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Assimetrias Económicas em Cabo Verde:

O Desafio do Crescimento Equilibrado

Por Francisco J. Rodrigues, pelo Instituto Nacional de Estatística

É frequente ouvir-se o argumento que países em desenvolvimento quando encetam processos de crescimento
económico acelerado, esses são conseguidos à custa do sacrifício da equidade social. O argumento, embora
fatalista e revelador do lado perverso do crescimento económico, não é necessariamente negativo. Face ao
constrangido nível de desenvolvimento, compreende-se que seja difícil crescer com equidade social. Será esse
o caso de Cabo Verde? As evidências parecem não apenas confirmar essa tendência mas também o seu
sentido de agravamento.

Assimetrias Demográficas

Ora vejamos, dois aspectos concretos: o mundo empresarial e o mundo das famílias. Em primeiro lugar
podemos constatar o principal factor de produção: as pessoas. Enquanto recurso económico, a sua evolução no
tempo é fundamental, especialmente em CV em que a população activa é reduzida. As diferenças não podiam
ser mais gritantes.

Sal, Santiago, São Vicente e Maio (neste último, a diferença é muito ténue) são as únicas ilhas que viram o seu
peso relativo aumentar, ou seja, têm hoje, no contexto do país, proporcionalmente mais habitantes do que em
1940. Enquanto que no Sal, de 1980 a 2010 a população praticamente irá triplicar, em Santiago, São Vicente e
Maio, ela irá praticamente duplic ar.

Esta tendência de fundo é preocupante quando se constata que a Brava e São Nicolau terão em 2010 menos
populaç ão que nos anos a seguir à independência ou mesmo menos que em 1940. Entre 1940 e 2010, a crer
nas estimativas do INE1, a população no Sal terá aumentado 19 vezes em relação a 1940, em Santiago
aumentou 4 vezes e em São Vicente aumentou 5 vezes. Pode-se concluir que, provavelmente, a evolução da
população tende a ser fortemente influenciada pela migração na medida em que o crescimento natural da
população não é susceptível de provocar as alterações já verificadas.

Naturalmente, o crescimento da população activa, ou seja, da mão-de-obra disponível para a produção de bens
e serviços tende a concentrar-se nas ilhas de Santiago, São Vicente e Sal. Essa tendência é, assim,
consequência do forte poder de atracção que aquelas ilhas possuem no contexto nacional2. Por exemplo,
enquanto que o Sal foi responsável por receber 15% dos migrantes nacionais, Santo Antão foi responsável por
cerca de 18 mil dos migrantes que saíram da ilha (mais de 4 vezes que Santiago).

Evolução da Taxa Média de Crescimento Anual da População 1940-2010

5,0
4,0
3,0
2,0
%

1,0
0,0
-1,0 1940/1950 1950/1960 1960/1970 1970/1980 1980/1990 1990/2000 2000/2010
-2,0
-3,0

Sal, São Vicente e Santiago Restantes Ilhas

1 INE, Projecções Demográficas 2000-2020, 2005


2 INE, Migração, 2001
A evolução da população em algumas ilhas pode perigar algumas metas no sentido de não haver mão-de-obra
disponível para satisfazer uma procura cada vez maior de recursos humanos para produção. A solução será
certamente a migração interna. Este processo pode resultar, para as ilhas de acolhimento, numa pressão
excessiva sobre as infraestruturas sociais (designadamente ao nível da habitação; veja-se a esse propósito a
situação do Sal) e uma maior desertificação acompanhado de um processo de envelhecimento da população
das ilhas mais pequenas. É o caso de São Nicolau que era em 2000 a ilha com maior proporção de população
idosa (14,5% de população com 60 anos e mais, contra 5,4% no Sal3). Investimentos sociais impulsionados pelo
crescimento populacional acelerado constituem um fardo extraordinariamente penoso e, frequentemente
incomportável, com reflexos directos perversos na qualidade ambiental e no ordenamento do território.

A pobreza é simultaneamente causa e consequência desta dinâmica. Enquanto que no Sal apenas 13% da
população é considerada pobre, em Santo Antão é de 54%, isto é, mais de metade da população vivendo abaixo
do limiar da pobreza4. A natureza das actividades económicas desenvolvidas em cada uma das ilhas parece
estar fortemente correlacionada com a incidência da pobreza. As ilhas de menor incidência são aquelas onde
predominam os serviços (turismo, transporte) e, a construção, que geram maior valor acrescentado. Pelo
contrário as mais pobres (Santo Antão, Fogo e Brava) são aquelas que predominam a agricultura, actividade
pouco competitiva e de baixo valor acrescentado.

A agricultura, no entanto, face ao peso ainda importante que tem ao nível da ocupação da população activa,
pode ser um instrumento de grande potencial no combate às assimetrias económicas e/ou regionais. O
investimento público e privado no sector agrícola, tornando-o menos dependente de factores erráticos e mais
gerador de riqueza, pode contribuir de forma decisiva para retirar milhares de cabo-verdianos da situação de
pobreza que ainda hoje vivem.

Na verdade, em 2004, segundo o Censo Agrícola do GEP-MAAP, a população agrícola nas ilhas de Santo
Antão, Interior de Santiago e Fogo, é de aproximadamente 160 mil indivíduos, contra 59 mil nas restantes ilhas e
na Praia. Elevar o rendimento médio dessas famílias teria um ganho extraordinário na redução das assimetrias
económicas e regionais. A amplitude deste impacto não teria precedente em nenhum outro sector económico.

As actividades económicas estão ainda fortemente correlacionadas com o nível de instrução. Na verdade,
constata-se que a capacitação profissional e o nível de instrução são essenciais para tornar algumas ilhas mais
competitivas do que outras.

Tx Analfab.
100

% da População Urbana de CV % dos Tecn. Superiores no País

Sal, São Vicente e Santiago Restantes Ilhas

Note-se que enquanto que a taxa de analfabetismo é relativamente semelhante entre o grupo do Sal, São
Vicente e Santiago e as restantes ilhas, a proporção dos técnicos superiores do país concentrados naquelas 3

3 INE, População Idosa, 2001


4 INE, Cartografia da Pobreza, 2005
primeiras ilhas é superior a 90%5. Ainda, a população urbana nestas três ilhas representa cerca de 45% da
população total de Cabo Verde. Nas restantes ilhas o peso da sua população urbana no total da população do
país é de apenas 8,5%.

Assimetrias Económicas

A corroborar este facto basta verificar o mapa da localização das unidades económicas empresariais no país,
fortemente concentradas nos centros urbanos e, especialmente, no litoral. Os Recenseamentos Empresariais
realizados em 1997 e em 2002 demonstram que as empresas tendem a situar-se no Sal, São Vicente e Praia,
com tendência para acentuar-se esta concentração.

De facto, em 1997, as empresas nestes três centros representavam 49% das empresas activas naquele ano
contra 54% em 2002. Estas empresas representavam mais de 8 em cada 10 empregos existentes em 2002
(contra 7,5 em 1997) e mais de 940 escudos em cada 1000 escudos facturados em 2002, ficando apenas 60
escudos facturados pelas restantes ilhas.

As assimetrias ao nível das empresas são esmagadoras e suficientemente ilustradoras. Mas se tivermos em
conta a produtividade média das empresas, então a situação é ainda mais assimétrica. A produtividade do
trabalho (volume de negócios por trabalhador) no Sal, São Vicente e Praia é 3 vezes superior que nos restantes
concelhos e a produtividade das empresas (volume de negócios por empresa) é 13 vezes superior.

Mesmo ao nível do emprego e da população activa, as assimetrias são gritantes. Os dados do Censo mostram
que os decisores políticos terão grandes dificuldades em promover o emprego duradouro com diferenças tão
grandes entre as faixas etárias e com uma massa substancial de activos sem qualquer qualificação. O primeiro
passo para a criação sustentada de emprego em Cabo Verde passa pelo reforço da capacitação/reconversão da
mão-de-obra disponível.

Senão vejamos, a proporção de jovens activos (empregados e desempregados) dos 15-24 anos analfabetos era
de 5,8%, segundo o Censo. A proporção no escalão 45-64 anos, escalão próximo da idade de saída activa, em
que é pressuposto alguma estabilidade do emprego, é de 51.3%. No escalão seguinte era de 68,4%, embora
neste escalão a maior parte dos activos está praticamente de saída da vida activa.

No entanto, as diferenças entre os homens e mulheres são significativas. Para as idades próximas da saída da
vida activa (44-65 anos), 32,6% dos homens são analfabetos contra 66,8% (mais do dobro) das mulheres. Para
o escalão mais jovem (15-24 anos), a taxa de activos analfabetos é bastante semelhante e em benefício das
mulheres. 6% dos homens são analfabetos contra 5,5% das mulheres.

Naturalmente, essas diferenças de qualificação associadas às idades são demonstradoras das diferenças entre
o período antes da independência do país e pós-independência. A generalização do ensino obrigatório garantiu
aos jovens o acesso ao nível mínimo de ensino, mas continuam a faltar as oportunidades para absorver o
mercado da mão-de-obra disponível para trabalhar que continua a crescer, estimando-se que em 2005 se situe
próximo dos 180 mil indivíduos.

Enquanto prevalecerem entre os activos económicos uma proporção significativa de mão-de-obra não
qualificada (praticamente 40% dos homens e mais de 70% das mulheres, entre os desempregados que já
trabalharam, eram trabalhadores não qualificados), dificilmente o mercado de trabalho absorverá de forma
sustentada os acréscimos anuais da população activa.

5 INE, Censo 2000, 2000


Note-se que a precariedade é dos principais problemas do emprego. O Censo mostra que a probabilidade de um
trabalhador não qualificado ser despedido é 42 vezes superior a um técnico superior. Igualmente, a
probabilidade de um trabalhador não qualificado (considerando apenas aqueles que trabalham para as famílias –
tipicamente o caso das empregadas domésticas – ou aqueles que trabalham para a administração pública –
geralmente associado às FAIMO) é 28 e 19 vezes superior, respectivamente, que aqueles que trabalham no
ramo das actividades financeiras.

Do ponto dos investidores económicos, essas assimetrias podem constituir um problema. Tendo em conta a
dimensão da população activa em algumas ilhas, provavelmente, a promoção do emprego para actividades
fortemente intensivas em mão-de-obra podem ser um empecilho, devendo o recurso à migração interna ou à
imigração a solução a curto prazo. Por exemplo, no Sal, havia em 2000 aproximadamente 800 desempregados.
Não é de estranhar que, provavelmente, por essa razão o Sal seja a ilha com maior crescimento populacional.

Encontrar alternativas de investimento e promoção de emprego fora da Praia, São Vicente e Sal será
provavelmente um dos maiores desafios nacionais, de forma a que o país deixe de ser um dos países com maior
Índice de Gini do mundo, apenas comparável com alguns dos países da América Latina. Os cabo-verdianos, a
crer em estudos sociológicos recentemente publicados estão conscientes e alertas para os fenómenos da
desigualdade social e já existem investigadores a chamarem a atenção para o perigo de se transformar uma
sociedade homogénea e coesa numa sociedade dividida pelas diferenças de classe.