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LIBERDADE ASSISTIDA – BREVES CONSIDERAÇÕES 

Ricardo Miranda 

CONCEITO 

A  Liberdade  Assistida  é  uma  medida  socioeducativa,  a  ser  cumprida  em  meio  aberto,  isto  é, 
sem  que  o  jovem  tenha  privação  de  sua  liberdade,  prevista  no  Estatuto  da  Criança  e  do 
Adolescente (Lei nº 8.069/90), aplicável aos adolescentes autores de atos infracionais. Trata‐se 
de medida judicialmente imposta, de cumprimento obrigatório. 

Sua aplicação tem lugar quando se mostrar a medida socioeducativa mais adequada ao caso 
concreto para o fim de acompanhar, auxiliar e orientar o jovem, devendo ser levado em conta 
a sua capacidade de cumpri‐la, as circunstâncias e gravidade da infração. 

Tem  como  objetivo,  não  só  evitar  que  o  adolescente  venha  novamente  a  praticar  ato 
infracional, mas, sobretudo ajudar o jovem na construção de um projeto de vida, respeitando 
os  limites  e  as  regras  de  convivência  social,  buscando  sempre  reforçar  os  laços  familiares  e 
comunitários. 

ANTIGO CODIGO DE MENORES ‐ REVOGADO 

 Antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90) tivemos no Brasil outros dois 
diplomas  legais  que  regulamentavam  judicialmente  as  questões  infanto‐juvenis,  abordando 
pontos como adoção, guarda, tutela, perda do pátrio poder (hoje poder familiar), apuração e 
sanção de atos ilícitos cometidos pelos jovens, entre outros pontos. 

Assim, tivemos o Código de Menores de 1927 (Decreto nº 17.943‐A de 12 de Outubro de 1927) 
também conhecido como Código Mello Mattos, em homenagem ao seu idealizador, e o Código 
de Menores de 1979 (Lei nº 6.697, de 10 de Outubro de 1979). 

No que tange a questão da Liberdade Assistida, os atuais doutrinadores do ECA são unânimes 
em  afirmarem  que  não  se  trata  de  um  instituto  inovador,  uma  vez  que  já  havia  previsão  de 
algo muito semelhante nos referidos Códigos de Menores denominado Liberdade Vigiada.1 

 Com o devido respeito, ouso‐me discordar dessa afirmação. A Liberdade Vigiada prevista nos 
artigos 92‐100 do Código de Menores de 1927 e no artigo 38 do Código de Menores de 1979, 
em nada se assemelha ao disposto nos artigos 118‐119 do ECA. Vejamos o Código de Menores 
de 1927: 

“CAPÍTULO VIII 

                                                            
1
 Nesse sentido: CURY, Munir (coord). Estatuto da criança e do adolescente comentado. 7. ed. São Paulo: 
Malheiros,  2005,  p.402.  LIBERATI,  Wilson  Donizete.  Comentários  ao  estatuto  da  criança  e  do 
adolescente. 5 ed. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 89. 
DA LIBERDADE VIGIADA   

Art. 92 – A liberdade vigiada consiste em ficar o menor em companhia e sob a responsabilidade 
dos pais, tutor ou guarda, ou aos cuidados de um patrono, e sob a vigilância do juiz, de acordo 
com os preceitos seguintes: 

1 – A vigilância sobre os menores será executada pela pessoa e sob a forma determinada pelo 
respectivo juiz. 

2  –  O  juiz  pode  impor  aos  menores  as  regras  de  procedimento  e  aos  seus  responsáveis  as 
condições, que achar convenientes. 

3 – O menor fica obrigado a comparecer em juízo nos dias e horas que forem designados. Em 
caso de morte, mudança de residência ou ausência não autorizada do menor, os pais, o tutor 
ou guarda são obrigados a prevenir o juiz sem demora. 

4  –  Entre  as  condições  a  estabelecer  pelo  juiz  pode  figurara  a  obrigação  de  serem  feitas  as 
reparações, indenizações ou restituições devidas, bem como as de pagar as custas do processo, 
salvo  caso  de  insolvência  provada  e  reconhecida  pelo  juiz,  que  poderá  fixar  prazo  para 
ultimação desses pagamentos, tendo em atenção as condições econômicas e profissionais do 
menor e do seu responsável legal. 

5 – A vigilância não excederá de um ano. 

6 – A transgressão dos preceitos impostos pelo juiz é punível: 

a) Com  multa  de  NCr$  0,01  a  NCr$  0,10  aos  pais  ou  tutor  ou  guarda,  se  da  sua  parte  tiver 
havido negligência ou tolerância pela falta cometida; 
b) Com detenção do menor até oito dias; 
c) Com remoção do menor. 

Art. 93 – O liberado, juntamente com o seu responsável, assinará um termo, do qual constarão 
as condições do livramento. 

Art. 94 – A liberdade vigiada será revogada, se o menor cometer algum crime ou contravenção 
que  importe  pena  restritiva  da  liberdade,  ou  se  não  cumprir  alguma  das  cláusulas  da 
concessão.  Em  tal  caso,  o  menor  será  de  novo  internado,  e  o  tempo  decorrido  durante  o 
livramento  não  será  computado.  Decorrido,  porém,  todo  o  tempo  que  faltava,  sem  que  o 
livramento seja revogado, a liberdade se tornará definitiva.” 

 Código de Menores de 1979: 

“TITULO V 

DAS MEDIDAS DE ASSISTÊNCIA E PROTEÇÃO 

CAPITULO I 

DAS MEDIDAS APLICÁVEIS AO MENOR 

Seção II 
DA LIBERDADE ASSISTIDA 

Art. 38. Aplicar‐se‐á o regime de liberdade assistida nas hipóteses previstas nos incisos V e VI 
do art. 2º desta Lei, para o fim de vigiar, auxiliar, tratar e orientar o menor. 

Parágrafo  único.  A  autoridade  judiciária  fixará  as  regras  de  conduta  do  menor  e  designará 
pessoa capacitada ou serviço especializado para acompanhar o caso.” 

Em ambos os diplomas o que se verifica é a visão que se tem do adolescente como objeto de 
intervenção judicial, que, em nome da uma suposta regularização da situação irregular a qual 
se encontra o “menor”, deverá o mesmo sofrer a chancela do juiz que atuará como enérgico 
pai desse jovem com o intuito de tratá‐lo, corrigi‐lo, fazer o que a família não fez. 

Fica  a  crítica:  tratar  de  quê?  Corrigir  o  quê?  Pode‐se  punir  alguém  por  ter  sido  abandonado 
pelo Estado, pela sociedade, pela família? A interferência do judiciário restringindo a liberdade 
desses jovens é a resposta adequada? 

Em  ambos  os  diplomas  sente‐se  a  impregnação  da  doutrina  da  situação  irregular,  onde  o 
adolescente  era  descaradamente  objeto  de  intervenção  judicial.  Vê‐se  com  facilidade  que  o 
objetivo dessa “liberdade” era mais do que vigiar, era, acima de tudo, impor regras de conduta 
escolhidas ao livre arbítrio do julgador, que deveria agir como rígido pai. 

Dessa forma, o juiz fixava uma pessoa capacitada para servir de carrasco, de cão de guarda do 
judiciário contra o adolescente, ficar vigiando o jovem para coibi‐lo de enveredar‐se na trilha 
do que acreditavam ser irregularidade, limando‐se a acompanhar o caso. 

Ora, dizer que isso é igual a liberdade assistida prevista no ECA não me parece nada adequado. 

VIGIAR X ASSISTIR 

A acepção do termo “assistir” é muito diferente do termo “vigiar”. Enquanto “vigiar” remete a 
idéia  de  inércia  (observar,  espreitar,  estar  atento),  “assistir”  dá  idéia  de  movimento 
(acompanhar, comparecer). “Vigia‐se” o que deve permanecer como está para que não altere 
a  situação  apresentada.  “Assiste‐se”  o  que  precisa  de  proteção,  de  socorro,  o  que  deve  ser 
retirado da situação que se encontrava. 

A  Liberdade  Vigiada  do  Código  de  Menores  de  1927  e  a  Liberdade  Assistida  do  Código  de 
Menores de 1979 em nada se assemelha com Liberdade Assistida. 

Para melhor compreender a ratio legis dos artigos 118‐119 do ECA tenhamos em mente alguns 
pontos preliminares. 

O princípio da proteção integral é o  cerne do Estatuto da Criança e do Adolescente. A partir 
desse princípio surgem outros (sub)princípios que se correlacionam e se entrelaçam ao longo 
dos artigos do ECA. 
Em especial no que diz respeito a todas as medidas socioeducativas elencadas pelo ECA, deve‐
se destacar2: 

a) Principio da excepcionalidade de aplicação de medida socioeducativa; 
b) Principio da brevidade das medidas socioeducativas; 
c) Principio da exata adequação inicial da medida ao jovem; 
d) Principio da última via da privação de liberdade; 
e) Principio da prospecção de futuro sadio (jovem incólume‐adulto incólume) 
 
Tais  princípios  se  justificam  pela  própria  estrutura  do  Estatuto,  que  prima  pela  proteção 
infanto‐juvenil  em  todos  os  seus  artigos.  Trate‐se  de  uma  construção  lógico‐racional  que  faz 
aflorar a necessária proteção do jovem quando da prática de ato infracional, de modo que não 
sofra as mazelas de uma indevida intervenção do judiciário apta a macular a formação daquele 
que virá a tornar‐se em breve um adulto. 
 
Principio da excepcionalidade de aplicação de medida socioeducativa ‐ A aplicação de medida 
socioeducativa  não  deve  ser  banalizada,  o  judiciário  não  deve  interferir  quando  não  houver 
lesão  ou  perigo  concreto  de  lesão.  Assim,  deve  agir  quando  diagnosticada  a  lesão  e,  quando 
verificar  que  existe  um  perigo  concreto  de  lesão  ao  jovem,  a  fim  de  garantir  a  proteção  do 
adolescente. Enquanto for suficiente a aplicação de medidas protetivas, ou mesmo verificar‐se 
que a efetivação de políticas assistenciais e sociais derem conta, não se justifica a imposição de 
medida socioeducativa. 
 
Principio  da  brevidade  das  medidas  socioeducativas  ‐  A  adolescência  é  um  período  muito 
curto, que, juridicamente (art. 2º do ECA), vai dos 12 aos 18 anos. Não se mostra razoável a 
aplicação  de  uma  medida  socioeducativa  por  longo  prazo.  Assim,  o  lapso  de  06  (seis)  meses 
deve  sempre  ser  respeitado  para  a  aplicação  de  PSC,  LA.  Semiliberdade  e  Internação. 
Decorrido  referido  prazo  deve‐se  verificar  a  suficiência  ou  não  da  medida  imposta.  O  que  se 
busca é que a medida seja breve e suficiente para o jovem, já que também é breve o período 
da  adolescência,  e  não  me  parece  correto  que  os  jovens  traspassem  essa  fase  de  suas  vidas 
inteiramente impregnados por uma medida judicial. 
 
Principio da exata adequação inicial da medida ao jovem ‐ A exata adequação inicial da medida 
socioeducativa  é  corolário  da  brevidade,  isso  porque  deve  constatar  imediatamente  qual  a 
medida mais adequada ao caso concreto, sendo que, uma vez iniciada a medida e verificada 
sua inadequação, seja o mais rápido possível providenciada sua alteração, ainda que verificada 
num período inferior de 06 (seis) meses, numa forma de resguardar o adolescente de qualquer 
mácula decorrente de uma inadequação do jovem à medida. 
 
                                                            
2
 Os comentadores do ECA apresentam apenas dois princípios: o da excepcionalidade e o da brevidade. 
Tais princípios são mencionados somente para a medida de internação, contudo, entendo que os cinco 
princípios acima mencionados devem estar presentes em todas as medidas socioeducativas previstas no 
ECA. 
Importa  ressaltar  o  seguinte  fato:  inicialmente  o  magistrado  deve  aplicar  a  medida  que 
entender adequada ao jovem, levando em consideração o ato infracional praticado. Depois de 
aplicada  pelo  juiz,  verificando‐se  a  prática  do  que  foi  imposto,  é  o  jovem  quem  deve  se 
adequar  a  medida  e  não  a  medida  que  deve  se  adequar  ao  jovem.  Explico:  Um  adolescente 
com 13 anos que nunca praticou ato infracional, reside com sua família, frenquenta a escola. 
Juntamente com um adulto praticam um latrocínio (art. 157, § 3º, do Código Penal), onde fica 
apurado  que  foi  o  adulto  quem  disparou  a  arma  de  fogo  que  ocasionou  o  óbito  da  vítima. 
Ainda que se trate de crime praticado mediante grave ameaça e violência pode o magistrado 
entender correta a aplicação de Liberdade Assistida por 06 (seis) meses.  
 
Decorrido  o  prazo  verifica‐se,  então,  a  adequação  do  jovem  à  medida,  isto  é,  se  ela  foi 
suficiente  para  que  o  adolescente  repensasse  seu  ato  e  não  volte  a  cometer  outro  ato 
infracional. Se fosse diferente: a medida que deve ser adequada ao jovem, inequivocamente, 
todas  os  atos  infracionais  cometidos  mediante  grave  ameaça  ou  violência  a  pessoa,  seria 
imposta  ao  adolescente,  ainda  que  se  verifique  que  outra  medida  é  mais  adequada  ao  caso. 
Isso  representa  o  magistrado  cego  que  segue  a  literalidade  da  Lei  não  se  atentando  aos  fins 
sociais da lei. 
 
Principio  da  última  via  da  privação  de  liberdade  ‐  A  internação  deve  ser  a  ultima  via  para  o 
jovem.  Sabemos  que  a  proposta  do  ECA  é  que  a  internação  do  adolescente  seja  em 
estabelecimento  pedagógico,  contudo  o  que  a  prática  nos  mostra  são  presídios  para 
adolescentes.  A  privação  da  liberdade  daquele  que  se  encontra  em  peculiar  condição  de 
pessoa  em  desenvolvimento,  sendo  submetido  e  isolado  ao  cárcere,  não  se  mostra  nada 
pedagógico, nem socieducativo. O que reforça a idéia de ser a internação a última opção, isto 
é, quando esgotadas todas as opções de medidas socioeducativas  
 
Principio da prospecção de futuro sadio (jovem incólume‐adulto incólume) ‐ Ao se impor uma 
medida socioeducativa deve‐se ter claro que a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória, 
logo, inequivocamente, teve‐se ter a prospecção de futuro do socioeducando, pois ao término 
da medida estará livre das amarras do judiciário. Um adolescente que cumpre sua medida sem 
que  seja  vilipendiado  tornar‐se‐á  um  adulto  incólume,  sem  as  marcas  de  uma  incisão  do 
judiciário em sua curta fase de desenvolvimento. 
 
INICIO DO PRAZO DE LIBERDADE ASSISTIDA 
 
Quanto ao início do prazo das outras medidas não se tem dúvidas, já que a internação inicia‐se 
com a privação da liberdade, a semi liberdade também, quanto a PSC inicia‐se no dia em que o 
adolescente começou a prestar o serviço. E a LA, quando inicia? É fácil. A liberdade do jovem 
inicia quando é posto em liberdade pelo julgador. Assim, quando o magistrado em audiência 
aplica  ao  adolescente  que  se  encontrava  apreendido  provisoriamente,  ou  mesmo  ao 
internado, uma medida de LA, é a partir daquele instante em que retoma sua liberdade que se 
inicia a medida de Liberdade Assistida.  
 
Mas se ainda não está assistido, como posso dizer que já iniciou a medida? A resposta é lógica: 
a  liberdade  é  imediata,  a  assistência  é  a  seu  tempo,  já  que  a  incumbência    daquele    que  irá 
assistir, prevista no art. 119, é um momento sucessório. Explico: o jovem deve ficar livre, uma 
vez em liberdade, será acompanhado, auxiliado e orientado pelo educador. São fases distintas 
em que uma precede a outra. 
 
Com efeito, se o adolescente não estivesse em liberdade, o orientador pouco atuaria sobre o 
jovem  (inércia).  Mas  uma  vez  liberto  (movimento),  aí  assim,  pode  acompanhar,  seguir  pari 
passu  a  trajetória  de  superação  do  jovem.  Agora  fica  mais  clara  a  distinção  de  Liberdade 
Vigiada  para  Liberdade  Assistida.  Todo  o  procedimento  que  se  faz  na  Liberdade  Vigiada 
também  pode  ser  aplicado  a  uma  internação!  O  que  não  é  possível  quando  se  trata  de 
Liberdade  Assistida,  sendo,  pois,  pressuposto  lógico  que,  para  o  educador  acompanhar, 
auxiliar e orientar o adolescente, é conditio sine qua non a liberdade. 
 
Mas como fica a questão do prazo?  
 
Imagine  a  seguinte  hipótese:  Um  adolescente  recebeu  LA  por  06  (seis)  meses.  Não 
compareceu  para  o  atendimento  inicial  marcado  para  o  15º  dia depois  da  audiência  em  que 
fora aplicada a medida. Após várias tentativas de contato, depois de 60 dias da data marcada 
para  o  comparecimento  inicial,  foi  informado  ao  magistrado  o  não  comparecimento.  O 
magistrado despachou 15 dias depois de protocolada a informação de não comparecimento, 
determinando a intimação pessoal do adolescente e de seu responsável para comparecer em 
48 horas.  O Oficial de Justiça só conseguiu cumprir o mandado de intimação 20 dias depois. 
Resumindo: o jovem e seu responsável compareceram ao Programa faltando quase dois meses 
para atingir o prazo final de 06 meses inicialmente imposto, e aí, como fica? 
 
Para responder é preciso cautela: O juiz fixa prazo de 06 meses de liberdade assistida. O prazo 
de 06 meses é para que o jovem fique em liberdade. 
 
Nesse tempo, o orientador é quem irá “executar” a medida, isto é, ele terá que acompanhar, 
auxiliar e orientar o adolescente. Essa tarefa ele pode fazer por todo o período determinado 
como também somente nos últimos dois meses. 
 
Logo,  o  prazo  de  06  (seis)  meses  estabelecidos  pelo  juiz  não  é  para  o  adolescente,  é  para  o 
orientador fazer sua “atividade” junto ao jovem. É o orientador quem deve dar conta de suas 
tarefas no prazo de 06 seis (meses), e não o adolescente que está em liberdade. O adolescente 
que  está  livre  não  deve  fazer  nada,  afinal  está  livre,  se  assim  não  fosse  não  estaria  em 
liberdade.  Quando  se  acrescenta  o  termo  “assistida”  a  esta  liberdade,  na  verdade  está 
passando a responsabilidade da manutenção ou não dessa liberdade nas mãos do orientador, 
que  terá  o  difícil  encargo  de,  dentro  de  06  (seis)  meses  acompanhar,  auxiliar  e  orientar  o 
adolescente,  podendo  fazê‐lo  por  todo  o  período  determinado,  como  também  nos  dois 
últimos meses do prazo. 
 
Retornando a questão: Se o orientador estiver convicto que nos dois meses que acompanhou 
o  adolescente  foram  suficientes  para  ter  a  percepção  de    que  o  jovem  superou  o  ato 
infracional,  deve  requerer  a  extinção  da  medida,  caso  contrário,  havendo  dúvidas  ou  não 
sendo possível “executar a sua tarefa” de orientador, deverá requerer novo prazo. 
 
CONDIÇÕES IMPOSTAS – REGRAS DE CONDUTA 
 
Ora,  com  o  advento  da  doutrina  da  proteção  integral,  o  magistrado  deixou  de  ser  um 
interventor  na  vida  do  adolescente,  passando  a  ser  um  protetor.  Nessa  linha  de  raciocino, 
verifica‐se que o ECA ao descrever as medidas socioeducativas em momento algum diz que o 
magistrado  irá  redigir  termo  de  conduta,  em  momento  algum  estabelece  que  o  adolescente 
deverá  seguir  as  regras  impostas  pelo  magistrado.  Por  quê?  Porque  a  doutrina  da  situação 
irregular  foi  superada.  Não  se  pode  impor  regras  de  conduta  ao  jovem,  não  há  mais  espaço 
para esse tipo de interferência do judiciário. 
 
A imposição de qualquer regra de conduta ao adolescente como requisito de cumprimento de 
medida é escancaradamente inconstitucional. 
 
Infelizmente, o que se verifica é a manutenção da doutrina da situação irregular, em especial o 
disposto  no  Código  Mello  Mattos  que  ao  se  aplicar  a  medida  de  liberdade  assistida,  o 
magistrado deveria impor regras de procedimento ao jovem (art. 92, 2 do Código de Menores 
de 1927): 

Art. 92 – A liberdade vigiada consiste em ficar o menor em companhia e sob a responsabilidade 
dos pais, tutor ou guarda, ou aos cuidados de um patrono, e sob a vigilância do juiz, de acordo 
com os preceitos seguintes: 

(...) 

2  –  O  juiz  pode  impor  aos  menores  as  regras  de  procedimento  e  aos  seus  responsáveis  as 
condições, que achar convenientes. 

 
 Já  no  Código  de  Menores  de  1979,  os  pais  ou  responsáveis  deveriam  firmar  termo  de 
compromisso,  onde  o  juiz  verificaria  o  cumprimento  das  obrigações  previstas  no  referido 
termo (art. 43): 
 
Art.  43.  Os  pais  ou  responsáveis  firmarão  termo  de  compromisso,  no  qual  a  autoridade 
judiciária fixará o tratamento a ser ministrado ao menor. 
Parágrafo  único.  A  Autoridade  verificará,  periodicamente,  o  cumprimento  das  obrigações 
previstas no termo. 
 
Ainda hoje vemos este disparate. O magistrado insiste em redigir termo de liberdade assistida 
impondo condições evasivas, tais como: não andar em más companhias; não frequentar bailes 
funks,  barzinhos,  pagodes  ou  similares  e  quiosques  de  praias,  frequentar  templo  religioso, 
ajudar nas tarefas domésticas, entre outras. 
 
Não  bastasse  esse  resquício  de  exigências  dos  antigos  códigos  de  menores,  tem‐se  o 
embasamento da exigência de regras de conduta que são previstas na legislação penal, isto é, 
busca‐se refúgio em lei penal de adulto, numa dupla violação: uma porque se trata de crianças 
e  adolescente,  outra  porque  não  se  impõe  pena  ao  jovem,  mas  medidas  protetivas  e 
socioeducativas. 
 
Nessa busca eloquente para impor regras de condutas aos jovens, usa‐se o abrigo do Código 
Penal  e  da  Lei  de  Execuções  Penais,  aplicando  as  exigências  previstas  para  o  livramento 
condicional, o que se mostra repugnante: 
 
Lei de Execuções Penais: 

Do Livramento Condicional 

Art.  131.  O  livramento  condicional  poderá  ser  concedido  pelo  Juiz  da  execução,  presentes  os 
requisitos do artigo 83, incisos e parágrafo único, do Código Penal, ouvidos o Ministério Público 
e Conselho Penitenciário. 

Art.  132.  Deferido  o  pedido,  o  Juiz  especificará  as  condições  a  que  fica  subordinado  o 
livramento. 

§ 1º Serão sempre impostas ao liberado condicional as obrigações seguintes: 

a) obter ocupação lícita, dentro de prazo razoável se for apto para o trabalho; 

b) comunicar periodicamente ao Juiz sua ocupação; 

c) não mudar do território da comarca do Juízo da execução, sem prévia autorização deste. 

 §  2°  Poderão  ainda  ser  impostas  ao  liberado  condicional,  entre  outras  obrigações,  as 
seguintes: 

 a) não mudar de residência sem comunicação ao Juiz e à autoridade incumbida da observação 
cautelar e de proteção; 

b) recolher‐se à habitação em hora fixada; 

 c) não frequentar determinados lugares. 

 
REAGRAS PARA O ORIENTADOR DA LA   
 
E o art. 119 do ECA, não são regras a serem obedecidas pelo adolescente? 
 
Não.  Trata‐se  de  atividades  que  deverão  ser  promovidas  pelo  orientador,  como  bem  diz  no 
início do art. “Incumbe ao orientador”: 
 

Art.  119.  Incumbe  ao  orientador,  com  o  apoio  e  a  supervisão  da  autoridade  competente,  a 
realização dos seguintes encargos, entre outros: 

I ‐ promover socialmente o adolescente e sua família, fornecendo‐lhes orientação e inserindo‐
os, se necessário, em programa oficial ou comunitário de auxílio e assistência social; 
II  ‐  supervisionar  a  frequência  e  o  aproveitamento  escolar  do  adolescente,  promovendo, 
inclusive, sua matrícula; 

III ‐ diligenciar no sentido da profissionalização do adolescente e de sua inserção no mercado 
de trabalho; 

IV ‐ apresentar relatório do caso. 

 
 Veja,  é  o  orientador  quem  deve  inserir  a  família  do  adolescente  em  programa  de  auxílio  e 
assistência  social.  É  o  orientador  quem  deve  supervisionar  o  aproveitamento  do  jovem  na 
escola e promover sua matricula. É o orientador quem deve diligenciar para inserir o jovem no 
mercado de trabalho. Claro que não poderia ser diferente, mais uma vez, fica claro a acepção 
do termo “assistida” da liberdade. O jovem, em liberdade, sofrerá a assistência do orientador 
para  matriculá‐lo,  para  ajudar  no  mercado  de  trabalho,  incluir  sua  família  em  programas  de 
assistência. 
 
Mas se o jovem não frequenta a escola? Se o jovem não se entende com seus pais? Se o jovem 
consome drogas ilícitas? O que fazer? 
 
Essa resposta já não é tão simples! 
 
Deve‐se  perguntar  se  as  ações  dos  profissionais  do  Programa  de  Liberdade  Assistida  foram 
suficientes  para  o  adolescente.  Deve‐se  perguntar  se  o  jovem  mostrou‐se  merecedor  da 
extinção  da  medida.  Deve‐se  perguntar  se  outra  medida  socioeducativa  se  faz  necessária. 
Deve‐se  perguntar  se  o  prazo  da  medida  foi  suficiente  para  se  ter  uma  avaliação.  Deve‐se 
perguntar se foi possível semear uma prospecção de futuro sadio ao adolescente. 
 
Verificado  que  a  medida  socioeducativa  de  Liberdade  Assistida  logrou  êxito  no 
acompanhamento,  auxilio  e  orientação  do  adolescente,  tendo  alcançado  o  objetivo  de 
socioeducação, a extinção da medida deve ser requerida pelo orientador. 
 
 
Ricardo  Miranda  é  filósofo,  advogado,  especialista  em  Direito  Penal  e  Processo  Penal, 
assessor jurídico do Programa de Liberdade Assistida Comunitária e Prestação de Serviço à 
Comunidade  –  LAC/PSC  do  Centro  Salesiano  do  Menor  ‐  CESAM  e  Prefeitura  Municipal  de 
Vitória ‐ PMV‐ES. E‐mail: ricardomirandaadv@terra.com.br