA crítico,
com empenagem em T possuem ve uma descida em voo manual, a coluna de comando é empurra-
motores montados no cone de seguindo o light director. Supon- da para a frente, com uma força
cauda. Esse luxo de ar turbulento do uma descida no modo Level tal que o piloto não tem como
na parte posterior também pode Change/Open Descent/IAS. Caso sobrepujá-la, a im de impedir que
provocar perda de potência ou até o piloto não siga corretamente o a aeronave entre em um estol que
mesmo um lameout (apagamento) light director, mantendo um pitch pode se tornar irrecuperável. Há
dos motores, diicultando ainda mais elevado do que o solicitado, a ainda aeronaves (notadamente a
mais uma recuperação. velocidade começará a cair, poden- família Airbus) que possuem uma
do eventualmente levar a um estol. proteção ativa do envelope de voo.
8 - Uso incorreto O recurso impede que o piloto
do automatismo DISPOSITIVOS exceda o AOA crítico, mesmo com
Uma das causas mais frequentes ANTIESTOL total delexão de comandos (mas
de estol é o uso incorreto dos Para evitar uma entrada inadver- este é um assunto que merece uma
modos do autopilot/light director. tida em estol, as autoridades aero- matéria especíica).
O cenário típico envolve a seleção náuticas exigem que as aeronaves
de um modo inadequado para a sejam equipadas com dispositi- RECUPERAÇÃO
fase de voo, ou o descumprimento vos de alerta. Muitas aeronaves DE ESTOL
dos comandos do light director. exibem um pronunciado bufet Até relativamente pouco tempo
Um exemplo do primeiro caso é diante da proximidade de estol, atrás, o treinamento dos pilotos de
quando o piloto seleciona o modo que já deveria por si servir de aler- aeronaves de transporte era focado
Vertical Speed em uma subida. ta ao piloto. Outras aeronaves, no no que chamávamos de “approach
Caso o valor do V/S selecionado entanto, não possuem este recurso to stall”. A aeronave era desacele-
seja superior à capacidade da aero- e precisam de dispositivos adicio- rada em voo nivelado até ativação
nave, o autopilot priorizará a razão nais, na forma de alarmes sonoros, do alarme de stall/stick shaker. O
de subida, fazendo a velocidade indicadores de ângulo de ataque piloto, então, aplicava potência
cair, consequentemente aumen- e um sistema de stick shaker. O máxima nos motores e acelera-
tando o AOA até um eventual stick shaker é um dispositivo que va, reduzindo o pitch apenas o
estol. Recomenda-se uma especial faz vibrar a coluna de comando suiciente para perder o mínimo
atenção à velocidade quando quando a aeronave se aproxima possível de altitude, até recobrar
se usa o modo V/S em grandes do estol, alertando o piloto para parâmetros normais de voo.
altitudes, dando preferência ao tomar alguma atitude. Geralmente, esse treinamento era
modo Level Change/Open Climb/ Outras aeronaves, cujo com- efetuado em baixas altitudes, pois
IAS, pois este mantém uma velo- portamento em estol não atende acreditava-se que era o cenário
cidade constante, variando a razão a determinados parâmetros (ten- mais provável para uma entrada
de subida. O automatismo pode dência a deep stall, por exemplo), inadvertida em estol. Diversos
também mascarar uma situação podem ser equipadas com um stick acidentes, contudo, acabaram por
de deterioração da performance da pusher. Nas aeronaves equipadas provar que esta técnica não era a
aeronave, notadamente em condi- com este dispositivo, ao se ultrapas- mais adequada, especialmente em

MAGAZINE 2 8 8 | 73
PARA LEMBRAR
Estol é um problema ligado diretamente ao AOA
Você pode estolar a qualquer velocidade, atitude,
altitude, trajetória
A formação de gelo pode fazer com que a asa estole
antes da ativação do alarme de estol/stick shaker.
Subida para a altitude máxima deve ser evitada em 1 - Autopilot recuperação do voo nivelado. Co-
condições de turbulência e/ou formação de gelo. e Autothrottle: OFF mandos de aileron só devem ser
A única maneira de sair de um estol é reduzir Motivo: Autopilots não aplicados após a efetiva redução
imediatamente o AOA por meio de aplicação de são programados para uma do AOA.
comando de pitch. Aplicação de potência só deve ser recuperação de estol. O controle
feita após cessar o alarme de estol. manual é essencial nesta fase. 4 - Potência: aplique
Jamais use flaps/slats para sair de uma situação Atenção para a possibilidade de a conforme necessário
de estol a grandes altitudes. O uso de flaps/slats aeronave estar severamente fora Motivo: Durante uma recupera-
acima de sua altitude limite (normalmente 20.000 da trimagem no momento da ção de estol, na maioria das vezes,
pés para aeronaves a jato típicas) pode levar a falha desconexão do autopilot. Deixar o potência máxima não só é desne-
estrutural, ocasionando perda de controle. autothrottle ativo pode resultar em cessária, como pode ser prejudi-
variações de potência inadequadas cial. Em aeronaves com motores
que podem piorar a situação. montados sob as asas, a aplicação
de potência pode gerar uma forte
2 – Pitch: comando tendência a levantar o nariz, se a
de pitch para baixo, velocidade for baixa, diicultan-
eventos a grandes altitudes, tais aplicar até cessar o alarme do a recuperação. Para o caso de
como os ocorridos com os voos de estol Pitch Trim nose down, motores montados acima das asas,
AF447, QZ8501 e YH708. conforme necessário a aplicação de potência pode criar
Em virtude destes e outros Motivos: um efeito benéico de abaixar o na-
acidentes, um grupo de estudos A) A prioridade em uma recupe- riz. Tenha cuidado pois aeronaves
formado pelo FAA e pelos ração de estol é reduzir o AOA. a jato, com sua limpeza aerodinâ-
maiores fabricantes de aerona- Houve diversas situações em que mica podem passar rapidamente
ves comerciais (Airbus, ATR, as tripulações não priorizaram a de uma situação de estol para uma
Boeing, Bombardier e Embraer) redução do AOA, aumentando a situação de overspeed. No caso
publicou um procedimento potência e tentando manter a al- de aeronaves a hélice, a aplicação
básico de recuperação de estol, titude. A grandes altitudes os mo- de potência energiza o luxo de ar
aplicável para todos os tipos de tores desenvolvem baixa potência ao redor das asas, beneiciando a
aeronaves. Este procedimento e leva-se tempo para acelerar. recuperação do estol.
foi estabelecido com as seguin- Motores sob as asas em regimes
tes premissas: de alta potência geram um pitch 5 - Speed brakes: recolher
up que pode fazer uma situação de Motivo: O recolhimento dos
- Um único procedimento pré-estol virar um estol. Speed brakes aumenta a sustenta-
aplicável a todas as ção para um determinado AOA,
situações de estol; B) Caso o manche não consiga além de facilitar a recuperação de
- Foco na redução do AOA; prover a autoridade de comando velocidade.
- Eliminação da necessidade necessária, aplicação de pitch trim
de aplicação de potência pode ser requerida, em especial 6 - Comando de pitch para
máxima de imediato. nos casos em que o autopilot “tri- recuperar o voo nivelado:
mou” incorretamente a aeronave aplicar com cuidado
O procedimento para alar- antes de ser desacoplado. O uso do Motivo: comandos bruscos de
me de estol ou recuperação de trim deve ser feito com cuidado pitch up levarão a um aumento
estol requer proiciência. Veja para não agravar a situação nem brusco do AOA, fazendo com que
como proceder imediatamente gerar uma situação de perda a aeronave estole novamente, mes-
após o primeiro sinal de estol de controle/overspeed/atitude mo com velocidade e em trajetória
(bufet, alarme sonoro ou visual anormal. descendente. Aplique comandos
de estol, ativação do stick shaker, suaves e que gerem uma variação
stick pusher), durante qualquer 3 - Bank Angle: asas niveladas de pitch sem no entanto, resultar
fase do voo, exceto logo após a Motivo: Orientar o vetor susten- em bufet ou nova ativação dos
decolagem: tação na vertical para maximizar a alarmes de estol/stick shaker.

74 | MAGAZINE 2 8 8
A SUA REVISTA DE
AVIAÇÃO AGORA
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C O N T E Ú D O D E AV I A Ç Ã O D O

BRASIL AGORA NA MAIOR

B A N C A D I G I TA L D O M U N D O
H I S TÓ R I A

Alberto Santos
Museu Aeroespacial

Dumont, por Tito


Geraldo. São
Paulo (SP), 28 de
janeiro de 1914
OS SONHOS DE
SANTOS DUMONT
O que o pioneiro da aviação fez, ou pelo menos tentou fazer,
pelo Brasil. Há 100 anos, ele lançava seu livro e realizava
o primeiro e único voo que fez em sua terra natal
POR | RODRIGO MOURA VISONI

U
ma sessão magna do da linda enseada de Botafogo, que em Washington, nos Estados
Aeroclube Brasileiro eu desejaria ver transformada em Unidos – e Como o aeroplano pode
cedida para uma co- ancoradouro central da marinha efetuar uma aliança estreita entre
municação exclusiva aérea nacional. Certo e bem certo os Estados Unidos da América do
de Alberto Santos estou de que, se esses meus preten- Norte e os países sul-americanos –,
Dumont (1873-1932), o célebre siosos conselhos forem seguidos, o pronunciada no dia 10 de março
brasileiro pioneiro da aviação. Era Brasil dentro em breve possuirá um em Santiago, no Chile.
25 de maio de 1916. O salão nobre grande número de pilotos aéreos,
da Associação dos Empregados no dignos continuadores dos impere- FÁBRICAS NOS EUA
Comércio, no Rio de Janeiro, es- cíveis trabalhos de Bartolomeu de Nessas declarações Santos
tava cheio quando aquele notável Gusmão. (...) Dumont procurava mostrar o
homem começou a falar. Ao im Meus senhores: eram essas avião como uma tecnologia capaz
do discurso, o orador foi fervoro- as palavras que a minha profun- de propiciar a aproximação e a
samente aplaudido. da gratidão e os meus desejos integração entre os povos, num
de brasileiro impunham que eu contraste com o uso bélico que
“Já fui aviador e inventor: os proferisse aqui. Renovo os protestos se fazia do invento na Europa,
anos, porém, foram se passando de agradecimento a todas as provas devastada pela Primeira Guerra
e hoje não mais sou aviador. Este da nímia gentileza que hei recebido Mundial, então em curso. Frisava
deve ser forçosamente jovem. e levanto a mais sincera das sau- que sempre havia idealizado a lo-
Todas as energias que me restam dações à querida pátria, ao nobre comoção aérea como um instru-
e também toda a experiência que Brasil, que quero ver pairando alto mento útil para o avanço da ci-
adquiri em vinte anos de trabalho, e bem alto na glória universal. Viva vilização, jamais para a barbárie.
ponho-as à disposição do meu país o Brasil! Viva as repúblicas amigas Se não podia conter a admiração
e, mais ainda, ofereço toda a cole- da América!”. pelos atos de bravura praticados
ção de medalhas e prêmios, toda a pelos aviadores militares, lamen-
coleção de aparelhos que inventei Tratava-se da terceira confe- tava que pilotos, abandonando
para que com eles se inicie o museu rência que ele realizava naquele a conduta de humanidade digna
de aviação nacional. Para a reali- ano, e a primeira no Brasil. de homens superiores, dessem
zação desse desejo, já consegui do As duas anteriores, de grande a atacar populações indefesas e,
ilustre Sr. Dr. Prefeito do Distrito repercussão no meio aeronáutico, pior, hospitais, onde a abnegação
Federal, apoiado pelo Conselho foram Como o aeroplano pode e o humanitarismo reuniam feri-
Municipal, a permissão de elevar facilitar as relações entre as Amé- dos dos dois lados combatentes!
um pequeno pavilhão à margem ricas – proferida em 4 de janeiro, Pedia perdão às mulheres, aos

MAGAZINE 2 8 8 | 77
Acervo do autor
Alberto Santos velhos e às criancinhas vítimas As peças dos aparelhos eram própria custa, no Rio de Janeiro,
Dumont e Virginius desses ataques. executadas em carpintarias e fundi- um hangar à beira-mar, para
Brito de Lamare a Santos Dumont estava na ções, e às fábricas cabia apenas reu- que a aprendizagem dos pilotos
bordo de hidroavião Espanha em 1915 quando recebeu nir essas peças, montando-as em se izesse com hidroplanos, tor-
Curtiss na Ilha das com surpresa o convite da direto- deinitivo. Graças a esse sistema, a nando, desse modo, a prática da
Enxadas (RJ), 25 de ria do Aeroclube da América para produção de aeroplanos aumentara aviação menos perigosa para os
janeiro de 1917
participar do Segundo Congresso vertiginosamente. E, conquanto principiantes, perdeu dias e dias
Cientíico Pan-Americano, que fosse bastante sonhador, airmava em peregrinação pelos minis-
tinha como um dos objetivos a nunca haver imaginado a visão térios, à cata da autoridade que
fundação da Federação Aeronáu- que lhe proporcionou certa fábrica pudesse ceder o terreno, porque a
tica Pan-Americana. Até então, norte-americana, na qual milhares administração pública não sabia
para o inventor, os Estados Unidos de mecânicos experientes construí- dizer a quem pertencia o trecho
eram indiferentes a quase tudo o am cerca de quinze aeroplanos por da Praia da Saudade escolhido
que dissesse respeito à locomoção dia, número que acreditava estar para o galpão!
aérea, pela atividade não lhes pa- em vésperas de duplicar. Entendia, Descoberto, ainal, que essa
recer de efeitos bastante práticos. assim, que, para dotar o Brasil de autoridade era o chefe da reparti-
Porém, em vista dos resultados uma frota aérea, se devia seguir o ção do Patrimônio Nacional, tudo
obtidos pelos aparelhos na guerra exemplo bem-sucedido da Améri- parecia resolvido. Os papéis refe-
europeia, um extraordinário surto ca do Norte. rentes à licença para a construção
industrial havia ocorrido naquele do barracão foram logo despa-
país, como pôde observar: fábricas BUROCRACIA NO BRASIL chados pelo prefeito da cidade, e
com capitais colossais só para a Nos meses consecutivos, Santos Santos Dumont acreditou indas
construção de aeroplanos foram Dumont empenhou-se em fazer as exigências da burocracia. Puro
inauguradas em Búfalo, Califór- alavancar a aviação no Brasil. Não engano. Ao buscar os papéis com
Capa do livro
nia, Detroit, Filadélia e Nova York foi fácil. A primeira diiculdade a permissão almejada, respondeu-
“O que eu vi, o
que nós veremos”, – algumas com um capital de dez surgiu logo após a chegada dele -lhe um funcionário da Prefeitura:
de 1918 milhões de dólares, outras, de seis à capital do país, em 15 de maio “Não, senhor. Isso não se faz
milhões, e muitas outras, menores. de 1916: resolvido a construir, à assim. O despacho do prefeito já

78 | MAGAZINE 2 8 8
Alberto Santos
Dumont em frente
à réplica do Ícaro
de Saint-Cloud,
disposto no
pavilhão francês
da Exposição do
Centenário da
Independência
do Brasil. Rio de
Janeiro (RJ), 12 de
março de 1923
está dado, mas ainda há muita
formalidade a preencher”.
Nova e enervante odisseia
começou. Foram cinco meses pre-
enchendo a volumosa documen-
tação que lhe era encaminhada.
Em novembro de 1916, inalmente,
o barracão pôde ser iniciado e,
semanas depois, já terminado,
houve a doação ao Aeroclube
Brasileiro. Na manhã do dia 25 de
janeiro de 1917, Santos Dumont
visitou a Escola da Aviação, na
Ilha das Enxadas, em companhia
do comandante Jorge Dodsworth
Martins (1884-1984), e percorreu
todas as dependências da escola,
que achou otimamente instalada.
Às 08h30, ele fez um voo como
passageiro num hidroavião Curtiss
pilotado pelo primeiro-tenente
aviador naval Virginius Brito de

Augusto Malta
Lamare (1883-1956). Lamare fez
várias evoluções sobre a cidade,
estendendo-se até Niterói, onde
subiu com o aparelho até a altitude
de 100 metros. Daí, com o motor
parado, desceu numa belíssima deu, indicando ao governo as de 1923, no Pavilhão de Honra da
espiral, muito elogiada por Santos medidas que se deveriam tomar França, montado no Centro do
Dumont. Ficava claro que o avião em matéria de aviação, foram Rio de Janeiro para a Exposição
já podia ser considerado um meio ignorados. Já no livro de 1918, do Centenário da Independência
de transporte eiciente e seguro. Santos Dumont queixava-se do do Brasil, sendo transferido depois
Foi essa a única vez que o inventor descaso do Aeroclube Brasileiro para o cemitério São João Batista,
voou em solo pátrio. com o hangar presenteado. em Botafogo, na zona sul da capital
Em 1923, o “aeropioneiro” luminense, e aixado no sepulcro
O LIVRO, A ESTÁTUA trouxe ao Brasil uma cópia em dos progenitores do Pai da Aviação.
E O JAZIGO tamanho natural do Ícaro de Ali ele também desejava ser sepul-
Em 14 de setembro de 1918, San- Saint-Cloud, monumento que lhe tado quando viesse a falecer, o que
tos Dumont publicou o livro O fora erguido na França dez anos aconteceria de forma trágica nove
que eu vi, o que nós veremos, no antes pelo aeroclube daquele país, anos depois. O jazigo é até hoje um
qual previa às novas gerações as comemorativo do voo de 19 de dos mais visitados do cemitério.
maravilhas que estavam destina- outubro de 1901 do dirigível No
das à aeronavegação. Todos esses 6. Foi graças a esse voo que ele Rodrigo Moura Visoni é autor
gestos contribuíram podero- ganhou o Prêmio Deutsch, de do livro “Os artigos de Santos
samente para a formação e a 100.000 francos, destinado àquele Dumont”, que está em fase de cap-
consolidação de uma cultura ae- que izesse um voo dirigido de 11 tação de recursos para ser publica-
ronáutica brasileira. Infelizmente, km em meia hora, contornando a do. Para contribuir, acesse este link:
os patrióticos gestos que fez, bem Torre Eifel no meio do percurso. www.vakinha.com.br/vaquinha/
como os sábios conselhos que O monumento igurou, em março os-artigos-de-santos-dumont

MAGAZINE 2 8 8 | 79
E S PEC I A L

UM PROJETO PARA OS

SP TTERS
Nesta edição de aniversário, um balanço do AERO Click Spotter
por aqueles que são a razão de ser desta parceria de sucesso

“Quaando c riei o concurso Galeria dos Spotters, não imaginei que O AERO Click Spotter abriu um espaço sem
“O
a noss
n saa exxposição receberia a visita do editor-chefe da Revista p ecedentes para os spotters brasileiros. É
prece
AERO Magazine,
A M e muito menos que depois de um bate-papo, uma
u ma ggr an vitrine para mostrar as imagens
grande
surgiria o convite para unir várias associações, amigos e grupos de mara
maravilhosas que esses apaixonados pela
spotters, e fechar uma parceria com a revista para o início projeto fotografia e pela aviação produzem”.
AERO Click Spotter. Com a galeria, a intenção era que as pessoas
Ricardo Padovese - WAF Brasil
tivessem um lugar para expor o fruto do seu hobby, suas belas
imagens independentemente de equipamentos, cidades ou grupos, e
principalmente ganhar mais espaço, mais respeito, mais visibilidade
e ter mais oportunidades de eventos em parcerias com os aeroportos
pelo Brasil e mais locais para tirar suas fotos e fazer novos amigos.
Desde o primeiro passo, tudo isso tem sido cada dia mais real, mas,
principalmente, pelo espaço e visibilidade dados pela Revista AERO
Magazine. Passados quase sete meses do início de tudo, tenho
certeza de que o AERO Click Spotter veio para ficar, e tem feito
muito pelo plane spotting e seus praticantes Brasil afora”.
Gilson Campos, criador da Galeria dos Spotters

“Nest
N e grandde momento do nosso
hob p ne spotting, a reevista
h by, o plan
AER
AE Magazine
ERO Ma g nos deu m ais
oxigênio
i para continuarmos a fazer
“O p rojeto
r AERO Click Spotter o que gostamos e nos prese nteou
h u nu
chhegou num momento propício com o projeto AERO Click Spotter,
S
p a re
para reunir a comunidade de onde podemos mostrar a to dos o
plane spotting do país. Incentivar nosso hobby. Uma grande inniciativa
a cultura aeronáutica de forma da revista AERO Magazine,
sadia, focado apenas em difundir parabéns!!!”
este hobby, tão sensacional, foi o
ponto principal para ganhar meu Leandro Jesus, WL Spotters
apoio. Poder contar com a revista
AERO Magazine nessa missão de
alcançar novos ares é gratificante,
pois os resultados são realmente
válidos. Por fim, como spotter, posso
““Estouu muit o satisfeito em
dizer que fazer parte de um projeto
ffaz
fazerr pa
p arte do
d projeto AERO
como este é muito prazeroso, “O AERO C lick Spotter é um ótimo veículo para
Cl
Cliick Spootter
ott e muito grato
principalmente por saber a m ostrraarmoos nossas artes e também apresentar ao
por AE
AERO Magazine ceder
importância para cada um de nós. À ppúblicoo o que é o plane spotting, além de abrir espaço
este espaço na revista. Essa
AERO Magazine, meu sincero muito divulgação de nossos veículos, também divulga
ação demonstra a parceria
obrigado! Parabéns pela iniciativa!” nosso hobby e apresenta uma visão diferente das belas
e o comprometimento em
Felippe Amorim - Spotters do Brasil difundir o nosso hobby”. máquinas voadoras, mostrando como arte e não apenas
um meio de transporte. Parabéns a AERO Magazine pelo
Gustavo Andrade Peregrino, projeto!”
Plane Spotter BH
Andrews Claudino, SP Spotter

80 | MAGAZINE 2 8 8
“O pprrojeto AERO Click Spotter é uma E celent
“Ex en te opoortunidade para spotters “Nu m eventto sobre aviação, num dia comum
óóttima opo
oportunidade para nós que maantess da aviação participarem,
e am coom
mo qquualq
lquer outro, me surgiu o comentário
amamos aviação e nos dedicamos
amam contribuindo
o ntribuin com registros fotográficos sobre o projeto AEROClick Spotter. Era uma
à fotografia de aeronaves. É um de diversas partes do Brasil e do mundo. novidade, algo que eu não imaginava que
reconhecimento para o esforço que Ampliando e possibilitando de visualização de se tornaria de tal excelência. Hoje, como
muitas vezes fazemos para conseguir diversos modelos de aeronaves e outros itens representante de um dos grupos, é gratificante
esses registros, um grande incentivo relacionado à aviação. Um projeto pioneiro, já ver que os spotters conquistam mais espaço
ao nosso hobby, o plane spotting” que é a primeira vez que uma mídia renomada dentro da mídia”.
a abre esse espaço colaborativo”.
Janna Andrade, TMA Fortaleza 0Jefferson Chagas - Brothers Spotting
Rafael David da Silva - WAF Brasil

“Podemo
“ d os dizer que o AERO Click Spotter é um
“Ach
Achh o muit o importante uma revista como a projjeto q ue já deu certo, pois, a cada dia, mês que
AERO
AEERO M Maggazine abrir espaço para o nosso hobby, pass
p a e llá se vão alguns meses desde seu início,
o planee spotting. Isso motiva cada vez mais as o númmero de participações de spotters de todo o
pessoas apaixonadas por aviação a divulgar mais Brasil só tem aumentado e na comunidade spotter
essa cultura e a ganhar visibilidade no meio. se ouve muito sobre o projeto. Acho que o objetivo
Ótima iniciativa e um belo projeto”. principal de unir a comunidade está sendo alcançado
Zeca Nascimento, BRA Spotters gradativamente, hoje podemos ver muito mais
pessoas se unindo em prol de uma prática sadia
com o objetivo maior de ter espaço para todos,
independentemente de qual região reside ou seu
equipamento. Eu estava presente no primeiro
encontro com a revista AERO Magazine na Galeria
dos Spotters, e quando foi acenado a possibilidade
do projeto a empolgação tomou conta de todos.
Tenho orgulho de fazer parte desse projeto e ver o
seu nascimento. Vida longa ao AERO Click Spotter.
Obrigado Revista AERO Magazine por acreditar e ser
pioneira no apoio à Comunidade Spotter”.
Wallace Oliveira - WL Spotters

““AERO RO Click
C k Spotter veio para
“De fa o projeto
“ fato, p AERO Click Spotter é a provva pre
p eeencchher uuma lacuna, para dar
vi
vissibilida de à paixão de muitos
dade
os

de
d que
q estam
mp

pela aviação. Muitos de nós


Ca

ou
o utro nessse
s hobby. Compartilhar experiências, t
spotters
on

não são fotógrafos por profissão e,


ils

momentos, fotos, etc. é o que fortalece o


:G

que somos e o que buscamos nesse hobb não fosse a aviação, não chegaríamos
to
Fo

Reconhecimento é tudo e o projeto zela por issoo”. a ter câmeras de alguns mil reais. O
equipamento é caro, mas a paixão
Jean Lucas Da Silva - Brothers Spotting
p g transcende a esta barreira, assim
como são barreiras os muros, árvores,
chuvas, calor, dentre outras, que não
são capazes de parar o ímpeto dos
spotters. Ter uma revista de circulação
nacional (e internacional) ao nosso
O proojeto AE
“O A RO Click Spotter é excelente oportunidade para lado é estimular cada vez mais a
todo
to
t os o s apaiixonados pela aviação e fotografia, essa união dada prática da fotografia aeronáutica. Ao
commo
m planne sspotting. Pra nós, spotters, é uma ação incrível ver tempo em que parabenizo à AERO
osso eesforço diário, sempre em busca de fotos da melhor forma
nosso Magazine, deixo-lhes meu voto de
possível, sendo também um ótimo incentivo para toda essa gratidão!”
comunidade apaixonada pelo hobby”.
Raphael Barbosa - TMA Teresina
Maycon Jorge - GIG ao Vivo

MAGAZINE 2 8 8 | 81
CLICK Spotter
“Boeing 777 da Air France, tirada do terraço
do hotel Matis, decolando pela 27L em um final
de tarde com um lindo pôr do sol...”
Foto:Fernando Augusto Garcia Júnior
“Nos tornamos uma empresa de corretagem de aeronaves de
alto desempenho com a construção de relações fortes com
nossos clientes, fornecendo-lhes as informações mais
completas e atualizadas disponíveis no mercado.”

“Capturamos essas informações críticas de modo imediato e com acuracidade – a


medida que acontecem . Eles contam conosco e sabem que sempre mantemos as
OPTTBTQSPNFTTBT5FNPTFTTBNFTNBSFMBÎÍPEFDPOmBOÎBDPNB+FUOFU&MFT
prometem, e entregam. Com a Jetnet, conhecemos o mercado e usamos esse
conhecimento para trabalhar para os nossos clientes. Saber mais coloca-nos na
dianteira e cria parcerias duradouras.”

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