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Arquitetura Efêmera em Bambu

Gustavo Tenório Carneiro

Trabalho de conclusão de curso apresentado à


Universidade Federal de Pernambuco como requisito
para obtenção do título de arquiteto e urbanista sob
a orientação da professora Risale Neves

Recife 2017
à Diogo, que deslizou para o mar,
como todo castelo de areia
Agradecimentos

aos meus pais, pelo apoio e pelo exemplo


à minha família, pelo incentivo
às amigas e aos amigos, pela paciência
a Profª Risale Neves, pela orientação
a Profº Antônio Ludovico Beraldo, Patrick Istoffel, Jonas Reis e
Guilherme Cabral por compartilharem suas experiências
ao corpo docente da UFPE, pela formação
a todos os engenheiros, arquitetos e pesquisadores citados, pelos
ombros sobre os quais esse trabalho é construído
Resumo

O interesse crescente pelo tema da sustentabilidade, frente aos


problemas ambientais causados pela humanidade, somado ao
instinto de cada geração de adaptar a estética de sua arquitetura ao
zeitgeist, geram uma demanda para a revisão das práticas construtivas
hegemônicas. Como resposta a essa demanda, o uso do bambu como
material de construção vem nos últimos 20 anos ganhando atenção
do campo da arquitetura tanto pelas suas características físicas únicas
quanto por ser uma alternativa de menor impacto ambiental. Um
relexo local dessa tendência mundial, o presente trabalho visa explorar
as possibilidades que o bambu, como matéria-prima da construção
civil, oferece ao nordeste brasileiro. Partindo dessa premissa, a
pesquisa usa experiências brasileiras e estrangeiras como base para
analisar a viabilidade do uso da gramínea na região, abordando
sustentabilidade, cadeia produtiva, posicionamento de mercado e
legislação. As conclusões tiradas a partir desta análise apontam para
a arquitetura efêmera como uma área na qual o bambu poderia ser
melhor aproveitado no contexto atual, determinando o tema dos
projetos. Ao inal do trabalho, são apresentados os desenhos para
estruturas de palco, quiosque e posto de observação para o Carnaval
de Recife e Olinda, como formas de traduzir os achados da pesquisa
em forma de proposta arquitetônica.

Palavras-chave: Construção com bambu; Arquitetura Efêmera; Cadeia


produtiva do bambu; Sustentabilidade
Sumário

1. Introdução .10

2. Objetivo Geral .12

3. Objetivos Especíicos .12

4. Justiicativa .13

5. Metodologia .13

6. Características das espécies .15

7. Impacto ambiental .20

8. Cadeia produtiva e fatores de produção .26

9. Legislação .36

10. Produtos e competitividade .39

11. Arquitetura efêmera .48

12. Construção em bambu .51

13. Projetos .55

14. Conclusão .86

15. Bibliograia .89


1. Introdução
Desde que comecei a estudar arquitetura me chamou muito
a atenção o fato de que os edifícios que analisamos, geralmente
projetados por arquitetos de renome de outros países ou estados, são
radicalmente diferentes dos que são vistos dia-a-dia. Além da realização
natural de que esse campo do conhecimento ainda é notoriamente
dominado por pessoas de alguns poucos países, começou a me parecer
cada vez mais que o arquiteto perdeu uma parte muito grande do
controle sobre o próprio ofício, pelas razões mais diversas. Tornou-se
motivo de inquietação comparar o nosso passado moderno, quando
o discurso de alinhava com a prática de forma harmoniosa, com as
construções erguidas aos montes no Recife contemporâneo, quando
o espaço construído falha tanto em emocionar quanto em suprir
eicientemente as necessidades humanas.
Mas sou um otimista. Minhas experiências nas Filipinas
ajudaram a mostrar caminhos para que um arquiteto do século
XXI possa propor design contemporâneo, socialmente responsável
e ambientalmente sustentável no contexto de países com problemas
sérios de desenvolvimento social. Tive a oportunidade de acompanhar
Nestor Tsambos no projeto Balai de habitação de emergência, uma
experiência que me permitiu vivenciar o processo de criação de
arquitetura através do entendimento do edifício como produto de uma
jornada que se estende além do projeto. O processo projetual levou
em conta diversas variáveis fundamentais – e comumente ignorada
por projetistas - para a realização propriamente dita do edifício. Pude
ver pessoalmente como as estruturas institucionais, o capital humano
disponível e o contexto econômico são fatores impossíveis de serem
ignorados na hora de pensar uma arquitetura factível e passei a ver
a falta de conhecimento sobre eles como um dos principais motivos
pelos quais a maioria dos arquitetos brasileiros contemporâneos não
conseguem realizar propostas mais signiicativas. Essa perspectiva foi
fundamental para a deinição da abordagem utilizada nesse trabalho,
focada na busca por um projeto calcado nas possibilidades reais de
uma produção tecnicamente e esteticamente inovadora.
Apesar de ter tido meu primeiro contato com a construção
com bambu nas zonas rurais ilipinas, foi alguns meses depois, na
Indonésia, que abri meus olhos para o potencial do material. O mal
hábito de não pesquisar sobre edifícios signiicativos dos lugares para
10
onde vou foi causa direta da minha surpresa ao me deparar com a
arquitetura incrivelmente contemporânea, toda feita em um contexto
com tantas, ou mais, diiculdades que o brasileiro. Desde então, a
possibilidade do uso do bambu na arquitetura como forma de renovar
a estética e diminuir o impacto ambiental da indústria da construção
civil tem me intrigado, motivo pelo qual escolhi tratar desse tema
neste Trabalho de Curso.
Finalmente, escolhi explorar o bambu através da arquitetura
efêmera e utilizar como referência o carnaval pernambucano durante o
desenvolvimento do trabalho, após ter uma melhor ideia das vantagens
e desvantagens do material e como ele se encaixaria na cultura da
construção civil do Nordeste desse início de século. Como detalharei
em capítulos adiante, conclui que as barreiras para a inserção de um
material não estabelecido no contexto socioeconômico local são um
impedimento para a exploração das possibilidades arquitetônicas mais
signiicativas do bambu. Portanto, encontrei na arquitetura efêmera
uma maneira de explorar tais possibilidades trabalhando com uma
demanda econômica constante, que são a das estruturas para eventos.
O carnaval surge naturalmente a partir daí, como parte da vida de todo
pernambucano, algo com que a familiaridade permitiria maior foco
nos aspectos investigativos do trabalho. Os projetos apresentados ao
inal são uma forma de dar forma arquitetônica às conclusões tiradas
na pesquisa e de se aprofundar no repertório projetual relacionado ao
bambu, com foco na sua aplicabilidade.

11
2. Objetivo Geral
Esse trabalho possui um objetivo duplo: ajudar a fortalecer a
literatura cientíica sobre o potencial do uso do bambu como material
de construção no mercado brasileiro, e, baseado nisso, propor um
projeto que contenha soluções aplicáveis no contexto local. Para
delimitar o escopo do trabalho, foi deinida a seguinte pergunta de
pesquisa:

O bambu é um material viável para uso na construção civil do Nordeste


brasileiro?

A deinição do tema como arquitetura efêmera, veio a partir dos


desdobramentos da pesquisa, como está melhor detalhado no
desenvolvimento do trabalho. Para possibilitar a utilização de técnicas
que possam ser adotadas em condições diferentes, se fez necessária
a escolha de um tema com um programa diverso e que ao mesmo
tempo se adeque às possibilidades e limitações do material, sendo
escolhido assim o tema estruturas para eventos. O produto inal, o
projeto apresentado, vêm como uma forma de explorar o aspecto
arquitetônico do tema, levando em conta as conclusões tiradas no
decorrer da pesquisa.

3. Objetivos Específicos
Para alcançar o acima proposto, uma problemática teve que
ser desenvolvida, lidando tanto com os aspectos investigativos quanto
os projetuais. Assim, buscou-se analisar a viabilidade econômica
e ambiental da cadeia produtiva do bambu como material de
construção através da pesquisa sobre a possibilidade do plantio de
espécies adequadas para construção em solo nordestino, seguida
do levantamento dos aspectos econômicos e administrativos de
experiências relevantes no cenário nacional e estrangeiro. Completando
a análise de viabilidade, procurou-se levantar a legislação estrangeira e
brasileira existente sobre o assunto e identiicar os produtos passíveis
de serem criados em escala industrial utilizando a planta.
No projeto, buscou-se uma arquitetura de linguagem

12
contemporânea, que permita um equilíbrio entre baixo custo,
facilidade de execução, baixo impacto ambiental, conforto humano
e expressividade estética. Para isso foi necessário visar a minimização
da quantidade de material utilizado na construção, buscando soluções
que diminuam ou eliminem a necessidade de processamento das varas
in situ, utilizando módulos que permitam o transporte do material a
qualquer local e adotando as formas de tratamento documentadas na
literatura mais adequadas a realidade local.

4. Justificativa
Já utilizado em grande escala em regiões de clima similar e
possuindo uma boa quantidade de literatura cientíica descrevendo
suas vantagens, existem indícios de que o bambu é uma opção viável
de material de construção alternativo aos utilizados atualmente, com
possibilidade de suprir demandas da indústria de maneira sustentável
tanto economicamente quanto ambientalmente. Ao explorar essa
questão, o trabalho serve como um agregador de diferentes fontes
com um foco pouco explorado na literatura cientíica nacional,
contribuindo para a crescente literatura sobre o bambu como material
de construção.

5. Metodologia
Primeiramente, foi importante deinir claramente o escopo
do trabalho para deinir a metodologia. Nos primeiros momentos da
pesquisa chegou-se a pergunta principal apresentada, mas apesar de
especiicar o objeto, a indústria e a região, o tema ainda mostrou
certa complexidade, com a diiculdade em sua abordagem agravada
pelas limitações de meu ferramental teórico, recursos e dados
disponíveis. Esse nível de complexidade fez necessário o uso de uma
metodologia que permitisse a análise de dados de diversas fontes de
maneira interpretativa, mas permitindo chegar a direcionamentos
bem estruturados.
Assim, o trabalho se baseia no realismo crítico para utilizar
a triangulação de fontes, investigadores e métodos, na deinição de
DENZIN (2012), como forma de chegar à uma resposta de melhor

13
acurácia e usabilidade. A triangulação é deinida como o cruzamento
de dados de fontes com diferentes características de forma a aumentar
a validade dos resultados (MATHISON, 2014) ao revelar diferentes
aspectos da mesma sem a assunção de exaustividade (DOWNWARD;
MEARMAN, 2005). Neste trabalho, isso se deu pela escolha de fontes
de diferentes setores sociais (academia, poder público e iniciativa
privada), autores de diferentes lugares e de diferentes métodos (dados
quantitativos e qualitativos, tanto obtidos diretamente quanto através
da literatura).
É importante salientar que a mesma abordagem foi utilizada
no desenvolvimento dos projetos, que foram construídos tanto com
base na literatura quanto nas experiências práticas e nos modelos
desenvolvidos para a pesquisa.
Para melhor direcionar a pesquisa, foi criada uma problemática
deinida a partir da pergunta principal. Essa problemática é formada
por cinco (5) questões que buscam, conforme o conceito de
triangulação, explorar alguns das diferentes facetas do uso de um
material na construção civil. Elas são as seguintes:

. Quais espécies são mais adequadas para o plantio e uso comercial no


nordeste brasileiro?

. Qual a dimensão do impacto ambiental da cadeia produtiva do


bambu para construção civil? Como se compara com outros materiais
de uso semelhante?

. Como se daria a cadeia produtiva do bambu no contexto nordestino?

. A legislação abre espaço para o uso do bambu na construção civil?


De que formas?

. Quais produtos poderiam ser produzidos usando o bambu como


matéria-prima? Com quais outros produtos eles competiriam?

Nas seções seguintes busco responder essas questões dentro das


possibilidades da pesquisa.

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6. Características das espécies
Bambu é o termo popular para tratar das plantas pertencentes
à subfamília Bambusoideae, que contém 1482 espécies descritas. Duas
maiores tribos incluídas nesta subfamília são Olyreae, que contém as
espécies de bambus herbáceos, e Bambuseae, que contém os bambus
lenhosos e que serão relevantes ao trabalho presente (LEANDRO
et al., 2016). É importante notar que o bambu é da mesma família
que a cana-de-açúcar (Poaceae), estando mais próximo desta planta
tradicionalmente cultivada no Nordeste brasileiro do que de fontes
mais tradicionais de madeira para construção.

Reino Plantae
Filo Magnoliophyta
Classe Liliopsida
Subclasse Commelinidae
Ordem Poales
Família Poaceae
Subfamília Bambusoideae
Tribo Bambuseae

Tabela 1: Taxonomia do bambu.


Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov

Tabela 1: Taxonomia do bambu

A planta possui uma parte aérea, composta de colmos, galhos


e folhas, e o rizoma, sua parte subterrânea consistida pelas raízes.
Os colmos são constituídos de parte cilíndricas ocas separadas por
diafragmas (nós), de onde nascem os galhos(PEREIRA, 2012). Como
as partes aéreas das espécies são normalmente muito parecidas, é
comum separar os bambus de acordo com as características do rizoma:
os entouceirantes (ou paquimorfos) são encontrados em regiões de
clima tropical e possuem um rizoma mais concentrado, com colmos

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nascendo próximos uns dos outros, e os alastrantes (ou leptomorfos)
são provenientes de regiões temperadas e são caracterizados por um
rizoma mais espalhado (HIDALGO, 2003). Os bambus mais comuns
em terras sul-americanas são entouceirantes, incluindo as espécies
do gênero nativo Guadua e as exóticas dos gêneros Bambusa e
Dendrocalamus. No entanto, também é possível encontrar espécimes
alastrantes, do gênero Phyllostachys (LIMA, 2011).

Figura 1: Anatomia do bambu.


Fonte: HIDALGO LOPEZ, 2003. Tradução do autor

Figura 1: Anatomia do bambu. Fonte: HIDALGO, 2003. Tradução


do autor.

A organização intergovernamental INBAR (International


Network for Bamboo and Rattan), criada em 1997 com o propósito
de incentivar a cultura do bambu ao redor do mundo, lançou em
1998 um relatório listando 19 espécies prioritárias, ideais para a
disseminação em diferentes locais. No Brasil, pelo menos sete delas são
encontradas: Bambusa vulgaris, Bambusa tulda, Bambusa blumeana,
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Dendrocalamus giganteus, Dendrocalamus asper, Dendrocalamus
strictus e Guadua angustifolia (PEREIRA, 2012).
Entre estas sete espécies, duas são mais frequentemente citadas na
literatura como as mais adequadas para construção e possuem a
classiicação mais alta (++) no relatório do INBAR.
O Guadua angustifolia é uma espécie nativa da Colômbia, onde
tem grande importância tanto cultural quanto econômica, e já possui
uma extensa literatura sobre seu comportamento mecânico(LUNA
et al, 2014), inclusive produzida no Brasil (GHAVAMI, MARINHO,
2005). O INBAR resume as características da espécie da seguinte
maneira(tradução do autor):

Guadua angustifolia
Este é um bambu simpodial e grande, com colmos alcançando 30m,
de cor verde-escura, faixas brancas em seus nós, diâmetro de até 20cm
e folhas de tamanho médio. É considerado excepcional em estatura,
com propriedades mecânicas e durabilidade de colmos superiores.
Possui um papel importante na economia rural e na construção de
casas ou edifícios.
Distribuição: Original da América do Sul. Bem distribuído nas
Américas Central e do Sul. Introduzido em vários outros países.
Clima e solos: Cresce em solos ricos ou médios, especialmente ao
longo de rios e em terrenos acidentados. Tolera -2ºC.
Pesquisa atual: Pesquisas atuais se limitam a estudos sobre a preservação
do colmo e a determinar suas propriedades físicas.
Potencial não aproveitado: Valioso em terrenos inclinados e para
conservação do solo.
Estado da conservação: desconhecido.
Usos: Bambu estrutural, grande, forte, qualidade superior, é um
bambu com múltiplas funções. Embora seja mais utilizado como
material de construção para residências de baixo custo ou até grandes
construções, possui vários outros usos em comunidades rurais,
incluindo mobiliários em geral e artesanato. Bambu mais popular
na América Central. Casas e outros edifícios construídos com esse
bambu sobreviveram terremotos. Plantações comerciais estão em
crescimento.

Outra espécie indicada para o uso na construção civil é o


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Dendrocalamus giganteus. A baixa quantidade de amido em sua
composição o torna menos suscetível a ataques de insetos(LIMA et al.,
2014), o que permitiu a espécie se tonar a mais utilizada na fabricação
de laminados. A maior parte da pesquisa brasileira produzida sobre
o bambu utilizou esta espécie, incluindo análises físico-mecânicas
(BRITO et al, 2015), análises químicas(MARINHO et al, 2012) e de
produtividade(PEREIRA et al, 2003). O relatório do INBAR o deine
como segue (tradução do autor):

Dendrocalamus giganteus
Nome popular: Bambu gigante
É um bambu muito grande com altura variando entre 24 e 60m,
de coloração verde a verde-escuro e internos com 40-50cm de
comprimento por 10-20cm de diâmetro e espessura de 2.5cm
(podendo varias de acordo com a altura). Suas folhas possuem
entre 20 e 40cm de comprimento por de 3 a 7cm de largura. Sua
inlorescência tem de 4 a 5 cm com pequenos espinhos. Sua fruta tem
forma oblonga com 7-8 mm de comprimento e pelos. Os métodos
de propagação vegetativa utilizados são corte de colmo, plantação do
rizoma, corte de galho, estratiicação, alporquia ou proliferação de
sementes. Propagação também possível por meio de cultura de tecido.
Distribuição: Nativo do Mianmar do Sul, tendo sido introduzido e
cultivado em vários países como Índia, Sri Lanka, Bangladesh, Nepal,
Tailândia, Vietnam, China, Indonésia, Peninsula Malai e Filipinas.
Clima e solos: D. giganteus cresce em clima tropical húmido e regiões
subtropicais, geralmente em solos ricos, em altitudes de até 1200m.
Tolera -2ºC.
Pesquisa atual: Uma variedade de informações básicas como
propriedades físico-químicas e mecânicas estão disponíveis. Cultura
de tecidos feita, coleta de germoplasma na Índia e em Bangladesh,
plantas superiores identiicadas. Citologia 2n=72, hexaploide.
Potencial não aproveitado: Produção de brotos pode ser melhorada e
uso na indústria de tábuas de bambu pode ser expandida.
Estado de conservação: Precisa ser investigada em diferentes países,
especialmente em Mianmar e no noroeste da Tailândia.
Usos: Madeira estrutural de qualidade superior, usada principalmente
para construção ou fabricação de tábuas de bambu. Também é útil
para fabricação de polpa e itens domésticos e mobiliário de qualidade.
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Brotos podem ser comidos e enlatados.
Pesquisas necessárias: Seleção e melhoramento genético, levantamento
da diversidade da população, métodos de cultivo.

A espécie Bambusa vulgaris pode não ser tão resistente quanto as


anteriormente citadas, mas a sua presença signiicativa no Nordeste
faz com que garanta a possibilidade de utilizar bambu para construção
antes mesmo de haverem produtores especializados em D. giganteus
ou G. Angustifolia. Também possui literatura sobre suas produtividade
(LÁRRAGA-SÁNCHEZ et al, 2011), características físicas (AZZINI et
al, 1987) e citogenéticas(SILVA, 2007). Abaixo, segue a deinição da
espécie pelo INBAR:

Bambusa vulgaris (= B. surinamensis)


Nome popular: Bambu comum, Bambu dourado
É um bambu de tamanho médio, com touceiras pouco densas e colmos
entre 8 e 20 metros de altura. Os colmos possuem listras amarelas ou
verdes, com aloramento pouco comum. Os internós possuem entre
25 e 35 cm de comprimento, entre 5 e 10cm de diâmetro e paredes
entre 7 e 15mm. Panícula de inlorescência, com muitas espiguetas,
sem sementes. Métodos de propagação vegetativa – corte de colmos,
plantação de rizoma, corte de galhos, marcação.
Distribuição: O Bambusa vulgaris é uma espécie pantropical. A origem
da espécie é desconhecida, mas é cultivada comumente em todos
os lugares, especialmente as variedades horticulturais com colmos
amarelos e as verdes em populações naturais.
Clima e solos: Cresce em uma grande variedade de climas e solos,
em até 1500m de altitude e temperaturas tão baixas quanto -3º C.
As plantas com colmos verdes são mais comuns, resistentes à secas e
muito vigorosas na maioria dos solos.
Pesquisa atual: Uma quantidade signiicativa de pesquisa foi feita em
diversos aspectos: colheita, biologia, propriedades físico-quimicas e
medicinais, etc. Foram também realizadas pesquisas In vitro, incluindo
regeneração de plantas através de calogeneses e organogenese.
Citologia 2n = 72.
Potencial não aproveitado: Adaptação a áreas semi-áridas e em terras
degradadas ou inundadas. Três grupos são reconhecidos: a) grupos
com colmos verdes B. Vulgaris var vulgaris, b)grupo com colmos
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amarelos e paredes mais espessas B. vulgaris var vittata e c) grupo
Barriga-de-buda B. vulgaris cv wamin, natural do sul da china.
Estado de conservação: Não ameaçada, já que é de fácil propagação
pelo uso do rizoma, colmo e galhos.
Usos: É utilizado para uma variedade de propósitos como construção,
cercamento, andaimes, mobiliário, artesanato, papel, ornamentação,
alimentação, medicina e conservação do solo.
Pesquisas necessárias: Melhoramento de qualidade e durabilidade,
estudos sobre a adaptabilidade a diferentes tipos de solo, estudos sobre
a variabilidade e germoplasma em países diferentes, conservação in
vitro e uso em áreas degradadas.

Outras espécies como Phylostachis pubencens (Bambu-


mossô) e Dendrocalamus asper também são indicadas para uso na
construção e podem ser encontradas em território brasileiro. Como
demonstrado, a produção cientíica sobre as diferentes espécies de
bambu é signiicativa, com um foco frequente no seu aproveitamento
econômico. Isso é um facilitador importante ao considerar a viabilidade
de uma indústria baseada na gramínea ao dar indicações coniáveis
para potenciais produtores com interesse em investir na cultura.

7. Impacto ambiental
Essa seção tratará da segunda pergunta da pesquisa:
Qual a dimensão do impacto ambiental da cadeia produtiva do
bambu para construção civil? Como se compara com outros
materiais de uso semelhante?
Ao tratar da viabilidade do uso de um material na construção
no século XXI, não é mais possível ignorar o aspecto ambiental
envolvido. A preocupação com os efeitos das atividades humanas
sobre o ambiente natural, crescente desde os anos 90, é ainda mais
importante quando analisando uma indústria que representa 5,6%
do VAB (Valor Adicionado Bruto) e emprega 8,67% da população
ocupada total. No caso do Nordeste brasileiro os valores são ainda mais
altos, representando 7,9% do VAB (IBGE, 2017). Com o crescimento
da população e da economia brasileira, o consumo de recursos naturais
para a construção deve aumentar proporcionalmente, agravando
20
problemas relacionados às mudanças climáticas, lixo e abastecimento.
Para diminuir o impacto que a indústria da construção tem
sobre o meio ambiente existem caminhos que lidam com diferentes
fases do processo construtivo, desde a produção dos materiais até a
demolição dos edifícios. Um desses caminhos é o da escolha cuidadosa
dos materiais, seguindo os seguinte critérios: menor consumo de
água e energia na produção, menor demanda de área ocupada,
menor demanda por transporte, menor uso de produtos danosos ao
ecossistema e à saúde humana e menor geração de gás carbônico.
Um dos meios de avaliar o grau em que um material cumpre
esses critérios é através da ACV (Avaliação de Ciclo de Vida), que
inclui em seu método a análise da matéria-prima utilizada, o processo
pelo qual é submetida, o transporte dos produtos, eiciência energética
e os resíduos gerados. No entanto, esse tipo de avaliação esbarra na
diiculdade em encontrar dados coniáveis e na falta de lexibilidade
do método (SOARES et al, 2006), o que pode ser o motivo de não
haverem avaliações do tipo para produtos de bambu no Brasil.
Já fora do país, foi demonstrado utilizando a ACV que a
produção de produtos de bambu para construção são carbono-
negativo, ou seja, considerando seu ciclo de vida total, absorvem mais
carbono do que liberam na atmosfera (LUGT et al, 2014). O estudo
em questão foi feito com base em uma empresa européia, mas seus
resultados mostram motivos para otimismo quanto à sustentabilidade
do material no Brasil: o resultado positivo se deu apesar do produto
ter sido transportado por longas distâncias na China (país de origem
da matéria-prima) até a sede da empresa na Holanda. Os autores
chamam a atenção ao fato de que o colmo em seu estado natural teria
resultados ainda mais positivos, chegando a dizer que é “potencialmente
o material de construção mais ecologicamente correto disponível”,
por precisar de pouco processamento.
O Gráico 1 compara a pegada de carbono deixada por diversos
materiais de construção ao longo de seu ciclo de vida. Nele é possível
ver com clareza a diferença gritante entre o impacto dos materiais
mais comuns hoje em dia em comparação com derivados do bambu.
A comparação com o aço é particularmente pertinente para o escopo
deste trabalho, já que este é o material mais comumente usado em
estruturas efêmeras de produção industrial no mercado atual.

21
Pegada de carbono durante ciclo de vida(CO2eq/m3)
32423

11429

2904

-523 4 554
-148 -381 -23 -334

Gráico 1: Pegada de carbono durante ciclo de vida de diferentes materiais.


Fonte: LUGT et al, 2014

Em um estudo similar feito na Colômbia em 2013, o pesquisador


Ruan Lotero chegou a cifras parecidas ao fazer a ACV do compensado
de bambu. Utilizando como referência a empresa colombiana V&V
Laminados de Guadua, chegou-se a uma pegada negativa de 117 kg
de CO² por m³ do material.
É importante salientar que em ambas as pesquisas o bambu
era utilizado como fonte de energia de biomassa, algo que fez
grande diferença no resultado apresentado. A planta começa a ser
utilizada em larga escala como fonte de energia alternativa em países
como o Vietnam (TRUONG, LE, 2014), mas o aproveitamento dos
restos da produção é comum nas cadeias produtivas da Colômbia e
China (STAMM, 2016; LOTERO, 2013). Isso chama a atenção para
a importância da destinação dos resíduos produzidos no impacto
gerado pelos materiais e a diferença que causa no aproveitamento
22
do potencial de geração de energia de matéria-prima como o bambu
pode fazer. No capítulo seguinte, referente à viabilidade econômica da
cadeia produtiva, essa característica do bambu também se mostrará
importante.
No entanto, o impacto ambiental de um edifício não deve ser
medido apenas com base na pegada de carbono dos materiais utilizados.
O transporte dos materiais, condições de trabalho, quantidade de
resíduos no canteiro e sua durabilidade também são importantes
nessa avaliação, mas aumentam signiicativamente a complexidade do
estudo, diicultando a pesquisa nesse sentido. Em um estudo feito
com base no contexto chinês, foi feita uma comparação da pegada de
carbono de uma estrutura de bambu com uma feita com concreto,
utilizando a certiicação LEED como referência. Foram analisados
diferentes cenários para ambas as obras, com a diminuição da pegada
da primeira variando entre 11%, sem qualquer reutilização de material,
e 69%, com reciclagem tanto dos resíduos deixados em obra quanto
da demolição do edifício ao im de seu ciclo de vida(YU et al, 2011).
Esse estudo ilustra o efeito da possibilidade da reciclagem do bambu
sobre o impacto ambiental da construção: enquanto o concreto ao
im de sua vida útil deixa resíduos extremamente pesados, criando um
pesadelo logístico em sua demolição, o bambu não só deixa detritos
mais leves, mas também reutilizáveis.
A tese feita por Carolina Pardo na Universidade de Cornell
em 2014 também faz comparação semelhante, nesse caso utilizando
o mercado colombiano como referência. Aqui, os resultados foram
ainda mais signiicativos, com a casa de bambu liberando apenas
36% do CO² produzido pela casa de concreto, devido às técnicas
mais tradicionais e ao uso do bambu da própria região no modelo. A
autora também avaliou outros tipos de impacto através dos fatores de
caracterização CML-IA, um método de caracterização de impactos
que permite a quantiicação dos mesmos. A residência de bambu teve
melhores resultados em todas as categorias analisadas, como pode ser
visto no Gráico 2. O único resultado que icou acima de 50%, quando
dividido o quantitativo da casa de bambu sobre o da de concreto foi o
relativo à depleção abiótica, referente ao uso de recursos naturais não-
vivos além dos combustíveis fósseis presentes em categoria própria.
Isso se deu por conta do tratamento químico com boratos, ausente na
construção com concreto, pesar sobre tal categoria.
23
Impacto de casa de bambu sobre casa de concreto
100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
kg CO2 eq kg CFC-11 eq MJ kg Sb eq

Aquecimento Global Camada de Ozônio Depleção abiótica Depleção abiótica


(GWP100a) (ODP) (combustíveis fósseis)

Gráico 2: Impacto da casa de bambu dividido pelo da casa de


concreto, em diferentes medições. Fonte: PARDO, 2014

Além da pegada de carbono deixada, quando analisando o


impacto ambiental de um produto também é importante levar em
consideração a quantidade de energia elétrica gasta. Para a produção
de energia são consumidas grandes quantidades de recursos naturais
e embora o Brasil não dependa mais de usinas movidas à carvão,
que liberam toneladas de gás carbônico na atmosfera, o aumento
do consumo signiica uma maior pressão sobre o sistema de
abastecimento hidroelétrico existente, demandando o uso de ainda
mais recursos. O setor de ediicações (indústria da construção civil
mais o ambiente construído) já consome 48,5% da energia elétrica
do Brasil (CBCS, 2014), o que o torna um setor chave para a questão
da energia elétrica no Brasil, tanto do ponto de vista da construção
quanto do consumo pós-ocupação.
Nesse sentido, as pesquisas também apontam para um
bom desempenho da construção com bambu quando comparada
à sistemas construtivos mais comumente utilizados. Um estudo
encomendado pelas Nações Unidas para a empresa Ecoingeniería
envolveu a análise das propriedades físicas e estimação do consumo
24
energético na produção de diferentes sistemas construtivos adotados
pelos moradores da cidade de Cali, na Colômbia. Na comparação
entre construção em concreto, em alvenaria com estrutura em
concreto, em alvenaria estrutural e em bambu e terra estabilizada,
o consumo de energia do sistema em bambu se equivale 33,6% dos
sistemas convencionais e 52,9% da construção com equivalentes mais
sustentáveis do concreto e alvenarias tradicionais. O relatório também
identiicou que a ediicação em bambu e terra manteve as menores
temperaturas durante os períodos quentes e durante os períodos frios
(em Cali se chega a 11º C durante o inverno) não foi capaz de garantir
as condições de conforto térmico (Ecoingeniería SAS, 2012) algo
também constatado na avaliação pós-ocupação feita por Barboza et al
de uma casa de bambu em Alagoas.

Consumo Energético (MJ/m²)


3500
2977
3000

2500
2082
2000

1500
1102
1000

500

0
Bambu e terra-estabilizada Utilizando Eco-materiais Sistemas convencionais

Gráico 3: Consumo energético da construção em diferentes sistemas


construtivos. Fonte: Ecoingeniería, 2012

A ACV de Carolina Pardo, que compreendia não apenas a


energia gasta na fase de construção mas sim até a demolição, chegou
a uma razão de 47% da energia consumida.
A maioria dos estudos sobre o impacto ambiental da construção
com bambu disponível ter sido produzida fora do Brasil, faz com que
25
não consistam em referências precisas quando tratando de dados tão
dependentes de condições locais como os dispostos pelas ACVs. No
entanto, os resultados expressivos mostrados apontam fortemente
para o bambu como um material construtivo mais ambientalmente
sustentável do que técnicas tradicionais como a construção com
alvenaria e concreto. Os autores tratados demonstram que o sequestro
de carbono durante o crescimento da planta e seu uso como gerador
de energia de biomassa durante a sua produção e após uma eventual
demolição diminuem signiicativamente o impacto da construção.
Além das vantagens do ponto de vista ambiental, essas
características também dão uma pista do espaço que o bambu pode
ocupar no mercado da construção civil como parte importante do
crescente segmento de produtos sustentáveis, conforme a sociedade
brasileira se torna mais consciente da importância das questões
ambientais no país. Esse ponto é abordado com maior profundidade
no Capítulo 10, que analisa os produtos de bambu e seu potencial
espaço no mercado.

8. Cadeia produtiva e fatores de produção

Antes de ser feito construção, o bambu tem que passar por


diferentes tipos de processos de produção, dependendo do uso a ser
dado. A seguinte pergunta foi formulada para estruturar esse aspecto
da pesquisa:

Como se daria a cadeia produtiva do bambu no contexto


nordestino?

Para melhor avaliar a viabilidade de uma cadeia produtiva de


bambu no mercado da construção civil nordestino é necessário estudar
a cadeia produtiva do material e sua possível estrutura. Primeiro,
esse capítulo fará uma rápida revisão de estudos já existentes sobre
a indústria de bambu no Brasil para então se concentrar no contexto
do Nordeste, discutindo quais dos usos da planta mais se adequam
ao contexto econômico local e analisando a capacidade da região de
gerar valor a partir desta matéria-prima, sob a ótica dos fatores de
produção da economia clássica. Conclui-se com um modelo de cadeia
26
produtiva e uma discussão sobre os pontos que precisam ser melhor
desenvolvidos para aumentar a viabilidade da indústria.
As principais vantagens do bambu como matéria-prima
são a variedade de usos, que permite que um produtor forneça
para diversos mercados diferentes para que ique menos sujeito
a lutuações(MANHÃES, 2008), o seu apelo como material
ecologicamente sustentável, característica que vem ganhando
importância econômica nos últimos 20 anos e a sua alta produtividade
quando comparado com materiais concorrentes como as madeiras de
relorestamento(LOPES, 2008). As possibilidades de uso do bambu
se estendem por diversas áreas diferentes, podendo ser classiicadas da
seguinte forma (MARTINS, GUERREIRO apud MANHÃES, 2008):

a) Agricultura: Os colmos de bambu podem ser utilizados em sistemas


de irrigação de pequeno porte (PEREIRA, 2000), podendo ser uma
alternativa de baixo custo para locais com diiculdade de acesso aos
materiais industrializados como o PVC.

b) Biomassa: O bambu pode ser passar por processos tanto de


conversão química quanto termal para extrair a energia da biomassa
do bambu, produzindo carvão, gás e etanol. O combustível produzido
a partir do bambu é superior à maior parte das outras culturas, como
arroz e milho, e pode crescer em terras degradadas. Suas desvantagens
incluem o tempo de maturação alto, a diiculdade de colheita e maior
custo de plantação (TRUONG; LE, 2014).

c) Carvão: Pode-se também produzir carvão vegetal a partir de bambu,


com resultados de qualidade equivalente ou superior aos obtidos com
carvão de eucalipto (BRITO et al, 1987).

d) Culinária: A planta é presente na alimentação de países asiáticos


há séculos, com o uso de seu broto em saladas, conservas e pratos
diversos. Várias espécies dos gêneros Phyllostachys e Bambusa são
adequadas para consumo humano. Na Índia, a espécie D. giganteus,
utilizada também na construção, é também parte da dieta (BHATT
et al, 2015).

e) Compensados: A produção de compensados de bambu já possui


um mercado internacional estabelecido, liderado pela China, e com
27
demanda nos EUA e na Europa. Seu apelo reside principalmente no
aspecto sustentável do material quando comparado com produtos
equivalentes. Suas características estão melhor detalhadas no Capítulo
10 desde trabalho.

f) Construção Civil: Dentro da indústria da construção civil existem


variados usos para o bambu. O material oferece como principais
vantagens a sua leveza, resistência a esforços de tração e compressão
signiicativas e o baixo custo. No entanto, a necessidade do domínio
de técnicas especíicas para seu uso na forma natural e a percepção
cultural do material (OLIVEIRA apud LOPES, 2008) são barreiras
consideráveis para a sua adoção. Como o trabalho foca neste tipo
de aplicação, diferentes aspectos dela serão detalhados nos capítulos
seguintes.

g) Móveis: Atualmente na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas


Gerais e Alagoas se produzem móveis utilizando bambus da espécie
Phyllostachys aurea. Estudantes de design da PUC-Rio, UNESP-Bauru
e da UFAL (através do INBAMBU) aprendem a trabalhar com o
material durante o curso(PADOVAN, 2010).

h) Papel: O uso do bambu para produção de papel já é consolidado


tanto no Brasil quanto fora. O grupo João Santos, através da empresa
Itapagé, possui plantações destinadas a fabricação de papel Kraft para
embalagens de cimento Portland no Maranhão, Paraíba e Pernambuco
(LOPES, 2008). Na Índia, 70% do papel chega a ser produzido a
partir de bambu (Recht & Wetterwald,1992 apud Deras, 2003). A
resistência de sua ibra torna a planta mais adequada para papel de
alta qualidade do que a celulose de madeira (VITORINO, 2006 apud
MANHÃES, 2008).

i) Outras aplicações: Aqui se incluem itens de decoração, cestaria,


utensílios de cozinha, paisagismo, instrumentos musicais e artesanatos
diversos. Este tipo de uso aumenta o aproveitamento do material, já
que consome menos colmos, permite a diversiicação da clientela dos
produtores de bambu e oferece alternativas de geração de renda. No
Nordeste, o INBAMBU é notável por introduzir várias dessas artes no
contexto local, como a criação de instrumentos de bambu.
28
No entanto, o aproveitamento econômico do bambu encontra
barreiras na falta de uma cultura existente de plantio e processamento
(FERREIRA, 2010) e no fato de que todos os produtos produzidos
com bambu possuem concorrentes bem estabelecidos, entrando no
mercado como substitutos (BUCKINGHAM, JEPSON, 2013; LOPES,
2008). O primeiro problema vêm se tornando bem menor com
o aumento da disponibilidade de conhecimento sobre o bambu em
português que vem acontecendo nos últimos 15 anos, mas o segundo
é uma questão importante a ser considerada por possíveis investidores
na área. Como existem produtos equivalentes feitos com outros tipos
de matéria-prima, como madeira e aço, os produtos de bambu têm que
apresentar um valor agregado superior para estabelecer o segmento,
enquanto sua cadeia produtiva tem que se mostrar economicamente
sustentável.

8.1 Fatores de Produção

Para que seja produzido um bem, são necessários três fatores


de produção: terra, trabalho e capital (SULLIVAN, 2007). Essa
deinição, baseada na teoria clássica de Adam Smith posta no livro
“A Riqueza das Nações”, é simples no contexto das discussões da
Economia contemporânea, mas no escopo desse trabalho se mostra
adequada para estruturar uma análise da possibilidade de gerar
produtos econômicos a partir do bambu no contexto nordestino.
Terra é o fator de produção correspondente aos recursos
naturais necessários para produzir o bem. No caso especíico do
bambu, será entendido literalmente, como o solo no qual a cultura
seria plantada e sua compatibilidade com tal.
Trabalho é o fator correspondente ao esforço humano
utilizado para produzir o bem. Assim, a seção trata da mão-de-obra e
sua capacidade de transformar a matéria-prima em produtos de valor
agregado.
Capital é o fator correspondente aos bens necessários para a
produção de outros bens, como ferramentas, maquinário ou edifícios.
Aqui será analisada a disponibilidade desses bens e o custo de obtê-
los, por inluenciar diretamente no investimento inicial necessário,
bem como no custo de produção.

29
8.1.1 Terra

A maioria das espécies de bambu adequadas para exploração


comercial são bem adaptadas ao clima tropical úmido brasileiro.
O bom crescimento entre 8º e 36º C, variando de acordo com a
espécie, somada a melhor adaptação a diferentes tipos de solo,
viabiliza a plantação de bambu em grande parte do território nacional
e também caracteriza uma vantagem importante da cultura da planta
sobre as das mais exigentes madeiras de relorestamento como Pinus
e Eucalipto(LIMA, 2013;PEREIRA, 2012). A versatilidade do bambu
quanto à inclinação do terreno e área de plantio, somada a uma certa
facilidade no manejo, também sinalizam para o aproveitamento de
áreas não apropriadas para outras culturas.
O nordeste brasileiro possui uma tradição histórica no plantio da
cana-de-açúcar, uma cultura fundamental para o desenvolvimento da
economia da região. O solo massapê, encontrado nas regiões litorâneas,
se mostrou particularmente adequado ao plantio dessa gramínea da
mesma família do bambu. Assim, a capacidade de terras nordestinas
produzirem bambu em escala comercial já foi demonstrada, com
o Grupo João Santos chegando a ter 108km² de área cultivada no
estados do Maranhão, Paraíba e Pernambuco (RIBEIRO apud LOPES,
2008). Na Figura 3, a plantação em Palmares-PE.

30
Figura 2: Plantação de bambu em Palmares -PE
Fonte: PEREIRA apud PADOVAN, 2010

Uma plantação nessa escala oferece algumas oportunidades


como conhecimento desenvolvido localmente sobre a cultura de
bambu e potencialmente o fornecimento de Bambusa vulgaris para
obras com maior consumo de material. Apesar da espécie não ser a
espécie mais resistente, ela é adequada para uso como matéria-prima
de materiais compostos e produtos feitos com bagaço(BERALDO,
2017; STANGERLIN et al, 2011), armações em construções de taipa
(SILVA, 2011) e estruturais (SZUCS et al, 2010;CARNAÚBA et al,
2004).

8.1.2 Trabalho

A falta de uma cultura pré-existente do aproveitamento


econômico do bambu é a maior barreira para a introdução do seu uso
como material de construção na região. Os conhecimentos necessários
para plantar, tratar e processar a planta devem primeiro ser importados
dos países com tradição no tema e adaptados a realidade local, algo
31
que vem sendo feito pela academia e, mais recentemente, por grupos
e empresas especializadas. O único esforço consistente feito nesse
sentido no nordeste brasileiro é o Instituto do Bambu, iniciativa da
Universidade Federal de Alagoas que vem trabalhando na área desde
2002. O INBAMBU, como também é conhecido, visa transformas o
bambu em um vetor do desenvolvimento sustentável na região e para
isso trabalha com o desenvolvimento de tecnologias, capacitação de
mão-de-obra e fomento de iniciativas relacionadas, com o foco na
melhoria da qualidade de vida da população de baixa renda da região
(PEREIRA, 20--). Fora do instituto, existem pesquisas pontuais feitas
na UFPE, UFPB, UFBA e UFRN. No Departamento de Engenharia
Civil da Universidade Federal da Paraíba, o Profº. Normando Perazzo
vêm orientando pesquisas relacionadas ao desempenho estrutural
do material(ROCHA, 2017). No Departamento de Arquitetura e
Urbanismo da mesma universidade, a Profª. Germana Rocha fez em
2017 a primeira experiência de construção com bambu com alunos
da graduação.
Como a mão de obra local não tem experiência no trabalho
com o bambu, esforços para trazer essa tecnologia para o nordeste
são fundamentais para viabilizar uma cadeia produtiva sustentável.
Felizmente, uma grande quantidade de material sobre o tema é
disponibilizado gratuitamente por meio de publicações acadêmicas,
páginas dedicadas na Web (como www.ProjetoBambu.com), grupos
virtuais (como o “Rede Social do Bambu”, no Facebook) e pela
disposição de pessoas com experiência de compartilhá-las com
interessados. Além disso, existem livros em português publicados
sobre o tema, como Bambu de Corpo e Alma (PEREIRA, BERALDO,
2007) e o Manual do Arquiteto Descalço (VAN LENGEN, 2008),
que sintetizam boa parte do conhecimento atual sobre o bambu e seus
usos. Cursos também são ministrados regularmente, principalmente
no Sudeste do país, o que mostra que já há tanto uma demanda
para aprender sobre o tema quanto pessoas capacitadas a ensinar.
Os cursos são dados por grupos como o TIBÁ (RJ), Pindorama (RJ),
BioEstrutura Engenharia (DF) e Bambuzeria Cruzeiro do Sul (MG).
A mão-de-obra de uma potencial indústria bambuseira viria
da agricultura, marcenaria e construção civil já existentes na região,
buscando diversiicar seus produtos com alternativas competitivas,
além de, naturalmente, criar novos postos de trabalho. Para os
32
agricultores, o cultivo de bambu se tornaria uma oportunidade para
entrarem no mercado da construção civil, de forma a icarem menos
sujeitos às lutuações de mercado da indústria alimentícia, tanto em
escala familiar quanto patronal. O plantio de espécies mais adequadas
para outros usos, como confecção de artesanato e mobiliário, também
teria a mesma função.

8.1.3 Capital

A maioria dos equipamentos necessários para o processamento


das varas para os usos mais simples na construção civil são de fácil
obtenção ou já são comuns na região. Dependendo do produto a ser
oferecido, o trabalho pode ser executado com técnicas que utilizem
apenas ferramentas tradicionais como facões, serras e furadeiras
(STOFFEL, 2017). Para o processamento em larga escala para certos
usos, como os que envolvem tiras, ferramentas especíicas como a
faca para corte radial do bambu se fazem necessárias como forma
de aumentar a produtividade. A tecnologia para produção dessas
ferramentas está disponível em português, facilitando o acesso de
interessados em produzi-las, para uso próprio ou comercialização,
como no caso da faca radial projetada por (SANTOS et al, 2014),
ilustrada na Figura 3.
Por outro lado, a produção de laminados, Bambu Laminado
Colado e pisos requer maior investimento inicial, devido ao processo
produtivo mais complexo, melhor detalhado no capítulo referente aos
produtos de bambu.

33
Ambiente Institucional Leis, Cultura, Tradição, Costumes e Meio Ambiente
Fonte: Elaborado pelo autor, basedo em (DANTAS, 2005)

Fluxo de Bens e Serviços


Extração
Plantação Processamento Distribuição Mercado
e Tratamento
Agricultura familiar e
patronal
Figura 4: Cadeia produtiva do bambu

Bambuserias
Madereiras

34
Fornecedores
Transportadoras
Auto-construção
Construtoras
Associações, Cooperativas, Infra-estrutura, Informações,
Ambiente Organizacional Financiamento, Pesquisa e Desenvolimento Tecnológico
Figura 3: Faca radial
Fonte: SANTOS et al, 2014

8.2 Cadeia produtiva

O baixo coeiciente preço/volume do colmo de bambu não


processado faz com que a maior parte do custo do material incida
sobre o transporte, o que diminui o incentivo para investir na cultura
para ser vendida em seu estado natural. Isso faz com que os modelos
de negócios mais atrativos para a indústria de bambu sejam os que
envolvam o mínimo de transporte o possível, seja concentrando as
atividades de plantio e processamento em uma empresa única (Casa &
Bambu, Payacan Artes Bambu, Bioestrutura Engenharia, EbioBambu)
ou utilizando produtores locais (Bambu Carbono Zero, Bambutec).
Como no Nordeste ainda não existem produtores comerciais de
bambu, uma empresa pode ingressar no mercado acompanhando
todo o processo de produção, do plantio ao produto, seguindo o
modelo bem sucedido das empresas paulistas, ou pode levantar os
bambuzais naturais existentes e suas espécies e incentivar os produtores
rurais a adotar a gramínea como parte de sua cultura. No Rio de
Janeiro também ocorre de um fornecedor fazer um levantamento dos
bambuzais locais e colhê-los com permissão dos donos, para então
fazer o tratamento e vender as varas já tratadas para construção
(STOFFEL, 2017).
Os exemplos de cadeias produtivas existentes no Brasil
e no mundo mostram que existe certa lexibilidade para os atores
envolvidos. Isso permite uma maior adaptabilidade aos interesses de
cada um, com cada ator podendo escolher o grau de investimento e
os mercados nos quais pretende se inserir, abrangendo desde toda
a cadeia produtiva até partes especíicas dela (como a distribuição).
Apesar dessa vantagem importante, no caso da construção civil existe
o problema signiicativo da falta de demanda do próprio mercado,
de forma que não existe incentivo para investimentos nas etapas
iniciais da cadeia. Isso se dá principalmente pela falta de capacitação
de proissionais como arquitetos e engenheiros sobre o material. Essa

35
situação tem sido abordada em outros países a partir de iniciativas da
academia, com a criação de laboratórios especializados e inclusão do
tema em seus currículos (PUC-RIO, UNESP, UFAL no Brasil), e da
iniciativa privada, através de cursos (TIBÁ, Pindorama, BioEngenharia,
EbioBambu, Bambuzeria Cruzeiro do Sul, no Brasil). Outra forma de
contornar essa limitação tem sido através da criação de empresas ou
grupos que abrangem toda a cadeia do bambu, desde a plantação até
a criação do produto (construção, móvel, utensílio, etc). Hoje elas
existem em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia.
A Figura 4 apresenta o modelo da cadeia produtiva do bambu
em forma de diagrama. Nela são apresentadas as etapas necessárias
até alcançar o mercado, que neste caso especíico é o da construção
civil. Construído a partir do esquema proposto por (DANTAS apud
MANHÃES, 2008), o modelo ilustra os atores que podem desenvolver
para cada fase do processo, baseado nas informações levantadas neste
capítulo.

9. Legislação

Forças econômicas e ambientais não são o únicos fatores


que determinam a sustentabilidade de uma indústria. A inluência
do Estado sobre tal pode ser tanto facilitadora quanto uma barreira
para seu desenvolvimento, o que faz com que a revisão do arcabouço
legal incidente seja imprescindível para uma análise de viabilidade
mais completa. Portanto, essa seção trata do tema através da seguinte
pergunta:

.A legislação abre espaço para o uso do bambu na construção civil?


De que formas?

A análise se dará através da revisão da legislação relacionada


ao bambu e à construção civil nas esferas federal e municipal e do
levantamento de normas estrangeiras e da ISO. Em seguida é feita uma
discussão sobre esse contexto legislativo e quais as mudanças poderiam
ajudar a viabilizar o crescimento de uma indústria bambuseira no
Brasil.

36
9.1 Legislação Federal e Estadual

Em 2011, a Lei Federal 12.484/2011 - Política Nacional de


Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo de Bambu foi assinada pela
presidenta Dilma Rousseff como uma demonstração de interesse do
governo federal em apoiar o uso da planta no território nacional. Nela,
estão contidos instrumentos para o incentivo à produção e pesquisa
com a planta. Através da concessão de crédito, incentivo à pesquisa e
certiicação de qualidade, a lei procura estimular toda a indústria do
bambu, desde a agricultura até os potenciais produtos criados, como
material para construção. Também estão presentes orientações gerais
para os órgãos que aplicarem a lei, para incentivarem a pesquisa e o
comércio.
No âmbito estadual, a única legislação especíica para o
bambu foi feita no estado de Minas Gerais, na forma da Lei 15.951 de
28/12/2005. Além das diretrizes gerais para o estímulo das diferentes
partes da cadeia, tal qual na lei federal, aqui também está previsto
crédito anual para tal.

9.2 Código de Obras das capitais nordestinas

A legislação das capitais nordestinas pouco difere no que diz


respeito ao uso dos materiais construtivos na obra. Com ressalvas
que variam de município para município, a grande maioria exige de
alguma forma o cumprimento das Normas Técnicas Brasileiras, com
algumas indicando a necessidade de resistência ao fogo. Esse contexto
legal deve apresentar diiculdades na aprovação do uso do bambu
como material estrutural na construção civil antes da criação de uma
norma especíica.

9.3 Normas Técnicas

A norma “ISO 22156 - Bamboo Structural design” foi criada


pelo INBAR, com o objetivo de transformar o bambu em um “material
de construção internacionalmente reconhecido e aceito”(ISO, 2004).
No seu desenvolvimento estiveram presentes membros de vários
países com cultura de construção com bambu, da Ásia, América

37
Latina e África. O texto trata do controle da construção com colmos,
tiras, BLaC ou painéis, compreendendo desde o controle de qualidade
da matéria-prima até aspectos do cálculo estrutural.
A partir da publicação das ISOs sobre bambu em 2004, vários
países também criaram normas especíicas para construção com
bambu. As normas nacionais em geral utilizaram a internacional como
referência, mas a expandem, pela necessidade de atualizar os métodos
de caracterização do material e os novos produtos estruturais criados
(GATÓO et al, 2014). A Figura 5 ilustra os anos de publicação das
normas até 2014.

Equador ISO Colômbia China Índia Peru EUA

1976 2004 2006 2007 2008 2012 2013

Figura 5: Linha do tempo da publicação de normas sobre o


bambu Fonte: GATÓO et al, 2014

Embora a construção com bambu seja tradicional nos países em


que seu uso como material estrutural já é normatizado, no Brasil
ela ainda é considerada uma tecnologia alternativa. Essa situação de
marginalidade cultural se relete na legislação relacionada ao tema,
que, variando entre pouca e não-existente, pode gerar certo grau de
incerteza à possíveis investidores neste mercado.

9.4 Conclusões

Após estudar as leis que regulam a construção civil no


Nordeste, ica claro que o passo mais importante para viabilizar
legalmente o uso do bambu nessa indústria é a criação de uma
NBR sobre o tema. Uma norma do tipo serviria de base para que
as prefeituras pudessem aprovar projetos que utilizem técnicas das
quais poucos proissionais da área tem conhecimento. Felizmente,

38
esse passo já está sendo dado, na forma de um corrente processo de
aprovação de uma NBR cobrindo o projeto de estruturas de bambu
e a determinação de suas qualidades físico-mecânicas (KORTE apud
SNA, 2016). O projeto atual para a norma cobre todos os aspectos
importantes para a garantia da segurança de um projeto com colmos
de bambu, tratando do controle de qualidade das peças usadas e das
características próprias de uma estrutura do tipo (BERALDO, 2017;
ROCHA, 2017). Aprovada essa NBR, o processo de capacitação de
mão-de-obra técnica (engenheiros, arquitetos e tecnólogos) com
aptidão a desenhar com bambu seria facilitado e abriria-se espaço
para a utilização legal do material como estrutura nos mercados mais
robustos das capitais. Essa abertura de mercado seria um incentivo
signiicativo para produtores investirem na cultura.
A política de incentivo já aprovada pelo Governo Federal,
se aplicada, pode ser uma ferramenta importante para que a
indústria vença as barreiras iniciais e entre em um estado de auto-
sustentabilidade econômica. Os incentivos previstos poderiam vir na
forma de programas de capacitação, que seriam fundamentais na
viabilização da demanda, e do já previsto crédito rural, como forma
de subsidiar a introdução de uma cultura que demora alguns anos
para dar retorno de forma sustentável.

10. Produtos e competitividade


Uma questão chave para estudar a possibilidade da
sustentabilidade econômica da cadeia produtiva do bambu é saber
que produtos poderiam ser oferecidos por essa indústria e quais
as possibilidades que a planta oferece para o mercado local. Essa
discussão será desenvolvida a partir da seguinte questão:

Quais produtos poderiam ser produzidos usando o bambu


como matéria-prima? Com quais outros produtos eles
competiriam?

É importante deinir se o bambu oferece produtos que sejam


economicamente viáveis e para isso serão analisados estudos feitos

39
no Brasil e na América Latina, além de um levantamento dos serviços
oferecidos por empresas brasileiras da área. A partir desse estudo de
casos recentes, será discutida a possibilidade de seguir estes exemplos
no contexto do Nordeste brasileiro.
No âmbito da construção civil, os produtos de bambu variam
em função e nível de processamento necessário. Existem técnicas para
a criação de pisos, painéis de vedação, telhas, Bambu Laminado Colado
e esquadrias, além da comercialização das próprias varas para uso
como estruturas de diversos propósitos. Dentre as indústrias nas quais
o bambu pode ser utilizado como matéria-prima, a dos produtos para
construção civil é a que demanda mais processamento, na forma de
tratamento, planiicação, corte e montagem, o que cria a necessidade
de empresas com foco exclusivo na sua produção(STAMM, 2016). No
entanto, a forma desse processamento varia de produto para produto,
deixando possibilidades para empresas de diferentes tamanhos e níveis
de capital competirem em mercados de escalas regional, nacional ou
internacional, dependendo da competitividade do produto. Seguimos
abaixo com uma visão mais aprofundada de cada um desses produtos,
a partir da deinição de seus métodos de produção, exemplos
contemporâneos e comparação com as alternativas já exploradas pela
indústria.

Pisos

Os pisos de bambu são os produtos industrializados mais


comuns feitos com o material. Isso pode ser considerado um ponto
positivo por ser algo já introduzido e aceito no mercado ocidental
(particularmente o americano), mas também signiica uma barreira
considerável para entrada no mercado. Como os produtores chineses
já dominam o segmento, eles podem oferecer um produto de baixo
custo (entre 12 e 18 U$ o m²), mesmo considerando o transporte. Na
Figura 6 é mostrado o piso de bambu da empresa americana Hawa
Bamboo.

40
Figura 6: Piso de bambu Mossô
Fonte: Hawa Bamboo

Em seu trabalho “A que escala es rentable la industrialización


de bambú?”, feito com vista o mercado colombiano, o construtor
Jorg Stamm julga ser difícil a entrada nesse mercado internacional,
mas chama a atenção para a aplicação no mercado interno.
Outra diiculdade importante para a fabricação desse produto
é a necessidade de maquinário especíico para o processamento das
ripas, que precisaria ser importado na China. A fase de fabricação
, quando as pranchas são montadas precisam deste maquinário
para colar as ibras em todos os métodos de fabricação atualmente
utilizadas.
A Figura 7 deine todas as fases do processo de fabricação dos
pisos de bambu, ilustrando a relativa complexidade do mesmo.

41
Corte em tiras

Tratamento

Carbonização

Seleção

Secamento

Fabricação

Acabamento
Figura 7: Processo de fabricação de pisos de bambu
Fonte: BuildDirect, Ambient Bamboo Flooring

Telhas

O uso de bambu como telha ou para fabricação delas é mais


ligado à construções tradicionais do que à produção industrial atual,
pela própria natureza orgânica do material. Na arquitetura tradicional
de países tão distantes quanto a China e a Colômbia, o uso do bambu
para fabricação de telhas tipo capa-canal através do corte transversal e
limpeza de seu interior é parte do repertório construtivo (HIDALGO,
2003), mas a diiculdade de conseguir colmos espessos e retos o
suiciente para serem utilizadas tornam esse método pouco prático.
Pode-se ver na Figura 8 um exemplo de telhado capa-canal com
colmos de bambu, encontrado na cidade de Semban, na Malásia.

42
Figura 8: Telhado capa-canal na Malásia
Fonte: http://www.my-rainforest-adventures.com/

No entanto, alguns estudos recentes apontam para possibilidades


no uso da planta como composto para produção de telhas corrugadas.
A empresa holandesa Guadua Bamboo atualmente pesquisa sobre o
uso de técnicas de fabricação de painéis para criar telhas onduladas
(Figura 9), similares às de ibrocimento, enquanto na Índia já existem
empresas comercializado-as. No Brasil, pesquisadores da UNICAMP
analisaram o desempenho de telhas feitas com compostos de bambu-
cimento na fabricação de telhas onduladas e chegaram a resultados
satisfatórios à luz das normas técnicas nacionais.
Caso se mostre uma opção viável, telhas que utilizem compostos
de bambu seriam um possível substituto às telhas de ibrocimento, um
produto reconhecidamente cancerígeno ainda largamente utilizado
no Brasil.

43
Figura 9: Telha corrugada de bambu
Fonte: Guadua Bamboo S.A.

Varas tratadas

Uma importante parte da tradição da construção com bambu


é o uso dos próprios colmos como estrutura, na função de pilares e
vigas. O uso do bambu nesse formato pode ser observado em diversos
países do Sudeste Asiático, na região tropical chinesa, em ilhas do
Oceano Pacíico e em países da América Latina (HIDALGO-LÓPEZ,
2003). Nos tempos modernos seu uso difundido perdeu algum
espaço para materiais como alvenaria e concreto em parte por conta
da associação da construção com bambu com ediicações de baixo
custo. A população rural e de baixa renda de vários desses países
nunca abandonou a técnica, mas atualmente é possível identiicar
um retorno ao uso da estrutura de bambu apoiada por pesquisas
desenvolvidas nas universidades e pelo interesse do mercado por
materiais sustentáveis.
Utilizar a vara de bambu na sua forma natural potencializa
as características naturais da planta sem precisar incorporar passos
à cadeia produtiva industrial. Limitando o processamento à colheita,
tratamento e separação, é possível manter o preço acessível ao
consumidor, além de facilitar a entrada de pequenos produtores como
famílias de agricultores, no mercado da construção civil. Esse ponto
44
também é o que torna as varas tratadas o produto mais facilmente
obtido no contexto atual, seja através da colheita e tratamento feitos
por conta própria ou adquirindo-as de produtores em São Paulo, Rio
de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Brasília.
No entanto, o trabalho com as varas exige um domínio técnico
especíico por parte da mão-de-obra. A variabilidade das peças
em curvatura e diâmetro, somada a fragilidade do bambu frente à
esforços de cisalhamento e compressão no sentido perpendicular
ao das ibras tornam a vara um material difícil de trabalhar quando
comparado com os materiais padronizados tão ubíquos no mercado
atual (BARBOSA apud PEIXOTO, 2008). Isso cria uma demanda por
conhecimentos especíicos que não são comuns no nordeste brasileiro
e cuja falta consiste na maior diiculdade, do ponto de construção, na
adoção da vara como peça estrutural no contexto atual. A Figura 10
mostra varas de Dendrocalamus asper prestes a serem submetidas ao
processo de autoclave.

Figura 10: Tratamento de varas


Fonte: Casa & Bambu , 2009

Para trabalhar o bambu em seu estado mais natural são


necessários certos conhecimentos especíicos ao material, o que
põe certa barreira a uma possível transição direta da marcenaria
comumente praticada no nordeste brasileiro. A geometria cilíndrica
45
da vara e sua vulnerabilidade a esforços de cisalhamento exigem
uma abordagem diferente ao unir as peças, com atenção particular à
precisão dos cortes e uso frequente de amarrações.
No entanto, experiências de construção feitas com mão-de-
obra brasileira demonstram que um tempo de instrução tão curto
como três dias é suiciente para que pessoas com alguma experiência
com carpintaria executassem estruturas em bambu com qualidade
satisfatória (NUNES, 2005).

Bambu Laminado Colado

O Bambu Laminado Colado (BLaC) é um material composto


por diversas camadas de tiras de bambu coladas com as tiras em
paralelo, tal qual Madeira Laminada Colada. Mais do que um
produto, o BLaC é uma maneira de processar o bambu de modo
a permitir melhor controle das características mecânicas da planta
enquanto criando peças muito mais uniformes que as varas in natura
(HIDALGO-LOPEZ, 2003). Isso abre o leque de possibilidades do
que pode ser feito com o bambu do ponto de vista do design e
do desenho estrutural, permitindo a criação de vigas de diferentes
formatos ou de mobiliário que melhor aproveita a lexibilidade da ibra
de bambu. Essa maior gama de opções daria a oportunidade para as
empresas produtoras venderem tanto para a indústria da construção
civil quanto a moveleira. O processamento do bambu também o torna
mais propício para utilização em larga escala por não demandar uma
mão-de-obra tão especializada quanto na construção com varas. Na
Figura 11, uma estrutura de BLaC executada pela empresa americana
Lamboo.

46
Figura 11: Estrutura de BLaC
Fonte: Lamboo Inc.

A academia brasileira já produz material sobre o BLaC,


particularmente no campo da engenharia civil. Estudos feitos em São
Paulo, Brasília, Pernambuco e Paraíba já exploraram as características
mecânicas do material em diferentes condições e produzidos com
diferentes técnicas. As conclusões dos pesquisadores qualiicam as
vigas feitas de BLaC como de qualidade equivalente ou superior aos
produtos equivalentes feitos com madeiras de relorestamento como
o Pinus e o Eucalipto(PEREIRA, 2012), podendo inclusive compor
vigas mistas de madeira-bambu (LIMA JÚNIOR, 2001). O fato destas
pesquisas estarem sendo desenvolvidas na própria região é um fator
facilitador importante, por aproximar as tecnologias de potenciais
produtores na forma dos pesquisadores que as vêm produzindo.
A diiculdade maior para a adoção do BLaC na indústria
brasileira é a quantidade de processamento necessária para a sua
produção, que aumenta a quantidade de investimento inicial necessário
para produzir o material. Por conta da forma cilíndrica do bambu,
seu processo de laminação é um pouco mais complexo que o de
madeiras de relorestamento por acrescentar os passos de planiicação
e retirada da parte mais macia no interior do colmo. Na Figura 12 está
ilustrado em forma de diagrama o processo de produção do BLaC.

47
Corte em tiras

Tratamento

Secagem

Prensagem

Corte

Acabamento

Controle de qualidade
Figura 12: Processo de produção do BLaC
Fonte: LIMA, 2013

11. Arquitetura Efêmera

Arquitetura Efêmera: Um tipo de construção


projetado para se diferenciar pela sua
impermanência e por sua retirada do lugar.
(CHAPPEL, 2010)

Apesar de como conceito haver sido deinida recentemente, a


arquitetura efêmera é tão antiga quanto o próprio espaço construído.
Na seminal obra “Ensaio sobre Arquitetura”, escrita em 1755 pelo

48
francês Marc-Antoine Laugier, o princípio da arquitetura é descrito
como o abrigo criado com paus e folhas encontrados ao redor do
homem primitivo. Para o autor, as características básicas da arquitetura
- a coluna, o entablamento e o pedimento - são expressados nessa
cabana primordial e posteriormente serviria de modelo para o
desenvolvimento da arquitetura grega.
O arquiteto alemão Gottfried Semper deine as parte
constituintes do objeto arquitetônico diferentemente, dividindo-a
em teto, dique, cerca e a lareira. No trabalho “Os Quatro Elementos
da Arquitetura”, publicado em 1860, o teórico cita a tenda móvel
como a morada do homem que precisava se preocupar apenas em
se proteger do clima, fazendo com o que a coberta fosse o elemento
mais importante da obra.
No Brasil pré-colonial povos indígenas como os ianomâmis
construíam suas aldeias para durarem apenas dois anos, para depois
serem queimadas enquanto a tribo se muda para outro local. Isso
se dava pelo própria degradação das ediicações feitas de matéria
orgânica, com o acúmulo de insetos na estrutura de madeira e
apodrecimento das folhas da cobertura (WEIMER, 2012). Dessa forma,
o método construtivo e os materiais disponíveis para serem usados
na construção ajudaram a contribuir para culturas que não vêem o
espaço construído como algo que deva durar décadas ou séculos,
como na tradição européia que viria a dominar o país posteriormente.
Com a mudança para a sociedade agrária e o consequente
abandono das práticas nômades, esse tipo de construção deixou de
ser o paradigma principal da maioria das sociedades, dando espaço
para materiais e técnicas mais duráveis. No entanto, nunca deixou de
ser praticada. Hoje em dia, a arquitetura efêmera existe na forma de
mercados, barracas, tendas, moradias temporárias e estruturas para
eventos de diversas escalas. Sua relevância cresceu nos últimos anos
em conjunto com a discussão sobre a sustentabilidade do mercado da
construção civil, que gerou uma maior preocupação com seu impacto
no espaço urbano e no meio ambiente.
A partir dessa crescente relevância, esforços acadêmicos para
a deinição de um arcabouço conceitual tem sido importante para
melhor estruturar o entendimento da disciplina sobre esse tipo de
fenômeno, sobre qual pouco contribuía até meados do século XX.
Tanto PAZ(2008) quanto CHAPPEL(2010) deinem a arquitetura
49
efêmera apenas como a construção que é retirada do lugar (através
de transporte, desmontagem ou demolição) em uma escala de
tempo curta. Apesar de ambos autores chamarem a atenção para
a importância de não atrelar o conceito à aspectos tecnológicos,
trazem no desenvolvimento de seus trabalhos considerações
importante sobre as particularidades presentes ao campo, estas
estando comumente atreladas a certos tipos de soluções e abordagens
projetuais. Quando o edifício já é concebido para ser demolido ou
movido, o lado posterior e menos considerado de seu ciclo de vida
ganha importância fundamental na concepção do projeto. O desenho
deste tipo de arquitetura ganha complexidade quando incorpora esse
aspecto transformativo, havendo de abranger não só a qualidade do
funcionamento e a viabilidade da execução, mas também na facilidade
da desmontagem e a capacidade de remontagem.
Arquitetos participam na produção de arquitetura efêmera
não só durante o processo de projeto das soluções construtivas, mas
também do planejamento dos eventos. O arquiteto Guilherme Cabral,
que participou de projetos temporários feitos para as Olimpíadas do
Rio de Janeiro de 2016, chamou a atenção, em entrevista, para a
presença de colegas de proissão tanto no projeto de espaços como
alojamentos, quanto na concepção dos palcos da abertura. Esse
processo envolveu o diálogo entre os responsáveis pelo planejamento
do evento e as empresas vencedoras das concorrências, com arquitetos
presentes desde as primeiras fases do planejamento até o desenho
dos detalhes executivos. Cabral também apontou que a arquitetura
temporária pode permitir mais liberdade ao projetista justamente
pela sua efemeridade, além do fato de normalmente estar associada a
programas com menos exigências funcionais.

11.1 Conclusões

Os ambientes sociais e institucionais do Nordeste de 2017 não


são favoráveis à opção pela construção com bambu. Não existe cadeia
produtiva que apoie nenhum dos sistemas construtivos do material,
tornando necessário que o próprio construtor assuma o papel de colher
e tratar as varas. Esse problema pode ser facilmente contornado
pela importação do bambu de outros estados que já possuem empresas
que fornecem varas tratadas, mas o construtor ainda pode esbarrar na
50
barreira legal. Atualmente, a inexistência de uma norma técnica que
trate da construção com bambu deve resultar em problemas para a
aprovação do projeto. Com a aprovação da norma que transita pela
ABNT hoje, esse cenário mudará radicalmente, tornando mais fácil a
construção com bambu em contextos urbanos e, consequentemente,
permitindo uma adoção em maior escala pela população.
Como o trabalho considera o contexto sócio-econômico-
ambiental atual, a opção pela arquitetura efêmera como tema de
projeto veio como uma alternativa que permite o contorno das
diiculdades presentes. Não existindo determinações legais para
estruturas temporárias, o uso do bambu não seria barrado nesta
instância. Aspectos jurídicos à parte, essa escolha também alivia o
peso do problema fundamental da durabilidade das varas, exigindo
ciclos mais curtos das peças ao mesmo tempo que minimizando a
exposição das mesmas a intempéries. Além de contornar os pontos
fracos da construção com bambu, a arquitetura efêmera também se
aproveita das características naturais do material de forma vantajosa.
A leveza das peças facilita o transporte e a montagem, o tamanho
permite a criação de estruturas em escala arquitetônica e o fato de
ser biodegradável permite que as peças utilizadas sejam descartadas
sem maiores impactos sobre o ambiente. Essa ainidade do material
com uma variedade de programas ligados à arquitetura efêmera
já foi aproveitada em projetos com diferentes propósitos e escalas,
feitos em países diferentes, incluindo no Brasil. Alguns desses projetos
são analisados na sessão seguinte, inluenciando ou orientando as
propostas deste trabalho, bem como justiicando essas escolhas.

12. Construção com bambu


A construção com bambu é um tema vasta, compreendendo
um sem-número de técnicas desenvolvidas ao longo de séculos.
Cada grupo de técnicas tem suas aplicações especíicas, vantagens e
desvantagens. Por conta disso, foi necessário focar a pesquisa apenas
nos projetos mais próximos ao tema deinido, para permitir um
maior e mais abrangente estudo das tecnologias envolvidas. Após a
familiarização com os sistemas mais comuns através de levantamentos
como os feitos por HIDALGO(2003), CARDOSO Jr.(2000) e
MARÇAL(2008), optou-se por analisar projetos que envolvessem:
51
montagem e desmontagem, amarrações, junções metálicas e
estruturas tencionadas. Com base nas conclusões tiradas nos capítulos
anteriores, projetos com junções de difícil execução, produtos com
alto nível de processamento (como o BLaC) e uso de concreto não
foram analisados.
Assim, essa seção contém o levantamento de técnicas
contemporâneas e tradicionais de construção com bambu que se
mostraram relevantes para a solução dos projetos propostos. Esse
levantamento foi feito por meio da análise de diversos projetos de
com escalas e programas que se aproximam do tema trabalhado.

12.1 Bambutec

Figura 13:Tenda do Parque Lage, 2014


Fonte: Bambutec

A Bambutec é uma empresa carioca que trabalha com


estruturas de bambu para eventos, fazendo os projetos e alugando
as estruturas. Fundada por dois graduandos da PUC após sua
experiência no LILD(Laboratório de Investigação em Livre Desenho),
a empresa se baseia em técnicas desenvolvidas no ambiente acadêmico
e aprimoradas por anos de experiência com o material. Desde o início
das atividades da empresa, a principal cliente têm sido a indústria de
eventos, que pode pedir projetos personalizados ou alugar as estruturas
que a empresa já possui, abrangendo desde painéis e quiosques para
uso interno quanto domos e galpões em ambientes naturais.
Os projetos da Bambutec consistem principalmente em
52
estruturas tencionadas, usando cabos de polipropileno de diversos
tamanhos tanto para fazer as amarrações quanto para tencionar
as estruturas. O uso do nó como junção facilita uma execução
simples que demanda menos processamento das varas, diminuindo
signiicativamente a demanda por maquinário.

12.2 ZCB Bamboo Pavilion

Figura 14: ZCB Bamboo Pavillion


Fonte: GIBSON, 2016

Os estudantes da Universidade de Hong Kong, coordenados


Prof. Kristof Crolla, projetaram e montaram em 2015 o ZCB Bamboo
Pavillion, para abrigar eventos com a temática de sustentabilidade.
O pavilhão adapta a tradicional técnica chinesa de montagem de
andaimes de bambu para criar uma estrutura de padrões triangulares,
desenhadas com a ajuda de softwares especializados. As quatrocentas
e setenta e cinco (475) varas de Phyllostachys pubescens utilizadas
(totalizando 2975m lineares) vencem um vão de 37m, coberto por
uma camada de tecido tencionado e suportado por três (3) sapatas de
concreto com 5,4m de diâmetro(ArchDaily, 2016).
Esse projeto é um exemplo do que pode ser feito com o
53
bambu, quando se explora as suas características naturais a partir de
ferramentas modernas. Adotando técnicas tradicionais, os arquitetos
também ajudam na sua renovação, através do diálogo com novas
abordagens projetuais. Esses dois lados do projeto, da exploração do
potencial do material através de desenho digital e da adoção de técnicas
simples como forma de viabilizar a execução, foram fundamentais
durante o desenvolvimento dos projetos, norteando a escolha das
soluções.

12.3 Peças Metálicas

Figura 15: Junta de aço para bambu


Fonte: MARÇAL, 2008

O uso de peças metálicas para fazer as junções das varas ajuda a


compensar a variabilidade das peças de bambu, permitindo um maior
nível de precisão e facilidade na montagem.

54
13. Projetos

Os projetos apresentados nesse trabalho são uma forma de


sintetizar as conclusões tiradas durante a pesquisa, na forma de
estruturas que aproveitem as vantagens do bambu levando em conta
tanto as limitações próprias do material quanto as do conhecimento
técnico local. Como forma de tratar de deinir um contexto mais
especíico para o projeto, dentro do escopo da arquitetura efêmera,
procurou-se um tema guarda-chuva que abrange problemas em
diversas escalas, demandas funcionais e atores envolvidos.
Partindo desses requisitos, chegou-se ao Carnaval de Recife
e Olinda como referências para o desenvolvimentos do tema. Essa
importante parte da cultura local gera uma demanda regular por
estruturas efêmeras, justiicando a busca por soluções que atendam
eicientemente um evento desse porte. Em ambas cidades, são
construídos, montados e posicionados tanto quiosques, tendas,
banheiros, palcos e camarotes quanto postos de polícia e postos
médicos necessários, para serem retirados após a quarta-feira de
cinzas, quando as cidades voltam a sua rotina diária. Entre todas as
possibilidades mencionadas foram escolhidos o quiosque, o palco e
um posto de observação para médicos, bombeiros e policiais. Esses
vários projetos foram escolhidos por suas diferenças de programa, de
usuários e de demanda de esforços, o que permite a exploração de um
maior leque de técnicas para atendê-las.

Atualmente a maioria dos quiosques de venda de alimentos


durante o carnaval utilizam tendas com estruturas de aço e coberturas
de lona, tal qual o ilustrado na Figura 16:

55
Figura 16: Barraca do Carnaval olindense
Fonte: Prefeitura de Olinda

Esse tipo de barraca é de baixo custo, leve e facilmente


montável, características indispensáveis para um projeto do tipo,
mas não oferecem lexibilidade ao vendedor, nem no ponto de vista
do tamanho do quiosque, nem do local onde vai colocado. Como a
estrutura só funciona quando os 4 pontos de apoio estão em nível, a
escolha do ponto de venda ica severamente limitada pela topograia
acidentada da cidade ou até mesmo pela irregularidade das calçadas.
O quiosque projetado visa oferecer as mesmas vantagens
das estruturas usadas hoje (leveza e facilidade de montagem), a um
custo semelhante ou inferior, enquanto tenta resolver o problema das
irregularidades de nivelamento. Para auxiliar na análise do problema,
foi criado um mapa das inclinações de Olinda, apresentado a seguir:

56
Figura 17: Mapa das inclinações da região da cidade alta, em
Olinda Fonte: Elaborado pelo autor

Em multidões como as presentes durante o carnaval olindense


se torna extremamente difícil para agentes do poder público, como
enfermeiros, bombeiros e policiais, terem uma boa percepção da
situação a partir do nível do chão. No entanto, a única estrutura que
buscar remediar esse problema em uso atualmente é uma torre, feita
de aço e coberta com lona, utilizada pela polícia militar.
Para cumprir a sua função, basta a estrutura fornecer uma

57
plataforma mais alta que o nível do chão e uma cobertura para
proteger o agente do sol. Estes requisitos estão presentes na torre
atualmente utilizada, mas ela apresenta as mesmas limitações do
quiosque ao não funcionar em terreno desnivelado. Tal limitação
pode ser problemática no que pode inviabilizar o socorro de algum
folião caso necessário, por conta da própria diiculdade em identiicar
emergências rapidamente.
No projeto, propõe-se um posto de observação menor e com
capacidade de adaptação ao relevo, assim dando mais opções durante
o planejamento do controle urbano da festa.

Torre de observação da polícia militar


Fonte: Prefeitura de Olinda

Os palcos atualmente usados no carnaval de Recife e Olinda


são feitos com estruturas modulares metálicas, tanto para os tablados
quanto para as cobertas de lona. Tal sistema é amplamente adotado
por todo tipo de apresentação artística (desde pequenas peças até
shows de grande porte), por conta de sua característica modular.
Nesta capacidade de adaptação reside a maior vantagem desse sistema:

58
suas peças podem ser utilizadas novamente muitas vezes, montadas
e desmontadas para formar estruturas do tamanho necessário.
No entanto, a estrutura utilizada para tal é extremamente pesada,
criando uma necessidade do uso de mais mão-de-obra e maquinário
e portanto aumentando o custo de montagem e transporte. Também
é possível uma melhora do ponto de vista da sustentabilidade, já que
a estrutura é muito mais forte do que o necessário para sustentar as
leves cobertas de utilizadas.

Palco do palco do Marco Zero, 2013


Fonte: ÁVILA, 2013

O projeto do palco abrange apenas a estrutura de coberta, podendo


ser usado em conjunto com os tablados e infraestrutura de palco
existentes. Para que a sua execução seja viável, é necessário a adoção
de um sistema simples o suiciente para ser montado rapidamente, ao
mesmo tempo que permita adaptação à diferentes escalas e contextos.
Como os palcos se tornam marcos na paisagem pela sua própria escala
e importância nos eventos, outro fator importante no desenvolvimento

59
da proposta foi o aspecto estético, que pesou na criação de estruturas
que fogem à ortogonalidade das atualmente utilizadas.

A escolha dos materiais a serem utilizados nos projetos foram


levadas em conta as características físicas, a disponibilidade no mercado
e a viabilidade técnica da sua aplicação. Como a indústria bambuseira no
Brasil ainda é incipiente e existe pouca mão-de-obra com familiaridade
com o material, poucas alternativas estão disponíveis. A opção clara é
pelo uso do colmo tratado, por estar disponível no mercado através
de empresas como Casa & Bambu e a Pacayan Artes em Bambu.
Os problemas ligados à falta de homogeneidade foram abordados
nos projetos através de desenhos que permitem maior lexibilidade,
incorporando a variabilidade natural do material e a adaptação à
situação do sítio. Os métodos de ixação e montagem foram deinidos
a partir das necessidades de cada programa, de acordo com seus
diferentes contextos físicos, escalas, usuários e construtores. A falta de
lexibilidade que a arquitetura para eventos tem que lidar na questão
do tempo de execução (CABRAL, 2017) também foi determinante
para tal, pois torna a exequibilidade das estruturas em pouco tempo
algo fundamental para que possam ser utilizadas.
A própria natureza na arquitetura efêmera pede sistemas
com grande capacidade de adaptação a diferentes espaços e essa
necessidade é ainda acentuada pela topograia diversa dos espaços
onde são celebrados os carnavais de Recife e Olinda. Para garantir essa
capacidade de adaptação dos sistemas projetados, optou-se pelo uso
do desenho paramétrico. Esse tipo de desenho computacional utiliza
uma linguagem de programação própria (no caso, Grasshopper)
para a criação de modelos que variam conforme os dados inseridos,
permitindo a experimentação com um número muito maior de
variações do mesmo projeto do que o viabilizado por métodos de
desenho tradicionais. Os modelos paramétricos criados foram testados
com diferentes dimensões e em vários espaços diferentes para garantir
que os conceitos construtivos se sustentariam, enquanto se avaliava
a estética das variações possíveis, de forma a se assegurar que os
resultados obtidos possuem tanto qualidade arquitetônica quanto
viabilidade técnica.
O cálculo estrutural não foi feito neste trabalho, mas a
integração deste no modelo paramétrico, levando em conta diferentes
60
espécies e os aspectos formais variáveis do sistema, podem ser feita
utilizando plugins disponíveis gratuitamente, como o Kangaroo para
Grasshopper. Uma ferramenta do tipo seria importante para viabilizar
a adoção de sistemas com esse nível de variação nos esforços, já que
os responsáveis pelo fornecimento das estruturas devem garantir a
sua segurança (CABRAL, 2017).

61
Projeto

O objetivo com o quiosque é fazer um projeto cuja


execução seja de baixo custo e fácil execução, enquanto
cumprindo a função básica de proteção do sol e chuva em
um terreno acidentado como o olindense. Foi levado em conta
que, devido a falta de disponibilidade do material em lojas de
material de construção, o bambu utilizado seria encontrado
naturalmente na região, tendo um maior nível de variabilidade
que o plantado comercialmente. Para a amarração entre as
peças optou-se pelas amarrações com cordas naturais ou
poliméricas, materiais fáceis de serem encontrados no mercado
ou de serem reutilizadas. Esse sistema de ixação permite
a lexibilidade necessária para que o quiosque se adapte
adequadamente ao seu parâmetro variável, as inclinações em
ambos eixos longitudinal e transversal. A variação do ponto de
amarração (que impede o uso de junções metálicas) também
é importante para permitir que o usuário tenha a possibilidade
de escolher o ponto onde instalará o quiosque na hora e que
permita movê-lo caso julgue necessário. O uso de varas de
mesmo tamanho foi outra forma de facilitar essa adaptabilidade,
ao mesmo tempo que simpliica a preparação das peças.

Quiosque
Isométrica Explodida Vistas

Coberta
Varas de bambu 2,2m x2
Corda 60cm x4
Abraçadeira x6
Lona 2,1 x 2,6m x1

Vigas
Varas de bambu 3,5m x2
Corda 60cm x4

Suportes Contraventamento
Varas de bambu 3,5m x8 Varas de Bambu 3,5m x2
Corda 60cm x6 Corda 60cm x4
Montagem Montagem

1. Pré-montagem da coberta
a. São ixadas as vigas em ângulos de 90º,
utilizando as amarrações indicadas.
b. A lona é presa nos bambus com
abraçadeiras. 4. Amarração da cobertura
a. São posicionados os suportes
b. É colocado a coberta sobre o suporte
c. As varas são amarradas aos suportes

2. Montagem do primeiro suporte 3m


a. São posicionadas as varas na parte mais
0,9m
alta do ponto desejado.
2,6m b. No chão, as varas são amarradas de
acordo com a altura e largura desejadas

0,9m

3. Marcação da altura 5. Contraventamentos


a. O suporte já montado é levantado no a. Os contraventamentos são
2,6m ponto mais alto para marcação da altura amarrados na frente do quiosque
da coberta. b. Caso a estrutura não esteja irme
b. São amarradas as varas do segundo o suiciente, amarrar reforço extra
suporte de acordo com o nível deinido na parte posterior do quiosque
Rua de São Francisco Carmo
Projeto

O projeto do posto de observação para policiais,


bombeiros ou médicos também pede facilidade na montagem,
mas já permite um custo maior em benefício da praticidade e
eiciência na aplicação de um programa mais complexo que
a simples coberta em que consiste o quiosque. Considerando
o posto como um produto feito em série ao invés de
artesanalmente, foram especiicadas técnicas que exigem mais
ferramentas (como a serra-copo e a broca serpentina), sem
fugir do espaço de possibilidades de uma oicina recifense.

Posto de
observação
Isométrica Explodida Vistas

Colunas laterais
Varas de bambu 3,5m x2
Corda 60cm x2
Juntas cônicas x2
Sapatas x2

Base
Piso de madeira 1,2m x 1,2m
Barras de aço 80cm x2
Cintas de borracha 10cm x8

Coluna central Escada


Vara de bambu 3,5m x1 Varas de bambu 18,6m
Corda 60cm x2 Juntas cônicas x6
Hastes metálicas x12
Sapatas x2
Montagem Montagem

1. Pré-montagem da escada
a. São montados os degraus nas peças 4. Fixação da base
principais. a. A base de madeira é encaixada na
b. São montados os suportes da base. estrutura
c. São montados os contraventamentos b. As hastes de aço são presas à
diagonais, com as curvaturas para dentro base.
d. As peças são travadas com porcas

2. Posicionamento da escada 5. Amarração


a. As sapatas são posicionados no ponto
a. As cordas são presas a uma das
desejado
colunas laterais
b. A escada pré-montada é encaixada nas
b. As cordas são presas aos anéis
sapatas, de forma que sua subida ique na
das hastes de aço, passando por
direção oposta da inclinação
fora da coluna central
c. As peças são travadas com porcas
c. São presas à outra coluna lateral

3. Montagem dos suportes


a. As sapatas são posicionados abaixo da
6. Cadeira e sombra
base
a. Coloca-se a cadeira e guarda-sol
b. As colunas laterais são presas aos pontos
mais altos da escada, com as curvaturas
para fora e amarradas nos pontos indicados
c. A coluna central é apoiada no chão, no
encontro as colunas laterais e no eixo da
base, sendo amarrada ao resto da estrutura.
Rua Treze de Maio Rua de São Bento
Projeto
O palco foi o projeto que mais se baseou em processos
industriais, pela própria escala exigida pelo programa. Também
é o projeto no qual o impacto paisagístico mais pesou sobre as
decisões, em uma busca por um sistema adaptável não só do
ponto de vista funcional, mas também estético. Assim, o projeto
foi concebido de forma a ser pré-fabricado e armazenado para
posterior montagem rápida no local. Apesar de não ser possível
evitar algum uso de maquinário para erguer uma estrutura com
mais de 10 metros de altura, o processo de montagem permite
maior agilidade que os sistemas modulares comumente utilizados.
A espécie de bambu especiicada para as colunas, por
ser a mais adequada para construção nesta escala disponível
comercialmente no Brasil, é Dendrocalamus asper, com peças
entre 8 e 20 centímetros de diâmetro e entre 7 e 12 metros de
comprimento . Não foram encontrados fornecedores de bambu
para construção na região, como seria ideal, mas empresas como a
paulista Casa & Bambu(REIS, 2017), atualmente já tem condições
de fornecer as varas do tamanho e qualidade necessárias para as
demandas desse projeto. Como em Pernambuco ainda não existem
grupos com o ferramental para tratar as varas nesta escala, é
possível trazê-las já tratadas pela própria empresa fornecedora.
As peças metálicas usadas para a ixação das varas no
chão, bem como a haste principal não são disponíveis no mercado
hoje, mas podem ser encomendadas de indústrias locais após o
desenvolvimento de um projeto detalhado adequado. Depois de
adquiridas, as partes metálicas do palco poderiam ser utilizadas
quantas vezes for possível, havendo sido desenhadas para permitir
a variabilidade do desenho do palco sem diicultar sua execução.
Os pés da estrutura têm duas características importantes
para o funcionamento da coberta do palco: encaixe ajustável
interno na vara e ajuste de ângulo de inclinação. Primeiramente, é
importante que a peça não seja ixada permanentemente na vara
para permitir que um mesmo pé possa ser utilizado em palcos de
dimensões diversas mudando-se apenas a mesma. Como existe
um nível de variação no diâmetro dos colmos, é importante que
haja um mecanismo de ajuste que prenda a vara à sapata.

Palco
Isométrica Explodida Vistas

Coberta
Faixas de lona 151 m²
Corda 30cm x70

Haste principal
Tubos de aço 2,5m 15cmØ x5
Tubos articulados 2,5m 8cmØ x14
Cintas metálicas x14

Colunas
Varas de bambu 104,7m
Juntas cônicas x14
Cabos de aço x6
Sapatas x15
Montagem Montagem

1. Transporte
a. O tamanho máximo das varas de bambu é de 12m
b. A haste principal deve ser composta por partes menores para facilitar 3. Montagem das varas e coberta
seu descarregamento no local de instalação a. A sapata da haste é posicionada
c. As varas de bambu podem ser transportadas inteiras. Uma vara de 12m b. A primeira peça é ixada na sapata
de comprimento pesa aproximadamente 106 kg. c. O resto da haste é montada
d. Os braços são colocados um para cada
lado
12m

2,5m

2. Montagem da haste
a. A sapata da haste é posicionada
b. A primeira peça é ixada na sapata
c. O resto da haste é montada
d. Os braços são colocados um para cada
4. Sapatas e cabos
a. Levanta-se a haste principal pela ponta solta
lado
b. São ixadas as sapatas das colunas
c. São presos os cabos tencionados
d. É montado o tablado e demais estruturas
Cais da Alfândega
Marco Zero
14. Conclusão

A pergunta principal, apresentada no início do trabalho,


indaga: “O bambu é um material viável para o uso da construção
civil do Nordeste brasileiro?”. Devido ao próprio escopo da questão
levantada, fez-se necessária a sua divisão nas cinco perguntas que
formam a problemática, abordadas no decorrer do texto. A partir da
pesquisa feita, encontrou-se o seguinte:

.Quais espécies de bambu são mais adequadas para o plantio e uso


comercial no Nordeste brasileiro?

A literatura aponta as espécies Guadua angustifolia,


Phyllostachys pubescens, Dendrocalamus giganteus e Dendrocalamus
asper como as mais adequadas para uso na construção. No Brasil,
existem culturas de P. pubescens, D. giganteus e D. asper, além das
populações naturais de espécies diversas. No Nordeste, o Bambusa
vulgaris é plantado em escala comercial.

. Qual a dimensão do impacto ambiental da cadeia produtiva do


bambu na construção civil? Como se compara com outros materiais
de uso semelhante?

A quantiicação do impacto ambiental de algum material é uma


tarefa complexa, que precisa levar em consideração todo seu ciclo de
vida. Estudos completos sobre esse aspecto da cadeia produtiva ainda
não existem no Brasil, inviabilizando uma resposta mais precisa no
presente trabalho. No entanto, com base em resultados obtidos fora do
país, ica evidente que o bambu tende a ser signiicativamente menos
danoso ao meio natural do que outros materiais construtivos. Tal
dano pode ser diminuído ainda mais com o uso de colmos plantados
localmente e o aproveitamento dos resíduos para geração de energia,
práticas comuns em outros países.

. Como se daria a cadeia produtiva do bambu no contexto nordestino?

Quando analisando as fases de plantação e processamento

86
primário do bambu existem poucas barreiras para o estabelecimento
de uma cadeia produtiva. A planta é pouco exigente quanto ao solo e
clima, permite o aproveitamento de terreno em declive e já é cultivada na
zona litorânea. Os produtos mais simples, como mobiliário, artesanato
e varas para construção exigem pouco processamento e ferramentas
acessíveis, diminuindo o investimento inicial necessário. Todavia, a
mão de obra local (como pedreiros, engenheiros e arquitetos) não está
familiarizada com o material, causando dois problemas signiicativos:
a falta de capacidade de projetar e executar projetos com bambu e a
falta de demanda pelo material. Assim sendo, esforços para capacitar
trabalhadores da indústria nas técnicas de construção com bambu,
como os já feitos pelo INBAMBU e que se iniciam na UFPB, são
fundamentais para viabilizar a cadeia produtiva da gramínea.

.A legislação abre espaço para o uso do bambu na construção civil?


De que formas?

A exigência de conformidade com as normas técnicas, presente


nos códigos de obras da maioria das capitais da região, impede hoje
a aprovação de projetos com o bambu como material estrutural. Essa
barreira signiicativa para a adoção do material pela indústria deve
ser quebrada em breve, com a aprovação das NBRs em tramitação
na ABNT. Além disso, se aplicada, a Lei de Incentivo ao Bambu
tem potencial para impulsionar a consolidação da indústria. Dada a
condição de substitutos dos produtos de bambu, talvez a concessão de
créditos ou subsídios iscais sejam necessários para diminuir a barreira
de entrada, assim incentivando o investimento no setor.

.Quais produtos poderiam ser produzidos utilizando o bambu como


matéria-prima?

Como os laminados demandam mais processamento e


maquinário especíico, maior investimento inicial é necessário para
começar a produzi-los. Apesar disso tender a diminuir o interesse do
mercado, o sucesso de empresas que trabalham com BLaC e pisos de
bambu nos EUA e na Europa sugere potencial neste tipo de produto.
Já o mobiliário, artesanatos e as varas tratadas para construção,
por serem produzidos através de processos mais simples (ou até
87
artesanais), são uma opção concreta para se utilizar o material em um
horizonte de tempo mais próximo. Como a maioria dos produtos de
bambu entraria no mercado como substitutos de outros produtos já
bem estabelecidos, eles precisam apresentar diferenciais signiicativos.
Tal valor agregado por vir da característica sustentável, do baixo custo
inal ou da estética única obtida a partir material.

Como escolhi basear o projeto na realidade atual ao invés de


desenhar sobre a hipótese de um contexto ideal, optei pela arquitetura
efêmera como tema, por conta das limitações deinidas pelo ambiente
institucional presente. Nos projetos, a falta de produtos de bambu no
mercado e a falta de familiaridade da mão de obra com as técnicas
relacionadas guiaram grande parte das decisões tomadas.
Para que no futuro tais limitações sejam superadas, é necessário
esclarecer as concepções distorcidas sobre o material, enquanto
divulgando e expandindo a cultura ligada à ele, seja no setor público,
privado ou na Academia. O bambu oferece fartos presentes para
nós, nordestinos, e a única coisa que nos separa deles é a falta de
conhecimento.

88
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Entrevistas e correspondência

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CABRAL, Guilherme. Entrevista concedida via Skype. 2017

STOFFEL, Patrick. Entrevista concedida via Skype. 2017

REIS, Jonas. Conversa via Facebook. 2017

ROCHA, Germana C. Re: TCC sobre construção com bambu.


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