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CURSO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM GESTÃO PÚBLICA, 12.

ª Edição

CURSO ANA DE CASTRO OSÓRIO

A RESPONSABILIDADE SOCIAL

DAS ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS

Ana Paula Lopes


Sérgio Portugal Núncio
Tânia Sofia Taveira Silva
Vítor Hugo Faria

Disciplina: Administração e Boa Governança

Docente: Dr. Sérgio Gomes da Silva

OEIRAS
2011
ÍNDICE

Sumário Executivo ……………………………………………………………………… 1


1 - Introdução ………………………………………………………………………….... 2
2 - Principais etapas da evolução do conceito de R.S. …………………………….. 3
3 - O Livro Verde como impulsionador e promotor do debate sobre R.S. ……….. 4
4 - O Conceito de R.S.
4.1 - R.S. e Desenvolvimento Sustentável …………………………………... 5
4.2 - Efeitos e dimensões da R.S. …………………………………………..... 5
5 - A R.S. no Sector Público …………………………………………………………... 7
6 - O papel das Partes Interessadas …………………………………………………. 8
7 - As Normas de R.S.
7.1 - ISO 26000 …………………………………………………………………. 8
7.2 - NP 4469-1 …………………………………………………………………. 11
7.3 - SA 8000 ……………………………………………………………………. 12
8 - Exemplos de R.S. nas Organizações Públicas
8.1 - R.S. no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, I.P. ..… 13
8.2 - A dimensão interna da R.S. na Secretaria-Geral do Ministério da
Educação e Ciência ..…………………………………………………….. 14
8.3 - A vertente externa da R.S. nas autarquias …………………………….. 15
8.4 - A vertente ambiental na Câmara Municipal do Barreiro ….…………... 16
9 – Conclusão ………………………………………………………………………….... 18
Bibliografia .....………………………………………………………………………….... 19
Instituto Nacional de Administração
Curso de Estudos Avançados em Gestão Pública, 12.ª Ed., Curso Ana de Castro Osório (2011/12)

SUMÁRIO EXECUTIVO

As organizações enfrentam, no século XXI, grandes desafios, entre os quais


se encontra a necessidade de conduzir políticas que tenham em consideração os
impactes sociais e éticos das suas acções. Esta necessidade teve por base a ideia
de que as organizações geram impactes positivos e negativos nos mais diversos
domínios, sendo que, devido à globalização, estes mesmos impactes se reflectem a
uma escala global.
Neste sentido, a Responsabilidade Social (doravante R.S.) nas organizações
surge como uma forma das mesmas demonstrarem aos seus clientes, parceiros e
comunidade em geral, que actuam no mercado de forma sustentável, valorizando a
sua dimensão social.
Por definição a R.S. é a “integração voluntária de preocupações sociais,
económicas e ambientais por parte das organizações, públicas e privadas, nas suas
operações e na sua interacção com outras partes interessadas” 1 (trabalhadores,
accionistas, consumidores, fornecedores, sociedade e administração pública). No
entanto, este conceito, que surge no seio do sector privado, não é recente, pelo que
no presente trabalho se começará por analisar a origem do mesmo e a sua evolução
até ao momento em que se aplica nas organizações públicas. De facto, as empresas
que implementam uma política de R.S. contribuem para a satisfação das
necessidades dos seus clientes, gerindo deste modo, as expectativas dos
trabalhadores, dos fornecedores e da comunidade local. Contribuem de forma
positiva para a sociedade, gerindo os impactes ambientais da empresa, o que
proporciona vantagens directas para o negócio, assegurando a competitividade a
longo prazo. Foi nesta lógica que as organizações do sector público, apercebendo-
se das mais-valias que este conceito proporciona, começaram, progressivamente, a
implementar e desenvolver acções com vista a tornarem-se socialmente
responsáveis. É de notar que a R.S. não se restringe ao cumprimento de todas as
obrigações legais. Ou seja, ser socialmente responsável implica ir mais além,
através de um maior investimento em capital humano, no ambiente e nas relações
com as comunidades locais.

1
REDE NACIONAL DE RESPONSABILIDADE SOCIAL - Rede Nacional de Responsabilidade Social
[Em linha].

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De forma enquadrar a noção de R.S. e a forma como esta se aplica, foram


elaboradas, desde o início do século XXI, diversas normas, tanto a nível nacional,
como internacional. Assim, no desenvolvimento deste trabalho analisámos estudos,
pareceres, normas de certificação e alguns diplomas que tiveram como intuito tanto
desenvolver a aplicação deste conceito, como apostar na sua certificação.
No que respeita à aplicabilidade da R.S. nas organizações públicas,
restringimos este estudo a alguns exemplos presentes no Sector Público
Administrativo, de forma a ilustrar de que modo esta se concretiza na sua vertente
externa e interna, tanto na administração central como na regional e local.
Ao finalizar o presente trabalho concluiu-se que o conceito de R.S. não é
recente, que surge no seio do sector privado e que, essencialmente, a partir do
século XXI, se começou a aplicar, igualmente, nas organizações públicas. Este
conceito tem ainda um longo caminho a percorrer no sector público administrativo,
sendo, porém, de notar que se começam a criar programas de implementação e
desenvolvimento de acções de responsabilidade social, envolvendo sempre os
stakeholders, (partes interessadas) o que indica que num futuro próximo este
continuará a ser um tema relevante que contribuirá para o desenvolvimento
sustentável da economia e da sociedade envolventes.

1 – INTRODUÇÃO

Assumindo desde início o Estado português como um Estado Social, com as


evidentes limitações, e deixando de lado a análise desta função do Estado, esta
reflexão tratará um tema que em nada se confunde com esse papel: a R.S. das
Organizações Públicas. Todavia, se o objecto deste trabalho merece a devida
autonomia, também essa mesma autonomia deriva, essencialmente, da
necessidade de colmatar as falhas desse Estado Social.
Neste sentido, o presente trabalho debruça-se sobre o conceito de R.S., o seu
âmbito de aplicação, as suas dimensões, os seus efeitos, e a sua aplicação nas
organizações públicas. Destarte, e no âmbito da unidade curricular de Administração
e Boa Governança, incorporada no plano curricular da 12.ª Edição do CEAGP,
pretendemos com este trabalho alertar e consciencializar estes futuros servidores do
Estado para o tema em causa, no sentido de sensibilização para a adopção de

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comportamentos socialmente responsáveis, enquanto sujeitos activos na


Administração Pública.

2 – PRINCIPAIS ETAPAS DA EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE R.S.

O conceito de R.S. foi evoluindo de acordo com as necessidades do


indivíduo, da sociedade e do próprio meio ambiente. Desde a época dos
Descobrimentos que temos referências à incorporação de certos valores e ideais
(nomeadamente de respeito e de honra) em códigos de conduta, adoptados por
várias organizações no relacionamento com os diversos sectores da sociedade e
com o Mundo, que podemos considerar próximos (mutatis mutandis) do conceito
contemporâneo de R.S.. Contudo, e restringindo este estudo no tempo 2, refira-se
que na década de cinquenta do séc. XX, havia já a perspectiva de que o empresário
tinha que prosseguir políticas e tomar decisões que fossem desejáveis no âmbito
dos objectivos e valores da nossa sociedade. Em finais da década de setenta surge
uma definição de R.S. baseada nas diferentes expectativas que uma sociedade terá
de determinado negócio: económicas (lucro), legais (cumprimento da lei), éticas e
discricionárias (carácter voluntário que deve beneficiar a sociedade). Com base no
carácter voluntário do conceito, alguns autores referiam que a R.S. começa onde a
lei termina. Na década de oitenta, notamos a presença de uma perspectiva de
desenvolvimento sustentável, uma vez que qualquer negócio deveria ter proventos
suficientes para cobrir os custos do futuro.
Por toda a Europa, a nível político e institucional, foram proliferando algumas
iniciativas que demonstraram a especial sensibilização dos Estados para este tema.
Na Dinamarca, em 1997, criou-se uma instituição independente que visava
incentivar a criação de parcerias voluntárias entre os governos e as empresas com
vista a promover a coesão social. No Reino Unido, em 2000, é nomeado pela
primeira vez um ministro para a R.S. das Empresas e criado um grupo
interministerial para coordenar as acções governamentais neste domínio. Em
França, é criado o Conselho Nacional para o Desenvolvimento Sustentável.

2
CARROLL, Archie - Corporate Social Responsibility: Evolution of a Definitional Construct”. Business
& Society, vol. 38, n.º 3, p. 268-295.

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No plano legislativo, o Reino Unido, em 1999, passou a impor aos gestores de


fundos uma “cláusula de transparência obrigatória” 3, exigindo que fossem descritas,
no relatório anual, as motivações de ordem social, ambiental ou ética, na selecção e
na realização dos investimentos. Em 2001, em França, temos uma norma que
dispõe que os gestores de fundos devem ter em conta as considerações sociais,
ambientais ou éticas nas suas escolhas de investimento e no exercício dos direitos
associados. No mesmo ano, uma norma em tudo semelhante à introduzida na
legislação do Reino Unido, determina que o relatório anual das sociedades cotadas
em bolsa passe a compreender informações sobre a forma como a empresa toma
em consideração as consequências sociais e ambientais. Nos EUA, em 2002, uma
norma vem reforçar a fiscalização das práticas responsáveis e exige uma declaração
de juramento de sinceridade dos relatórios prestados.

3 – O LIVRO VERDE COMO IMPULSIONADOR E PROMOTOR DO DEBATE SOBRE R.S.

Como marco importante na discussão do conceito de R.S. salienta-se o Livro


Verde «Promover um quadro europeu para a responsabilidade social das
empresas» 4. Subjacente a este Livro Verde esteve a vontade da Comissão Europeia
em fomentar o debate sobre novas formas de promover a R.S. das Empresas
(doravante R.S.E.).
Nesse documento admite-se como definição de R.S.E. aquela que foi dada
pela Comissão das Comunidades Europeias bem como pelo Comité Económico e
Social Europeu 5: “a integração voluntária pelas empresas de preocupações sociais e
ambientais nas suas actividades comerciais e nas suas relações com as partes
interessadas”. A R.S.E. “procura manter o equilíbrio” entre a “economia e
crescimento, emprego e modelo social europeu e ambiente”. As empresas devem
ser levadas em conta como “um elemento da sociedade humana e não apenas
como um elo do sistema económico”, uma vez que prestam serviços, repartem
rendimentos, criam empregos e pagam impostos.

3
SERRA, Catarina - A R.S. das Empresas – Sinais de um instituto jurídico eminente?. Questões
Laborais, Ano XII, Coimbra: Coimbra Editora, 2005
4
Livro Verde, Promover um quadro europeu para a responsabilidade social das empresas. Bruxelas:
CCE, 2001
5
Parecer sobre «Instrumentos de informação e de avaliação da responsabilidade social das
empresas numa economia mundializada».

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Este parecer da Comissão refere ainda que um modelo que tenha em conta
as partes interessadas (stakeholders) tem “real interesse” ao lado do modelo
vocacionado para os resultados dos accionistas (shareholders).
O Livro Verde motivou também a criação de parâmetros de referência para a
avaliação e a consequente atribuição do grau de empresa socialmente responsável6.
Neste sentido, esta certificação deveria assistir as organizações a construírem mais
factores de diferenciação e valor acrescentado, atraindo mais confiança dos
investidores e clientes.

4 – O CONCEITO DE R.S.

4.1 - R.S. e Desenvolvimento Sustentável


O conceito de R.S., nos termos do Livro Verde, está intimamente ligado com o
de desenvolvimento sustentável, entendido como “desenvolvimento que responde às
necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de
responderem às suas próprias necessidades” 7.
Contudo, e pese embora sejam dois conceitos relacionáveis não se
confundem, a sua vertente é distinta: enquanto que o desenvolvimento sustentável
considera, essencialmente, o Ambiente, a R.S. vai mais além, nomeadamente no
que respeita à “protecção dos direitos humanos, o respeito pela liberdade de
associação e pelo direito à negociação colectiva, o repúdio do trabalho forçado, do
trabalho infantil e da discriminação no emprego” 8.
R.S. significa ir além do cumprimento de todas as obrigações legais, implica
um maior investimento em capital humano, no ambiente e nas relações com outras
partes interessadas (trabalhadores, accionistas, consumidores, fornecedores,
sociedade e administração pública) e comunidades locais.

4.2 - Efeitos e dimensões da R.S.


Uma atitude socialmente responsável terá obrigatoriamente como efeito
directo a melhoria no ambiente de trabalho que se consubstanciará no reforço do

6
INSTITUTO PORTUGUÊS DA QUALIDADE - Projecto de Norma Portuguesa - prNP 4469-1 [Em
linha]. Caparica: IPQ, 2007.
7
Relatório final da Comissão Mundial da Nações Unidas para o Ambiente e o Desenvolvimento, 1987
8
Livro Verde, Promover um quadro europeu para a responsabilidade social das empresas. Bruxelas:
CCE, 2001

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empenhamento e produtividade dos trabalhadores. Indirectamente, nota-se a


crescente atenção dos consumidores e dos investidores para com estas entidades.
Ou seja, o reconhecimento de uma organização como socialmente responsável
pode conduzir a vantagens financeiras concretas.
Desta forma, a R.S. deve ser vista como um investimento e não como um
encargo, uma vez que traz benefícios directos ou indirectos para aqueles que estão
atentos às necessidades dos seus colaboradores e ao meio em que estão inseridos.
A R.S. compõe-se de duas dimensões: uma interna e outra externa. Na
dimensão interna, identificamos, por exemplo, as questões relacionadas com a
gestão de recursos humanos, a saúde e segurança no trabalho, a adaptação à
mudança e a gestão do impacte ambiental. Ou seja, uma gestão socialmente
responsável e desperta a estas diferentes questões poderá fazer toda a diferença na
relação da organização com os seus colaboradores.
Mesmo numa perspectiva ambiental poder-se-ão obter benefícios internos.
Por exemplo, a redução ou moderação da exploração de determinados recursos
naturais poderia reduzir ou evitar custos de despoluição bem como o pagamento de
taxas segundo o princípio do poluidor-pagador 9. Consideramos assim este tipo de
investimentos como “oportunidades win-win”, uma vez que são vantajosas tanto para
as próprias entidades, como para o ambiente (princípio da eco-eficiência 10).
Quanto à dimensão externa da R.S., é de referir que esta pretende gerar
impactes positivos sobre as comunidades locais, os parceiros comerciais, os
fornecedores ou os consumidores. Por fim, e ainda no que respeita à dimensão
externa da RS, deve haver uma preocupação ambiental global, isto é, deve haver
um bom desempenho ambiental ao longo de toda a cadeia produtiva, sobretudo
naquelas empresas que têm a sua produção dispersa por vários ordenamentos
jurídicos.

9
ARAGÃO, Alexandra - O principio do poluidor pagador como principio nuclear da responsabilidade
ambiental no direito europeu [Em linha].
10
Conceito segundo o qual a melhoria na forma de utilização dos recursos permite reduzir os
prejuízos ambientais e custos”, ver Livro Verde, Promover um quadro europeu para a
responsabilidade social das empresas. Bruxelas: CCE, 2001.

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5 – A R.S. NO SECTOR PÚBLICO

Depois de fomentada a discussão no sector privado acerca da R.S. das


Empresas, urge transpor esses valores para o Sector Público. Nesta lógica, também
é pedido ao Sector Público que assuma um papel activo na R.S. incorporando na
sua acção as preocupações e acções identificadas nas empresas, na sua maior
parte, extensível e directamente aplicável aos serviços da Administração Pública.
Reconhecida que está a importância das organizações públicas no estímulo
da coesão e sustentabilidade social, neste momento exige-se mais. É assim,
sugerido às Organizações Públicas a incorporação das preocupações sociais e
ambientais que se apontam para as empresas. Apesar da própria natureza deste
tipo de organizações pressupor esse carácter social é necessário que o Sector
Público Administrativo assuma claramente uma gestão pensada na relação com os
seus trabalhadores, com o meio ambiente e com a sociedade. Neste sentido, os
Organismos Públicos deverão promover a satisfação de todos as partes
interessadas, o seu papel de ente socialmente responsável deverá reflectir-se no
seu programa operacional.
Com esta alteração de perspectiva por parte dos Organismos Públicos
constata-se uma melhoria na relação com os trabalhadores, como igualmente numa
melhoria na relação com a sociedade. O desenvolvimento de práticas socialmente
responsáveis serão bem acolhidas por esta sociedade cada vez mais atenta e que
sabe reconhecer o que de bom se faz no mercado. 11
Tal como se poderá verificar da breve análise dos exemplos apresentados no
final deste estudo, alguns organismos públicos têm vindo a repensar e redefinir as
suas estratégias de aproximação aos cidadãos. Os Serviços e Organismos da
Administração Pública Central, Regional e Local, começam a desempenhar um
importante papel neste contexto e a integrar a R.S. tanto na dimensão interna como
externa. Um caso paradigmático é o das autarquias, pela proximidade da sociedade
civil e pela sua capacidade de intervenção no território.

11
Ainda que não enquadrável directamente na R.S. das Organizações, refira-se a título de exemplo, a
iniciativa privada de atribuição do Prémio de Boas Práticas no Sector Público que vai neste momento
para a sua 12.ª Edição. Mais informação disponível em http://www.boaspraticas.com/index.php.

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A R.S. autárquica tem como fim a adopção de boas práticas e de promoção


de princípios éticos, podendo o seu âmbito de alcance ser muito vasto e ultrapassar
os limites administrativos do seu território. É também importante notar que as
actividades desenvolvidas no âmbito da R.S. não correspondem ao trabalho
realizado pelos gabinetes de acção social, ou similares, que devem ser analisados
de forma autónoma.
Deste modo, pode considerar-se que as acções de R.S. autárquica reflectem
a preocupação com o seu impacte na sociedade e com o desenvolvimento
sustentável nas actividades que realizam, visando uma interacção sã e profícua
entre a autarquia e a sociedade. Estas acções podem ser muito simples e não têm
de estar integradas no plano de actividades ou em determinados projectos da
autarquia _podem materializar-se, por exemplo, em recolhas pontuais de bens para
associações ou no apoio a acções de determinadas acções de solidariedade_
sendo, no entanto, concretizadas pelos seus funcionários e colaboradores.

6 – O PAPEL DAS PARTES INTERESSADAS

Apesar de considerarmos as empresas ou as organizações públicas como as


principais responsáveis pela implementação das práticas socialmente responsáveis,
não será de descurar o papel importante que as partes interessadas poderão
assumir neste compromisso. Isto é, as partes interessadas (colaboradores,
consumidores, investidores, etc.) podem também desempenhar, no seu próprio
interesse ou de outras partes, um papel decisivo ao incentivarem, pelas suas
preferências, escolhas e solicitações, as empresas ou entidades públicas a
adoptarem práticas socialmente responsáveis.

7 – AS NORMAS DE R.S.

7.1 - ISO 26000


A ISO 26000:2010 (ISO26000), publicada em 1 de Novembro de 2010, é a
norma da International Organization for Standardization 12 para a R.S., a qual é

12
ONG internacional surgida em 1946 dedicada à elaboração e difusão, a nível mundial, de padrões
para quase todos os domínios de actividade (excepto engenharia electrotécnica e electrónica) e à

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entendida como um comportamento (conjunto de acções-decisões) passível de ser


tomado voluntariamente por uma organização, no âmbito da sua actividade habitual,
cujo impacte positivo, sobre as partes interessadas (stakeholders), a nível interno ou
externo, ou sobre o meio ambiente natural, exceda as exigências legais aplicáveis.
Para a ISO26000, o objectivo último da R.S. é contribuir para o desenvolvimento
sustentável 13, através da promoção da boa governança organizacional, equidade
social e ecossistemas saudáveis.
Ao contrário de outras normas ISO, a 26000 não concede qualquer
certificação. Na verdade, assume-se como um guia que visa apoiar qualquer
organização (independentemente do seu objecto social, dimensão ou localização)
que queira contribuir para o desenvolvimento sustentável, não se limitando a cumprir
as suas obrigações legais e padrões mínimos regulamentares mas antes
excedendo-os voluntariamente. Simultaneamente, a ISO26000 pretende constituir-
se como uma base de conhecimento comum e como uma ferramenta a ser
complementada por outros instrumentos e iniciativas no domínio da R.S.,
particularmente normas nacionais mais específicas e exigentes. Com efeito, a
aplicação da ISO26000 deve ter em consideração o contexto político, legal, social,
cultural, ambiental, e organizacional de cada situação específica. Por conseguinte,
no processo de desenvolvimento da ISO26000 recomendou-se que cada país a
adaptasse às suas necessidades, elaborando uma norma que reflectisse a sua
realidade, em especial o enquadramento jurídico e regulamentar nacional. Foi neste
contexto que a norma ISO26000, ainda enquanto documento de trabalho, viria a ser
a matriz da norma portuguesa de R.S.: a NP 4469-1.
Quer seja integrada no modelo de gestão de organizações empresariais quer
seja usada na implementação de políticas públicas, a ISO26000 é um guia para a
R.S. que proporciona aconselhamento técnico sobre: conceitos, definições e
terminologia relacionados com R.S.; origem, tendências e características da R.S.;
princípio e práticas relacionadas com R.S.; os temas nucleares e as questões da
R.S.; integração, implementação e promoção de comportamentos socialmente
responsáveis em toda a organização e, através das suas políticas e práticas, em
toda a sua esfera de influência; relacionamento com todas as partes interessadas

certificação de produtos e serviços, tendo em vista a facilitação do comércio e a difusão do


conhecimento, avanços tecnológicos e boas-práticas.
13
Desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das
gerações futuras de satisfazer as suas próprias (Cláusula 3.17 da norma).

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(stakeholders); comunicação e divulgação de compromissos, desempenho e outra


informação relevante relacionada com R.S..
A abordagem da ISO26000 à R.S. envolve a aplicação de sete princípios
fundamentais a sete temas nucleares. Os princípios, que reflectem os valores
associados ao conceito de R.S., são: responsabilização (accountability),
transparência, comportamento ético, respeito pelos interesses de todas as partes
interessadas (stakeholders), respeito pelo primado da lei, respeito pelas normas
internacionais de comportamento e respeito pelos direitos humanos. Os temas
nucleares caracterizam o âmbito de aplicação do conceito de R.S., ou seja, o seu
domínio de intervenção: governança organizacional, práticas laborais, ambiente,
práticas de funcionamento justas, óptica do consumidor, participação e
desenvolvimento sociocomunitário.

Responsabilidade Social: 7 temas nucleares

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION - Discovering ISO 26000 [Em linha].


ISO, 2010.

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7.2 – NP 4469-1
A Norma Portuguesa 4469-1, de 2008, surgiu durante o desenvolvimento da
ISO 26000, com o intuito de dar resposta à necessidade sentida pelos stakeholders
de deter uma forma de regulação que se pudesse aplicar aos sistemas de gestão da
R.S. 14 para a respectiva avaliação e certificação.
Esta norma entende a R.S. “como as acções voluntárias das organizações
tendo em vista a criação e maximização dos seus impactes positivos, bem como a
redução ou eliminação dos seus impactes negativos.” Neste conceito estão
implícitas a noção de ética e a defesa dos interesses da sociedade, não
correspondendo estes aos interesses da organização. Deste modo, a determinação
dos interesses da sociedade implica um diálogo continuado com as partes
interessadas consideradas como relevantes.
O aspecto diferenciador desta norma consiste na determinação dos requisitos
de um sistema de gestão e R.S. que possibilite à organização o desenvolvimento e a
implementação de uma política de objectivos, considerando a visão dos
stakeholders e a informação referente à R.S.. Uma vez estabelecidos estes
requisitos, o sistema de gestão da R.S. pode ser auditado.
O modelo de gestão da R.S. adoptado por esta Norma caracteriza-se pela
existência de dois ciclos interligados: o da gestão estratégica e o da gestão
operacional. O primeiro tem início com a definição dos valores e princípios
orientadores da organização e com a aceitação, da parte da Gestão de Topo, do
sistema de gestão da R.S. e a sua melhoria contínua. O segundo concretiza a
política da R.S. definida pela Gestão de Topo, por via de actividades como o
planeamento e a implementação.
No que toca aos requisitos, a Norma estabelece que se devem definir
princípios gerais, que devem prevalecer sobre quaisquer outros; operacionais, que
orientam a actuação das organizações; e específicos, dos quais são exemplo o
princípio do poluidor-pagador ou o da precaução. É, também, fundamental obter o
compromisso por parte da Gestão de Topo no que respeita à sua vontade de definir,
desenvolver e implementar o sistema de gestão da responsabilidade social.

14
Por sistemas de gestão da R.S. entende-se o “conjunto de elementos interrelacionados e
interactuantes para estabelecer e concretizar a política e objectivos da responsabilidade social”.

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7.3 – SA 8000
À semelhança da NP 4469-1, a norma SA 8000 constitui outra norma de
referência para a R.S. das organizações. É uma norma internacional, que surgiu em
1997, emanada pela Social Accountability International (SAI) e tem como principal
enfoque o desempenho social da organização e os seus colaboradores. A SA 8000
baseia-se num conjunto de convenções da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), na Declaração dos Direitos do Homem das Nações Unidas e na Convenção
das Nações Unidas dos Direitos da Criança.
Esta certificação é suportada no cumprimento de requisitos centrados na R.S.
e num conjunto de condições indispensáveis de Sistemas de Gestão. Esta série de
requisitos visa garantir o respeito pela dignidade humana e o combate aos abusos
laborais, traduzindo-se na proibição do trabalho infantil, do trabalho forçado, de
actos discriminatórios e de práticas disciplinares que envolvam punição corporal,
coerção física e abuso verbal. Em contraponto pretende-se assegurar um ambiente

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de trabalho seguro e saudável, horários de trabalho dentro dos limites legalmente


previstos, remuneração justa e suficiente para as necessidades básicas dos
trabalhadores, e, por último, liberdade de associação e direito à negociação
colectiva.
A obtenção desta certificação passa pela definição por parte da empresa, de
uma política de R.S., planeamento e implementação de políticas correctivas,
controlo de fornecedores, e deverá ter uma redacção escrita das políticas adoptadas
pela mesma no que toca à R.S. e às condições de trabalho. As vantagens da
implementação deste sistema de gestão podem ser traduzidas em: aumento de
produtividade, diminuição da conflituosidade laboral, credibilização da marca,
melhoria da Imagem, diferenciação positiva face à concorrência, diminuição das
taxas de absentismo e aumento do envolvimento dos trabalhadores.
Em suma, este documento _certificação SA 8000_ pretende dar à empresa
que o detém, maior credibilidade junto da sociedade onde se insere, e através de
relatórios de sustentabilidade dar conta dos valores por ela seguidos.

8 – EXEMPLOS DE R.S. NAS ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS

8.1 - R.S. no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, I.P.


O Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS) possui um
programa com grande impacte para a sociedade, o Programa de Responsabilidade
Social, através do qual este instituto procura “ser uma organização convidativa para
trabalhar, estando atenta às necessidades e expectativas dos colaboradores e
contribuindo para melhorar a sua qualidade de vida profissional e pessoal, tal como
em ser uma organização solidária e socialmente responsável, como forma de
retorno à Sociedade”15.
O Programa de R.S. do IGFSS 16 assume contornos da maior importância e é
visto como uma forma de estreitar os laços de pertença entre os seus colaboradores
e de ajudar na sociedade aqueles que mais precisam. Este programa é dinamizado
pelo Comité de R.S., constituído por representantes dos colaboradores do instituto e
por um representante do seu Centro de Cultura e Desporto. Os colaboradores,

15
Disponível em http://www2.seg-social.pt/left.asp?05.09.09.
16
Disponível em http://www2.seg-social.pt/preview_documentos.asp?r=34223&m=PDF.

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individualmente considerados, também podem participar voluntariamente na


implementação das medidas.
Das actividades realizadas ao longo do ano de 2010 note-se a diversidade
das mesmas, bem como dos objectivos a atingir. A título meramente exemplificativo,
refiram-se as actividades de cariz ambiental como a recolha de pilhas e o programa
de reciclagem e as actividades de cariz social como o Banco de Tempo ou a
Campanha de Natal.
Desta forma, e subjacente ao slogan «Abraçar um projecto, ajudar quem
precisa», são evidentes as duas dimensões de R.S. _interna e externa_ sendo que
este tipo de actividades aumenta a satisfação e a união dos colaboradores e
contribui para o bem geral da comunidade.
Finalmente, saliente-se a continuidade deste programa de R.S. para o ano de
2011, dando continuidade a um caminho iniciado em 2006.

8.2 – A dimensão interna da R.S. na Secretaria-Geral do Ministério da


Educação e Ciência
Criar um bom ambiente de trabalho dentro da empresa é uma
responsabilidade da mesma, que se designa por R.S. Interna. Consiste pois, em
proporcionar boas condições e um ambiente de trabalho condigno aos
trabalhadores, gerando maior satisfação, contribuindo deste modo, para uma maior
produtividade, assiduidade, entre outros.
Como se percebe, as medidas a nível da R.S. interna incidem essencialmente
sobre a Gestão dos Recursos Humanos (o que passa pelo apoio à conciliação entre
a vida profissional, familiar e tempos livres, maior equidade em termos de
remuneração e de perspectivas de carreira para as mulheres, incitar à aprendizagem
ao longo da vida, entre outros), saúde e segurança no trabalho e gestão do impacte
ambiental.
Nesta lógica, também é pedido ao Sector Público que assuma um papel
activo na R.S., incorporando na sua acção as preocupações e acções identificadas
nas empresas, na sua maior parte, extensível e directamente aplicável nos serviços
da Administração Pública.
A Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência, (anteriormente
designado por Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) é um caso
pioneiro de redefinição das estratégias de aproximação aos cidadãos por parte dos

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serviços da Administração Pública. A SGMEC recebeu, em 20 de Julho de 2010, a


certificação em R.S. atribuída pela Associação Portuguesa de Certificação (APCER),
sendo a primeira entidade da Administração Pública Central a obter uma certificação
desta índole. É pois, reconhecido à SGMEC o cumprimento de todos os requisitos
necessários à obtenção da citada certificação, designada por norma SA 8000.
Houve por parte deste entidade uma manifesta necessidade no sentido de
promover o respeito pelos direitos e bem-estar dos seus Trabalhadores, bem como,
uma crescente preocupação com as questões do foro ético e social, na tentativa de
minimizar os impactes negativos da sua acção. Para a prossecução deste objectivo
foi também importante a certificação obtida no sistema de gestão da Segurança e
Saúde no Trabalho (OHSAS 18001).

8.3 – A vertente externa da R.S. nas autarquias


Passaremos a expor dois exemplos de R.S. autárquica a nível externo, ou
seja, com impacte para além da organização.
Um exemplo em concreto é o da realização de uma campanha de doação de
medula, levada a cabo pelos colaboradores da autarquia de Mação. Esta iniciativa
intitulou-se como “Doar Medula é Doar Vida” e contou com a inscrição de trinta
funcionários da Câmara Municipal. Estes voluntários foram organizados por grupos,
procedendo-se à recolha no Hospital de Abrantes. Um aspecto importante foi o facto
de a Câmara ceder o tempo e o transporte necessários para que se realizasse a
referida recolha.
Graças a esta iniciativa trinta novas amostras de sangue passaram a integrar
as bases de dados de doadores de medula óssea, uma vez que a disponibilidade e
o tempo constituíam os principais factores que haviam levado os referidos
funcionários a ainda não o terem feito.
Como se pode verificar, esta actividade ultrapassa o âmbito da acção social
dos municípios, tendo outro tipo de objectivos e sendo concretizada por todos os
funcionários interessados. A sua vertente externa está patente no facto de o
benefício ter impacte no exterior da autarquia enquanto organização, não
beneficiando, directamente, os seus colaboradores.
Um outro exemplo de preocupação crescente com a questão da R.S.
encontra-se no município da Amadora. Neste caso, é de destacar, não uma acção

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em si, mas sim a dinamização do Programa de Responsabilidade Organizacional e


Social da Amadora (ProsAma), que tem como objectivo a sensibilização para a
importância da adopção de práticas de R.S. pelo município e as organizações que
nele actuam. Este programa tem como princípios de actuação a participação, a
parceria, a sustentabilidade e a inovação, e destina-se a todos os agentes que
intervêm no concelho.
No que toca a objectivos específicos, esta iniciativa visa o desenvolvimento
de estratégias de intervenção ao nível da R.S. externa, o diagnóstico das práticas de
R.S. externas realizadas pela autarquia, a divulgação das mesmas, e a promoção do
apoio a outras organizações que actuam no município no que toca à realização de
actividades com um cariz de R.S.. O projecto pretende, igualmente, informar e
acompanhar estas mesmas organizações no desenvolvimento e implementação de
projectos de R.S., facilitando-se, deste modo, o estabelecimento de parcerias entre
estas e o Município.
Através deste exemplo verifica-se que alguns municípios tendem a tentar
estruturar as acções de R.S. externa, atribuindo-lhes uma importância cada vez mais
notória.

8.4 – A Vertente Ambiental na Câmara Municipal do Barreiro


O desenvolvimento sustentável pressupõe não só a protecção dos nossos
recursos vitais mas também a preocupação com os das gerações futuras, numa
lógica de solidariedade inter-geracional e de co-responsabilização e solidariedade
entre países. É neste contexto que se afirma a vertente ambiental do nível externo
da R.S..
No contexto da Administração Pública (A.P.) portuguesa, a produção
legislativa no domínio ambiental apresenta basicamente duas perspectivas: a de
orientação estratégica, apoiada na Estratégia Nacional de Desenvolvimento
Sustentável (ENDS 2015) e o respectivo Plano de Implementação (PIENDS) 17; e a
reguladora, relativa quer ao relacionamento da Administração Pública face aos
particulares (p. ex. através do Código dos Contratos Públicos), quer à sua auto-
regulação por via de diversos instrumentos previstos no Regime Jurídico dos
Instrumentos de Gestão Territorial, na Lei de Bases do Ambiente, etc.. No entanto,

17
Resolução de Conselho de Ministros n.º 109/2007, de 20 de Agosto.

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do ponto de vista operacional das organizações públicas, esta legislação não impõe
formas de actuação padronizadas nem metodologias comuns ou iniciativas
concretas no domínio da sustentabilidade ambiental. Por conseguinte, as
certificações ambientais (nomeadamente ISO14000) são facultativas e as iniciativas
em prol de um meio ambiente natural sustentável são frequentemente exemplos de
R.S. na vertente ambiental, como no caso que se segue.
No âmbito da Semana Europeia da Mobilidade, que decorreu entre 16 e 22 de
Setembro de 2011, a Câmara Municipal do Barreiro levou a cabo, pelo terceiro ano
consecutivo, a campanha «ECO-Trocas – Viagens a Troco de Lixo» que se insere
numa política municipal de educação e sensibilização ambiental direccionada para a
gestão integrada de resíduos domésticos e o uso de transportes públicos. Esta
iniciativa desafiou a população a recolher e separar resíduos sólidos urbanos
recicláveis para trocar por bilhetes para os transportes públicos do concelho: TCB
(Transportes Colectivos do Barreiro, CP, Transtejo/Soflusa e TST (Transportes Sul
do Tejo).
A troca consistia na oferta de um bilhete de qualquer dos operadores
aderentes contra a entrega de um dos seguintes conjuntos de resíduos: 10
embalagens de metal; 7 embalagens de cartão para líquidos alimentares; 2 kg de
papel ou cartão; 5 garrafas de plástico de 1,5 L; 10 garrafas de plástico pequenas; 3
garrafões de plástico de 5 L.; 20 sacos de plástico limpos; 4 garrafas de vidro de,
pelo menos, 0,75 L; 6 garrafas de vidro pequenas; 12 pilhas; 10 rolhas de cortiça.
A campanha ECO-Trocas teve lugar, em 17 de Setembro passado, no Eco-
Moínho do Jim, no Barreiro. Neste espaço dedicado à educação e informação de
carácter ambiental, a troca de resíduos por bilhetes foi acompanhada por uma
explanação das sucessivas mais-valias ambientais e económicas geradas em cada
etapa do processo (reciclagem de matérias-primas, ganho de uma viagem, menos
trânsito e poluição) em benefício de todos os actores envolvidos (consumidor-
utilizador, empresas e comunidade).
Este programa insere-se claramente na vertente ambiental da R.S. das
Organizações Públicas na medida em que constitui uma acção voluntária (pois não
há nenhuma lei que a imponha) de uma Câmara Municipal no sentido de promover,
junto da comunidade, comportamentos relevantes para a sustentabilidade ambiental
(a separação de resíduos domésticos para posterior reciclagem e o uso dos
transportes públicos) por intermédio de um incentivo concreto, verdadeiramente

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eficaz e pedagógico 18, que ao revestir a forma de um bem de valor económico


mensurável (o título de transporte) evidencia as relações de interdependência entre
os vários recursos em jogo e ilustra os benefícios que podem resultar para todos os
stakeholders que adoptem uma postura ambientalmente responsável.

9 – Conclusão
A realização do presente trabalho permitiu chegar a um conjunto de
conclusões. A primeira delas corresponde ao facto de o conceito de R.S. não ser
recente e de se ter vindo a desenvolver, nomeadamente, a partir da segunda
metade do séc. XX. Por outro lado, também se conclui que o conceito de R.S. surgiu
e evoluiu no seio do sector privado, tendo transitado para as organizações públicas,
essencialmente, a partir do séc. XXI, quando se desenvolveu um conjunto de
normas com aplicação na esfera pública. Assim, neste trabalho foram analisadas as
normas de referência no domínio de R.S., tanto a nível internacional, como a nível
nacional, verificando-se que existem normas mais gerais e de recomendação, como
o Livro Verde ou a ISO 26000, e normas de que permitem a certificação como a NP
4469-1 e a SA 8000, que são mais específicas. Uma prova de que o conceito de
R.S. se está a enraizar cada vez mais encontra-se, por exemplo, na norma
portuguesa NP 4469-1, uma vez que pretende regular os sistemas de gestão de
R.S., algo que há num passado recente simplesmente não existia.
Por outro lado, com a elaboração deste trabalho foi possível perceber que
existem várias definições de R.S., existindo, no entanto, conceitos e ideias comuns a
todas elas, nomeadamente: visar o desenvolvimento sustentável, ser regida pelo
princípio da ética, exceder voluntariamente as obrigações legais e procurar gerar
impactes positivos nas partes envolvidas e no meio ambiente.
Com a análise de variados casos práticos de aplicação do conceito de R.S.
verificou-se que as iniciativas a este nível se têm vindo a multiplicar nas diversas
organizações do sector público administrativo, tanto na sua vertente interna como
externa. O interesse em produzir impactes positivos por parte das mesmas tem
registado um crescimento notável, facto comprovado pelos diversos programas que

18
Por oposição às acções de sensibilização com recurso a meras campanhas de divulgação nos
media ou a actividades lúdico-educativas, as quais têm uma fraca capacidade de alterar
comportamentos.

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se têm realizado com o intuito de planear e dotar de um sentido estratégico o


domínio das acções de R.S..
Deste modo, conclui-se que a R.S. nas organizações públicas existe, que se
encontra numa fase de crescimento, e que por serem públicas e terem como fim
último a prossecução do interesse público, não se limitam a servir de exemplo mas
inclusivamente promovem a articulação de esforços com as entidades privadas
visando a geração de sinergias no domínio da R.S..

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