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Pres.

Helvécio Martins
Autoridade Geral Mórmon (serviu na década de 90 no Brasil)
O Sacerdócio e os Negros

A questão do racismo sempre foi algo bastante sensível e polêmico na sociedade de uma forma
geral.
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem sido bastante difamada também por
essa questão. Muitos, injustamente, tem acusado a Igreja de ser racista. Muitos têm-se
aproveitado da falta de clareza disso para hipocritamente disseminar inverdades.
A grande acusação que nos fazem é do porque de todos os negros só receberam o sacerdócio
a partir de 1978. Muitas falácias e deduções arbitrárias têm sido escritas a partir de então.
Em primeiro lugar, sempre houve membros da igreja negros antes de 1978.
O fato de negros de origem africana não receberem o sacerdócio antes disso nunca impediu
que outros negros de origem polinésia ou asiática, por exemplo, terem-no recebido.
Muitos têm-nos imputado que defendemos a teoria de que as pessoas que nasceram com a
pele negra foi devido não terem optado no grande conselho dos céus, nem por Cristo, nem por
Lúcifer. Isso também não é verdade. A igreja nunca ensinou isso e muitos foram os profetas
que abertamente repreenderam toda e qualquer insinuação nesse sentido.
Muitos membros da Igreja são negros e ocuparam e ocupam posição de destaque na liderança
desta em todo o mundo. Presidente Helvécio Martins (um negro), inclusive, serviu como
autoridade Geral da Igreja no Brasil, sendo a maior autoridade desta para o Brasil na década de
90'. Alto funcionário da Petrobrás, foi batizado na Igreja e permaneceu por anos aguardando
receber o sacerdócio, de acordo com a presciência e desígnios de Deus.
A Igreja desde seu início, em 1830, sempre defendeu os negros contra as discriminações
presentes na sociedade americana daquela época.
A questão principal, entretanto, sempre foi um preconceito contra a Igreja, ou seja, buscar algo
que possa escandalizar ou menosprezar esta. Para isso, muitos usam de todos os argumentos
possíveis, mesmos que estes não sejam pautados pela ética, coerência e honestidade.
O racismo, como muitos nos acusam, nesse assunto, nada mais é do que a contextualização
do que pode ou não pode de acordo com a vontade absoluta e sábia de Deus.
Somos acusados de racismo porque por muitos anos, os negros, membros da Igreja, não
receberam o sacerdócio. Concluem assim os críticos, que a Igreja é discriminadora e
segregacionista. Entretanto, todas essas falsas acusações estão longe da verdade e da
coerência com o evangelho de Jesus Cristo.
Veja por exemplo, uma situação análoga, como a da escravidão. Pode algo, segundo nossa
concepção humana ser mais degradável que a escravidão com todos os seus horrores e
misérias.
Todos não condenam a escravidão? Isso também não é uma segregação racial: Homens que
se consideram mais que outros?
Pois bem, Jesus, quando esteve entre nós, no meridiano dos tempos não combateu a
escravidão, antes o seu evangelho pregou que os escravos deveriam estar sujeitos aos seus
senhores. O máximo até onde o evangelho foi está na recomendação de que os senhores
tratassem melhores seus escravos e estes não se rebelassem contra seus senhores.
"Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na
sinceridade de vosso coração, como a Cristo". (Efé. 6:5).
"Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e eqüidade, sabendo que também vós
tendes um Senhor no céu". (Col. 4:1)

"Todos os servos que estão debaixo do jugo considerem seus senhores dignos de toda honra,
para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados". (Tim. 6:1).

"Exorta os servos a que sejam submissos a seus senhores em tudo, sendo-lhes agradáveis,
não os contradizendo" (Tito 2:9).

"Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos vossos senhores, não somente aos bons e
moderados, mas também aos maus" (I Ped. 2:18).
Ou seja, a Igreja primitiva, não combateu o que certamente era um segregação racial, muito
mais forte, que apenas a cor da pele.
Portanto é contraditório, levantar uma bandeira em defesa dos negros e relegar a mesma na
situação dos escravos à época de Cristo.
Qualquer um, sem preconceito, com isenção de ânimo, sem partidarismo, vê de forma clara que
a Igreja cristã primitiva não combateu a escravidão em sua época. Isso é um fato, inclusive
comentado por vários estudiosos cristãos-evangélicos.
O máximo que a Igreja primitiva fez foi pedir para os senhores serem brandos com os escravos
e esses servirem sem questionar seus senhores.
Não seria melhor, em nossa "justiça humana" que Jesus ensinasse aos senhores cristãos que
libertassem aos seus escravos. Entretanto isso não foi ensinado...
Continuaram a existir cristãos-senhores e cristãos-escravos.
Pergunto: Isso não é segregacionar?, Não é discriminar? Uns serem senhores com privilégios,
riquezas, poder, fartura, enquanto outros viverem na miséria e pobreza por serem uns senhores
e outros escravos?
Porque Jesus não pregou o fim da escravidão? Porque os críticos, com a mesma ênfase que
dão contra a Igreja, não acusam Jesus de segregacionista ou mesmo de racista, já que os
senhores julgavam-se acima de seus semelhantes, os escravos e isso não foi combatido, ao
contrário, foi aceito e ratificado em seu evangelho?
Os textos da Bíblia, incluisve, que exprimem essa condição serviram por séculos para adornar e
sustentar a discriminação racial que permeou muitas denominações cristãs, dentre elas
católicos e protestantes que usaram esses e outros textos para sustentarem a escravidão.
Muitos críticos que hoje nos acusam, são membros de igrejas que defenderam fortemente a
escravidão tendo como base o evangelho...
O profeta Joseph Smith, ao contrário, sempre foi um defensor dos negros, numa época em que
a escravidão dos negros era algo integrante e comum em toda a sociedade, ele declarou:
- Eu aconselhei (os donos de escravos) para trazerem seus escravos a uma nação livre e
libertá-los, educá-los e dar-lhes direitos iguais".(Compilation on the Negro in Mormonism, p.40)
(1842)
- "Eles (Os negros) vieram ao mundo escravos, mental e fisicamente. Mudem suas situações
com os brancos, e eles serão como eles. Eles têm almas e são sujeitos à salvação. Vá para
Cincinnati ou qualquer cidade, encontre um Negro educado, que dirige em sua carruagem, e
vocês verão um homem que se elevou através de sua própria mente ao seu exaltado estado de
respeitabilidade". (1844)
- "A Declaração de Independência 'sustenta serem estas verdades auto-evidentes: que todos os
homens são criados iguais; que são investidos pelo seu criador com certos direitos inalienáveis,
que entre esses estão a vida, liberdade e busca de felicidade.' Mas, ao mesmo tempo, alguns
dois ou três milhões de pessoas são detidas como escravas nesta vida porque os seus espíritos
são revestidos por uma pele mais escura que a nossa...A Constituição dos Estados Unidos da
América quer dizer exatamente o que diz sem referência à cor ou condição, ad infinitum!"
(Messages of The First Presidency 1:191-2) (1844)
- "Quebrai as correntes do pobre homem Negro e empregai-o no trabalho como qualquer outro
ser humano." (History of the Church 5:209) (1844) [traduções de Marcelo Silva]
Jesus, ainda por outro lado, ainda poderia também receber a mesma acusação por discriminar
os samaritanos. Afinal, Ele disse que veio somente para pregar o evangelho as ovelhas
perdidas da casa de Israel e proibiu aos discípulos de pregarem em Samaria.
"E eis que uma mulher Cananéia, provinda daquelas cercania, clamava, dizendo: Senhor, Filho
de Davi, tem compaixão de mim, que minha filha está horrivelmente endemoninhada. Contudo,
Ele não lhe respondeu palavra. Chegando-se, pois, a ele os seus discípulos, rogavam-lhe,
dizendo: Despede-a, porque vem clamando atrás de nós. Respondeu-lhes ele: Não fui enviado
senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. (Mat 15: 22-24)
Jesus, posteriormente, pela Sua imensa misericórdia, acabou atendendo aquela mulher. Mas, a
posição Dele em não atender, senão aos israelitas, é evidentíssima nessa escritura.
Isto também não se enquadraria em uma discriminação para com os samaritanos. Não foi
preconceito?
Jesus chamar os samaritanos de cachorros, não poderia também ser visto como uma
discriminação ao povo de samaria?
"Ele, porém, respondeu: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos" (Mat.
15:26)
Observe que depois Ele mudou quando enviou seus discípulos pregarem a todos (inclusive
samaritanos), mas até aquela altura, era somente para os israelitas.
Então, se os críticos não usassem de dois pesos e duas medidas para com os mórmons, viriam
de forma clara, lúcida - e sem, isto sim, preconceito - a essência do evangelho de nosso
Salvador Jesus Cristo.
Tudo está, na verdade, contextualizado segundo Deus. Ele sabe os porquês de todas as coisas
e desde que estejamos em comunhão com seu evangelho, com sua santa Igreja e com o
Espírito Santo, compartilharemos dessa mesma verdade.
Aliás, se a questão é a cor da pele, fazendo com que a cor seja o referencial para nos acusar
de racismo, teríamos que considerar que a cor branca também serviu de referencial para
castigo quando o Senhor amaldiçoou Miriã, a irmã de Moisés.
"...e eis que Miriã se tornara leprosa, branca como a neve; e olhou Arão para Miriã e eis que
estava leprosa (Núm. 12:10).
É interessante notar que dessa feita, o Senhor usou a pele branca para servir de maldição. E
até hoje, não vi ninguém defender os brancos, acusando os negros de racismo porque esta
(Miriã) quando amaldiçoada tornou-se branca...
Os desígnios de Deus, sua sabedoria, sua inteligência está acima de todos nós. Não adianta
buscarmos dois pesos e duas medidas para estabelecermos nossos ponto de vistas a fim de
denegrir um povo temente ao Senhor, quando a sabedoria e orientação divinas fazem diferente:
"Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os
meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como o céu é mais alto do que a terra, assim são
os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos
do que os vossos pensamentos" (Is. 55:8-9)
A questão do sacerdócio não ter sido concedido aos negros até 1978 é um assunto doutrinário
e jamais racista ou discriminatório. No próximo artigo sobre o tema, falaremos sobre isso.