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SOBRE MEGA PROJECTOS

MOÇAMBIQUE PODE NEGOCIAR MELHORES


CONDIÇÕES NOS MEGA-PROJECTOS

Moçambique pode usar o interesse estratégico das multinacionais em


instalar os seus mega-projectos no país para negociar melhores
condições contratuais. Este posicionamento foi defendido pelo
economista moçambicano e docente universitário, Carlos Nuno Castel-
Branco, durante o terceiro seminário nacional sobre execução da
política fiscal e aduaneira, realizado em Maputo, de 6 a 7 de Agosto de
2009.

Para Castel-Branco, as multinacionais têm interesse estratégico de


instalar os seus mega-projectos em Moçambique relacionado com
exploração de recursos naturais e localização que facilitam o acesso ao
mercado. Devido a esta situação, a maior parte dos incentivos para
estes empreendimentos são considerados redundantes.

O interlocutor explicou que se não existissem os incentivos, as


multinacionais fariam o investimento no país do mesmo modo, uma
vez que os mesmos não afectam as decisões dos mega-projectos,
representam apenas um custo fiscal.

“O interesse estratégico dos mega-projectos em se localizarem em


Moçambique, por causa dos recursos que exploram ou por causa de
uma estratégia de expansão oligopolista, dá a Moçambique uma
vantagem negocial. Se eles têm interesse estratégico, podemos usar
isso a nosso favor para negociar melhores condições”, defendeu.

“Os mega-projectos beneficiam de incentivos fiscais muito variados e


por muitos factores. No total, cada mega-projecto tem acesso a quase
todo o tipo de incentivos fiscais possíveis. Mas não há evidência de que
precisem de todos esses incentivos para tomarem decisões de
investimento e para sobreviverem e prosperarem. Talvez seja possível
ser-se selectivo nos incentivos”, acrescentou.
Castel-Branco considera que os mega-projectos são sensíveis a renda
sobre os recursos e quase todos são dependentes da exploração dos
recursos não-renováveis.
Para estes, são importantes os recursos e capacidades, infra-
estruturas, qualificações e ligações com mercados externos, e não os
incentivos.

“Os mega-projectos são sensíveis às flutuações do mercado financeiro


internacional, ainda sensíveis aos custos de importação de
equipamento, matérias-primas, energia, materiais intermediários e
capital” adicionou.
Para substanciar a sua tese, Castel-Branco sublinhou que se o Estado
moçambicano não tivesse ajuda externa massiva e continuasse a dar
os actuais incentivos aos mega-projectos, entraria em colapso.

Castel-Branco, que dissertava sobre “o papel dos mega-projectos na


estabilidade da carteira fiscal em Moçambique”, clarificou que o papel
económico dos mega-projectos depende das suas ligações com a
economia, a forma como a economia retém a riqueza gerada e a
distribui.

“Sem ligações estabelecidas, a riqueza gerada pertence aos mega-


projectos e não à economia, as suas exportações pagam as suas
importações e financiam o repatriamento dos lucros”, referiu.

“Os lucros adicionais dessas corporações, também ajudados pelos


incentivos fiscais, são repatriados e pagam impostos no país de origem
ou registo da multinacional. Depois, esses países mandam-nos uma
parte desses impostos em forma de ajuda externa com
condicionalismos políticos”, explicou.

Fonte:AIM: 2009-03-09
MEGA-PROJECTOS CONDUZEM POPULAÇÕES AO
EMPOBRECIMENTO

O economista João Mosca faz um retrato sombrio do futuro das


populações rurais em volta dos grandes empreendimentos Crescem as
questões em torno dos reais benefícios do país nos projectos de
exploração de recursos minerais, sobretudo para as populações locais.
O economista João Mosca faz um retrato sombrio do futuro das
populações rurais em volta dos grandes empreendimentos, concluindo
que as mesmas só vão acumular prejuízos e empobrecer mais com a
implementação destes empreendimentos.
O economista e docente universitário, João Mosca, considera que a
forma como estão a ser desenvolvidos os mega-projectos, em
Moçambique, vão conduzirem as populações locais ao
empobrecimento e não ao empoderamento das suas vidas como se
estima. O académico refere que há marginalização das comunidades
no processo de desenvolvimento das grandes empresas, sobretudo as
ligadas à exploração do carvão, não se prevendo mecanismos de as
adoptar de capacidade para tirar proveito dos rendimentos e dos
serviços que devem ser prestados aos empreendimentos.
Associam-se problemas ligados aos benefícios sociais que devem ser
concedidos a
constrangimentos existentes no processo de reassentamento das
populações – onde regista alguma insatisfação dos nativos nos moldes
que é feito e pela ausência de infra-estrutura básica nos locais em que
são reassentados – passando por fraca capacidade dos projectos em
absorver a mão-de-obra considerável na fase de operação.
“Se este conjunto de factores negativos continuar a acontecer, nada
indica que possamos olhar para o futuro e dizer que a partir dos
grandes projectos estaremos em condições para desenvolver as zonas
em que estão a ser implementados. Estes projectos vão empobrecer o
meio rural e degradar todo um conjunto de recursos naturais, para
além de intensificar a pressão sobre os mesmos recursos. Resumindo,
não vão dinamizar o surgimento de uma classe empresarial pequena e
média, pelo contrário vão atrofiar o desenvolvimento”, acusou Mosca.
O investigador diz que já há efeitos negativos da implementação
destes projectos em
Moatize, província de Tete, dada a inflação que já se regista nos
municípios de Tete e Moatize, culpa da grande procura de produtos e
serviços escassos provocada pelos grandes empreendimentos. Esta
situação vai agravar ainda mais o poder de compra nos locais, que já é
baixo, e penalizar os pobres que residem nestas zonas”, concluiu.

PARADOXO DE ABUNDÂNCIA DE RECURSOS MINERAIS

João Mosca alerta que com a continuação das irregularidades na


implementação dos
grandes projectos, o país caminha em direcção ao famoso paradoxo de
abundância de recursos minerais, que consiste na existência de
companhias que enriquecem, explorando grandes reservas de
minérios, mas que à sua volta permanecem comunidades pobres e que
não beneficiam da riqueza criada por recursos que ocorrem nas suas
zonas de origem.
O antigo governador do Banco de Moçambique, Sérgio Viera,
também questiona os modos que serão usados para que as
multinacionais deixem, no país, parte da riqueza que exploram. “Quem
é que controla o que estes grande projectos estão a fazer”, perguntou
o veterano de luta de libertação nacional, intrigado com a falta de
envolvimento de técnicos moçambicanos na implementação destas
iniciativas pelo facto de não se ter feito um plano de aproveitamento
das oportunidades.
Ler mais na edição impressa do «Jornal O País»
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NOVELA DOS MEGA PROJECTOS

GOVERNO REITERA O SEU NÃO À RENEGOCIAÇÃO DOS


CONTRATOS

Por Emídio Beúla

O que há mais de cinco anos era assunto de académicos


enclausurados na universidade e/ou ligados 1 instituições de pesquisa
científica, hoje tomou-se num apaixonante debate que arrasta
políticos, governantes e instituições financeiras internacionais: a
questão da renegociação dos contractos com os mega projectos. A
recente aparição pública do governador do Banco de Moçambique a
reivindicar a necessidade efe se aumentar a tributação dos mega
projectos para o bem da economia nacional parecia ensaiar um novo
posicionamento do executivo. Debalde. Em declarações SAVANA, O
Ministro da Planificação e Desenvolvimento afastou qualquer
possibilidade de renegociação dos contratos firmados pelo Governo e
os mega projectos em sede da anterior legislação que tornava
Moçambique num apetecível paraíso fiscal para o grande capital
estrangeiro.
O quadro legal que regula as contribuições fiscais das empresas dos
sectores mineiro e petrolífero foi revisto e actualizado em 2007 tendo
se eliminado um conjunto de benefícios fiscais. Trata-se das leis 12 e
13/2007, respectivamente a lei de minas e a de petróleos.
Volvidos dois anos, o executivo procedeu à actualização do Código dos
Benefícios Fiscais (lei 4/2009) com o mesmo objectivo de diminuir as
facilidades fiscais previstas para as multinacionais com projectos de
exploração de recursos minerais e petrolíferos no país.

Porém, grande parte dos contratos em vigor foram assinados antes de


2007, isto é, à luz da anterior legislação. São disso exemplos os
contratos assinados com a Mozal, a Sasol, a Kenmare e a Vale
Moçambique, multinacionais que gozam de largas concessões fiscais. É
sobre este grupo de firmas que incidem as críticas de académicos e
alguns políticos no sentido de aumentarem a sua contribuição para o
tesouro.

Dados divulgados pelo Governo em 2010 indicam que os mega


projectos licenciados em Moçambique já mobilizaram para o país cerca
de 9,82 biliões de dólares norte-americanos (USD). Maior parte desse
montante provê de investimentos e das exportações realizadas até
finais de ano passado. Devido á desarticulação da base produtiva
nacional aliada à incapacidade de substituir importações de bens de
consumo e extremas facilidades capita estrangeiro de grande escala, a
economia moçambicana não consegue reter essa riqueza que ela
mesma gera.

DO CONTEXTO AO MEDO DE NERVOSISMOS

A explicação oficial para a concessão de benefícios fiscais é o contexto


de pós-conflito
armado em que Moçambique se encontrava, o que tornava necessário
anexar ao país uma imagem de "bom destino de grandes
investimentos internacionais”.
- 0 que temos vindo a dizer é que a Mozal, por exemplo, entrou num
contexto

completamente diferente das outras empresas e encontrou uma lei


também diferente da actual", disse ao SAVANA Aiuba Cuereneia,
ministro da Planificação e Desenvolvimento.
A actual legislação sobre recursos minerais e petrolíferos deixa tão
descansado o ministro Cuereneia que nem pensa em renegociar os
contractos decididos em sede da anterior legislação.
O Governo não pode a todo o momento estar a fazer a revisão da
legislação dos contratos que tem com as empresas, porque isso pode
criar outros problemas de nervosismo e stress em relação aos outros
investidores', explicou os receios.
Acrescentou ainda que "a nova lei prevê entradas mais substanciais de
impostos destas empresas para o tesouro do Estado".

A mineradora australiana Riversdale é o exemplo recorrente de Aiuba


Cuereneia de multinacionais que entraram no mercado nacional depois
da revisão do quadro legal do sector.
Esta multinacional não beneficia das mesmas facilidades fiscais
aplicadas às outras cujos contratos são anteriores a 2007. A actual lei
è sustentável, pois traz benefícios ao país e julgamos que ela também
beneficia os moçambicanos”, disse.

RENEGOCIAÇÕES NAS RENOVAÇÕES E/OU EXPANSÃO

Havendo situações em que nós achamos que estamos numa posição


de injustiça tem de se negociar. Mas são negociações e não podemos
obrigar nada. Nós somos um Estado sério e se fizéssemos o contrário
ninguém mais acreditava em nós”, respondia Manuel Chang, Ministro
das Finanças, em entrevista ao SAVANA em 2010 (edição de 21 de
Maio).
Depois de explicar que o Governo reviu a legislação sobre os petróleos
e minas por ter concluído que tinha chegado o momento de reduzir os
benéficos fiscais para os mega projectos. Chang deixou claro que não
era de interesse do executivo revisitar os contratos assinados antes da
actualização da legislação.
'Quanto aos mega projectos que apanharam mais benefícios, de facto
sé podemos negociar ou rever as condições quando há renovações ou
quando há expansões. Havendo uma expansão das actividades, aí
temos que rever as condições porque, já alterou a legislação. É isso
que está estabelecido"; explicou.
O ministro das Finanças disse ainda que não eram todos os mega
projectos que estavam "numa situação de não apoio (ao orçamento)”.
Citou o caso da HCB, como exemplo de megaprojecto com enorme
contribuição. 'Ela tem 10% de taxa de concessão sobre o volume de
vendas brutos, e depois paga todos os outros impostos”.
“Não podemos continuar toda a vida a repetir as coisas por causa de
uma situação que, em termos políticos, já passou”, disse a fechar o
debate.

QUE DIZEM OS ACADÉMICOS

Em longa entrevista a este semanário (edições de 3 e 10 de Setembro


de 2010), o economista e docente universitário Dipac Jaintilal explicava
que os acordos foram assinados num contexto muito particular do País
em que no pós-guerra era necessário atrair investimentos de vulto.
Contudo, defende que seria 'moralizante' que em função dos
problemáticos défices orçamentais e dos efeitos da crise internacional,
que o Governo tomasse a iniciativa de encetar um diálogo com alguns
dos mega-projectos como a Mozal, Sasol, Kenmare e a Vale
Moçambique com o fim de se acordar uma maior contribuição desses
nas receitas públicas. "Até porque a estabilidade social e económica do
país é do interesse directo destas empresas”, acrescentou, indicando
que isso se faz em todo o mundo, como aconteceu há pouco na
América Latina nos acordos sobre o gás que é exportado para o Brasil.

Carlos Nuno Castel-Branco, outro economista e docente universitáro


explicava a posição do Governo em não renegociar os contratos com
os mega projectos do ponto de vista de compreensão política do
processo de acumulação de capital. Primeiro porque “os governantes,
eles próprios, estavam envolvidos como accionistas nestas empresas".

Segundo porque “no nosso Governo, infelizmente, e ao nível mais alto,


há enorme

incompetência que gera medo de tomar decisões. Alguns destes


(governantes) mesmo honestamente, pensam que não è possível fazer
estas coisas E aqueles que sabem que é possível não querem".
Na entrevista ao SAVANA (edição de 8 de Outubro de 2010), o
economista fez referência da existência de cláusulas que prevêem a
renegociação dos contratos e "que levantam encargos para o Estado
se os contratos forem modificados em prejuízo da empresa".
Castel-Branco defendia ainda a criação de uma base técnica e política
que permitisse a modificação dos contratos. Para ele, Moçambique não
seria o primeiro caso. Citou como exemplos a Libéria, Zâmbia, Gana e
Costa de Marfim, países onde houve um
reconhecimento oficial de que os contratos com multinacionais eram
altamente negativos para as economias nacionais.
"Será que a Mozal, a Sasol, a Kenmare e o Vale, vão prosperar num
ambiente de instabilidade, de descontentamento de greves, de
manifestações?”, questionou, para
depois acrescentar elas devem contribuir para a estabilidade política e
económica do país, assumindo responsabilidade fiscal.

SAVANA – 18.02.2011
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CHANG DESCARTA SUBIDA DE IMPOSTOS -


DEPENDÊNCIA EXTERNA VS MEGAPROJECTOS

DEPENDÊNCIA EXTERNA VS MEGAPROJECTOS

A recente “crise” com o G19 ressuscitou o velho debate da


necessidade dos megaprojectos contribuírem mais para a redução da
dependência externa. O Governo vai revisitar os contratos com os
megaprojectos?
O que os parceiros e as instituições financeiras estão a dizer, por
vezes, são ideias nossas.
Como Governo nós já tínhamos visto que tinha chegado o momento de
reduzir os
benefícios fiscais para megaprojectos. Tanto é que já alteramos a
legislação referente à parte fiscal da lei sobre os petróleos e sobre as
minas, retirando maior parte daquilo que eram benefícios fiscais que
constavam da legislação anterior. Agora, há projectos que tinham sido
autorizados antes da revisão e aí há compromissos.
HAVERÁ NEGOCIAÇÕES…
Havendo situações em que nós achamos que estamos numa posição
de injustiça tem de se negociar. Mas são negociações e não podemos
obrigar nada. Nós somos um Estado sério e se fizéssemos o contrário
ninguém mais acreditava em nós. Mas o que está acordado é que a
legislação já mudou. Vou lhe dar um exemplo: em relação às duas
empresas de exploração de carvão (Vale e Riversdale), uma chegou
antes da alteração da legislação e foi licenciada com uma legislação e
a outra chegou depois da alteração e foi licenciada com a nova
legislação. Significa que uma apanhou mais benefícios do que a outra.
Agora aqueles que apanharam mais benefícios, de facto só podemos
negociar ou rever as condições quando há renovações ou quando há
expansões. Havendo uma expansão das actividades, aí temos que
rever as condições porque já alterou a legislação. É isso que está
estabelecido.

EM TERMOS DE RECEITAS, QUAL É A CONTRIBUIÇÃO


DOS MEGA-PROJECTOS PARA O PIB?
Depende de megaprojectos. Há megaprojectos que de facto têm mais
benefício do que a contribuição em impostos – que é indirecta. Como é
o caso da Mozal e Sasol. Mas há megaprojectos, como é o caso da
HCB, que a sua contribuição é enorme. Ela tem 10% de taxa de
concessão sobre o volume de vendas brutos. E depois paga todos os
outros impostos. Não são todos os megaprojectos que estão numa
situação de não apoio. E mesmos esses dois a que eu me referi no
princípio, já dissemos que tinham a função de alavancar a economia.
Você está numa situação em que não tens condições, para poderes
virar a situação tens que aceitar algumas situações anormais. Foi o
que aconteceu. Se nós quisermos ver uma Mozal, não vamos ver só a
Mozal. Temos que ver também quanto é que contribuem a Matola Gás
Company e outras empresas que estão a volta da Mozal e que
surgiram por sua causa. O mais importante é que são dois ou três
megaprojectos que estão nessa situação (benefícios fiscais). E não
podemos continuar toda a vida a repetir as coisas por causa de uma
situação que, em termos de decisão política, já passou.

Em suma, os mega projectos trazem benefícios mas as falhas do


governo no processo da política fiscal origina o que chamamos de
falhas do governo e ao tentar regular o mercado acaba em certo
momento distorcendo o mesmo, as exterioridades são um mínimo
exemplo disto.