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HISTÓRIA DO COMPADRE RICO E DO COMPADRE POBRE

Moravam numa aldeia dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito miserável.
Naquela terra era uso todos quantos matavam porco dar um lombo ao abade. O compadre rico,
que queria matar porco sem ter de dar o lombo, lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso.
Este deu-lhe de conselho que matasse o porco e o dependurasse no quintal, recolhendo-o de
madrugada, para depois dizer que lho tinham roubado.

Ficou muito contente com aquela ideia e seguiu à risca o que o compadre pobre lhe tinha dito.
Depois deitou-se com tenção de ir de madrugada ao quintal buscar o porco. Mas o compadre
pobre, que era espertalhão, foi lá de noite e roubou-lho. No dia seguinte, quando o rico deu
pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e muito aflito contou-lhe o acontecido.
Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe: «Assim, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem!
Assim é que há-de dizer para se esquivar de dar o lombo ao abade!»

O rico cada vez teimava mais ser certo terem-lhe roubado o porco; e o pobre cada vez se ria
mais, até que aquele saiu desesperado, porque o não entendiam.

O que roubou o porco ficou muito contente e disse à mulher: «Olha, mulher, desta maneira
também havemos de arranjar vinho. Tu hás-de ir a correr e a chorar para casa do compadre,
fingindo que eu te quero bater; levas um odre debaixo do fato, e quando sentires a minha voz,
foges para a adega do compadre e enquanto eu estou falando com ele, enches o odre de vinho
e foges pela outra porta para casa.» A mulher, fingindo-se muito aflita, correu para casa do
compadre, pedindo que lhe acudisse, porque o marido a queria matar. Nisto ouviu a voz do
marido e correu para a adega do compadre, e enquanto este diligenciava apaziguar-lhe a ira,
enchia ela o odre. Tinha-lhe esquecido, porém, um cordão para o atar, mas tendo uma ideia
gritou para o marido: «Ah! Goela de odre sem nagalho!» O marido, que entendeu, respondeu-
lhe: «Ah, grande atrevida!... Que se lá vou abaixo, com a fita do cabelo te hei-de afogar!» Ela,
apenas isto ouviu, desatou logo o cabelo, atou com a fita a boca do odre e fugiu com ela para
casa. Desta maneira tiveram porco e vinho sem lhes custar nada, e enganaram o avarento do
compadre.

(Beira Baixa)

O PRÍNCIPE SAPO

Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a mulher disse que
Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo. Houve de ter um filhinho como um sapo;
depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria criar, mas ninguém se animava a vir. O
rei, vendo que o sopito do filho não havia quem o queria criar, anunciou que, se houvesse
alguma mulher que o quisesse criar, lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí
apareceu uma rapariga e disse: «Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo
criar.» O rei disse que sim e a rapariga veio criar o sopito. Depois passou algum tempo e ele foi
crescendo e ela lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns
olhos muito bonitos e falava, e a rapariga dizia: «Os olhos dele e a fala não são de sapo.» Já
estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam ao
ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava formado
em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e quando fosse na
primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela levasse sete saias e quando
ele dissesse: «Tira uma saia», lhe dissesse ela: «Tira uma pele.» Assim foi e casou o sapo com
a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo
que tirasse as peles e depois de ele as tirar ficou um homem. Ao outro dia ele tornou a vestir as
peles e ficou outra vez sapo. E ela disse-lhe: «Tu para que vestes as peles? Assim és tão
bonito e vais ficar sapo.» «Assim me é preciso, cala-te.» Ela, assim que se pôs a pé, foi contar
tudo à rainha, e o rei mais a rainha disseram-lhe: «Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e
depois de ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir
vê-lo.» Foram-no ver e viram que ele era homem. Ao outro dia o príncipe tornou a vestir as
peles e vai o pai disse-lhe: «Tu, porque vestes as peles e queres ser feio?» «Eu quero ser
sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha mulher.» O rei
disse-lhe: «Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito.» Depois, como viram que ele
não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele adormecesse, lhes trouxesse
as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles botaram as peles ao fogo aceso. De
manhã vai ele para vestir as peles e não as acha. «Que é das peles?» «Vieram aqui o teu pai e
a tua mãe e levaram-nas.» «Mal hajas tu se lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus.
Se alguma vez me tornares a ver, dá-me um beijo na boca.»

A mulherzinha ficou mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou, puseram-na fora
da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei lá ficou e ela estava muito
pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se tinham visto um homem assim e assim
e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a
pergunta. Os moços dos cegos disseram-lhe: «Nós vimos no rio Jordão um homem e
certamente era ele; estava botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: «Pela alma
de meu pai, pela alma de minha mãe, pela alma de minha mulher.» Ela disse-lhes: «Vocês
quando tornam para essa banda?» «Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos
de passar por esse rio.» A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o príncipe.
Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e disse-lhe: «Ora vamos
embora, que se acabou o nosso fado.» E foram para casa e foram muito felizes e tiveram
muitos filhos.

BELA-MENINA

Era uma vez um homem; vivia numa cidade e trazia navegações no mar, e depois foi ele e deu
em decadência por se lhe perderem as navegações. Ele teve o seu pesar e não podia viver
com aquela decência com que vivia no povoado e tinha umas terrinhas na aldeia e disse para a
mulher e para as filhas: «Não temos remédio senão irmos para as nossas terrinhas; se vivemos
com menos decência que até aqui, somos pregoados dos nossos inimigos.»

A mulher e uma filha aceitaram, mas as outras duas filhas começaram a chorar muito. E depois
foram. A que tinha ido de sua vontade era a mais nova e chamava-se Bela-Menina; cantava
muito e era a que cozinhava e ia buscar erva para o gado, de pés descalços; as outras metiam-
se no quarto e não faziam senão chorar. Quando o pai ia para alguma parte, as mais velhas
sempre pediam que lhes trouxesse alguma coisa e a mais nova não lhe pedia nada. Vai nisto,
veio-lhe uma carta de um amigo dizendo que as navegações que vinham aí, que tiveram
notícia e que fosse vê-las.

O homem caminhou mais um criado saber das tais navegações; quando saiu, disseram as
suas filhas mais velhas que, se as navegações fossem as dele, lhes levasse algumas coisas
que lhe declararam. E ele disse à mais nova: «Ora todas me pedem que lhes traga alguma
coisa. Só tu não me pedes nada?» «Vou pedir-lhe também uma coisa; onde o meu pai vir o
mais belo jardim, traga-me a mais bela flor que lá houver.» O pai foi e chegou a uma cidade e
reconheceu que as navegações não eram dele e foi-se embora com a bolsa vazia. Chegou a
um monte e anoiteceu-lhe; ele viu uma luz e dirigiu-se para ela a ver se encontrava quem o
acolhesse. Chegou lá e viu uma casa grande e estropeou à porta; não lhe falaram; tornou a
estropear; não lhe falaram. E disse ao moço: «Vai aí pelo portal de baixo ver se vês alguém.» O
moço foi e voltou: «Veio lá muitas luzes dentro e cavalos a comer e penso para lhe botar; mas
não veio ninguém.»

Então o homem mandou meter o cavalo na cavalariça e entraram na cozinha. Acharam lá que
comer e, como a fome não era pequena, foram comendo muito. E nisto aí vem por essa casa
adiante uma coisa fazendo um grande ruído, assim como umas cadeias que vinham a rastos
pela casa adiante e depois chegou ao pé deles um bicho de rastos e disse-lhes: «Boas-noites.»
Eles puseram-se a pé com medo e disseram-lhe: «Nós viemos aqui por não acharmos abrigo
nem que comer noutra parte; mas não vimos fazer mal a ninguém.» «Deixai-vos estar e
comei.» Demorou-se um pouco o bicho e disse-lhes: «Ora ide-vos deitar que eu também vou
para o meu curral.» E começou-se a arrastar pela cozinha e foi. Ao outro dia o homem foi ao
jardim, que era o mais belo que tinha visto, e disse: «Já que não posso levar nada para as
minhas filhas mais velhas, quero ao menos levar a flor para a Bela-Menina...» Estava a cortar a
flor e nisto o bicho salta-lhe: «Ah, ladrão! Depois de eu te acolher em minha casa, tu vens-me
colher o meu sustento, que eu não me sustento senão em rosas.» E ele disse: «Eu fiz mal, fiz;
mas eu tenho lá uma filha que me pediu que lhe levasse a mais bela flor que eu visse na
viagem, e não podendo levar nada às outras filhas, queria ao menos levar a flor; mas se a
quereis ela aí fica.» «Não, levai-a e se me trouxerdes cá essa filha, ficais ricos.» O homem
caminhou e chegou a casa muito apaixonado por não trazer nada às outras filhas e não achar
as navegações e pegou na flor e deu-a à Bela-Menina.

A filha, assim que viu a flor, disse: «Oh, que bela flor! Onde a achou, meu pai?» O pai contou-
lhe o que vira e a filha disse: «Ó meu pai, eu quero ir ver.» «Olha que o bicho fala e disse
também que te queria ver.» «Pois vamos.» E foram. A filha, assim que viu o tal bicho, disse: «Ó
pai, eu quero cá ficar com este bicho, que ele é muito bonito.» O pai teve a sua pena, mas
deixou-a. Passado algum tempo, ela disse: «Ó meu bichinho, tu não me deixas ir ver os meus
pais?» E ele disse-lhe: «Não, tu não vais lá por ora; teu pai vem cá.» O pai veio e disse ao
bicho: «Eu queria levar a rapariga.» «Não me leves daqui a rapariga, senão eu morro e tu vai
ali àquela porta e abre-a e leva dali a riqueza que tu quiseres e casa as tuas filhas.» O homem
que mais quis?

Um dia o bicho disse à Bela-Menina: «A tua irmã mais velha lá vem de se receber; tu queres
vê-la?» «Quero.» «Vai ali e abre aquela porta.» Ela foi e viu a irmã com o noivo e os pais.
«Agora deixa-me ir ver o meu cunhado.» «Eu deixava, deixava; mas tu não tornas.» «Torno;
dá-me só três dias que eu em um dia e meio chego lá e torno cá noutro dia e meio.» «Se não
vieres nestes três dias, quando voltares achas-me morto.» Ela foi; no fim dos três dias ela veio,
mas tardou mais um pouquito que os três dias; ela foi ao jardim e viu-o deitado como morto.
Chegou ao pé dele, «Ai meu bichinho!» E começou a chorar. Ele caiu e ela disse: «Coitadinho,
está morto; vou dar-lhe um beijinho.» E deu-lhe um beijo, mas o bicho fez-se um belo rapaz.
Era um príncipe encantado que ali estava e que casou com ela.

COMADRE MORTE

Havia um homem que tinha tantos filhos, tantos que não havia ninguém na freguesia que não
fosse compadre dele e vai a mulher teve mais um filho. Que havia do homem fazer? Foi por
esses caminhos fora a ver se encontrava alguém que convidasse para compadre.

Encontrou um pobrezito e perguntou-lhe se queria ser compadre dele.

– Quero; mas tu sabes quem eu sou?

– Eu sei lá; o que eu quero é alguém para padrinho do meu filho. – Pois, olha, eu cá sou Deus.

– Já me não serves; porque tu dás a riqueza a uns e a pobreza a outros.

Foi mais adiante; e encontrou uma pobre e perguntou-lhe se queria ser comadre dele.

– Quero; mas sabes tu quem eu sou?

– Não sei.

– Pois, olha, eu cá sou a Morte.

– És tu que me serves, porque tratas a todos por igual.


Fez-se o baptizado e depois disse a Morte ao homem:

– Já que tu me escolheste para comadre, quero-te fazer rico. Tu fazes de médico e vais por
essas terras curar doentes; tu entras e se vires que eu estou à cabeceira é sinal que o doente
não escapa e escusas de lhe dar remédio; mas se estiver aos pés é porque escapa; mas livra-
te de querer curar aqueles a que eu estiver à cabeceira, porque te dou cabo da pele.

Assim foi. O homem ia às casas e se via a comadre à cabeceira dos doentes abanava as
orelhas; mas se ela estava aos pés receitava o que lhe parecia. Vejam lá se ele não havia de
ganhar fama e patacaria, que era uma coisa por maior! Mas vai uma vez foi a casa dum doente
muito rico e a Morte estava à cabeceira; abanou as orelhas; disseram-lhe que lhe davam tantos
contos de réis se o livrasse da Morte e ele disse:

– Deixa estar que eu te arranjo, e pega no doente e muda-o com a cabeça para onde estavam
os pés e ele escapa.

Quando ia para casa sai-lhe a comadre ao caminho:

-Venho buscar-te por aquela traição que me fizeste.

– Pois, então, deixa-me rezar um padre-nosso antes de morrer.

– Pois reza.

Mas ele rezar; qual rezou! Não rezou nada e a Morte para não faltar à palavra foi-se sem ele.

Um dia o homem encontra a comadre que estava por morta num caminho; e ele lembrou-se do
bem que ela lhe tinha feito e disse:

– Minha rica comadrinha, que estás aqui morta; deixa-me rezar-te um padre-nosso por tua
alma.

Depois de acabar, a Morte levantou-se e disse:

– Pois já que rezaste o padre-nosso, vem comigo.

O homem era esperto; mas a Morte ainda era mais; pois não era?

O MENINO SEM OLHOS

Uma mãe teve dois filhos.

Eles foram pedir esmola, que não tinham nada.

Ela deu-lhes um farnel e perguntou-lhes se queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar
cada um o seu farnel.

O mais velho disse que era melhor cada um levar o seu farnel.

Assim foi.

No caminho o irmão mais novo perguntou ao irmão se era melhor comerem cada um do seu
farnel ou comerem primeiro um e depois o outro.

O mais velho disse que era melhor assim.


Assim foi.

No primeiro dia comeram ambos a comida do mais novo.

No segundo dia, eram já horas de almoçar, disse o mais novo:

– Ó irmão, vamos agora comer?

O mais velho respondeu-lhe:

– Não, que ainda é cedo.

Depois ia comendo e o mais novo não comia nada.

Ao jantar, o mesmo; enfim, o irmão mais novo já levava tanta fome que lhe tornou a pedir ao
menos um bocadinho de pão.

O mais velho disse-lhe:

– Se me deixares tirar um olho, dou-te.

O mais novo, como estava desesperado com fome, obrigou-se a deixar tirar um olho. Mas o
irmão mais velho tirou-lhe o olho, mas não lhe deu o bocadinho de pão.

O mais novo tornou a pedir-lhe ao menos metade. O irmão disse-lhe:

– Pois só te dou metade se me deixares tirar o outro olho.

Depois o mais velho foi-se embora e deixou o irmão ali só e desamparado.

O menino, vendo-se cego, deixou-se por lá andar a ver se encontrava alguém que o guiasse no
caminho.

Chegou abaixo de um monte e ouviu cantar a água de um rio, e ali parou dizendo consigo:

– Nada, daqui não passo eu, que, como não veio nada, posso meter-me ao rio e morrer
afogado.

Conheceu que era noite e foi indo às apalpadelas e encontrou uma árvore e abanou com ela, e
ouviu cantar as folhas e depois trepou para cima e ali ficou naquela árvore.

Próximo à árvore estava uma ponte, onde costumava ir o demónio com as bruxas fazer
audiência.

Daí a pouco vieram todas, conforme é costume, e estavam perguntando umas às outras o que
tinham feito naquele dia.

Uma delas respondeu ao demónio que tinha cortado as águas à capital da França, onde que ao
fim de três dias morreria tudo à sede.

O demónio perguntou-lhe o que tinha ela feito para cortar essas águas.

Diz ela:
– Eu, no espaço de quatro a cinco léguas, por onde passa a água, encantei uma cobra e meti-a
no canal da água, onde a cobra está presa de cabeça e rabo dentro de um anel, e a água está
presa no meio do rolo da cobra.

O demónio perguntou:

– Então não haverá outra vez remédio para soltar essa água para a cidade?

A bruxa disse:

– Há, mas eu não digo a ninguém.

O demónio disse:

– Então, nem a mim?

A bruxa respondeu:

– A ti sim, como mestre. O remédio é havendo quem se aventure a lá ir com uma lança de ouro
e tirar o anel que está dentro da cobra sem a ferir; tanto corre a cobra para o monte, como a
água que vem da fonte.

O menino, que estava em cima da árvore, aprendeu isto tudo.

Uma outra bruxa disse:

– Eu também enfeiticei o rei da Itália, que está encarangado (entrevado, perro dos nervos do
corpo) de todos os membros do corpo que se não pode mover para lado algum. E toda a
família real morre desta aflição.

O demónio perguntou:

– Então, que lhe fizeste tu para ele estar assim encarangado?

Respondeu a bruxa:

– Cosi os olhos a um sapo, com a mesma linha apertei o sapo de pés e mãos e tudo, e meti-o
debaixo da cama de Sua Majestade.

O demónio perguntou:

– Então não haverá remédio para dar outra vez saúde a este rei?

A bruxa disse:

– Há, havendo quem vá daqui à Itália ao jardim do rei, que tem um marmeleiro em cima de um
chafariz, e havendo quem lhe colha o primeiro ranco (arranco, ramo), que faz um S em cima do
chafariz, e lhe aguçar a ponta do feitio de uma lança, e pescar com ela um peixe azul que anda
dentro do tanque, e derretê-lo numa bilha que não tenha levado nada, e levantando o pé
esquerdo do leito do rei e tirando o sapo que está metido debaixo, e descosendo-lhe os olhos e
desamarrando-o de modo que não se fira o sapo, e deitando depois o sapo ao jardim. Estando
o peixe derretido, dar depois uma untura ao rei, e daí a pouco logo o rei está com a sua saúde,
mas decerto o rei morre porque eu não o conto a ninguém.

O menino, que estava em cima da árvore à escuta, aprendeu tudo.


Depois uma outra bruxa disse ao demónio:

– E tu, o que é que fizeste?

O demónio respondeu:

– Eu já fiz obra maravilhosa, já fiz com que tirasse os olhos um irmão ao outro; também já há
três dias que tenho feito com que uns bem-casados se dêem mal.

A bruxa perguntou-lhe:

– Então que fizeste tu para um irmão tirar os olhos ao outro?

O demónio respondeu:

– Atentei-o para o mais velho não dar um bocadinho de pão ao mais novo sem lhe tirar os
olhos.

A bruxa perguntou:

– Então não haverá remédio para esse menino ficar outra vez com vista?

O demónio disse:

– Há, mas como o há-de ele saber se eu não conto a ninguém?

A bruxa disse:

– Mas deves contá-lo a nós, como nós te contámos tudo a ti.

O demónio então disse:

– Está aqui perto uma árvore, cortando-lhe três folhas e cuspindo-lhe três vezes, antes de
amanhecer, e pisando estas folhas na mão, com o sumo da folha e com cuspo da boca,
untando as capelas dos olhos (pálpebras), aí se fica com a vista natural.

– E para se darem outra vez os bem-casados como se davam?

O demónio respondeu:

– Indo a uma igreja matriz, colhendo uma bilha de água benta da pia do baptismo, colhendo
umas ervinhas que lhes chamam os cristãos alecrim.

A bruxa perguntou:

– Então, que fizeste tu para esses casados se darem mal?

O demónio respondeu:

– Aqui ao cimo deste monte moravam uns bem-casados, e eu fui-me meter debaixo da cama.
O homem, quando entrava de fora para dentro, olhava paro debaixo da cama e via-me lá
figurou-se-lhe que era um homem e começou logo a maltratar a mulher de más palavras. Assim
se começou de dar mal, julgando que a mulher andava amigada. A mulher não fazia senão
chorar e dizer que tal coisa não fazia.
A bruxa perguntou:

– Então, não haverá outra vez remédio para eles ficarem bem?

O demónio respondeu:

– Sim, então já te não disse que em ir buscar a bilha de água benta da casa em cruz, quando
me lá vir, que eu fujo, e assim se tornam eles a darem-se bem?

Nisto, o menino, que estava em cima da árvore, aprendeu tudo; depois pegou nas folhas da
árvore, que era a mesma onde ele estava, e fez o que disse o demónio. Depois ficou logo com
vista.

Assim que foi dia, desceu pela árvore abaixo e tratou logo de procurar a cosa dos mal-casados.

Fez tudo quanto o demónio disse e eles ficaram bem.

Dali passou à França e desencantou a cobra e deu água à cidade.

O rei de França deu-lhe logo uma porção de dinheiro.

Depois foi para a Itália e fez também o mesmo que a bruxa tinha dito ao demónio.

Quando o peixe estava derretido, o menino falou para o rei e disse:

– Real Senhor, tenha a bondade de mandar todos os médicos embora, que Vossa Real
Majestade hoje ainda os há-de ir visitar a casa.

O rei assim fez.

Depois o menino esfregou-o com o óleo do peixe e ficou o rei logo curado.

Depois que o rei se achou bom, levou o menino para o palácio e depois casou com a filha do
rei.

O rei morreu e ele ficou senhor do reinado.

Nisto, o irmão mais velho andava pedindo pelo mundo; foi andando de terra em terra, até que
foi dar ao reino do irmão, mas sem saber.

Um dia estava o rei à janela mais a rainha e viu aquele homem e conheceu que era o irmão e
disse para a sentinela que estava à porta do palácio:

– Ó sentinela, prenda-me aquele homem e traga-mo cá à minha presença.

Neste momento foi-se o rei fardar com as suas insígnias como rei e sentou-se no trono.

A sentinela levou o preso à presença do rei.

Depois o rei começou a perguntar ao homem de que terra era ele.

O preso estava sem saber o que havia de dizer. Afinal lá contou a sua vida. Depois o rei
perguntou-lhe:

– Que é feito da tua mãe?


Ele disse:

– Eu não sei, porque desde que saí de casa não tornei lá a voltar.

– E que é feito de teu irmão?

– Então Vossa Majestade conhecia meu irmão?

O rei disse que sim e perguntou-lhe porque é que ele lhe tinha tirado os olhos.

O irmão começou a negar. O rei disse-lhe então que bem sabia que tinha sido por tentação do
diabo e que ele era o seu irmão.

Depois ficou no palácio com o rei, que lhe perdoou.

O SAL E A ÁGUA

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A
mais velha respondeu:

– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.

Respondeu a do meio:

– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.

A mais moça respondeu:

– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.

O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora
do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu
para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou
dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de
quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi
chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo
apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.

Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com
trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho
para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar
do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera
fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser
postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei
convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não
comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:

– É porque a comida não tem sal.

O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não
tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a
viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por
sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de
sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

O SARGENTO QUE FOI AO INFERNO


Havia numa terra um sargento, que era muito bom rapaz; um rico mercador tomou-lhe
amizade, arranjou-lhe a baixa e tomou-o para seu empregado. Como o mercador tinha filhas, o
sargento apaixonou-se por uma delas: ora o mercador era muito desconfiado e nunca deixava
sair as filhas de casa, mas pela grande conta em que tinha o rapaz ele mesmo lhe falou para
se fazer o casamento. Tudo corria muito bem; vai, acontece ir uma peça muito linda no teatro, e
como as filhas desejassem ver, pediram ao sargento, que só ele é que era capaz de apanhar
licença do pai para as deixar ir ver. O mercador ficou carrancudo, mas deu licença, dizendo:

– Deixo ir as minhas filhas com o senhor, e é com a condição, que quando der a última
badalada da meia-noite hão-de estar aqui à porta.

Disseram todos que sim, e partiram.

Quase perto da meia-noite, o rapaz disse para a sua noiva, que era bom retirarem-se para
casa. Mais um bocadinho, mais um bocadinho; pede daqui, pede dali, o certo é que já tinha
dado a meia-noite, eles ainda longe de casa.

Assim que o rapaz bateu à porta, abriu-se logo de repente, e o mercador começou a bradar:

– Foi assim que o senhor cumpriu as ordens que eu lhe dei? Pois trate já de arranjar as suas
coisas que nem já esta noite me fica em casa.

– Oh senhor, então só por isto! E quando estava já para casar com sua filha!

O velho respondeu-lhe:

– Só tem um meio de poder casar com minha filha, e voltar para casa.

– Qual?

– Vá ao Inferno, e traga-me três anéis que o Diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços, e
outro num olho.

O rapaz achou aquilo impossível; mas que remédio teve senão pôr-se a caminho. Na primeira
terra a que chegou, pregou um edital em que dizia: "Quem quiser alguma coisa para o Inferno,
amanhã parte um mensageiro." Isto causou grande curiosidade, até que chegou aos ouvidos
do rei, que mandou chamar o rapaz. Perguntou-lhe o rei:

– Como é que você vai ao Inferno?

– Real senhor, por ora ainda não sei; ando em procura dele, e irei lá, dê por onde der.

– Pois bem, disse o rei, quando encontrares o Diabo, pergunta-lhe se ele sabe de um anel de
muito valor que eu perdi, do que ainda tenho grande desgosto.

Chegou o rapaz a outra terra e botou o mesmo anúncio. O rei também o mandou chamar:

– Tenho uma filha que padece uma doença muito grande, e ninguém lhe acerta com o mal. Já
que vais ao Inferno quero que saibas por lá onde é que estará a cura.

O rapaz partiu sempre à procura do Inferno, e foi dar a uma encruzilhada em que estavam dois
caminhos, um com pegadas de gente, e o outro com pegadas de ovelhas. Pensou, e por fim
seguiu pelo caminho das pegadas de gente; ao meio dele encontrou um ermitão, de barbas
brancas, que rezava em umas camândulas muito grandes, e lhe disse:

– Ainda bem que tomaste por este caminho, porque esse outro é o que vai para o Inferno.
– Oh, senhor! E eu há tanto tempo que ando à procura dele!

O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão dele, e disse:

– Já que tens de ir ao Inferno, vai, mas sempre leva contigo estas contas, porque antes de lá
chegar tens de passar um rio escuro, e há-de ser um pássaro que te há-de levar para o outro
lado; e quando ele te quiser afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. Daqui em diante
não sei mais o que te sucederá.

Assim aconteceu. Chegado ao Inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno
vazio e escondeu-se dentro dele. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito
velha e viu-o.

– O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza.
O que veio cá fazer?

O rapaz contou tudo à mãe do Diabo; a velha teve pena dele, e disse-lhe:

– Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; ele está
assistindo à morte do Padre Santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma. O rapaz
pediu à velha se sabia do Diabo as perguntas de que trazia encomenda. Quando estavam
nestas conversas chegou o Diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse:

– Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu colo.

O Diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e
arrancou-lhe um anel que tinha debaixo do braço. O Diabo mexeu-se desesperado, gritando:

– Isto o que é?

– Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedela em cima de ti. Estava a sonhar
com aquele rei que perdeu o anel, e que nunca mais o tornou a achar.

– Pois é verdade esse sonho, respondeu o Diabo; está debaixo de uma laje ao pé do repuxo do
jardim.

O Diabo tornou a ficar a dormir; a velha sorrateira arrancou-lhe o segundo anel. O Diabo tornou
a acordar desesperado:

_ Tem paciência, filho; tornei-me a deixar dormir e a sonhar com a filha daquele rei que nenhum
médico sabe curar.

– Também é verdade; a doença dela é o sapo-sapão, que está metido no enxergão.

Tornou o Diabo a dormir. Para arrancar o anel do olho é que foram os trabalhos.

A velha tirou-o com um espéculo, e o diabo com a dor e zangado com as pendedelas, saiu pela
porta fora. O rapaz recebeu tudo da velha; voltou para o mundo, quando ela chamou o pássaro:
"Menino, menino, menino." Foi dali entregar as contas ao ermitão. Depois passou pela terra do
rei que tinha perdido o anel, que lhe deu muito dinheiro quando o tornou a achar debaixo da
laje. Depois passou pela corte do rei que tinha a filha doente, disse onde estava o sapo-sapão.
A princesa melhorou logo, e o rei pediu-lhe para que dissesse a paga que queria.

– Quero que Vossa Majestade me dê o seu poder por oito dias.


O rei mandou deitar um pregão para ele governar oito dias; o rapaz partiu logo para a terra do
sogro, e deu ordem logo que lá chegou para o mercador dentro em meia hora lhe vir falar à sua
presença. O mercador foi, mas quando chegou era já mais de uma hora. O rapaz disse:

– Podia-o mandar matar, por me ter desobedecido, em vir depois da meia hora.

– Oh senhor, não me demorei por minha vontade.

– Pois sim. Mas porque não soube em tempo desculpar aquele pobre sargento que pôs fora de
sua casa?

O mercador conheceu então o antigo noivo de sua filha, que tinha sempre chorado, confessou
o seu erro, e pediu-lhe de joelhos muitos perdões. O rapaz entregou-lhe os anéis do Diabo, e
nesse mesmo dia casou com a sua namorada, por quem tinha metido um pé no Inferno.

SEMPRE NÃO

Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada:
receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a
mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não. Assim
pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer
aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a
mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a
olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e
cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo
ali uma grande paixão, e disse:

– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?

Ela respondeu:

– Não!

O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:

– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?

Ela respondeu:

– Não.

Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:

– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?

Ela respondeu:

– Não.

Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e
virou as suas perguntas:

– Então fechais-me o vosso castelo?

Ela respondeu:
– Não.

– Recusais que pernoite aqui?

– Não.

Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o
que lhe dizia ela foi sempre respondendo

– Não.

Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:

– Consentis que eu fique longe de vós?

Ela respondeu:

– Não.

– E que me retire do vosso quarto?

– Não.

O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e
contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não;
mas quando ia já a contar a modo como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter
mão em si, perguntou agoniado:

– Mas onde foi isso cavaleiro?

O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:

– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande
solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.

O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

OS DEZ ANÕEZINHOS DA TIA VERDE-ÁGUA

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem
tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava
em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à noite nem
água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem lhe pôs as
mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe
bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fados a
ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:

– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.

– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para
te ajudarem.

E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem;
que quando pela manha se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume,
depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em
que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim
indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez
anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. logo à boca da noite foi a
casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu
nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as
coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao
fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que
assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo
porque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe
fez:

– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e
o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.

A velha respondeu-lhe:

– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?

– Ainda não; o que eu queria era vê-los.

– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos, e os teus dedos é que soo os dez
anõezinhos.

A mulher compreendeu a causa, e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz
luzir o trabalho.

O APRENDIZ DE MAGO

Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa
quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:

– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo,
senão morres.

O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas
viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta
a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:

– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?

O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma
recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e
apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e
já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:

– Ai que agora é que estou perdido!

O cavalo branco falou-lhe:

– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes
em mim.

Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo
branco e grita:

– Foge! que aí chega o meu tio para me matar.


O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:

– Corre! que meu tio já me apanha para me matar.

O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:

– Deita fora o ramo.

Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela,
puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar:

– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar.

Disse o cavalo branco:

– Bota fora a pedra.

Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto
eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz:

– Corre, que meu tio agarra-nos.

– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.

Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra
onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que
quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera
ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.

– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode
chegar.

– Pois eu sou capaz de ir lá.

Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz
valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o
gigante dormindo.

A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:

– Porque choras tanto, minha filha?

– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não
tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.

O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que
ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel,
mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o
jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.

O BOI CARDIL

Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que
nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a
que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas
tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um
fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:

– Porque te ris? – perguntou o rei.

– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.

– Este não!

– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.

Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e
andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai,
disse:

– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.

O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e
cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que
guardava o boi Cardil. Ela começou logo:

– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.

O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos
deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do
seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.

A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o
fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma
mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que
punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.

Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe

– Então como vai o boi?

O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:

Senhor! pernas alvas

E corpo gentil,

Matar me fizeram

Nosso boi Cardil.

O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a
aposta, e disse para o fidalgo:

– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha.
E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.

O CALDO DE PEDRA

Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar
nada. O frade estava a cair com fome, e disse:
– Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e
pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir
do frade e daquela lembrança. Diz o frade:

– Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

Responderam-lhe:

– Sempre queremos ver isso.

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:

– Se me emprestassem aí um pucarinho.

Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.

– Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.

Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:

– Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.

Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que
via. Diz o frade, provando o caldo:

– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.

Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:

-Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.

A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com
os dedos deitando as folhas na panela.

Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:

– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...

Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou do


alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu
e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que
estava com os olhos nele, perguntou-lhe:

– Ó senhor frade, então a pedra?

Respondeu o frade:

– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.

E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

AS TRÊS CIDRAS DO AMOR

Era uma vez um príncipe, que andava à caça: tinha muita sede, e encontrou três cidras; abriu
uma, e logo ali lhe apareceu uma formosa menina, que disse:
– Dá-me água, senão morro.

O príncipe não tinha água, e a menina expirou. O príncipe foi andando mais para diante, e
como a sede o apertava partiu outra cidra. Desta vez apareceu-lhe outra menina ainda mais
linda do que a primeira, e também disse:

– Dá-me água, senão morro.

Não tinha ali água, e a menina morreu; o príncipe foi andando muito triste, e prometeu não abrir
a outra cidra senão ao pé de uma fonte. Assim fez; partiu a última cidra, e desta vez tinha água
e a menina viveu. Tinha-se-lhe que brado o encanto, e como era muito finda, o príncipe
prometeu casar com ela, e partiu dali para o palácio para ir buscar roupas e levá-la para a
corte, como sua desposada. Enquanto o príncipe se demorou, a menina olhou dentre os ramos
onde estava escondida, e viu vir uma preta para encher uma cantarinha na água; mas a preta,
vendo figurada na água uma cara muito linda, julgou que era a sua própria pessoa, e quebrou a
cantarinha dizendo:

– Cara tão linda a acarretar água! Não deve ser.

A menina não pôde conter o riso; a preta olhou, deu com ela, e enraivecida fingiu palavras
meigas e chamou a menina para ao pé de si, e começou a catar-lhe na cabeça. Quando a
apanhou descuidada, meteu-lhe um alfinete num ouvido, e a menina tornou-se logo em pomba.
Quando o príncipe chegou, em vez da menina achou uma preta feia e suja, e perguntou muito
admirado:

– Que é da menina que eu aqui deixei?

– Sou eu, disse a preta. O sol crestou-me enquanto o príncipe me deixou aqui.

O príncipe deu-lhe os vestidos e levou-a para o palácio, onde todos ficaram pasmados da sua
escolha. Ele não queria faltar à sua palavra, mas roía calado a sua vergonha. O hortelão,
quando andava a regar as flores, viu passar pelo jardim uma pomba branca, que lhe perguntou:

– Hortelão da hortelaria,

Como passou o rei

E a sua preta Maria?

Ele, admirado, respondeu:

– Comem e bebem,

E levam boa vida.

– E a pobre pombinha

Por aqui perdida!

O hortelão foi dar parte ao príncipe, que ficou muito maravilhado, e disse-lhe:

– Arma-lhe um laço de fita.

Ao outro dia passou a pomba pelo jardim e fez a mesma pergunta: o hortelão respondeu-lhe, e
a pombinha voou sempre, dizendo:
– Pombinha real não cai em laço de fita.

O hortelão foi dar conta de tudo ao príncipe; disse-lhe ele:

– Pois arma-lhe um laço de prata.

Assim fez, mas a pombinha foi-se embora repetindo:

– Pombinha real não cai em laço de prata.

Quando o hortelão lhe foi contar o sucedido, disse o príncipe:

– Arma-lhe agora um laço de ouro.

A pombinha deixou-se cair no laço; e quando o príncipe veio passear muito triste para o jardim,
encontrou-a e começou a afagá-la; ao passar-lhe a mão pela cabeça, achou-lhe cravado num
ouvido um alfinete. Começou a puxá-lo, e assim que lho tirou, no mesmo instante reapareceu a
menina, que ele tinha deixado ao pé da fonte. Perguntou-lhe porque lhe tinha acontecido
aquela desgraça e a menina contou-lhe como a preta Maria se vira na fonte, como quebrou a
cantarinha, e lhe catou na cabeça, até que lhe enterrou o alfinete no ouvido. O príncipe levou-a
para o palácio, como sua mulher e diante de toda a corte perguntou-lhe o que queria que se
fizesse à preta Maria.

– Quero que se faça da sua pele um tambor, para tocar quando eu for à rua, e dos seus ossos
uma escada para quando eu descer ao jardim.

Se ela assim o disse, o rei melhor o fez, e foram muito felizes toda a sua vida.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, 1883

OS TRÊS CONSELHOS

Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir
servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse
guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de
moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:

– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?

– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.

– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.

– Pois então venham de lá os conselhos.

Disse-lhe o patrão:

– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada
real.

– Cá me fica para meu governo.

– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova. Agora
o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.
O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e
quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas
que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do
Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com
fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da
estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de
caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o
almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse
o moço:

– Já me valeu o primeiro conselho.

Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde
tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda
frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a
Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que
fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:

– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.

E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia
aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A
sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua
dor, e entrou muito fresco pela poria dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:

– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de
quatro anos!

Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o
bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há
quem faça bem.

Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, 1883

O CEGO E O MOÇO

Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de
pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e
ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar
com o moço:

– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o


pão.

– Pela minha salvação, que não deram senão pão.

– Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!

E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse
lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns
sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:

– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:

– Ó rapaz do diabo! Que te racho.

Diz-lhe ele:
Pois cheira-lhe o pão a linguiça,

E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?