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Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Capítulo 3

CAPÍTULO 3

PRECIPITAÇÃO
3.1 INTRODUÇÃO

A precipitação pode assumir diversas formas, incluindo: chuva, neve, granizo e orvalho.
Com relação à hidrologia, apenas chuva e neve são importantes. Este curso tratará apenas da
precipitação pluviométrica, já que a precipitação de neve não é significativa no Brasil.
A chuva é o principal elemento da maioria dos projetos hidrológicos. Os problemas de
engenharia relacionados com a hidrologia são em sua grande maioria conseqüência de chuvas
de grande intensidade ou volume e da ausência de chuva em longos períodos de estiagem.
Chuvas de grande intensidade em áreas urbanas causam o alagamento das ruas, porque o
sistema de drenagem não é projetado para chuvas muito intensas. Precipitações de grande
intensidade podem, ainda, causar danos à agricultura e a estrutura de barragens. A ausência de
chuvas por longos períodos reduz a vazão dos rios, causando a diminuição do nível dos
reservatórios. Vazões reduzidas devido à falta de chuva trazem danos ao ambiente do curso
d’água, além de reduzir a água disponível para diluição de poluentes. A diminuição do nível
dos lagos e reservatórios reduzem a disponibilidade da água para usos como: abastecimento,
irrigação e geração de energia. A umidade excessiva resultante de eventos de baixa intensidade
e longa duração pode causar problemas à agricultura, reduzindo as colheitas.
É evidente, então que os problemas surgem quando a precipitação ocorre em situações
extremas de intensidade, freqüência, ou quando os intervalos entre precipitações são
excessivamente longos.
A disponibilidade de precipitação em uma bacia durante o ano é o fator determinante
para quantificar, entre outros, a necessidade de irrigação de culturas e o abastecimento de água
doméstico e industrial. A determinação da intensidade da precipitação é importante para o
controle de inundação e a erosão do solo. Por sua capacidade para produzir escoamento, a chuva
é o tipo de precipitação mais importante para a hidrologia.
As características principais da precipitação são o seu total, duração e distribuição
temporal e espacial. O total precipitado não tem significado se não estiver ligado a uma duração.
Por exemplo, 100 mm pode ser pouco em um mês, mas é muito em um dia ou, ainda mais,
numa hora. A ocorrência da precipitação é processo aleatório que não permite uma previsão
determinística com grande antecedência. O tratamento dos dados de precipitação para grande
maioria dos problemas hidrológicos é estatístico.

3.2 MECANISMOS DE FORMAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES

O vapor de água contido na atmosfera constituí um reservatório potencial de água que,


ao condensar-se, possibilita a ocorrência das precipitações. A origem das precipitações está
ligada ao crescimento das gotículas das nuvens, o que ocorre quando forem reunidas certas
condições. Efetivamente, muitas vezes existem nuvens que não produzem chuvas, o que
evidencia a necessidade de processos que desencadeiem a precipitação.
Para as gotículas de água precipitarem é necessário que tenham um volume tal que seu
peso seja superior ás forças que as mantêm em suspensão, adquirindo, então, uma velocidade
de queda superior às componentes verticais ascendentes dos movimentos atmosféricos.

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A nuvem é um aerosol constituído por uma mistura de ar, vapor de água e de gotículas
em estado líquido ou sólido cujos diâmetros variam de 0,01 a 0,03 mm, espaçadas, em média,
um milímetro entre si. O ar que envolve as gotículas das nuvens se acha num estado próximo
ao da saturação e, por vezes, supersaturado. Esse aerosol fica estável, em suspensão, pelo efeito
da turbulência no meio atmosférico e/ou devido à existência de correntes de ar ascendentes que
contrabalançam a força da gravidade.
As gotículas possuem massa de 0,5 a 1 grama de água por m3 de ar, enquanto o ar
saturado que envolve as gotículas tem umidade de 1 a 6 gramas por m3 ( -20ºC a 5ºC). A
concentração das gotículas é de cerca de 1000/cm3. Dessa forma, a quantidade total de água
presente em uma nuvem, nos três estados pode varias de 1,5 a 7 g/m3.
As gotículas de chuva têm diâmetros de 0,5 a 2,0 mm ( densidade espacial de 0,1 a 1
gota por dm3), com um valor máximo de 5,0 a 5,5 mm. Quando uma gota cresce até atingir um
diâmetro de 7,0 mm, sua velocidade de queda será de 9 m/s. A uma velocidade tão alta a gota
se deforma e subdivide em gotas menores devido à resistência do ar. As gotas de chuva têm
dimensões muito maiores do que as gotículas das nuvens. A origem das precipitações está
intimamente ligada ao crescimento das gotículas das nuvens.
O ar atmosférico, além dos gases que o compõem, contém partículas minúsculas
(diâmetro variando de 0,01 a 1 mícron) de várias origens: argilosas, orgânicas (pólen), químicas
e sais marinhos. Sobre essas partículas se realiza com facilidade a condensação do vapor
atmosférico. Essas partículas funcionam como núcleos de condensação. Observa-se que quando
o ar úmido sobe e atinge o nível de saturação, as gotículas de água que se formaram não têm
tendência a se unirem ente si sem a presença dos núcleos de condensação.

3.3 CLASSIFICAÇÕES DAS PRECIPITAÇÕES

Conforme o mecanismo fundamental pelo qual se produz a ascensão do ar úmido, as


precipitações podem ser classificadas em:
Convectivas: quando em tempo calmo, o ar úmido for aquecido na vizinhança do solo, podem-
se criar camadas de ar que se mantêm em equilíbrio instável. Perturbado o equilíbrio, forma-se
uma brusca ascensão local do ar menos denso que atingirá seu nível de condensação com
formação de nuvens, e muitas vezes, precipitações. São as chuvas convectivas, características
das regiões equatoriais, onde os ventos são fracos e os movimentos de ar são essencialmente
verticais, podendo ocorrer nas regiões temperadas por ocasião do verão (tempestades violentas).
São, geralmente, chuvas de grande intensidade e de pequena duração, restritas a áreas pequenas.
São precipitações que podem provocar importantes inundações em pequenas bacias:
Orográficas: quando os ventos quentes e úmidos, soprando geralmente do oceano para o
continente, encontram uma barreira montanhosa, elevam-se e se resfriam adiabaticamente
havendo condensação do vapor, formação de nuvens e ocorrência de chuvas. São chuvas de
pequena intensidade e grande duração, que cobrem pequenas áreas. Quando os ventos

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conseguem ultrapassar a barreira montanhosa, do lado oposto projeta-se uma sombra


pluviométrica, dando lugar a áreas secas ou semi-áridas causadas pelo ar seco, já que a umidade
foi descarregada na encosta oposta;
Frontais ou ciclônicas: provêem da interação de massas de ar quentes e frias. Nas regiões de
convergência na atmosfera, o ar quente e úmido é violentamente impulsionado para cima,
resultando no seu resfriamento e na condensação do vapor de água, de forma a produzir chuvas.
São chuvas de grande duração, atingindo grandes áreas com intensidade média. Essas
precipitações podem vir acompanhadas por ventos fortes com circulação ciclônica. Podem
produzir cheias em grandes bacias.
Observam-se diferentes formas de precipitações na natureza:
Chuvisco (neblina ou garoa): precipitação muito fina e de baixa intensidade;
Chuva: é a ocorrência da precipitação na forma líquida. A chuva congelada é a precipitação
constituída por gotas de água sobrefundida que congelam instantaneamente quando se chocam
contra o solo, formando uma capa de gelo.
Neve: é a precipitação em forma de cristais de gelo que durante a queda coalescem formando
blocos de dimensões variáveis;
Saraiva: é a precipitação sob a forma de pequenas pedras de gelo arredondadas com diâmetro
de cerca de 5 mm.
Granizo: quando as pedras, redondas ou de forma irregular, atingem grande tamanho (diâmetro
 5 mm);
Orvalho: nas noites claras e calmas, os objetos expostos ao ar amanhecem cobertos por
gotículas de água. Houve a condensação do vapor de água do ar nos objetos que resfriam
durante a noite. O resfriamento noturno geralmente baixa a temperatura até ponto de orvalho;
Geada: é a deposição de cristais de gelo, fenômeno semelhante ao da formação de orvalho, mas
ocorre quando a temperatura é inferior a 0ºC.

3.3 PLUVIOMETRIA

3.3.1 INTRODUÇÃO
A medição da quantidade da água que cai em uma região é dita pluviometria. Sendo os diversos
tipos de precipitação, de um modo geral, medidos indiscriminadamente através do seu equivalente em
água pela chamada altura pluviométrica (diz-se que caíram x mm de chuva).
As grandezas que caracterizam uma precipitação são:
 Altura pluviométrica (h): é a espessura média da lâmina de água precipitada que recobriria a região
atingida pela precipitação admitindo-se que essa água não se infiltra, não evapora, nem escoa para
fora dos limites da região. A unidade de medição habitual é o milímetro de chuva.
 Duração (X): é o período de tempo durante o qual a chuva cai. As unidades normalmente utilizadas
são o minuto ou a hora.
 Intensidade (i): é a precipitação por unidade de tempo, obtida com a relação i = h/X, expressa,
normalmente em mm/h ou mm/min. A intensidade de uma precipitação apresenta variabilidade
temporal, mas, para a análise dos processos hidrológicos, geralmente são definidos intervalos de
tempo nos quais é considerada constante.
 Tempo de recorrência (Tr): é interpretado, na análise de alturas pluviométricas (ou intensidades)
máximas, como o intervalo médio em número de anos em que se espera que ocorra uma precipitação
maior ou igual à analisada.
 Freqüência de probabilidade (F): é o inverso do tempo de recorrência, ou seja, a probabilidade de
um fenômeno igual ou superior ao analisado, se apresentar em um ano qualquer (probabilidade
anual).
Por exemplo, uma precipitação com 1% de probabilidade de ser igualada ou superada
num ano tem um Tr = 100 anos. No caso da análise de precipitações extremas mínimas deve-

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se mudar a interpretação no sentido da superação ocorrer por defeito (valores menores que o
analisado). Neste caso Tr é o inverso da probabilidade de não - excedência.

3.3.2 REGIME PLUVIOMÉTRICO


É o conjunto de características dessa mesma região resultantes da pluviosidade média e
distribuição, frequência e duração das chuvas. Sendo cada região caracterizada pelo seu regime
pluviométrico.

3.3.3 APARELHOS DE MEDIDA


As grandezas pluviométricas são obtidas direta ou indiretamente, através dos aparelhos
descritos abaixo:
a) PLUVIÔMETRO. É fundamentalmente constituído
por um recipiente aberto de bordas delgadas e
chanfradas, a fim de que fique bem definida a abertura
exposta à chuva, com diâmetro superior rigorosamente
conhecido, tendo-se mais frequentemente 100, 200,
314, 400 ou 1000 cm2 de área de captação. Essa
abertura é internamente afunilada, deixando apenas um
pequeno orifício para a passagem de água, e diminuindo
assim a possibilidade de evaporação da mesma (já que
o contato com a atmosfera se restringe ao dito orifício).
Em baixo, há uma válvula de saída para a água ser
recolhida em uma proveta: que deve estar calibrada para
que se faça a leitura diretamente em mm de chuva, ou
pode ser uma proveta das mais comuns onde a leitura é
feita em uma unidade de volume, em mililitro, que
corresponde a 1 cm3 .

Fig. 3.1 - Esquema de funcionamento Fig. 3.2 - Foto

Para o cálculo da lâmina precipitada deve-se utilizar á seguinte formula:

10V
P (3.1)
A

Onde: P = a precipitação em mm acumulada no tempo entre as observações,


V = o volume de água coletado é medido na proveta em cm3
A = área da abertura superior do aparelho em cm2

b) PLUVIÓGRAFO. Em muitos estudos hidrológicos, previsão de picos de cheia, por exemplo, é


indispensável conhecer não somente a altura total de precipitação referente a um determinado período,
mas também a intensidade dessas precipitações em cada instante ao longo desse período.
Utiliza-se então um pluviógrafo, também chamado de pluviômetro registrador ou udógrafo, cujo
aparelho registrador traça em diagrama a curva das precipitações acumuladas no período.
As figuras 3.3 e 3.4 mostram o esquema de funcionamento e a foto de um pluviógrafo. Na fig.
3.5 vê-se os diagramas de chuva gerados por este.

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Fig 3.3 - Esquema de funcionamento Fig 3.4 - Foto Fig. 3.5 - Diagrama de chuva

3.3.4 LOCALIZAÇÃO DOS PLUVIÔMETROS

A medida correta das alturas de precipitação está longe de ser simples, basicamente pelas seguintes
razões:
a) Seja qual for o seu tipo, o pluviômetro cria uma perturbação aerodinâmica que modifica mais ou
menos o campo das precipitações, originando, na sua vizinhança imediata, turbilhões que afetam a
quantidade chuva e sobretudo a neve captada.
b) Há poucos locais ao mesmo tempo suficientemente abrigados para reduzir ao mínimo o efeito
aerodinâmico acima referido e, entretanto, convenientemente desobstruídos para fornecer uma
amostra típica válida da região, seja qual for a direção do vento e da perturbação pluviosa.
c) Uma medida de chuva não pode ser nunca repetida.
d) A amostra revelada pelo pluviômetro é sempre extraordinariamente pequena em relação ao conjunto
da chuva que nós supomos por ela determinada sobre uma zona sempre muito extensa; ela é tanto
menos representativa quanto mais importante for a heterogeneidade espacial da chuva sobre a zona
considerada.
É, portanto essencial medir as precipitações com aparelhos estabelecidos, instalados e
explorados segundo métodos extremamente normatizados, para obter resultados tão representativos
quanto possível.
Para tirar melhor partido da utilização dos pluviômetros é conveniente ter em conta os seguintes
princípios gerais:
1) A boca do pluviômetro deve ficar bem horizontal; na prática podemos estimar em 1% o erro
produzido por cada grau de inclinação do pluviômetro sobre a horizontal, desde que ela não exceda
10º ; este erro é positivo quando a inclinação do plano de abertura está dirigida para o vento e negativo
no caso contrário.
2) Parece (há autores de opinião contrária) que os pluviômetros acusam uma altura de precipitação tanto
maior quanto maior for a área de recepção de sua abertura.
3) É a ação do vento, variável em sua velocidade e a situação mais ou menos exposta do pluviômetro,
a principal causa de erro na medição das precipitações. O aumento de velocidade do ar e a formação
de turbilhões na vizinhança imediata do aparelho tem por conseqüência um desvio local da trajetória
das partículas da chuva ou de neve que ocasiona um erro por defeito na altura da precipitações
medidas. O erro é tanto maior quanto maior for a velocidade do vento e menor a velocidade de queda
das gotas de água ou flocos de neve.

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De acordo com o que se acaba de expor e para reduzir o erro ao mínimo, os pluviômetros devem
colocar-se em exposição abrigada, mas sem obstáculos. A altura normatizada deste aparelho é de 1,5
metros do solo.

A situação ideal é a localização em uma área grande, plana e livre de árvores e edifícios que
possam interceptar a precipitação. Além disso, para reduzir os efeitos do vento, deve-se instalar barreiras
baixas, com envolventes cilíndricos ou tapumes, a uma distância do pluviômetro não inferior ao dobro
da sua altura. Modernamente também se usam telas que envolvem a curta distância a superfície
receptora, conseguindo muito aproximadamente realizar um pluviômetro “aerodinamicamente neutro”.

A densidade ótima da rede pluviométrica depende, evidentemente da finalidade e da


heterogeneidade das chuvas na região em estudo. Assim, em bacias planas, extensas mas homogêneas,
uma rede pouco densa será satisfatória. Ao contrário, se o objetivo é estudar a influência de precipitações
de curta duração numa região montanhosa, teremos de multiplicar a rede e utilizar vários aparelhos
registradores.

3.4 APRESENTAÇÃO DOS DADOS PLUVIOMÉTRICOS

Os dados pluviométricos são atualmente registrados, armazenados e apresentados em forma de


tabelas e/ou de bancos de dados.
Para maior facilidade de comparação desses dados, recorre-se a representações gráficas.
Uma análise pluviométrica decorre ao longo do tempo em determinada região. Portanto, tem-se
que utilizar duas espécies de representações gráficas: uma temporal, relativa à evolução pluviométrica
em um mesmo ponto (posto); outra espacial, dando-nos a noção de como varia, de ponto a ponto da
região, ou seja, a pluviometria relativa a um dado intervalo de tempo.

3.4.1. REPRESENTAÇÃO TEMPORAL

Recorre-se, mais freqüentemente, a dois tipos de diagrama, que a seguir se apresentam.

a)HIETOGRAMA: relaciona intensidade média de


precipitação com o tempo. Representando em abcissa os
tempos, divididos em intervalos iguais ao período de
observação pluviométrica. Desenha-se retângulos de área
proporcional às alturas de precipitação correspondentes a
esses intervalos para obter, assim, um diagrama com o
aspecto igual ao da fig. 3.6, ao qual se dá o nome de
hietograma.
Fig. 3.6 - Hietograma

Mas se as divisões do tempo forem iguais a unidade, a intensidade média de cada intervalo
exprime-se pelo mesmo número que a altura de precipitação relativa ao mesmo intervalo; por isso,
nesses casos pode-se marcar nas ordenadas simplesmente as alturas de precipitação.

b)CURVA DE PRECIPITAÇÕES ACUMULADAS: corresponde á curva integral do hietograma.

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Sendo i = dh/dt = i(t) a função correspondente


ao hietograma (designando por i a intensidade e h a
altura de precipitação), a curva de precipitação
acumulada se definirá por :
h   i (t )dt (3.2)
Portanto ela nos dá, para cada valor de tempo,
a altura de precipitação caída desde a origem dos
tempos até esse momento. Veja o exemplo da figura
3.7.

Fig. 3.7 - curva de precipitações acumuladas

3.4.2 REPRESENTAÇÃO ESPACIAL (CARTAS PLUVIOMÉTRICAS)

A variação em dada região, da pluviometria relativa a um determinado período de tempo


representa-se habitualmente por mapas dessa mesma região, ou cartas pluviométricas. Elas nos dão
portanto uma idéia de conjunto sobre a repartição das chuvas nesse território durante o período em causa.
Normalmente este período é de um ou mais anos, sendo no segundo caso habitual trabalhar-se com os
valores médios das precipitações anuais.

A) REPRESENTAÇÃO PELAS ISOIETAS

As isoietas são linhas que representam a


distribuição pluviométrica de uma região, através de
curvas de igual precipitação. Este meio de
representação pluviométrica é inteiramente análogo
ao da representação topográfica. A figura 3.8 mostra
as isoietas para uma bacia hidrográfica teórica

Fig. 3.8 - Mapa de isoietas de uma bacia hidrográfica

Para traçar as isoietas, parte-se dos dados relativos


aos postos pluviométricos da região (pertencentes ao
intervalo em que se fará as curvas). Interessa-nos em
primeiro lugar determinar os pontos de pluviosidade igual às
das isoietas que desejamos traçar. Para isso supomos que no
seguimento de reta que une dois pontos vizinhos é linear a
variação da pluviosidade. Com base nesta hipótese, vejamos
como determinar entre os pontos A e B de alturas de chuva
HA e HB , o ponto C corresponde a altura de chuva HC.
Da figura 3.9 tira-se que:
x L AB
 (3.3)
hA  hc hA  hB
Fig 3.9 - Determinação de isoietas
Na construção dos mapas de isoietas, o analista pode também considerar os efeitos
orográficos e morfologia temporal , de modo que o mapa final represente um modelo de
precipitação mais real do que o que seria obtido de medidas isoladas

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3.5 ANÁLISE DE DADOS PLUVIOMÉTRICOS

O objetivo de um posto de medição de chuvas é o de obter uma série, sem falhas, de


precipitações ao longo dos anos ( ou estudo da variação das intensidades de chuva ao longo das
tormentas). Em qualquer caso pode ocorrer a existência de períodos sem informações ou com falhas nas
observações, devido a problemas com os aparelhos de registro e/ou com o operador do posto. As causas
mais comuns de erros grosseiros nas observações são: a) preenchimento errado na caderneta de campo;
b) soma errada do número de provetas, quando a precipitação é alta; c) valor estimado pelo observador,
por não se encontrar no local da amostragem; d) crescimento de vegetação ou outra obstrução próxima
ao posto de observação; e) danificação do aparelho; f) problemas mecânicos no registrador gráfico.
Logo como há necessidade de se trabalhar com séries contínuas, essas falhas devem ser
preenchidas. Também necessita-se que seja estudada a consistência dos dados dentro de uma visão
regional, ou seja, comparar o grau de homogeneidade dos dados disponíveis num posto, com relação às
observações registradas em postos vizinhos.

3.5.1 PREENCHIMENTO DE FALHAS — MÉTODO DA PONDERAÇÃO REGIONAL

É um método simplificado, geralmente utilizado para o preenchimento de séries mensais e


anuais, onde as falhas de um posto são preenchidas através de uma ponderação com base nos dados de
pelo menos três postos vizinhos, que devem ser de regiões climatológicas semelhantes a do posto em
estudo e ter uma série de dados de no mínimo 10 anos.
Designando por x a estação que apresenta falhas e por A,B e C as estações vizinhas, pode-se
determinar a precipitação desta estação através da seguinte equação:

1M M M 
Px   x Pa  x Pb  x Pc  (3.4)
3  Ma Mb Mc 

Onde:
Px - É a variável que guardará os dados corrigidos
Mx - Média aritmética da estação com falha
Ma, Mb e Mc - Média aritmética das estações vizinhas
Pa, Pb e Pc - É o dado da estação vizinha, ao posto com falha, do mesmo ano que utilizamos
para preencher a falha.

3.5.2 ANÁLISE DE CONSISTÊNCIA DE SÉRIES PLUVIOMÉTRICAS

Esse tipo de análise é utilizada para verificar a homogeneidade dos dados, isto é, se houve
alguma anormalidade na estação pluviométrica, tal como mudança de local ou das condições do aparelho
ou modificação no método de observação.

MÉTODO DE DUPLA MASSA

Este método consiste em selecionar os postos de uma região (que deve ser considerada
homogênea do ponto de vista hidrometerológico), acumular para cada um deles os valores (mensais ou
anuais conforme a análise), plotar em um gráfico cartesiano os valores acumulados correspondentes ao
posto a consistir (eixo ordenado) com os valores médios das precipitações mensais acumuladas em
vários pontos da região ( eixo das abcissas) que servirá como base para comparação.
Se os valores dos postos a consistir forem proporcionais aos observados na base de comparação,
os pontos devem se alinhar segundo uma única retas. A declividade desta reta determina o fator de
proporcionalidade entre ambas as séries. Quando os pontos não se alinham podem ocorrer as seguintes
situações:

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a) mudança na declividade: determina duas ou mais retas.


Constitui o exemplo típico da ocorrência de erros
sistemáticos, mudança nas condições de observação ou
no meio físico, como alterações climáticas.
Para se considerar a existência de mudança na
declividade é prática comum exigir-se a ocorrência de
pelo menos 5 pontos sucessivos alinhados segundo a
nova tendência.
Para corrigir os valores utilizamos a seguinte equação:
Ma
Pa  Po (3.5)
Mo
Fig. 3.10 - Mudança de declividade

Onde: Pa - Observações ajustadas à condição atual de localização


Po - Dados observados a serem corrigidos
Ma - Coeficiente angular da reta no período mais recente
Mo - Coeficiente

b)alinhamento dos pontos em retas paralelas:


ocorre quando existem erros de transcrição de
um ou mais dados ou pela presença de valores
extremos em uma das séries plotadas (figura
3.11). A ocorrência de alinhamentos, segundo
duas ou mais retas aproximadamente
horizontais (ou verticais), pode ser a evidência
de postos com diferentes regimes
pluviométricos.

Fig 3.11 - Diferentes regimes

c) distribuição errática dos pontos: geralmente é


resultado da comparação de postos com
diferentes regimes pluviométricos, sendo
incorreta toda associação que se deseje fazer
entre os dados dos postos plotados (figura
3.12).

Fig. 3.12 - Distribuição errática

d) distribuição dos dados ao longo de uma única


reta, é a situação ideal que caracteriza dados
sem inconsistência, com é visto na figura
3.13.

Fig.3.13 - Dados sem inconsistência

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Uma vez finalizada a análise de consistência, pode ser necessária uma revisão dos valores
previamente preenchidos. O preenchimento das séries é uma tarefa efetuada antes da consistência para
evitar distorções no gráfico de Dupla Massa, mas se neste gráfico forem observadas modificações de
tendência, o preenchimento poderá ser revisado.

QUESTIONÁRIO

1. Qual a diferença entre um posto pluviométrico e um posto pluviográfico?

2. Como é feito o preenchimento de falhas? Qual a fórmula utilizada?

3. Quais são os critérios utilizados para a escolha dos postos que serão
utilizados como referência para o preenchimento de falhas?

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3.6 PRECIPITAÇÃO MÉDIA SOBRE UMA BACIA

3.6.1 MÉTODO ARITMÉTICO

A precipitação média , calculada por este método , nada mais é do que a média aritmética dos valores de
precipitação medidos na área da bacia, o que implica na admissão de que todos os pluviômetros tem a mesma
influência na bacia em estudo.
O valor da média calculado por tal método apresenta algumas restrições para ser considerado consistente
: os aparelhos de medição de precipitação devem estar distribuídos uniformemente na área da bacia ; o relevo não
deve ser acidentado ; a área deve ser plana ; e que os dados observados nos aparelhos não se distanciem do valor
da média. Além disso, só poderá ser feita a média aritmética com postos dentro da bacia. Deve ser utilizada a
seguinte formula:

h i
Onde :
h i = altura de precipitação de cada posto
h 1
(3.6) n = número de postos
n

3.6.2 MÉTODO DE THIESSEN

Este método considera a não-uniformidade


da distribuição espacial dos postos, delimitando
geometricamente a área da bacia em que cada
aparelho de medição exerce influência. Essas áreas
são determinadas em mapas da bacia contendo as
estações, unido-se os postos adjacentes por linhas
retas (linha cinza) e, em seguida, traçando-se as
mediatrizes dessas retas (linha azul) e
prolongando-as até que se encontrem ou que saiam
da bacia. Os lados dos polígonos (linha cheia)
limitam as áreas de influência de cada estação,
como pode-se ver na figura 3.14.

Fig. 3.14 – Mapa do método de Thiessen em uma bacia.

A precipitação média é calculada pela média ponderada, entre a precipitação hi de cada estação e o peso
a ela atribuído Ai, que corresponde a área de influência de cada posto, de acordo com a seguinte fórmula:

 A i  hi 
h 1
(3.13)
AT

onde:
Ai = área do polígono interna à bacia
h i = precipitação observada em cada aparelho
AT = área total da bacia
n = número de posto.

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Os postos pluviométricos trabalhados não têm que estar necessariamente dentro da bacia. Esse
método dá bons resultados em terrenos levemente acidentados, quando a localização e exposição dos
pluviômetros são semelhantes e as distâncias entre eles não são muito grandes.

3.6.3 MÉTODO DA CURVA HIPSOMÉTRICA

Quando se trata de calcular a pluviosidade média referente a um período bastante longo


(ano, mês,...), numa bacia montanhosa, esse é um processo muito utilizado, e consiste em estabelecer
para todas as frações da bacia, que serão tomada como homogêneas, a lei de variação da altura de
precipitação, em função da altitude. Dispondo da curva hipsométrica, já anteriormente estudada, que
como vimos nos dá a repartição da bacia por altitude, o cálculo da pluviosidade média é feito então
atribuindo-se a cada fatia de altitude a precipitação calculada. Conhecendo-se, então as
precipitações em cada cota estabelecida pode-se calcular a média da seguinte maneira:

h
 A  h 
i i
(3.14)
Sendo:
Ai = área parcial da bacia hidrográfica
A i correspondente à determinada altitude;
h = precipitação correspondente a uma
certa altitude.

3.6.4 MÉTODO DA ISOIETAS

É considerado o método mais preciso no cálculo da precipitação média sobre uma bacia.
Consiste na ponderação das precipitações médias entre as duas isoietas que delimitam cada região
utilizando como fator peso as suas respectivas áreas.
De posse do mapa das isoietas da região, podemos calcular a média da seguinte forma:

h h  Sendo:
  i 2 i 1   A1 hi e h i+1 = precipitação das duas
h (3.15) isoietas sucessivas que delimitam a
 Ai região;
Ai = área de cada região limitada
entre duas isoieta e/ou a linha que
delimita à bacia.

3.7 FREQUÊNCIA DE PRECIPITAÇÕES

Em Engenharia o conhecimento das características das precipitações apresenta grande interesse


de ordem técnica por sua freqüente aplicação nos projetos hidráulicos. Nos projetos dos vertedores
de barragens, no dimensionamento de canais, na definição das obras de desvio dos cursos d'água, na
determinação das dimensões de galerias de águas pluviais, no cálculo de bueiros, deve-se conhecer
a magnitude das enchentes que poderiam ocorrer com uma determinada freqüência. Nos projetos
de irrigação e abastecimento d'água, deve-se conhecer a grandeza das estiagens que adviriam e com
que freqüência ocorreriam. Portanto, há a necessidade da determinação das precipitações extremas
esperadas.
Nos projetos de obras hidráulicas, as dimensões são determinadas em função de considerações de
ordem econômica, portanto corre-se o risco de que a estrutura venha a falhar durante a sua vida útil. É
necessário, então, conhecer este risco. Para isso analisam-se estatisticamente as observações realizadas
nos postos hidrométricos, verificando-se com que freqüência elas assumiram cada magnitude. Em
seguida, pode-se avaliar as probabilidades teóricas.

3.7.1- REVISÃO DE ESTATÍSTICA

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 29


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3.7.1.1- DISTRIBUIÇÃO NORMAL OU LEI DE GAUSS

A precipitação, enquanto fenômeno natural, é estudada como uma variável aleatória que precisa
ser determinada, para isso recorre-se à ferramentas estatísticas. Entre as distribuições teóricas de variável
aleatória contínua, uma das mais empregadas é a distribuição Normal ou Lei de Gauss. Tem-se
verificado que se a série de observações pluviométricas anuais é bastante longa, a repartição das
freqüências se adapta bem à Lei de Gauss, em função da sua simetria em torno da média, desde que os
elementos da série sejam considerados sem ordem de sucessão.
Seja x uma variável aleatória; chama-se ( x ) ao valor

x
x i
(3.15)
sendo:
xi as medidas da variável x
n n o número de medidas

 X  X
2

Dá-se o nome de desvio-padrão de x à grandeza  (3.16)


n 1

A probabilidade de, ao medir x, se encontrar um valor menor ou igual a um extremo xextr é dada pela
função de distribuição da Lei de Gauss:

X ex t
1  X2
F ( x) 
2
 

e 2
 dX (3.17)

XX
Fazendo a seguinte mudança de varáveis t (3.18)

a nova variável t, chamada de normatizada, terá média zero e desvio padrão unitário.

A tabela 3.1 relaciona valores da variável reduzida t com as variáveis x e FN(x). Através desta
pode-se determinar analiticamente chuvas máximas e mínimas, frequências e ocorrência e períodos de
retorno.

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A inferência de índices pluviométricos com base nos parâmetros da distribuição normal só deve
ser feita para totais anuais. Pois é a única distribuição de índices pluviométricos que apresenta boa
aderência à distribuição normal.

MÉTODO GRÁFICO
O ajuste da série de valores anuais de precipitação segundo a curva normal é muito facilitado
pelo uso de papéis de probabilidade, no qual a distribuição normal se apresenta como urna reta que passa
por três pontos característicos, ;  -  e  +  a cujas funções de distribuição são respectivamente
F() = 50%; F( - ) = 15,87% e F( + ) = 84,13%. Os períodos de retorno são definidos por T
= 1 / F(X) para F(x) < O,5 e T = 1 / l - F(x) para F(x) > O,5 e apresentam, a repartição de freqüência
mostrada na Tabela 3. 2.

TABELA 3.2 - Repartição das Freqüências em Função do Período de Retorno

Período de Probabilidades das Alturas


Retorno Pluviométricas Esperadas

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Máximas Mínimas
2 anos 50 % 50 %
5 anos 80 % 20 %
10 anos 90 % 10 %
20 anos 95 % 5%
50 anos 98 % 2%
100 anos 99 % 1%
1.000 anos 99,9 % 0,1 %
10.000 anos 99,99 % 0,01 %

3.7.1.2 - ANÁLISE DE FREQUÊNCIA DE EVENTOS EXTREMOS – MÉTODO DE GUMBEL

É necessário saber, com base nos dados observados, utilizando os princípios da probabilidade,
as máximas precipitações que possa vir a ocorrer, com determinada frequência. Tratando-se de dados
de chuvas diárias a ferramenta estatística utilizada é o método de Gumbel.
Geralmente, as distribuições de valores extremos de grandezas hidrológicas se ajustam a
distribuição de Gumbel ou distribuição tipo I de Fisher-Tippett, que veremos a seguir.

Onde:
P = probabilidade de um valor extremo da série extremo
e  y da série ser maior ou igual a variável
P 1  e (3.19) X = os valores analisados,
Y = variável reduzida ,
Sn Xf = moda dos valores extremos,
y  X  X f  (3.20) Sx = desvio padrão da variável X (valores extremos),
Sx x = média da variável x,
Yn, Sn = respectivamente média e desvio padrão da
Y 
X f  X  S x  n  (3.21)
variável reduzida Y para uma amostra de n valores
extremos.
 Sn 

Tab. 3.3 – Valores esperados da média (Yn) e desvio-padrão (Sn) da


variável reduzidas (Y) em função do número de dados (n).

Os valores de Yn e de
Sn são dados pela
tabela 3.3.

Por fim, podemos calcular o período de retorno que será dado por :
1
T Y (3.22)
1  e e
Podendo ser também utilizadas as seguintes relações:

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1 1
Tr  (3.23) Tr  1  (3.24)
P F

Tab. 3.4 – Variável reduzida, probabilidades e período de retorno.

3.7.2 - ANÁLISE DE FREQUÊNCIA DE TOTAIS PRECIPITADOS

Os dados observados devem ser classificados em ordem decrescente e a cada um atribuir-se o seu
número de ordem. A freqüência com que foi igualado ou superado um evento de ordem m é:

m m
F (Método Califórnia) (3.10) ou F (Método Kimbal) (3.11)
n n 1

onde n é o número de anos de observação.

Considerando-a como uma boa estimativa da probabilidade teórica (P) e definindo o tempo de
recorrência ou período de retorno como sendo o período de tempo médio (medido em anos) em que um
determinado evento deve ser igualado ou superado pelo menos uma vez, tem-se a seguinte relação:
1 1
T (3.12) ou T (3.13)
F P
Para períodos de recorrência bem menores que o número de anos de observação, o valor encontrado
para F pode dar uma boa idéia do valor real de P, mas para os grandes períodos de recorrência a
repartição de freqüências deve ser ajustada a uma lei probabilística teórica de modo a possibilitar um
cálculo mais correto da probabilidade.
Já foi mostrado que a maioria das funções de freqüência aplicáveis na análise hidrológica pode ser
resolvida de uma forma geral por:
x  x  K  A (3.14)
onde o fator de freqüência K toma várias formas dependendo da aproximação usada.

3.8- MÉTODO DE TABORGA

Este método divide o Brasil em isozonas que mostram as seguintes características:

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 As isozonas B e C tipificam a
zona de influência marítima,
com coeficientes de intensidade
suaves.
 As isozonas E e F tipificam as
zonas continental e do nordeste,
com coeficientes de intensidade
altos.
 A isozona D tipificam as zonas
de transição (entre continental e
marítima). Esta isozonas se
prolonga caracterizando a zona
de influência do rio Amazonas.
 As isozonas G e H tipificam a
zona da caatinga nordestina,
com coeficientes de intensidade
muito altos.
 A isozona A coincide com a
zona de maior precipitação
anual do Brasil, com
coeficientes de intensidade
baixo.

Fig. 3.16 – Mapa de isozonas de Taborga.

Tab. 3.5 – TABELA TEMPOS DE RECORRÊNCIA PARA AS ISOZONAS DE TABORGA

TEMPO DE RECORRÊNCIA

ZONA 1 HORA / 24 HORAS CHUVA 6 min - 24 h


5 10 15 20 25 30 50 100 1000 10000 5-50 100
A 36.2 35.8 35.6 35.5 35.4 35.3 35.0 34.7 33.6 32.5 7.0 6.3
B 38.1 37.8 37.5 37.4 37.3 37.2 36.9 36.6 35.4 34.3 8.4 7.5
C 40.1 39.7 39.5 39.3 39.2 39.1 38.8 38.4 37.2 36.0 9.8 8.8
D 42.0 41.6 41.4 41.2 41.1 41.0 40.7 40.3 39.0 37.8 11.2 10.0
E 44.0 43.6 43.3 43.2 43.0 42.9 42.6 42.2 40.9 39.6 12.6 11.2
F 46.0 45.5 45.3 45.1 44.9 44.8 44.5 44.1 42.7 41.3 13.9 12.4
G 47.9 47.4 47.2 47.0 46.8 46.7 46.4 45.9 44.5 43.1 15.4 13.7
H 49.9 49.4 49.1 48.9 48.8 48.6 48.3 47.8 46.3 44.8 16.7 14.9
Relação 24 horas / 1 dia

Para correlacionar as precipitações nas estações pluviométricas, determinou-se a relação 24


horas / 1dia, para o tempo de recorrência de base de um ano. O coeficiente é de 1,095 , com um
desvio padrão de +- 6,6%.

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O tempo de recorrência não tem influência prática nesta relação. Sendo que a diferença entre 1
e 10.000 anos de recorrência representa +0,1% de influência.

Relação 1 hora / 24 horas

A tabela de Taborga identifica isozonas de igual relação, para diferentes tempos de recorrência.

Relação 6 minutos / 24 horas

A tabela incluída no mapa de isozonas identifica, para cada uma delas, a relação 6 minutos / 24
horas de alturas de precipitação, para tempos de recorrência entre 5 e 50 anos e para um tempo de
recorrência de 100 anos, sendo este último de pouco uso na prática. (essa relação é valida somente para
tempos de duração entre 6 minutos e 1 hora).

METODOLOGIA

Para a conversão das máximas chuvas diárias, em chuvas com duração entre 6 minutos e 24
horas, adota-se a seguinte metodologia:
 converte-se a chuva de 1 dia em chuva de 24 horas, multiplicando-se a primeira pelo fator 1,095,
como já foi explicado anteriormente.
 determina-se na figura 3.15, isozona correspondente ao projeto.
 calculam-se, com essas percentagens e a chuva de 24 horas (100%), as alturas de precipitação
para 6 minutos e 1 hora.
 Determinam-se no papel de probabilidades de Taborga, as alturas de chuva para 24 horas, 1 hora
e 6 minutos de duração.
 traçam-se as retas das precipitações de 6 minutos para 1 hora e 1 hora para 24 horas, no papel
de probabilidades.
 Para qualquer tempo de duração contido entre 6 minutos e 24 horas, lê-se a altura
correspondente no gráfico de papel de probabilidades.

3.9 ANÁLISE DE CHUVAS INTENSAS

3.9.1 INTRODUÇÃO

Várias são as situações em que precisamos conhecer o valor máximo de precipitações como
também sua duração e frequência correspondente. Em projetos hidraúlicos, tais com vertedouros de
barragens, dimensionamento de canais, coletores de águas pluviais, etc., este valor máximo é de crucial
importância, no que diz respeito aos riscos a que estamos expostos ao dimensionarmos tais projetos.

3.9.2 VARIAÇÃO DA INTENSIDADE COM A DURAÇÃO

Os valores das precipitações intensas são obtidos em pluviógrafos. São diagramas de


precipitações acumulada ao longo do tempo, correspondendo a 24 horas de registro contínuo.

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Os limites de duração são fixados em 5 minutos e 24 horas, pois este primeiro valor é o menor
intervalo que se pode ler no pluviógrafo com precisão adequada e este ultimo valor quando excedido
podem ser utilizados dados de pluviômetro.
EQUAÇÃO DE INTENSIDADE — DURAÇÃO

Pode-se relacionar as duas grandezas (intensidade e duração), por formulas do tipo:

a onde:
i (3.25)
t  b  i = intensidade (mm/h)
t = duração (horas)
a e b = constantes dependentes da região considerada
Se t > 2 horas, podemos ter
onde:
c i = intensidade (mm/h)
i n
t   (3.26) t = duração (horas)
c e n = constantes dependentes da região
considerada

3.9.3 RELAÇÃO INTENSIDADE–DURAÇÃO–FREQUÊNCIA

Correlacionando intensidades e durações das chuvas verifica-se que quanto mais intensa for
uma precipitação, menor será a sua duração. Analisando-se as relações intensidade–duração–
frequência nos dados de chuvas observadas, determina-se para os diferentes intervalos de duração da
chuva, qual o tipo de equação e qual o número de parâmetros dessa equação que melhor caracterizam
aquelas relações.
Em geral, essas equações representativas das relações I-D-F são do tipo.

Onde
c i = intensidade
i (3.24)
t  t o n t= duração
to, C, n = parâmetros a determinar de acordo com o
local.

Podendo ainda relacionar o valor de C com o período de retorno, da seguinte forma :

C  K  Tm
(
3
.
2
5
)

Onde:
K = fator de frequência.

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 36


Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Capítulo 3

Substituindo o valor de C (eq. 3.25) na equação (3.24), obtem-se da maneira mais completa:

KT m
i
t  t 0 n (3.26)

CURVA INTENSIDADE - DURAÇÃO- FREQUÊNCIA (curvas I-D-F).

Para a determinação dos parâmetros da


equação ( 3.26) lançam-se em coordenadas
logarítmicas as séries das intensidades médias
máximas ( i ) em função do intervalo de duração
( t ), unindo-se os valores com o mesmo período
de retorno (T), obtém-se uma família de curvas
paralelas.
Analisando-se essas curvas verifica-se
que para cada período de retorno T determinado,
a intensidade decresce quando o intervalo de
duração t cresce, e que a família da curvas
apresenta curvaturas finitas com concavidade
voltada para baixo. Marcando-se como abscissas
não as durações, mas estas acrescidas de uma
constante convenientemente escolhida, consegue-
se em geral transformar essa curva em reta. Por
tentativas verifica-se qual a constante to que
adicionada à duração t permite a anemorfose.
As curvas intensidades duração são assim
transformadas em retas paralelas por equação
geral:
log i  log C  n log( t  t 0 )
os parâmetros angular n e lineares logC, bem
como os parâmetros da equação 3.25 podem ser
determinados pelo método dos mínimos
quadrados.

EQUAÇÕES INTENSIDADE – DURAÇÃO – FREQUÊNCIA PARA CIDADES


BRASILEIRAS

As seguintes equações que relacionam a intensidade, a duração e a frequência das


precipitações foram determinadas para cidades do Brasil: Tab. 3.6

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3462,7  T 0,172 mm/min


São Paulo i (3.27) T em anos e t em
(t  22)1,025 min
27,96  T 0,112 mm/min
São Paulo i  0 , 0 14 4 (3.28) T em anos e t em
(t  15) 0,86 t min
1239  T 0,15 mm/min
Curitiba i (3.29) T em anos e t em
(t  20)0,74 min
99,154  T 0, 217 mm/min
Rio de Janeiro i (3.30) T em anos e t em
(t  26)1,15 min
1447,87  T 0,1 mm/min
Belo Horizonte i (3.31) T em anos e t em
(t  20)0,84 min
1065.66  T 0,163 mm/h
Salvador i (3.32) T em anos e t em
(t  24)0,743 min

QUESTIONÁRIO

1. Quando deve ser utilizada a distribuição de Gauss ou Normal. Escreva a fórmula.


2. Como obter analiticamente chuvas médias máximas e mínimas para determinado período de
retorno?
3. Em que situação é preferível a utilização da distribuição de Gumbel à distribuição Normal?
4. Como é feita a determinação da variável reduzida y em função do período de retorno ?
5. Quem são Sn e Yn, e do que dependem estas variáveis ?
6. .Para o que é utilizado o método de Taborga ?
7. Comente sobre a relação entre intensidade e duração das chuvas para a cidade de Salvador.

EXEMPLOS RESOLVIDOS
1- Preencher a falha da Estação 01. Tab. 3.7

Chuvas totais anuais ( em mm)


ANO Estação Estação Estação Estação
01 02 03 04
1980 399,6 295,3 204,9 157,9
1981 722,2 406,5 346,7 341,4
1982 624,1 442,2 303,5 331,9
1983 822,8 393,7 374,4 344,6
1984 430,4 417,7 373,1
1985 783,0 492,1 817,0 747,4
1986 346,0 666,2 454,7 333,5
1987 572,1 571,5 720,2 648,4
1988 518,2 583,5 1027,7 739,5
1989 715,7 1045,0 541,9 832,0
1990 722,2 793,4 789,9 840,0

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 38


Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Capítulo 3

1991 433,8 652,4 723,1 743,2


1992 824,0 713,0 915,2 590,4
1993 1120,0 1559,6 1301,2 1458,0
1994 632,4 746,6 800,2 826,2
1995 850,4 990,3 842,9 662,1
1996 629,9 1126,7 790,5 802,6
1997 423,3 418,5 451,6 586,5
1998 663,4 720,2 725,1 650,9
Correlação entre as séries de dados dos postos
Estação 01 Estação 02 Estação 03 Estação 04
Estação 01 1,00 0,77 0,76 0,71
Estação 02 0,81 0,83 0,89 0,77
Estação 03 0,76 0,78 1,00 0,64
Estação 04 0,71 0,77 0,64 1,00
Estação 05 0,77 1,00 0,78 0,77

Média E01 655.73


Média E02 686.69
Média E03 660.44
Média E04 632.08

1 M M M 
Px   x Pa  x Pb  a Pc 
3 Ma Mb Mc 
1  655,73 655,73 655,73 
P1984   430,4  417,7  373,1
3  686,69 660,44 632,08 
P1984  410,99  414,72  387,06 = 404,26mm
1
3

2- Calcular a média das chuvas das estações acima pelo método da Média Aritmética Simples (somente
estações dentro da Bacia).

E1  E 2  E 3  E 4 642,49  686,69  660,44  632,08


P = = = 655,43mm
4 4

3- Estimar a chuva mínima para um período de retorno de 10 anos, através do método analítico, levando
em consideração a média e o desvio da série de chuvas dada. Tab. 3.8
Média anual
(Thiessen)
282,49
418,55
401,05
447,42
417,58
644,04
489,33

Grupo de Recursos Hídricos – Notas de aula de Hidrologia 39


Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Capítulo 3

668,78
806,48
754,81
764,52
651,40
850,38
1313,12
767,59
911,50
859,51
435,20
736,80

X = 664,24 mm (média da série de thiessen)


 = 244 (desvio da série de thiessen)

XX
t= 

T = 10 anos

F(mínimo) = 10% t = -1,3

X  664,24
-1,3 = X = 340,54mm
249

4- Calcular a precipitação máxima para um período de recorrência de 100 anos utilizando o método de
Gumbel, a partir da série de dados abaixo. Tab. 3.9
Chuva máx diária
(mm)
88,40
76,30
41,92
65,70
46,96
95,00
89,00
117,15
151,25

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Universidade Federal da Bahia – Departamento de Engenharia Ambiental Capítulo 3

93,00
92,60
75,20
68,20
110,01
91,18
121,35
140,25
108,90
118,10

Sn Yn
Y = ( X -X f ) X f = X -Sn ( )
Sx S n..
X = 94,26 (média das máx. diárias)
S x =  = 28,76 (desvio padrão)
S n = 1,06 (valor tabelado)
Y n = 0,52 (valor tabelado)
0,52
X f = 94,26 – 28,76 ( ) = 80,15
1,06
1,06
Y = (X – 80,15)
28,76

Y 100 = 4,6 (tabela)

1,06
4,6 = (X – 80,15)
28,76
X = 204,96mm

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